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terça-feira, fevereiro 01, 2022

O passeio de domingo, a reconstituição da vida do Pina.
E os homens que vivem em barcos.

 



De domingo para segunda deitei-me tardíssimo para acompanhar os resultados, as reacções e os exercícios acrobáticos dos jornalistas de stand up e dos avençados a metro. Ainda por cima acordei muito mais cedo do que tinha previsto com o urso a atirar-se à maluca contra a porta do quarto. 

De manhã -- ou melhor, praticamente de madrugada -- o meu marido vai dar uma volta com ele. Mal entra em casa, o meu marido diz que ele corre e tenta abrir a porta do quarto. Deve querer saber se lá estou dentro. A porta fica encostada e, como o chão, que é de madeira, faz atrito, só com força se consegue empurrar. A porta não pode ficar aberta senão ele entra e, num salto, vai para cima da cama. Vindo da rua, não se pode dizer que venha com as patas muito limpas. Portanto, fica a porta encostada. Não fica fechada pois faz-me impressão, receio não ouvir alguma coisa que deva ser ouvida. Mas a verdade é que acordo sobressaltada com os encontrões que dá na porta. 

De manhã pensei que, com sorte, talvez pudesse passar pelas brasas logo a seguir ao almoço. Estava mesmo a precisar. Afinal apeteceu-me tentar recompor o livro que, no outro dia, a fera tentou devorar. Dezenas de bocadinhos de folhas. Com uma paciência chinesa pus-me a tentar encontrar, nas folhas esburacadas, o espaço para cada bocadinho. Por bizarro que possa parecer, gosto de fazer coisas assim. É tal e qual como fazer um puzzle. E eu não tenho paciência para fazer puzzles pois não tenho paciência para fazer coisas que não servem para nada. Neste caso, como o objectivo não era lúdico mas muito objectivo, tentar conseguir ler as folhas despedaçadas, tive paciência. 

Tenho esta coisa muito arreigada em mim: não desperdiçar tempo com coisas que não servem para nada. Claro que escrever aqui, a bem dizer, também não serve para nada. Mas, enfim, tenho esperança que sirva para fazer companhia a quem me lê, enquanto me lê. Enfim, não interessa. Gosto de escrever, seja ou não útil. Acho que é a única excepção. Isso ou fotografar. 

Bem, mas pus-me a tentar reconstituir as folhas. E quase consegui. Subsistiram alguns buracos em algumas páginas. Concluí que não apenas o pequeno monstro felpudo rasgou várias folhas como deve ter comido parte delas. É que apanhei cada bocadinho que encontrei na relva, não sobrou nada. Portanto, deve ter devorado, literalmente, parte da biografia do Pina.

O que é curioso é que, enquanto estive nesta actividade, ele esteve deitado ao meu lado, com o queixo em terra, como quando está expectante ou a fazer-se de morto a ver se passa despercebido. Ora costuma andar de roda de mim, pôr as patas em cima da mesa para ver o que estou a fazer, a tentar mexer naquilo em que estou a mexer. Desta vez nem pó. Cá para mim, lembrou-se que aquele livro já foi motivo de desentendimento sério entre nós e nem se arriscou a puxar assunto...

Portanto, como de seguida tive que me ir aprimorar para uma reunião, não consegui descansar. Resultado: agora estou que não posso. Daqui a nada tenho que ir dormir.

Ontem não contei como foi o dia mas posso contar agora. Em casa do meu filho, um após outro, foram todos ficando com covid. Os cinco. Sintomas variáveis mas, felizmente, pouco graves. Estão confinados há para aí umas duas semanas. Por isso, no domingo, depois de termos ido votar, só estivemos com o bando da minha filha. Almoçámos no jardim e depois fomos passear. Ela andava há algum tempo a querer ir passear para ali -- o que teve que ser muito regateado com os filhos, em especial com o mais velho que queria treinar defesas na praia.

A tarde estava boa, amena, uma luz suave, um ambiente muito agradável. É muito bom passear com o tempo assim, o mar tão bonito, a vista tão longa e delicada, todos tranquilos. O ursinho felpudo fica feliz com a família, salta e brinca e corre e derrete-se com eles. 

Faz tanta falta a chuva. Assustam-me as secas. Nem quero pensar que vamos ter falta de água antes de se ter descoberto como dessalinizar as águas do mar em larga escala e a baixo custo ou como forçar a formação de nuvens. Mas, se me abstrair dessa preocupação, é tão bom o tempo assim...

