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segunda-feira, julho 15, 2024

Dias felizes

 

Devo dizer que tenho vivido dias felizes. Com os que me são mais queridos juntos, todos bem dispostos, a conversa a fluir de gosto, todos em volta da mesa, com a casa cheia, com a maluqueira nocturna que me fez rir de gosto, com o madrugar bem mais cedo do que me é habitual, com a alegria de todos... sinceramente, a nível pessoal, não posso querer mais. 

De vez em quando lembro-me do que disseram e dou por mim a rir sozinha. 

Todos têm a sua vida pessoal e profissional (ou escolar), certamente todos terão, de quando em vez, os seus contratempos e preocupações. Mas, como por magia, quando nos encontramos todos, parece que os problemas perdem relevância e a ninguém lembra falar de maçadas.

Estou boa do meu pé. Quase boa. A nível visual está praticamente normal. Claro que, quando olham, ficam um bocado enjoados pois acham-no esquisito. O dedão (e arredores) está a perder a pele. Mas a mim isso não me incomoda nada. Também ainda tem umas manchinhas escuras mas nada de mais. Também já mexo razoavelmente o dedo. Dói-me ainda um pouco mas já não me tira o sono e, na maior parte do tempo, nem me lembro de tal coisa. E da tendinite do ombro que me causou rigidez também já estou quase a cem por cento. Vou eu fazendo uns exercícios e a coisa está a ir ao sítio. Só aqui é que me ponho a falar nisso. Quando estou com a minha turma nem me lembro das chatices que tive nem do que ainda sobra delas. 

Claro que, no meu íntimo, sinto saudades da minha mãe e faz-me muita impressão que tenha sido uma presença tão constante na minha vida e que, como que por artes mágicas, em pouco tempo, se tenha despido de matéria. Era alguém tão presente e agora é apenas memória. E já passaram quase seis meses. Por vezes, parece-me impossível. E no outro dia o meu pai faria anos e, no entanto, ao mesmo tempo, parece que já não existe há imenso tempo, quase como se já não pertencesse à minha vida actual. E não pertence. Mas a verdade é que pertenceu até 2020. 

O tempo tem o seu lado cruel, a vida tem o seu lado de traiçoeira. 

Mas forço-me a manter estes pensamentos no lado adormecido da minha mente. E consigo que isso coexista com a minha alegria em estar viva e rodeada por aqueles que tanto amo.

E depois há as pequenas coisas. Infra-mínimas. Mas que me dão prazer, me motivam, me animam.

Por exemplo: estava com o cabelo comprido que geralmente apanhava em rabo-de-cavalo, muitas vezes dando-lhe uma reviravolta ao alto, para cima. Mas andava com vontade de o transformar. Então hoje, há bocado, fiz assim: estando apanhado num rabo de cavalo alto, como é costume, meti-lhe a tesoura e lá vai disto. Ou seja, agora, depois de cortado, dá para o apanhar na mesma, à tangente mas dá, e, curiosamente, ficou com um escadeado bem curioso. Saiu um monte de cabelo, ficou muito mais leve, e acho que não ficou mau de todo. Ainda lhe dei mais umas duas ou três tesouradas à frente para fazer um degradé mais harmonioso. Já não vou à cabeleireira há anos e fico com pena pois gostava dela e espero que as restantes clientes sejam mais fiéis do que eu. Mas isto de ter a liberdade de fazer coisas assim, na base do 'lá vai disto', faz-me sentir muito bem.

A outra coisa pertence à mesma categoria, a das frioleiras: andava com vontade de usar vestidos compridos mas nada me agradava pois não sou bem o género de intelectual de esquerda daquelas que usam saias compridas, largas e desengraçadas, nem sou exactamente o estilo hippie. Não estava a ver-me como uma maria-pendona. Mas também não queria usar vestidos que parecessem de noite, muito menos de baile de finalistas. Portanto, mantinha-me no classicismo das calças, dos vestidos pelo joelho, e, numa versão mais estival, calções brancos com blusinhas coloridas. Mas finalmente dei o salto. Encontrei o género de que gosto. A minha filha ofereceu-me um, que me assenta de uma forma superconfortável e com o qual gosto mesmo de me ver. E eu comprei os outros. E sinto-me tão bem... Há um que ainda não estreei mas sobre o qual estou com uma boa expectativa: cai como seda, suave, muito leve, é justo em cima mas alarga um pouco para baixo, é super decotado à frente e atrás, de alcinhas finas, e é em cor de coral com pavões gigantes de alto a baixo naqueles tons verdes e azulões. E, para conjugar, tenho um brinco, um único, com uma pena nos mesmos tons. Penso que vai ser exótico e isso agrada-me.

E toda a vida usei brincos discretos. Poderiam ser coloridos e adaptados às toilettes mas nada de exuberâncias. Contudo, andava com vontade de ter brincos ousados, coloridos, incomuns. E descobri-os. Estou mesmo feliz com eles. A ver se amanhã os fotografo para vos mostrar pois acho-os especiais e, sobretudo, os pais da criadora comoveram-me e apetece-me transmitir-lhes o meu carinho.

E ainda mais uma: chapéus. Adoro chapéus. Mas sempre me fiquei por modelos que me parecessem elegantes mas discretos. Provavelmente as pessoas discretas já os achariam algo destacados mas, para mim, estavam aquém do meu gosto intrínseco. Pois vi um que imediatamente chamou a minha atenção. A minha filha, ao vê-lo na loja, disse que todo ele é, em si, um statement. De facto. E não fujo a isso. Mas, ainda assim, receei que fosse demasiado aparatoso. Contudo, acabei por não resistir. Acho-o um espectáculo e sinto-me mesmo feliz quando o ponho. (Não é este. Este aqui ao lado é um que encontrei via google)

Quando era adolescente gostava de modelos originais e de me maquilhar e os meus pais zangavam-se, não queriam que eu desse nas vistas, diziam que não tinha idade para isso. Depois, pela minha profissão, tinha a noção de que não deveria mostrar-me a tender para o radical ou para a desalinhada (até porque era acusada disso). Agora já não tenho que provar nada a ninguém nem tenho que recear as opiniões alheias. Não que me preocupasse com isso mas, enfim, vivia o meu dia a dia integrada numa realidade em que as fugas à regra tendiam a ser mais ou menos vistas como perigosas excentricidades.

Claro que para coroar o bolo só mesmo uma cerejinha a enfeitá-lo: durante a semana fomos, por duas vezes, almoçar a um restaurante veggie. Não me tornei e acho que não me tornarei veggie mas a verdade é que gostámos imenso. Comemos agora muito menos carne, preocupamo-nos cada vez mais com uma alimentação equilibrada e saudável. E o meu filho ofereceu-me um conjunto de alimentos biológicos, saudáveis, e isso agrada-me e atrai-me bastante.

