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sábado, junho 26, 2021

Um ministro com sentido de humor
[E outras cenas cá minhas]

 



No outro dia contei que quando fui ao supermercado trouxe um little vasinho com uma hortênsia? Acho que sim. Tinha ideia de pô-la num vasinho ma escadinha da frente, perto do vaso bonito onde está a suculenta jeitosa. Mas não sabia onde arranjá-lo. Hoje, de manhã, quando dei por ela estava a florzinha toda murcha. Não as folhas mas a flor em si. Fiquei aborrecida. Peguei no vasinho e pu-lo no lava-louça, debaixo da torneira. E resolvi que tinha que arranjar o vaso. Sem saber onde desencantar vasinhos lindos, pensei que, nem que fosse de cimento ou terracota, haveria de ter onde instalar a hortênsia.

Ora é sabido que é o tipo de coisa que tira o meu marido do sério: acha que não são precisas nem mais flores nem, claro está, mais vasos. Não quer ir comprá-los, não quer que eu vá aumentando o parque de vasos a regar. Mas eu disse que, sem problema, ia sozinha. Ficou ainda mais irritado, acha que eu dizer isso é uma forma de pressão. Mas não é. Resumindo: contrariado, à hora de almoço, avisando que era 'para despachar', lá fomos à loja dos vasos. 

Ao chegar lá, mal estacionou, repetiu: 'É para despachar'. Nesse comprimento de onda, ao chegar lá, olhei em volta e inclinei-me para um em forma de cálice. em cimento. Perguntei-lhe o que achava. Seco: 'Não gosto. Parece coisa de igreja'. Pedi que escolhesse ele. Disse que não, que pegasse num qualquer, que por ele qualquer um servia. Isto depois de ter rejeitado a minha primeira opção. Apontei outros. Disse que sim. Trouxe um simples, sem história.

Quando íamos para a caixa, vi no corredor, no chão, um vasinho de cerâmica esmaltada, bonito. Fui perguntar à empregada se era para venda. Nem sabia do que estava a falar. Descrevi-o. Disse que havia vasos de louça ao fundo da loja. Fui ver e, apesar de não encontrar nada das belezuras que gostava de trazer, descobri um verde, simples, discreto e bonito. Perguntei ao meu marido se gostava. Já estava farto, queria ir-se embora, pelo que a resposta foi curta: 'Não sei'. Eu disse que achava bonito. Ele: 'Faz o que quiseres. 

Trouxemos.

Depois de termos chegado da faena dos vasos e quando estávamos a almoçar, já perto das duas, o meu marido piurço porque já era tarde e tinha muito que fazer, chegou a minha filha com os seus rapazes. Três dias de férias que teve a sorte de gozar com um fantástico tempo de verão. Estiveram ali um bocado, à fresca no jardim, até que se fez horas de irem para a praia. Andarem a espantar formigas e a tirar a casca a pinhões. O mais crescido já me ultrapassou. Parece mentira mas é verdade. A voz já começa a dar sinais de querer mudar e, quando se veste e despe já tem vergonha que lhe vejamos a pilosidade que começa a despontar com força. Ainda há tão pouco tempo me fez pregar um susto dos valentes ao avô. Já contei mas gosto de recordar esse dia inaugural. O meu marido foi trabalhar mas eu não. Estava na clínica. Uma pilha de nervos. Quando soubemos que tinha nascido, que estavam os dois bem e quando a vi a sair na maca sorrindo, feliz, feliz e quando vi o bebé pequenino, fofo, querido, fiquei tão avassaladoramente emocionada que logo quis dar a novidade ao meu marido mas, quando quis falar, não consegui. Queria dizer-lhe: já és avô. Mas só chorava. E nem bem isso. A voz embargada, um solução prendendo as palavras. Do outro lado, ele assustado: Que é que aconteceu? E eu, querendo falar e sem conseguir. O que foi? O que aconteceu? e eu a perceber que estava a assustá-lo mas sem conseguir falar. Até que, com muito esforço, lá consegui. Uma felicidade imensa. Um novo serzinho nas nossas vidas e a minha filha também tão feliz.

