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quinta-feira, setembro 24, 2015

Nesta imperfeita madrugada em que as línguas dos homens e dos anjos se confundem


Desenho no ar uma história. De aproximações e recuos se faz uma vida, de danças e contradanças, de medos e coragens. Desenho com palavras, com sonhos. 





Um homem atravessa os campos, os ventos, as neblinas, os tempos, e na sua cabeça traz poemas e nas mãos quase nada. Mas caminha apressadamente, como se conhecesse o seu destino.
Uma mulher vem pelos campos floridos, atravessa as ervas que ondulam ao vento, bebe água de um regato, senta-se com vagar a sentir os cheiros. Não traz nada nos bolsos nem nas mãos mas o coração vem cheio de afectos. 
O homem pouco fala, ouve, e diz poemas como se falasse. Ninguém o ouve, di-los para si próprio. Ou talvez tenha dito a outras mulheres, noutras vidas. 
A mulher não o conhece. A mulher não espera nada, passeia pela vida com a leveza das mulheres muito amadas.



Os tempos escurecem, chove. O tempo passa. O homem não conhece a mulher, não conhece muito de amores vividos ao ar livre, sob a copa das árvores, não conhece a pele nua das mulheres dormindo ao sol. Mas conhece tantos livros, tantos poemas, tantas músicas. 
A mulher abre livros sem tino, lê poemas como se apanhasse folhas douradas no chão, ao acaso, não sabe um poema de cor, não reconhece as músicas que ouve. Flutua na vida, atrás de si não ficam sombras, não transporta memórias.
O homem vem de outros tempos, por vezes os olhos carregados de sombras, por vezes em silêncio. Outras vezes, abrem-se à luz, esperam uma palavra.
A mulher ouve os pássaros que a chamam, sente o perfume das flores, e arrisca. Atreve-se ao caminho, cruza o portão, entra no labirinto.
O homem teme, não conhece da vida as asas, das mulheres os risos francos. Mas arrisca. Abre a porta. Espera no labirinto.




Alguém diz, então:
como dizer aos meus olhos que se afastem
do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
rasgando a minha fome

e me protejam nesta imperfeita madrugada
em que as línguas dos homens e dos anjos
se confundem

Desconhecidos, em frente um do outro, olham-se com estranheza: quem disse estas palavras? 

A mulher respondeu: eu ouvi as palavras. Foste tu que as disseste.

E o homem: eu também ouvi. Foste tu.

Mas não acreditaram. Aproximaram-se, ele transportando os seus poemas infinitos, ela transportando o seu coração cheio de afectos. Não se conheciam mas era como se soubessem que jamais se poderiam separar. Abraçaram-se como se toda a vida tivessem caminhado na direcção um do outro.

ou seja:
o primeiro homem olhando a primeira mulher




Depois a mulher perguntou: quem deu o primeiro passo?
O homem disse: fui eu.
A mulher disse: eu achava que tinha sido eu.

Sorriram. Abraçaram-se de novo. Pensaram que nunca mais se poderiam separar. Depois beijaram-se. A seguir, de mãos dadas, seguiram pela estrada, contando coisas um ao outro.

subitamente as palavras romperam de nós
com uma fúria que não lhes conhecíamos

contou mais tarde a mulher. 

e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber melhor
porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor.

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E aqui acaba o sonho construído em cima de um beijo inventado.

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As fotografias são de Takashi Yasui

Louis Armstrong interpreta "A Kiss to Build a Dream On"

Os excertos de poemas são de Alice Vieira in "Dois corpos tombando na água"

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E, antes de me despedir, convido-vos a descerem até ao post seguinte onde explico que é devido a uma bexiga sempre a deitar por fora que Passos Coelho e Paulo Portas mentem a toda a hora. Um artigo científico suporta esta afirmação.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta-feira muito feliz. 

...

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Os Espíritos continuam a assombrar a Assembleia e eu, farta de os ouvir dizer que não sabiam de nada e treuze, piquenos e outras pérolas, mudo de assunto e, de lingerie, ousadamente, sem medo de provocar os deuses, entro numa casa com umas regras muito próprias pela mão do Agent Provocateur.




Não estou muito afim de comentar os senhores que, como estou farta de saber, falam todos com o mesmo tom de voz, pronunciam as palavras da mesma maneira, dizem treuze, têm uma certa dificuldade em acertar na gramática e todos, por igual, dizem desconhecer o que se passava dentro do barco.

E não estou afim porque sei que é tudo demasiado assim e isso dá-me pena porque a verdade é que navios desta envergadura com uma enorme tripulação e inúmeros passageiros a bordo são conduzidos por quem pouco sabe da coisa e que confiam todos uns nos outros, fiando-se que alguém há-de saber ou estar atento caso dê para a borrasca.

Até ao dia em que, atónitos, percebem que a coisa já descarrilou demais.

E, ainda assim, confiam que alguém há-de ter a solução para o sucedido - o contabilista, o advogado, o professor, alguém que o primo arranje. E, sobretudo, acham, na inocência dos simples, que o que há que fazer é tentar esconder o que se passa porque o que se passa em casa, em casa deve ficar, e os dramas domésticos não são para vir para os jornais até para não haver pânico, e para que o prestígio e o nome da família não se enlameie, e há que esperar que a coisa se componha porque ninguém há-de ser tão inconsciente que vá fazer com que todos os accionistas mesmo os piquenos percam tudo ou que milhares de empregos se percam, trabalhadores tão bons, tão fiéis, quase tão bons como a criadagem. 

