Futilidade: sondagens sobre as Presidenciais quando ainda não se conhecem todos os candidatos e quando os portugueses ainda estão muito longe de se ralarem com tal coisa.
Cábulas de primeira: deputados do Chega que, de cada vez que abrem a boca, revelam que não sabem do que falam
Cábula de segunda: Luís Montenegro que vai para a Assembleia da República armado em bom, em erudito, a citar Sophia de Mello Breyner, quando, afinal, a frase referida era da autoria de José Saramago. Ou o tipo que lhe escreveu o texto quis divertir-se à sua custa, colocando-lhe uma casca de banana debaixo dos pés, ou foi outro cábula que nem se lembrou de confirmar o que escreveu. Seja como for, ele próprio, o Luís, deveria ter tido a lucidez de confirmar o que ia dizer para evitar fazer um papelinho mais do que triste
Cábulas de terceira: alguns dos comentadores deste blog que aparecem aqui não para referirem factos concretos ou para rebaterem, factualmente, o que aqui se diz, se limitam a 'mandar' bocas ou, mais calinamente ainda, vêm revelar que têm uma bizarra fixação em Sócrates.
Incompetente em expoente máximo: Ana Paula Martins. Não há dia em que as notícias não nos deixem estupefactos com as cavalices que se passam sob a égide de Madame Aparelhista
Ridícula: a defesa atotozada dos Anjos que não se calam com a cena do acne. Agora entregaram fotografias que atestam a borbulhagem
Embuste: quando eu trabalhava, sempre que havia actualização das tabelas de retenção de IRS, o que o Departamento de Recursos Humanos fazia era 'carregar' essas tabelas na aplicação informática de processamento de salários e escrever a data a partir da qual a nova tabela vigorava. Se a tabela fosse carregada em Agosto mas com incidência a Janeiro, automaticamente a partir de Agosto apareceria já a nova taxa de IRS e, nessa altura, o sistema calculava retroactivamente o IRS que deveria ser retido, devolvendo o que tinha sido retido a mais. Não havia ciência oculta. O valor retroactivo resultava de uma conta simples: o valor a mais em cada mês vezes o número de meses. Acontece que nada disto acontece com o Ministério das Finanças agora faz: o valor devolvido em Agosto e Setembro é muito superior ao valor resultante daquele referido cálculo. Verifica-se que a partir de Outubro (ordenados a pagar no fim de Outubro, ie, depois das eleições) a diferença no imposto retido é cagagesimal, alcagoitas. Mas o que vão devolver em Agosto e Setembro (antes da data das eleições) são valores simpáticos. Se isto não é manipular as pessoas ou comprar votos, que venham todas as virgens rasgar as vestes e me expliquem qual a lógica matemática desta jogada.
Escapista: Marcelo Rebelo de Sousa, o palrador-mor, o omnipresente e ubíquo Presidente que, depois de ter feito a vida negra a António Costa, com bocas encapsuladas e bocas directas ou indirectas, usando-se a si próprio ou usando a so-called fonte de Belém, e de ter feito o possível e o impossível para correr com o PS e para pôr o PSD no governo, agora, haja o que houver, remete-se ao silêncio. Não é apenas que se tenha tornado discreto, é mais que isso, praticamente desapareceu, emudeceu, empalideceu, quase se tornou um fantasma.
Quem se dá ao trabalho de ver os meus inconcebíveis vídeos no Instagram, para além de constatar um indiscutível amadorismo e uma total ausência de propósito, já deve estar farto do chinfrim que faço ao andar, pisando caruma, folhas secas de azinheira ou de eucalipto, bolotas ressequidas e tudo o mais que por aqui se junta.
É certo que eu poderia -- e, se calhar, deveria -- aprender a editar os vídeos, retirar-lhes o ruído ambiente, cortar e colar bocados disparatados, etc. Mas, sinceramente, não ando com paciência para gastar tempo com isso. E, ao escrever isto, receio que achem falta de respeito da minha parte apresentar produtos de tão insólita falta de qualidade alegando falta de paciência para aprender e para editar. Porém acreditem: não é falta de respeito, é mesmo uma quase incapacitante falta de paciência. Pode ser que me passe... Um dia que leve mais a sério isto de fazer 'conteúdos digitais' (como agora sói dizer-se) talvez me leve a mim mesma mais a sério (e agora devia aqui inserir um emoji a piscar o olho e a deitar a língua de fora para que percebam que estou a pensar que está bem, está).
Em contrapartida, tenho passado os dias a varrer em volta da casa. Só que a casa, ainda assim, tem um perímetro que vai lá, vai, e os calores dos últimos tempos têm feito o chão encher-se de folhagem seca. Por isso, é um trabalho insano, uma never ending story, uma cena à moda do sísifo. Até não há muito, com as chuvas, era musgo por todo o lado e até nascia erva das pedras. Agora está tudo seco e é o que se vê.
Lá por baixo, na extensão grande do terreno, não há como varrer ou impedir que os meus passos façam barulho ao pisar isso, mas, em volta da casa, até por razões estéticas ou de segurança, obviamente tem que ser tudo limpo.