E agora, meia dúzia de dias depois, já me põe o braço pelos ombros, encosta a sua cabeça à minha, uma ternura, um menino muito querido. E já mais alto que eu.

A tarde foi tranquila e concentrei no fim da tarde as tarefas que requeriam mais atenção. Depois fui buscar terra e transplantei o meu vasinho pequenino para o vaso novo. Acho que fica ali bem. Não é a mesma coisa que o outro mas acho que não desmerece.

E fui regar os outros vasos. 

Também tive uma visita ao fim da tarde. Uma conversa animada, cheia de revelações e risos, com um lanche apalavrado. 

Tirando isto, o que tenho a dizer é que o sentido de humor britânico do ministro da Saúde me parece delicioso. Tendo o The Sun publicado fotografias dele, no seu gabinete de trabalho, aos beijos na boca e com a mão no rabo de Gina Coladangelo, sua assessora, ambos casados e com filhos mas cada um com seus respectivos cônjuges, eis que Matt Hancock veio publicamente assumir e lamentar que tenha quebrado o distanciamento social. Igualmente divertido a reacção de Boris Johnson: accepts Matt Hancock’s  apology for breaching social distancing rules and ‘considers matter closed’.


E eu, para além de achar que, depois da barracada e do susto que é ter a sua fotografia no tablóide, Matt Hancock revelou um sentido de humor fantástico, só me ocorreu a sorte que ainda temos por a imprensa em Portugal ainda não ter chegado ao despudor de apontar objectivas de longo alcance para dentro dos gabinetes de muito boa gente. É que, há uma regra sagrada: o que se passa da porta para dentro supostamente fica da porta para dentro. Mas não no Reino Unido. Uma pouca vergonha. 

Mas imagine-se a chicana que por cá não seria -- as puritanas as rasgarem as vestes e os diáconos a lamberem-se pelos cantos -- se o Correio da Manhã apanhasse um ministro, sei lá, talvez o da Defesa (acho que o Cravinho tem uma certa pinta), aos beijinhos e abraços com uma sargenta, fosse num quartel, fosse no seu gabinete. Mas isso seria o expectável. Pinta, pinta, teria o ministro se, perante a cegada e o drama doméstico incontornável, fizesse o mesmo: pedisse desculpa por ter quebrado a regra do distanciamento social. 

Enfim.

E, por agora, é isto. Já é sábado. Fim de semana. Bem bom. A ver se o tempinho de verão se aguenta para ver se eu faço de conta que estou de férias. 

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Os quadrinhos mostram a criatividade de Ali Beckman que diz coisas recorrendo ao nome dos insectos (fly, bee). 

Arpi Alto interpreta Moon River.

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Um dia feliz e luminoso

segunda-feira, março 22, 2021

Os invencíveis tardígrados

 



Para o almoço, tinha pensado fazer bacalhau à Brás porque tínhamos descoberto, na despensa, um saco de batata palha. Afinal verifiquei que o saco era pequeno, batata palha gourmet e, portanto, como geralmente acontece com as coisas gourmet, insuficiente. Então fiz metade à Brás e metade à Gomes de Sá. Claro que toda a gente prefere à Brás. 

Ao jantar comeram resto do cozido à portuguesa de ontem, todos excepto eu que comi fruta e queijo. Como sei que eles são uns gulosos, para a sobremesa, para além da fruta, tínhamos bolachinhas e biscoitinhos. Não deve ser, bem sei. Mas, como todas as avós que são casos perdidos, também eu acho que, logo que regressem ao seu habitat natural, retomarão a dieta adequada. Agora é como se fossem dias de festa. O pior é que tenho a mesma condescendência também para mim. Não vou passar sem uma dieta das valentes o que é um desgosto. 