Mas o drama é que o País está mesmo entregue a gente inconsciente e leviana (e aqui refiro-me às mais altas instituições do Estado), e, se calhar, nem é bem leviana, é mais levezinha, porque leviano é coisa de outro calibre e este é mais na base da inconsciência, é gente que confunde o género humano com o Manuel Germano, que aceita embarcar em aventuras, que confunde ideologia de cão de caça com conceitos de gestão e, na maior irresponsabilidade, aceita ser cobaia e, na volta, ainda agradece ter sido escolhida para cobaia mesmo que a experimentação provoque queda de membros ou colapso de órgãos vitais.

E, então, perante o pasmo geral, de um dia para o outro, tudo se perde, tudo se desmorona. Ninguém percebe porquê mas as televisões logo se enxameiam de gente que afirma cetegoricamente que isto não tem nada a ver com o BPN, que isto não é caso de polícia. Os comentadores e os jornalistas-levezinhos são outra das pragas que atordoam os portugueses.

E agora todos eles, dos vários ramos da família, os primos Espíritos, aparecem, desconcertados, a confessar que receberam milhões mas não sabem bem porquê nem de quem e a reconhecer que assinavam de cruz porque confiavam no primo, e são todos primos dos primos e, de facto, ninguém sabia de nada porque se habituaram a que o primo é que sabia e que não era preciso saber mais que isso, a vida já é trabalhosa demais mesmo sem ter que se saber, muito menos trabalhar: há a vida de sociedade, as viagens, os almoços, tudo isso que dá trabalho e se resolve com dinheiro que aparece na conta sem ser preciso perder tempo com minudências como números, mapas, balancetes, maçadas que se deixam para os empregados, coitados, tudo gente tão boa.


E assim caíu o BES, caem as empresas do Grupo GES, cai a PT, tudo grandes empresas, exemplos de boa governance, tudo empresas com manuais de ética, de sustentabilidades, certificadas sob todas as normas, empresas que pagavam chorudos bónus e elevados prémios de gestão, viagens a jornalistas, bilhetes de futebol lá fora a outras prebendas a clientes - e que, afinal, caem redondas que nem tordos.


Por isso, interrogo-me: comentar o quê? É assim a vida em algumas das grandes empresas em Portugal.

Sempre aqui tenho repetido, quase carpido: o problema deste pobre país nunca foi a legislação laboral que sempre deu para tudo e para o contrário, muito menos os feriados ou a modorrice dos pobres trabalhadores, ou os seus ordenados, sempre tão baixos.

O problema deste País sempre residiu nas suas fracas elites, empresários que tantas vezes não têm formação nem estão habituados a trabalhar, apenas têm pedigree (quando a gente sabe que, para sobreviver com mais saúde, se saem melhor os rafeiros) e cagança, gente que disfarça a sua ignorância contratando assessorias e consultorias (que, na prática, valem menos que zero e apenas servem para se exibir as modas que se seguem). São as fracas elites no empresariado, na gestão, na política, no jornalismo, é a falta de liderança que tudo entorpece, é a cobardia e é também a mesquinhez generalizada. É isso que impede que Portugal cresça.

Um fraco rei faz fraca a forte gente.
(...) esteve perto
De destruir-se o Reino totalmente,
Que um fraco rei faz fraca a forte gente.

Estou a escrever isto e a pensar no que ouvi quando vinha no carro: o Alberto da Ponte no Parlamento. Para começar não percebo o que é que agora anda tudo a explicar-se no Parlamento. Coisas de gestão ou coisas disciplinares em vez de se resolverem no sítio certo, lá vai tudo lavar roupa suja para a Assembleia. 

Depois, o desnorte deste governo de anedotas é tal que demitem uma administração e a administração diz que devem estar mas é a brincar, que se vão catar, que não se demite nem se deixa demitir e ai de quem ousar chateá-los. E eu, já aqui o disse muitas vezes, não sou fã do Alberto da Ponte mas, face a este desvario do Poiares Maduro e à baderna armada pelo Conselho Independente - onde pontua o António Feijó que pode ser inteligente e perceber de literatura mas, ó caraças, ouve-se o senhor a falar e só apetece dizer que esteja calado, é um lírico que olha para a gestão de uma empresa como um boi olha para um palácio - e tenho que achar que ele, Alberto, está a fazer o que é lógico: a defender o seu brio profissional. Já alguma vez o Feijó do AO tinha visto antes um plano estratégico de uma empresa para dizer que está mal feito? Pensaria ele que ia encontrar uma tese de doutoramento com laivos de semiótica e tempero de epistemologia?

Uma paródia, este episódio da RTP. 

A falta de produtividade do País resulta destes encostos, destes malas, destes atrasos de vida, destas nulidades que pululam na gestão de topo, nos ministérios, nas comissões, nos conselhos, nessas tretas, tretas por todo o lado - e não da ronceirice de um ou dois trabalhadores, coitados.

Não tenho, por isso, paciência para gastar com estes fracos reis que fazem fracas as fortes gentes e que quase fazem deitar a perder este país tão pobre e desmoralizado, que aceita ser governado por gente mentirosa, desqualificada, impreparada.


Por isso, meus Caros, permitam que mude de rota.




Mercúrio acompanha a
entrada do ano
indiferente
diurno e
masculino

por isso não se perca tempo com quem
não merece

e tempo será de
um inverno áspero    e os que
nascem neste ano terão
mãos esbeltas e
dedos compridos

procurem com eles dominar
a pedra ou
o metal

sejam
ousados


Sejamos, pois, ousados. Vamos entrar em casas de alto risco. E vamos entrar acompanhados por agentes provocadores. Mas, primeiro, deixem que vos diga quais as regras do Salon.

