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sexta-feira, maio 05, 2023

Marcelo descurtiu o Costa e ficou com um grande pó ao Galamba mas, resumindo e concluindo, a montanha pariu um very little ratinho.
E ainda bem.

 



Tenho uma dúvida prévia: já não há jornalistas em Portugal? 

Sempre tive para mim que um jornalista é alguém que informa e noticia com isenção. O jornalista deve retratar o que observa sem tomar partido. Um jornalista deve merecer a confiança daqueles a quem se dirige por nunca se desviar da sua rota de isenção e objectividade.

Ora aqui, no nosso rectângulo, quase todos jornalistas caguaram (com u para não me acusarem de falta de educação) para a isenção e saltaram todos para o palco a opinar, a sentenciar, a julgar. Tomam partido, ajustam contas, pedem cabeças, juram vingança. De jornalistas já não têm nada.

Em quem é que podemos confiar para recebermos notícias credíveis, que não venham deturpadas ou conspurcadas pelas suas opiniões? 

Depois de ver as televisões pejadas de jornalistas travestidos de comentadores, fico cansada. Quem é esta gente para sentenciar sobre assuntos complexos? Em vez de noticiarem, é vê-los a rasgar as vestes, a opinarem sobre temas que requerem experiência profissional e conhecimentos na matéria e sobre os quais revelam uma total ignorância -- mas com aquela ignorância dos ignorantes que ignoram a sua própria ignorância -- e se um diz mata o outro diz esfola. E, com receio de perderem a avença, vá de elevar o nível da maledicência. E com receio de ficarem atrás dos outros é vê-los a papaguearem e a macaquearem o que os outros dizem. Uma praga.

O que os jornalistas em Portugal andam a fazer ao jornalismo é contribuir, e de que maneira, não apenas para o fim do Jornalismo como, também, para o clima de pântano que tende a instalar-se. 

À noite (que é quando se liga a televisão cá em casa), de canal em canal, o que se vê é a tropa fandanga dos jornalistas-comentadores e de comentadores-avençados a lançar lama sobre tudo o que mexe.

Sobre a comunicação ao país de Marcelo

Já no outro dia achei desagradável aquela Nota da Presidência, saída durante a intervenção de António Costa. Achei deselegante, uma coisa quase, até, mal educada. Mas a gente depois tenta perceber, em concreto, o que é aquilo e, bem vistas as coisas, não é nada. Ou melhor, tal como referi, pareceu-me uma reacção idêntica à do outro que, furibundo, alegadamente terá atirado a bicicleta contra os vidros

Hoje voltei a achar que a intervenção de Marcelo foi no mesmo sentido. Pôs-se a dizer mal do Galamba e de António Costa de uma forma pouco institucional, pouco elegante, fez insólitos e escusados ataques ad hominem, fez a sua leitura das coisas, uma leitura extremada,  direi mesmo enviesada, pintou a manta... e, depois, nada.

E acho bem que não tenha feito nada. Tudo o que fizesse seria mau para o País (e mau para ele).

E também acho bem porque o País não é o bairro da Mariquinhas habitado por youtubers ordinários, políticos de meia tigela, gente de partidos especializados em banha da cobra e foguetório, pseudo-jornalistas, comentadeiros a metro, avençados a copo e bugalhos à discrição. O País é um país real que tem que ser governado com cabeça, com os pés na terra e com pulso e que se está a caguar para estas tricas laricas ou, para ser mais exacta, para estas merdas paridas pelos media e por alguma gentinha que por aí anda à babugem

Sobre o País real

Por muito que a comunicação social faça e diga, a verdade é que há um país real em que as pessoas trabalham, em que os jovens estudem (quando os profs resolvem dar aulas), em que há segurança nas ruas, em que os restaurantes e as esplanadas estão à pinha, em que todos os concertos, por mais caros que sejam, esgotam, um país em que as praias estão cheias e as pessoas descontraídas, em que as pessoas gostam de viver. 

E o que se vê é que Portugal foi o país da UE com maior crescimento económico, um dos países em que  a dívida pública mais decresceu, um dos países em que a qualidade da democracia é das melhores, um país em que os pensionistas são respeitados, em que tem havido apoios aos mais desfavorecidos, em que o desemprego não tem significado (pelo contrário, há escassez de recursos em muitas profissões), em que, em suma, quase tudo funciona razoavelmente.

Portanto, quem é que, em seu são juízo, iria ferir de morte a estabilidade actual e os bons resultados da governação?

Alguém acredita que o Montenegro, com o artista da Iniciativa Liberal que não dá uma para a caixa (e que levaram aquele youtuber ordinário para dentro do Parlamento) e, quiçá, com o Ventura a tiracolo, governaria melhor o País?

Mais. Tenho para mim que a maioria das pessoas está cansada dos filmes negros inventados por uma comunicação social alimentada por jornalistas travestidos de justiceiros que fazem de tudo para pintar o país de cores tenebrosas ou por uns deputados com alma de pides e outros que devem padecer do défice de concentração, indo atrás de qualquer mosca que atravesse as salas, que fazem de tudo para atormentar a vida a quem lhes caia no goto e para poluir a democracia.

Não quero com isto dizer que toda a gente no país viva à larga. Não. Nem aqui nem em lado nenhum, o mundo é um mar de rosas para todos. Há um caminho a percorrer para esbater desigualdades, para fazer crescer a riqueza geral. Claro que com a inflação (internacional) e com a subida das taxas de juro (idem) há muita gente a suar as estopinhas e o período não é o melhor para quem vive com menores rendimentos. Mas mesmo nisso o Governo tem posto no terreno programas de apoio.

