Mostrar mensagens com a etiqueta corrupção. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta corrupção. Mostrar todas as mensagens

sábado, junho 13, 2026

Ora bem, falemos então do canal de denúncias

 

Ok, ok, eu falo. Mas já lá vou. 

Antes, retomo o tema da Prestação Social Única e de toda a celeuma que a rodeia. Eu poderia ir tentar descobrir com que linhas a ministra Palma Ramalho coseu a dita prestação, como a chuleou, como cerziu e acolchoou e, no fim, engomou a dita prestação. Poderia, sim, mas não me apetece. Aquilo ainda vai ser discutido, há de ser alinhavado de novo, e muita água há de passar sob as pontes. Li, mas admito que sejam as vizinhas do costume, que a Palma Ramalho, sister de Madame Rebelo Pinto, quer pôr as pessoas com cancro a trabalhar. Não acredito. Nem acredito que queira pôr os desvalidos e desgraçados a tirar o trabalho aos outros. Não morro de amores pela ministra mas não a considero burra nem parva nem estúpida de todo e, por isso, mais depressa acredito que seja fofoca de vizinhas assanhadas.

Como disse, concordo a mil por cento que se faça de tudo para acabar com algumas coisas como, por exemplo:

  • a baixa produtividade
  • o baixo nível de escolaridade de parte do tecido económico
  • a subsídio-dependência 
  • a avença-dependência 
  • o parasitismo 
  • a economia paralela. 

Tudo junto torna a economia portuguesa uma coisa a tender para o poucachinho, e os portugueses, alguns deles deles, a portarem-se como chico-espertos, invejosos, mesquinhos.

Recordo: 

a) A nível da produtividade portuguesa

Olhando para os dados oficiais mais recentes partilhados pela Pordata e pelo Eurostat, Portugal encontra-se na 19.ª posição do ranking de produtividade do trabalho entre os 27 Estados-membros da União Europeia. O fosso para a média: O valor gerado por um trabalhador em Portugal (cerca de 48 mil euros) equivale a apenas 65% da média da União Europeia.

É importante notar que este ranking não significa que os portugueses "trabalham pouco". Pelo contrário, Portugal tem das semanas de trabalho mais longas da Europa. O problema é o valor gerado nessas horas devido à falta de modernização tecnológica das empresas e à forte presença de setores económicos assentes em mão de obra barata (como a hotelaria e o comércio tradicional).

b) A nível da economia paralela

Portugal apresenta níveis de economia paralela superiores à média da Europa Ocidental e das economias avançadas, integrando o bloco do Sul e de Leste europeu onde a informalidade é mais expressiva.

Estudos de economistas associados ao FMI e ao Center for Economic and Policy Research (CEPR) colocam a média histórica e atual de Portugal na casa dos 17% a 24% do PIB, servindo habitualmente de barómetro para as comparações internacionais rígidas.

Conjungando estes dois aspectos, parece-me óbvio que há medidas que têm que ser postas em prática ao mesmo tempo:

  • é preciso puxar a força de trabalho para trabalhos de maior valor acrescentado 
  • e é indispensável criar mecanismos de combate à economia paralela.

Tem que haver uma aculturação, muito levada a sério, de que trabalhar é dignificante e contribuir com impostos e contribuições sociais faz parte da dignidade do ser um cidadão de pleno direito.

Tem que ser rejeitado pela sociedade, mas rejeitado a uma só voz, com veemência, que haja trabalho informal, dinheiro recebido debaixo da mesa, muito menos que haja quem esteja a receber subsídios e, para não os perder, trabalhe recebendo 'por fora'. E isso é um crime duplo e não pode passar incólume.

Contudo.

Calma aí.

Vamos lá a pôr as coisas em perspectiva.

Claro que estou a falar naquilo tudo e a pensar que, face ao momento de charneira sociológica e tecnológica que atravessamos, não tarda vai haver muito mais desemprego, e, provavelmente, desemprego entre as camadas até agora consideradas de grande valor acrescentado. E isto é um outro filme. Um filme que até hoje nunca vimos.

Ainda hoje vi uma entrevista com Dario Amodei a alertar para os riscos potencialmente hecatômbicos relacionados com a adopção maciça da IA. Não são apenas os riscos existenciais (caso haja governos e empresas que avancem sem avaliar os riscos, passando por cima de todas as linhas vermelhas, e tenhamos armamento autónomo, independente da vontade humana) mas também os riscos de desemprego numa dimensão astronómica. Diz o Elon Musk: tem que se pagar subsídios a toda a essa mole humana. Mas, como também ouvi dizer, e concordo, quando não se tem trabalho, acaba-se a trabalhar para o diabo. 

Como se ocuparão todos esses bons profissionais que, de um momento para o outro, se veem sem trabalho? E de onde vai vir o dinheiro para tantos subsídios. Aí já ninguém vai falar de ciganos ou de chico-espertos pois muito provavelmente estaremos a falar de programadores, técnicos de IT em geral, engenheiros, arquitectos, advogados. E esta é a grande discussão. A grande discussão que deveria estar a acontecer.

Mas a malta tende a não querer encarar os grandes problemas -- ou porque são tão grandes que a sua mente não os consegue abarcar, ou porque têm medo e preferem fazer de conta que não os veem. Portanto, estando um pedregulho gigante a vir na direcção da malta, em vez de se arranjar uma estratégia para não ficarmos todos esmagados, a malta olha para os pés e queixa-se que tem areia da praia entre os dedos.

Portanto, vão desculpar-me por não responder a todos os comentários ou nem vou documentar-me sobre a proposta de lei da PSU, nem me alongo mais sobre isto: não quero contribuir para ocupar o espaço público com um tema que me parece normal (fundir vários subsídios e ter regras claras para a sua atribuição bem como mecanismos de controlo na sua aplicação, parece-me, em abstracto, um bom propósito). Bem podem vir para aqui falar na Folha Não-Sei-das-Quantas ou da Não-se-Quantas-Liberal ou de ciganos ou cheganos ou do que quiserem, ou bem podem todos os canais ter comentadores para todos os gostos a falar entusiasticamente do assunto -- não vou dar muito mais para esse peditório.

Mas não me vou sem abordar o tema do canal Denúncia que dá nome a este post. O nome dá coceira, bem sei. Ouve-se e pensa-se logo em bufaria. Mas vejamos o assunto por outra perspectiva: se as pessoas sabem que está a passar-se qualquer coisa de condenável ou repulsivo devem calar-se? Tornar-se cúmplices?

Nas empresas há o canal de denúncia e é muito relevante. É por essa via que as pessoas denunciam casos de assédio sexual ou moral, casos de corrupção, casos de deslealdade profissional, etc. Quando trabalhava, vários casos chegaram até mim. Claro que, em primeiro lugar, os casos eram 'despistados' por uma comissão que fazia uma pré-análise. Geralmente as denúncias são anónimas pois as pessoas têm receio de retaliações e é natural que as tentemos proteger. Muitas vezes, quem faz uma denúncia não é um bufo nojento mas, sim, uma pessoa corajosa. Mas, porque a maior parte das denúncias são anónimas, a primeira investigação para aferir se há ali matéria de facto ou se é obra de colega vingativo pode ser complicada. Geralmente, só depois de já haver um 'caso' devidamente estruturado é que as coisas chegavam até mim e até outro colega que comigo analisava as denúncias. Na sequência de denúncias dessas, por exemplo, uma directora foi despedida com justa causa na sequência de uma denúncia. Um responsável de serviço mudou de funções na sequência de uma denúncia em que a suspeita era grande mas em que não se conseguiu provas suficientes para despedimento. Outros casos traduziram-se em admoestação e aviso por escrito. Outras denúncias ficaram pelo caminho: nada de concreto se conseguiu apurar e mais parecia coisa de ajuste de contas. Pessoas experientes sabem 'pegar' nos assuntos de forma a não alimentar denúncias ocas e, pelo contrário, para aplicar justiça em casos muitas vezes falados à boca pequena e sobre os quais nada se fazia.

Extrapolando para o tema em apreço, que haja um canal nacional para que se possam denunciar situações abusivas de gente que anda a gozar com o pagode, recebendo dinheiro de subsídios quando não precisa deles e quando, ainda por cima, trabalha 'clandestinamente', sem pagar pingo de impostos ou de contribuições, parece-me normal. E confio que haja gente com moral sólida para analisar o que lá for chegando (ie, nada daqueles capangas que movem inquéritos retaliatórios contra juízes que não lhes agradam e que estão feitos com a imprensa sensacionalista). 

Contudo, volto a dizer, face à real dimensão dos problemas da economia portuguesa:

  • a baixa produtividade + a impensável dimensão da economia paralela + (já para não falar da desgraçada demografia invertida)
  • e à ainda maior dimensão da gigante ameaça (ou desafio, conforme se queira ver o assunto) que já começa a desenhar-se, da Inteligência Artificial.

 tudo isso não passa de amendoins. Peanuts, para os intelectuais.

terça-feira, maio 19, 2026

Depois das especialistas em Human Design, das Psicoterapeutas Somáticas, das Criadoras de Conteúdos Digitais, das Mentoras, das Coaches e das empresários da treta, eis que hoje aprendi que também há as Terapeutas Sentimentais, ao que parece, uma evolução da carreira de Esteticista.
-- E escrevi no feminino porque calhou, mas também os deve haver no masculino --

 

Nem de propósito: hoje, quando ligámos a televisão, um pouco antes das 20h, estava a dar uma síntese ou um anúncio, não percebi, do programa Casados à Primeira Vista. E, aí, assisti a outro momento extraordinário: uma senhora de sessenta e picos anunciava-se como Terapeuta Sentimental, explicando que durante cerca de trinta anos tinha sido esteticista. Dava a ideia que a carreira de esteticista tinha sido a base formativa para passar para o degrau acima: exercer terapia sentimental. Mais à frente, mostrava-se com anéis enormes, pavorosos, e enaltecia os benefícios daquela pedraria de pechisbeque na afirmação pessoal.

E eu fiquei a pensar: mas que género de pessoas paga a uma tal 'profissional'? E o que é que ela vende? Conselhos? Anéis? 

Passou de esteticista para terapeuta sentimental. E, portanto, concluo eu, isto parece que agora as profissões já não têm que ser homologadas. Nem obedecem a nada. Cada um inventa a profissão que lhe apetece. Aqui não há ASAE que consiga verificar se estão a ser cumpridos requisitos, respeitados valores profissionais, se não está a ser vendido gato por lebre. Nada. Tudo à margem de tudo, imagino.