Em tempos, tínhamos contratado um senhor da aldeia para tratar das limpezas e das regas. Vinha duas tardes (completas) por semana. Queixava-se, dizia que não chegava, dizia que era trabalho a tempo inteiro. Mas também não queríamos que isto fosse o palácio de versalhes, não era nossa ideia ter um jardim imaculado em volta da casa. Sobretudo, o que queríamos era que, ao fim de semana, não tivéssemos que nos preocupar com isso. Mas o senhor, para nos demonstrar que duas tardes (inteiras) por semana não chegavam, pespegava-se cá ao sábado. Nós a querermos estar descansados e à vontade e ele a cirandar por aqui, a chamar-nos para nos mostrar isto, a chamar-nos para nos perguntar sobre aquilo, uma seca de que não havia memória. Mesmo quando lhe dizíamos que íamos cá ter pessoas, ele não despegava. Aliás, parece que fazia questão em estar, em ver e ser visto. Ficávamos passados. Com muita dificuldade e cuidado para não o melindrarmos, acabámos por dispensá-lo.
Mas isto não se dá conta. Precisa mesmo de manutenção. O ano passado o meu marido contratou outro senhor da aldeia. Veio recomendado pelo vizinho do início da rua. Avisou-nos que ele bebia um copito a mais mas que era trabalhador e sério.
Chegávamos cá e estava tudo na mesma, com excepção de beatas por todo o lado. E não era das puritanas que rezam, eram mesmo das que podem pegar fogo. Queixava-se que era um trabalho ingrato, que vinha limpar e varrer e apanhar ervas todos os dias e que chegava ao fim de semana e o que tinha sido cuidado na segunda-feira já estava outra vez a precisar de ser limpo. O vizinho confirmava que o via andar por cá a trabalhar, que não era tanga. No fim, pagávamos horas que nunca mais acabavam e não se via nada de jeito, só beatas. Dizia que tinha cuidado, que as apagava bem. Mas eu não podia ver beatas por todo o lado, é coisa que me me complicava com o sistema nervoso. No conceito dele, os cigarros são para se deitar para o chão e parecia não perceber que não o deveria fazer. Acabámos por agradecer e, uma vez tudo pago, nunca mais lhe dissemos para vir.
Resultado, somos nós que tratamos do assunto. O meu marido reclama, diz que é trabalho a mais.
A mim não me custa. Gosto imenso de varrer. Aposto que para a minha cabeça é como se estivesse a meditar: não penso em mais nada. Ando completamente focada a varrer e fazer montes. O pior é que, depois, encher os sacos ou os carrinhos custa um bocado. Uso uma pá grande mas, às tantas, o meu marido pega ele naquilo e anda ele a recolher os montes, a transportá-los para a terra. E queixa-se. Diz que, antes de eu acordar, já ele andou a cortar mato ou a fazer outras tarefas e que, depois, eu não sei parar e varro este mundo e o outro e que não está para isso. Mas esta nossa dinâmica, de reclamarmos um com o outro, já tem barbas, ou seja, já não ligamos muito aos protestos um do outro.
Outra coisa que fica para mim é a rega. Gosto imenso de regar. Quem me acompanha aqui há muito tempo, recordar-se-á que já contei que, de início, investimos fortunas (salvo seja) em sistemas de rega mas que, quando cá chegávamos ao fim de semana, estava tudo roído. Os coelhos (ou outra bicharada) roíam tudo. O meu marido substituía e eles comiam. Desistimos. O meu marido decretou que o que sobrevivesse sem rega seria bem vindo, o que carecesse de cuidados, podia desaparecer à vontade. E assim foi.
Mas o que está mesmo em volta da casa, do lado da frente, tem que ser regado. Agora do lado de trás e dos lados (se bem que a casa, pela sua arquitectura, na prática não tem frente, nem lados, nem trás) nunca é regado.
E, no entanto, está tudo gigante. Só as laranjeiras, e estão à frente, é que estão raquíticas e vão acabar por morrer. Não deveriam ter sido plantadas, não se dão aqui, é impossível. Quando comprámos o terreno já cá estavam, e já eram infelizes. Trinta anos depois ainda sobrevivem... mas coitadas.
E hoje já andei a apanhar orégãos, amanhã já vou montar o estaminé do costume: lençol em cima da mesa da casa de jantar e eles espalhados em cima, a secar.
Adoro. São perfumados, frescos. Bouquets graciosos, delicados e com a graça adicional de serem comestíveis.
O campo, para mim é uma mistura de mil sensações boas: os sons, os cheiros, a luz, a paz, o vagar, o contacto directo com a terra, com o trabalho simples. Maravilha maior. Não há cá férias em resorts, em turismos de habitação cinco estrelas, o que for: aqui é que a minha alma rural se sente bem.
E, ao fim do dia, enquanto estava ao telefone com a minha filha, ia ela a caminho de casa depois de umas belas férias abroad, e eu por ali andava de um lado para o outro, uma surpresa daquelas que me deixam a sorrir, com vontade de agradecer, com vontade de trepar às árvores a ver se me aceitam como uma deles: um esquilo a andar por cima de um banco, a trepar a um muro e depois a subir pelo tronco da azinheira sob a qual eu estava. Que bênção, que alegria. Eu com receio que eles tivessem desaparecido e, afinal, ainda por aqui andam. Este é mais escurinho do que os que eu tinha visto antes. Este era mesmo castanhinho escuro. Lindo, fofo, um rabo enorme, ao alto.