Portanto, apesar de não estar a ir para nova, a verdade é que me sinto cada vez mais disponível para procurar e acolher novidades e para me libertar das poucas peias que já tinha.

E viva a vida.

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Mercedes Sosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gal Costa - Volver a los 17


Uma semana feliz

domingo, junho 04, 2023

Chico

 

Noite quente em Lisboa. 3 de Junho. Campo Pequeno. Cheio. Muita gente para ver, ouvir, cantar e aplaudir o Chico.

Às tantas, alguém gritou: "Viva o Prémio Camões!". Um breve silêncio, provavelmente a perceber o que se tinha ouvido, e depois um aplauso.

Chico. Sempre aquele charme, aquela voz de sedutor e de observador, aquela voz que canta e diz, um diseur com um sambinha gostoso na voz.

Mas há também Monica Salmaso. Não conhecia. Tem uma presença forte e uma voz encorpada que faz lembrar a de Bethania.

E uns cenários brilhantes. 

A Praça do Campo Pequeno a aplaudir. Querido Chico.


Filmei o Tanto Mar tal como filmei trechos de outras mas os vídeos não ficaram famosos. Por isso, coloco um outro de há 5 anos que encontrei no Youtube.


Um bom dia de domingo
Saúde. Mar e alecrim. Paz.

quarta-feira, julho 13, 2022

Mais um

 



Tinha-lhes dito que não havia nada, que podia esperar pelo fim de semana. Terça-feira é dia complicado, dia de reuniões que podem prolongar-se e ensarilhar-se. Mas depois percebi que gostariam que houvesse festejo. Pensei: faço arroz de pato. Tentaria ir ao supermercado à hora de almoço, poria o bicho na panela, arranjaria maneira. O meu marido disse que não. Coisa simples. Ou jantaríamos numa esplanada ao pé da praia ou, se fosse cá, mandaríamos vir pizas. Equacionámos. Melhor cá, poderíamos ficar até querermos, fazer o barulho que quiséssemos.

Mas foi dia de juízo. Sozinha em casa com o animal (refiro-me ao cão, claro). O rapaz que vinha arranjar um portão, resolveu vir de manhã, pouco antes de começar uma valente de uma reunião. E ou era ele experimentando o arranjo, entrando e saindo, abrindo e fechando, ou era o telefone tocando, uma sobreposição complicada de gerir. Enquanto isto, a fera colocada entre uma zona e outra para não ter hipóteses de se chegar ao pobre. Ladrando, ladrando. 

Reuniões, telefonemas, mensagens. Consegui sair para dar uma volta com a fera já às duas e tal. Fervia. O pobre mal conseguia pôr as patinhas no chão, só a querer voltar para trás. Uma braseira. Almocei perto das três, a correr, quase em cima de outra reunião. Era perto das cinco quando consegui dar um pulo ao supermercado. 

Depois chegou a turma da minha filha. Ainda fui fazer uma breve caminhada com o meu marido, que entretanto chegou, só para esticar as pernas. Logo a seguir chegaram os que vinham arranjar o estore da cozinha. Há vários dias à espera e tinha que ser esta terça-feira. Tentei que fosse noutro dia. Não. O único bocado de tempo que tinham era este. Pegar ou largar. Peguei. Chegaram. O cão isolado para não lhes saltar para cima. A ladrar, a ladrar.

Entretanto, chegou a turma do meu filho. 

E os outros não saíam da cozinha. Já a fazer-se tarde. Depois eram precisas umas ripas, não podia ficar arranjado. Que sim, que sim. Queríamos é que se fossem embora. Agora o estore está cerrado, não entra um raio de luz. Azarinho.


Para além das pizzas em forno de lenha, boazonas, resolvi fazer uma ursa. Passo a explicar no que consiste uma ursa. É coisa que vem do tempo em que os meus filhos eram pequenos. Sucesso garantido. Agora já são os filhos dos meus filhos que gostam da ursa.

Frango assado do supermercado. Desossei. Num tabuleiro grande, o frango inteiro desfiado. Depois, uns tomates grandes, maduros, cortados em cubinhos pequenos. Depois um pacote de batatas fritas. Depois um bocado de maionese e um little bit de ketchup. Envolvi tudo ao de leve para não espatifar as batatas fritas. Por cima, ripei seis ovos cozidos. Temperei com orégãos e com azeitonas às rodelinhas. Está feito.

Para além disso tinha salada mista: alface, rúcula, couve roxa, milho, tomate cherry, bolinhas de mozzarela, azeite, orégãos.

E espargos verdes com fio de azeite e um little touch lateral of maionese.

E as pizzas das de tamanho familiar, duas de salmão, mozarela de búfala e manjericão, duas de presunto, ovo e azeitonas e duas quatro estações, com tudo a que se tem direito.

De sobremesa: petit gateaux de chocolate, strudel de maçã, bolo de mármore e mil folhas com doce de ovo.


No final, depois das cantorias, passámos à fase arraial. A menininha mais linda ficou de DJ. Os pedidos foram no sentido da música pimba. Dançámos que foi um gosto. Debaixo das luzinhas, vá de cantar e dançar. Festa popular à maneira.

E, à despedida, fotografias de grupo.

Escuso de dizer que o urso cabeludo fez várias tentativas para roubar comida, chegou a ser apanhado de pé, patas felpudas em cima da mesa, a inspeccionar o que se passava lá por cima, o que lhe valeu grandes descomposturas. Por fim, já se contentava em andar a lamber migalhas pelo chão.

No fim, os meninos perguntaram se eu tinha gostado do dia -- e eu gostei -- e perguntei se eles também gostaram -- e eles gostaram. Tenho estado a ver as fotografias, todos tão bem dispostos, sempre alguns a fazerem maluquices. Dou por mim a sorrir enquanto revejo estas imagens felizes.

Quando se foram embora, o urso cabeludo atirou-se à tigela da água e bebeu durante minutos. Depois deitou-se espapaçado. Há bocado levantou-se e foi comer. Chegou aqui e caiu outra vez. Dorme a sono solto. E eu tenho estado a lutar para também não cair a dormir profundamente.

Este é o tempo dos caranguejos. A saison era aberta pelo meu pai, o primeiro dos caranguejos. Agora sou eu a abri-la. Hão-de seguir-se mais dois, dois homónimos. De seguida, entra-se em força nos leões, uns a seguir os outros.


Um dia, depois outro dia. Quando damos por ela, é um ano, depois outro ano. E é assim a vida, uma sucessão. Ia dizer uma sucessão infinita mas não é infinita, é finita. Mas cada um de nós é nada, uma partícula elementar, pelo que, abstraindo a identidade de cada um, há mesmo uma continuidade, uma infinita sucessão em que um dia não estamos, depois estamos, depois deixamos de estar. Mas, quando deixamos de estar, já cá estarão outros a assegurar a continuidade. E está bem assim.