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E, nesta dança de dia após dia, o primeiro mês do ano já se foi. Anda rápido, o tempo. De manhã, quando estava a tomar o pequeno almoço, abri a porta e abeirei-me do jardim. Estava uma rola a passear na relva. Tentei manter o silêncio mas não devo ter conseguido pois ela deu uma corridinha, depois bateu as asas com força e voou. São bonitas, um platinado quase branco. Mas ariscas. Nunca me deixam chegar perto, muito menos tocar-lhes.

Quando estava a ter a reunião da tarde, tentando resolver uns problemas recorrentes e tentando anular a hostilidade de alguns contra uns outros, reparei que, lá fora, de entre a ramagem da trepadeira ao pé da janela, estava a soltar-se uma outra rola. Fiquei com pena de não a ter visto senão quando voou. 

Há um lado transitório e efémero em tudo isto, na passagem do tempo, no voo de um pássaro, nas brincadeiras de um cachorro que, não tarde, será adulto, na ternura dos meninos que, não tarda, estão grandes e independentes, em mim que talvez perca a vontade de aqui escrever fora de horas. Ainda se ao menos estivesse a escrever num caderno, em papel, se estivesse a compor um livro. Um livro sempre tenta contrariar a efemeridade disto tudo. Agora assim, a soltar palavras ao vento, palavras mais ariscas que as rolas do jardim, fico com o quê? 

Vou mas é dormir que esta conversa já não está com nada.


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Mas, antes de me mandarem bugiar, não querem ver este vídeo que aqui tenho?

É interessante e, de certa forma, tocante. Fala de quem prefere viver à margem da sociedade, abdicando de conforto e segurança, para poder sentir todos os dias o gosto da liberdade. São pessoas que vivem em barquinhos mas sabem que um dia alguém não tolerará a perturbação na harmonia do status quo e acabará com a sua forma de viver.

Living Rent-Free Next to Millionaires

For decades, the “anchor-outs” have enjoyed living in rent-free boat homes in the Bay Area. Their boats, anchored just north of the Golden Gate Bridge, float illegally in the sightline of one of the country’s wealthiest zip codes. But now, as enforcement ramps up, their way of life could be coming to an end.


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Peço muita desculpa mas não vou conseguir responder aos vossos comentários. 
Estou já mais para lá do que para cá.
Sorry.

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As fotografias foram feitas neste domingo e estão aqui na companhia de Yo-Yo Ma - Bach: Cello Suite No. 3 in C Major, Bourrée I and II

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Desejo-vos um dia feliz e luminoso.
Boa sorte. Bola para a frente. Para a frente é que é caminho.

sábado, setembro 18, 2021

Passear nas avenidas, caminhar à beira de água, ouvir música, fotografar a praia

 



Poder-se-ia pensar -- se alguém pensasse sobre isso o que não é o caso -- que a parte mais substancial do meu dia teve a ver com o que fiz para justificar o que me paguem de ordenado. Pudesse eu aqui descrever e talvez até pudesse ter alguma graça. Personagens de filme não faltam, mulheres bonitas muito menos, homens para vários gostos também não. Até um que estava quase sem cabelo anda agora com frondosa melena. E sempre muita intriga. Romance, se houver, é clandestino. Comédia e tragédia também há -- e sempre em dose dupla.

Mas, se tiver que eleger os melhores momentos incluirei aqueles em que conduzi pela cidade branca, luminosa. Acompanhada pela Antena 2, rolando ao longo do rio, por entre árvores e flores, ou nas largas avenidas (em que felizmente se conduz devagar), de janela aberta, sentindo o calor suave, a brisa, os odores, vendo o movimento. Uma sensação boa de liberdade.

Decidi uma coisa: não deixei o carro no parque da empresa. Deixei-o antes, num parque público. Apeteceu-me muito andar a pé, por entre gente desconhecida, vozes de outras nacionalidades. Já estranho um pouco quando tenho que andar mais, na rua, de saltos altos. Mas rapidamente me habituo. O prazer de me misturar com pessoas, em especial com estranhos, com ente de todas as cores, idades e nacionalidades é muito grande. 

