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quarta-feira, novembro 25, 2020

Ah... que pena Bosland não ser aqui perto...





Quando chego a uma qualquer terra -- ou melhor, quando chegava... -- mais do que ir logo enfiar-me nos museus, procuro os jardins ou parques públicos. Tenho para mim que a alma de uma terra está nos seus jardins.

Dantes, por cá, era muito amante do Jardim Botânico, lugar romântico e onde já fui muito feliz. Por vezes tinha que vir o seu guardião expulsar-nos, não dávamos pelo passar do tempo. Claro, também, dos Jardins da Gulbenkian, lugar sempre mágico e do qual sinto muito a falta. Até meados de Março, pelo menos à sexta-feira à hora de almoço, ia sempre passear por lá. Ou almoçava num dos restaurantes ou ia ao nepalês ali perto e depois ia para lá passear, quer nos jardins quer nas livrarias. Mal comecei a circular por minha conta e risco pela cidade, era para a Gulbenkian que os meus passos me levavam. As exposições atraíam-me muito, mesmo quando era confrontada com coisas que me deixavam doida de incompreensão. Era, então, demasiado jovem para saber que a maioríssima parte do conhecimento me seria estranha para o resto da vida. O riacho, o lago, os recantos onde poderíamos estar a bom recato, eram outras tentações. Por lá namorei, primeiro com o segundo, depois com o terceiro, por lá tenho andado com os meus filhos desde bebés até agora, e agora também já com os meus queridos pimentinhas que sobem às árvores a que os pais subiam, que vêem os netos dos patinhos que os seus pais viam. 

Havia a Estufa Fria mas coisa sempre organizada demais para o meu gosto. Nunca foi destino de predilecção. Não é bem jardim, muito menos é Parque, é Estufa. Lugar de descoberta mas, na realidade, para mim nunca lugar de espanto e rendição. Com os miúdos também o Jardim Tropical, adoravam as raízes daquelas árvores gigantes, subir e descer e saltar, descobrir, brincar. E ainda o do Palácio de Queluz, bonito mas muito civilizado, muito feito a régua e esquadro, muito estruturado para o meu gosto. Sou mais pela natureza a l'aise, sem coleira ou preceitos.

E ainda me lembro de um amigo me falar do Parque Urbano do Porto. Mora perto, ia contando sobre o andamento dos trabalhos, ia antecipando o lindo que ia ficar. E ficou muito bonito, começa na cidade, vai até ao mar. Não nisso de descer até às águas mas no resto é um parque com afinidade com o Parque da Paz, também uma maravilha. 

Numa altura em que ia várias vezes por ano a Madrid não podia deixar de andar pelo Retiro. Havia sempre alguns musts em Madrid: a loja de lingerie da Serrano que me tirava do sério, tal a elegância e ousadia das suas peças, e os passeios nas belas alamedas e recantos do Retiro. Claro que também as temporárias dos três museus do triângulo ou os petiscos ao início da noite ou aquelas belas zarzuelas de marisco que comia antes de confirmar, a duras custas, que sou alérgica a marisco de casca encarnada -- mas, enfim, isso agora não vem ao caso.

E agora estou a lembrar-me de Monserrate. Aquelas árvores... que maravilha...

Sintra é Sintra é Sintra mas, em Sintra, para além de uma certa casa de que aqui apenas falo quando a disfarço de fantasia, casa essa onde me ensinaram a gostar de vinho, para além dos travesseirinhos quentes que se compram ali perto, para além dos passeios pela serra ou pela lagoa, são os verdes e as grandes árvores de Monserrate que sempre ali me prenderam. 

E, numa de cerises a puxarem cerises, de muitos outros parques ou jardins poderia aqui dar conta. Como aquela primeira vez em Hyde Park em que, vinda de um país onde não era costume desfrutar a vida ao ar livre, fiquei muito surpreendida por ver concertos no meio do jardim, as pessoas a puxarem uma cadeira e a assistirem na boa, na maior informalidade, outras deitadas na relva, tudo na maior felicidade. 

E é verdade, já me esquecia, a esplanada do parque rente a um lago perto dum outro recanto com estátuas, lugar de romance e mil beijos, tantas e tantas tardes lá passei, tanto que por ali cirandei, no alto do Parque Eduardo VII, uma esplanada resguardada, tão, tão, agradável -- e, houve uma altura que agora também não vem ao caso, tão irresistivelmente clandestina. 

Ah, sim, claro, é verdade, outro que também me maravilha: Serralves. Tão bonito. Sempre alguma coisa a descobrir. Lindo, lindo. Há tanto tempo que não vou ao Porto, que saudades.
Aliás, há tanto tempo que não vou a lado nenhum. Como estarão os parques das cidades? São os últimos refúgios dos seres humanos?
Agora me lembro, nunca conheci parques que adoraria conhecer: os etéreos do Japão. Não serão luxuriantes como os que costumam fazer-me cair de paixão mas, sim, elaboradamente requintados, a beleza reduzida à sua mais íntima essência. Como me sentiria lá? Depurada? Sereníssima como nunca antes? Nem conheci aqueles outros, igualmente longínquos, em que as árvores e as suas raízes rebentam em verde por entre ruínas, uma simbiose perfeita entre a exuberância da natureza e a decadência mágica de antigas esculturas ou edificações. Gostava muito de ainda vir a conhecer essa realidade que apenas conheço remotamente. Penso que choraria de emoção, as minhas raízes entrelaçando-se com as das árvores mais antigas.