Nº 1 - Não há reservas 
Nº 2 - As inibições são desencorajadas 
Nº 3 - Deve estar preparado/a para alargar horizontes 
Nº 4 - Os limites são estabelecidos por cada um
Nº 5 - A curiosidade é encorajada 
Nº 6 - Seja você mesmo/a: a discrição é garantida 
Nº 7 - Vista-de de acordo com a ocasião 
Nº 8 - Os espíritos livres são bem vindos
Nº 9 - As Regras da Casa são para ser quebradas
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Raparigas quase nuas divertem-se numa mansão
(sessão fotográfica para o Agent Provocateur)



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não provoques os deuses    ouvi
alguém dizer    e por isso
não houve perguntas para
o teu regresso

que também não durou mais
que um solstício de verão
a cair no rio

um sinal na rua
a passar do vermelho
ao verde
___

Se o sinal passou a verde, avancemos então.


Agent Provocateur Outono/Inverno 2014 - Le Salon ‘House Rules' 

(com as modelos Ashley Smith & Dioni Tabbers).



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Os poemas são de Alice Vieira in Os Armários da Noite. O primeiro poema chama-se Borda D'Água. O segundo não tem nome.

NB: O pequeno excerto de um poema em que se refere que fraco rei faz fraca a forte gente é de Camões.

Os vídeos referem-se à marca de lingerie Agent Provocateur. As fotografias que usei para ilustrar o post mostram Naomi Campbell, a gazela negra que mede 1,77 m e tem 44 anos, e que é agora a imagem da marca.


A fotografia das rosas metidas dentro de gelo é de Kenji Shibata.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira. 
A vida recomeça todos os dias.

sábado, outubro 11, 2014

Não provoques os deuses. Sempre teríamos de aqui voltar. Quem me dirá o que fui? Uma bella figura?



não provoques os deuses    ouvi
alguém dizer   e por isso
não houve perguntas para
o teu regresso

que também não durou mais 
que um solstício de verão
a cair no rio

um sinal na rua
a passar do vermelho
ao verde






Porque sentimos que chegávamos a um lugar
onde a terra se mede com a vida
e o tempo nos larga de repente da mão,
detivemo-nos um momento na pergunta
e soubemos que sempre teríamos de aqui voltar.











Usei de mim o que não tinha de melhor
e o melhor que havia em mim nunca cheguei a entender.
Hoje apercebo sombras
e a minha memória erra entre imagens difusas
e palavras ríspidas.
Quem me dirá o que fui?












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Será superficialidade, coisa de mulher - aceito. Misturar poesia e dança com moda se calhar não é coisa bonita. Mas então? As mulheres têm destas coisas, uma certa falta de vergonha, uma certa impudica leveza. Desculpo-me e penso que moda é beleza, feminilidade. E intimidade. E talvez isso possa ligar bem com poesia e dança. Sei lá.

Gosto de pedras preciosas ou não preciosas, gosto de cores profundas, de branco com bolas pretas e brincos coloridos ou sapatos encarnados, e casacos bordados, carteiras bordadas, casacos de veludo macio com bordado em pedras.

Calças justas pretas que dão com tudo, blusas macias na cor que for, ou pretas. Não é preciso muito dinheiro, basta sentir alegria na escolha e combinação das roupas. E um perfume subtil, um odor morno que se sinta apenas de perto.

E se o casaco é chique demais, então que se combine com uns jeans. Tudo é possível desde que devidamente conjugado e desde que usado com descontração.

Dolce & Gabanna é uma festa. Podíamos ter filigranas aqui também. E os cabelos tão bem penteados, tudo uma graça. Mulheres cheias de graça - aqui sempre bem vindas. 


Dolce&Gabbana Summer 2015 Womens Fashion Show: the day before






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O primeiro poema é de Alice Vieira in Os armários da noite

O segundo é o nº 3 de Nossa Senhora de Rocamadour de Luís Filipe Castro Mendes in A Misericórdia dos Mercados

O terceiro poema chama-se De Senectude de Luís Filipe Castro Mendes in A Misericórdia dos mercados

O bailado é Bella Figura, uma coreografia de Jiří Kylián, pelo Nederlands Dans Theater.


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segunda-feira, junho 03, 2013

Reportagem fotográfica na Feira do Livro em Lisboa: jacarandás com escritores, em dias de muito calor


Desde o início da minha adolescência que frequento a feira do Livro. Comecei por ir com os meus pais. Andava de pavilhão em pavilhão, eles maçados e eu deliciada. assim me recordo: o meu pai impaciente, carregado com os livros que eu ia escolhendo, a minha mãe compreensiva e eu perdida, empolgada no meu mundo. Depois já ia sozinha, e nada se comparava a isso, horas para baixo e para cima, braços carregados de sacos. No primeiro dia, ia de barraquinha em barraquinha, pedindo os catálogos que depois estudava em casa e, quando voltava, para além dos livros do dia e de coisas inesperadas, ia aviando a lista que tinha feito em casa.

Depois passei a ir com um namorado que também amava as palavras. Mas ele, ao visitar a feira, tinha a sua própria agenda e isso atrapalhava-me os movimentos pois eu queria parar nuns e ele demorava muito noutros que não me diziam nada, coisas ligadas a estudos linguísticos, semiótica, e outras coisas do género. Eu queria seguir e ele de roda dos livros onde se explicava como se fazia a autópsia à língua portuguesa. Ou cirurgia, mais do que autópsia. Livros de anatomia e cirurgia da língua, e eu acho que isso destrói o amor na língua. Alguém, para gostar de uma outra pessoa, se põe a ver as suas análises médicas, radiografias, ecografias, alguém precisa de dissecar o outro para o compreender e amar melhor? Eu acho que não. Em contrapartida, se eu parava nos compêndios de Berkeley ou na Teoria da Relatividade ou na Mecânica Quântica ou na Origem das Espécies, matérias que, nessa altura (e ainda hoje) me mobilizavam grandemente, ele queria seguir. Um stress. Não era fácil de compatibilizar.