Uma vez mais aconteceu-me o que ultimamente acontece sempre: esqueço-me de pôr o relógio, aliança ou anéis. Nem pulseiras. Braços e mãos nuas. Desabituei-me de os usar e agora parece-me que faz mais sentido ver-me assim.

Também muito boa a praia ao fim da tarde. Estava um pouco de vento, talvez uma aragem fresca. Ainda assim, estive de fato de banho. Caminhámos e depois sentámo-nos na areia. Levei a máquina, estive a fotografar. Outro prazer dos bons.

Gaivotinhos pequenos brincando à beira da água, casais passeando em contra luz, crianças correndo e mergulhando, jovens autofotografando-se, o espaço aberto e limpo, o som do mar e do vento - momentos bons.

À vinda da praia, porque sexta-feira é sexta-feira, passámos por um dos restaurantes que nunca desilude e fomos buscar comida. Ao aproximarmo-nos, um pequeno ajuntamento em movimento no passeio. Olhei. Reconheci uma candidata. Rodeada de uma dúzia de pessoas, uns já um bocado entrados, uns três ou quatro jovens que, creio, estavam a filmar, oferecia uma imagem de desolação. Estacionámos. Quando estava a ir para o restaurante, estava o grupinho a fazer o mesmo. Não sei se foram cumprimentar ou deixar folhetos. Uma coisa meio triste, fora do tempo. Ali ia aquele pequeno e desgarrado bando, sem vida, não se sabe bem a fazer o quê. O olhar da candidata cruzou-se com o meu. Ambas de máscara. Inexpressivos os olhares como se, quer eu, quer ela nos estivéssemos nas tintas uma para a outra. E era mesmo isso. Reparei que ao longo do passeio, se algumas pessoas se cruzavam com a fajuta comitiva, não se detinham nem prestavam atenção. A candidata mudou de passeio e vi algumas pessoas com instrumentos musicais. Não sei se iam improvisar alguma sinfonia ali mesmo. Mas nem eu quis saber nem os próprios também o queriam. Tinham os braços caídos ao longo do corpo e o instrumento pendurado na ponta da mão. 

Não sei para que servem estas arruadas. Do que vi apenas servem para demonstrar à saciedade que não fazem qualquer sentido nem têm qualquer utilidade.

À noite voltei ao Homeland. Viciante, viciante. Uma qualidade inexcedível. O argumento, a dimensão psicológica dos personagens, o enquadramento político dos acontecimentos. E, claro, o mundo dos serviços secretos que é um mundo dentro do mundo e que é demasiado fascinante.

Agora estou aqui. É a minha última tarefa do dia: escrever no blog. 

Lembro-me da Ana de Amsterdam que eu gostava tanto de ler. Contava coisas mirabolantes, sexo sem tino, bebida sem limite, desolações, tristezas, actos extremos. Não percebia se seria tudo verdade, se tudo mentira, se um misto. Parecia tudo verdade até as coisas que inventava. Havia sempre um elemento de surpresa e de insólito na sua escrita. E isso prendia-nos.

Tenho pena que tenha deixado de escrever o seu blog.

Mas isto para dizer que eu não tenho nada assim para reportar e que, quando abro o computador às tantas da noite, já cansada e perdida de sono, penso inúmeras vezes: para quê? o que tenho eu a dizer que valha a pena? E concluo, sem falsas modéstias, que nada. Mas gosto de escrever e, no fundo, no fundo, também tenho esperança que gostem (mesmo que só um bocadinho) das banalidades e insignificâncias que para aqui vou desfiando.

Quando me reformar e me dedicar à escrita das minhas memórias é que vão começar a aparecer histórias cabeludas. Me aguardem...

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As fotografias foram feitas esta sexta-feira e acompanham Mandy Patinkin, o fantástico Saul Berenson de Homeland, em I Have Found My Happiness

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Um dia feliz

segunda-feira, dezembro 30, 2019

Postal nº 2 da beira do mar -- Até que a morte os separe





O amor entre um homem e uma mulher (ou entre dois homens ou entre duas mulheres) não é infinito, não é incondicional, não é intemporal, não resiste a todos os escolhos, não acolhe todos os perdões nem todas as tolerâncias. É o contrário. É efémero, frágil, limitado. Contém ódios, acusações, raivas, incompreensões. 