Vem-me este gosto desde a minha meninice vivida à larga, perto do campo, casas com jardins e hortas tudo sempre de porta aberta, vida de largueza de movimentos, à rédea solta, de admirar os rapazes subindo às árvores, de meninas sentadas à sombra, da menina que fui andando a apanhar pinhões que depois comia depois de os partir com uma pedra. Ou virá de qualquer outra coisa. Talvez noutra encarnação tenha sido árvore. Ou pássaro ou outro bicho que tenha vivido no mato, em florestas. Sei lá.


Por tudo isto, o que eu gostaria que estes caminhos entre as árvores que aqui se vêem no vídeo abaixo estivessem perto de mim. Não é arborismo mas é quase. Andar entre as árvores, mesmo quando andamos com os pés nos chão, é bom. Revivo, revigoro-me, desligo-me do resto do mundo quando caminho entre árvores. Imagine-se como será bom ir subindo, subindo, e ficar bem perto do céu em que as copas se encontram, ser irmã dos pássaros, ser folha, ser luz entre as folhas, ser pouco mais que uma aragem.



E aqui fica a sugestão: que os nossos autarcas, todos, invistam em projectos deste género em que o contacto próximo com a natureza seja estimulado. 

Boa?

segunda-feira, janeiro 20, 2020

Maioritariamente jovens, maioritariamente homens.
E os homens do Expresso ainda em primeiro lugar




No outro dia, intrigada com um número anormal de visitantes, resolvi consultar com algum detalhe as estatísticas deste blog. E se algumas me esclareceram sobre o que pretendia, constatei que há outras que desconhecia, estatísticas demográficas, sobre os leitores.

Confesso que não sei se as informações são credíveis pois, segundo percebo, serão obtidas a partir dos dados que os próprios disponibilizam quando criam uma conta. Ora há quem passeie anonimamente e desses, presumo eu, o Google Analytics não conhece nada. Mas que sei eu do que o Google sabe...? Depois haverá quem não se confesse ao dizer a data de nascimento, digo eu. Ou quem aproveite a oportunidade para declarar o outro sexo que existe em si. Embora, se calhar, a maior parte das pessoas seja fiel ao seu cartão de cidadão. Mas não sei.

Seja como for, o Google não quer cá saber de funfuns e gaitinhas e se é para dar estatísticas ele dá. E eu, apesar de nestas coisas gostar sempre de aferir o rigor da coisa, uma vez que aqui não tenho como, vendo pelo preço que comprei. Vendo é como quem diz que eu, nisto do blog, é tudo pro bono, não há cá dinheiros envolvidos. 
Penso que já o contei: já me convidaram para participar num programa de televisão e para outros números. Declinei, embora sensibilizada pelos convites. Mas ainda não chegou o momento nem sei se alguma vez vai chegar. Gosto de sentir liberdade de movimentos, de escolha, de tudo. Não gosto de me sentir condicionada. Para isso já basta o que basta a nível profissional em que tenho compromissos, em que tenho que me sujeitar a regulamentos, procedimentos e demais paramentos. Aqui, escrevendo sobre o que me dá na gana ou partilhando fotografias que faço ou outras, ou pinturas, bailados, músicas, vídeos ou o que for, tenho que me sentir livre, sem laços nem limites, sem querer saber se agrado ou desagrado, se sou bem ou mal interpretada, se tenho ou não audiências. Livre.
Mas adiante.


Voltando às estatísticas e a serem verdadeiros, pelo menos na maioria, os dados que o Analytics usa, concluo que o 'público' é maioritariamente masculino, embora a distribuição por sexos esteja quase equilibrada.


Curiosamente, quem me procura é um 'público' bastante jovem.
  • 61% dos Leitores tem menos de 34 anos. 
  • Se subir a fasquia para os que têm menos de 44 anos, aí atingem-se os 76.5%. 
Não me espanto por aí além pois sei de alguns. E fico contente. Tal como na 'vida real' -- ou seja, no dia a dia, no face a face -- me dou muito mais com jovens do que com gente muito sénior, pelos vistos aqui, a ser credível a estatística, também é junto daqueles a quem o passado pouco pesa que melhor sou entendida.


Quanto aos posts mais lidos desde sempre, são estes:


Ou seja, em posição destacada, um post que, na altura, até mereceu um esclarecimento por parte de um dos envolvidos (cujo nome até consta do título do post), tendo-me escrito para dizer de sua justiça. Como me pediu sigilo, respeito-o. Ainda agora, ao lembrar-me disso, estive a reler a troca de mails e é deveras curiosa.

Um outro post que, ao longo dos tempos, continua a receber visitas e que (à data de hoje) já conta com 6.594 visualizações é este aqui abaixo. Não apenas fico surpreendida como fico contente pois nele falo do meu avô e, ainda que muito brevemente, do meu pai e no que deles há e sempre haverá in heaven e em mim.
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As fotografias foram feitas hoje quando fui recolher oxigénio, verde, perfumes, canto de pássaros e paz de espírito para ir usando ao longo da semana.

Se quiserem dar um pezinho de dança, queiram descer até ao post abaixo: há para todos os gostos.