(Isto enquanto não rebentarmos com a espécie, claro).

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Uma vez mais, figuras da pintura que a Inteligência Artificial associou a selfies minhas. Não sei se têm alguma coisa a ver comigo ou se teria que se lhes tirar a bissectriz para ter parecenças -- mas não interessa, gostei de conhecê-las e, por isso, aqui estou. Ou melhor, aqui estão.

  • Head of a Woman (La Scapigliata), Leonardo da Vinci. 
  • Woman Leaning on Her Elbows (Femme accoudée), Pierre-Auguste Renoir 
  • Portrait of a Neapolitan Woman, Jean Honoré Fragonard,1774
  • Salomé by Luc-Olivier Merson 
  • Portret van een jong meisje, Thérèse Schwartze
  • Woman on a Striped Sofa with a Dog. Mary Cassatt
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Amanhã tentarei responder aos comentários. Hoje não consigo.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Tudo de bom. Paz.

segunda-feira, dezembro 06, 2021

Desta vez foi a Pfizer. No braço esquerdo. A da gripe no braço direito.
Fui à black friday das vacinas

 



No sábado madrugámos para irmos até a um espaço grande onde há vacinas à discrição e onde não era suposto haver muita gente. Fica numa das cidades perto da nossa casa de campo. Uma vez, estávamos a passar uns dias in heaven e o meu marido auto agendou-se para lá. E aquele lugar ficou-lhe associado pois agora recebeu um sms para ir levar lá a 3ª dose. 

Como na outra vez lhe correu bem, despachou-se rapidamente, resolvi ligar a saber se eu, mesmo sem marcação, poderia ir à boleia. Expliquei que levei a Janssenn. Perguntaram-me a idade. Disseram, então, que estavam com casa aberta para os que levaram Janssenn e têm mais de cinquenta. Encaixo. Então, lá fomos.

Muita gente. Muita gente de idade, muita gente com 'ar de campo'. Todos entusiasmados por estarem a levar a 3ª dose e vários como eu, que antes também tinham sido contemplados com a água pé das vacinas. Uma coisa que quase parecia a black friday das vacinas. Chega a ser quase tocante ver como toda a gente adere tão bem a uma coisa ainda tão cheia de incógnitas. Uns mais racionalmente, outros por medo, outros numa de maria vai com as outras. Não interessa. Toca a reunir e as pessoas reúnem-se.

O meu marido, como era com marcação, ficou despachado por volta das dez e eu perto do meio-dia. 

Pfizer no braço esquerdo e a da gripe no direito. Vim de lá aviada e espero que protegida.

Disseram para tomar ben-u-ron à noite e ben-u-ron de manhã. E para pôr gelo no braço. Como não sou obediente e não me parecia necessário, não tomei o ben-u-ron nem pus gelo. Mas dormi mal com o braço a doer-me bastante.

E passei o domingo cansada, com o braço dorido, com dores musculares, com frio, a sentir-me murcha. Éramos para ir ao campo e não fomos. Nem fui a casa da minha mãe. Só me apetecia estar agasalhada e sossegada. 

O meu marido, que também estava com o braço dorido, atalhou logo de manhã com o dito ben-u-ron mas eu resisti até depois de almoço. Mas depois teve que ser. 

Melhorei mas, ainda assim, não me sinto propriamente em grande forma.

Quando foi da outra, dessa coisa esperta que dá pelo nome de Janssenn e que pelos vistos não é carne nem é peixe e que só dá um bocadinho de imunidade durante menos de três meses, não me doeu braço nem corpo nem fiquei cansada. Mas tive, nesse dia, um acidente isquémico relativamente ao qual não está descartado que não tenha sido provocado pela vacina. 

Mas, pronto, o que lá vai, lá vai. E das sequelas que ficaram trato-me -- e bola para a frente. 

E, supostamente, agora, com este reforço, já estarei mais protegida. Não sei é se o estou da Ómicron mas, enfim, parece que o dito rafeiro de corona não é tão coisa ruim como os manos que o antecederam. 

Mas sabe-se lá. 

O que temos como certo em tudo isto é que temos que ser humildes e ir aceitando que estamos a atravessar um processo de aprendizagem que está em curso, no qual não há muitas certezas e em que o que há para saber á mais do que o que se sabe.

Mas há coisas que são iguais. Enquanto estava à espera, ao meu lado uma senhora falava comigo. Tenho quase a certeza que não abri a boca. Estava com máscara e com óculos escuros. Não estava a fazer-me de diva mas, como receava que chamassem, preferi estar com óculos graduados para ver melhor ao longe. E são escuros. Como estava com franja, pouco ou nada da minha cara estava à vista. E, no entanto, a senhora confiou em mim. Contou-me tudo, o que faz, onde trabalha, a Covid que teve no princípio, os sintomas, como foi de ambulância, como lhe custou cara a ambulância, o que a filha lhe disse, como as senhoras para quem trabalha reagiram. Falou constantemente. Depois da triagem e de ter preenchido o documento, fomos para outra sala. Aí fiquei ao lado de uma outra que me contou o que tinha acontecido ao carteiro de cinquenta anos que não tinha querido levar a vacina, agora o pai que já é tão velho ainda está vivo e o filho, que ainda era novo e saudável, já se foi. Eu ouvia-a e pensava, intrigada, o que se passará comigo que faz com que as pessoas comecem a conversar e a contar-me tudo e mais alguma coisa. Creio que também não abri a boca para falar com a segunda. Sabia que não haveria tempo e não quereria depois interromper uma conversa mais pessoal.

Contei ao meu marido. Ele desvalorizou. Disse: 'O tipo que estava à minha frente também falou comigo'. Fiquei admirada. Não apenas ele é de poucas palavras como parece que as pessoas adivinham pois parece que quase nunca ninguém mete conversa com ele. 

Perguntei o que o senhor lhe tinha dito. Disse-me: 'Pediu que quando chamassem Joaquim Sebastião eu o avisasse porque ele era surdo'. Perguntei: 'Só isso?' E ele: 'Sim'. Esclareci: 'Mas não tem nada a ver. Ele fez-te um pedido, a mim contam-me a vida'. Já não disse mais nada. Acho que não está muito interessado na vida dos outros nem percebe porque ma contam.

A mim o que me intrigou mais foi eu estar de cara praticamente toda tapada. E, mesmo assim, foi o que foi. 

Tenho a certeza que, se eu tivesse feito algumas observações ou perguntas, a conversa resvalaria para o patamar das confidências.