Estava a falar ao telefone, não consegui fotografá-lo. Mas acreditem, ainda por aqui andam. Provavelmente, enquanto ando a varrer, estão eles lá em cima a tentar compreender que animal é este que, cá em baixo, se entretém a fazer montes de folhinhas e bolotas (e pinhas que eles deitam para o chão depois de as roer). Esse animal sou eu que, tal como eles, vim de outras paragens para usufruir do privilégio de respirar este ar tão puro, para viver nesta paz tão mágica.
De tarde, chamados pela luz suave e dourada, pelo prenúncio de primavera que nos trouxe temperaturas muito aprazíveis, e, sobretudo, pelo menos pela parte que me toca, pela necessidade de oxigénio, fomos para a beira do rio.
O prazer de andar e conversar num dos lugares bons da cidade, a diversidade de gentes com que nos cruzamos, o sol sobre o rio, a boa companhia, tudo isso é remédio certo para lavar a alma.
Em tempos fotografava pessoas. Adorava. Sentia-me sempre uma observadora clandestina e, ao mesmo tempo, transparente. Já conseguia antecipar os movimentos das pessoas, as suas expressões. Estava de tocaia e, quando a ocasião se proporcionava, disparava. E, aparentemente, ninguém dava por nada.
Tenho muitas centenas ou, melhor, provavelmente, milhares de fotografias de pessoas. Mas depois temia sempre publicá-las pois receava que estivesse a pisar o risco da privacidade. É certo que há mesmo a modalidade de fotografia de rua e muito do que era a sociedade em tempos mal documentados se conhece através do trabalho de fotógrafos de rua. Mas, por via das dúvidas, encolhi-me. E, se não posso mostrar, para quê estar a fazer?
Portanto, agora tento evitar a presença de pessoas. Contudo, por vezes, é impossível deixá-las de fora. Mas, como sempre costumo dizer quando aparecem pessoas nas minhas fotografias, se alguém se reconhecer aqui e não quiser cá estar, bastará que mo diga.
Fomos lanchar ao CCB, depois fui lá tratar de um assunto e, de seguida, fomos passear para a beira do rio.
O que abaixo partilho é parte da arte de rua que por aqui se pode ver. Escultura de homenagem ao pessoal clínico em tempos covid, a escultura Central Tejo, os big e engenhosos trabalhos da Joana Vasconcelos (se é arte ou gigantes trabalhos que incorporam design e montagem isso não sei), o mural em que vários artistas homenageiam o 25 de Abril, os belos murais de azulejos com poemas de Sophia, o próprio edifício do MAAT que é escultural.
A última fotografia não foi feita hoje nem é em Lisboa. É em Setúbal, no belo PUA, e é uma homenagem a José Afonso. A minha filha estava lá à frente mas, com o corrector, retirei-a. Não ficou perfeito mas como a escultura é algo 'incerta' a modos que disfarça.
Em dias como estes, é bom sair de casa, andar a passear, a laurear, a flanar, a desopilar, a vadiar, a turistar, a espairecer, a espanejar, a dar ar à pluma. Mas, para quem não possa fazê-lo, aqui fica um cheirinho.
E vi este vídeo de que gostei e que gostaria de partilhar. Já não é Green Renaissance mas Reflections of Life e são sempre tão tranquilos, transmitem serenidade, a vida a ser vivida com vagar, o contacto com a natureza, o prazer de existir de forma simples.
BELONGING - Finding Connection
Quando somos incompreendidos e sem apoio, é fácil sentir-nos sozinhos, como se não nos encaixássemos no mundo que nos rodeia. Mas algo lindo começa a acontecer quando entendemos que nossa singularidade não é uma falha, mas um motivo de comemoração.
À medida que aprendemos a valorizar e a partilhar os nossos dons individuais, reconhecendo a beleza das nossas diferenças, encontramos uma ligação renovada com o mundo - semelhante à harmonia encontrada na natureza, onde cada elemento contribui para a beleza geral da paisagem.
Inspirando-nos no mundo natural, entendemos que abraçar as nossas diferenças é um presente que podemos oferecer ao mundo, tornando-o um lugar mais bonito para todos que nos rodeiam.
A resposta reside em colmatar lacunas, cultivar a empatia e revelar a vibrante tapeçaria da nossa experiência humana partilhada através do reconhecimento e da celebração da diversidade.
Bem. Hoje de volta ao local de trabalho, ou melhor, de teletrabalho. Infelizmente nem sol, nem temperatura agradável, nem um minuto para poder passear no jardim. Regredi aos dias de cinza. Os escassos minutos livres serviram para fazer sopa, ao início da manhã, antes de pegar no batente, e, antes da última reunião da tarde, uma versão simplificada e light de cozido à portuguesa. Aliás, pus ao lume, deixei que fervesse para baixar o lume, e fui.
Dia compacto, daqueles em que uma leve dorzinha de cabeça começa a desenhar-se, devagarinho, e, aos poucos vai começando a ameaçar achegar-se.