O que eu gostaria de saber é, a nível de Finanças, como é? Quando recebem dinheiro dos clientes é na base do toma lá, dá cá e... impostos viste-os? E a AT deixa que as pessoas vivam com mais do que o que oficialmente recebem, e não tem mecanismos para ir atrás?

Claro que isto é arraia-miúda. Dir-se-á que não é por aí. Pois. Mas multiplique-se pelos vários milhares de pessoas que exercem estas novas profissões e talvez já tenha expressão. Mas vale para esta como para todas as influencers e toda a matilha que por aí anda a ganhar dinheiro de qualquer maneira, sem acrescentar qualquer valor ao País -- e, às tantas, ainda criticam o estado das coisas quando não devem pagar 1 euro de impostos. Parasitam a sociedade. 

NB: Note-se que estou a falar em abstracto pois não conheço a dita senhora de lado nenhum, não é, nem poderia ser, dela, em concreto, que estou a falar. Se a dita concorrente daquele programa for uma zelosa cumpridora de todas as regras, mandamentos e preceitos, maravilha. Mas eu não estou a falar dela, estou a falar em geral, em abstracto.

Outro exemplo. Não há muito tempo, ao falarem-me de uma pessoa, disseram-me que tinha uma empresa. O meu sexto sentido farejou coisa. Para me provarem que eu não tinha razão, disseram-me qual a empresa. Fui verificar. De facto a empresa existe, de facto essa pessoa é sócia, creio que sócia única. Objecto social: registo de patentes. Aí o meu faro apurou-se ainda mais. Melhor: eriçou-se. Registo de patentes?! Sei bem o que é a actividade de registo de patentes, sei o que exige. Afirmei categoricamente que a história estava mal contada. Era impossível aquela pessoa ter uma empresa de registo de patentes. Algum tempo depois, mostraram-me algumas facturas emitidas por essa empresa. Numa facturava 'x dias' a um certo valor unitário, sem especificar dias de quê. E numa outra facturava 'x items' a um outro valor unitário, também sem especificar quais os items. Valores baixos. E, obviamente, nada de nada de nada de nada a ver com patentes. Ou seja, quem tinha emitido aquelas facturas não fazia a mais pálida ideia do que são patentes. Como a internet tem destas coisas, googlei o nome da pessoa. E, claro, certinho, direitino, fui parar à sua página de instagram. Na sua inocência (ou estupidez), a pessoa tinha vídeos a promover os seus produtos, chegava a mostrar-se em casa a abrir uma caixa de cartão e a retirar os produtos: cintas. Cintas a granel. Cintas para afunilar a cintura, ocultar a barriga, salientar o rabo. O que ela vendia eram cintas. Nesses vídeos, dizia às pessoas para lhe encomendarem antes que esgotassem. Percebi que as vendas se faziam por ali. Provavelmente, as pessoas mandam mensagem a dizer que querem, ela deve dizer o MB Way, as clientes devem dizer a morada para envio, e está feito. Imagino eu. Devia fazer uma meia dúzia de facturas por ano para fazer de conta e o resto sabe-se lá como. E volto a dizer: imagino. Não sou inspectora das Finanças, não me compete andar atrás. Por isso, certo, certo, comprovado, não posso afirmar. O que sei é que, nas Finanças, está registada como uma empresa de venda de patentes. Profissão: empresária.

Fico perplexa, banzada, quase em estupor catatónico com o desplante desta gente. Meio mundo a inventar, a passar ao lado, a vender embustes e tretas. E para tudo há clientela. Seja a estupidez encartada do human design, seja os psicoterapeutas somáticos, os terapeutas sentimentais, os mentores de lifestyle, os criadores de conteúdos digitais, seja toda essa chusma de empresários que criam uma empresazeca de vão de escada e que não devem ser sujeitas a qualquer controlo -- para tudo há clientes. Para tudo. Ou seja, se estas pessoas, estas embusteiras, ao todo, serão da ordem dos milhares e se, cada uma, tiver umas centenas de clientes, já estamos a falar de centenas de milhares de obtusos que consomem e pagam por toda a espécie de porcarias -- ou seja, teremos a ideia da dimensão da mancha humana que é a nódoa de gente que consome todas estas patranhas.

Se calhar, verbas não da ordem dos biliões. é que, para além desta arraia-miúda há depois os tubarões. Bem sei. Concordo. Mas, seja muito ou pouco, é dinheiro que outros estão a pagar a mais para cobrir o que os que deveriam pagar não pagam. E é o princípio. E é a seriedade do sistema que é posta em causa. É aquela corrupção miúda, corrupção moral. E aquele sentimento aflitivo de que há os tais 25% da população que integram ignorantes, gente mal formada, obtusos, invejosos, crápulas, estúpidos, gente que, ainda por cima, geralmente entrega o seu voto a partidos que são se alinham com a democracia, com a verdade, ou com o bom desenvolvimento do país.

Não admira, pois, que, em Portugal, também 25% da economia seja paralela. Ah pois é, bebé.

quinta-feira, abril 16, 2026

A corrupção miúda


Tenho para mim que a corrupção miúda é uma das gangrena invisíveis que corrói a nossa sociedade. 

Há uns anos, eu e uns amigos alinhámos numa deriva que, inevitavelmente, não correu bem. Metemos na cabeça criar uma empresa a sério. E não era daquelas empresas de consultorias, assessorias ou cenas mais ou menos imateriais que as pessoas nas nossas circunstâncias criariam. Não, era uma empresa que passava por criar e vender produtos, com um estabelecimento, empregados, etc. Claro que estando todos os sócios, menos um, a trabalhar a tempo inteiro, e eu e dois outros com trabalhos super absorventes, não tínhamos tempo para uma aventura daquelas.

De qualquer forma, quando tivemos essa ideia peregrina, imaginávamos que conseguiríamos compatibilizar tudo. Éramos jovens, cheios de boas ideias, de certa forma inocentes.

Para começar, tivemos que adquirir um edifício e adaptá-lo. Entregámos o assunto a uma empresa que se encarregou de tratar de tudo: projecto, licenciamento, alvarás, etc. Para além do dinheiro para isto e para aquilo, pediram dinheiro para algumas pessoas chave na Câmara. Foi o primeiro banho de realidade. Éramos puros. Jamais nos passaria pela cabeça uma coisa daquelas. 'Subornar'? Nem pensar. 'Luvas'?. Jamais. 'Dinheiro por debaixo da mesa'? Não, nem pensar. As pessoas que, na dita empresa, estavam a tratar do assunto espantavam-se com as nossas reacções. 'É assim que as coisas funcionam. Se não querem esperar não sei quanto tempo e andar com papéis para a frente e para trás, é assim.'. Uma luta. Uma triste descoberta do que era o país invisível. Não me lembro do que resolvemos. A minha memória, felizmente, é selectiva. 

Ao fim de algum tempo de a empresa funcionar, não sei quanto tempo, dois, três anos, talvez, resolvemos pôr fim a essa aventura. O mundo real das pequenas empresas, em especial, em início de processo, o mundo em que toda a gente parecia querer passar ao largo do fisco, o mundo em que a sobrevivência é quase sinónimo de fechar os olhos à ética, não era o nosso. 

Lembrei-me disso, embora nada tivesse a ver, ao ver a reportagem da SIC sobre a médica que recebia dinheiro por fora para que as suas clientes conseguissem reformas antecipadas, sem que, legalmente, tivessem direito a isso. Não consegui ver tudo, mudei de canal. Sinto-me muito revoltada quando assisto a coisas assim. Existirem coisas deste género, de gente que foge às regras, que acha que consegue subverter os esquemas sem temer as consequências, revela bem a forma endémica como a corrupção se infiltra de forma transversal na sociedade. A médica a receber mil euros por cada processo, mil euros por fora, os trabalhadores que, não tendo problemas que os impeçam de trabalhar, a pagarem para que emitam atestados falsos e consigam reformar-se antes de tempo -- uma coisa manhosa, uma corrupçãozinha rasteira. Coisa miúda, gente se calhar até humilde, várias pessoas a usurparem dinheiro indevido da Segurança Social, a delapidarem erário público E quantos mais casos destes haverá?

De cada vez que sei destas situações penso que a Justiça deveria ser bem mais ágil e ter mão mais pesada. Por exemplo, a médica corrupta deveria ser obrigada a devolver à Segurança Social todos os muitos mil euros que recebeu mais todo o valor das pensões de reforma indevidas que ajudou a conseguir. E as pessoas que a ela recorreram deveriam igualmente ser obrigadas a devolver toda a pensão que receberam indevidamente mais os mil euros que deram à médica. E, em cima de cada um destes totais, mais uma multa pesada. Não creio que devam ir para a cadeia pois estaríamos a sustentá-los e não vejo benefício para nenhum destes intervenientes numa pena que envolva detenção. Mas teriam que devolver tudo e, em cima disso, uma multa. E deveriam voltar ao activo, a terem que voltar a arranjar trabalho. E, ao mesmo tempo, deveriam ter que cumprir trabalho comunitário a sério, em especial trabalho que obrigue a exposição, para se sentirem envergonhados.

Ouvi também as notícias sobre o endurecimento da vigilância rodoviária, mais brigadas na estrada, mais radares, consequências mais a doer. Concordo. Não podemos ser os maiores infractores da Europa, ter tanta gente acidentada, tantas vítimas, tanto prejuízo a todos os níveis. 

Mas, ao mesmo tempo, pensei no sentimento de impunidade de tanta e tanta gente que por aí anda, quer nas pequenas localidades em que o máximo é 50 km e tanta gente passa a abrir ou nas autoestradas em que tanta gente passa nas horas, ou tanta gente ao telemóvel, ou tanta gente alcoolozidada ao volante.

E pensei também quando eu, nas idas e vindas para as reuniões no Norte, ia incomodada com a velocidade a que íamos, eu no lugar do morto e um acelera ao volante. Odiava. Tinha medo. Geralmente, a menos que não tivesse alternativa, em vez de ir a conduzir, colava-me para ir de boleia. Uma vez manifestei-me, disse que não gostava nada de ir a 180. O condutor riu-se: 'Mas já a vi a andar a mais de 200 e não protestar'. Neguei, nunca tinha andado a 200. Disse-me que tinha, sim, que na semana anterior, com um outro condutor, este que agora falava no banco de trás, tínhamos ido a mais de 200. Provavelmente, com a conversa eu nem tinha dado por isso. Mas, quando pensava nisso, protestava veementemente pois bastava que rebentasse um pneu, ou uma distracção, ou uma coisa qualquer na autoestrada, e íamos todos desta para melhor. Eles riam.