Tempos depois, a companhia passou a ser outra: a mesma de agora, a mesma de todos estes anos. Mais perspicaz que eu para ver coisas em que não reparo mas com vontade de despachar a feira em três tempos. De longe deita o olho, vê se interessa ou não, e segue, sem paciência para se debruçar à procura de um tesouro escondido. Fica de longe, de olho em mim, a ver se não me perco dele.

Pelo meio, fui também com os nossos filhos. Cheios de calor a quererem água e gelados, interessados em alguns  pavilhões mas o resto do tempo impacientes, queixando-se das secas. Ainda hoje referem os traumas que apanharam nessas alturas. Mas hoje são leitores assíduos, exigentes, e talvez devam um pouco disso ao amor aos livros com que sempre conviveram, desde que nasceram.

Desde que há a Fnac com 10% de desconto e promoções e desde que à hora de almoço vou quase todos os dias ver o que há de novo, a Feira perdeu um pouco daquela novidade. Mas, ainda assim, parece que todos os anos tenho que me manter fiel a este ritual.

No sábado fui de raspão ao fim da tarde. Vinha da Gulbenkian, das brincadeiras do Dia da Criança, já estava cansada. Dei uma volta, espreitei uns livros, vi alguns escritores mas de longe. 

Este domingo resolvi ir lá de tarde para ver se comprava alguns livros.

Almoçámos um brunch (passe a redundância) num restaurante muito agradável, boa comida, variada, à discrição. Não gosto muito de fazer publicidade a restaurantes mas de vez em quando abro uma excepção. Este merece destaque: a Rota das Sedas, na Rua da Escola Politécnica, em frente da Procuradoria-Geral. Ficámos no terraço.



Restaurante Rota das Sedas


Tirei a fotografia numa altura em que as pessoas de uma mesa se tinham levantado para ir buscar comida e apenas mais duas pessoas ao fundo e mais duas junto a nós lá estavam. A seguir, quando estávamos já de saída, a caminho das três horas, chegaram mais pessoas. Se calhar essa é a hora de maior afluência para os brunches. Lá dentro há umas salinhas pequenas, também simpáticas, mas o terraço é melhor. Não é barato mas o sítio é tão bonito e a comida tão agradável que, enfim, fecha-se os olhos, um dia não são dias, bla,bla, bla (21 euros por pessoa, mais as bebidas que são à parte).

Para quem possa, aqui deixo a recomendação.

Depois fomos para a Feira. Um calor abrasador. Embora goste de calor, custa-me andar na rua, ao sol, com temperaturas tão elevadas. Fico impaciente, a minha disponibilidade esvai-se.

Confesso que a configuração actual da Feira me é um pouco estranha. Há muitas esplanadas - o que até pode ser bom para que a mim, talvez por conservadorismo, me parece um pouco demais - e tudo aquilo me parece mais stands comerciais do que barraquinhas de livros. Muitos cartazes, muita cor, muito altifalante.

E depois há os autores. Sempre houve sessões de autógrafos e eu sempre as evitei. Não sei porquê. 

Tenho para mim que o que me importa é o que escrevem, não quem são, não a forma como assinam o nome. No entanto, uma ou outra vez, em todos estes anos, cedi à normalidade e fui pedir um autógrafo. Pedi um à Alice Vieira antes da minha filha nascer e pedi que a dedicatória lhe fosse dirigida. E talvez mais um ou outro. De resto, tenho um pudor, não sei explicar, acho que os escritores não deviam ser obrigados a sujeitarem-se àquela provação. Acho que deve ser horrível estarem ali sentados à espera que alguém os vá procurar. De vez em quando vejo uma mesa com um escritor sozinho e sem que ninguém lá pare. Acho que deve ser horrível, horrível. Passo e nem olho, finjo que nem reparo para que não se sinta que estou a testemunhar o abandono a que está a ser votado.

De alguns escritores gosto muito e gostaria de lhes dizer isso, que gosto deles, mas não quero fazer figuras ridículas, chegar ali e dizer banalidades, ah e tal, aprecio imenso a sua obra, imagino a complacência do escritor, ah muito obrigado, como se chama para eu escrever na dedicatória? Não. Não faz o meu género. 

Mas, enfim, gosto de os ver, de saber como são, e àqueles de que gosto e que não têm muita gente de roda, gostaria de lhes agradecer, de perguntar se querem companhia, de ficar ali sentada a conversar para que não se sintam mal amados, de perguntar se querem que lhes vá buscar uma água ou um gelado. Mas receio que me olhassem como se eu fosse maluca, e, até assustados, me dissessem que não, que me despachassem - não corro o risco de fazer essas figuras ridículas (nem o meu marido me deixaria...). Por isso, limito-me a fotografá-los discretamente.

Naturalmente comprei alguns livros mas não muitos, não tantos como há anos atrás. Tinha curiosidade de ver a Patrícia Reis, li o que ela escreveu ontem (já retirou o post) e estava curiosa de ver como é que ela lá estaria e talvez vencesse a minha resistência e fosse pedir-lhe um autógrafo. Mas ela só chegava às 5 e eu já não aguentava mais o calor. 

De resto, e desejando que os visados não levem a mal a inclusão de fotografias suas aqui, deixo a fotografia de alguns escritores que fotografei. Caso não o permitam, bastará que mo digam que eu as retirarei de imediato.

Começo com os jacarandás em flor que circundam a zona.



