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quinta-feira, dezembro 25, 2014

Em particular para cada um de vós, aqui vos deixo os meus votos de um bom Natal






Como muito bem sabe quem por aqui me tem acompanhado, não sou dada a religiões e, muito menos, a práticas e preceitos de qualquer igreja. 

Mas acredito na bondade, na generosidade, na tolerância, venero a beleza das coisas, respeito, acima de tudo, as pessoas e acho que é para contribuirmos para que a vida de todos seja melhor que vale a pena viver, amo a natureza no seu conjunto e acho que a devemos preservar e respeitar, desejo que o mundo caminhe no sentido do desenvolvimento, desejo que se acarinhe o conhecimento e que se perceba que sem as artes a vida perde grande parte do seu sentido. Acho que devemos estar atentos para podermos detectar qualquer sinal de pedido de ajuda, acho que deveremos dar de nós o que pudermos para, de alguma forma, tocarmos os outros.

Não sei se há alguma religião em que tudo isto encaixe bem. Budismo, talvez? Quem sabe até o catolicismo tal como Francisco, o Papa, o sente. Não sei nem isso me interessa. Não sinto necessidade de me encaixar. Também nunca me encaixei em partidos políticos ou clubes de futebol e nunca senti qualquer necessidade de seguir guiões ou caminhar por carreiros. Gosto de ir escolhendo os meus caminhos, ajustando as minhas opiniões e ir aprendendo, experimentando.




Por isso, no Natal não vou à missa do galo ou outra nem penso no significado religioso da ocasião. Mas gosto de me reunir em família, gosto de oferecer presentes (mais do que de receber), gosto de cozinhar para os outros, gosto de estar entre os meus, de ouvir os seus risos, as suas conversas cruzadas, gosto de sentir o afecto circulando entre nós, gosto de estar por dentro da alegria das crianças.

Nesta altura distribuo-me entre casas de forma a poder estar com todos. Na véspera estou com uns, no dia de Natal o almoço é em minha casa, à tarde e até à noite saímos e vamos para outra casa. Ando carregada de sacos de um lado para o outro, levando comida, presentes, regressando com mais sacos. Queixamo-nos: parece um karma isto de andarmos sempre carregados, a transportar coisas de um lado para o outro. Nestes dias, muitas vezes regressamos a casa às tantas da noite mas, apesar dos sacos, trazemos sempre o coração quente.

Agora tenho uma máquina de café expresso em casa mas, até há uns anos, quando queria uma bica, tinha que ir à rua, a um café. De manhã tenho sempre que beber café. A minha tensão baixa não se compadece com estar sem beber uma café quente e forte. Ora uma coisa que sempre me impressionava quando ia beber café no dia de Natal de manhã (e este 'de manhã' por vezes já era quase perto da hora de almoço) era ver as pessoas que se encontravam sozinhas a uma mesa, almoçando ou comendo uma sandes ou um bolo. Pareciam-me desoladas, tristes, e eu tentava não as olhar, quase como se um pudor me impedisse de testemunhar o seu abandono. Quando se vê isto, não sabemos qual a vida das pessoas, talvez não haja qualquer razão para penas, talvez seja uma opção que não comporta qualquer tristeza, mas eu ficava sempre com o coração apertado pensando que, se calhar, eram pessoas sem família, que se viam no dia de Natal sem ninguém com quem estar.

Sei que há Leitores e Leitoras que estão nessa situação porque me têm escrito e me têm contado das suas vidas. Alguns ou algumas vivem apenas com uma mãe ou com um pai de idade, outros vivem mesmo sozinhos, ou porque não têm família ou, porque, por razões da vida, é como se não a tivessem.

É nesses, em especial, que hoje penso. Gostaria que lessem estas minhas palavras como um gesto de afecto, quase como se estas minhas palavras pudessem ser a companhia que lhes falta.

Como o tenho dito várias vezes, quando aqui escrevo tento alhear-me das pessoas para quem escrevo para que as palavras se soltem livres. Mas hoje não. Hoje escrevo a pensar nos que gostavam de receber um sorriso, um abraço, uma palavra amiga.

Por isso, a todos eu desejo que, neste Natal, de uma forma ou de outra, se sintam acarinhados e felizes ou, pelo menos, não sozinhos. E a todos agradeço do fundo do meu coração pelas palavras, pelo afecto, pela presença, por tudo quanto me têm dado.

Por estes dias tenho recebido muitos mails. A todos o meu muito obrigada pelos votos e pelas palavras simpáticas que me dirigem. Infelizmente, não vou poder responder individualmente a todos pois já sabem que o meu tempo é sempre contado. 