De tarde fomos passear. O meu marido ficou em casa, certamente deitado no seu sofá, certamente a ver futebol, sossegado da vida. Vão, vão, disse ele. Fomos aqui perto, muito perto. Já tinha estado ali pelo menos três vezes e, no entanto, não tinha visto aquele bocado tão bonito, tão tranquilo e tão verde. Quando se pensa que se conhece uma coisa, um lugar ou uma pessoa geralmente algum tempo depois percebe-se que não conhecemos nem um bocadinho.

A minha filha fotografou-nos. Em algumas fotografias quase desapareço atrás dos rapazinhos, de tão grandes que estão. 

Também estive a ajudar o mais crescido com a matemática: funções e equações. Não estava muito bem. Queixa-se que não gosta muito das aulas online, que não gosta de prender a aula com dúvidas, diz que se fosse ao vivo seria mais fácil. Não sei se é mesmo isso, se é desculpa. À-vontade não lhe falta pelo que acredito que seja mesmo o que diz.

No outro dia foi a vez do mais novo ser entrevistado pela escola: escolheram uns quantos para se pronunciarem sobre a escola online. Estava no meu canto, gosta muito de lá estar. Como não tinha nenhuma reunião àquela hora, cedi-lho. Ouvi-o a falar durante bastante tempo. Gosta de ter aulas assim mas tem saudades dos amigos, gostava de regressar.

Uma vez mais, hoje não vi notícias nem comentadores. E, ao vaguear pelos nossos jornais e pelos outros, só uma coisa despertou a minha atenção. Ando niquenta, de má boca. Nada me diverte, nada me interessa. E desta vez nem foi uma notícia, foi uma fotografia. Enfadada que ando com a seca que são notícias fabricadas, requentadas, reprocessadas, gastas e chatas, é com coisas um bocado do além que me entusiasmo. Mas é um entusiasmo qb pois não tive paciência para ler na íntegra a notícia que acompanha a fotografia. Fiquei foi a pensar na estupidez e na arrogância ignorante de quem se acha o maior ou por ter um grande sucesso profissional ou por ganhar rios de dinheiro ou por ter lido tudo o que há para ler ou por ter nascido destituído de bom senso e acha que o que sabe é tudo o que há para saber. Como se isso os protegesse dos excessos de temperatura, de pressão, de ataques de tosse, de covid e de toda a espécie de adversidades. Qual nada... basta uma coisa de nada para o mais poderoso do mundo cair para o lado e bye bye minhas encomendas.

E depois vem um bicho que mais parece um coiso que um bicho, um coiso insuflado, um coisa saído da imaginação de um qualquer pintor maluco ou um autor de BD e que, não senhor, não é ficção coisa nenhuma, é real e bem real e que, em cima disso tudo, ainda é resistente para caramba. Anda por aí a ser levado para o espaço para ver a quanto resiste e, com aquele aspecto, há-de resistir a tudo. 

E, portanto, daqui por algum tempo não nos admiremos quando percebermos que o romantismo lunar foi irremediavelmente carcomido por tardígrados. Por enquanto, conhecem-nos como milimétricos mas, quem nos garante que não?, um dia destes desatam a crescer e viram monstros devoradores, ocupam planetas, ocupam ovnis, ocupam toda o vasto universo e aparecem-nos de volta para se rirem de nós e, no fim, comem-nos. Cara para isso têm eles.

A quem tenha disponibilidade, recomendo a leitura do artigo do Guardian sobre esta invencível criatura: Tardigrades: nature's great survivors (The microscopic animals can withstand extreme conditions that would kill humans, and may one day help in the development of Covid vaccines. How do they do it?)

E a todos os machos-alfa ou fêmeas alfa, beta, gama ou delta que por aí ainda andam ou a todos os intelectuais de pacotilha ou aos políticos de meia tigela que gostam de se armar ao pingarelho o que tenho a recomendar é que, de cada vez que se achem os maiores, se ponham ao espelho e avaliem o quanto ainda lhes falta para serem tão bons como os bravos coisinhos insuflados, nomeadamente quanto dariam para terem uma boquinha de ventosa assim como a deles. Que beijocas mais boas que haveriam de dar, não era...? 