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A todos desejo uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

quinta-feira, janeiro 19, 2017

O que tentam dizer as árvores




Se souberes o que dizem as árvores, talvez aprendas a dar sombra para que encostado ao teu corpo adormeça o animal cansado, e nos teus braços pousem aves cujo canto replicarás com frutos, tu já metamorfoseado no vital conhecimento da resina, da cortiça, das folhas caídas como células onde poderemos encontrar, assim tenhamos ciência para tal, a raiz que nos expulsou do paraíso. (...)


(...) Talvez se souberes o que dizem as árvores saibas também dizer vento, afagando a brisa com o pólen da flor que surde majestosa na ponte de cada um dos dedos inúmeros que uma árvore oculta. Tronco onde um dia cinzelámos o verso da única medalha que alguma vez nos foi atribuída, não por mérito nem por singela participação, mas por esforço em nos mantermos de pé e verticais como a árvore ensina.


O que tentam dizer as árvores
No seu silêncio lento e nos seus vagos rumores, 
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência, 
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve
integridade. 
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes. 
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus 
ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.




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A música lá em cima é Dream de Turlough O'Carolan

Em prosa, parte do texto de hmbf, autor de Antologia do Esquecimento.

O poema (escrito) das árvores é de António Ramos Rosa

O poema lido por Tom O'Bedlam é "The Trees" de Philip Larkin

As fotografias de árvores são minhas e foram feitas este fim-de-semana.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um dia mesmo bom.

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segunda-feira, julho 04, 2016

Nesta noite tão quente






Noite quente, quente. Ao meu lado a janela aberta traz uma leve aragem mas não arrefece a casa. Há pouco ouvi um ribombar ao longe. Esqueci-me de espreitar. Devem ser fogos de artifício do lado de lá do rio, longe.

Gosto de, de vez em quando, ir espreitando o rio, as luzes que piscam no meio das negras águas e no casario que contorna as margens. E gosto de tentar distinguir os sons que chegam. São sons esbatidos, diluídos pela frescura escura da noite. Por vezes, um cão ladra ao de leve, talvez assustado pelo deslizar silencioso de algum gato.


Uma vez não, não foram sons esbatidos: uma vez ouvi acelerar na rua, depois bruscas travagens. Espreitei. Luzes azuis. Carros da polícia, polícias que saíam a correr rua abaixo, uma grande agitação, gritos. Depois veio um rapaz com as mãos no ar e os outros polícias cercaram-no. Eu à janela a ver uma cena que parecia de filme. Olhei as janelas em volta e ninguém. Quando os carros da polícia se foram embora fiquei a pensar que, se calhar, tinha sonhado já que, pelos vistos, mais ninguém tinha testemunhado o que se tinha ali passado.

Há bocado, enquanto dava o jogo de futebol na televisão e as janelas estavam abertas de par em par, entrou um cheiro a comida caseira, um guisado talvez. De vez em quando agora chega-nos um cheiro assim. Deve haver vizinhos novos no prédio, alguém que cozinha bem. Não consigo conhecer os vizinhos. Apenas conheço uns dois ou três e mesmo assim nunca sei em que andar moram. Gosto. Gosto da sensação de me sentir estrangeira. Tenho a sensação de morar numa torre que se ergue sobre o rio, desligada da vida normal. Da janela vejo castelos, grandes navios, veleiros, vejo igrejas, serras, pontes, horizontes. Sempre gostei de morar em sítios with a view. Desde sempre me lembro de morar em casas em que ia à varanda ver como estava o rio ou espreitar se o céu estava carregado do lado da serra ou ver o fogo de artifício do lado do castelo. 

Parece que preciso que o meu olhar não alcance limites. Mas fico a pensar no que se esconde por debaixo do que a lonjura oculta. Eu aqui, numa casa adormecida, numa torre no meio do rio a escrever à noite e, em milhares de outras casas por todo o mundo, outras pessoas a escreverem, outras a lerem, outras a conversarem umas com as outras, desenhando laços, estendendo invisíveis pontes. O mundo é um lugar misterioso, cheio de intangibilidades, transparências, habitado por invisíveis seres. 

Provavelmente alguém, algures, talvez alguém não igual a nós, não sei onde, esteja a ver-nos. Acredito que sim. Acredito que pareçamos pequenos e tontos pequenos bichos, de efémera e tantas vezes inútil vida, afadigando-se em estéreis tarefas. Mas desejo que, de nós, esses invisíveis e talvez longínquos seres recebam os sons da nossa música, as toadas da nossa poesia, as cores e a luz do nosso mundo. E que, de nós, aprendam também o riso e os afectos, sem os quais, para além de pouco inteligentes, seríamos apenas, a olhos estrangeiros, uns pobres bichos indiferenciados. 

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As fotografias foram feitas a um muro graffitado do Parque da Paz.

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Permitam que vos convide, Caros Leitores, a visitarem o post abaixo onde falo em sonhos, paixões, destinos.