Portanto, este post hoje é para cada um de vós em particular, para os que me escreveram e a quem eu não respondi, para os que me visitam e cujos nomes conheço, para todos aqueles cujo nome não sei mas que estão aí, presentes e amigos, para aqueles a quem, de alguma forma, acompanho.


A todos eu gostava de formular os meus votos, deixando uma palavra minha como se pudesse deixar um presente ou uma parte de mim.


E, assim, numa ordem perfeitamente arbitrária, estes votos cheios de carinho vão
para a Maria de que há tanto tempo não tenho notícias e em cuja difícil tantas vezes penso, para a Maria Clotilde, amiga, sensível e a quem desejo que os seus meninos a estejam a encher de alegrias, para a Maria da Conceição, tão simpática que me deixa tão contente sempre que tenho mail dela, para a Ana, sempre tão presente e querida, tão presente, para a outra Ana que gosta de livros e das palavras, para a Erinha, pessoa tão especial e que um dia hei-de conhecer ao vivo e de quem espero ter um dia livros de poemas para ler, para a Isabel das Palavras, amiga dos meninos e a quem os meninos tanto querem, para a Sol Nascente, mulher tão parecida comigo, para a Maria Eduardo, que deve andar a tratar da família e que é tão simpática, para a Carlota que está aí desse lado, para a Isabela que desfia saudades e palavras que parecem mágicas mas onde se pressente a pele e o sangue e as lágrimas, para a Sara, lutando pela sua vida, para a Antonieta de quem tenho saudades, sempre tão conhecedora de livros e palavras, para a Leanora, quase eu ao espelho, que eu sentia sempre tão vibrante e cheia de vida, para a Margarida-Guida, a menina que os meus meninos amam, para a Margarida-Margarida sempre tão assertiva, para a Margarida-Maggie, minha amiga sempre cheia de flores nos braços e afectos no coração e sonhos no olhar,
para a Sónia que está longe mas é como se estivesse aqui tão perto, para a Helena que também não sei por onde anda, para a Bárbara Helena, mulher de fibra que suporta como uma leoa a vida que lhe calhou viver e que sorri porque sabe que a vida, apesar de tudo, lhe reserva sempre inesperadas alegrias, para a Eva que talvez tenha ido por esse mundo fora, para a Lia que há tempos que aqui não deixa um alôzinho, para a Eli, professora cheia de raça e energia, para a Isa que também não sei onde anda, para a Izzy cujas palavras gosto muito de ler, para a Madalena de quem não tenho tido notícias, para a JV, essa menina-mulher tão cheia de energia e confiança, para a Olinda, a querida Olinda com um xaile de seda e uma arca enorme de onde saem poemas, histórias, afectos, e que está perto como se a pudesse ver na janela da frente, para a Maria Luísa tão simpática e com cujas palavras tanto me identifiquei, para a Rita que tem um traço cheio de poesia e graça, para a Patrícia que é uma mulher de armas, uma guerreira de sorriso suave, para o Alexandre de olhos puros como o céu e que escreve como um príncipe (mesmo quando fala de números), para a Ana Cristina que eu gosto tanto de ler e cujos recomendações são ordens para mim, para a Rosário que vem como uma rosa,
para a Rosa que chegou há pouco e veio cheio de alegria, para a Teresa-Teté que é uma simpatia, sempre de braços abertas, uma mãezona e uma super-avó, para a Maria Teresa que me lê nas noites de insónia e cujas histórias eu adoro ler, para a Teresa-Tita que, apesar de andar caladinha, eu espero que esteja bem, cheia daquela energia transbordante que me sabia tão bem ler, para a Irene que é tão discreta e amável, para a Redonda cuja companhia sinto nas noites em que por aqui me deixo ficar a escrever, para a Lúcia de quem não tenho notícias, para a São que é tão simpática, para a Maria do Carmo, que é rápida no gatilho e de uma pontaria que não falha, para a Alice rodeada por alfazema que tem palavras frescas como a das crianças, para a GL que é solidária e simpática, para a Leonor que eu lia e me lia e me escreveu no meio dos seus enormes problemas e de quem nada sei e em quem tanto penso, para a Ivone que talvez não saiba como gosto do que escreve, e para a Mariana, tantas vezes censora e de quem não vou dizer mais nada e ela sabe porquê, para MN, e para o Joaquim, amigo, amigo, amigo, poeta, fotógrafo, viajante, para o João sem mais palavras, para o João tantas vezes tão duro comigo e cuja opinião tanto prezo, para o João Cerqueira, autor tão premiado internacionalmente e que sente a falta de reconhecimento dentro de portas, para o José, meu amigo recente mas a quem tanto quero e a quem desejo que a inspiração e a jovialidade nunca o abandonem,
para o que tantas vezes não concorda com o que escrevo mas, paciência, fazer o quê?, para o José que ama os números, as palavras, a terra, que cultiva poemas e afectos, para o jrd a quem tanto admiro pela concisão, oportunidade, delicioso sentido de humor e gosto pela vida, para o P. Rufino, contador de histórias, assertivo, frontal, divertido, companheiro de escritas, para o dbo, presença amiga, palavras cinzeladas com estima, opiniões francas e directas, para o Rui por quem sinto admiração e estima e a quem desejo muito sucesso e uma vida feliz, para o Jorge que um dia pensou que me tinha ofendido mas que eu logo perdoei, para o Jorge lá longe que gosta de vir passear cá pelas terras de Pessoa, para o Jorge que sabe ver para além da superfície e me deixa a pensar e que descobre a poesia nas águas que correm, nas árvores, nas sombras, nos corpos que se abandonam, para o Francisco cujas palavras não perco, um modelo de equilíbrio e diplomacia, para o Luís Filipe cuja poesia ora é uma arma ora é um laço de afecto, e, para o Domingos, tão simpático, tão cavalheiro, para o Henrique que é de um tal fulgor na escrita e de uma tal acutilância nas observações que desperta a minha curiosidade, para o Daniel de quem não tenho tido notícias, para o Tiago que também não sei onde anda, para o para o José Catarino cujas palavras não perco por nada, palavras que vêm com terra nas mãos, palavras genuínas, para o Bartolomeu que gosta de atravessar os montes na sua nave de sonhos, para o António de quem tenho saudades,