O Governo tem muito trabalho ainda pela frente? Claro que tem. Por exemplo, na Justiça, há muuuiiito a fazer. Não é possível os processos arrastarem-se durante anos.

E têm que fazer um esforço para se articularem melhor entre si. E o Costa tem que dar ordem aos Ministros para se livrarem de todos os assessores, adjuntos e demais canalhada miúda que por lá ande a receber pipas de massa sem que tenham um mínimo de estofo para aquelas funções. 


Voltando ao Marcelo 

Para não sair deste episódio com o rabo ainda mais entre as pernas, Marcelo ameaçou que agora vai fazer a vida negra ao governo. Faz mal. Até porque isso é o que tem andado a fazer nos últimos tempos. Já ninguém tem paciência para isso. Ninguém... excepto a tropa fandanga dos media. 

Os jornalistas, as vizinhas intriguistas e comentadeiras podem gostar muito disso pois é o pasto de que precisam de se alimentar. Mas o País gosta de estabilidade, gosta de pessoas que saibam honrar aquilo para que foram eleitas, que olhem para os objectivos a atingir e não para o seu próprio ego.

Em vez de andar com as televisões atrás, numa de dar permanentes ferroadas ao Governo, a mostrar o preço das batatas, a entrar em bairros de lata a mostrar que ainda há quem viva assim ou a visitar centros de saúde para ouvir as queixas de quem para lá vai às oito da manhã, melhor seria se andasse pelas universidades (por exemplo pelas engenharias, pelas biomédicas, pelas farmacêuticas, pelos politécnicos, etc, a ver em que projectos inovadores estão envolvidos), andasse pelas empresas, nomeadamente, pelas áreas de desenvolvimento e de transformação digital, pelos hospitais a ver as unidades integradas e polivalentes (da dor, da insuficiência cardíaca, do avc, de oncologia, etc) ou a evolução para os domínios dos internamentos domiciliários e do acompanhamento remoto a doentes, ou que andasse pelos municípios a ver a oferta a nível de equipamentos desportivos que cobrem todos os níveis etários, os jardins e parques municipais, que andasse a ver o que há de ofertas dignas e em condições acessíveis a nível de creches e ATL, residências assistidas para idosos, que fosse visitar o que se está a fazer a nível de energias alternativas e de prevenção ou mitigação das alterações climáticas. Etc.

O País tem que ser puxado para cima, tem que se dar a conhecer os bons casos, têm que ser emulados os bons exemplos, temos que saber enaltecer os nossos pontos fortes (que são muitos) em vez de andarmos a dizer mal de tudo, os pés atolados na lama que uns quantos teimam em atirar para o espaço público.

Se Marcelo conseguir a proeza de se reinventar e passar a ser realmente útil ao País, agradecer-lhe-emos.

Se se limitar a andar com as televisões atrás, a lançar atoardas e ameaças veladas, ou a fazer o papel do Chega que faz da maledicência e da acusação o seu móbil de vida, então, dispensamos.


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Pinturas de Joan Miró a ver se dão alguma cor e leveza ao cinzentismo do tema

A música, lá em cima, vem no mesmo comprimento de onda:  El cant dels ocells de Pablo Casals num arranjo para guitarra de LV Johnson
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Um dia bom
Saúde. Serenidade. Objectividade. Paz.

quarta-feira, fevereiro 17, 2021

Dia de Carnaval in heaven

 


Pois o que tenho a dizer é que, mal abri a porta, senti o frio que vinha lá de dentro. Frio, frio, frio. E húmido. Uma coisa mesmo desconfortável. Tanto tempo fechada e logo na altura em que a temperatura esteve tão baixa, não admira que tenha guardado o frio nas paredes e no ar interior. Melhor na rua que dentro de casa.

No chão, algumas laranjas, nenhuma em bom estado. Apanhei as que subsistiam na laranjeira. Só uma é que tinha laranjas. Na tangerineira ainda duas pequenas tangerinas. Mexericas, escreveu-me no outro dia quem disse que estava a beber um chá com casquinhas de mexerica. Ela, ao cheirar as mexericas que lhes tínhamos dado, disse que cheirava a bergamota. E é. Cheirinho fresco, cítrico, floral, delicado.

Os folhados estão floridos, lindos, lindos. Parecem bouquets de noivar. 

Ao contrário do que temíamos, o mato não está assustador. Andámos à caça de tojo e, enquanto eu fotografava aqueles curiosos folhos que nascem nos troncos cortados, ele cortava silvas e tojo. 

Mas não são apenas folhos, alguns esverdeados, outros em tom acobreado. Há outros seres que brotam de troncos aparentemente mortos. Não sei se são cogumelos, líquenes, fungos, habitantes de um mundo oculto, vestígios de flores que não chegaram a ser, vultos brancos que irradiam luz nas noites em que os lobos saem em busca de sombras. Não sei. Fotografo tentando adivinhar.

Há muitos musgos. São lindos, de um verde sumptuoso de que gostaria de me vestir. Têm em cima folhinhas, pedrinhas, pequenas pétalas. Um mundo de recordações. Fotografo encantada. 

O silêncio ali é mais silêncio. Os pássaros ali cantam em maior inocência e liberdade. A serra envolta em neblina, mal se via, em toda a volta. Um vulto imponente, uma presença magnífica, quase apenas imaginada.

Um prazer tão tranquilo, estar ali. Uma largueza, uma quietude, uma paz.