Alguns desses eram recorrentemente multados. Claro. E, no entanto, havia sempre alguém que 'tratava' do assunto. Falo agora nisto pois já foi há muito tempo, já prescreveu. 

Mas pergunto-me: em quantos locais em que se analisam os processos de infracções não haverá, ainda hoje, esquemas? Se há matéria em que a inteligência artificial pode dar uma ajuda é na identificação de multas emitidas, multas perdoadas, locais em que os perdões são concedidos. Todas essas pessoas deveriam ser pesadamente castigadas: os infractores deveriam ficar sem carta, deveriam pagar todas as multas e mais uma coima. Mas quem as perdoou deveria pagá-las também, tal como deveriam ser obrigados a devolver todo o dinheiro que receberam para aprovar os perdões. E, também aqui, deveriam ir todos fazer trabalho comunitário a sério. Com a falta de mão de obra que há, muito jeito daria.

Um outro aspecto que, de tão normalizado, já nem é considerado corrupto -- e, na realidade, face à legislação, não é ilegal -- e do qual muitas vezes já falei: a fuga ao fisco através do recurso a empresas unipessoais (ou quase unipessoais).

No outro dia soube que grande parte dos agentes imobiliários (grande parte... ou todos?) não são funcionários das respectivas agências. Não. Criam a sua própria empresa. Nessa empresa, a sua empresa, recebem o salário mínimo e, portanto, não pagam IRS. E nessa empresa colocam toda a espécie de despesas (o carro, o combustível, as portagens, as despesas da casa, provavelmente as rendas ou as prestações do banco, restaurantes, hotéis, viagens, etc). É essa empresa que recebe as comissões das vendas ou dos arrendamentos de imóveis, valores consideráveis. Mas esses valores são ensopados pelos custos e, portanto, o lucro é reduzido. Ou seja, provavelmente também não pagam IRC. Falaram-me de pessoas dessas que, sendo para as estatísticas trabalhadores que recebem o salário mínimo, têm várias casas, muitas delas arrendadas com contratos também por fora, ou seja, em que também não pagam impostos. Os inquilinos julgam que estão a ser beneficiados pois dizem-lhes que o valor da renda é aquele porque o contrato não está nas Finanças porque, se estivesse, o valor era superior. 

Ou seja, toda uma teia, todo um esquema. E, para mim, isto é corrupção. 

Mais uma vez, também aqui, a inteligência artificial desembaraçava este novelo em três tempos. Por vezes as minhas mãos fervilham com vontade de conceber modelos que façam varrimento de rendimentos e de património, cruzando empresas unipessoais que têm um único cliente com os pagamentos feitos por esse cliente, e varrendo a respectiva contabilidade. E parece-me que seria legítimo que fosse permitido levantar o sigilo bancário a todos quantos, não tendo rendimentos, têm património não compatível.

Leis justas que visam o bem comum, como pagar reformas justas a quem trabalhou o que é suposto, como impedir condução perigosa ou como ter impostos justos para todos e não isenção para quem não a merece e esbulho a quem é cumpridor, devem ser escrupulosamente cumpridas e todos os desvios não deveriam socialmente aceites. 

Facilitar, fechar os olhos, ser permissivo é contemporizar com a corrupção, pois, mesmo que miúda, se estiver disseminada, mina a confiança geral, distorce a justiça social e corrói o saudável desenvolvimento do País.

segunda-feira, março 02, 2026

Um sistema intrinsecamente corrupto

 

Quando os aviões cruzam os céus para despejar bombas, quando os mísseis atravessam países, quando pessoas começam a reduzir-se à condição de corpos -- e quando as televisões nos encharcam as mentes com imagens e com explicações e mil comentários -- chego a esta hora e mais depressa me apetece falar dos meus meninos, todos os dias mais crescidos, do que de toda a instabilidade que grassa pelo mundo.

Tempos houve, e não foram longínquos, em que os países faziam as pazes, em que os muros caíam, em que as guerras, fossem guerras de bombas e botas no terreno ou guerras frias, pareciam coisa do passado. Infelizmente voltámos a esses tempos sombrios. E é um pavor.

Como chegámos até aqui?

Talvez a explicação esteja na ausência de saúde moral de parte dos regimes que, em vez de cultivarem a paz, parece que, no seu âmago, se atolam na lama.

Diz David Rothkopf que a assinatura de Trump e, na realidade, a assinatura destes tempos é a 'história' que se conta através dos ficheiros Epstein. 

E, embora já aqui tenha falado dele algumas vezes pois gosto imenso de ouvi-lo, recordo que David Rothkopf é uma pessoa particularmente bem informada, daquelas pessoas de quem se pode dizer que bebe do fino. O seu currículo é impressionante e a quantidade de pessoas que conhece e conheceu de perto, a rede de informações que facilmente cruza, e a forma simples, quase humilde, mas sempre perspicaz e sólida, tornam-no, a meus olhos, uma pessoa cujas opiniões interessam.

Aqui, no vídeo que abaixo partilho, está de novo à conversa com Joanna Coles que garante sempre conversas interessantes, leves qb e com um toque de boa disposição. A conversa decorreu no momento em que Clinton, com quem David Rothkopf trabalhou, estava a depor no Congresso. Por isso, a novidade do ataque ao Irão ainda não tinha ocorrido.

A conversa é longa mas tem interesse do princípio ao fim. 

Para quem duvida das ligações de Epstein à Rússia ou à Mossad, para quem duvida da longa mão de Putin na governação Trump, para quem ainda pensa que tudo gira à volta de sexo com menores de idade, para quem ainda não percebeu o esquema da troca de favores e da pirâmide da influência, para quem ainda não percebeu como o esquema de financiamento privado que existe nos Estados Unidos com políticos e universidades a terem que arranjar financiamento para as suas actividades leva, quase inevitavelmente, à venalidade -- aqui fala-se de tudo isso.

Porque é que Epstein é o crime que define Trump: Rothkopf | Podcast do The Daily Beast

David Rothkopf junta-se a Joanna Coles para defender que o escândalo Epstein é a crise que define Donald Trump, ligando o poder global, a desigualdade de rendimentos, a corrupção e a impunidade. Rothkopf, colunista imperdível do The Daily Beast e fundador da DSR Network, explica como Epstein envolveu uma rede de elites como Bill Clinton, Príncipe André, Peter Mandelson e magnatas de Wall Street, ao mesmo tempo que levanta questões mais profundas sobre obstrução à justiça, desaparecimento de provas e envolvimentos dos serviços de informação. Discutem também como figuras-chave encobriram ativamente irregularidades para se protegerem a si e aos seus aliados, mostrando um mundo onde o privilégio protege o crime e a verdade completa pode nunca vir ao de cima.

00:00 - Porque é que os arquivos de Epstein podem remodelar a política americana
05h05 - Clinton, Trump e a política de desvio de atenções
10h00 - Mortes, silêncio e o medo em torno do círculo íntimo de Epstein
15h00 - A Rússia, as agências de informação e a armadilha de Epstein
20h05 - Kompromat, o poder e como as elites são comprometidas
25h00 - O príncipe André, as elites globais e a troca de acesso por influência
30h00 - O "escândalo característico" de Trump e a cultura da impunidade
35:05 - Comunicação social, desinformação e obstrução à justiça
40h00 - O que revela o caso Epstein sobre a corrupção nos Estados Unidos
45:05 - Porque é que este escândalo ainda importa e o que vem a seguir

____________________________________________________

Desejo-vos uma boa semana 

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Como o perverso Epstein usou as 'elites' para abafar a verdade

 

Um dos médicos que fez a autópsia diz que o que encontrou é compatível com estrangulamento e não com suicídio. Outros dizem que não foi ele que morreu, que foi outro parecido com ele e mostram fotografias que o provam. Para além de tudo, naquela altura, as câmaras que apanhavam a porta da cela não estavam a funcionar, os guardas não estavam lá. Tudo nebuloso, tudo dúbio.

Mas não é só isso. Tudo nesta trama é nebuloso. 

Se eu pensar no meu período mais activo, diria que as pessoas com quem eu mantinha um contacto regular, fosse de que natureza fosse, não iriam além das dezenas, duvido que chegassem às cem. E, desses, com quem mantivesse correspondência regular, mensagens, mails, etc, diria que seriam da ordem da dúzia ou, vá, duas dúzias. 


Mas Epstein mantinha contacto regular com milhares de pessoas. Segundo o The Economist sistematizou, focando-se nos 500 mais regulares, a maioria era gente do sector financeiro (banqueiros, fundos, etc), media (jornais, revistas, televisões, etc), a seguir gente da academia (investigadores, professores, ligados à Matemática, à Física, à Biotecnologia, à Evolução, etc), depois gente dos negócios e das tecnológicas, depois gente da política (políticos de 1º nível, primeiros-ministros, ministros, diplomatas, príncipes e princesas, etc), etc. Uma conspícua e imensa rede. Tudo à vista de todos. Todos sabendo que ele já tinha sido condenado por sexo com menores, e todos marimbando-se para isso. E, para que se perceba bem o modus faciendi dele: todos os que com ele lidavam relatam a atenção que Epstein dedicava a tudo, fazia sessões de brainstorming nas universidades em que se se mostrava a par das investigações, não apenas financiava generosamente projectos como acompanhava o seu avanço. Claro que, provavelmente, gravava tudo e passava a informação para  quem tivesse encomendado o 'servicinho' ou para quem estivesse interessado no state of the art da coisa.

Ora, já dou isso de barato. O que eu agora não percebo é como é que ele tinha tempo para estudar os assuntos, para escrever tantos mails, para estar com tanta gente, para levar massagens a torto e a direito, para viajar, para almoçar e jantar com meio mundo, para escolher obras de arte, para tanto deboche.

E o dinheiro que dava a meio mundo? Não há explicação. Pagava a renda da Sarah Ferguson e dava-lhe dinheiro a torto e a direito, pagava os cursos e os alojamentos a centenas das miúdas de quem abusava e traficava, financiava incontáveis projectos, tudo aos milhões, e tinha empregados e mais empregados, e tinha não apenas grandes mansões em várias cidades nos Estados Unidos e fora do país, e ranchos e ilhas, como uma dúzia de apartamentos em Manhattan para alojar amigos e namoradas, tinha iates, helicópteros e aviões. Dinheiro a correr a jorros.