para o Eufrásio que amanha o mar como quem semeia palavras e as vê crescer, dando cravos vermelhos da cor da carne e do sangue, e para o Lino que chega com palavras cheias de silêncio e afabilidade, para o Rafael que anda por onde?, para o Luís Bento que sonha livros e desenha histórias, para o Fernando com quem tanto aprendo e a quem me sinto sempre agradecida quando leio o que escreve, para o Luís com cujas palavras tantas vezes não concordo mas cuja escrita me prende e a quem desejo muita sorte, muita, muita, para o outro Luís que tanto enfrentei e que tão mal me respondeu mas que sempre respeitei pela escrita desabrida e escorreita, para o Pedro que me diz palavras tão solidárias e que tanto me incentivam, e para o outro Pedro, menino rebelde que ama as palavras mas que por vezes as usa para ferir os outros, ferindo-se também com elas, e para o outro Pedro que alguns tomam por meu alter-ego e por quem sinto uma amizade constante, desinteressada, e em quem penso como se ele fosse meu amigo de verdade,
e para o Eduardo que desfere palavras como setas, para o André a quem eu gostava tanto que saísse o euromilhões e a lotaria e que todas as portas se abrissem para o acolher e que todos os afectos o rodeassem, para o Nuno que anda onde?, para o Patrício que chegava das ilhas com palavras de poetas, para o Carlos que soltava os cachorros quando eu defendia o Sócrates e todo se empolgava a defender o Passos Coelho, para o Manuel que anda tão silencioso, e para o Salvador com quem tanto gostei de trabalhar em conjunto apesar de sermos tão diferentes um do outro, para o Carlos que anda por terras de reis e rainhas e que é tão recto, tão boa pessoa e que vai ter uma vida muito boa porque faz por isso e merece, para o Puma que salta de vez em quando para dizer palavras certeiras como se se atirasse à jugular, para o Edgar, para o Soliplass que é tão diferente e especial que parece inventado e que atravessa os mares e alcança as nuvens e habita os bosques e se aquece nas lareiras e não esquece a terra daqui, para o MCS que é tão oportuno, tão bem humorado, tão guerreiro, para o Cine Povero cujos vídeos contêm luz, poesia e música e me encantam e que me deixam com vontade de ser capaz de fazer coisas assim, para o Humberto, um cavalheiro, um cavaleiro, uma pessoa tão simpática que me leva a pensar nele como num amigo de verdade, para o Bob Marley que tantas vezes comenta com sentido de oportunidade e tantos links interessantíssimos aqui deixa, para o Eduardo com quem aprendo muito e cujas palavras e músicas tanto me agradam deixando-me sempre à espera de mais,
para o Vítor que é tão simpático e tanto me apoia, para o Firme que é um lutador, um divertido, uma presença amiga, para o Zé Luís cujas palavras atravessam o espaço mesmo que sem cartas de marear, deixando que a poesia se solte pelas nuvens, para a Alexandra, mulher de contradições, pronta para a briga, cheia de graça, para a Estrela, uma luz que brilha limpa na serrania, para a Joana, uma voz livre, para o que é um terrorista amável que me traz lembranças da minha terra, para o Xilre, essa voz que conheci há pouco mas que me inquieta e aquieta como poucas, para o Carlos que traz a física para os dias que correm e que tem uma forma graciosa de mostrar a sua bravura, para o JM que é divertido, directo, polémico e simpático, para o Plúvio que é de uma tal precisão linguística que assusta, uma lâmina que venera as palavras não permitindo um deslize, para o António que percorre a blogosfera, as redes sociais, a literatura de cordel e, implacavelmente, não deixa pedra sobre pedra, para o Jumento que é um compêndio inesgotável e cujas palavras, tantas vezes, poderiam ter sido escritas por mim, para a Anabela, ímpar senhora perguntadeira, para a Cristina que vive entre livros e memórias e que é muito amável, para a Raquel que é uma lutadora, uma força da natureza e a quem desejo que encontre o caminho certo para mostrar todo o seu valor, para a GG, outra lutadora, uma sobrevivente que gosta de ajudar os outros e que descobre coisas fantásticas, para o Amílcar que tem um conselho amigo quando sente que eu preciso, para o Filipe que tem a poesia nas veias, para a Lídia, a Lovely Lídia, a desbragada, divertida, bem informada, inspirada Lídia - e para todos os outros cujos nomes não referi por desconhecimento ou por não me ter lembrado, facto pelo qual, antecipadamente, me penitencio.
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As fotografias são de Emmanuelle Brisson com excepção para as duas anteriores e a que se segue que são de Robert Robert Mapplethorpe.