Acresce que, depois de uma reunião em que infrutiferamente tentei desatar um nó górdio, justamente essa tal última, quando me arrastei até à sala com vontade de fechar os olhos e descansar, recebi um telefonema de um dos participantes para comentar o que se tinha passado e para me contar algumas coisas, coisas deveras complicadas, coisas que, segundo essa pessoa, apenas me contava a mim pois receava contar a outros por medo do que pudesse acontecer-lhe caso se soubesse que tinha partido de si a informação. Minutos antes tinha-me dito: Aquilo ali é muito complicado, tudo se vende, tudo se compra, tudo. Ali tudo se trafica. Estava cansada e a precisar de descansar a cabeça depois de tanta reunião e de tantos assuntos a resolver mas, confesso, ao ouvir o que me estava a ser dito, pensei que não sei nada da vida pois há tantas e tantas vertentes ocultas que por muito que se viva há sempre muito que desconhecemos. Mundos ocultos que sobrevivem graças a esta teia de silêncios que, anonimamente, se vão urdindo em volta. Por conivência ou receio, esse submundo sobrevive protegido num casulo invisível e inconfesso.
E depois é isto, dilemas (ou melhor: questões) em que me vejo envolvida: quando a gente não sabe, não sabe, vive na ignorância; e nada há de melhor para que se viva despreocupadamente do que viver na ignorância. Agora, quando se sabe, como se pode continuar a viver fingindo que não se sabe?
E é assim que estou agora: ainda sem saber como digerir a informação, sem saber o que fazer.
Claro que, pelo meio, justamente quando fiz a breve e acelerada caminhada da hora de almoço, consegui a proeza de deixar que a minha ideia de pinturas e arranjos da casa de campo assomasse, feliz, à minha mente. Lembrei-me de outra coisa: há montes de lenha espalhados por vários bancos. Não consumimos lenha ao ritmo a que ela é produzida. E, agora, pelo menos três ou quadros bancos de pedra e também o abrigo estão inutilizados para o uso para o qual foram concebidos. Então pensei na solução que, nesta casa, o anterior proprietário encontrou para o mesmo problema: num canto da horta, fez uma espécie de telheiro, com uma armação coberta dos lados com uma espécie de estore de ripinhas de madeira por cima de outros de oleado, e, por cima, com uma cobertura metálica que imita telha. Fica muito discreto, muito bem integrado, e a lenha fica ali bem guardada. Sugeri ao meu marido que fizéssemos lá o mesmo. Disse: 'É o que eu temia. Agora não vais parar.' Mas a verdade é que ainda nem comecei e, para dizer a verdade, nem sei se vou começar. Sem poder circular, não sei como se pode levar a cabo uma empreitada destas.
Seja como for, é bom ter uma coisa em que pensar. E os meus pensamentos melhores têm a ver com fazer coisas, com projectá-las, imaginá-las. Fecho os olhos e é como se as visse. Na verdade, acho que nem preciso de fechá-los. Simplesmente, ausento-me para lá, para onde os meus pensamentos me levam.
Sentir-me bem em casa, viver junto da natureza, ter um espaço agradável para receber aqueles que o meu coração ama é das coisas boas da minha vida, talvez das mais importantes.
E é isto: como sempre, muito pouco a dizer. Junto a esta prosa frouxa umas fotografias feitas na terça-feira in heaven para ver se mantenho a alma lavada enquanto ouço um sonzinho bom. E nada mais. Até porque aqui, na realidade, também não posso falar de tudo o que me preocupa, não é? Um dia destes, ainda arranjo um diário a sério, daqueles em que a gente pode falar de tudo o que nos apoquenta ou exalta ou comove ou assusta.
Até lá, entretenho-me com estas conversinhas e com uns vídeos que me transportam para outros paraísos, bem longe das minhas cercanias. Santa Helena. Uma ilha onde parece que toda a gente é feliz.
(À falta de melhor alternativa, a partir do título dos vídeos deu-me para compor o título deste post).
'I grew up like a wild boy. And that's a lovely way to live.' - Stedson Stroud.
Stedson is a conservationist and botanist on St Helena Island, and has helped to bring a number of endangered endemic plants on the island, back from the brink of extinction.
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Life Is What You Make It
Life is what you make it. You get the rough with the smooth. I don't let things get me down.' - Marcus Fowler
We all complain sometimes. But there are so many people in the world for whom life is a daily struggle. It's important to remember how lucky we are.
St Helena is one of the most remote islands in the world. The locals of St Helena refer to themselves as 'Saints', and Gary Stevens is one them.
Gary used to think that there were greener pastures elsewhere, but he has realised that he lives in paradise. He shares a beautiful message about appreciating what you do have in your life.
"Always look to the bright side of things, and never let little things get you down. Just think of what lumps of gold you've got in your hands that you can't see."- Gary Stevens
Esta é a madrugada que nós esperávamos* O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo
É com um imenso alívio que vi confirmada a vitória de Biden. Digo aquilo que disse no outro dia: Trump doía-me como se fosse presidente do meu país. Ter que suportar um escroque daqueles como presidente dos Estados Unidos era uma humilhação que me custava a suportar. A liberdade e a democracia estavam a ser vilipendiadas. Claro que o que não faltam são estupores. Veja-se Bolsonaro e outros. Mas os Estados Unidos são uma bandeira da democracia para o mundo. Pode ser uma miragem, uma ilusão. Talvez. Nódoas não faltam naquela bandeira. Mas temos, todos, que querer o melhor e não encontrar justificações ou atenuantes para aceitarmos o pior.
Portanto, que bom que Biden tenha vencido estas tão renhidas e tumultuadas eleições. Que bom que Joe Biden seja o novo presidente dos Estados Unidos.