É certo que tenho uma curiosidade infinita e provavelmente isso manifesta-se através da atenção que presto. E sinto também uma profunda simpatia pelas pessoas que, de forma tão espontânea, me dão a conhecer os seus problemas ou as suas vivências. Penso sempre que, se não andasse sempre com o tempo contado, faria verdadeiras entrevistas às pessoas, deixá-las-ia falar de si, dos seus, dos seus assuntos. Mas eu pensava que a confiança que as pessoas depositavam em mim vinha da atenção que me percebiam, do meu olhar, das minhas expressões. Agora com a cara tapada...

Mas não interessa. As coisas são como são, nós podemos é não as compreender. E isso é um problema nosso, não das coisas.

[Na volta isto de me estar a dar para filosofar é outro dos efeitos secundários da vacina... não...?]


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E agora, antes de me despedir, partilho mais um daqueles vídeos bonitos da Green Renaissance..

What Makes You Happy

Most of us have been taught to believe that happiness is linked to our accomplishments. We think that we’ll be happy when we get married, or we’ll be satisfied when we get a promotion at work. We are convinced that we’ll find joy when we finally buy that luxury car.

But happiness is better linked to contentment. It’s about being content with what we have - not hunting for anything more than what we need. The abundance of the present is enough to lead a happy and healthy life.

Of course, this doesn’t mean that we should settle for things as they are. We should continue to dream, set goals, and work towards them. We just need to remember to enjoy the journey and not rush to make it happen.

Being grateful for everything we do have instead of spending most of our time thinking about what we don’t have, makes life a lot more beautiful. So take that first step toward happiness. 

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Pinturas de Evelyn Malgil na companhia de Carminho e Chico Buarque com Falando de Amor 

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.
Tudo de bom para todos quantos por aqui me acompanham.

sábado, julho 31, 2021

Touch me.
Em silêncio, se faz favor.

 



A improvável indiferença pelo conhecimento de si. É o que eu sinto sobre mim e o que aprecio nos outros. 

Há pouco passei na rtp2. Não me toques. Touch me not. Mulheres falando de si, um homem que quis ser mulher, uma mulher dizendo que não saberia o que dizer do seu corpo, homens dizendo coisas que talvez façam sentido, mulheres confidenciando sobre medo, raiva. Ouvem-se com atenção. Há silêncios, hesitações. Adina Pintilie quer saber, presta atenção à intimidade descrita. Parece haver ansiedade entre os participantes. Outras vezes, indiferença. Não alegria.


Nada disso me interessa muito pois a racionalização sobre si-mesmo é matéria que me parece frívola. Bem sei que há quem a ache profunda e bem sei que em certas circunstâncias é fundamental para que algumas pessoas possam ultrapassar alguns demónios ocultos. Que seja. Não julgo. Apenas não me identifico. 

Não sei se é essencial uma pessoa conhecer-se. Acho que a pretensão do conhecimento de si é uma pretensão estulta. Ninguém poderá alguma vez conhecer-se. Nem que todas as suas células fossem desdobradas e mapeadas e estudadas à lupa, nem assim alguém ficaria com o conhecimento de si. Não somos células, somos bem mais que isso. Não somos memórias, somos muito para além disso. Mesmo que descodificássemos as nossas emoções ficaríamos na mesma: somos muito mais do que isso. Somos a mais pura abstração. E, para melhor nos identificarmos com abstrações, deveremos olhá-las de longe, sem as querer perceber ou interpretar. A interpretação de uma abstração não é apenas um exercício desnecessário: é, sobretuto, absurdo. Deveremos manter-nos desconhecidos, misteriosos, relativizar-nos, olhar-nos de longe, ignorarmo-nos.

Digo isto sem certezas, só com intuições. Há quem ache que o passado deve ser desenterrado, escalpelizado, interpretado. Mas eu tenho dúvidas. Não é preferível pensar, antes, no futuro? Não é preferível apostar antes na tolerância, na generosidade, na capacidade de ver o outro lado, na ousadia?

Não sei.

Se uma mulher não sabe sobre o seu corpo, em vez de tentar perceber as causas desse desconhecimento, não seria preferível incentivá-la a ousar, a arriscar, a perder o medo ou a vergonha e, sobretudo, a deixar de pensar tanto no assunto? 

As palavras são importantes mas devem ser como véus que se vão deixando cair. Quando, pelo contrário, as palavras são usadas como véus que se vão colocando sobre as emoções, sobre os sentimentos, então é como se fossem escolhos que se vão colocando no caminho.

Que interessa ter a pretensão de conhecer o corpo? Conhecer como? O corpo muda ao longo do tempo. Conhecer o que faz bem ao corpo? Como? A cada dia que passa vamos descobrindo novos benefícios de cuja existência antes nem suspeitávamos. 

Entrar no mar, mergulhar. Nadar. Apanhar sol na pele nua. Sentir umas mãos sobre o nosso corpo. Ouvir um poema. Beber um sumo fresco num quente fim de tarde. Ouvir contar histórias cheias de mistério. Entrar numa montanha. 

Tudo melhor do que falar sobre o próprio corpo, sobre si.

Na rtp 2 vejo agora um encontro de excessos. Corpos nus como que exorcizando fantasmas. Também não me interessam. Há alheamento, alienação nisso. Ou exploração e condescendência face à diferença. Não me identifico. Prefiro os momentos simples, animais que se procuram. O corpo prefere o silêncio. Quanto muito, um poema dito, quase num murmúrio, ao ouvido. Ou, quase em silêncio, rente à pele. As palavras, quando são demais ou quando acontecem em momentos inoportunos, são mera poluição.

Mas, lá está, posso estar enganada. Se calhar não percebi nada.

No fim, a mulher, nua, dança. Os pesados seios dançam também. A mulher ri, os seios também. Disso eu gostei.

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As pinturas são, respectivamente,:

  • Red nude, Marino Mazzacurati, ~1936 circa
  • Lily and the Sparrows, Philip Evergood, 1939
  • Portrait of Madame Tallien, Jean-Bernard Duvivier,1806
  • Portrait of the Dancer Aleksandr Sakharov, Alexej von Jawlensky, 1909
  • Saint Sebastian, Bronzino, ~1533
  • Sleeping Woman, Alexej von Jawlensky, 1910
na companhia de Hildegard von Bingen que compôs De virginibus

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Desejo-vos um sábado feliz

segunda-feira, julho 26, 2021

Otelo

 



Algumas pessoas não cabem dentro da esquadria normal. Talvez seja porque não são tridimensionais como as que se enquadram sem dificuldade.

Mesmo sem querer, todos nós traçamos as linhas em que a movimentação dos outros nos parece razoável, linhas que, mesmo sem darmos por isso, se instalam como linhas vermelhas: linhas do bom comportamento, da religião, da ética, do respeito pelos outros. Somos mais ou menos tolerantes... mas deste que o outro não pise nunca esses riscos.

Tenho também ideia que só quem tem a coragem ou a inconsciência de sair da esquadria é que consegue furar a malha do status quo para fazer a disrupção que, de vez em quando, é precisa.