Parece que está claro que era um agente kompromat e aí, ao que parece, era quase free lancer: tinha material comprometedor de meio mundo que venderia a quem desse mais (ou a vários ao mesmo tempo?), parece também claro que era agente da Mossad e que trabalhava para a CIA e que, para a Rússia, funcionava quer como fornecedor de kompromats como intermediaria a aplicação de dinheiro russo fora da Rússia, lavandaria de primeira.

Mas, pergunto eu: se assim se explicaria a sua vasta e crescente fortuna, um escândalo de fortuna, como se explica que tivesse tempo para tudo isso? Os dias dele tinham sessenta horas? Não percebo. Será que mais ninguém fica intrigado com isso?

No outro dia, um matemático, catedrático em Harvard, e financeiro de Wall Street, que o conheceu, diz que Epstein era uma estrutura. Era alguém 'fabricado', uma estrutura 'fabricada', um produto high level dos serviços de inteligência. 

Não sei. Mas admito que sim, pelo menos, faz-me sentido.

Há, no tema Epstein, vários mistérios, e este do tempo parece-me um deles.

Partilho um vídeo no qual Tina Brown, jornalista da velha guarda, fundadora do Daily Beast, e que, há uns anos, foi intimidada por ele para não avançar com uma série de artigos, conversa sobre o assunto. 

Não que daqui venha uma luz clarificadora mas é interessante, dá para ir iluminando a forma como ele manobrava as muitas pessoas que gravitavam na sua órbita.

Como o perverso Epstein usou as elites para abafar a verdade 
| Podcast do The Daily Beast

Tina Brown relata a sua experiência chocante ao ser citada nos arquivos recentemente divulgados do caso Jeffrey Epstein, revelando como Jeffrey Epstein e os seus aliados tentaram freneticamente "neutralizá-la" e fechar o The Daily Beast depois de a sua reportagem explosiva com Conchita Sarnoff ter exposto a sua rede de abusos. Numa conversa envolvente com o editor executivo do Daily Beast, Hugh Dougherty, Brown narra o pânico dentro do círculo de Epstein, as assustadoras ameaças legais de poderosos escritórios de advogados, a duplicidade da cronista social Peggy Siegal e a decadência moral de um "clube" de elite que protegia os seus membros mesmo depois de a verdade estar à vista de todos. Ela reflete sobre a cultura pré-#MeToo que desconsiderava as vítimas, os nomes poderosos que orbitavam Epstein — de Bill Clinton a Ehud Barak — e a escala industrial de exploração possibilitada por Ghislaine Maxwell e pelo recrutador Jean-Luc Brunel. É uma defesa mordaz do jornalismo de investigação, um aviso sobre o poder corrosivo da riqueza extrema e um olhar por detrás das cortinas sobre o quão perto esta história esteve de ser abafada — então, o que mais ainda está escondido nos milhões de arquivos não divulgados?


Desejo-vos uma bela semana

terça-feira, dezembro 02, 2025

E assim se faz Portugal
-- De novo, a palavra ao meu marido --

 

Segundo o Expresso, o dono da herdade onde eram, e provavelmente são, escravizados imigrantes gabava-se de ter na mão quinze GNR, dois PSP e uma Procuradora do MP. Pelos vistos, o patrão fazia as coisas às claras, não tinha medo, tinha as "autoridades" na mão. E a coisa parece funcionar. Terá sido por mero acaso, quiçá, por manifesta falta de tempo, que a Procuradora se esqueceu de transcrever nos autos conversas esclarecedoras dos atos praticados pelos arguidos? Será que o sr. juiz não poderia ter dado algumas horas, talvez um ou dois dias, para a procuradora ir para casa e, sossegadamente, juntar ao processo a transcrição dos autos? Recordo-me que já houve detidos que estiveram uma semana presos antes de serem interrogados pelo juiz de instrução.

Será que estes actos não eram públicos e notórios e, com base nisso, o juiz não poderia ter decretado uma medida diferente para os arguidos? Será que nenhuma autoridade local conhecia esta situação ou consideraria normal que a GNR e a PSP destacassem guardas para vigiar trabalhadores como nas colónias penais dos anos 30 do século passado? Ou será que, como tudo isto se passa num meio relativamente pequeno onde a malta se conhece e o patrão é sempre patrão, estas coisas são tratadas com pesos e medidas próprias -- mas impróprias de uma sociedade democrática, justa e evoluída? 

Eu diria que é este tipo de corrupção, este fechar de olhos, que mina a sociedade portuguesa. 

E o Andrézito, sempre tão disponível para cavalgar ondas mediáticas, não diz nada? Então isto não é corrupção, Andrézito? Ou será que está calado que nem um rato porque quem pratica estes actos segue a cartilha do Andrézito, é aficionado dos tik tok do Andrézito e faz faz parte da sua base eleitoral? Aposto que sim!

A propósito qual a razão para ainda não ser público o nome do dono da herdade ou dos donos das herdades onde estes casos aconteceram e acontecem? Também gostava de conhecer o nome da relapsa Procuradora acima referida, não que esteja a supor que poderá tratar-se da senhora que o dito anónimo patrão se gaba de ter na mão mas já agora seria interessante desfazer possíveis dúvidas. 

sexta-feira, março 14, 2025

Sobre o beco ético

 

Marcelo não queria eleições, claro. Vai acabar coroado de dissoluções e de ingovernabilidades. Mas não pensou nisso quando dissolveu a Assembleia quando havia uma maioria absoluta. Tivesse ele aceitado Centeno como Primeiro-Ministro e não estaríamos onde estamos.

Mas, enfim, leite derramado.

Também achou uma burrice sem tamanho (burrice ou cavalice, como se queira chamar) o Mentenegro ter avançado com a Moção de Confiança. Mas não foi ele que andou com o Mentenegro ao colo até o pôr lá? Claro que depois percebeu que tinha feito mal, que o Luís não é flor que se cheire. Mas tarde demais.

Agora, na comunicação ao País, tentou alertar o País para que se o Parlamento tinha mostrado que não confiava no Primeiro-Ministro, não era colocando o Luís outra vez na berlinda que o problema ficaria resolvido. Como muito bem disse, quando se perde a confiança e quando o que paira é uma dúvida ética, nada a fazer. A mácula está e estará lá.

As notícias sucedem-se, todos os dias um jornal traz uma notícia nova e a conclusão vai sempre desembocar no beco ético a que Marcelo se referiu: Mentenegro é o típico videirinho, pequeno chico-esperto, daqueles que pensa que sabe como fazer para passar por entre os pingos da chuva, que sabe como usar as meias palavras  para que, quando vierem dizer que mentiu, ele  dizer que os outros é que não perceberam bem. 

Vai acabar mal, claro que vai. E não estou a rogar praga nem a fazer futurologia. Estou apenas a ser racional. Trabalhei parte da minha vida em modelos, frequentemente modelos previsionais, modelos que tinham por base estatísticas e probabilidades. Quando a informação chega até mim, mentalmente estabeleço correlações, vejo padrões, analiso desvios... percebo onde é que a coisa vai dar.

Um indício é coisa pouca. Da mesma forma que com dois pontos se traça uma recta, dois indícios já são qualquer coisa, já desenham uma linha de pensamento ou de actuação. E se com três pontos já se traça um plano, com três indícios o esquema começa a perceber-se. A partir de quatro pontos passamos para outras dimensões e o mesmo se passa com quatro ou mais indícios.

E depois há outra coisa: o que é verdadeiro, explica-se facilmente. Quando há mil explicações e quase todas, para parecerem muitas, já não são senão palha, a gente começa a perceber que alguma coisa está a querer ser ocultada. Se eu quiser mostrar as obras que fiz na minha casa, dou uma explicação clara e concreta. Se eu quiser ocultar, apareço com um dossier enorme cheio de papéis que, obviamente, numa conferência de imprensa vai ler. Só uma auditoria experiente, capacitada para perceber de construção e de contabilidade e de legislação consegue entender. Da mesma forma, se eu quiser explicar o que faz uma empresa minha, chego lá e explico: fazemos isto e aquilo, temos x clientes que são estes e estes, o que fazemos para cada um é isto e aquilo, facturamos tanto e tanto, a nossa estrutura de custos é esta, as contas de exploração e o balanço são estes. Tudo simples e clarinho. Mas, se eu quiser lançar a confusão, vou dizer que tenho um terreno com não sei quantos metros quadrados, com duas oliveiras e mais outro que se situa em Rabal e que tem isto e aquilo. E se eu quiser falar da minha idoneidade e da minha moral, vou para a frente das câmaras e sozinha, sem uma corte atrás, explico tudo direitinho, não vou dizer que montei uma empresa com uma estrutura, quando toda a gente sabe que uma empresa que faz consultoria jurídica não se monta com uma educadora de infância e dois filhos adolescentes, mesmo que um deles tenha jeito para a informática. E se eu fizer obras em casa, furando a placa, para transformar dois andares num duplex, não vou dizer que fiz o que tinha que ser feito, quando afinal parece que disse que eram obras interiores que não careciam de licença e não disse que ia mexer na estrutura do edifício. E falam os jornais também nas contas dos dinheiros que não batem certo e depois ninguém percebe ao certo se há para ali dinheiro não declarado ou o quê.

E se eu quisesse que não subsistissem dúvidas, pedia à Autoridade Tributária (ou porventura, também a outro qualquer organismo) que auditasse as contas da empresa. Pois se Mentenegro diz que nunca tirou de lá dinheiro nenhum, seria interessante que se comprovasse que não é de lá que sai o pagamento da água, da luz, das comunicações, dos combustíveis, da limpeza da casa, dos restaurantes, de viagens, um 'ordenado' da mulher, se calhar também um 'ordenado' para um ou para os dois filhos, quiçá uma 'renda' da casa, e sabe-se lá que mais. Se eu não tivesse nada a esconder, teria imediatamente fornecido a contas descriminadas da empresa.

E mostraria também, com o consentimento dos clientes, qual o trabalho efectivamente prestado. Seria interessante saber que trabalho é que a Solverde e demais clientes (como a gasolineira que pagou 230.000 € quando tem 12.000€ de lucro e, pelas contas do ano seguinte, parece que não beneficiou nada de tal trabalho) contratam para ser feito pela Inês Patrícia. Seria interessante não numa de voyeurismo mas, sim, para esclarecer tão bizarro mistério. 

Há um acumular de dúvidas que mancham a credibilidade de Mentenegro. Vota-se em alguém em quem se confia. 

Um político a sério, perante estas dúvidas, demitir-se-ia e tentaria provar, fora de cargos de poder, que é inocente e impoluto. Não arrastaria o governo, o partido e o País.