Jacarandás em flor no início da à Av. Joaquim Augusto Aguiar, ao Marquês


A seguir mostro a vista geral de Lisboa, do Tejo e da Margem Sul avistados da Feira, para os que não tem possibilidade de a visitar (e não posso esquecer que parte dos meus Leitores não é de Lisboa e, inclusivamente, um número significativo é do Brasil)



A Feira no Parque Eduardo VII, a estátua do Marquês de Pombal de frente para o Tejo, e Lisboa descendo até à beira do rio, a Serra de Palmela ou da Arrábida (ou as duas - não sei) do lado de lá


A relva é aproveitada para banhos de sol e que sol, que calor...



Relvado central do Parque


Estava muita gente quer no sábado quer no domingo. Não me pareceu que as compras fossem extraordinárias, mas talvez fosse impressão minha. Para o meu gosto a feira tem um pouco de animação a mais e isso e o calor desestabilizaram-me um pouco, pelo que talvez tenha ficado com uma impressão imprecisa. Pareceu-me que as pessoas andavam a passear mais do que a comprar.



As zonas de sombra são um alívio nestes dias de calor mas, como se vê, há muita gente na Feira


Não quero deixar de referir que, para além das Editoras mais conhecidas, há outras que desconheço e há outros pavilhões que não têm muito a ver com editoras ou então fui eu que não percebi. Por exemplo, neste aqui abaixo não consegui perceber bem o que se passava. Não sei se são góticos, se era algum escritor que atraía pessoas com esta forma de viver, não sei. Associei ao que J. Rentes de Carvalho escreveu sobre um par de góticos que passaram por ele.



Tenda onde se passava qualquer coisa - mas não percebi o quê,
só sei que estavam quase todos vestidos de uma forma especial


E, por falar em J. Rentes de Carvalho, lá estava ele. Hesitei. Ainda peguei no último livro, que ainda não tenho. Mas pareceu-me que ele estava cansado ou com calor ou saturado, não fui capaz de ir importuná-lo.



J. Rentes de Carvalho


Vi também um filósofo de quem recentemente li um livro bastante interessante, 'Portugal, hoje - o medo de existir'. Devia ter sido capaz de sintetizar em duas ou três frases alguma coisa de inteligente para ele perceber que eu tinha percebido alguma coisa do que li. Mas não me ocorreu nada e também não quis fazer uma figurinha triste como se fosse uma admiradora ocasional. Os escritores merecem-me um respeito que não me parece compatível com chegar ali ao pé deles a pedir um autógrafo como as miúdas que querem um autógrafo de um vip da televisão ou de um futebolista.



José Gil


Junto a ele estava uma das escritoras de quem muito gosto, uma mulher que sai das grutas para brincar com bonecas nos sótãos, ou que brinca à porta de casa com gatos ou que desce ao interior dos bosques para buscar palavras, ou que voa.

Falava com alguém e voava nos gestos, no olhar. Como chegar-me ali, interrompê-la, dizer uma banalidade qualquer? Impossível.



Hélia Correia.
Tirei mais duas fotografias em que toda ela está focada
mas prefiro esta pois aqui ela sorri como uma menina e as mãos voam como pássaros


E, por falar em poesia, na zona da Leya que é uma feira dentro da feira, eis que vejo, discreta, Maria do Rosário Pedreira. Estava ao lado de outras pessoas, talvez escritores, não os conheci. Não quis maçá-la. Mas uma pessoa abeirou-se dela, com carinho, e vi como ela sorriu, um sorriso muito bonito.



Maria do Rosário Pedreira, editora, poetisa


E, por falar em pessoas simpáticas, no sábado vi alguém a quem tinha vontade de me apresentar, de me explicar. Mas no sábado estava cansada, com vontade de ir para casa, sem disponibilidade para conversas. Fotografei-a e este domingo estava com esperança de a ver lá de novo, para, então, me aproximar. Mas já não a vi.



Helena Sacadura Cabral, a Bárbara Helena,
 a quem os jacarandás ofereceram as suas flores para que ficasse assim,
florida de lilás. E jovial e sorridente, como sempre


E já aqui falei desta outra, uma Senhora que escreveu muito para os meus filhos, em especial para a minha filha que a adorava e que eu admiro muito como Poetisa.



Alice Vieira.
A fotografia ficou desfocada pois estavam pessoas a passar à minha frente
 mas quero tê-la aqui pela ternura da sua imagem comendo um gelado, simpática, disponível


Não quero deixar de aqui mostrar um escritor que admiro e com quem me 'encontro' algumas vezes a comentar o Chapéu e Bengala.



Onésimo Teotónio Almeida


Depois havia as vedetas, as que faziam com que os leitores formassem filas. Neste caso aqui abaixo, de uma disponibilidade enorme, sempre pronto para estas sessões, não me teria custado muito... se eu fosse de me pôr em fila, numa tarde de calor abrasador. Não sou.



Luis Sepúlveda


E a vedeta maior, uma fila enorme: o escritor tatuado, da moda, dos clichés. Li os primeiros livros e gostei, li um livro de poesia e gostei mas, a partir daí, acho que se banalizou, que escreve por escrever, que escreve sem que as palavras lhe venham das entranhas, que escreve a metro, não sei bem dizer, parece que as palavras perderam a alma. Ou então sou eu que cada vez sou menos condescendente. Não sei. Talvez seja do excesso de mediatização. Tenho ideia que as luzes da ribalta desvendam as zonas de sombra necessárias aos escritores e, ao desvendá-las, secam-nas. Mas isto sou eu a dizer - e que sei eu disto?