E se estou tão aliviada e contente nem é tanto por Biden -- embora também o seja. Acho-o um tipo decente e acredito que vai sair-se honrosamente. De resto, será bem apoiado e em sua volta congregar-se-ão todas as forças positivas da gente de bem. Kamala, sua vice, não tenho dúvida, será uma presença de modernidade e inclusão que trará força e luz ao seu mandato.
Biden terá pela sua frente uma tarefa hercúlea: conseguir fazer-se afirmar junta da imensa mole de broncos e grunhos que votaram em Trump. Isso e, não menos importante, conseguir vencer os coronavírus que, por lá, andam à solta como múltiplas varas de porcos assanhados. Isso e, também, a brutal crise que a covid está a cavar por lá (como em todo o mundo). Não vai ter a vida fácil, Biden.
Há gente que tenho por civilizada e que, estranhamente, ainda acredita que o problema de Trump é o que diz e a forma como o diz. Ingenuidade. O problema de Trump é ser Trump. Não há um narcisista à superfície da terra que valha um caracol. Nenhum. É tudo gente que pensa e age em função de si própria. Pode isso ser camuflado de mil disfarces, alguns nem deliberados, mas não há volta a dar. Os narcisistas desconhecem o que é a empatia, desconhecem o que é a abnegação, desconhecem o que é a visão intelectualmente honesta. Imagine-se agora um narcisista extremado e poderoso como Trump. É um perigo. Trump é uma pessoa que é tudo e o seu contrário conforme a conveniência de momento mas que tem como substracto o desprezo que, no fundo, sente pelos outros. Acha-se o maior, o melhor, mais amado. Nem é bem desprezo, é, sobretudo, indiferença. Os outros interessam-lhe apenas na estrita medida em que lhe podem ser úteis. Se não lhes reconhece utilidade ou se percebe que são pessoas que não o veneram ou, simplesmente, que não gostam dele, sentem-se ameaçados, vitimizam-se, mostram-se injustiçados -- e partem para o ataque, para a injúria ou, quando a cobardia aperta, para a lamúria infantilizada. Gente assim é tóxica. Imagine-se um Presidente que é tóxico: é tóxico para os outros, só que, neste caso, os outros são a população do país. Mais: sendo o país os EUA, ele é, também, tóxico para o mundo. Um perigo.
O que Trump fez é inenarrável: rompeu acordos importantes, marimbou-se para as alterações climáticas, ignorou a ciência, mostrou desprezo pelos outros Estados, acicatou ódios, apoiou os mais ignorantes de entre os ignorantes, fomentou o obscurantismo ao mais alto e disseminado nível -- e essa sua herança vai ficar por lá.
Biden vai, pois, pisar terreno que, em larga medida não lhe vai ser favorável (isto para não dizer que é terreno minado). Ganhou, mas a percentagem de gente que votou em Trump é de susto. Contudo, optimista que sou, espero que esses broncos caiam na real e percebam que um país ter à frente um democrata, um homem decente, é meio caminho andado para os cidadãos se sentirem confiantes. Espero também que muita dessa gente seja tão bronca que, não tendo quem lhes dê corda, acabe também por se esquecer das posições trumpistas. Finalmente, apesar de não ser vingativa, por esta vez espero ainda que Trump acabe isolado e atolado no fel e na gosma que passou o mandato a espargir sobre quem não lhe prestava vassalagem.
Mas, enfim, agora é hora de olhar em frente. Trump já era.
by Chris Riddell
Biden é agora o Presidente dos Estados Unidos e isso é o que interessa festejar.
E se há festa nas ruas...! E se há alegria**, desfile, salto, dança, riso, aplauso, alívio... e hope, hope, hope!
Conheço uma pessoa, que não conheço, que me disse que queria ver-se livre das palavras. E, no entanto, para mim ele é feito de palavras. Quando penso nele, penso nas suas palavras. Conhece milhares de palavras e de cada palavra ele conhece o sentido e o anti-sentido e sabe edifícios que as usam como materiais de construção. Há quem de um conjunto de pedras construa uma catedral e ele era menino para fazer o mesmo. Diz que não. Diz que está cansado delas. Mas de uma palavra nascem-lhe ramos de rosas invisíveis, bandos de pássaros inventados, rios infinitos e muito belos, montanhas secretas habitadas por seres nunca antes vistos. O seu mundo é o das palavras e eu estou em crer que ele sente através do que as palavras lhe dizem. Aliás, nem sei se sente ou se apenas constrói pensamentos que, por vezes, às escondidas, falam de emoções. Mas nem disso estou certa. Até porque o desconheço. Mas não acredito que queira mesmo esquecer-se das palavras. Aliás, estou em crer que, sem palavras, ele deixaria de existir. Pelo menos, enquanto pessoa. Talvez se transformasse em bicho. Talvez se transformasse em personagem de uma ficção que jamais quererei descortinar. Mas talvez as palavras também se recusem a abandoná-lo. Há pessoas a quem as palavras nunca abandonam. Há pessoas a quem as palavras correm nas veias e que, se não estou enganada, trocariam um amor e a própria vida pelas palavras. Pessoas que talvez tenham nascido de uma palavra e cuja vida seja a insana luta para descobrir a palavra de que nasceram.
