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terça-feira, agosto 31, 2021

Há uma altura certa para começar tudo de novo?

 


Atrai-me a perspectiva de mudar de vida. No outro dia li no Guardian um artigo sobre uma pessoa que se reformou e resolveu fazer o que sempre tinha desejado: escrever um livro. Correu-lhe bem e já vai a caminho do terceiro. Anne Youngson tinha uma outra profissão, era engenheira, e, ao mudar, tudo na vida dela ganhou novo sentido. Gostei de ler e pensei que tomara que comigo aconteça o mesmo.

Quando estou de férias, com a perspectiva de não ter nada que fazer, penso: vai ser assim quando me reformar, não ter nada que fazer. Ou seja, uma seca. E sei que dificilmente suportarei estar muito tempo sem nada que fazer. Por outro lado, sei que o tempo pode ir passando sem quase a gente dar por ele se encher a vida de pequenas rotinas: levantar, pequeno almoço, caminhada, compra de frescos, fazer o almoço, almoço, arrumar a cozinha, descansar um pouco, arrumar a casa, regar o jardim, fazer outra caminhada, fazer o jantar, jantar, ver televisão, escrever no blog. A vida pode ser tranquila se for preenchida com rotinas assim, cada rotina um porto seguro. Quem vive uma vida assim jamais se sentirá perdido pois a navegação será sempre curta, com terra à vista, de pequena actividade em pequena actividade. Os anos irão passando, se a pessoa tiver cuidado consigo própria irá vivendo uma vida saudável, e os anos irão passando na boa.

Mas creio que isso não funcionará comigo. Se tiver saúde e os anos de vida suficientes, acho que iniciarei uma nova vida. No outro dia, ao falar com os meninos, o querido e irrequieto mano do meio falava na doença do Jorge Sampaio e dizia que, enfim, também já tinha quase oitenta e dois anos. Contrapus que a bisa tem mais que isso, que já vai a caminho dos oitenta e nove. Ficou muito admirado. Então disse-lhe que isso não tem nada de mais, que eu vou viver até aos cento e tal. Ele repetiu, incrédulo, como se não acreditasse. Repeti, convicta. Mas sei lá quantos anos vou viver ou se, estando lá, na provecta idade, quererei viver muitos mais anos. 

Quando faço anos, gosto de perguntar aos meninos se sabem quantos anos faço. E acertem ou não, costumo dizer que faço cento e tal. Por exemplo: 'Não senhor. Cento e três.'. E eles, espantados, pensando que ouviram mal: 'Sessenta e três?' E eu: 'Isso é que era bom... Não senhor, já disse: cento e três...'. Ficam sempre baralhados. Gosto de baralhá-los com a minha idade. No fundo, gosto de fingir que tenho diferentes idades pois assim vou vivendo por avanço idades a que não sei se chego. Mas chegue onde chegar, o que quero é ter sempre a impressão de que estou a fazer o que me apetece fazer.

Não fazer fretes, não deixar a vida passar sem pelo menos tentar fazer o que me apetece -- isso é o que tenho sempre em mente, até com algum sentimento de urgência.

Ao escrever isto dos fretes, ocorreu-me que já vivi situações na minha vida que hoje não viveria de modo algum. 