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Não siga a sua paixão
ou
Toda a gente morre mas nem toda a gente vive
?
Faites vos jeux




Pode pensar-se que todas as pessoas têm um sonho e que esse sonho é qualquer coisa de notável, de invejável. Contudo, a maior parte das pessoas que conheço não tem grandes sonhos. Eu própria não os tenho. Nunca desejei muito alcançar uma coisa pela qual tenha tido que lutar. Não. O meu sonho sempre foi pouco mais de que a minha curta passagem pela terra seja feliz para mim e para os que comigo convivem. Tenho também o pequeno sonho de deixar algumas provas de que por cá passei. Talvez daí os blogues, os tapetes de arraiolos, os muitos milhares de fotografias, os quadros, as árvores plantadas, o jardim desenhado. Mas nada disto tem sido difícil de alcançar pelo que não há sacrifício mas apenas prazer no acto de fazer aquilo de que gosto.

[Não incluo na lista dos sonhos o de ter filhos porque ser mãe é algo que está muito para lá do que aqui falo. Em mim, ser mãe sempre foi uma necessidade, uma coisa física, essencial, não um sonho.]

No trabalho nunca desejei ocupar este ou aquele lugar. Têm é aparecido situações para as quais sou requerida e que tenho aceitado. Mas já rejeitei outras que, a outros olhos, poderiam parecer irrecusáveis. Por exemplo, já aqui o devo ter contado, convidaram-me para ir para uma empresa para fazer o que quisesse nas condições que quisesse. Não quis. Pareceu-me fartura a mais, achei que, de certa forma, quase ficaria em dívida e se há coisa que odeio é sentir-me em dívida.

Quando me perguntam se eu não gostaria de ocupar algum lugar de muito maior responsabilidade do que os que agora ocupo digo que não: já me bastam as chatices que tenho. Passo bem sem grandes poderes mas não passo bem sem liberdade de movimentos ou tempo para a minha vida pessoal.

Também já me surpreendi ao convidar para alguns lugares pessoas que eu achava que fariam o lugar às mil maravilhas e pelos quais iriam receber melhores ordenados e maiores regalias e essas pessoas recusarem por acharem que iam ter muitas maçadas a chefiar outras pessoas ou a terem que assumir responsabilidades que lhes iriam causar preocupações. Compreendi.


Em contrapartida, tenho conhecido pessoas que orientam as suas vidas para trepar, trepar de qualquer maneira, para vir a ocupar algum lugar que fisgaram como se esse lugar fosse o grande sonho da sua vida. São, regra geral, pessoas ansiosas, impacientes e, frequentemente, más colegas, à volta de quem se gera um ambiente muitas vezes de cortar à faca. Tenho uma certa pena dessas pessoas pois nunca estão verdadeiramente felizes. Tudo, para elas, são obstáculos que arreliadoramente vão aparecendo no seu caminho e a vida transforma-se numa sucessão de revezes ou numa luta constante.

Conheço também outras que se acham ungidas de alguma superioridade e isso leva-as a nunca estarem bem, a acharem-se sempre deslocadas ou injustiçadas. Nunca nada as satisfaz: nem trabalho, nem amigos, nem amores. Nem se chega a perceber se têm algum sonho. Aparentemente não, são apenas descontentes militantes.

No extremo oposto outras há que, com pequenos nadas, se sentem as maiores. Tenho grande simpatia por pessoas assim. Uma, por exemplo, conta-me com orgulho a forma rápida como faz empadas que lhe saem sempre bem. Como reconhece o meu apreço, a seguir envia-me receitas. Outras vezes, conta-me que compra pratos de barro em bruto e que depois os pinta e leva a cozer num forno não sei onde. E mostra-me fotografias desses pratos onde pinta patos, flores, céus estrelados. O júbilo que eu vejo nela quando fala nisto é tocante.

Um outro tem uma colecção imensa de discos (antes eram discos e cd's, não sei se se mantém nessa onda ou se já se mudou para outras tecnologias) de música dita erudita e desencanta edições e edições sobre a mesma peça de música: diferentes maestros, diferentes intérpretes, ao vivo aqui, ali e acolá. E, ao mesmo tempo que tem essa imensa colecção, tem a equivalente base de dados - e um conhecimento brutal sobre a matéria. E tem, sobretudo, um prazer incrível em fazê-lo e em falar sobre isso. É o sonho da sua vida e, com tranquilidade, o sonho materializa-se a cada dia que passa.


Mas, claro, refiro-me a pessoas ditas 'normais'. Há, é certo, os que se destacam da normalidade: os que têm dons raros e esses, num mundo vasto e competitivo, é natural que tenham que lutar para singrar até alcançarem o reconhecimento geral. No entanto, alguns, pela sua natureza, conseguem atingir feitos notáveis com a mesma serenidade com que, em casa, praticam culinária.

Estive há pouco a ler a entrevista a Elvira Fortunato, a cientista que diz que fazer transístores é como fazer bolos em casa. Diz que sempre gostou de trabalhos manuais, bordar, pintar, e que até ainda tem por acabar um tapete de Arraiolos.

Na entrevista ela refere coisas como estas:
Brincava muito com bonecas, com a Nancy. Brincava muito com tachinhos e tinha uma cozinha. Aquilo até era um bocado chato, porque era de folha metálica que às vezes cortava os dedos. Mas era uma cozinha com muitas panelas e tachos e essas coisas todas.
(Também eu passava horas a brincar aos cozinhados com tachinhos de alumínio que os meus pais e avós, sabendo desse meu gosto, me compravam na feira.)
Gosto muito de estar em casa. Fiz obras recentemente, tenho quase uma casa nova, e apetece-me estar muito mais tempo em casa. E gosto imenso de cozinhar. Gosto de ir à praia. Gosto de ir ao cinema, mas reconheço que ultimamente tenho ido pouco, porque o meu tempo, especialmente este ano, é pouco.
Elvira Fortunato diz ainda que isto da investigação, que faz de gosto, é coisa que foi acontecendo de forma natural -- e tudo o que diz revela que é uma pessoa de bem com a vida, que vai experimentando, fazendo, andando em frente.