Podemos querer que, quando o momento o pede, consigam destacar-se da mediania e sejam mais corajosos, visionários, criativos e audazes do que todos nós -- e, ao mesmo tempo, fora disso, sejam bem comportados e iguais a todos nós. Contudo, penso que isso é uma equação impossível.

Talvez por isso, de quase todos os que ficaram para a história se conhecem excessos, desvios, excentricidades, maus passos.

A ideia que tenho é que Otelo é bem exemplo disso: um daqueles seres que não encaixa bem em nada e que, quando foi preciso, se chegou à frente e avançou de peito feito.

Na escola teve faltas de mau comportamento, foi suspenso. Sempre foi extrovertido, truculento, utópico. O palco e as câmaras atraíam-no. Não temia o mediatismo nem o confronto. 

Não tinha ainda quarenta quando se deu o 25. Amigo da coboiada, certamente sempre pronto para uma cena, em especial se prometesse conspiração -- mesa virada, pratos partidos e 'ir aos cornos' a quem estivesse a pedi-las -- preparar o 25 deve ter sido uma coisa épica: adrenalina e testosterona em dose dupla, provavelmente tudo condimentado com palavrão e gargalhada, e bem regado com umas bjecas bem fresquinhas.

No 25 a coisa deu-se e deu-se com uma grande pinta: a missão não poderia ter sido melhor cumprida. Vimo-nos livres do sarro de antanho, despimos o cinzentismo e o bafio de décadas, sacudimos o pó salazarista e marcelista que não deixava a malta respirar, a liberdade veio para a rua e a democracia começou a dar os seus passos.

Claro que a seguir Otelo continuou a fazer das suas. Deslumbrou-se, encandeou-se, pisou o risco, desiludiu-se, quis reencontrar o espírito inocente dos ideais revolucionários, de vez em quando disse o que não devia, de vez em quando fez o que não devia. Anos depois de ter ajudado a conseguir a libertação dos presos políticos, os seus excessos levaram-no, a ele mesmo, aos calabouços.

Não se consegue amestrar uma pessoa assim. A cada momento mostra que desconhece esquadrias. Ou, se as conhece, está-se nas tintas para elas pois tem muitas outras coisas em que pensar.

Antes, calhava muitas vezes estar a conduzir, do almoço para o escritório, enquanto na TSF passava a playlist de pessoas conhecidas. De todas as que ouvi, as pessoas introduziam o tema explicando porque é que ele as tinha tocado ou porque é que o cantor lhes era especial. Otelo foi diferente: Otelo cantava as canções, a sua voz juntava-se à de Sinatra ou a de quem quer que fosse, misturava-se com a música. O seu à vontade, a sua joie de vivre foram, como sempre, patentes. Facilmente o imaginávamos a dançar, a cantar 'a casa da mariquinhas' nos seus encontros de amigos.

Destemperado, desalinhado, com uma energia e uma alegria sem peias, na vida amorosa também não se aguentou nos eixos. Tinha duas mulheres que, por o compreenderem e amarem, aceitaram que repartisse a sua vida entre duas casas. E ele assumia isso sem pejo ou pudor. 

Otelo foi um homem que não coube em esquadrias -- e a quem muito devemos. Quanto ao resto, temos que encarar como efeitos colaterais que, por muito que nos custe ou que custe a alguns, devem ser relativizados. 

Quando ouvi que tinha morrido senti um abalo interior, como se Otelo, o eterno jovem, estivesse a atirar-nos à cara que tudo é perecível nesta vida e como se, com a sua morte, o 25 de Abril de 1974 passasse agora a ser coisa do passado.

Mas é assim que as coisas são... 

... e a vida continua. 
Desejavelmente sempre com um cheirinho de alecrim.

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O primeiro cravo foi pintado por Leora Baranes e os últimos por Lori Twiggs. Dos graffitis com os cravos de Abril não sei quem são os autores

O Chico canta o Tanto Mar

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

E viva a liberdade

sexta-feira, abril 23, 2021

Clarice

 


Não sei quando li Clarice Lispector pela primeira vez nem como foi que soube dela. Se calhar, descobri-a acidentalmente numa livraria. Mas já foi há muito tempo.

Foi um choque.

Era uma escrita visceral. Alguém escrevia como a gente pensa e sente mas não diz. Lia aquelas palavras  sem conseguir compreender como era possível uma escrita assim. Era tudo muito íntimo, muito drástico, muito cru e, ao mesmo tempo, muito vital. E muito espiritual.

Não sei o que diz dela quem sabe o que diz quando se fala de um escritor como Clarice. Não sei, pois, sei se estou a ser correcta no que digo. Posso estar a ser parcial, imprecisa, a ver apenas uma ínfima parte do que há para ver, posso estar a exprimir-me mal. Mas, sinceramente, não sei como melhor dizer o que acho da escrita desta escritora que situo acima do comum dos mortais. Dá ideia que levita, que a banalidade do mundo não a interessa, que ignora a superficialidade, que paira num outro mundo, tão ausente depois de morta do que era quando viva.

Para se gostar dela tem que se ter o coração e a mente disponíveis. Tem que se ter vivido. Tem que se ter conhecido qualquer coisa do mundo. Tem que se ter tempo para a acolher.

Gostava de a ter conhecido. Gostava de ter podido estar na sua presença, conversar com ela. Gostava tanto.

Por isso, gosto de ler e ouvir sobre ela. A palavra a quem a conheceu: alguns que encontrei. Espero que gostem. E, para quem ainda não leu nada dela, espero que fiquem com vontade de ler.











E, uma vez mais, este vídeo que acho delicioso



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Respectivamente:

  • Entrevista rara de Clarice Lispector | Museu da imagem e do som em 1976
  • Alunos de Letras da USP 1970 entrevistam Clarice Lispector
  • Clarice Lispector | Poesia e prosa com Maria Bethânia e Caetano Veloso 
  • O grande amor de Clarice Lispector | Lúcio Cardoso
  • Conselhos de Clarice Lispector para escritora Lygia Fagundes
  • Chico Buarque relata noite de jantar com Clarice Lispector
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Uma happy thanks-god-it's-friday

sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Fake news com covid à portuguesa e, de sobremesa, Paulo Portas com manipulações e meias verdades.
Salva-se a querida Dame Judi Dench e o queridíssimo Chico Buarque.

 



Por motivos que não vêm ao caso, tivemos que ir à cidade. Muita gente. Muita gente sem máscara e outros com meia máscara. Fez-nos muita impressão. Desviávamo-nos, incomodados. Mas aquela gente não sabia que ainda estamos em regime de confinamento? Esqueceram-se que ainda há covid? É certo que estávamos na rua mas, bolas, cruzando-nos uns com os outros em quase permanência, gente a passar por nós a menos de um metro... Andámos aos ss na rua, a fugir de um, a fugir de outro, tentando ser discretos, sem perceber a que mundo tínhamos ido parar. E tantas lojas abertas. Não conseguimos perceber. 