A dimensão de um homem (ou de uma mulher) vê-se, sobretudo, na forma como enfrenta os desafios: se é com verticalidade, de peito feito, com grandeza.

Mentenegro escondendo-se atrás da mulher e dos filhos, depois atrás do Governo, a seguir atrás do PSD, mostra ser um pequeno homem, alguém que não deveria estar na política.

O outro, que é gozado por todo o lado, roubava malas no aeroporto. depois continuou a dizer-se inocente e a manter-se no Parlamento. Este, a ser verdade tudo o que tem sido noticiado e não desmentido, joga num tabuleiro diferente, porventura mais rentável e um pouco, apenas um pouco, mais sofisticado. 

Só espero que a campanha que vai ser feita, em que mentem, mentem descaradamente, se gabam do que herdaram do Governo do PS (do excedente orçamental e dos projectos e trabalhos em curso, muitos dos quais interrompidos com a interrupção do Governo socialista), em que se vitimizam, seja desmascarada. Julgo que o mais eficaz será através do humor, através de memes que circulem nas redes sociais, que estejam nas ruas. 

 A política deve ser deixada para quem a executa com grandeza, com verdade, com honestidade, com verticalidade, com carácter. E não é o caso desta gente do actual PSD. 

domingo, novembro 03, 2024

Este mundo é um lugar perigoso porque cerca de metade das pessoas são estúpidas e tão ignorantes que nem percebem que são ignorantes e estúpidas

 

Só isso explica que cerca de metade das pessoas, mais coisa menos coisa, vote em criaturas absurdas, perigosas, incompetentes, incapazes, mal intencionadas, aldrabões, vigaristas, corruptos, vis, criaturas que espalham o mal à sua volta.

E se isto vale para muitos países, é agora grotescamente visível nos Estados Unidos.

Até fico doente quando vejo imagens dos comícios de Trump ou entrevistas a pessoas que votam nele. Um horror.

segunda-feira, junho 24, 2024

As CPI são uma vergonha
-- a palavra ao meu marido


Uma vez que ontem estava num registo zen e não me apeteceu desenvolver temas que a ambos têm indignado, o meu marido achou que os temas não deviam passar com a ligeireza com que ontem os aflorei. Por isso, hoje, enquanto ainda estávamos apenas os dois em casa, dei por ele a escrever o que, depois, como é hábito, me enviou por mail.

Transcrevo, pois, o texto que escreveu:

Assisti na sexta feira a uma parte do interrogatório a que foi sujeita a mãe das gémeas. Já tinha assistido  a uma parte do interrogatório ao Lacerda Sales e a interrogatórios efetuados em outras comissões de inquérito.

Em nenhum dos interrogatórios me senti próximo dos verdadeiros inquisidores que são os deputados que fazem os interrogatórios, nomeadamente, quando são da oposição e estão nas comissões por pura luta politica sem qualquer interesse em saber a 'verdadeira' verdade.

No entanto, na sexta-feira tive vergonha do que se passou. Independentemente da mãe das crianças estar ou não a esconder quem a auxiliou, que sentido tem esta comissão de inquérito? Parece que o objetivo é descobrirem se alguém marcou indevidamente uma consulta? Os deputados não têm nada de útil para fazer? Por uma merda destas -- e a palavra é esta --, humilham as pessoas desta maneira, enquanto gastam o dinheiro dos contribuintes? A inquisição já acabou há alguns séculos e a PIDE há cinquenta anos. As pessoas têm direito à sua dignidade e não podem ser sujeitas a humilhações só porque o André Ventura está interessado em "levar tudo atrás" e a AD precisa do André Ventura.

E da CPI ao MP "vai o passo de um anão". Então, agora mandaram 50 inspetores da Judiciária investigar as faturas de refeições da Câmara de Oeiras? Mas não existe um orçamento na Câmara e um conjunto de eleitos para verificarem a atuação de executivo? Então os restaurantes não têm programas de faturação auditáveis? Ou será que o MP também se acha no direito de definir a dieta dos autarcas? Por exemplo, à segunda-feira podem comer entrecosto mas não entrecôte, à terça que venha  a sardinha mas nunca  o linguado e, assim, sucessivamente...? E quem paga estes desvarios são sempre os mesmos, os contribuintes. Não têm emenda. Mas numa democracia tem que haver escrutínio e não há nenhum órgão que possa fazer o que quer sem estar sujeito ao escrutínio democrático e às regras da democracia. 

A talhe de foice, os diversos pacotes do Governo também não têm emenda. Ou, pasme-se, referem-se a politicas do Costa que tanto criticaram ou apresentam ideias que não conseguem consubstanciar. Aconteceu mais uma vez com pacote anti-corrupção, isto é, com o pacote "vamos dar a mão ao Ventura". Então o Montenegro, quando é interrogado sobre  as medidas propostas, diz que ainda têm que pensar sobre como serão elas de facto? Será possível que isto seja verdade ou, quando estavam a definir as medidas do pacote anti-corrupção, foram interrompidos, isto é, requisitados para analisar as faturas do Isaltino? Só pode ter sido.

Uma brincadeira, isto tudo. 

Ainda a propósito do pacote anti-corrupção, quero dizer que sou absolutamente contra o confisco dos bens sem que tenha havido condenação. Parece-me um atentado a tudo o que tenho de mais sagrado: a liberdade, os direitos e garantias individuais. Ainda por cima, quando se vê o comportamento anti-democrático, persecutório, leviano e vingativo do MP. Começa-se por este tipo de medidas e qualquer dia ainda se vai estar a falar de medidas que privem os cidadãos da  liberdade de expressão e de manifestação... Acho muito perigoso que se vá por aí...

quinta-feira, fevereiro 01, 2024

Ser do contra
- A palavra ao meu marido -

 

O pessoal que afirma ir votar no Chega aponta dois motivos principais: "é contra isto tudo" e "isto está cada vez pior". E o mais grave é que estes dois argumentos tanto são apontados por quem não tem um baixíssimo nível de educação como por quem frequenta graus elevados de ensino e/ou é licenciado. Eu sei que um grau universitário não é sinónimo de formação, numa perspetiva de educação e conhecimento, mas, pelo menos, deveria ser suficiente para permitir distinguir  a verdade da mentira  e o razoável do impossível.

Os dois motivos apontadas para votarem no Chega resultam do consumo constante e quase exclusivo da informação partilhada pelas redes sociais que transmitem até à exaustão notícias falsas "plantadas" por quem tem interesse em promover ideias populistas, demagógicas e xenófobas.  Mas resultam também da promoção permanente pelas  televisões do "isto está tudo mal e pior que nunca". E, de facto, é mentira. Se os órgãos de comunicação social se preocupassem em fazer análises corretas dos indicadores de Portugal, constatariam que, ao contrário do que propagam, o País está muito melhor do que há 10 ou 20 anos. Mas, parece que o objetivo dos jornalistas e dos comentadores, sabe-se lá porquê, é apoucar-nos como Povo e como País. 

Mesmo quando se fala em corrupção, os relatórios internacionais situam-nos mais ou menos no meio dos Países da Europa e não como "reis" da corrupção como se quer fazer crer. Países com regimes autocráticos como a Hungria são, no referido relatório, classificados como muito mais corruptos do que nós. Algum órgão de comunicação social relevou esta comparação? 

As ações e intervenções do Prof. Marcelo também contribuíram significativamente para o "isto está cada vez pior". Esteve sempre pronto para, explicita ou sub-repticiamente, dar argumentos que fortaleceram este sentimento de que o Governo faz sobretudo coisas mal feitas pelo que isto está "cada vez pior". E, no entanto, crescemos 2,3% em 2023 o que nos compara muito bem com o resto da Europa. Ontem, nos noticiários que vi, a relevância que deram a esta notícia foi zero, embora, este crescimento seja muito relevante.

Mais dois pontos que gostaria de referir e que posso enquadrar neste tema. 

  • Os "profs" que, sempre que há um governo do PS, protestam que nem uns danados (recordo-me que, no tempo da troika, quando tiveram os cortes nem abriram a boca) faltam mais de dois milhões de dias por ano. E os sindicatos, aparentemente sempre tão preocupados com  a qualidade do ensino, não comentam? Ninguém fez mais para acabar com a escola pública do que os sindicatos dos professores e o seu guru Mário Nogueira. O que fizeram também foi um contributo para o "isto está cada vez pior". 

  • Os arguidos da Madeira foram detidos há uma semana e ontem ainda não tinham sido ouvidos. É mau de mais! A Justiça é de fato uma área que funciona mal e em que é preciso fazer alterações. Mas não são o tipo de alterações que os populistas querem. Curiosamente (ou não) nem sequer ouvimos o Prof. Marcelo, sempre tão interveniente, a falar nisso.

quinta-feira, novembro 16, 2023

Quem é que anda a fazer de tudo para que voltemos aos tempos (AC) em que se dizia haver, por aqui, um povo que nem se governava nem se deixava governar?

 

Na sequência da última inventona, no outro dia, no balneário da piscina, uma senhora que, quase de certeza, não paga um cêntimo de IRS e que, do que percebo, também nunca deve ter descontado um cêntimo para a Segurança Social, queixava-se dos governantes, que são todos uns corruptos, uns ladrões, que só lá estão para encher os bolsos enquanto ela e 'nós' (leia-se, as presentes no balneário) não temos direito a nada.

Na sequência desta conversa, e em total incoerência, relatou que há uns três ou quatro anos teve um enfarte e que esteve num hospital público e que foi muito bem tratada e acompanhada, que não tem nada a apontar.

Chamei-lhe a atenção: mas era um hospital público e foi bem tratada... (isto sem nunca ter contribuído com um cêntimo). Portanto, de que se queixa? Disse-me, taxativamente, que se fosse hoje deixavam-na morrer à porta. Respondi-lhe que não, que o nosso SNS até funciona bem, como ela constatou, e que não há notícia da população andar toda a morrer à porta dos hospitais. Falou-me das notícias. Um caso de alguém que teve essa pouca sorte entre centenas de casos (senão milhares) por dia é uma infelicidade mas é uma insignificância estatística.

Dir-me-ão que, se a senhora não pagou impostos, é porque tinha baixos rendimentos ou, mesmo, zero rendimentos. 

E eu responderei que talvez não. Neste caso em concreto, do que nos conta, passeia pela Europa, faz cruzeiros, etc. Não vou entrar em pormenores mas posso dizer que, do que percebo, terá sido mais um daqueles infinitos casos de 'pequena' economia paralela. Agora percebo que o marido já não trabalha mas, do que vou ouvindo, intuo que devem ter vivido à margem das suas reais obrigações.