Há pouco tempo, vi-a com o marido, filhos e creio que com o namorado da filha. Estavam no mesmo restaurante que nós, uma espécie de tasca onde o peixe impera. Vestidos com uma simplicidade extrema, bem dispostos, ela completamente na desportiva, sem maquilhagem, quem não a conhecesse dificilmente adivinharia que estava ali uma investigadora premiada, uma pessoa de mérito internacionalmente reconhecido.


Por tudo isto, eu não tenho ideias feitas sobre isto de 'seguir os sonhos', de lutar por ideais sacrificando a vida. Penso que importante mesmo é a pessoa estar bem, estar bem todos os dias, não chegar ao fim do dia sentindo que desperdiçou mais uma parcela da sua vida. Se a pessoa se sente infeliz, acho que deve lutar para ser feliz mas deve saber avaliar se nessa luta não vai exaurir-se, não conseguindo usufruir da alegria de estar vivo. Acho que bom é a pessoa saber equilibrar as suas expectativas e a capacidade de as superar. No entanto, admito que este meu raciocínio é bem capaz de ser coisa de quem, como eu, não tem grandes ambições.

A propósito, lembrei-me que, no outro dia, Leitor a quem agradeço me deixou o link para um vídeo onde o orador, Mike Rowe, diz que vai dizer algumas verdades sujas sobre isto de lutar apaixonadamente por sonhos, muitas vezes inviáveis. Partilho-o convosco.

Don't Follow Your Passion


Should you follow your passion, wherever it may take you? Should you do only what you love...or learn to love what you do? How can you identify which path to take? How about which paths to avoid? 


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No reverso, encontrei hoje um vídeo que se vê com bastante agrado e em que, de forma envolvente, Prince Ea puxa pela motivação de quem o ouve, incentivando a que se lute pelos sonhos. Partilho-o também.


EVERYBODY DIES, BUT NOT EVERYBODY LIVES


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Moral da história

Cabe a cada um escolher os seus caminhos e a forma como atravessa a vida que recebeu de presente.

(O que é o mesmo que dizer que cada um sabe de si -- e o resto é conversa)

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As fotografias foram feitas no Parque da Paz para onde hoje fui caminhar, procurando a sombra, já que estava impossível de se chegar à praia.

Lá em cima Hélène Grimaud interpreta Chaconne in D minor BWV 1004 - Bach, Busoni

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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segunda-feira, março 09, 2015

Meditar, viver, amar, ser feliz


No post abaixo já me deitei a divagar sobre a matemática e a vida. Deu-me para isso nem sei porquê, talvez porque a minha cabeça esteja formatada para pensar seguindo ensinamentos que a matemática me proporcionou e, pensando no que vejo à minha volta ou dentro de mim, me ocorram frequentemente paralelismos que me ajudam a encarar as coisas com outra limpeza.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.







Sei muito pouco de algumas coisas e nada de quase tudo. Não há dia que passe que não pense que tenho que me conformar com a ideia de que jamais conseguirei abarcar o conhecimento ou a compreensão de uma pequena parte do que o mundo contém ou do ser que habita dentro de mim. Dito assim pode soar a falsa modéstia ou a esoterismo mas isso será impressão pois não sou nem uma coisa nem outra. Talvez seja uma banalidade, isso sim, porque qualquer pessoa de bom senso sabe bem quanto é insignificante o pouco que sabe.

Gosto muito de escrever. Revejo ideias, estruturo melhor o que sinto, descubro coisas e pessoas, abro caminhos dentro de mim.

Talvez por isso tenha adquirido este hábito de, à noite, aqui me pôr a divagar, a escrever-vos, a conversar convosco. Hoje quero contar-vos uma parte do meu dia.




De manhã caminhei, andei pela beira do rio, fotografei. Estes primeiros calores do ano trazem flores às árvores, gaivotas e veleiros às águas do rio, um azul muito azul ao céu, trazem-me também um prenúncio de vida nova e a expectativa de tempos felizes.

Depois almocei numa esplanada banhada pelo sol. Claro que, na mesa, estávamos protegidos pela sombra mas a proximidade do sol trouxe uma luz festiva e um sabor a verão à comida.

A seguir, e é disso que vos quero falar, fui experimentar uma coisa que há muito andava a despertar a minha curiosidade: meditar. Não sabia de que se tratava, não fazia ideia de como se conseguia, imaginava que seria um esvaziamento mental impossível de atingir. Surgiu esta possibilidade e tive companhia pelo que, toda feliz da vida, lá fui.

A professora (se é que se chama professora a quem orienta estas sessões) começou por explicar de que se tratava, que nos deveríamos focar no que fosse bom para nós, colocar de lado o que nos afligisse ou preocupasse, que deveríamos fazer como se uma esponja levasse para longe o que não nos fizesse sentir bem.