Mas se, apesar de tudo isso, ele consegue ir sobrevivendo ou, mesmo, ir-se tornando-se mais forte e sábio, então é muito bom. É o tipo de amor que nunca deve ser dado por adquirido. Nunca. É demasiado falível para isso. Mas, enquanto durar, é bom. Ter-se uma boa companhia, alguém que nos ajude a superar as dificuldades, alguém que nos perceba, que nos ampare, que nos faça rir, que nos desafie é bom. Termos alguém a quem dedicar o nosso carinho, a nossa atenção, o nosso apoio é bom, termos com quem partilhar os bons e os maus momentos também é bom. 

Por isso, ver casais a andar é coisa de que gosto. Gosto de os fotografar. É como se caminhassem sozinhos no meio do mundo. 

Se vejo casais já com alguma idade mas ainda conservando a ternura da mão dada ou do braço dado enterneço-me. 


E, se vejo casais jovens, intimamente desejo que a vida lhes sorria e que eles sorriam à vida e que tenham a sorte de se sentir amados e de saberem construir o caminho pelo qual caminharão. 


Um ano bom é um ano no qual nos sentimos amados. E, ao terminar o ano, é em afectos que mais penso: que o ano novo venha com afecto para mim e para todos os que amo. E para todos os que, aí desse lado, me acompanham. 

Postal nº 1 da beira do mar -- Pais e Filhos





Estamos a chegar ao fim do ano e eu não sou de fazer balanços: acho que não interessa, acho que o que lá vai, lá vai e, sobretudo, já não me lembro de grande parte do que se passou. 

Talvez se me esforçar conseguisse dizer alguma coisa mas não estou numa de me esforçar, pelo menos não agora. O meu dia foi cansativo e eu reservo a energia que sobra para dar à luz algumas das fotografias que fiz hoje junto ao mar.

Mas uma coisa posso eu dizer e não é balanço desde ano em especial, é de todos em geral, e não é meu, é, creio, da humanidade: poucos amores há tão genuínos, tão incondicionais, tão intemporais, tão infinitos como o amor de alguém pelos filhos (e filhas, óbvio). Comovo-me sempre que testemunho o amor de alguém pelos seus filhos. É um amor que não diminui nem se desprende com o tempo, é um amor que sobrevive a todos os escolhos, é um amor feito de dádiva, de perdão e tolerância, de bons auspícios, de cumplicidade, de preocupação, de protecção (mesmo que desnecessária, mesmo que nos digam que devemos deixar-nos disso).

As fotografias que aqui tenho são de pais e não de mães mas penso que o amor de pai é (quase...) tão grande quanto o amor de mãe. 
E que os pais que me lêem não se zanguem pelo meu quase. Trata-se de um juízo subjectivo. Mas é que tenho para mim que nos meses em que as mães passam com os filhos no ventre, desde a génese até ao parto, acrescidos dos meses em que os temos nos braços e os amamentamos, se criam laços tão fortes, tão viscerais, que dificilmente haverá vínculo paralelo. Mas, nisto, a gradação não é muito relevante pois coisas que são infinitas que interesse tem saber se uma é mais assim ou assado? É um amor total, imenso, eterno e é isso que conta. 
É amor -- e do mais puro e autêntico que há no mundo.


segunda-feira, dezembro 23, 2019

Em dia de muito mar, muita poesia







Procurámos o mar. 

Se o mar é um deus, é um deus com estados de alma, umas vezes apiedado, outras contemplativo e sereno, outras, como hoje, todo ele fúrias, exaltações. Um deus infinitamente forte, de uma força indomável, incontrolável, inclemente. Um deus superior a tudo. Indiferente a tudo.


A lente da máquina fotográfica sempre embaciada tanta a humidade, o paredão invadido, com areia e água e cheio de flocos de espuma espessa, o ar que insufla as águas ali materializado. 


Os acessos ao areal interditados mas, ainda assim, alguns inconscientes a passear, certamente sentindo-se rebeldes e especiais, se calhar sentindo-se superiores aos elementos. 


Mas logo a força das águas lhes provou o risco que corriam. Num dos casos o meu marido chegou-se às rochas e zangou-se, que é uma inconsciência, que é assim que morrem pessoas, que fazem correr riscos a quem os vai resgatar. 


Uma mulher ficou com as pernas molhadas e sem sapatos e um homem ficou molhado até à cintura. O meu marido, que os ouviu a falar, disse que pareciam estar noutra, como que eufóricos. 