Uma outra dizia que tinha tido um cancro, que se tinha tratado no IPO e que tinham sido impecáveis, amorosos, atenciosos. Não tinha pago um cêntimo. E, no entanto, fazia coro com a outra, quanto à 'ladroagem que por aí anda nos governos e no parlamento' fazendo com que 'nós' tenhamos que pagar tudo, e tudo cada vez mais caro, e 'eles' nada, só a ficarem ricos. Quando a interpelei: mas os tratamentos no seu caso, com cirurgias, tratamentos, etc, devem ser bem caros e não pagou nada. Ficou a olhar para mim muito admirada como se tudo aquilo tivesse caído do céu, ou seja, como se nunca lhe tivesse ocorrido que usufruiu de dinheiro que outros descontaram e que os ditos governantes (e respectiva máquina administrativa) administraram.

Num outro dia, era uma outra que dizia que não ia levar vacinas, que estava farta de levar vacinas (gripe e covid) e que o que corria nos grupos de facebook de que fazia parte era que isto das vacinas é só para uns quantos se andarem a encher de dinheiro à nossa custa e que já estava farta de dar para aquele peditório. Perguntei-lhe se alguma vez tinha pago alguma coisa e ficou também admirada com a minha pergunta. Que não... E eu disse-lhe que levar vacinas era uma questão de saúde pública e, ao mesmo tempo, de defesa individual e que era um serviço gratuito para todos os utentes, que saía do orçamento do SNS. Vi que estava espantada e quase aposto que concluiu que eu devia estar 'feita' com os que só querem roubar. Isto quando usufrui gratuitamente dos serviços.

Num desses dias, cansada de ouvir tanta alarvidade, falei-lhes nas estradas, nas esquadras, nas escolas, nos hospitais e centros de saúde, por exemplo, em que se usufrui de vias de comunicação,  de saúde e de ensino gratuitos e que temos muita sorte em que assim seja e ainda mais porque mesmo as pessoas que não pagam impostos ou que não descontam para a segurança social, ou descontam muito pouco, tenham todos os seus direitos assegurados.

Ora, o que constato é que muitas pessoas, sendo usufrutuárias líquidas de benefícios não negligenciáveis, em vez de estarem agradecidas, mostram-se revoltadas como se alguém estivesse a roubá-las.

E isto, creio eu, deve-se a esta campanha orquestrada (deliberada ou não) entre o Ministério Público, os populistas como o Chega, as franjas mais ignorantes, embrutecidas e fundamentalistas do BE e do PCP,  alguns trogloditas do PSD e a comunicação social que, de manhã à noite, convocam para o palco da maledicência toda a espécie de jornalistas/comentadores que parece que, para assegurarem a sua avença, apostam no bota-abaixo, no discurso da desgraça e da fatalidade. Isto, exponenciado, pelas redes sociais. Vejo pelos grupos de whatsapp de que agora faço parte como cai lá todo o lixo possível e imaginário. Notícias falsas, truncadas, memes ridicularizando e caluniando políticos e governantes -- em permanência.

Há pouco, uma jornalista falava do 'caso' Data Center de Sines. Tudo o que ela dizia eram banalidades sem um pingo de suspeição. Tudo o que ouvi tinha a ver com aquelas pessoas quererem resolver encalhamentos, entraves, descoordenações, tretas irrelevantes. Contudo, ela lia a notícia com um tal ênfase e com um gesticular de mãos que, quem não conseguisse descodificar o que ela dizia, julgaria que ela estava a destapar uma caldeira de corrupção ou a desvendar uma perigosa teia. 

Sobre a deriva paranoica, persecutória e justicialista do Ministério Público quer o meu marido quer eu já aqui falámos bastamente (post anteriores). Cinjo-me agora à divulgação noticiosa da 'inventona'. Ora, desde quem escreveu a notícia que ouvi, a quem a aprovou e a quem a leu apenas revela que não fazem ideia do que é gerir investimentos. É que é isto mesmo que se espera de quem tem prazos e orçamentos a cumprir: que, dentro do respeito pela lei e pelos bons costumes, não descanse, que escave debaixo dos pés, que levante pedras, que salte muros, que vá atrás de tudo o que permita que se chegue com o projecto a bom porto. 

Tudo o que ouvi neste 'caso' foi gente que lutou pela prossecução de objectivos e não de vantagem pessoal. Ninguém ali, que se tenha ouvido, recebeu um tostão.

Fala-se em almoços ou jantares como se fosse obtenção de vantagem ou lá que treta é que é. Disparate. Toda a minha vida presenciei os meus colegas a tratarem do que calhava durante refeições. Quando se tem uma agenda cheia, por vezes encaixam-se novas reuniões no espaço livre para o almoço ou jantar. Por acaso, eu sempre fugi disso a sete pés mas não foi por achar que alguém me iria corromper ou que eu poderia ser acusada de querer corromper alguém, foi apenas porque não tenho pachorra para tratar de assuntos de trabalho durante o que considero ser um direito meu a um período de descanso. Mas, note-se, eu era vista como uma excêntrica por precisar de intervalar e precisar de descansar a cabeça enquanto como.

Mas pela cabeça de que tarado ou fora-de-lei é que passa que alguém, tendo que tratar de projectos de milhões, se deixa influenciar ao tratar de assuntos de trabalho durante um almoço de vinte ou cem ou duzentos euros? 

Que procuradores, que inspectores, que agentes e que jornalistas temos que não saibam discernir tais evidências e que, para cúmulo dos cúmulos, achem por bem destruir, na praça pública, reputações... por nada?

É absurdo, ridículo.

A que ignorantes e a que gente mal intencionada estamos nós entregues?

O que me chateia é que é isto que está por aí instalado. E não venham dizer-me que estou a exagerar ou que, sendo todos gente tão bronca, são inócuos. Não são. Foi este ambiente e estes agentes -- que medram no clima malsão que criam -- que conseguiram interromper uma legislatura, deitar abaixo um governo de maioria absoluta, insinuar infâmias, atirar lama para cima de pessoas que estavam apenas a zelar pelo bom andamento dos projectos (o que, diga-se, só beneficia o País).

Não falei até este ponto no nosso Presidente. Mas muita da responsabilidade disto tem o cunho de Marcelo. Ao comentar tudo a toda a hora, ao 'mandar bocas', ao estar sempre a insinuar remoques ao Governo, ao ameaçar durante meses com a dissolução da Assembleia, banalizando esse gesto, ao colocar-se frequentemente ao lado dos baderneiros, ao não fazer a pedagogia da análise séria, ao não se demarcar das análises cegas e populistas dos assuntos, alimentou este ambiente.

Tenho pena. 

Aquilo de Portugal ser uma terra em que a gente não se governa nem se deixa governar parece que está outra vez na ordem do dia. E está-o pela mão dos acima referidos.

quinta-feira, novembro 09, 2023

Se eu estiver a ficar burra de todo podem fazer a caridade de me esclarecer...?

 

De vez em quando sinto-me intelectualmente muito limitada. Vejo coisas à minha volta que não percebo.  E, no entanto, são coisas que, pelo menos aos outros, parecem fazer sentido.

Por exemplo, a rábula marcelista da expedição nocturna de ontem com as televisões atrás. Parecia apenas uma excentricidade, daquelas que ele engendra para as televisões e os telespectadores não se esqueçam dele. Afinal parece que tinha uma mensagem a passar. No fim, falou, com ar ilustrado, com ar de quem tinha sacado de uma cartada de tipo xeque-mate, sobre o azar dos Távoras, 

Mas, se bem sei (mas pode ser que esteja enganada), na volta, os Távoras foram mortos só por causa de uma intriga. Ou seja, tiveram aquele tipo de azar desgraçado em que uma praga vinda não se sabe de onde nos cai em cima sem que tenhamos possibilidade de nos defendermos.

Marcelo também falou daquele castigo que consistiu em mandar colocar sal para que nada mais ali medrasse.

Mas ele próprio, com ar de desconsolada constatação, referiu que, afinal, a sanção foi ineficaz. 

Acresce que Marcelo terminou a rábula fechando o semblante como quem, depois de ter atirado uma bomba para a mesa, dá a entender que já tinha avisado.

Mas tinha? Marcelo tinha avisado quem? Sobre o quê? 

Ou seja, naquela sua rábula quem é quem e qual a moral da história? E qual a história?

Quase se poderia pensar que, ali, estava a assumir, como se não assumisse, que houve mãozinha dele num ajuste de contas, talvez na praga que se abateu sobre o Costa. Mas não pode ter sido isso, pois não? Até porque não há personagens que encaixem naquele enredo nem a conclusão se ajusta a coisa alguma. Ou ajusta?

Estou burra de todo e é tudo clarinho como água...?

Outro exemplo. Ouço, de raspão, o que vai saindo para a comunicação social sobre o que serão as suspeitas no caso Influencer (chapeau para a delícia que são os nomes das Operações...), e fico beige, isto para não dizer banza. É que, do que vi, ainda só vi tretas insignificantes, reuniões aqui ou ali, almoços, levar as meninas no carro... Se é isto, ou eu estou mentecapta de todo ou, então, está tudo doido.

Então se o homem, como pai, normalmente levava as filhas à escola e se agora se desloca no carro do ministério, qual o mal de levar as crianças no carro até à escola, antes de ir para o ministério? Qual o mal, senhores? Está tudo maluco?

E as outras coisas...? Mas pensarão aquelas aves raras que as pessoas do governo governam sem falar com ninguém? Não sabem que, no governo, ministros, secretários de estado, etc, acompanham dossiers, querem saber (e bem) como vão as coisas, querem saber (e bem) se há entraves que possam ser removidos? Se não for isso, então qual o papel do governo? Pensarão que devem ser umas réplicas de sua britânica majestade que não faz nada?

E se há uma visita de comitivas governamentais a instalações de empresas, por exemplo, e se oferecem o almoço a quem lá vai que mal há nisso? Não é isso o mínimo que a boa educação exige?

[Dito isto: se houve corrupção, gente que andou a ganhar dinheiro ilegítimo para favorecer quem não devia em detrimento de quem estaria melhor qualificado, se houve licenciamentos indevidos, emitidos mediante suborno de alguém, se houve coisas assim, então tal deve ser investigado, provado e, se for caso disso, os infractores condenados. E que se apurem responsabilidades rapidamente].