Depois disse que nos deitássemos, que nos puséssemos confortáveis, que nos tapássemos com uma mantinha. E colocou uma música tranquila. E que relaxássemos os pés. E depois as pernas. E depois as mãos, e a seguir os braços. Só falava de vez em quando. E que respirássemos fundo pausadamente. E que nos concentrássemos na respiração. E a música tocando. Depois que pensássemos num lugar onde gostássemos muito de estar, um campo de flores ou outro local agradável para nós.




E eu, surpreendentemente, logo que me deitei, relaxei completamente o meu corpo e quase instantaneamente deixei de pensar no que quer que fosse, abstraída de tudo, uma tranquilidade total no meu corpo. E, quando ela falou num campo de flores, lembrei-me de um campo da minha infância, havia ervas muito altas com espigas e nós passávamos a mão ao longo do caule e ficávamos com a mão cheia de espigas que atirávamos à roupa uns dos outros e depois contávamos as espigas que tinham ficado presas e cada espiga era um namorado e o que eu gostava de ficar cheia deles... Por esta altura, por entre as espigas apareciam papoilas e eu gostava de as apanhar, de soprar as pétalas, de abrir o saquinho das sementes. Era feliz de uma forma absoluta. E foi quase assim que me senti, leve, leve, andando pelo meio do campo verde e florido, brincando com os meus amigos. Depois a professora disse que sentíssemos a aragem e eu lembrei-me de como ficava bonito o campo ondulando ao vento e de como eu gostava de sentir a aragem suave no meu cabelo que era longo e que brilhava ao sol.

E a música tocando. De vez em quando, ao ouvir a voz da professora, eu sentia que estava como que a acordar. Penso que adormeci embora talvez não mais que por uns micro períodos de sono. Quando ela disse que nos sentíssemos de novo naquela sala, voltei de novo a mim. Leve, leve.

Depois pediu que cada um de nós tirasse uma carta das virtudes e a lesse, que seria a carta que nos iria influenciar durante a semana. a minha dizia 'pacífico' e dizia que eu atraio pensamentos positivos e que, com a minha serenidade, trazia serenidade aos que me rodeiam. Claro que esta parte das cartas pode ser vista como uma treta mas a verdade é que, se a gente lê uma coisa agradável, se sente bem e isso não faz mal nenhum.




Depois levantámo-nos e ficámos a beber chá e a conversar na salinha de entrada. Essa parte para mim teria sido escusada. A verdade é que estava tão zen que as palavras estavam num outro hemisfério, não me apetecia falar. Acho que, mesmo que tentasse, não o conseguiria. Mas algumas participantes desataram para ali numa catarse colectiva, cada uma a queixar-se nem sei bem de quê. Claro que ouvi mas, a bem dizer, sem prestar grande atenção. Eu é como se vivesse num outro comprimento de onda e isto é sempre, não preciso de meditar para isso, não me dá para me pôr a dizer que os outros são feios, porcos  maus, que no trabalho não nos prestam atenção, no trânsito são todos uns animais, na sociedade uma competição vazia de sentido. Eu isso passo, sinceramente. Não acho que os outros sejam do piorio porque os outros somos nós todos. Limito-me a queixar-me das elites que aceitamos ter, das fracas figuras que elegemos ou das prebendas que aceitamos que sejam concedidas a criaturas que são uns zeros e que tanto contribuem para a indigência política, social, económica e cultural que prolifera no país. Quanto ao resto e aos outros, são meus iguais. Aliás, cansa-me ouvir estar a falar mal de tudo e de todos, acho que isso corrói a alma da gente..

Mas, pronto, nem tudo é perfeito e lá nos viemos embora, eu com o corpo e a cabeça numa paz de dar gosto.

Dali fomos para um parque para nos juntarmos ao resto do pessoal. Um tempo maravilhoso, tudo verde, o lago com umas cores belíssimas, as crianças felizes, correndo, brincando, todos tranquilos, bem dispostos.




Há momentos que a gente tem vontade de os fixar dentro de nós para todo o sempre.

Depois fomos todos para casa do meu filho e, no terraço da sua casa que é tão bonita, estivemos a lanchar até o dia quase se ter ido, e os meninos ainda brincaram na relva e estava-se ali tão bem, tão acolhedor aquele espaço e todos tão amigos uns dos outros.

Claro que depois, ao chegar a casa, tive afazeres domésticos, comida a confeccionar, roupa a arrumar, mas tudo o que se faz sem esforço é bom de fazer.

E agora tenho estado aqui a ouvir música e vejo pelas estatísticas que, enquanto escrevo, várias pessoas me estão a ler e eu gosto de vos sentir aí desse lado, é como se estivessem aqui comigo, à minha beira, ouvindo a mesma música, olhando-me e eu olhando-vos a vós, e, acreditem, é como se uma corrente de harmonia chegasse até mim.

Gosto de escrever, gosto de aqui estar convosco, é bom. E tomara que vocês também gostem de estar comigo, que tenham sempre vontade de voltar até junto das minhas palavras.



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Fiz as fotografias neste domingo que me trouxe uma descoberta tão boa que só eu sei.

A música é um excerto da ópera "Thais" de Jules Massenet, interpretado por Elmar Oliveira no violino e Robert Koenig no piano.

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Permitam que relembre que abaixo falo na relação entre a matemática e a vida, uma relação que, para mim é virtuosa e que, talvez para os mais afastados, pareça improvável.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. 
Sejam muito felizes, está bem?