Depois, não sei porquê, olhei em volta e deu-me uma daquelas minhas que não sei de onde vêm mas que se impõem, de imediato, como incontornáveis: uma vontade de mudança. Neste caso, mais simples do que da última vez: pintar tudo. A casa é uma casa de campo, rústica. De origem, as paredes são rugosas. Não gosto, nunca gostei. São práticas, sempre me disseram. Mais fáceis de manter, disseram-me. Mas nada disso me convenceu. O que me convenceu foi dizerem-me que era preciso lixar tudo, estucar de raiz. Demorado. Muito pó. Uma maçada prolongada. Avessa a maçadas e, ainda por cima, prolongadas, fui tolerando, pois. Até hoje. Hoje deu-me uma impaciência. As teias de aranha infiltram-se nas rugosidades. Maçada é manter as paredes sem teias de aranha. Tudo liso, branco, simples, isso sim. E não só. Também as portas e os rodapés brancos. Tudo mais claro. E, de repente, olhei para o quarto e tive vontade de também me desfazer dos móveis antigos. Pareceu-me escuro. Se calhar é porque o tempo estava cinzento, com ar de quem quer chover. Mas achei que a culpa também era da mobília. Já não gosto de coisas que não sejam luminosas, claras. Depois olhei para a sala de jantar e tive vontade de pô-la também toda branca. Mas aí travei-me. Falei ao meu marido. Assustou-se. Receia estes meus ímpetos. Quando pensa que estamos a entrar num tempo de alguma acalmia, apareço eu com vontade de tsunamis. E, no que se refere em concreto à sala de jantar, não lhe parece bem que fique em branco. Gosta dos móveis. Também eu: são muito bonitos, de boa madeira, invulgares, até. Talvez se puser um tampo de mármore no aparador já aclare. Mas a mesa, que é tão bonita, já é pequena demais. Tenho que pensar no caso da sala de jantar até porque liga com a zona da lareira e aí há cadeirões e banquetas que não são propriamente brancos ou minimalistas.

Mas o resto, incluindo paredes exteriores, telheiro, portões -- tudo a precisar de limpeza, de pintura. Quiçá algumas janelas também novas. Estão a precisar. Quando fui fechar janelas da parte mais antiga, estavam um bocado empenadas. São de madeira, vidro simples. Não queria desfazer-me delas, sempre as achei bonitas. Mas já não estão com nada. Hoje reconheci-o.

Claro que esta altura não ajuda nada. Não nos podemos deslocar facilmente. Esta terça-feira fomos até lá porque podia circular-se entre concelhos, porque fomos de casa a casa, porque temos que enviar contagem de água e electricidade, porque estávamos preocupados com o mato, porque queríamos certificar-nos que estava tudo bem com a casa. 

Bem, para dizer a verdade, fizemos uma pequena paragem pelo meio. Passámos por casa da minha mãe. Levei-lhe uma camisola que lhe tinha dado pelo Natal e que lhe estava apertada. Troquei-a logo a seguir mas já não consegui levá-la. Hoje, sim. E queria ensiná-la a tirar fotografias com o telemóvel e anexá-las a mails. E queria ensiná-la a usar a lanterna do telemóvel, E, claro, queria estar com ela. Desde o Natal que, tirando as video-conferências, não a via. 

Está óptima, estava toda bonita, tinha estado a ter aulas na universidade sénior. Gostei de revê-la. Foi por pouco tempo porque todos os cuidados são poucos. E estivemos de máscara, claro. E, tão ou mais importante, com as janelas abertas.

Tenho ainda a declarar uma coisa: quando íamos a passar ao pé daquela tasca ao lado da bomba de gasolina onde, antes, às vezes íamos comer caracóis, choco frito e outros petiscos, deu-me uma vontade enorme e achei que poderiam ter take away. O meu marido achou que eu era maluca, nem queria parar. Mas, face à minha insistência, fez-me a vontade. Lá fui. A porta estava aberta mas com uma mesa à porta. Lá dentro escuro. Ao ver-me, a dona, que estava sentada a uma mesa, levantou-se. 'Têm comida para levar?', perguntei. A senhora, que é também quem atende na bomba, olhou para mim com um ar espantadíssimo e, passados uns segundos, disse com ar de quem nem percebia a pergunta: Não....!

Quando entrei no carro, sujeitei-me àquele riso de gozo que tão bem conheço: 'Não me digas... não têm take away...?'. E, pronto, foi isto. 

Continuei a leitura vagarosa das cartas de RMR mas hoje já não vou pôr-me para aqui a transcrevê-las, não é?

Vou pregar para outra freguesia até porque daqui a nada tenho que estar a pé. Mas, antes de me ir, gostava de partilhar um vídeo que está em fase com a minha disposição: leve, pronta para tempos melhores, com vontade de dançar, vontade de rir, vontade de renovação.

Rudolf Nureyev e Anthony Dowell 

[em Valentino]

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Se me permitem, recomendo que desçam até ao post seguinte pois é de futuro que ali se fala

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Desejo-vos um dia feliz


terça-feira, agosto 01, 2017

A amante perfeita




Há mulheres que transportam em si o perfume do pecado. Será a forma como olham, como sorriem, como deslizam, como se negam sem se negarem, como se oferecem sem se oferecerem, será qualquer coisa de indizível mas que olhos atentos facilmente reconhecem.


Algumas acrescentam uma outra camada, mostrando que são detentoras de uma densidade pouco usual. Ao que se vê, acrescentam o que nelas se pressente. E o que se pressente é que há nelas, algures -- e não se sabe se é no coração, se na mente, se em todo o corpo -- a tentação pelo abismo, a capacidade da paixão transcendente, a inocência irresistível, a loucura que enleia, o riso que seduz, a irreprimível liberdade que prende de forma irreversível.