Tardigrades Are the Toughest Animal on Earth that can Survive Space and Volcanoes

Tardigrades, also known as water bears or moss piglets, are the toughest and probably the weirdest animal species on Earth. Tardigrades are eight-legged micro-animals that can withstand just about anything, from mass extinctions to the vacuum of outer space, to the pressure of the Mariana Trench, the deepest point on Earth, and radiation 1,000 times stronger than humans can handle


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Tenho a confessar que a Arpi Alto está aqui a interpretar Sareri Hovin Mernem apenas porque sim e não porque tenha cara de tardigrada ou porque o que canta sirva para embalar coisos insuflados

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E, para que não pensem que estou numa onda gótico-tremendista, partilho um outro vídeo que é daqueles bons, zen, meditação no seio da natureza

Encontrando a conexão

What we are truly lacking is a connection with the wild world and its rhythms.  Grant takes us out into the Cape Floral Kingdom, where we kick off our shoes and walk barefoot on the earth, touch the bark of a tree, watch a spider spin a web, listen to the birds singing in the branches above.  We reawaken our senses. 

So no matter where you live, get out there and be wild every now and then.  You'll find connection again. 

Filmed in the Cape Floral Kingdom, South Africa.

[No vídeo dá para pôr legendas em português]


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Desejo-vos uma boa semana

quinta-feira, março 18, 2021

Falem-me de árvores, florestas e coisas assim

 


Entre o trabalho e os meninos e a mãe dos meninos e o que vai surgindo ao longo do dia, telefonemas e sobressaltos da minha mãe, outros telefonemas, uns pessoais e outros profissionais e cozinhar e etc. pouco sobra para saber de notícias do mundo.

Da leitura rápida e oblíqua que fiz a bem dizer nada me interessou: parece que há dias em que o mundo não avança. Guerras, dramas, novas variantes, recessão e dramas, corrupções. Ou insignificâncias, maledicências. Telejornais ou comentadores não vejo há que séculos. Já não atino com aquilo, falta-me a paciência.

Esta quinta-feira vem cá o senhor da mercearia trazer os frescos e, portanto, na quarta-feira fiz a encomenda. Os meus hábitos vão-se modificando. Dantes ia ao supermercado, via e avaliava o que havia, decidia na altura. E, ao decidir, fazia combinações, quase que os cozinhados começavam logo a nascer ali mesmo. Agora não: agora, em abstracto, imagino o que posso querer ou confiro bem as quantidades que tenho para calcular o que preciso. Não aprecio muito este método pois, no que não é relevante, sou mais dada ao improviso do que ao planeamento.

Era para ter feito a encomenda de roupa para um dos meninos que está quase a fazer anos mas falta-me ali um passo que tenho que esclarecer durante o dia. Também me aborrece um bocado isto pois gostava de ver, de apreciar a qualidade do tecido, avaliar se seria fácil de lavar. Assim, o mais que posso fazer é ampliar a imagem a ver se dá para perceber. 

Mas, enfim, tem o seu lado prático: não é preciso sair de casa. Talvez o futuro do comércio passe muito por aqui: esmorecerem as grandes superfícies com as suas lojas, lojinhas e vendedores para haver grandes redes logísticas a dar suporte às plataformas online. Vamo-nos desmaterializando. Desmaterializando-nos e deixando que toda a espécie de bicheza, também invisível, nos domine. Vírus, variantes, variantes das variantes. E nós, pobres totós, à mercê. Mas sempre armados em bons. Tem até graça. 

(Uma evolução um bocado estúpida, convenhamos).

Adiante.