A música é Spiegel im Spiegel de Arvo Pärt interpretada por Filipe Melo no piano e Ana Cláudia Serrão no violoncelo.
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Feliz Natal a todos. 


terça-feira, dezembro 23, 2014

"Alzheimer espiritual", "terrorismo da má-língua", "carreirismo", "oportunismo" são algumas das 15 doenças da Cúria que o Papa Francisco denunciou perante o incómodo de bispos e cardeais. [E, a propósito de maldade extrema, alguém sabe quem é a Rainha da Tortura, a tão enigmática 'Queen of Torture'?]


No post abaixo partilhei o episódio especial de Downton Abbey feito para ajudar a angariar fundos numa festa de beneficência anual inglesa. É uma paródia pegada e é um prazer ver aqueles personagens a divertirem-se tão abertamente. É que não são apenas os actores que se divertem, são os próprios personagens. Uma festa.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


E, se concordarem, vamos com The River Live na interpretação de Joni Mitchell.





Devo dizer que quando ando com um tema atravessado mas não sei por que ponta lhe pegar, temendo não o fazer da forma mais apropriada, parece que fico com as ideias presas pois tudo o que não seja aquilo em que estou a pensar me parece coisa pouca.

Podia falar e pronto, desaparecia a ânsia. Mas não se pode falar com ligeireza ou leviandade de temas que devem pesar, doer, ferir a nossa consciência. Nem se pode errar.

Ora nem eu tenho tempo para grandes investigações nem tenho a disponibilidade mental para me livrar da ligeireza que, por vezes, parece cobrir a minha escrita. Estou cheia de trabalho e, pelo meio, tenho que arranjar tempo para pensar no que tenho que comprar para preparar a parte que me compete na ceia de Natal que não vai ser em minha casa e mais os ingredientes para o almoço que vai ser cá em casa e mais presentes de última hora e mais as coisas normais de casa.

E, enquanto isso, ando com a maldita ideia que não me sai da cabeça. Já pensei passar ao lado, ser-me-ia mais cómodo não me aventurar por territórios que não conheço, que não vejo na nossa imprensa, que não me é fácil confirmar. Mas como, se isso por aqui anda permanentemente a tolher-me os movimentos? 

Ainda não vai ser hoje mas, para ver se me amarro já a um compromisso de forma a não poder libertar-me, digo já que o tema é a tortura.