E, outras, raras, somam a isso ainda o dom do uso inteligente da palavra. É sabido que as palavras viciam e que, se nascidas de uma mulher bela e sedutora, podem ser verdadeiramente afrodisíacas.


O que dizem mulheres assim enquanto olham, enquanto o corpo se entrega a quem as olha, torna-as um permanente motivo de fascínio e atracção. Podem os anos passar, pode o corpo envelhecer que, nelas, a graça e o encanto permanecem. Intactos, requintados, cativantes.

Estou a lembrar-me de algumas. Poucas. Muitos quererão tê-la como amante. Apenas alguns terão a sorte de ser escolhidos.

Jeanne Moreau foi seguramente uma destas mulheres.
Disse um dia: "Oui, j’ai vécu comme un garçon”
Mas, mais tarde, viria a arrepender-se de o ter dito daquela forma. Confessou que preferia ter dito : "J’ai vécu comme une femme libre. Mais cela veut dire que j’ai eu des aventures, des amants, que je peux partir quand j’en ai envie..."


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Sobre imagens de Les Amants (1958), realizado por Louis Malle, o sexteto de cordas de Brahms com Pablo Casals e Isaac Stern


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Jeanne Moreau diz "Cet amour" de Jacques Prévert


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E, por favor, tenham em atenção que o post abaixo trata de gente pouco recomendável, embora muito divertida. Perigosamente divertida. Ou talvez, antes, divertidamente perigosos, nem sei.

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quarta-feira, dezembro 14, 2016

Vagas topologias





Na noite de segunda para terça-feira deitei-me sem estar perdida de sono o que significa que, como sempre que isso acontece, não adormeci de súbito e, portanto, espertei. O tempo a passar e eu a ver que já não tinha tempo de dormir. Por fim, adormeci para logo depois acordar, com medo de que o telemóvel não despertasse. Ou seja, praticamente não dormi.

Quando saí de casa, noite fechada, estava um nevoeiro cerrado, tudo molhado, parecia chover tanta a humidade. A música na rádio era boa e conduzir de noite, sem ninguém mais nas ruas, é bom. 

Contudo, como tinha hora marcada para me encontrar com o colega com quem faria grande parte da viagem, estava com medo de me atrasar. Mal se podia andar, mal se via. Cheguei ao pé dele em cima da hora, ainda de noite.

Nevoeiro pelo caminho. A reunião, a centenas de quilómetros, começava às dez mas, apesar de tudo, como damos folga para todos os imprevistos, chegámos antes. Beijos e abraços, há algum tempo que não via algumas das pessoas. Mais tarde, a seguir ao almoço, veria algumas pessoas pela primeira vez.


Cheguei a casa cedo, antes das oito da noite. Mas estava num tal estado que me deitei no sofá e adormeci profundamente. Despertei cerca de meia hora depois, o meu marido já ao pé de mim, mas eu ainda a precisar de dormir mais. A custo, lá consegui acordar. Passado um bocado, chamou-me para jantar. Quando ia começar, ligou-me a minha filha, admirada por eu não lhe ter ligado. 

Depois de jantar, ligou-me o meu filho. 

Sentei-me agora aqui mas estou com pouca energia. Não é pelo dia, que não foi cansativo, é pela noite passada, não dormida.

Ao começar a escrever pensei que podia fazer dez posts diferentes. Talvez uma credível materialização da topologia possa ser qualquer coisa como esta: uma pessoa passar o dia num sítio e viver ou antever situações tão díspares e de natureza tão distinta que pode parecer que não se tocam, que não aconteceram no mesmo espaço/tempo, como se dentro dele coexistissem diferentes dimensões, realidades que não se intersectam. Uma realidade imaterial de contornos difusos que se desdobra noutras que não se reconhecem entre si.


A dada altura, de tarde, emocionei-me. Disfarcei. Nessa altura, vi um outro também emocionado, identicamente a disfarçar. Ao mesmo tempo, outras pessoas riam abertamente e quase todos batiam palmas, incluindo eu.

Noutra altura, enquanto ao meu lado ouvia conversas sobre negócios em geografias remotas ou projectos inovadores e sustentáveis, actividades com ebitdas periclitantes e outras mais seguras, mantinha eu uma conversa com uma pessoa, magra, cansada, que tem a mãe com Alzeihmer, que já apenas a conhece a ela, dando-lhe, por isso, a responsabilidade adicional de, todos os dias, dê por onde der e custe-lhe o que custar, ir vê-la para que a mãe veja alguém que consiga reconhecer.

Pelo meio, recebo mails e sms e respondo e participo e interesso-me. Mas a verdade é que, frequentemente, sinto a necessidade de me deslocar para as silenciosas e benignas pregas do espaço/tempo onde reconheço traços de humanidade ou onde me parece que as coisas verdadeiramente acontecem.


Não quero nem posso cometer indiscrições pelo que nada posso contar. Mas direi que me aconteceu, como tantas vezes me acontece, sentir um distanciamento que me leva a ver coisas que mais ninguém parece ver.

Quando na viagem de regresso, vimos os dois a comentar o que se passou, muitas vezes parece que estivemos em lugares distintos.

Depois conversamos sobre séries ou filmes, sobre gente conhecida, sobre lugares bons para se passear, sobre a família. De vez em quando dá-me sono, sinto que, se fechar os olhos, adormecerei. Não fecho, prefiro vir acordada e fazer companhia a quem vem a conduzir, tão cansado como eu.

