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domingo, fevereiro 01, 2015

Leves arabescos vão formando imponderáveis laços pelas nuvens - e mais ninguém existe, mais ninguém.








a ânfora da noite a derramar as suas
golfadas de penumbra no terraço,
os perfumes do vinho, a luz das velas,
cintilações do olhar, também alguma

borboleta mais louca a combinar-se
com surdinas de jazz aos ziguezagues,
e as palavras trocadas, as confiantes,
as incautas palavras, foz do douro,

tantos de tal, inventa-se a penumbra
entre rosas vermelhas de surpresa
e doces risos nela a ressoar
que em leves arabescos vão formando

imponderáveis laços pelas nuvens,
e mais ninguém existe, mais ninguém.






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O poema é 'uma invenção da penumbra' de Vasco Graça Moura in 'O Caderno da Casa das Nuvens'

As fotografias são de Patty Maher

A música é Music Around Circles - Marco Martins e Bernardo Sassetti

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Descendo até à Volúpia de ser o Sonho de Alguém, já a seguir, poderão ouvir Nina Simone nas palavras de Vasco Graça Moura ambos acompanhados pelas fotografias nuas de James Houston.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um domingo muito feliz.

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quinta-feira, janeiro 22, 2015

Se eu disser que vi um pássaro sobre o teu sexo, deverias crer? - pergunta a obscena Senhora Silêncio




Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?




Vi as éguas da noite galopando entre as vinhas
e buscando meus sonhos. Eram soberbas, altas.
Algumas tinham manchas azuladas
E o dorso reluzia igual à noite
E as manhãs morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.

Vi-as sorvendo as uvas que pendiam 
E os beiços eram negros, e orvalhados.
Uníssonas, resfolegavam.

Vi as éguas da noite entre os escombros
Da paisagem que fui. Vi sombras, elfos e ciladas.
Laços de pedra e palha entre as alfombras
E vasto, um poço engolindo meu nome e meu retrato.

Vi-as tumultuadas. Intensas.
E numa delas, insone, a mim me vi.





Se te ausentas há paredes em mim.
Friez de ruas duras
E um desvanecimento trêmulo de avencas.
Então me amas? te pões a perguntar.
E eu repito que há paredes, friez
Há molimentos, e nem por isso há chama.
DESEJO é um Todo lustroso de carícias
Uma boca sem forma, um Caracol de Fogo.
DESEJO é uma palavra com a vivez do sangue
E outra com a ferocidade de Um só Amante.
DESEJO é Outro. Voragem que me habita.




É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A vida é líquida.





Hilda Hilst lê quatro poemas do livro "Do desejo" em gravação do princípio dos anos 1990.




Paulistana de Jaú, nascida no dia 21 de abril de 1930 e falecida a 4 de fevereiro de 2004, Hilda Hilst é reconhecida, quase pela unanimidade da crítica brasileira, como uma das nossas principais autoras, sendo consideradas uma das mais importantes vozes da Língua Portuguesa do século XX. Segundo o crítico Anatol Rosenfeld, “Hilda pertence ao raro grupo de artistas que conseguiu qualidade excepcional em todos os gêneros literários que se propôs - poesia, teatro e ficção”.


Distinguida por vários de nossos mais significativos prêmios literários, presente em numerosas antologias de poesia e ficção, tanto nacionais como estrangeiras, há muito seu nome está incluído nos dicionários de autores brasileiros contemporâneos.

De temperamento transgressor, prezando a liberdade, dona de uma rara beleza e coragem, culta e poeta, Hilda teve uma personalidade marcante e sedutora que ia de encontro aos costumes tradicionais vigentes nos anos 50, criando-se um folclore ao seu redor que, segundo alguns críticos, até chegou a ofuscar a importância de sua obra. 



Maria Bethânia - Canção III
Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé - De Ariana para Dionísio

Hilda Hilst musicada por Zeca Baleiro

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A singular poeta e escritora brasileira Hilda Hilst viveu no jet-set até os 33 anos, quando se retirou à Casa do Sol e dedicou-se inteiramente a escrever, cuidar de cerca de setenta cães, realizar transcomunicações e viver visões e epifanias. 



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As fotografias que usei junto aos poemas são auto-retratos da fotógrafa Patty Maher do  Ontario, Canada, feitos num lugar chamado Newfoundland.

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Permitam que vos sugira que desçam até ao post já a seguir: um momento de boa disposição, um jogo de nomes, um charme, um actor de excelência: Benedict Cumberbatch.

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