A tortura a que os Estados Unidos submeteram prisioneiros, sevícias impensáveis. Através de relatórios falsos em que se fazia a apologia da eficácia de métodos bárbaros, indignos, desumanos, os EUA foram-se auto-desculpando e ganhando a cumplicidade de muitos Estados para poderem continuar a fazê-lo.


Afinal, sabe-se agora, aquela barbaridade era contraproducente em termos de resultados de interrogatórios, e, portanto, de uma ponta a outra, tudo não passou de um embuste, de selvajaria gratuita.

Os portugueses como vários outros povos sabiam e fechavam os olhos. Aviões com prisioneiros...? Ora, deixa-os estar. Aliás, é bem capaz de tudo não passar de mais um desmando da Ana Gomes. E, como temos sempre mais com que nos ralarmos, mostramos que não estamos nem aí.

Ou seja, lavamos as mãos, coisa em que somos especialistas - nós e quase todos os outros. Quando se trata de não ver o que não quereremos ver, é como se fossemos acometidos por uma oportuna cegueira branca.

E isso custa-me muito. Que raça de gente somos nós que nos desinteressamos mesmo quando, no fundo de nós, sabemos que temos razão para suspeitar? Porque deixamos que alguém torture outro ser? ....Porque pensamos que são terroristas e que, portanto, é bom que se faça de tudo para se lhes arrancar confissões? Mas e se não forem? E será necessário fazer-lhes o que agora sabemos que lhes fizeram?

(...) Para além da simulação de afogamento ou da privação de sono (que no caso de um detido ultrapassou sete dias seguidos), o documento refere a imposição de “alimentação anal” e “reidratação anal”, assim como suspeitos com ossos das pernas partidos obrigados a permanecer de pé, acorrentados à parede. O problema não é apenas cada um dos métodos, mas as consequências provocadas pela sua utilização em conjunto, como a simulação de afogamento ou da execução de um detido combinada com privação de sono ou com longos períodos de isolamento. (...)

No entanto, há um pormenor que ainda me angustia mais em tudo isto. Se bem percebi, quem estava por trás de tudo isto, quem ordenava, quem engendrava os procedimentos cruéis, quem chegava a conduzir sessões de sofrimento infligido, quem fazia relatórios enganosos, quem tinha tamanha malvadez dentro do corpo, era uma mulher. Uma oficial da CIA. 


Se bem percebi, as fileiras cerram-se agora em torno desta mulher que não se identifica, que ninguém identifica, que ninguém sabe quem é. Uma mulher. A Rainha da Tortura. Arrepia-me, aterroriza-me pensar numa coisa destas.


Mas temo não ter percebido bem, temo meter-me por caminhos ínvios, por labirintos dos quais não saiba como sair e, por isso, hoje não vou falar nisso.

Mas aqui fica expressa a intenção: a ver se um dia destes, com mais certezas, consigo escrever alguma coisa sobre assunto tão maligno.


Por isso, não falando nisto, quero apenas dizer que, uma vez mais, Jorge Bergoglio, o Papa que me faz ter vontade de me aproximar da Igreja (porque, para mim, Igreja é isto, um lugar de verdade e de inclusão, não um lugar de preconceito e expiação), me voltou a surpreender - tal como terá surpreendido meio mundo.



O Papa Francisco e os 15 pecados que habitam a Cúria


[Permito-me transcrever na íntegra um artigo. Trata-se de um texto intitulado "Do "Alzheimer espiritual" ao "terrorismo da má-língua" - Papa denuncia 15 doenças da Cúria", foi escrito por Ana Fonseca Pereira e publicado no Público.]




Enganaram-se os bispos e cardeais da Cúria que nesta segunda-feira entraram na ornamentada Sala Clementina esperando ouvir as tradicionais felicitações natalícias. 


No discurso aos dirigentes do governo central da Santa Sé, o Papa Francisco denunciou, uma por uma, 15 doenças que afligem a hierarquia da Igreja, do carreirismo, à ganância e ao “terrorismo da má-língua”.


Francisco denunciou com uma severidade inédita as tramas e os métodos daquela que é, desde Março de 2013, a sua “corte”, numa intervenção temperada com palavras de incentivo e até algum bom humor. 

Mas quem assistiu ao discurso, que o correspondente da AFP descreveu como “um banho de água fria”, diz que na sala se viram muitos rostos fechados e tensos. 

A atmosfera contrastou com a informalidade da audiência seguinte, quando familiares e funcionários do Vaticano encheram o auditório Paulo VI e ouviram o Papa elogiar os homens e mulheres “invisíveis” que garantem o funcionamento da cidade e da sua administração.