Agora na televisão vejo que Mário Soares, o velho leão, está sem forças. Tenho pena. Mas de nada serve acreditar que a eternidade está ao alcance dos mortais. Não está. Somos frágeis, perecíveis. Sobrevive-nos a memória que de nós conservarão os que um dia nos amaram. Para uma minoria, para os que têm a sorte de ser tocados pelo sopro divino, sobrevive a sua obra. 

Hoje foi a enterrar o irmão de um amigo meu, mais novo que ele, alguém de quem tanto ouvi falar ao longo de anos. Pelo que o meu amigo contava, parecia que o irmão tinha uma vida que jorrava de uma fonte inesgotável. Afinal esgotou-se. Imagino a tristeza do meu amigo. E eu não pude ir dar-lhe um abraço.


Tudo tão relativo, tão frágil. Tudo tão precário.

É um lugar comum, mais do que comum, dizer que não vale a pena gastarmos um minuto da nossa vida com azedumes, a aborrecer os outros ou a deixarmo-nos entristecer com a maldade alheia. Eu tento não fazer mal a ninguém e tento perdoar a todos os que, talvez até involuntariamente, me fazem mal. Nem sempre é fácil. Mas tento. Sabemos lá nós o que a vida guarda para nós...? Não quero desperdiçar um segundo da minha vida com o coração envolto em tristeza, e tomara eu conseguir levar a alegria da generosidade àqueles que parece que têm o coração fechado.

Mas também não era sobre nada disto que eu queria falar. Aliás, não queria falar de nada. Sabe-me bem estar aqui na sala quase às escuras, a escrever sem assunto, alheada de tudo, a ouvir música, em paz.

No outro dia, para acomodar na sala, nomeadamente neste sofá, as numerosas claques que vieram para o futebol, todos os livros que por aqui andavam, foram para outras paragens. E eu gosto de, no meio das palavras que escrevo, de vez em quando abrir um livro e ler o que o acaso me mostra. Agora não os tenho perto de mim. Podia ir buscá-los mas estou assim como me vêem, sem grande energia. Então, abro blogues. Abro ao acaso. Leio palavras limpas, outras imprevistas, outras talvez pensadas, umas talvez com destinatário, outras não, palavras soltas como pássaros livres, num lago, num bosque, voando ou vagueando sem pressa. Ou como flores, quase sem corpo, quase só alma. Ou com saudades. Ou apenas tingidas pelo vazio.


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Todos os dias recebo vários mails. Não consigo responder a todos mas leio-os. Posso não agradecer mas saibam que me sinto agradecida.

Hoje tinha um com um vídeo que, há uns anos, já tinha visto mas que revi com prazer, talvez mais ainda agora do que na primeira vez.

Partilho-o convosco. Parece que as palavras que neste momento estou a escutar de novo me tocam de uma forma especial.

Dignidade e elegância. A importância dos acasos. A beleza da generosidade. As diferentes dimensões da gratidão.

Discurso de Leonard Cohen ao aceitar o Prémio Príncipe das Asturias.




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E dançar no meio da noite.

Beleza e paixão. A pele e o corpo. O toque.

E a tragédia dos fins que não se desejam. O adeus. O sangue sem fim, o lamento sem voz. 

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Aqui já acima, The Borodin Quintet & Alexander Buzlov (violoncelo) interpreta o Adagio do Quinteto de Cordas de Franz Schubert. Polina Semionova e Vladimir Malakhov dançam-no segundo a coreografia Caravaggio de Mauro Bigonzetti¨.

Lá em cima Camille Thomas interpreta El Cants Dells Occels de Casals.

As fotografias são de Zsolt Kudich um dos vencedores do The 2016 National Geographic Nature Photographer Of The Year.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira.
Saúde, sorte, afecto, alegria -- para todos.


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terça-feira, agosto 21, 2012

Guilhermina Suggia e Pablo Casals, o violoncelo em todo o seu fulgor e um love affair dos antigos


Silêncio, por favor: ouçamos Suggia, a diva!

Guilhermina Suggia interpreta Kol Nidrei de Max Bruch




Guilhermina Suggia, a virtuosa e feérica violoncelista
envolta num dos seus sumptuosos vestidos , dobras e dobras de paixão vermelha


Guilhermina Suggia nasceu no Porto em 1885 e morreu, também no Porto, em 1950. 

Para mim sempre foi, sobretudo, uma grande violoncelista. Sempre a achei feia, com o seu grande e largo nariz, alguém com umas feições pouco delicadas. Na altura em que saíu o Guilhermina de Mário Cláudio passei os olhos por ele mas sem grande interesse; nada sabia da vida dela e não tinha interesse em saber.

Mas agora li um livrinho pequeno, despretensioso, Guilhermina e Pablo, da autoria de Isabel Millet - que dedica o livro a sua mãe que foi aluna e grande amiga de Guilhermina e, também, a seu pai que pertenceu à orquestra de Pablo Casals - e passei a vê-la de outra maneira. Guilhermina deixou em herança à sua amiga a casa onde viveu após o seu casamento com o médico e cientista, Dr. José Carteado Mena.

Essa casa, com os móveis, cortinados, fotografias, objectos pessoais de Guilhermina foi a casa onde Isabel Millet nasceu e cresceu.

Neste livrinho de cento e poucas páginas, o que podemos observar é o período da vida de Guilhermina que vai da infância, até à separação depois de um apaixonado romance com o igualmente célebre Pablo Casals.

E fiquei a conhecer a jovem vibrante, cujo nariz - de que ela também não gostava - nunca foi obstáculo para nada, a jovem cujo corpo se fundia com o violoncelo e se entregava, com uma paixão até ao êxtase, a jovem cujo imenso amor à música a levou por aí fora, deliciando plateias rendidas.