Estive a ler aquele livro que a querida JV em boa hora me recomendou: O rei faz vénia e mata. Lá se fala de palavras, daquelas que parecem coladas aos objectos, daquelas que a gente pensa que conhece, daquelas que queremos que voem para muito longe, daquelas que escondem segredos. Palavras que não descrevem nada, palavras que existem sem razão, palavras a quem ninguém conhece, palavras sem carne, sem veias, sem escamas, palavras que só existem noutras línguas e que querem dizer coisas estrangeiras, que nos são estranhas. Ou não diz nada isso e sou eu que agora estou a inventar o que estou a escrever?
Por exemplo: o homem feito de palavras e que quer esquecê-las existe? Não sei. Não sei mesmo.
As palavras que eu escrevo sobre as palavras e que fotografo existem ou são meras pinturas de coisa nenhuma?
Há um lado secreto de mim, habitado por outras que não eu, outras que desconheço e a que apenas o homem das palavras tem acesso. Mas, como ele não existe, é como se ninguém a elas tivesse acesso. Ele não sabe falar comigo e eu não sei falar com ele. Por vezes, penso que ele fala a mesma língua nocturna que uma das outras que me habita mas, quando a noite se fecha, eu desapareço e dele não sei mais. A noite é um país desconhecido feito de labirintos que são percorridos por criaturas silenciosas que gostam de percorrer caminhos sem fim que acabam quando a noite acaba.
Caprichos negros, raivosas melancolias, ânsias da cor das nuvens que se avolumam no mar -- extrai Herta Müller da Explicação dos Pássaros de António Lobo Antunes para o colocar no livro de onde extraí eu o título deste post.
E eu leio e gosto de ler. Não sei se são palavras que façam sentido mas as palavras que fazem mais sentido são palavras assim, intemporais, desligada da geografia em que foram proferidas.
Se, por exemplo, eu disser que caminhei, um dia, sobre uma estrada que descia e que voei ao lado de canteiros de flores e que do nada, dessa varanda encantada, nasceu um abraço prometido, um sorriso eterno, uma surpresa sem palavras e um fio que se estendeu pelo infinito, para sempre eu presa a esse fio, e que, por ele, enfrento minotauros enlouquecidos e desfaço tapeçarias que invento todos os dias, será que alguém pode levar a mal que nada se perceba do que digo?
A liberdade de cerzir palavras -- construindo esconderijos, recantos, segredos, loucuras, fantasias, promessas, pedrinhas, conchinhas, caligrafias, gestos perfumados, pétalas de flores indecentemente sedosas, lânguidos sussurros de inexistentes leopardos azuis, gritos de pássaros loucos, memórias acarinhadas como raros tesouros, sombra de árvores acolhedoras como ventres maternos, gatos deslizando no silêncio da noite, sonhos, bordados, umas mãos que nos esperam -- essa liberdade ninguém me tira. Mesmo que nada faça sentido. Aliás, sobretudo se não fizerem sentido. Já o confessei. Não quero despojar-me de palavras, gostava era de ser capaz de dizer coisas que fizessem sentido para outras pessoas como se fossem elas que as tivessem dito. Ou que façam sentido num outro lugar, num outro tempo, como se eu tivesse renascido para as dizer, como se eu tivesse que inventar uma pessoa para gostar de me ler.
Hoje à noite apareceu um pirilampo. Estava na parede, junto à porta, do estúdio. Luzia como se não fosse possível. Vê-se e custa a acreditar. A natureza é cheia de improbabilidades. Há muitos anos que não via um pirilampo. Os meninos nunca tinham visto e creio que a mãe deles também não.
O gato, que a minha filha diz que é uma gata, senta-se agora sobre a mesa de pedra que está em frente da sala. Vê-nos a olhar para ela e deixa-se ficar a olhar para nós.
Os pássaros têm cores cada vez mais vistosas. Hoje esteve aqui um à porta que tinha o papinho num verde pistácio. Saltitava de alegria. E as rolas andam muito próximo, vivem nestas árvores que eu plantei e que agora roçam o céu. São lindas.
Há inúmeras lagartixas, perfeitas, ágeis. Não sei a que se deve. Parece-me um milagre a existência de todos estes animais.
A borboleta amarela que todos os anos me acompanha enquanto caminho veio de novo ao meu lado, minha guardiã, minha alma efémera e fugidia, minha alma todos os dias renascida.
E, a propósito de coisas que parecem estranhas e sem sentido mas que, de tão inusitadas se tornam insólitas e especiais, deixem que partilhe convosco um vídeo que me prendeu do princípio ao fim sem que eu saiba dizer porquê. Parece-me uma coisa meio louca, sem nexo, insustentável. E, no entanto, uma coisa tão bonita, tão transcendente, tão indefinível.
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Desejo-vos uma boa semana.
Saúde e motivação. E que a beleza das coisas não vos abandone.
"Não compreendem que o que se opõe se reúne em si mesmo: harmonia de tensões opostas, como a do arco e da lira"
Esta "harmonia de tensões opostas", bela como a do arco e da lira, habita toda a grande arte grega: chaos e kosmos, natureza e geometria, Apolo e Dionysos, tumulto e medida.
Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal Dói-me o luar -- branco pano que se rasga
Poemas ou excertos de poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen em 'O nu na Antiguidade Clássica e Antologia de Poemas sobre a Grécia e Roma': a primeira parte, em prosa, é o início de 'Os Kouroi'. O primeiro poema é 'Pã', o segundo é 'Penélope', o terceiro é 'Homenagem a Ricardo Reis (V)', as três últimas linhas fazem parte de 'Em Hydra, evocando Fernando Pessoa' bem como o título deste post.