Por exemplo, na minha adolescência tomei uma decisão errada, quase involuntária. Porque estava furiosa com um namorado que tinha ciúmes de um outro mas que não fazia o que deveria -- que era, simplesmente, agarrar-me, abraçar-me e beijar-me --, para me vingar e para o picar, resolvi começar a namorar o outro, o alvo dos seus ciúmes. Na minha cabeça impulsiva, aquilo era mesmo só para ver se ele acordava para a realidade e vinha atrás de mim. Se viesse, de forma aberta e assertiva, se me agarrasse e dissesse que me deixasse de parvoíces e que me deixasse estar quieta, nos seus braços, a coisa ter-se-ia resolvido logo ali. Mas isso não aconteceu. Ficou sentido, passado, zangado. Acreditou que eu tinha mesmo optado pelo outro. E ao outro nem lhe passou pela cabeça que eu queria simplesmente provocar o primeiro e, apaixonado que era por mim, levou aquilo a sério. E eu, envergonhada, não consegui desiludi-lo. Gostava dele, era amiga dele, admirava o seu lado artístico. Mas claro que não era apaixonada. Foi um castigo para conseguir manter algum distanciamento físico quando, naturalmente, ele queria muito mais. Escreveu belos poemas sobre isso, sobre a minha estranha e persistente inacessibilidade. Eu inventava mil desculpas para fugir à intimidade que ele procurava. E fazia um sacrifício dos diabos para aturar os pais deles, que eram uma simpatia e que gostavam muito de mim, ou as tias, também amorosas, e que falavam comigo como se eu fosse alguma vez casar-me com ele. Por exemplo, lembro-me bem de como fiquei passada, passada da vida, quando ele, que adorava o meu cabelo e fez vários poemas sobre ele, me disse que queria que eu, toda a vida, tivesse o cabelo comprido pois era assim que queria ver-me até ao resto dos seus dias. Fiquei com vontade de lhe dizer: mas olha lá, acreditas mesmo que vais viver a tua vida ao meu lado...? Mas não disse, tive acanhamento, tive pudor, tive vergonha. E, sobretudo, tive pena dele.

Hoje já não suportaria viver um namoro de faz de conta, que aos olhos dos outros e dele parecia verdadeiro mas que eu, no meu íntimo, sabia que era uma ficção construída em cima de um equívoco que, por cobardia minha, não esclareci atempadamente. 

Quem me conhecia apenas percebeu que, da minha parte, aquilo era uma coisa forçada quando me viram deveras apaixonada por aquele por quem o meu coração se rendeu incondicionalmente, num daqueles coup de foudre que fazia estremecer as pedras da calçada. 

Se eu pensar na minha vida em retrospectiva posso dizer que esse período em que namorei alguém por quem não estava apaixonada, alimentando-lhe falsas expectativas e, depois, causando-lhe um profundo desgosto de amor, é o que mais lamento. Hoje nada daquilo aconteceria. Hoje, se gostasse deveras de outro, diria claramente a esse outro o que sentia em vez de o deixar a sofrer e em vez de agudizar a dúvida namorando com outro. E, se, sem saber como, me visse metida numa situação dúbia, em vez de fazer fretes e alimentar uma absurda ficção, rapidamente a enfrentaria e me veria livre dela.

Na altura, a inexperiência, o medo da reacção dos outros, a insegurança, sei lá, fez com que alimentasse durante três anos uma coisa que jamais deveria ter durado mais do que três dias.

Mas, enfim, talvez tudo tenha uma razão de ser e talvez a aprendizagem dessa duplicidade que a gente, mesmo sem querer, vai alimentando tenha servido para me me fazer saber até onde se pode ir nesse jogo de disfarces em que, às tantas, nós próprios já acreditamos. 

Agora sou diferente. Tal como Anne Youngson diz:  

You have a better sense of yourself as you get older," . 

“You begin to understand where you fit, and you are not so anxious about who you are and what people think of you. It is liberating. Actually, I’m a big fan of old age. I think everybody should experience it.”

Agora é tudo pão-pão, queijo-queijo. Se quero digo que quero, se não gosto digo que não gosto.

E se me apetecer ser jardineira ou escritora é isso que irei tentar ser. Não quero saber dos anos que terei pela frente, do trabalho que isso dará, dos escolhos que poderei ter que enfrentar. Se é por ali que quero ir, é por ali que irei. 

Entrar numa nova actividade, num novo mundo, conhecer outra realidade, ter que aprender tudo de novo, ter a humildade de ouvir quem sabe e agradecer a ajuda que queiram oferecer-me, conhecer outras pessoas -- tudo isso é das coisas que mais me entusiasma. Começar de novo. Começar tudo de novo.