Não sei, mas vê-los como os vi fez-me impressão. É que, por vezes, têm sorte e podem sentir a superação. Outras vezes, por mera futilidade, arriscam a vida e fazem arriscar a vida dos que querem salvá-los.

E, depois, as gaivotas. Poucas gaivotas. 


Não sei para onde vão as gaivotas em dias assim. Onde se acolhem? Voam para longínquos rochedos? Para torreões secretos, nos confins da terra? Não sei.

Fotografei as poucas que ali se chegaram. 

No areal, umas quantas. Na praia que, no verão, foi preenchida com areia há agora uma funda piscina. O mar levou parte da areia. Entre a piscina e o mar, uma língua de areia onde as gaivotas se agrupam.


Acho-as maravilhosas. Fotografo-as tentando captar os seus movimentos.

Lá em baixo uma mulher de cabelo encarnado fotografa-as também. E eu fotografo a mulher de cabelo encarnado. Naquele contexto, aquele cabelo parece uma insólita plumagem rubra. Introduz uma nota de cor numa paisagem quase incolor.


Ao fundo, quase oculto pela névoa (reparem na fotografia acima), um homem arrisca, soltando o cão. Pouco depois, pressentindo a força das ondas, o cão foge para terra enquanto o dono é envolvido pela água.

Sem quererem saber de quem as olha ou dos riscos que as pessoas correm, as gaivotas desfrutam a sua livre e feliz existência.


Aquelas asas grandes, aqueles bailados longos, aquela elevação pelos ares em total liberdade, aquela graça e tranquilidade enquanto caminham pela beira da água, tudo nelas me fascina. 


E o ar branco, a névoa, a luz diluida na neblina, tudo muito belo, muito apaziguador apesar do rugido, apesar da força bruta das águas ali ao lado. Ou talvez mais ainda por isso mesmo.


Por vezes, a luz branca transforma em luz e em prata as ondas que se agigantam ao largo. Custa olhar. Parece irreal.


Em casa, para além de trabalhar e de ter ido comprar mantimentos, li. Li de gosto, devagar, saboreando o sentido e a música das palavras, o verso e o reverso, a sua sombra e a sua luz.

Senti-me feliz a ler. Aquela sensação de paz vivida instante a instante, de satisfação serena e boa.


bebemos os poemas e a paixão
bebemos sôfregos o vento ardente
até perdermos o sentido das palavras

digo-vos é mentira
o corvo não regressou à arca de noé
continuou a voar entre duas águas
perdeu-se na travessia do caos e da ordem
fascinado pelas líquidas imagens
que se desprenderam do infinito dilúvio

quando a terra por fim secou
o corvo impregnava tudo de treva
para que a pomba não encontrasse o ramo de oliveira
e deus
ao olhar o que nunca fora obra sua
mal soube por onde fissurar tanta escuridão

vingou-se
aprisionando os homens em territórios
de abandono e desolação.


Ave, Maria!
Ave, carne florescida em Jesus.
Ave, silêncio radioso,
urdidura de paciência
onde Deus fez seu amor inteligível.


Senhor meu amo, escutai-me,
a donzela espera por vós, no balcão.
Cuidado que não acorde os fâmulos
a paixão que estremece o vosso peito.
Os galgos estão inquietos, a alimária pateia.
Rogo-vos que vos apresseis.


E, agora que parei de ler, penso outra vez no mar. Como serão as ondas que se formam ao longe, amplas, imensas, quando ninguém as vê? Serão igualmente assustadoras ou, esquecidas do medo dos homens, suavizarão as arestas e os rugidos e avançarão com mais vagar, ondulantes, desfrutando a absoluta solidão da noite? Haverá espuma branca e rendilhada a rematar as ondas ou a espuma será negra, densa e perfumada de maresia como a paixão que se cola ao corpo das mulheres nas noites de irreprimível paixão?

Não sei. Há muitas coisas que não sei. 

E essas tantas coisas ainda por saber enchem-me de uma tal alegria que só eu sei.