Pablo Casals (nascido Pau e não Pablo), catalão, nascido em 1876 (nove anos mais velho que ela, portanto) era já um violoncelista conhecido quando ouviu Guilhermina pela primeira vez, tinha ela, então, 13 anos. Nesse dia, ela apaixonou-se por aquele homem tímido, baixo, franzino, com pouco cabelo e límpidos olhos azuis. 

No entanto, alguns anos decorreram até que o primeiro encontro confirmasse o que iria passar-se a seguir. Durante esses anos Pablo (que chegou a dar-lhe aulas, era ela ainda uma jovem adolescente, quase menina, que vivia no Porto) aparecia por vezes, discreto como um gato, para ouvi-la, saindo discretamente. Guil, como a família a tratava, estudava então em Leipzig com uma bolsa da coroa portuguesa, vivendo acompanhada pelo pai, e actuava já em público, deliciando mesmo os mais exigentes auditórios.

Sobre ela, quando tinha 18 anos, escreveu Dubois Maellert: 



O corpo ainda de jovem, o olhar sonhador e um corpo vibrante de energia -
uma presença forte desde as primeiras aparições em púbico


Logo que aparece, jovem, graciosa, os olhos sorridentes, a silhueta elegante, conquista a simpatia do auditório. 

Senta-se em pose, o busto um pouco abandonado, numa deliciosa negligência e as suas pupilas claras e vivas erram sob a assistência.

Os primeiros acordes do acompanhamento escutam-se... Esta subitamente transforma-se. A jovem rapariga dá lugar à artista.

Do maravilhoso instrumento elevam-se sonoridades graves, ondulam harmoniosamente, planam no silêncio profundo da sala...

A melodia enche-se, cresce, domina, magnifica-se em acentos vibrantes, em ritmos extácticos, para se resolver em devaneio...

Agora, é a vida e o movimento. O instrumento trepida sob o arco fogoso, que vai e vem, parte incansável, enquanto a mão esquerda executa nas cordas uma ginástica atordoadora... e segura de si, a artista fremente liberta-se inteira, vibra com o seu instrumento, fazendo brotar sons estranhos numa vertigem endiabrada que o espírito apenas pode seguir.

(...)

Até que 1906, tinha ela 21 anos, a seguir a um concerto, no meio de pessoas e de ramos de flores, Pablo surgiu na sua frente. E aí não houve como contrariar o que o ímpeto apaixonado de ambos deixava evidente. Foi o início de um grande amor. Mas, com o temperamento apaixonado que ambos tinham, foi também um amor tumultuado, com muito ciúme, muita zanga para além de muito desejo consumado, muita cumplicidade.

Ao fim de pouco tempo, Guil mudou-se para casa dele, a Villa Molitor em Auteil, perto do Bois de Boulogne, uma bela casa de campo em Paris. 



Um casal feliz vivendo na sua casa de campo,
ela com a sua cabeleira farta e revolta e o seu temperamento ardente e alegre,
ele com a sua precoce falta de cabelo, a sua energia contida e ciumenta:
dois amantes que viviam ao rubro a paixão que os unia


Por essa altura, eram ambos afamados, admirados. Guil, coquette, feminina, vibrante, gastava muito dinheiro em vestidos. Comprava tecidos e levava-os à sua modista. Escolhiam modelos, ela provava, modificava-os, decotes por vezes generosos, sobretudo nas costas, mangas abertas, saias com folhos. E colares e pregadores. Pablo irritava-se, tanta roupa, tanto vestido, tanto tempo nas compras, tanto vestido atirado em cima da cama, tanta desarrumação. Guilhermina ria-se. Guilhermina tinha a verdadeira alegria de viver. Brilhava nos espectáculos, brilhava nos salões. As animadas tertúlias eram também o ambiente de eleição de Guilhermina, deixando muitas vezes o ciumento Pau à beira de ataques de fúria por não suportar vê-la a conversar, animada, dando belas gargalhadas com os seus amigos.

Por essa altura, a família em Portugal e, em especial, a irmã mais velha, Virgínia, pianista - que muito a ajudou numa época em que a coroa suspendeu a bolsa por Guilhermina já actuar em público - chocavam-se com a vida que achavam que corria o risco de ser vista como uma vida libertina. Guil não se importava mas, para evitar falatórios, passou a assinar como Suggia-Casals.

E as intenções disso por parte de Pau não andavam longe. Pediu-a em casamento, pediu várias vezes.

Mas Guilhermina dava muito valor à sua carreira, não queria passar a ser apenas a Madame Casals, não queria sacrificar a sua identidade e a sua liberdade. Pablo Casals sofria com o temperamento livre da sua amada que nunca disse o tão esperado sim.

A determinada altura, para evitar mais problemas com a sua família, Guilhermina escreveu uma carta anunciando que se tinham mesmo casado. Mas, para desgosto de Pablo, isso não passou de uma invenção dela para não ouvir mais censuras. Às tantas, toda a gente e não apenas a família, pensava que tinham mesmo oficializado a relação. Mas não: viviam maritalmente mas ela continuava a querer sentir-se uma mulher livre.

E os ciúmes de Pablo intensificavam-se perante uma Guilhermina que, achando que ele não tinha razão para isso, não modificava em nada o seu comportamento, rindo, sedutora, brincalhona, alegrando as festas com os amigos.

Uma vez, ouvindo umas piadas destes mesmos amigos, referindo uma outra, foi a vez de Guilhermina ficar doida de ciúmes, convencendo-se que Pablo tinha outra mulher. Ficou furiosa, brava, com vontade de vingança e, pouco depois, traíu mesmo Pablo com um amigo. Mas, passado umas horas, vendo que Pablo afinal ainda a amava, perdeu-se, de novo, de paixão e desejo nos braços do seu amado, na mesma cama onde tinha estado poucas horas antes com o outro, um dedicado amigo de ambos.