Agora se os membros do Governo andaram a tentar dar corda aos sapatos dos investidores a ver se concretizam os projectos do PRR, não fez mais do que devia. Se tratou disso em reuniões ou telefonemas não fez mais do que devia.

E depois outra coisa: fala-se de milhões e milhões como se só o facto de mencionar milhões já indiciasse corrupção. E eu volto a perguntar: mas está tudo doido? Se os investimentos são destes montantes, e são, achará esta gente do Ministério Público ou jornalistas que quem trabalha ou se ocupa ou acompanha estes projectos ou negócios milionaríssimos são todos uns corruptos?

Digo eu que não. Durante parte da minha vida lidei, profissionalmente, com milhões. E nunca me apropriei indevidamente de um único cêntimo. E como eu, tenho a certeza, as pessoas com quem trabalhei ou que trabalharam comigo.

Portanto, ou há, nesta cegada, coisas palpáveis, com materialidade, em que se veja que os indícios levam mesmo a ver que ali há caldinho a sério ou isto, uma vez mais, é daquelas macacadas em que o MP se tem vindo a revelar exímio. E o pior é se, reconhecendo a miséria do que tem em mãos, faz de tudo para encontrar qualquer coisa e andam anos e anos e anos a coligir tretas para ver se dão corpo à coisa.... enquanto os envolvidos vão envelhecendo, encalhados, num limbo, com a reputação e a vida estragadas. 

Enfim. A ver vamos.

Mas é isto? Ou não? A menos que seja tudo claro como água e eu é que esteja burra de todo. Nesse caso, podem fazer a gentileza de me esclarecer?

Agradecida.

quarta-feira, novembro 08, 2023

A hora de Marcelo

 

Gosto de opinar quando percebo as coisas. Neste caso não percebo e gostava de perceber. 

O que é que está em causa, em concreto, para quase duzentas pessoas (17 magistrados do Ministério Público, três magistrados, judiciais, dois representantes da Ordem dos Advogados, cerca de 145 elementos da PSP e nove da AT) lançarem uma rusga como se andassem à procura de droga? 

Do que leio, varreram seca-e-meca (17 buscas domiciliárias, 5 buscas em escritório e domicilio de advogado e 20 buscas não domiciliárias) depois de andarem em escutas e o escambau durante não sei quanto tempo e, no fim, detiveram cinco pessoas e constituíram uns quantos arguidos, entre os quais que eu saiba um ministro e um ex-ministro, um chefe de gabinete e mais não sei quem. 

E, para a coisa ter mais graça, mas graça de a gente ter vontade de se rebolar a rir, o Gabinete de Imprensa da Procuradoria-Geral da República emitiu um comunicado onde, en passant -- como quem não quer a coisa, como se não tivesse qualquer noção, como se não percebesse que, com uma destas, iria causar uma crise política atirando com um Governo de maioria absoluta abaixo --, lança um balde de porcaria para cima do Primeiro-Ministro, avisando que alguém de entre os escutados falou dele e que, por isso, ele ia também ser alvo de um inquérito autónomo.

Fez muito bem António Costa ao demitir-se. Tinha que ser. E demitiu-se com uma declaração que é digna de quem tem uma boa cabeça, os tomates no sítio e o coração a funcionar bem (aquela subtil tremura na voz quando falou na mulher não engana).

Homem que é homem chama os bois pelos nomes e enfrenta os touros de frente e foi o que ele fez. (Mulher que é mulher também, só que, no caso, é de homem que se fala)

A minha opinião sobre António Costa é conhecida: acho-o um homem sério, honesto, competente, dedicado à causa pública, um homem inteligente, culto, bem formado, com visão, um homem que ama Portugal. Estou-lhe agradecida pela sua boa governação e por ter sabido honrar Portugal dentro e fora de portas. Foi um grande Primeiro-Ministro. 

Mas agora já estamos no day after.

Aconteceu. A crise aconteceu.

Face a isto, ou há uma acusação concreta e grave no prazo de uma ou duas semanas contra António Costa ou o abusivo sentimento de impunidade e a incompetência do Ministério Público ultrapassam tudo o que é normal e alguma coisa tem que acontecer, nomeadamente a demissão da Procuradora e uma reflexão profunda sobre a ineficiência e a impunidade gratuita, descarada, do Ministério Público em particular e da máquina da Justiça em geral.

E, também face à crise gerada, o que vai acontecer a seguir?

Está nas mãos de Marcelo.

Acho bem que haja eleições. Tem que ser. Não podem subsistir dúvidas sobre a lisura e legitimidade de quem vier a seguir. O mundo está um lugar perigoso e os governantes têm que ter força e apoios que não falhem. Em democracia isso é garantido pelas eleições (assim os eleitores pensem com a cabeça e não com os pés...)

Idealmente, juntavam-se as Legislativas às Europeias para não poluirmos demasiado o espaço público com campanhas eleitorais non stop.

Mas, antes de se formalizar o que quer que seja, diria que primeiro há que esperar pela aprovação do OE 2024. 

Depois, até às eleições, talvez em Junho, ou Costa faz o favor de se manter em funções de gestão, a executar o OE, ou alguém do actual Governo sobe a Primeiro-Ministro (Mariana Vieira da Silva, Ana Catarina Mendes ou Fernando Medina). O País ficará a ser bem governado e haverá estabilidade qb até que um novo governo tome posse.

E depois as eleições. 

O PS terá, provavelmente, maioria absoluta. Já não com António Costa como Primeiro-Ministro mas com outro Secretário-Geral que, entretanto, será eleito.

É pena constatar mas é a verdade: a única alternativa seria o PSD mas o chocarreiro Montenegro não tem ponta de ADN para Primeiro-Ministro e os portugueses podem ter muitos defeitos mas, na hora de decidir, não costumam ser parvos. O PCP e o BE já eram. A IL é uma brincadeira. O CDS inexiste. E o Chega, senhores, pode andar com a comunicação social às costas e vice-versa mas não passa de um saco de vento podre. Os portugueses ajuizarão e decidirão.

Mas tudo isto passa pela decisão do Presidente da República que, face ao que aconteceu, terá que decidir qual o rumo a seguir.

Portanto, finalmente, chegou a sua hora. Este é o seu momento, esta é a hora de Marcelo Rebelo de Sousa.

Só espero que, em vez de andar a passear à noite com as televisões ao lado, pare um pouco para pensar. O País agradecer-lhe-á se for sensato, moderado, contido, e que pense, acima de tudo, no bem do País. 

sexta-feira, janeiro 27, 2023

Dois palcos marcelistas, um patriarcado à beira de um ataque de nervos, um atrevido Moedas a nadar em cifrões e vestidos de pernas para o ar

 



Um asteroide vai passar mais perto que nunca antes da Terra. Não se pode dizer que seja uma rasante tout court mas, à escala a que estas coisas se passam, é bem perto, mais perto do que alguns satélites. Chama-se 2023 BU (que também poderia ser o nome de um dos filhos do Elon Musk) e, segundo a Nasa, no big deal. Não vai ser por aí. Não só não consta que venha cair-nos em cima da cabeça como o provável é que se desfaça em fanicos na atmosfera e que uns calhauzecos se despenquem por aí. Sorte.

Não ligamos a isto e talvez seja a atitude mais inteligente. Estarmos a ralar-nos para quê? Se um dia um deles, um asteroide em versão gigante, qualquer coisa como um Big BU (quiçá com bacon, pickles e cheddar derretido), resolver vir embirrar connosco, o mais certo é que, sem darmos por isso, nos tornemos os novos dinossauros do futuro, uma espécie meio burra que antes habitava o planeta e da qual pouco ficará. E, se assim for, azarinho.

Também com a cena de a Terra ter o seu íntimo a girar em sentido contrário, a malta está manifestamente a caguar-se (de novo: caguar, com u, que eu, se não sou beta, sou, na mesma, menina fina).

Tem razão, Ccastanho, o que interessa à malta é se o Cravinho não teria feito melhor em caguar de alto para os doentes Covid em vez de deixar que arranjassem o hospital. Inteligentes. 

E agora é o altar. Claro que me estou também a caguar para o altar em si pois, como é óbvio, é tema que não me aquece nem arrefece. Que o Papa Francisco (que me desiludiu com aquela de  homossexualidade ser pecado) venha a Portugal e que, em torno disso, se junte um milhão de pessoas, é coisa que nada me diz. Não sou fã. Nem de igrejices nem de ajuntamentos em geral.

E que arranjem aquela zona da cidade, se for coisa bem pensada e inteligente como foi o caso de toda a zona da Expo, parece-me até bem.

Mas já não me parece nada bem que num altar se gastem cinco milhões. Dizem que vai ficar forever, que vão rentabilizá-lo. Mas como? Vão usá-lo para quê? Para a IURD? Para comícios do Chega? Ou para festivais de rap? Para gravarem o Domingão? Não sei. Nem imagino. 

E parece que no Parque Eduardo VII vai também haver um palco, que se desmontará depois dos festejos, e que vai também para milhão e meio de aereos. Não percebo. A cidade nada em dinheiro? A avioneta não apenas despejou haxixe em cima do Alentejo mas também notas sobre Lisboa? 

E é que, se os milhões viessem dos cofres da Santa Madre, eu não tugia nem mugia. Mas, por espantoso que possa parecer, não é a Igreja que entra com o carcanhol mas sim, uma vez mais, o zé pagode, quer através das autarquias quer do Governo. Pode uma coisa destas? Eu acho que não.

E agora ouvi que o sistema de som e de vídeo vai também para uma mão cheia de milhões. Tudo à grande.

Não sei se foram os requisitos que foram estratosféricos (pode ser, a malta mais pequena, perante a perspectiva de deixar obra, às vezes perde a cabeça, fica desvairada), se são os fornecedores que viram que o Moedas & Companhia (o Moedas era o dono da obra? Pergunto) estão numa lógica de sempre a abrir e, sem rebuços, puseram a pata no acelerador e lá vai disto, ou se há meninos lá pela Câmara, daqueles chico-espertos que mal ouvem as moedas a tilintar começam logo a mostrar os bolsos a ver se lhes toca algum. Adjudicações directas e o escambau. Podia ser pior, diz o fofo do Moedas. Então não. Pode sempre ser pior, pode-se até cair e partir uma perna. 

Não sei. O que sei é que receber o Papa Francisco no meio desta gastação destemperada parece coisa de gente perturbada.