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domingo, outubro 05, 2014

Tarde de sol de outono com os pimentinhas, com jazz e com muita paz - e fim de dia com os meus pais


No post abaixo já vos mostrei uma noiva majestosa no seu glorioso vestido, encantada com um noivo que se encantava também com ela.

Foi este sábado à tarde. Nós estávamos lá, no Parque da Paz.



Mas vamos com música,  com The Childhood Dream 



Esbjörn Svensson Trio





Tínhamos sabido que havia música, jazz, coisa sempre agradável de se ouvir ao ar livre, e o lugar é maravilhoso, espaços amplos, bom para os miúdos, aprazível para nós.

A tarde esteve suave, um calor ameno, um sol bom de deixar pousar na pele.

O mais crescido já não liga muito a ver os patinhos, especialmente quando tem uma bola e o tio por perto.

Aliás, nem tinha bola pois, de cada vez que se compra uma, quer levá-la para casa dele, para jogar à bola no pátio ou para fazer colecção, sei lá.
Por isso, lá teve que se ir outra vez 'ao chinês' que, claro está, nunca fecha e tem tudo o que se possa querer. 

Mas os mais pequenos, vão logo a correr para a beira do lago, a água é um fascínio, reflecte o sol, o céu, o verde da paisagem, o voo das gaivotas que dali gostam de fazer poiso acidental. 

Os patos e os cisnes habitam o lago, são muitos, e há uma frescura idílica neste lugar.

Foi por aqui perto que vi o casal de que falo mais abaixo. No meio de crianças a brincarem, de adultos a apanhar sol, de gente que lê tranquilamente, ali andava aquele enamorado casal, sendo fotografado. A diversidade e o inesperado encantam-me.

Ao mano velho juntou-se depois o mano mais novo, o ex-bebé, em animada jogatana com os restantes homens da família. Bem, nem todos já que o bebé prefere andar a roubar óculos, telemóveis ou outras coisas que consiga descobrir à mão de semear. A mãe diz que ele é da família dos macaquinhos de Gibraltar que, mal as pessoas se distraem, já eles estão a meter-lhes a mão ao bolso e a roubar alguma coisa.

Mas já não é bem um bebé, já está um rapazinho. Atrevido, brincalhão, destemido, fala pelos cotovelos. Às vezes a gente ouve e nem acredita que aquilo saíu da boca de uma coisa tão pequena.

Gosta imenso de falar ao telemóvel.

Todas as noites, excepto quando estou com eles, falo com o meu filho. Muitas vezes quem está do lado de lá é o bebé. Tão explicado é que, às vezes, penso que é o meu filho a disfarçar a voz para me enganar e parecer que é o filho. 

A mana adora estar nestes ajuntamentos familiares mas do que ela gosta mesmo é de brincar ao faz de conta, em especial com a tia. Invariavelmente ela é a mãe da tia. Mas a tia não se importa, já que, muitas vezes, arranja maneira de pôr a 'mãe' a pôr-lhe creme ou a fingir que põe, a mexer-lhe no cabelo ou coisa do género. Hoje, ainda em minha casa, estava a tia, refastelada na chaise longue com a 'mãe' a tratar dela, quando sentiu que a sua cara estava a ser limpa com uma toalhita. Deu um salto: que toalhita é esta? não é que foi usada para limpar o rabo do teu irmão, não...?!

Mas ela sossegou a 'filha', que não, que tinha ido buscar uma limpa. Vá lá.

No parque tiro-lhe imensas fotografias sem ela dar por isso. Faz umas poses e umas expressões mesmo femininas e apanha florzinhas, pauzinhos, muito elegante nos movimentos e na expressão. Está altinha, muito ágil e cada vez mais bonita. Os olhos são azuis acinzentados e tem uma boca a la Angelina Jolie. Um charme.

No entanto, também faz das suas, especialmente se vê os outros a fazerem. 

Hoje era trepar os muros. Quis subir um e eu fui com ela. Trepei atrás dela e a coisa estava sob controlo. 

O pior foi que o primo mais novo veio também, rápido como um comando, em duas penadas se pôs também lá em cima. Fiquei em maus lençóis pois se tivesse que agarrar num, não podia agarrar o outro. O que vale é que veio uma mãe reforçar o resgate.

Claro que o mais crescido já não precisa de ajuda, sobe e desce muros na maior limpeza.

Aliás, parece que já está na fase pré-adolescência, refilão, aventureiro, quase a tender para a desobediência. Dá ideia que a ida para a primária, para uma escola nova, lhe deu um certo sentimento de independência. Começa cedo.

Está com o cabelo enorme, cresce-lhe o cabelo com uma força e a uma velocidade que só visto. A mãe anda a dizer que eu tenho que lhe cortar o cabelo mas não tem calhado. Quando era pequeno, tinha imensos caracóis mas agora tem o cabelo liso e forte, ao fim de pouco tempo parece que fica com um capacete.

De manhã foi a uma aula experimental de futebol numa escolinha do Sporting e agora deve começar a ir mesmo todas as semanas. Adora jogar à bola.

Ainda não se sabe é se o irmão também pode ir pois a regra é que apenas comecem aos 4 anos e o ex-bebé ainda tem três e meio. Contudo, como é grande e tem muita destreza, pode ser que o aceitem. Era bom, senão fica triste a ver o irmão a jogar à bola e ele cá fora.