A minha filha viu que o ICNF tem 50.000 árvores autóctones para oferecer a cidadãos e proprietários rurais. Já nos inscreveu para ver se podemos ir levantar umas quantas. A ver se chegam para nós. O meu marido ouviu a conversa e não achou muita graça pois não sabe onde tenciono eu plantar aquelas árvores. À partida não sei responder mas hei-de arranjar onde. Plantar árvores é do melhor que podemos fazer pelo mundo. Só quem plantou e cuidou de árvores bebés e as viu crescer até poder estar à sua sombra sabe do prazer maior que é isto de sentirmos que estamos a fazer qualquer coisa de bem pela Terra que nos acolhe. Se formos bem sucedidos, talvez os meninos possam ajudar a plantar uma meia dúzia. As outras quero levá-las para o campo para as plantar in heaven. O meu marido diz que não sabe onde. 

Mas, enfim, falava eu de notícias relhas e velhas. E falava para dizer que, de entre tanto déjà vu, de tanta infelicidade e pouca sorte, apenas uma notícia chamou a minha atenção: a que está na moda plantar cogumelos em casa. Achei o máximo. Cogumelos daqueles vulgares ou daqueles lindos. Acho que vou ter que ler a notícia com atenção para ver como é. Aliás, ando a pensar em ter uma estufa. Aliás, aliás, pensar eu penso em muita coisa. O pior é a disponibilidade para passar à prática tudo aquilo em que penso. O que vale é que não me dá para me sentir frustrada.


E é isto. Ou melhor: lamento mas hoje não passa disto. Para além de ter sono, tenho também falta de assunto. A ver se amanhã faço um update do que tenho cozinhado. Os meninos gostam da minha mão para o tempero e eu sinto-me feliz por ver como comem de gosto. Noutra encarnação devo ter sido estalajadeira, daquelas que iam de mesa em mesa com lautas travessas, terrinas ou tachadas servindo os fregueses.

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Usei imagens totalmente desfasadas da lógica do texto. Mas como também não se pode dizer que o texto tenha grande lógica, acho que talvez passe. O autor, CRUDEOIL 2.0 de seu nome, faz a proeza de introduzir personagens de antanho às modas sociais dos tempos que correm. O resultado é o que se vê. Diz eleMy imagery was born as a critique of society, saturated with social, aesthetic canons, and appearances. This concept is reflected in my works that deal with social media as a new religion and a new creed. To express my intent, I take artworks from the past and re-contextualize them to the present day. Acho que tem graça.

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Acompanha-nos Fields of Gold - Sting (cover por Arpi Alto) e espero que gostem.

E, para acabar, um vídeo daqueles que me inspiram. Espero que inspirem mais pessoas. 

The man who grew his own Amazon rainforest

A corner of the Amazon that had been cleared and used as farmland has been restored to rainforest.

The man who owns it, Omar Tello, gave up his job as an accountant and spent 40 years recreating a patch of pristine forest in Ecuador, stretching just a few hundred metres in each direction.

He’s trying to encourage other landowners to do the same, so they can turn the tide of deforestation.  


Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, março 15, 2021

Crónica de um domingo quase primaveril, quase a desconfinar-se

 


Tenho que dizer que o domingo foi bom. Amanheci com passarinhos a cantar junta à janela e com o anúncio de uma visita inesperada. Muito bom. Uma alegria. Estive a ver as fotografias, grande parte delas nem sequer feitas por mim. E um vídeo. Uma ternura.

Depois foi a tranquilidade do costume, caminhámos, cozinhei, o meu marido jardinou, li sentada no cadeirão do primeiro andar que apanha o sol da tarde e de onde vejo as magnólias cuja cor se adoça com a luz dourada que vem do poente.

Ao fim da tarde tivemos uma call alargada. Falámos, trocámos argumentos, falámos do jardim, de arranjos que queremos fazer-lhe. O jardim é um lugar de encontros, deve ser conversado em conjunto.

Quando lá voltei já estava escuro e, sobretudo, muito frio. Ao fim do dia a temperatura baixa muito, fica mesmo muito frio, mas a meio do dia está-se muito bem, o sol de Março está amável, prenuncia a Primavera. Na horta, as árvores de fruto estão em flor, lindas. E as nêsperas começam a ganhar tamanho e a quererem ganhar cor. A natureza tem infindáveis milagres para nos surpreender -- e, no entanto, há muita gente que ainda não aprendeu a venerá-la.