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Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

quinta-feira, setembro 12, 2019

Portugal, terra mais linda do meu coração






Ainda estou de férias. Chegam-me mails, tenho que responder a alguns, tenho que despachar uma ou outra coisa mais premente. Mas sinto-me distante. O que me enviam parece-me coisa pouca, coisa que quase se resolveria por si. Outras coisas parecem-me mal encaminhadas. Leio e penso: uma vez mais, a gastar-se dinheiro para nada, não é nada daquilo. E fico a pensar se não deveria enviar um mail ou fazer um telefonema a alertar. Mas opto por não dizer nada. Seria chover no molhado. Não vale a pena. Coração ao largo.


Aqueles meus calções brancos, os que comprei numa loja de chineses em Lagos, têm-me dado um jeitão. Lavo-os ao fim do dia e, no dia seguinte, sem serem passados a ferro, estão impec. Ou com uma coisinha de nada para ir para a praia, tendo o cabelo apanhado e umas havaianas brancas de tirinha douradinha clarinha, ou com um camiseiro florido ou uma túnica engraçada, brinquinhos postos para dar um arzinho e cabelo solto e uns ténis, para usar a passeio, estão sempre au point. Com um senão. As pernas muito visíveis. O meu marido chama-me a atenção: 'Serão pernas que se apresentem?''. E até estão num tonzinho a atirar para o bronzeado. Não é isso, portanto. A questão é que, in heaven, ando sempre com elas a todo o léu, em especial se somos só os dois (e mais os gatos e cães que por lá aparecem para a galdeiragem). E ou porque quero tirar uma dúvida a limpo ou porque vou dar uma ajuda no desbaste que o meu marido não se cansa de infligir a aroeiras, azinheiras, madressilvas e outras pobres árvores e arbustos a verdade é que não me cinjo aos caminhos empedrados tendo que me adentrar por onde calha. Ou seja, não há dia em que não nasça novo little arranhão. Sendo de pele clara, tudo se nota. Seja quando está fresco, por vezes em sangue, seja na fase de cicatrização em que ficam riscos igualmente avermelhados, não há como disfarçar. Nem tento. Aliás, nem me lembro de tal coisa. Ele é que me pergunta. E eu só penso é que, quando for trabalhar, não terei pernas capazes para usar saia ou vestido. A alma é de camponesa mas a pele é urbana. 


E isto dos calções vem a propósito do que me ajudam a reduzir o guarda-roupa necessário em caso de emergência.

Explico.

Ontem já quase não tínhamos nada que fazer. Máquinas de roupa feitas, lençóis e toalhas estendidas nas cordas entre árvores, depois tudo apanhado, dobrado e arrumado, casa mais ou menos limpa e arrumada, incapacidade para me pôr ao computador durante o dia de tal forma estou habituada a pegar nele só a desoras, ele as portadas já lixadas e o bondex aplicado, mato desbastado, laranjeiras regadas, candeeirozinhos solares aplicados na entrada da casa, etc, parecia que o tempo nos estava a sobrar. Dá ideia que não conseguimos habituar-nos ao descanso. Temos que estar a trabalhar, a trabalhar a bom ritmo, a despachar. E quando sobra tempo ficamos entediados.


Portanto, ontem à noite resolvemos que estava mas era na hora de nos pormos a caminho. Pensámos em Espanha mas ou o lugar ou os hotéis ou a distância ou o não sei o quê não nos convencia. Para sul, não. Para o lado, não. Para a Galiza talvez. Mas onde que fosse mesmo bonito e o sítio onde ficar também bom?

À noite, em conversa com o meu filho, ele perguntou o que íamos fazer e contei-lhe destes quadrilemas. Contrapôs uma alternativa em Portugal. Disse-lhe: ainda há um ou dois anos lá estivemos, já fomos tantas vezes... A verdade é que me apetecia algo. Sem o saber o meu marido perguntou se um lugar mais ao menos na região que o meu filho sugeriu não seria uma hipótese. Abanei a cabeça, encolhi os ombros. Outra vez...? Ele também não estava muito convencido. Mas, pelo sim, pelo não, vimos hotéis. E, então, eis que um nos pareceu agradável.


Hoje, estava a tomar o pequeno almoço quando ele chegou da rua, perguntei-lhe o que fazíamos. Vamos? Vamos, disse ele. Liguei para o hotel e marquei.

Não fizemos mala. Não há pachorra para andar com malas. Juntei umas roupecas, pouca coisa, fatos de banho, escovas e pasta de dentes, protector solar e hidratante e coloquei tudo numa little mochila. Ele foi ainda mais minimalista mas guardou também uma toalha daquelas ultra fininhas. E mais o computador. E, em menos de nada, estava feito. Pusemo-nos a caminho.