José Luís Peixoto, o escritor que encanta sobretudo 'plateias' femininas


No sábado, já tinha visto uma outra vedeta mas não exactamente da literatura. De qualquer forma, como vedeta, tem virtudes inquestionáveis: é inteligente, é divertido, tem uma presença forte na televisão. Costumo ler às vezes as suas crónicas e ouvi-lo no Governo Sombra. Escreve bem e é acutilante, aquele humor inteligente que dá gosto. 



Ricardo Araújo Pereira, não sei que livros publicou, talvez os livros das crónicas da Visão - mas não sei.
O que sei é que, para além do mais, é um homem bonito


Junto a ele, na Tinta da China, Carlos Vaz Marques, editor e Primeiro-Ministro do Governo Sombra, observava o desempenho do seu irreverente ministro.



Carlos Vaz Marques - o talentoso, trabalhador, grande amante das palavras


E fico-me por aqui que a reportagem vai longa e a noite avançada.

Mas depois de ler o que a Patrícia Reis escreveu sobre aquilo por que um escritor passa nestes dias de Feira, fiquei na dúvida se esta minha atitude de passar, de não querer maçá-los, o meu receio de fazer figurinhas deprimentes, será a melhor atitude. Acho que vou reconsiderar. 

***

Caso sejam uns resistentes e ainda não estejam fartinhos de ler o que escrevo, muito gostaria ainda de vos ter lá pelo meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras vão até a um jardim muito especial e vão guiadas pela poesia de Armando Silva Carvalho, num livro que comprei, justamente, na Feira. A música é especial. Foi um desafio que um Leitor, a quem muito agradeço, me lançou. Levei algum tempo a ganhar coragem: trata-se da música do compositor Luciano Berio. Não é a minha praia como se costuma dizer mas, ainda assim, abre portas pelas quais não costumo passar.

***

E, por hoje, já é até demais, não é...? Por isso, calo-me já mas não sem antes vos desejar uma bela semana a começar já por esta segunda feira.

quinta-feira, maio 17, 2012

Ana e o carpinteiro na noite de todas as palavras


Música, por favor
Johann Strauss - Valsa de Viena





Na noite do baile, Ana dançou com o altivo carpinteiro (que surpreendeu toda a gente, de tal forma estava outro), dançou com o dono da oficina, com o presidente do município, com o rapaz das tintas e com vários outros pares. Se as mulheres a olhavam de soslaio, enciumadas pelo interesse que ela despertava nos homens, era coisa que não a afectava. Se falavam veladamente sobre algum possível romance com o carpinteiro, era coisa que também não lhe despertava qualquer interesse. Sempre fez o que quis, tendo como únicas preocupações o não magoar ninguém e o agir de acordo com a sua consciência. Se queriam comentar, censurar, especular, era coisa que não a preocupava minimamente. Sempre assim fora, não era agora que ia mudar. Se tivessem alguma coisa de relevante a dizer, que lhe dissessem a ela; se consideravam que era irrelevante e preferiam falar pelas costas, melhor, era da maneira que não a maçavam.

Naquele ambiente de baile e festa, Ana sentia que o carpinteiro estava talvez pouco à vontade mas era um homem orgulhoso, que respirava dignidade e, portanto, disfarçava muito bem a insegurança, ostentando altivez  e indiferença. Ana apreciava muito a atitude, e, por vezes, atravessava o salão de braço dado com ele, mas com naturalidade, deliberadamente mostrando que não tinha nada a esconder.

Mas, sem saber porquê, estava um bocado inquieta. Talvez sentisse que aquela fase da sua vida estava a chegar ao fim, talvez sentisse saudades do que tinha deixado para trás, talvez a visita do outro dia a perturbasse, talvez não quisesse pensar na ideia de deixar a vila, estas pessoas tão afáveis, talvez lamentasse afastar-se do altivo carpinteiro - não sabia, era uma inquietação difusa.

No final do baile, o carpinteiro foi levá-la a casa. Ana convidou-o a entrar. Tenso, sem perceber bem qual o intuito e pensando também que no dia seguinte não se falaria noutra coisa, lá entrou.


Música, de novo, por favor

 Bach, Misha Quint interpreta Air in the G String





Foram para o quintal, Ana escolheu uma música, depois foi pôr-se mais à vontade, arranjou um sumo fresco para cada um. 'Conte-me alguma coisa de si', pediu-lhe.

'Não sou disso, de conversas. Nem tenho nada a contar; mesmo que quisesse, não tenho nada, é tudo muito normal, sem interesse', disse em voz baixa o carpinteiro. Estas intimidades deixavam-no muito pouco à vontade.

'Tem, com certeza que tem, conte-me algumas coisas da sua vida, gosto de ouvir... conte-me...', Ana insistiu, queria mesmo escutar uma conversa mansa, lenta. Conversar sem pressa tranquilizava-a. Apetecia-lhe imenso ouvir a voz do carpinteiro, apetecia-lhe imenso ouvir uma conversa vinda da alma. 'Pode ser uma recordação marcante, memórias de outros tempos, ou então, fale de coisa nenhuma, ou do que pensa quanto está na carpintaria a afagar a madeira, qualquer coisa'.