Foi como a sensação boa de mudar de casa, mudar para um local completamente diferente. Vizinhos novos, hábitos novos. Um corte radical com a vida anterior. Tão bom.

E agora, cada vez mais, tenho vontade de começar a pensar numa mudança ainda mais radical. Nascer de novo. Dar os primeiros passos. Que vontade sinto, caraças.


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As joias são de diamantes e rubis e quem esteja interessado nelas pode deslocar-se até à Oūmäem
E Isak Danielson tira-me as palavras da boca quando canta: Remember To Remember Me

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Dias felizes

domingo, agosto 29, 2021

Começar de novo

 



Foram buscar os dois mais crescidos à colónia de férias e, na volta, passaram por cá. O mais novo andava a pedir e os manos mais crescidos também gostam muito de cá estar. Quando chegaram, ainda no carro, o mano do meio perguntou-me o que era o almoço. Disse: robalo ou dourada no forno. Atirou-se para trás, altamente decepcionado, que peixe cozido é que não. Corrigi: não era cozido, era assado. Que não, qualquer coisa menos isso. Os pais mandaram-no calar. Não quis saber e perguntou que é que eu tinha mais que pudesse fazer. Disse que mais nada. 

Quando entraram, andaram a ver as mudanças. Gostaram da casa assim, mais branquinha e luminosa. Fiquei contente por ver que gostaram. A casa parece nova. 

Os mais crescidos vinham cansados. Em especial ela, que na véspera se tinha deitado à uma, vinha com uma pancada de sono que era bem patente no seu semblante.


Não obstante fez aquilo que agora faz sempre: veio para a cozinha, disse que queria ajudar e perguntou o que podia fazer. Disse-lhe que eu tinha que tratar do peixe e que era preciso tratar das batatas e da salada. O meu filho resolveu que tratariam das batatas (pequenas, para cozer com casca) e a minha nora atirou-se aos tomates do meu vizinho.
E não é metáfora, não senhor. 
No outro dia, depois de uma daquelas violentas sessões de limpeza e arrumação, chegámos ao fim do dia completamente arrasados. Quando, já noite, nos atirámos para o sofá, tocam à campainha que está junto ao portão da rua. Ficámos muito admirados. Àquela hora? Quem seria? O meu marido foi espreitar e veio avisar-me que era o vizinho da ponta da rua. Fui pôr-me decente e juntei-me a eles. Estavam junto ao banco de pedra que há à entrada da casa. O meu marido disse: 'O vizinho veio ver se queremos tomates que trouxe da horta'. Tinha um balde grande cheio de uns reluzentes e grandes tomates. Adoro tomate em todas as suas formas. Disse que sim e escolhi uns quantos. 'Tire mais...', disse-me ele. Tirei mais uns quantos. Uma pessoa fica naquela: tem vontade de se abastecer mas não quer abusar e tirar de mais. Mas pareceu-me que ele estava decepcionado por tirar menos do que ele esperaria. Voltei a tirar mais uns quantos. Entretanto, cansado dos seus múltiplos afazeres, tinha-se sentado no banco. As pessoas daqui trabalham todas muito. Ficámos a conversar durante um bocado. 
Mas, portanto, a salada foi feita com os grandes, pesados, reluzentes e saborosos tomates do vizinho.

Entretanto, eu tinha posto o forno no máximo para que o peixe, quando entrasse, o encontrasse bem quente. Num tabuleiro grande coloquei sal, azeite, orégãos e alecrim. Coloquei os robalos e as douradas em cima, virei-os e revirei-os para que recebessem o tempero. Depois coloquei-os no forno. Passado um bocado reduzi para os 170º. 

Com as batatas e o peixe em processo confeccional (confeccional de confecção) e com a salada pronta, fui dar atenção aos meninos, em especial ao mais pequeno.