Tenho estado a fazer como que uma gostosa cura de sono. Não tanto quanto se calhar precisaria mas, enfim, o possível. E tem sido bom.
Conto.
Na sexta-feira, estava ainda no primeiro sono e já estava a ser acordada. Como habitualmente, para justificar o mau acto, acrescentou quase meia-hora à hora real. Enfim. Desculpou-se: tínhamos muita coisa para fazer. Pronto, desculpei, se calhar era verdade.
Dali seguimos para casa dos meus pais e, daí, para o campo. Era para almoçarmos num restaurante onde vamos às vezes mas, ao ligarmos, fomos informados que estavam repletos até às duas e meia. Tarde demais, nem pensar. Portanto, fizemos uma inflexão e fomos para outro lado. Nunca lá tínhamos ido. As doses eram de oito ou nove euros. Sem pestanejar, pedimos duas doses. Quando vieram duas travessonas nem queríamos acreditar. De facto, ao olhar à volta, em mesas de duas pessoas só vi uma travessa. Na minha, sobrou mais de metade. Na dele, quase metade. Felizmente os restaurantes agora têm caixas para trazermos o que sobra. Portanto, deu para o jantar de ontem e para o de hoje.
Entretanto, ao sairmos, vimos uma seta para o Lidl e, como tínhamos que nos abastecer para o fim de semana e como gosto de ir ao Lidl, fomos. Aproveitei para comprar mais coisas. Os produtos da marca deles são boas e baratas. E, em geral, o que lá têm é bom. Tinha pensado fazer favas com entrecosto mas tinham de tudo menos favas. Portanto, para domingo, trouxe coisas para um cozido à portuguesa em versão light. E para o almoço de sábado trouxe uma cabeça de pescada do Chile. Uma senhora cabeça. Nem vi quanto pesava mas talvez um quilo ou mais, nem sei. Fiz com batata normal, batata doce, cenoura, feijão verde, cebola e ovo. Para ele ficou a parte de posta e para mim a cabeça propriamente dita. Tudo o que seja para rapar espinhas ou ossos é para mim. Os pobres dos gatos ou dos cães que aqui aparecem não têm grande sorte. Dou-lhes os restos mas já pouco têm para depenicar. Belo peixinho. Estava bem bom. Tal como a minha menininha linda, também eu tenho o peixe cozido com batatas e etc como um dos meus pratos preferidos.
Bem, mas falava eu do sono. Ontem à tarde, depois de termos chegado e arrumado as compras, depois de ter feito uma caminhada e feito montes de fotografias, reclinei-me no sofá e, pimbas, desatei a dormir.
Acordei, fomos dar um passeio e, enquanto ele ficou a fazer não sei o quê, voltei para casa e comecei a devorar Bem-vinda a casa, Memórias, um livro num registo autobiográfico de Lucia Berlin. Muito bom. E ontem quase o acabei. Depois de jantar deu-me, outra vez, o sono e dormitei. Escrevi o post sobre O problema dos homens e, pouco depois li um pouco mais e fui dormir.
Pois bem. Quando acordei, de manhã, pensei que ainda fosse cedo. Pensei: se for para aí umas nove horas ainda tento dormir mais um bocadinho. Como sempre, estava sozinha na cama, certamente desde quase madrugada, e isso explica que estivesse a dormir sem interrupção. Não há lugar do mundo onde consiga pôr o sono em dia como aqui, especialmente quando estamos só os dois. Levantei-me, fui abrir a portada para entrar o ar fresco e ouvir os pássaros. E fui ver as horas. Onze e quarenta e cinco. Olhei várias vezes para confirmar. Por um momento ainda pensei que tinha mudado a hora, que na volta ainda eram dez e tal. Mas depois lembrei-me que isso da mudança da hora já era.
Depois do pequeno almoço, fui caminhar. Estava ele a chegar a casa. Tinha andado nas vidas dele. Curte as neblinas matinais, curte o cheiro das árvores, curte as cores e os sons da manhã ainda imaculada. Diz sempre que não sei o que perco. Mas os meus horários aqui são outros.
E fui, então, andar de novo por entre as árvores, pisando a caruma macia, aspirando os cheiros íntimos da terra, ouvindo os pássaros, sentindo aquele frémito de quase susto quando algum pássaro apanhado de surpresa bate as asas apressadamente, fazendo toda a árvore estremecer até conseguir libertar-se e começar a voar.
E, tal como ontem, assisti maravilhada a este fenómeno que sempre me surpreende. Da terra rebentam cogumelos como se não houvesse amanhã. Parece um milagre. Uma aparição. Cogumelos de todas as cores, de todos os tamanhos. Por todo o lado. Não têm conta. Impressionante.
Há milhares de pontinhos brancos. Ínfimos, tamanho quase de cabecinhas de alfinete. Ponho-me de joelhos no chão, sinto a terra molhada. E vejo que os pés são fininhos como cabelos transparentes. Tão perfeitos, tão delicados. Tão efémeros.
Amplio, ponho o flash, fotografo quer com a máquina quer com o telemóvel para enviar à minha mãe.