Então ele começou na sua bela voz profunda, e a fala fluía, densa mas intangível: Aquilo de que me lembro (num presente que me parece também já passado) está cheio não só de estranhezas e improbabilidades mas igualmente de vazios, de hesitações e imprecisões, pois se calhar não me recordo de factos mas da minha recordação deles. Pode por isso suceder que o que recordo não seja o que ouvi; ou que o tenha ouvido a outra pessoa, noutro lugar, noutras circunstâncias; ou mesmo que o tenha eu próprio sonhado ou imaginado. Ouvi e li muitas coisas desde a minha distante primeira viagem ao estrangeiro, onde tudo (pelo menos aquilo de que me lembro) começa. Talvez, quem sabe?, nem essa viagem tenha acontecido, ou eu a tenha lido, ou ouvido contar a alguém. A matéria da memória é indefinida e insegura e nela, como na matéria da vida (e a vida é provavelmente apenas memória), se confundem acontecimentos e emoções, imagens e conjecturas, cuja origem nem sempre nos é dado com clareza reconhecer e cuja finalidade a maior parte das vezes nos escapa. E, no entanto, é tudo o que temos, memória. Lembro-me, pois, como quem procura alguma coisa ou alguém, e amparo-me por isso cuidadosamente às minúcias como se caminhasse sobre um chão incerto ou como se receasse perder-me. Porque é talvez a mim mesmo (isto é, à minha memória) a quem, tantos anos depois, falo daquilo que me lembro.

Ana ouvia-o abismada, imóvel e em silêncio, não fosse a magia do momento perder-se. Ele falava baixo, era uma toada, e as palavras soavam a Ana como uma estranha música em que finalmente tudo parecia fazer sentido. A memória, o sonho, a interiorização, a matéria das emoções, a beleza das palavras puras, o assombro.

Ana sentia que as lágrimas estavam prestes a saltar-lhe tal a emoção que sentia. Não conseguia falar.

E o carpinteiro continuou falando assim e Ana sentia-se embalada, num colo, num berço macio.

Depois, já muito tarde, já toda a inquietação tinha saído do seu corpo, estava já ela tapada com uma manta e o carpinteiro ainda dizia, falando, então, da solidão na sua carpintaria:

                                O dia sobe sobre os surdos ruídos da casa
                                sobre os calendários que ninguém teve tempo de
                                tirar das paredes e agora prolongam nos nossos olhos
                                paisagens de rios e açudes que nunca
                                existiram em lado nenhum a não ser
                                na saudade que alguém há-de ter deles
                                pelo meio de uma infância de aldeias
                                morrendo ao sol


                                e abrimos os livros que tínhamos deixado
                                nas estantes cobertas de silêncio


                                e agora escorre a noite pelas paredes
                                desta casa que a tua ausência torna
                                subitamente    enorme

mas, então, já Ana tinha adormecido, já não ouviu a última parte. E vendo-a assim, aninhada e adormecida, o carpinteiro pegou nela com muito cuidado e levou-a ao colo para o quarto. Depois tapou-a com carinho. Quando ia a sair, voltou atrás e deu-lhe um beijo na testa, chegando-lhe o cabelo para o lado.

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O texto em prosa em itálico é um excerto do livro 'Os papéis de K.' de Manuel António Pina e o texto em itálico mas em poesia é um excerto de um poema de Alice Vieira pertencente ao livro 'O que dói às aves'.

E, já agora: hoje, lá no meu Ginjal e Lisboa as minhas palavras são confessionais e voam em volta do meu amor e de um poema de Maria do Rosário Pedreira. A música é de Donizetti.

Desculpem que me repita: caso tenham aterrado agora aqui e queiram ler a história de Ana desde o princípio, poderão procurar 'Ana muda de vida' nas etiquetas aí ao lado, mais para baixo.

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E, já sabem, desejo-vos, meus Caros Leitores, uma belíssima quinta feira. 

Aproveitem bem cada pequeno instante da vossa vida. E, claro, divirtam-se, está bem?
                            

segunda-feira, maio 14, 2012

'Todos os homens que me amaram, amaram-me sempre demais' transcreveu Ana a partir de um poema de Alice Vieira


Música, por favor

I'm the captain of my soul - Rita Redshoes


Ana, continuava, pois, na sua incansável actividade diária. Um dia perguntou onde é que havia um carpinteiro competente. Lá foi.




Era uma pequena carpintaria, um homem alto e magro, altivo, uma bela voz grave, dedos amarelos de tabaco. Ana mostrou-lhe os desenhos de estantes, de mesas, de bancos. O homem olhava com atenção. Não estava à espera duma encomenda assim, duma mulher assim, faltavam-lhe as palavras. Mas depois fez perguntas, deu sugestões, animou-se, ficou à vontade. Ana gostou. Então, pediu-lhe para ver a carpintaria. O homem levou-a, desculpando-se, isto está assim porque não tenho muito espaço para arrumar as coisas, estou aqui com um trabalho que me obriga a ter aqui tudo, mas Ana olhava com encantamento a bancada de trabalho, a estante com as ferramentas, alguns móveis antigos que estavam a ser reparados. Perguntou-lhe quando é que os móveis começariam a estar prontos. O carpinteiro disse que logo que acabasse o que tinha em mãos pegava no trabalho, talvez dentro de um mês e tal pudesse começar a entregar algumas coisas. Ana disse que estava muito bem. Quando ia a despedir-se, o homem perguntou: 'Não quer que lhe faça um orçamento?'. Ana respondeu: 'Não é preciso, pago o material e o seu trabalho, acredito que não me vai enganar' e sorriu. O homem altivo sorriu também.

Ana ia, portanto, começar a arranjar o rés-do-chão.

Uma vez, quando Ana ia sair, apareceu-lhe o dono da residencial onde tinha ficado nas primeiras semanas acompanhado da mulher, queriam falar com ela. Ana ficou admirada. Atrapalhados, a senhora desculpe mas ouvimos dizer que pintou os móveis velhos da casa e mandou fazer umas colchas e almofadas e que a casa ficou muito bonita e andamos a pensar que devíamos também arranjar lá a residencial mas não temos ideia do que fazer, se a senhora quisesse ajudar, se desse umas ideias...