Depois, já que estávamos ali e precisava de sacos para o aspirador, resolvemos ir, num instante, comprá-los. Ao entrar na loja, uma mulher mais velha que eu vinha na minha direcção também para entrar. Mas vinha sem máscara. Desviei-me para que não ficasse a respirar-me para cima, a menos de meio metro. Quando vi que ia mesmo entrar, disse-lhe: 'Desculpe mas não pode entrar sem máscara'. Ela disse, sem espanto: 'Sim, tem razão'. Abriu a bolsa e retirou uma máscara. Mas ali andava sem máscara, na maior descontração. 

Ao presenciar toda aquela movimentação, fiquei a pensar que, afinal, se calhar, ao contrário do que por vezes penso, quando a pandemia for debelada tudo voltará ao que era. Para nosso grande espanto, não fora algumas pessoas de máscara, dir-se-ia que estávamos nos tempos de antes do corona. Na loja, várias pessoas comprando e escolhendo coisas com vagar, umas tirando dúvidas junto dos funcionários, outras revirando objectos. Preocupação por estarem num espaço fechado, zero. 

Aqui onde vivemos, não muito longe da cidade mas cumprindo os deveres de confinamento, estamos distantes dos velhos hábitos que, pelos vistos, se vão reatando.

Pelo telefone, o meu filho desvalorizou: que quase um ano de vida alterada acaba cansando a disposição das pessoas, que isto é natural. Os mais novos sentem-se praticamente a salvo e, a menos que por dever cívico queiram proteger os outros, virão para a rua gozar a vida. Diz ele. Talvez. Acredito que sim. 

Era quase noite. Provavelmente os que vi, entre o sítio em que estacionámos, o largo onde havia assuntos a tratar, a rua, o percurso para a loja e o caminho de volta ao carro, terão sido umas cem pessoas na rua, talvez mais, não sei calcular. Dessas, talvez metade das pessoas andasse sem qualquer preocupação de afastamento. Talvez uns trinta ou quarenta por cento estivessem sem máscara. Vários dos que estavam de máscara estavam de nariz de fora. Talvez seja uma amostra pouco significativa, talvez não possa tirar conclusões precipitadas. Não sei. Mas fez-me muita impressão. Achei um excesso de à vontade.

Pelo caminho, na rádio ouvimos a notícia de que um farsante do PSD, avençado do Observador, resolveu forjar um plano, usando um template do Governo, com logótipo e tudo. Depois veio com desculpas esfarrapadas que nem ao menino jesus convencem. Fizeram bem os que, lestamente, enviaram o caso para o Ministério Público. Não há pachorra para os chico-espertos para quem só a desestabilização importa. Numa altura em que as hostes laranjas se agitam -- volta o Passos, não volta o Passos --, aparecem as fake news que agitam as redes sociais e lançam a confusão. 

Se não tivesse sido tão prontamente denunciado haveria de andar já meio mundo nas televisões a discutir mais uma treta, uma de entre tantas. 

É como o Paulo Portas. Ao princípio até gostei de vê-lo aos domingos na TVI: um comentário abrangente, aparentemente documentado. Mas rapidamente derrapou para a manipulação, para a meia verdade, para a insinuação, para a maledicência. Fala do que os opositores de Costa intrujam e intrigam como se fossem as posições do Costa. Pouco sério, isso. Ou apregoa como medida certa e de sua lavra coisas que Costa já decidiu faz tempo. O meu marido já desistiu e eu no domingo passado desisti a meio. Gosto de gente que pratica a honestidade intelectual, gente de bem, gente que, mesmo em quadrantes políticos contrários, usa de armas limpas, argumentação franca. Mas pode alguém ser quem não é? Não, né...? Paulo Portas é quem é e, pelos vistos, não mudou nada. Portanto, azarinho: para mim o comentário político do PP nas noites de domingo da TVI  já era. Aos domingos à noite fugia do cagalhotas e ia ouvir o Portas. A partir de agora, viste-o. Estão bem um para o outro, um na SIC, outro na TVI. Aos poucos, vou-me desligando de tudo o que seja treta, falsidade, intrujice. 

Há bocado, ao tentarmos ver alguma coisa, deu-nos uma aversão total a esta comunicação social que explora a má língua, a acusação, a leviandade, a estupidez. O meu marido disse: vamos desligar a televisão. Mas não fui tão radical mas fui ver outra porcaria, o MasterChef Brasil. Aquilo não é culinária, são casos sociais

Enfim.

Pelo meio, por acaso, até gostei da comunicação de Marcelo. Falou bem. É isso: já chega de futilidade, de parvoíce, de irresponsabilidade. Ao falar com a minha mãe, ela disse o mesmo ao comentar a comunicação dele às 20: o homem está como eu, farto de gente estúpida, gostei de ouvi-lo, tem todo o meu apoio. E eu disse: E o meu.

Tirando isso. Dia preenchido como sempre. Mas já estou com a cabeça no que quero fazer no sábado: tentar tirar o vaso dali. O meu marido continua a insistir que é impossível a menos que se tire a terra e, na prática, se mate a planta que está a querer renascer. E isso, obviamente, não. Agora há uma coisa: quando a gente quer uma coisa, consegue. Portanto, não acredito que aquele vaso descomunal vá ficar ali até ao fim dos meus dias. Temos que conseguir. Se não fossem as escadas, a coisa seria de caras. O pior é fazê-lo descer as escadas.

Penso nisso e em varrer o jardim. Nem sei como vou estar concentrada nas reuniões quando me apetece é ir varrer o jardim. Com um ancinho, com um balde para recolher as camélias murchas, a caruma, as folhas secas. O meu marido quer ir podar algumas buganvílias. E temos que ir os dois tentar domar as roseiras bravas, trepadeiras, que circundam uma das árvores grandes.

Não serão grandes objectivos, eu sei, mas agora é o que há. Parece que já nem sei ter grandes ideias nem grandes desejos...

A minha mãe, ao telefone, dizia que pelos anos não quer nada, que tem os armários e as gavetas cheias de coisas de que não precisa, que já nem tem onde guardar mais nada. Eu disse que estou na mesma, que há um ano que não compro praticamente nada a não ser comida e que não sinto falta de nada. Mas, se sinto um certo orgulho por me ter tornado assim, a verdade é que penso que, se muito mais pessoas estão como eu, isto é o desastre total para a economia. E é que eu acho que isto não é apenas enquanto durar a pandemia, acho que isto é assim forever. Mas, lá está, na volta é comigo e pouco mais porque, se calhar, mal nos desconfinemos, meio mundo irá a correr gastar dinheiro em traparia. Não sei. Aliás, não sei mais nada de nada.