Outros são castanhos e estão enleados na caruma. Parecem folhas secas. Outros são grandes, redondos, brancos, levantam as pedras afirmando a sua vontade. Outros são elegantes, cinematográficos. Outros são carnudos, tumefactos, húmidos. Outros são enormes, gigantes, rendilhados. Uns têm o pé grosso, outros um pé delgado. Outros levantam a terra e têm ainda folhas, ramos, paus, terra em cima. São fortes apesar de parecerem macios.
Acho-os lindos. Melhor: acho extraordinário este fenómeno de, do nada, desatarem a sair do chão estes seres misteriosos. Tão diversos, tão intrigantes. Como se explica uma coisa assim?
A minha mãe, como expectável, escreveu: se fossem bons que belo almoço. Depois acrescentou aquilo que, por esta altura, sempre diz: mas não lhes toques, não arrisques, podem ser venenosos. Respondi que alguns estão já com dentadas e que não vejo coelhos ou javalis caídos por perto. Mas que, claro, não ia arriscar. Depois escreveu que há tantos porque há uma grande cama de folhagem húmida.
E há. Uma manta macia, molhada, perfumada. Um cheiro a fertilidade, a beleza, a espanto.
E está tudo tão lindo. As cores estão lindas, acobreadas, douradas, os verdes mais verdes, tudo tão harmonioso, tudo tão tranquilo, tudo tão bom.
De manhã, ainda tratei da casa. Varri, limpei o pó, sacudi tapetes. Gosto de ter a casa limpa. Trouxe da Area um óleo perfumado, com um cheiro cítrico e a verbena. Um perfume fresco, suave. Coloquei o frasquinho com os pauzinhos junto à lareira. Mas acho que é suave demais, ainda não dou pelo perfume. Mas o meu marido, antes de se ir deitar, passou por lá e perguntou que cheiro era aquele e que não percebe para que é aquilo. Mas eu percebo: é porque gosto.
Precisava de mais uns dias para dar uma volta aos roupeiros, aos livros, reorganizar, também aqui, os livros. Acaba por andar sempre tudo misturado, brinquedos, livros de crianças, objectos tresmalhados, panteras que aparecem onde antes estavam peças de cerâmica que, por causa dos meninos, subiram para locais mais intangíveis, coisas assim. Mas, ao mesmo tempo, gosto. Para onde me vire há sempre sinais de todos eles e isso é outra fonte de felicidade.
Mas, com o tempo aqui sempre tão contado, fico-me pelo essencial. Limpeza básica. A ver se agora de manhã me vou às teias de aranha que estou agora a ver que subsistem junto aos candeeiros aqui da parede. Uma praga. Apanham-se à larga durante a semana e acham que é tudo delas. tecem, tecem, tecem.
E faltam-me ainda as casas de banho mas só as lavo depois dos banhos que, aqui, são antes de almoço, depois de andarmos nas nossas lides.
O meu marido, entretanto, de tarde, esteve a fazer uma fogueira com ramagens, desbaste de árvores, tojo, mato, restos ainda do verão. Aquele cheiro bom de uma fogueira no campo, aquele fumo bonito, aquela névoa: tudo maravilhoso. Durou até ao entardecer. Gosto muito, parece que me traz sentimentos antigos, bons. Tão apaziguador, uma coisa que provavelmente remonta até raízes ancestrais de que devo ainda guardar memória.
Repito-me se disser aquilo que já disse tantas vezes: viver o contacto próximo com a natureza enche-me de felicidade. E é tão melhor quanto me dou conta disso, sinto mesmo que estou a viver momentos de felicidade. Desfruto. Devagarinho. Contemplo, toco, aspiro, caminho. Tão bom.
E, entretanto, acabei o livro da Lucia Berlin. Uma vida complicada, a dela. Não sei como há pessoas que conseguem sobreviver sãs de cabeça, mantendo os laços familiares, em circunstâncias tão complexas. A minha filha é fã dela. Foi a minha nora que lhe deu o Manual para mulheres de limpeza e ficou admiradora. Já leu os três dela traduzidos cá. Eu não, só este. Mas agora vou ver se leio outro.
Depois comecei o da raposa da Herta Müller. Só que a luz do fim do dia estava a encantar-me e fui à rua fazer mais fotografias. E a seguir estive a ler parte do Colóquio de Letras dedicado a Correspondências.
Antes de jantar, escrevi o post dos medronhos macios e doces e, a seguir ao jantar, surpreendentemente, voltei a adormecer. Um sono, um sono. Parece que, no decurso dos dias, o corpo vai andando, aguentando-se aparentemente bem com as poucas horas de sono, mas, na primeira oportunidade, desforra-se, descansa, recarrega baterias, faz um saudável reset. O que tenho dormido é incrível. Nem consegui responder a mails e acho que nem vou responder a comentários. Estou, outra vez, capaz de ir dormir, o corpo a pedir-em aconchego, caminha boa.
E, enquanto escrevo, ouço o vento lá fora. Sopra com força. É a Amélie. As árvores que guardam a noite não conseguem evitar que as ramagens se inquietem, fustigadas pela ventania. As bolotas caem sobre o telhado e fazem um barulho a que já me habituei. A chuva cai. Gosto de ouvir. São sons bons. Tudo na natureza me deixa encantada. Os deuses que por aqui guardam estes meus espaços têm-me também nos seus braços. E eu deixo-me abraçar, deixo-me embalar.