Os atritos em casa passaram a ser frequentes. 

Os ensaios de Guilhermina deixavam pouco espaço a Pablo que também precisava de ensaiar. Zangas, zangas, Guilhermina a fazer as malas, Pablo a implorar que ela não se fosse, novas zangas, Guilhermina a ir porta fora, Pablo a ir atrás dela tempo depois, e sempre isto, sempre.



Guilhermina Casals-Suggia e Pablo Casals -
um casal de músicos já quase permanentemente à beira da ruptura


Quando tocavam juntos em palco, Pablo já queria tocar de costas para ela, dizia que ela era excessivamente exuberante, dizia que ela o desconcentrava. E ela ficava furiosa, era o estilo dela, expansiva, extrovertida na sua paixão - ao contrário de Pablo, contido, apaixonado mas introvertido.

Quando ensaiavam as peças que tocavam juntos, Pablo queria domá-la (tal como, antes, na sua meninice, em vão o pai já o quisera fazer), queria que se alinhassem na interpretação, mas Guil era fogo e o fogo arde de forma não controlada. Pablo desesperava.

Eram ambos músicos requisitados, afamados, e a sua presença era requerida em quase todas as grandes cidades europeias. As suas actuações acabavam em apoteose, especialmente as de Guilhermina. Quando, no final, eram pedidos encores a Guilhermina ou quando a via envolvida numa multidão de gente que a aclamava, Pablo retirava-se, enciumado.

Guilhermina também sofria com os ciúmes, com a agressividade de Pablo que chegava a esconder-lhe os violoncelos, a partir peças de louça que ela mandava vir de Portugal. Até que um dia, no meio de mais um desses períodos tumultuosos, Pablo regressou a casa mais cedo e descobriu a sua amante, peitos desnudos, no acto do amor com outro amigo, músico. Pablo não a perdoou, expulsou-a de casa. Mais tarde os amigos confessaram a Guilhermina que afinal Pablo nunca tinha tido outra mulher.

Separam-se, foi um período amargo para ambos mas, uma vez mais, foi sol de pouca dura. Ele enviou-lhe umas palavras apaixonadas a propósito da passagem de ano, Guilhermina nem pensou duas vezes: saíu ao seu encontro, como se regressasse do exílio. Voltaram, pois, um para o outro, loucos de paixão, amando-se noite fora, como de costume.

Mas as crises continuadas, os ciúmes, as zangas, as lutas de egos, a pressão, os múltiplos desgastes acabam sempre por causar uma erosão difícil de suportar.

Separaram-se definitivamente quando um dia, Pablo, enlouquecido de ciúmes, a tranca no quarto. Guilhermina parte e, desta vez, para sempre. Estava-se em 1913, tinha Guilhermina Suggia 28 anos e Pablo Casals 37. 

Ela mudou-se para Londres e apenas muito mais tarde, catorze anos depois, já em 1927, volta a casar-se, no Porto com um médico. 



Guilhermina, uma presença forte, imponente, ao longo de toda a vida


Mantém a vida musical activa até ao fim, morrendo com 65 anos.



Pablo Casals,
um homem que manteve até ao fim a limpidez do olhar que tanto atraíu Guilhermina


Pablo casou logo no ano seguinte. Separou-se em 1928 embora apenas tenham oficializado a separação através de divórcio em 1957. Também maestro e compositor, Pablo Casals teve uma vida plena, uma  intervenção política e cívica, morrendo em 1973, já com 96 anos.

*

Não consegui descobrir no Youtube nenhum registo da actuação conjunta deste apaixonado casal. Gostava imenso de os ver. Não consegui descobrir, sequer, imagens das célebres actuações de Guilhermina Suggia.

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E, por hoje, nada mais. 

Desejo-vos, nestes dias de um Verão abrasador, uma bela terça feira, de preferência passada ao fresco.

segunda-feira, agosto 20, 2012

50 livros que toda a gente deve ler, segundo o Actual do Expresso - e uma sugestão para que a lista seja mais completa. E um pouco de 'dá-lhe beijos um cão' de Manuel S. Fonseca (uma das mais livres e modernas vozes do Actual)


Música, por favor



Pablo Casals, de quem amanhã ou depois vos falarei,  interpreta "The Swan (O cisne)" de Saint-Saens em 1925

(A pessoa que colocou o video no YouTube refere que I put the silent film footage of the famous Russian Ballerina, Anna Pawlowa (1881.2.12 ~ 1931.1.23), dancing her most famous work, "The Dying Swan", choreographed for her by Michel Fokine in 1905. This footage was filmed by Pathe Freres company on June 18th, 1907)

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50 Livros que toda a gente deve ler


Volto ao suplemento Actual do Expresso desta semana. 50 livros que toda a gente deve ler. Ana Cristina Leonardo, Clara Ferreira Alves, Henrique Monteiro, José Mário Silva, Luísa Mellid-Franco e Pedro Mexia pronunciam-se e João Cristóvão ilustra (e ilustra muito bem!).



Franz Kafka, autor de O Processo, um dos 50 recomendados


Sobre esta lista de 50 livros já Eduardo Pitta se pronunciou notando a falta de Os Lusíadas e do Livro do Desassossego e reparando que apenas 5 dos 50 são de autores de língua portuguesa. Também eu tinha notado isso.