Claro que o imparável Presidente Marcelo não podia perder a oportunidade de cavalgar a onda. Onda que é onda tem o Prof Marcelo a surfá-la. Imagine-se se é uma onda benta, como é o caso desta que, não apenas é benta, como, cereja em cima do bolo, é papal. Marcel Surfistinho upa lá-lá na onda papal. Tá certo, não tem como enganar.

Neste momento, se o Moedas era o dono da obra já não o é. Num salto cataventista Marcelo tornou-se ele mesmo o dono e gestor da obra (até quer estar ao corrente das reuniões de obra, quiçá até conferir os autos de medição), mas mais que isso: tornou-se o negociador com os fornecedores, quer descontos, o urbanista, o arquitecto de obra, o engenheiro civil, o decorador, creio que, até, o promotor turístico. É obra. 

Neste ínterim, arranjou uma bronca com o Patriarcado que o desmentiu, dizendo que ele não se fizesse de anjinho porque já sabia muito bem que se ia gastar os olhos da cara. Ele ofendido. Que é lá isso? Não sabia nada. A gente a rir com a revista à portuguesa. Mas eis que, logo a seguir, veio um Bispo, creio que auxiliar e américo, armado em santinho magoado, a branquear a baderna que estava ali a armar-se e limpar a barra do Marcelo, que, aos microfones (sempre na ribalta, o bom do Marcelo), não escondeu o alívio. É muito jogo.

Os asteroides a rasar os ares e a malta entretida a brincar aos organizadores de arraiais e cavalhadas com preces, orações e muitos milhões à mistura. Só falta mesmo um traveca musculado, mascarado de padre com cueca de fio dental, saltar para o estúdio, invadir as televisões, pegar no microfone e expulsar os apresentadores dizendo que só ele tem competência para falar de tão sagrado tema. Ámen.

Portanto, não sabendo eu já onde está o alfa e o ómega disto tudo, muito menos sabendo traçar a bissectriz entre vectores tão sagrados e tão profanos, todos divergentes entre si, alieno-me e deslizo até outras paragens. Bora comigo?

E é assim que, com vossa licença, vou mas é partilhar uma passagem de modelos que se situa num outro patamar. Os vestidos estão ao lado ou à frente ou, até, de pernas para o ar. De vez em quando, oh surpresa, vão no sítio. E eu, olhando-os e achando-os lindos, fico até a pensar se não estará na hora de me casar vestida de noiva, quiçá até aproveitando o cenário das Jornadas do Marcelo. 

Casada e com a bênção do Papa...? -- perguntarão vocês, disfarçando a ironiazinha. 

Qual Papa? - perguntar-vos-ei eu.

Mas, antes que me esclareçam, logo vos responderei: Ná. Pelo próprio Santo. Pelo São Marcelo.

Viktor & Rolf turn Paris Fashion Week upside-down

Um dia bom

Saúde. Cabeça no lugar. Paz.

terça-feira, novembro 23, 2021

Pinto da Costa -- Jorge Nuno e Alexandre Jorge -- , FCP, SAD, Pedro Pinho, Bruno Macedo - o que os une?
Será que declamam poesia tão bem como o Papa?

 

Devo dizer que de futebol percebo zero. Das SAD menos ainda e, aí, está bom de ver, já estou no negativo. Conselheiros, ajudantes, assessores e etc ainda menos. Vê se pode. Negativíssimo, portanto. 

Isso não quer dizer que não me faça um bocadinho de impressão a movimentação de milhões de que sempre se fala quando se fala de comprar e vender jogadores, direitos disto e daquilo. Mas faz-me impressão se calhar por, nestas coisas, ser muito labrega. Assumo. Sempre me mantive à margem. Não conheço nem de factos nem de leituras. Zero. Bola. Não me assiste.

De um lado da balança está a imensa mole humana que vive do salário mínimo e, portanto, não paga impostos e, no extremo oposto, estão os que ganham mais por dia do que os outros em vários meses. Se calhar estes pagam impostos que compensam o que os outros não pagam. Mas não sei pois também se ouve falar em offshores ou jogadas de branqueamento ou lavagem. Por isso não sei se pagam o que devem, se declaram o que recebem, se recebem às claras ou por baixo da mesa. Não sei. E, como não sei, não opino. 

Imagino que por trás de cada milhão que se movimente neste ofuscante mundo do futebol estejam advogados que zelam para que a coisa seja bem feita. Optimização fiscal, chamam-lhe. Fiscalistas. Gosto de falar com fiscalistas. Sabem tudo. Conhecem cada buraquinho na redação das leis, sabem como ir atrás da aberta que aqui e ali foi deixada. São prudentes, não gostam de pontas soltas.

Mas, ao que se diz -- mas lá está, isto é a gíria, vox populi, o diz-que-diz-que -- a coisa não se fica pelas transferências. Estender-se-á a favorecimentos, a arbitragens, a comissões, à raia miúda. Falava-se em fruta mas fruta era apenas metáfora pouco erudita, em esquemas que metiam frequentadores de bares de alterne, coisa já ao nível do bas fond. 

Se era só fumo ou se havia fogo isso não sei, nunca acompanhei. O mundo real às vezes é destituído de embalo poético. A sua rudeza cansa-me. Desligo-me e não quero saber se as notícias são fake ou apenas bem temperadas de imaginação.

E agora é o grande Jorge Nuno, o Papa da coisa, mas ainda está fresco o cheirinho a barracada da grossa com o Vieira do Benfica. Cara e coroa da mesma moeda, dizem. Só que enquanto o Vieira é pouco escolado e de origens plebeias e, sentimentalmente, homem de uma só mulher, o grande Jorge Nuno, berço bem enxovaladado, de estudos e, para coroar, é de amores flutuantes. Já teve várias mulheres, algumas das quais por duas vezes intercaladas. E há aquilo de saber poemas de cor e de gostar de declamá-los. Consta que, no intervalo das Manuelas, Fernandas, Filomenas ou Carolinas, há as Elisas e outras que tendo ouvido o desfiar de poemas sobre jantares bem regados, se renderam, coração amolecido, corpo indefeso.

Claro que isso não virá ao caso pois consta que o Rosarinho Teixeira é mais dado a um thriller bem empecilhado do que a uma bem dita tirada poética. 

Ou seja, vou ficar-me por aqui pois não sei o que se pode dizer sobre este caso. 

Só espero é que, se houver coisa, o dito Rosarinho, abençoado pelo Super-Judge Alex, não embrulhem o Vieira no Pinto da Costa, Apito Dourado, Caso Marquês, Miríade, e-Toupeira e Face Oculta tudo metido ao barulho, e os vouchers recebidos por um com os relógios de ouro do outro, as alternadeiras pagas por um com as meias cosidas pela mulher do outro, os copos pagos ao árbitro por um com os rolos postos na mise pela mulher de outro. Milhares de folhas de um enredo em que já ninguém percebe onde é que a coisa começa e onde é que acaba e em que pelo meio uns vão ficando doentes do corpo, outros dementes da alma, outros falecendo, outros deslavando-se em lágrimas. E os anos passando. Ámen.

___________________________________________________________________

Já agora, que nem de propósito, umas dicas para a malta da sacanagem do futebol

Comparando preço - Porta dos Fundos

NB: As criancinhas e os portadores de ouvidinhos sensíveis deverão mantê-los bem tapadinhos. Avisei.


--------------------------------------------

E que esta terça-feira seja um dia bom
Saúde. Ânimo. Alegria.

terça-feira, novembro 09, 2021

Uma miríade de buscas e detenções das Forças Armadas.
Se calhar tinham combinado não entrarem em pânico.
Mas...

 

Havia aquilo das messes. As coisas na realidade só custavam custavam X mas eles compravam por X+g. As Forças Armadas pagavam X+g aos fornecedores. E o g, g de gorjeta, era transferido pelos fornecedores para aqueles que assim negociavam. Ou seja, as Forças Armadas, ou seja, todos os pagam impostos, estavam a pagar para alguns receberem umas gorjetas. Consta que chorudas gorjetas. Ouvi falar em milhões. E quem lhe chama gorjeta, chama gratificação. Ou comissão. Ou fee. Não sei se isso já foi apurado ou se ainda anda enleado nas malhas da Justiça.

Houve também aquilo das armas. Falava-se em roubo e comercialização de armas. A barraca maior aconteceu em Tancos. Não terá sido a única barraca mas foi a mais cabeluda. Mais do que barraca, foi uma barraquinha. Uma historieta marada. Coisa de gatunagem miúda à mistura com alguma mais graúda e tudo condimentado com guerra de bairros, alfama contra mouraria, judite-tropa ou judite-civil. Ou whatever. Uma cambada de malucos e de marados que nunca deixou que se percebesse bem quem era quem na máfia das armas. Claro que ainda anda tudo enleado nas malhas da Justiça.

A nossa Justiça é daquelas badalhocas que já perderam a vergonha na cara, que falam demais, que têm uma língua comprida e venenosa difamando meio mundo e que, dentro de portas, guardam sacos cheios de restos de linhas e de lãs, tudo emaranhado, onde mesmo que se encontre uma ponta e se puxe, não se consegue tirar tão presa estás nos outros fios.

Pois bem. Desta vez parece que a coisa fia mais fino. Coisa digna da Place Vendôme: ouro e diamantes. Não sei se, pelo meio, havia umas e outras para cheirar ou se era sobretudo ouro e diamantes. E eu disse parece pois nestas molhadas em que é tudo ao molho e fé em deus com o Super-Judge Alex à mistura a gente nunca sabe se é mais um dos mega delírios que ele gosta de apadrinhar ou se, pela primeira vez, dali vai sair algum rato. Centenas de agentes, vários suspeitos, vários detidos. Diz o nosso impagável Marcelo que esta investigação só os prestigia. Coisas lá dele. Eu, por acaso, preferia umas Forças Armadas impolutas mas, lá está, inocências cá minhas. 

Seja como for, nada de dramas: tal como uma passarinha não faz a primavera também uma fiada de diamantes não ensanguenta todos os Comandos. Para além disso, claro que todos são inocentes até prova em contrário. 

Mas, a ser verdade que há fumo porque houve fogo e a ser verdade que agiam conluiados, com o espírito de fraternidade que costuma uni-los, cá para mim devem ter combinado uma estratégia das valentes: caso cheire a cocó no beco, nada de pânico.

Mas, com tantas centenas de agentes à solta nas ruas e a farejarem casa a casa... sempre gostava de ter visto como reagiram os ditos militares e ex-militares.

Não é por nada mas só espero que tenham reagido melhor que estes aqui abaixo. A menos que tiritar de pânico também seja coisa que prestigie a tropa. 


E até já