Por isso, calo-me. Espero que gostem das fotografias de Philotheus Nisch e da companhia de Natalia Lafourcade e Omara Portuondo a interpretarem  Tú me acostumbraste. E espero que gostem também de ver os vídeos que hoje vi e de que gostei.


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Dame Judi Dench e Benedict Cumberbatch Unite Us


Já agora, deixem que partilhe o vídeo de alguém que fala das várias gerações, desde as memórias da bisavó da mãe até aos seus sete netos. E eu que tenho tantas saudades dos meus -- pimentinhas mais lindos, que agora só os vejo por fotografias ou filmes ou conversas à distância.

Chico Buarque fala sobre sua relação com seus netos


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E tenham um belo dia
Força. Boa disposição. Saúde.

sexta-feira, janeiro 15, 2021

Porque era ele, porque era eu. Porque é ele, porque sou eu.
[Já lá dizia o Montaigne ao tentar explicar o amor]

 


Eu também acho. Também não sei outra fórmula que seja mais exacta. Porque ele é ele e eu sou eu. 

Se quiser dizer mais do que isso, terei as maiores dificuldades. Só sei que tem que ser inequívoco, não pode haver dúvidas nem reservas. Não se pode gostar de tudo excepto daquilo. Não se pode dizer que é pena aquilo porque, se não fosse, seria excepcional. Nem se pode dizer que é verdade, é um bocado isso mas, tirando isso é uma maravilha. Não, não pode haver uma parte de que se não gosta senão, invariavelmente, isso vai alastrar e, com o passar do tempo, vai tornar-se insuportável. Isto não quer dizer que tenha que se gostar sempre de tudo. Mas tem que ser uma coisa variável, ocasional. Não pode haver, em permanência, uma coisa de que se não gosta. Se se consegue dizer que há ali uma coisinha que é uma pena senão era todo bom, então, que não se duvide: essa coisinha vai virar o aleijão que vai contaminar tudo o resto. E, se não se corta o mal pela raiz, o que vai acontecer é que, aos poucos, mesmo sem querer, o que vai a sobrevir é a repulsa, a aversão total.

No meu caso, o que posso dizer é que, sempre que me apaixonei, mas apaixonei a sério, apaixonei totalmente, sem reservas. Mais: sem ser capaz de explicar. Ou melhor: podendo elencar mil razões e, se calhar, esquecendo-me de outras mil e nenhuma explicando a paixão de per se já que ela é apenas explicável pela conjugação, na dose certa, de cada componente.  

Da única vez que namorei uma pessoa sabendo que havia ali uma ou outra coisita que, no meu íntimo, não me agradava por aí além, apesar de durante algum tempo ter banido do meu consciente essas insignificâncias e conseguido simular tão perfeitamente que gostava dele que a mim própria cheguei a enganar-me.... a coisa não acabou bem. Foi uma questão de tempo. Havia amizade, havia esse afecto que é a amizade misturada por um inconsciente, vago e nunca confessado sentimento de culpa, e foi difícil cortar. Tentava auto convencer-me que me seria doloroso cortar. Tentava auto convencer-me que ele era uma opção. Tentava auto convencer-me que me custava infligir-lhe sofrimento. E custava. Mas, no meu íntimo, tomara eu ver-me livre dele. Mas não o assumia. Não queria, nem apenas para mim, assumir que estava a namorar uma pessoa sem estar loucamente apaixonada por ela. Mas, quando cortei, foi para nunca mais. Creio que não queria admitir a possibilidade de poder vir a ser confrontada com a evidência do que, ab initio, era um acto falhado. A vida da gente tem coisas assim.

Mas, por isso, sei bem que, para um amor ser amor e ser bom, para ser imenso, para resistir ao tempo e a tudo, para ser compensador, tem que ser total: tem que haver igual investimento de parte a parte, o que um dá, o outro tem que dar em igual medida, tem que haver sintonia, empatia, dádiva, acompanhamento, química (que talvez seja a mesma coisa que atracção -- a coisa física é fundamental -- mas que talvez seja uma outra coisa, não sei; nisto não sei explicar nada), e vontade de atravessar junto o deserto mais árido e o vulcão mais incandescente, ter a certeza de que se vai gostar hoje, amanhã e para o resto da vida. Mesmo que, por vezes, a gente vire onça e tenha vontade de dar surra e atirar da vida para fora, a gente sabe que amor assim a gente tem que conservar porque amor assim acontece uma vez na vida.

Para explicar o amor


E, já que estou com o Chico, bora continuar com ele falando de mulher?

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Pinturas de Klimt, Nicolas Poussin e Rubens ao som de 'O meu amor' e Teresinha com Chico Buarque 

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E um dia feliz. Saúde.

segunda-feira, janeiro 11, 2021

O jantar que não houve -- Chico e Clarice

 

Chico, coisa mailinda, sorriso tímido a iluminar os seus belos olhos d'água, conta o medo que sentia perante Clarice, mulher bela, cheia de mistério, alheia às aflições alheias. E conta sobre o jantar onde foi, a convite de Clarice, e, para o qual, para se sentir mais apoiado, levou dois amigos, ambos igualmente intimidados. Mulher bonita intimida. Mulher bonita e inteligente intimida ainda mais. 

Historinha mais deliciosa.


quinta-feira, agosto 27, 2020

Certamente um salsifré desconjuntado




Só para explicar porque é que hoje isto não vai dar: adormeço de minuto a minuto. Vou ter que me deitar antes de conseguir escrever coisa com coisa. 

O dia foi dos bravos. Primeiro não conseguia fazer o upload do ficheiro para o portal da AT. Tinha onze megas e aquilo só permitira até cinco. Zipei, comprimi e o escambau e só foi até aos seis e tal. Aí comecei a moer a paciência a quem me poderia valer, nomeadamente o meu filho e a minha nora que tinham fotografado todos os documentos antes de os fundir num pdf. Mas eles também não conseguiam reduzir o suficiente. Isto para não irmos para uma repartição. De resto, ir só com marcação e já atirava para tarde de mais. Horas nisto. Ah, e isto porque tinha verificado que o que tinha feito no outro dia não estava registado. Liguei para saber. Horas para que me atendessem... e não atenderam. Hoje ligou a minha filha e ao fim de não sei quanto tempo lá apareceu alguém do outro lado que explicou como fazer tudo e, no fim, verificar que estava feito. Finalmente, embora excedesse uns cagagésimos, lá passou. E confesso: um peso que me tiraram de cima. Se há coisa que me perturba é saber que tenho coisa de responsabilidade para fazer, prazo a correr e, por isto, aquilo ou o outro, ver passar o tempo e não conseguir.