Fizemos um pequeno desvio, para almoçarmos junto ao mar e revermos a bela Princesa. E depois foi só mais um bocadinho. Ainda não há muito aqui tínhamos estado mas coisa breve, de passagem. E já aqui tínhamos estado, várias vezes, embora nunca aqui ficando. Isto que me lembre. Embora me recorde de um belo jantar. Se calhar, ficámos uma noite a caminho de qualquer outro lugar e, nas outras vezes, vínhamos à praia mas estávamos numa outra cidade. Mas sempre vínhamos fixados era na praia, não na cidade ou vila. 


E hoje, aqui instalados, explorando o lugar em si, independentemente da praia que sempre procurávamos (embora lá tivéssemos estado também, claro), tem sido uma epifania atrás de outra. Lugar mais lindo. Mais lindo, mais lindo. Que País mais lindo o nosso Portugal. Mais lindo, mais lindo. Que encantamento sinto.

Fiz quase duzentas fotografias. O tempo que agora levei a escolher algumas. Já com sono e nisto. Mas gosto de mostrar o que os meus olhos vêem pois quero partilhar o meu amor por este país tão lindo, tão diverso, tão bom para se viver.


Ponho-me a pensar nos outros lugares bonitos de outros países que conheço e não há outro lugar que me lembre de ser tão bonito como os lugares mais lindos do meu país.

Passeámos toda a tarde, rio e mar, dunas e serras. Até ao belo e sereníssimo anoitecer.

Depois, pela vila. Tanta gente... E que terra tão linda, tão diferente de como me recordava dela.

Andámos até à noite, uma noite fresca, e a vila a esvaziar-se de gente. As ruas, anoitecidas, silenciosas, tudo tão limpo, tão arranjado e bonito.

Aliás, todo o pais tem vindo a ficar mais bonito, todas as terras se embelezaram. Eu ia a qualquer outro país e vinha de lá fascinada com a forma desempoeirada como as pessoas curtiam a rua, as esplanadas, os jardins, enquanto, por cá, as ruas estavam vazias, soturnas, não havia esplanadas, ninguém caminhava nos parques ou à beira-mar, ninguém apanhava banhos de sol na relva dos jardins públicos, ninguém ria e conversava em voz alta. Era uma tristeza.

Agora, nada disso: agora as esplanadas, as praças, as ruas, os passeios ribeirinhos, tudo tem gente, gente que dá vida e graça às terras. 


Bem. Stop.

Ponho-me a escrever e esqueço-me que aqui, na net, as coisas são para ser breves, ninguém tem tempo ou paciência para grandes lençóis descritivos. Mas eu gostava que toda a gente conhecesse bem Portugal em vez de andar a conhecer outras terras. Claro que nem toda a gente terá posses para viajar. Mas há comboios, autocarros, há hostels muito em conta. O importante é conhecer e dar a conhecer o país, amar este nosso lindo país. 

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Para aqui pôr, estive a ver se me lembrava de alguma música portuguesa de Portugal dedicada ao mar ou aos rios, mas não queria uma coisa muito óbvia, muito conhecida. Nem Amália nem Dulce Pontes nem o Fausto.  Não me ocorreu. Fica a Bethânia, madrinha dos mares, presença que aqui sempre me abraça a alma.

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Desejo-vos a todos uma bela quinta-feira. 
Portem-se mal. 
Sintam-se bem.
Combinado?

domingo, setembro 01, 2019

O mar e o azul, a sul.
E a luz, mon amour.
Puro espaço e lúcida unidade





E eis que, depois de dias em família, a casa feliz por tudo e, também, com os risos das crianças, a mesa sempre cheia de muitas conversas e o tempo a passar rapidamente, logo de manhã decidimos trocar o campo pelo mar. 

Rumamos, pois, a sul, ao encontro da intersecção de todos os azuis, do ponto de luz onde o espaço e o tempo nascem e terminam, naquele encontro feliz e único onde não há explicação nem salvação.