Nestas alturas de veraneio é costume os jornais ou revistas aparecerem com sugestões de leituras para férias e, portanto, aparecem aqueles livros mais ligeiros, publicações recentes, coisa para se pegar entre uma sesta e uma ida à praia.

Não é isso que aparece aqui nesta lista de 50 livros. Aqui aparecem, sobretudo, os clássicos, as grandes obras. E compreende-se.



Da esquerda para a direita: Virgina Woolf, Marcel Proust, Emily Brontë, James Joyce


Um ou outro dos chamados a sugerir ousou um pouco e avançou para terrenos menos neutros, menos conservadores. Mas, de forma geral, os livros que aqui aparecem são os pilares (Odisseia), os grandes russos (Guerra e Paz, Crime e Castigo), os grandes murais, as epopeias, as grandes vivências humanas (Os Miseráveis, A Montanha Mágica, Ulisses, A Divina Comédia,...), os grandes dramas românticos (O Monte dos Vendavais, Madame Bovary, Retrato de uma Senhora), etc, etc, etc.

Em português de Portugal temos apenas O ano de Ricardo Reis de Saramago, Os Maias de Eça de Queirós, a Poesia de Álvaro de Campos, a Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. Tão pouco.



Fernando Pessoa (ou, mais concretamente, dado que foi o escolhido, Álvaro de Campos) e Eça de Queirós


Claro que construir uma lista dos 50 melhores livros de sempre é uma ingrata tarefa, é uma coisa redutora, forçosamente injusta. Mas custou-me muito ver tantos livros extraordinários deixados de fora e, sem chauvinismo o digo, uma tão fraca representação portuguesa quando a nossa literatura é tão rica.

Mas o mal (se é que de mal se pode falar numa coisa destas) não está nos jurados mas na missão. Um conjunto de apenas cinquenta livros é forçosamente uma amostra pequena demais. Quem tem que escolher tão poucos, tende, forçosamente, a jogar pelo seguro, pelo indiscutível.

Além do mais, penso que ajudaria o leitor (ou o potencial leitor pois penso que é, sobretudo, a potenciais leitores que um artigo destes mais interessa) se houvesse uma arrumação em géneros, já que quem não é muito dado a leituras, vai lá mais facilmente se for dirigido.

No entanto, que não se pense que estou a achar negativa a iniciativa de recomendar os melhores livros. Não, pelo contrário. Acho este exercício muito interessante e acho que deveria ser aprofundado. Sugeriria que se estabelecessem, pois, tipos ou géneros e, dentro de cada um, então se seleccionassem uns quantos, uns dez talvez. Penso que seria útil que, ao longo das semanas, fossem saindo, com formato idêntico ao desta edição - isto é, convidando vários entendidos em que, cada um, faria a resenha do que escolhesse.

Por exemplo: os 10 melhores policiais; os 10 melhores livros de poesia universal; os 10 melhores livros de poesia em língua portuguesa; as 10 melhores biografias ou autobiografias; os 10 melhores romances russos; os 10 melhores romances portugueses; etc, etc.



A árdua tarefa de escolher um livro ou a árdua tarefa de arrumar livros


Acho que seria uma preciosa ajuda para quem deseja constituir de uma forma avisada uma biblioteca bem estruturada.

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Boudu caminha ao lado do Sena em passos lascados, saltos de cabra velha, um Baco de barbas hirsutas e anárquicas. 



Boudu vai matar-se.

O cão que beijando-o o lambia, o único húmido focinho a que ele dava beijos, fugiu-lhe ou perdeu-o ele na sua labiríntica liberdade. O desgosto atira-o ao rio.

Seria a morte de Boudu, se Monsieur Lestingois, tão refinado livreiro como voyeur, não estivesse, para desespero da ciumenta criada sua amante, a espreitar por um óculo as damas das margens do Sena. O livreiro lança-se ao rio e desafoga o vagabundo. 

Lestingois é um reformista nato. Olha para Boudu, magnífico animal, e antevê a obra civilizadora: transformar a besta em cavalheiro.

Boudu tem uma electricidade neurológica caótica: inferniza a mesa do jantar, cospe com naturalidade nas doces páginas da 'Fisiologia do Casamento' de Balzac e, saudade dos beijos de cão, tenta beijar a boca de Anne-Marie, a amante do seu salvador. 



Boudu em acção
(representado pelo actor Michel Simon que, segundo referido no texto,
é ele mesmo anarquista, pornógrafo e misantropo


Beijará sim, fazendo soar trombetas, a boca de Madame Lestingois, bem precisada de uma brisa no decote e de uma musiquinha de realejo nos ouvidos.

No fim, o admirável troglodita (...) regressará, sem adeus e muito menos agradecimento, à sua desabrigada liberdade. Monsieur Lestingois consola-se a olhar o rio, o carinhoso braço direito apertando a criada, o esquerdo a terna esposa, um degrau de felicidade acima no firmamento balzaquiano.


Este excerto - extraído da crónica semanal O cinema dá o que a vida rouba com o saboroso título 'Dá-lhe beijos um cão', que se refere a um filme de Renoir - apesar de ser um pequeno e salteado excerto, mostra bem a qualidade de escrita de Manuel S. Fonseca, um dos mais interessantes cronistas do suplemento Actual do Expresso, um dos que, em minha opinião, melhor escreve, sempre com uma liberdade e uma frescura que se repete de semana para semana, ou melhor, que vem em crescendo de semana para semana. Manuel S. Fonseca escreve também no blogue Escrever é Triste e os seus textos são sempre uma maravilha. 

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E, para já, nada mais. Uma nova semana de Agosto está a começar e eu desejo-vos que, para vós, comece muito bem. Uma boa segunda-feira!