Sei que não é preciso escrever os nomes dos meses e das estações em maiúsculas mas o devir do tempo é agora tão relevante na minha vida que acho que devo dar algum relevo às etapas que vou percorrendo. 

É bem verdade aquilo que sempre ouvi dizer: à medida que avançamos na idade, o tempo acelera. Muitas vezes, quando penso no meu futuro, ocorre-me equacioná-lo no contexto dos anos de vida que posso ter pela frente com esperança nalguma qualidade de vida. E sei que esses anos vão passar a correr. Por isso, quero aproveitá-los bem, em paz, fazendo aquilo de que gosto, junto daqueles de quem gosto. 

Há quem, a nível profissional, recorrentemente, discuta comigo projectos que supostamente devo conduzir. Tento esquivar-me, digo que são aventuras de fôlego, para gente que tenha longos anos de trabalho pela frente. Respondem-me que contam que eu os tenha. E eu digo que não. Explico que quero, sentindo-me ainda em bom estado, mudar de vida, experimentar novas actividades. Não quero trabalhar até me sentir gasta, cansada, velha. Contestam, acham que é uma desculpa esfarrapada para me furtar a compromissos em que querem que me envolva. É uma discussão que nunca acaba bem e que, para não nos aborrecermos, fica por ali. Até à vez seguinte. Mas tenho esse pensamento muito presente.


Agora à noite, ao ligar o computador, tinha um mail. Trazia fotografias. Orgulhosamente, as fotografias, tal como as palavras, referiam o trabalho feito e o seu autor agradecia o meu apoio, assegurava-me que podia contar com ele e com a sua equipa. Emocionei-me. Sei bem as exigentes e duras condições em que têm trabalhado. Penso que não contavam ver-me lá, no outro dia, entre eles, genuinamente querendo ver o que estão a fazer. No entanto, era o mínimo que poderia fazer. Há pequenas coisas que me enchem de emoção, pequenas coisas que fazem com que todas as horas de trabalho e de stress e de mil canseiras valham a pena. Só espero não os desiludir. E, na minha cabeça, faço contas. Penso no que poderei fazer por eles, em especial por alguns, enquanto ali trabalhar. Há gente tão competente, tão dedicada. Tenho alguma pena que alguns jovens talentosos se tenham ficado pelo 12º ano pois ser-lhes-á mais difícil progredir até onde penso que poderiam ir. E meço o tempo de que preciso para fazer outras alterações, para tentar que obtenham mais formação.

Preocupa-me uma coisa: uma pessoa tende a preocupar-se mais com as pessoas de quem tem oportunidade de conhecer ou acompanhar o percurso de mais perto. Mas há os que trabalham a centenas ou milhares de quilómetros e que, por não terem quem os acompanhe com mais proximidade, não terão as mesmas oportunidades. Há nisso alguma injustiça que não sei como evitar. 

A vida das pessoas é assim mesmo: pode haver muito mérito dos próprios mas a verdade é que a sorte também é fundamental. Há tantas pessoas extraordinárias que fazem tudo o que podem, que dão o litro, que oferecem sugestões, que estão sempre disponíveis para ajudar e, no entanto, não têm o prazer e a alegria de se sentirem reconhecidas, motivadas e realizadas. E isto apenas porque não tiveram a sorte de ter por perto quem lhes desse o devido valor. 

Mas, enfim, é o que é. 

Estamos a meio do mês de Março, está a fazer um ano que entrámos no primeiro confinamento. Estamos a viver um dos períodos mais extraordinários que alguma vez alguém poderia supor, um período sem paralelo nos tempos mais recentes, um período que, como todos os momentos disruptivos, trará alterações no modo de vida de muitas pessoas. Tomara que saibamos ter a inteligência que fazer mudanças a favor das pessoas e do planeta. E estamos a começar uma nova semana e espero que seja uma bela semana para mim e para todos os que, por aqui me acompanham.


Saúde. Boa disposição. Esperança.