Estão na fase em que as brincadeiras acabam muitas vezes à tareia e nem é que estejam zangados, parece que gostam de andar à pancada. Mas claro que o mais crescido rapidamente imobiliza o irmão e lhe dá à vontade.

O que vale é que o outro já está habituado e não se assusta ou leva a mal. Pelo contrário, se vê que alguém se zanga com o irmão, sai logo em sua defesa. 

São amicíssimos e, perante terceiros, defendem-se mutuamente.



E estivemos sentados na relva, à conversa, a lanchar, a ouvir música.

O ambiente estava absolutamente cool, a esplanada cheia, e gente nos muros de pedra à volta ou na relva.

Não sei o nome do rapaz mas tem boa pinta e toca muito bem. Tentei saber o nome dele mas também não achei. Tenho pena pois gostaria de aqui deixar um elogio e assim fica sem destinatário nomeado.

Estivemos lá até por volta das seis e meia, ainda se estava bem mas já começava a esfriar um pouco.

Quando agora estive a passar as fotografias para o computador, reparei como estão sempre todos com ar feliz, sorridente, todos cheios de movimento e luz. 
Raramente apareço porque sou a fotógrafa mas, quando calha algum pegar na máquina para me apanhar, estou sempre a rir. Por mais que tente pôr um ar composto para a posterioridade, fico sempre com ar desmanchado, a rir. Basta que me digam para tirar o cabelo dos olhos ou para olhar para a câmara, mais eu me sinto ridícula a fazer-me ao boneco e ainda mais vontade me dá de rir. No outro dia, na Gulbenkian, a minha filha quis tirar uma fotografia a mim e ao pai. Ele detesta essas cenas mas põe-se indiferente, não lhe dá vontade nenhuma de rir e eu, ao vê-lo assim, desato logo a rir, 'feita parva' diz ele, mas quanto mais me disserem mais eu rio, nada a fazer. Por isso, está ele muito bem, sério, normal, e eu a rir toda maluca.

Do parque ainda fui com o meu marido a casa dos meus pais. A minha mãe sempre na boa. Trouxe umas tacinhas de marmelada que fez com os marmelos que levei na semana passada. Amanhã distribuo-a pelos meus filhos e fico com uma tigelinha para mim. Tem um cheirinho bom que me tenta. Só me apetece pegar numa colher e comê-la à bruta, à colherada, ou então intercalando com queijo. Mas controlo-me. Trouxe também figos torrados, dos que sequei lá in heaven.

Mas diz que agora não tem nada que fazer, que tem que começar algum trabalho pois não gosta de estar assim (diz isto como se não tivesse a lida da casa e o meu pai a cargo dela e como se não tivesse já 81 anos). Diz que está capaz de fazer uma manta às cores, muito bonita, como viu numa telenovela brasileira, para a cama da bisneta.

O meu pai, como de costume, muito sem graça, muito desanimado, que só lhe apetece estar na cama. Lá fiz a prelecção do costume, que nem pensar, se quer ficar com feridas no corpo?, que tem que estar levantado, dar umas voltas (voltas que são ir da sala, pelo corredor, até à casa de banho e vice-versa), que devia fazer bicicleta todos os dias e não apenas quando a fisioterapeuta lá vai (chamamos bicicleta mas é uma pedaleira), que devia sentar-se apanhar sol todos os dias - mas ele protesta, que não é fácil pedalar naquela cadeira, e que não quer ir para a varanda porque está frio, ou está vento. Desculpas que ele arranja. Mas temos que combater esse desinteresse para ver se não fica acamado de vez. 

O que vale é que a minha mãe não se cansa de conviver com o estado de espírito depressivo do meu pai ou, quando se cansa, rapidamente ultrapassa isso. 

Hoje esteve a contar os sustos que apanhava e a ralação que era quando ia com os alunos às visitas de estudo, sempre com medo que algum se perdesse ou magoasse. Ia uma professora e uma auxiliar para vinte e tal ou trinta alunos. Ainda me lembro desses dias, o meu pai ia buscá-la à escola sempre tarde e ela chegava a casa arrasada, Uma vez uma avó de um miúdo foi buscar o neto, já era de noite quando chegaram não sei de onde, e aquilo era uma sobressalto porque os pais agarravam nos filhos e era difícil controlar, tanto mais que, de noite, se via mal. Passado um bocado apareceu o pai a buscar o mesmo miúdo. No meio daquela confusão, a minha mãe teve uma branca e não se lembrava que a avó já o tinha levado. Apanhou um susto de morte pois não sabia que era feito do miúdo, tinha medo que o miúdo se tivesse escapado da camioneta. Lembro-me de estar em casa sozinha, de noite, eles nunca mais chegavam (e não havia telemóvel) e, quando chegaram, a minha mãe vinha feita num oito.


Bem. Estou para aqui na palheta há séculos, a dar-vos uma seca das antigas. Calo-me já. E, cheia de sono como estou, não consigo, uma vez mais, reler o que para aqui desfiei.


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Relembro que, no post já a seguir, poderão ver um casal de noivos muito in love. Ofereci-lhes o Ave Maria e o Lago dos Cisnes e, se me permitem, gostava que se juntassem à festa.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.