Pelo meio, o carro. Não contei na altura -- porque na altura foi tamanha loucura que não dava para tudo, muito menos para contar --- que, no primeiro dia da mudança, se avariou um carro. Era suposto, quando saísse o primeiro camião, eu ir antes para lhes abrir a porta da casa nova e os orientar dizendo qual o lugar de cada coisa, enquanto o meu marido ficava na casa antiga a orientar a carga do segundo. Só que ele, enquanto durava o carregamento do primeiro camião, resolveu ir adiantar serviço e ir levar sacos pejados de tudo e mais alguma coisa, o que achámos que mercia cuidado especial, para a casa nova. E, à vinda, o carro deu sinal de avaria grave e que parasse em segurança. Portanto, podem ver: momento mais inoportuno não podia haver. Por volta da hora de almoço, ele na oficina, dizem-me os homens que a camioneta já se tinha posto a caminho. E eu sem conseguir contactá-lo. Portanto, vi-me na situação de deixar a casa de portas abertas e coisas de valor lá dentro. Portanto, a confusão que foi não vos digo nem vos conto. Nesse dia tive que pedir ao meu filho e família que me viessem buscar e levar de boleia até à casa nova. Quando chegámos, como é bom de ver, já eles lá estavam com a camioneta à porta. Como entretanto houve réplica da primeira leva, depois uma little segundinha e arrumações pelo meio, fomos andando mesmo assim ou usando o outro carro que não é tão prático para o efeito. Um destes dias, já esta semana, liguei para a assistência da marca. Como está na garantia, disseram que um técnico haveria de me contactar. O técnico contactou e disse que, face ao que era, nem levar à oficina. Era de reboque e era já. E lá foi. O pior foi saber quando estaria pronto. Muito mau. Depois de muitos telefonemas lá disseram: a partir das cinco. 

Aproveitámos para ir à casa velha buscar mais cenas: três quadros que tinham ficado para trás, um relógio de parede, talheres, pratos de cozinha, roupa.

Quando chegámos aqui a casa, foi o do costume: depois de estar tudo mais ou menos limpo e arrumado, chegamos com mais uma dúzia de sacos grandes cheios de coisas e lá voltamos ao mesmo: mais coisas para arrumar.

E foi aí, ao pretender guardar um papel importante junto dos outros papéis importantes, que não encontrámos a pasta com papéis importantes.

Lembrávamo-nos bem: havia uma pasta com papéis verdadeiramente importantes e uma outra com recordações. E sempre dissemos: temos que ter cuidado com isto, estes papéis não se podem perder. Dias nisto. E hoje apareciam todas as pastas com toda a espécie de documentos excepto os verdadeiramente importantes. Corremos tudo. Às tantas já só me apetecia chorar. Um desespero. Uma pessoa puxa pela cabeça, revira tudo... e nada. Até que pensámos que, na volta, lá tinha sido deixada. Às dez da noite resolvemos lá voltar. Corremos tudo -- e aproveitámos para trazer mais uma ou outra coiseca... --  e da porcaria da pasta sem sinal.

Pensei: terá sido no dia da primeira leva quando estava na eminência de ter que deixar a casa aberta e os homens entregues a si próprios que, antes de sair, peguei em coisas verdadeiramente importantes e as guardei? Lembrámo-nos: usei um saco de desporto encarnado. Na volta a pasta ainda lá está. Quando regressámos à casa nova, fomos logo ver esse saco. Vazio. Pensámos que teria ido junto com outras coisas. Talvez enfiado em prateleiras altas. Escadote. Nada. Desistimos. Cansados, exaustos, impacientes, já embirrando um com o outro por tudo e por nada. Fomos ambos tomar banho. Jantámos perto da meia noite. Entretanto, ele lembrou-se que pode ter tirado os documentos dessa pasta e misturado com outros numa caixa. Aparentemente acertou pois, antes de se ir deitar, já veio mostrar-me uns quantos. Parece que ainda não encontrou alguns mas a esta hora já não consigo querer saber. Até ver ainda não se perdeu nada mas isto de conseguirmos guardar memória de tudo o que fazemos é uma loucura. Eu até com coisas mais simples: as chaves de casa, o telemóvel, o comando não sei do quê, a fita métrica. Todo o santo dia a perguntarmos um ao outro se viu isto ou aquilo. Isto dá conta da cabeça a uma pessoa.

Agora são quase três da manhã. Já dobrei duas carpetes para as levar esta quinta-feira para serem trocadas por umas clarinhas que estão in heaven. Não sei a que horas zarpamos. A minha filha, que se nos vai juntar com os meninos, diz que só vai a seguir ao almoço. Mas temos mantimentos a comprar pelo que vamos forçosamente antes. A ver se consigo descansar, caraças, que isto não tem sido moleza, não.

Também passei o dia no rescaldo das grandes dores que tive há uns dois ou três dias: agora dói-me mas é dor suportável, natural em quem fez tanto esforço. Mas querem crer que hoje, que voltei a andar para aqui e para acolá, a arrumar coisas para trazer e, forçosamente a carregar pesos (que é o pior), parece que até estou melhor? Vá lá, ao menos isso.

Mas isto para dizer que, com este lindo programa de festas, cheguei aqui e adormeci e, mesmo agora, escrevo uma, adormeço durante duas. Acredito que o texto esteja um salsifré, engatado e esburacado, com bocados sem sentido e com erros a dar com um pau. Mas não dá para mais ou melhor. Bem sei que deveria era ter ido já dormir: mas tenho isto de gostar de estar aqui às quinhentas da noite a deixar os dedos voar sobre as letras.

Não consigo, uma vez mais, agradecer individualmente os comentários ou os mails mas a resposta a um é sim, aconteceu, aconteceu durante aquele período em que nem pudemos confortar-nos e apoiar-nos mutuamente nem despedir-nos condignamente -- e agradeço a simpatia. E era bom que fosse uma raposinha, sim, Ana, e a Jeitinho agradece a sua sempre presente gentileza. E obrigada pela app que acredito que me seja preciosa para identificar as flores, arbustos e árvores. E obrigada pelo bom conselho de reencaminhamento do correio, dica preciosa. E um obrigada especial a quem curte as suas casinhas e, mesmo de longe, lia sobre as minhas andanças; e um outro à menina-bonita, Maripa de seu nome, sempre com uma palavra de solidariedade e simpatia. E um dia farei uma reportagem, sim, talvez não a planta mas um conjunto de pecinhas de um puzzle. E hoje fui também comprar um cartão para a máquina pois quando quis fotografar as flores descobri que o cartão se tinha esgotado. A Lei de Murphy, quando lhe dá para se auto-demonstrar, é um ver se te avias. E, com vossa licença, agora é que vou mesmo dormir.

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Pinturas de Tarsila do Amaral, ao som do Dueto, com Chico Buarque e Clara Buarque

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E votos de um dia feliz. Aproveitem-no bem, ok?