Ana riu-se, pensando: agora até decoradora...!  Mas respondeu com muita afabilidade: 'Com certeza, terei todo o gosto. Venham até minha casa para verem como ficou, para verem se gostariam assim, e depois logo se pensa o que se poderá fazer lá na residencial'. Eles gostaram muito. Dali foram então até à residencial e Ana teve logo mil ideias.

No dia seguinte apareceu-lhes com esboços, com sugestões. Eles estavam entusiasmados. Combinaram encontrar-se ao fim da tarde para irem até à loja de tecidos, à loja das tintas, à modista.

Algum tempo depois, Ana sugeriu à modista, ao dono da loja de tecidos, ao dono da loja de tintas e ao carpinteiro que formassem uma empresa de remodelações de interiores. Habituados a pensarem individualmente, hesitaram mas, algum tempo depois, já todos tinham concordado que podia ser uma boa ideia. Ana ajudou-os nos aspectos burocráticos, ajudou-os na organização da nova empresa e ajudou-os na divulgação da empresa, fazendo ela própria cartazes a partir de fotografias das coisas da sua casa.




No final do ano lectivo realizou-se o apuramento das melhores ideias do concurso e Ana e os restantes jurados tiveram alguma dificuldade tal a variedade que tinha surgido. Apareceram ideias de fazer móveis com pinturas que faziam lembrar os desenhos dos bordados, de fazer estofos de cadeiras, de fazer malas de senhora, de fazer uma capa bordada para o inverno em versão feminina e em versão masculina, uma recriação arrojada dos desenhos. A festa de entrega dos prémios animou toda a vila, houve cantoria, comes e bebes e, até, no fim, bailarico. Os miúdos estavam animadíssimos e Ana tão animada quanto eles.

Os desenhos e e maquetes foram fotografados e colocados no blogue e as encomendas começaram a surgir. Toda a indústria e comércio locais estavam em efervescência e as visitas à vila a aumentar.

Em reunião na associação Ana propôs, então, que o próximo desafio a lançar à escola fosse dinamizar a exígua e anémica oferta gastronómica, nomeadamente criando também um doce regional que deveria ter qualquer coisa a ver com os bordados, nem que fosse apenas na embalagem. Propôs ainda envolver neste desafio  os poucos restaurantes e pastelarias existentes. A proposta foi muito bem aceite, até porque nisto umas coisas puxam as outras.

À noite Ana não descansava. Era a limpeza e arrumação da sua casa, era a confecção das refeições (almoçava e jantava em casa, claro), era o blogue da oficina, era a revisão dos posts dos alunos para o blogue da associação, era a análise aos pedidos de informação recebidos através dos blogues, era o pôr em marcha as encomendas recebidas através da internet. No meio daquilo tudo, ainda andava a bordar uma grande tela.

Um dia esse bordado ficou pronto. Esticou o tecido, gostou, era mesmo aquilo. Resolveu levá-lo ao carpinteiro. Queria uma moldura larga que valorizasse o bordado. Desdobrou o tecido. O carpinteiro ficou muito admirado, era um bordado com palavras, disse que era bonito. Ana ficou contente. Então, inesperadamente, pediu-lhe que lesse em voz alta. O homem, atrapalhado, tentou furtar-se ao pedido, não sei ler bem essas coisas, não leve a mal, mas não fico à vontade a ler em voz alta e logo isto. Ana insistiu, gosto de ouvir ler poesia e a sua voz é muito bonita. O homem engoliu em seco, tímido. 




Ana então encostou-se a umas madeiras que ele lá tinha e, encantada, levemente emocionada, ouviu:


                                  Todos os homens que me amaram
                                  amaram-me sempre demais

                                  Todos os homens que me amaram
                                  escolheram sempre as palavras erradas para 
                                  a hora da partida
                                  embora soubessem
                                  que seria por minhas mãos que havia de chegar a hora
                                  das escolhas definitivas        que eram
                                  como sempre são       impossíveis

                                  e na manhã seguinte eu apanhava
                                  o comboio mais rápido para onde
                                  ninguém me esperasse       e depois
                                  escrevia cartas a explicar o que não tinha explicação
                                  e a pedir que rasgassem
                                  fotografias    bilhetes     velhos programas de teatro
                                  e que deitassem fora as flores        e abrissem
                                  todas as portas e janelas da casa para que
                                  o perfume passasse      e com ele
                                  o nome que era meu

                                  - coisa que eu espero que eles não façam porque       como já disse
                                  todos me amaram sempre demais


Enquanto o carpinteiro lia, por vezes tropeçando nas palavras, Ana ouvia-o com alguma ternura, sorrindo. No fim, ele esfregou as mãos nas calças, não tenho jeito para isto... 

Ana sorriu, não, foi muito bem, gostei, mas agora vai cá ficar com a tela, vai ter tempo para treinar. Quando estiver pronto, já o deve saber de cor.

O carpinteiro olhava-a, intrigado, que quereria aquilo dizer?

Mas já Ana saía a rir, muito bem disposta.


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O poema que o carpinteiro leu é parte de um poema de Alice Vieira que pertence ao livro 'O que dói às aves'. 

No original o penúltimo verso não é tal e qual Ana o escreveu mas sim: ' - coisa que eles nunca fizeram porque       como já disse'. 


(Se quiserem ler a história de Ana desde o princípio, poderão ir aí ao lado direito, mais para baixo, e nas etiquetas procurar 'Ana muda de vida'.)
E, por falar em poesia: hoje no meu Ginjal e Lisboa as minhas palavras voam em volta de um poema de Inês Fonseca Santos e ao som de Pavarotti que abre a semana que vou dedicar a Donizetti. Se vos apetecer, gostaria de vos ter por lá.

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E tenham, meus Caros, uma grande semana a começar já por esta segunda feira. Divirtam-se, está bem?