Quase segui o conselho da Luísa que me disse para vir só em Setembro. Antecipei um pouco mas a maior parte dos dias serão em Setembro. O tempo quente não é deste tempo mas a aragem torna-o mais afável e a frescura das águas ajuda a acalmar os ardores da pele. Andando por aqui, tão perto das agruras quentes e desérticas um pouco mais a sul, deveríamos preocupar-nos com este calor imoderado. Mas os tempos, por estes lados, não estão de feição para climas de preocupação e, portanto, esquece-se a raiz do problema a iludimo-nos, como se tudo isto fosse uma benesse sem contrapartidas. 


Ou seja, ao longo do dia, rasseio, refresco-me, fotografo, veraneio, saboreio o bom peixe com sabor a mar, a torta feita de figo e alfarroba, deixo-me ir ao sabor do vagar. 

Ao fim do dia, o sol intensamente dourado, uma gaivota, tal como eu, simplesmente estava. Olhávamos a luz, o calor, a serenidade do momento. Uma aragem fazia-me esvoaçar, ao de leve, o cabelo e, a ela, a plumagem. Não sei se me viu ou, se tendo-me visto, me achou motivo irrelevante. Não interessa. Fotografei-a em toda a sua indiferença, antes de, mais tarde, se lançar em magnífico voo.


Depois, à noite, passeamos. As ruas cheias de mil vozes. A terra é, agora, uma babel multicolorida, onde se cruza gente de todas as cores e raças e línguas. Umas mulheres vestem-se como que para coktail de início de noite, outras para chá dançante, outras para noite de gala. Outras vêm da praia ou dos veleiros que por aqui param e estão tisnadas, os cabelos apanhados sem rigores, as roupas escassas, leves e sem cuidado. Os homens também mas, neles, as diferenças de dress code não são tão extremadas. E muitos, muitos jovens. uns totalmente informais, outros nem tanto. Bebem, fazem brindes, abraçam-se, riem, seduzem-se uns aos outros, ensaiam jogos que, certamente, recordarão para o resto da vida.

E quase em cada canto há quem toque ou cante ou faça outras habilidades. E tudo se compra e tudo se vende. Pequeno comércio. Reparo, sobretudo, nos brincos, colares e pulseiras. Uma tentação. Gosto de me enfeitar. Podia andar vestida toda de branco ou toda de preto e com aparatosos adornos. Hoje namorei um colar em turquesas intercaladas, de quando em quando, por pedras encarnadas. Aquele contraste pareceu-me muito atraente. Mas achei o colar um pouco curto. Talvez ainda o vá experientar pois só saberei se tem que ser, depois de vê-lo posto em mim. Os preços tornam ainda maior a tentação. Nao sei que pedras são estas que têm um preço tão apelativo.

Também me atraem os vidros coloridos. Tão bonitos. Estive a namorá-los sem saber onde poderia pô-los. Jarrinhas minúsculas, muito inperfeitas e belas. Ou bolas de vidro suspensas. Devo ter um lado infantil que não se cura para me deixar encantar com tudo, com coisas que, se calhar, pouco valem. Mas, para mim, é com encantamento de primeiro lhar que as olho.


Ou conchas, ou as nacaradas ou os búzios, aqueles que gosto de encostar ao ouvido para ouvir o mar. Vejo, passo a mão pela sua superfície, gosto de sentir como são macias, polidas pelo mar. 

E assim, com vagar, vou passando pelas ruas empedradas sobre as quais passam aquelas pessoas da terra que conheço das palavras de um certo príncipe que delas fala com doce melancolia e uma tocante ternura.


Hoje comprei o Expresso. Quando estou de férias, gosto de comprar uma revista para ir lendo, o espírito em modo flâneur. Como estava curiosa em relação à Lourdes Castro, em vez de outra coisa qualquer comprei o Expresso. Claro está, gostei imenso da entrevista e fiquei a pensar que, agora, iria transcrever algumas afirmações dela. Mas afinal, com pena minha, não posso. Estou a ser instada a apagar a luz. Além disso já sei que a alvorada será relativamente cedo. 

Nos últimos dias, não respondi a algns comentários e tenho uns três ou quatro mails também em atraso. Pensei que hoje talvez pudesse mas, afinal, também não consegui tempo.  Nestes dias é impossível arranjar um bocado para me agarrar ao computador -- só mesmo à noite mas, à noite, como é o caso, nem sempre tenho ampla liberdade de movimentos. Ademais, parecendo que não, talvez do ar do mar, não sei, estou ainda com mais sono.  Portanto, se não levam a mal, fico-me por aqui. Amanhã há mais.