Como no outro dia o referi, antes desta transformação, na sala de baixo, tinha, à vista e à disposição das crianças, vários brinquedos, nomeadamente os carrinhos que eram do meu filho. Hoje o mais pequeno quis saber onde estavam. Mostrei-os: arrumados num móvel na salinha da parte mais antiga da casa. Sentou-se logo no chão a brincar com eles. Mas depois disse-me que gostava mais quando estavam no outro sítio. Então ajudei-o a trazer alguns para a sala aqui ao lado, uma sala que têm portas de vidro e de onde se vêem as árvores.

Passado um bocado disse-me: 'anda, vamos fazer uma caminhada até ao meu caminho preferido'. Disse-lhe que tinha que se calçar. Então, como tinha deixado as havaianas à porta da cozinha, saímos por ali. Foi para um lado, a correr e a dizer: 'anda, vamos fazer a caminhada' mas logo parou: 'acho que o meu caminho preferido não é por aqui'. Olhou em volta. Depois disse-me: 'onde é a zona onde estávamos?' e acrescentou: 'é que dali eu sabia para onde queria ir...'. Acho uma graça à forma como se exprime, o vocabulário perfeito, a dicção perfeita. Fomos, então, até junto às portas de vidro da sala em que estava a brincar. Disse-lhe: eu acho que sei onde queres ir. E levei-o. Mas não estava convencido. Disse-me: 'Acho que não estou a ver o meu caminho preferido. É um caminho com muitas árvores...'. Mas caminhos com árvores há muitos. Pensei que talvez fosse o sítio onde, há uns dois anos, construíram uma casinha de troncos. Ficou contente de revê-la mas nitidamente era outro o lugar que tinha em mente. 


Mas já o meu filho e o meu marido chamavam, dizendo que as batatas e o peixe já deveriam estar. E estavam.

Portanto, procedeu-se ao almoço. E comeram bem, inclusivamente o mano do meio que antes tinha protestado tanto.

Depois de almoço deu-me uma pancada de sono e, como os mais crescidos estavam com sono, pensei que se encostariam um pouco e que talvez eu também pudesse dormir durante cinco minutos. Mas obviamente isso é daquelas miragens que não se percebe que eu ainda as tenha. Penteei a minha menina, uma trança ao lado. Ficou linda. Aliás, ela é linda. Depois ela e o mano mais novo quiseram fazer recortes e pintar. Pedi-lhe que fizesse desenhos com lápis de cor no suporte de madeira para o rolo das mãos que um dos primos pintou. Disse-me que essa seria a tarefa seguinte pois, antes, queria fazer desenhos em papel. Enquanto isso, o mano do meio leu um livro do Asterix que o pai lhe escolheu e depois esteve a ler algumas páginas de uma enciclopédia infantil. 


A seguir foram andar de trotineta, depois lanchar e depois foram-se, a minha menina com ar de quem iria adormecer no instante seguinte a sentar-se no carro (o que já sei que aconteceu mesmo). O mano reguila, que se move a pilhas de longa duração, manteve-se acordado.

E eu fui para uma espreguiçadeira, ao sol. Pensei que iria dormir mas, afinal, o sono tinha-me passado. Depois falei com a minha filha, depois com a minha mãe. Enquanto falava, ia caminhando. Quando passava ao pé de uma figueira, apanhava um e comia. Doces e carnudos de dar gosto. Tão bom estar aqui. Tão bom, tão bom. Paz absoluta, luz doce, silêncio do bom.

Quando regressei já anoitecia. Os dias estão cada vez mais pequenos. O outono aproxima-se a passos largos. Apesar de preferir os dias grandes e luminosos e de haver já no ar o prenúncio do seu fim, gosto desta altura do ano. É uma altura carregadinha de promessas. Sinto a mesma coisa que sentia quando as férias grandes se aproximavam do fim e o ano lectivo se fazia anunciar com novos colegas, novos professores, novas matérias, novas aventuras. É o ano que começa e, com ele, todas as boas expectativas. 

Começar de novo. Tão bom.


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Fotografias de avós e netos da autoria de Sujata Setia na companhia de Isak Danielson que interpreta Start Again

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Desejo-vos um feliz dia de domingo