Uma forma de agir que já se tornou habitual no Papa argentino – que no dia do seu aniversário almoçou com os trabalhadores da residência de Santa Marta e mandou distribuir 400 sacos-cama pelos sem-abrigo de Roma –, mas que promete ressoar muito tempo pelos corredores do Palácio Apostólico, tal a dureza das palavras proferidas. Andrea Tornielli, vaticanista do La Stampa, sublinha que em nenhum momento Francisco referiu nomes e fez questão de dizer que os pecados que trazia listados “são um perigo natural para cada cristão, cada cúria, cada comunidade”. “No entanto, identificou-os claramente como estando presentes no ambiente que o rodeia há 21 meses”, escreveu o jornalista, numa alusão às notícias sobre o clima de conspiração e à oposição cada vez mais audível de alguns sectores do Vaticano às reformas que pôs em marcha na Cúria.

Em vésperas de Natal, o Papa convidou os cardeais a fazerem um “verdadeiro exame de consciência”, pedindo perdão a Deus, “Ele que nasceu na pobreza numa caverna em Belém para ensinar a humildade” e foi acolhido “não pelos eleitos”, mas pelos “pobres e simples”. Ao contrário, afirmou, a Igreja de hoje padece de “infidelidades” ao evangelho e está ameaçada por doenças que é urgente “tratar”.

Numa lista exaustiva, Francisco fez o diagnóstico de 15 enfermidades, descreveu sintomas e apresentou remédios, de uma forma “tão lúcida e conhecedora do assunto em causa que voltou a abalar o estereótipo de um latino-americano que não está habituado às ‘complexidades’ de Roma e da Europa, o argumento que os seus críticos tentaram usar para o neutralizar”, escreve o site Vatican Insider.

Criticou os que ficam demasiado presos à burocracia, os que recusando abandonar as suas tarefas “se esquecem que o mais importante é sentar-se aos pés de Jesus”, ou aqueles que, pelo cargo que atingiram se julgam essenciais e a quem convidou a visitarem os cemitérios “onde estão tantas pessoas que se consideravam indispensáveis”. Foi mais duro, quando denunciou o “Alzheimer espiritual” dos que se afastaram de Deus e “vivem dependentes das suas paixões, caprichos ou obsessões”, ou quando criticou os que se tornaram “vítimas do carreirismo e do oportunismo”, os que protegem os interesses de um círculo fechado e os que “tentam preencher o seu vazio existencial arrebanhando bens materiais”.


Denunciou uma vez mais a cultura da má-língua, mas com palavras duríssimas para um Papa: trata-se, afirmou, da  “doença dos cobardes”, dos “semeadores da discórdia” e “assassinos a sangue-frio” da reputação dos seus irmãos. “Tende cuidado com o terrorismo da má-língua”, afirmou, antes de exortar os presentes a trabalharem pela unidade da Igreja.


Para temperar o duro sermão, Papa terminou com uma nota de bom humor – recordou ter lido algures que “os padres são como os aviões, só são notícia quando caem” – e pediu a todos que mantenham no seu ministério uma boa dose de “auto-ironia e sentido das limitações”. Mas, no final ouviu-se apenas um aplauso tépido e o ambiente continuou pesado mesmo quando Francisco saudou um a um os cardeais para, por fim, lhes desejar Feliz Natal.


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Grande Francisco. Corajoso Francisco. Bem podemos e devemos rezar por ele como ele tanto nos pede.

Que as suas palavras ecoem por todos os centros de poder sejam eles a Cúria, a CIA, os Senados deste mundo, os Bancos das praças financeiras deste mundo, as Comissões (Europeias ou outras), os aparelhos de Estado ou os aparelhos partidários, numa escala global ou numa escala mínima - que parem todos para pensar na vã ilusão da imortalidade e da inimputabilidade, que percebam a sua cobardia e arrogância, que se envergonhem e arrependam.

E que todos aprendamos a cultivar a bondade, a generosidade, a auto-ironia, o sentido das limitações e, já agora, por favor, o bom humor.

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Para Francisco I, com agradecimento e afecto, um tango

Mariposa



Grupo Corpo, música de Ernesto Lecuona

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As fotografias são de Emmanuelle Brisson 

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Relembro: caso vos apeteça ver o vídeo feito por graça pela equipa de Downton Abbey com a participação especial de George Clooney (que esbanja o seu charme pelas mulheres da família, nomeadamente pela impagável Avó Violet), desçam, por favor, até ao post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

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