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terça-feira, junho 18, 2024

Covid a flutuar aí pelos ares, borboletas amarelas, fadinhas douradas

 



Na minha família, nos últimos dias, duas pessoas com covid. Há umas duas ou três semanas, outras duas. Li agora que, na realidade, a bicheza anda outra vez em força, por aí, e provavelmente em maior quantidade do que se pensa. É que, não havendo a obrigação de comunicar, pelo menos do que sei, a maior parte das pessoas não comunica a ninguém. Anti-piréticos ou analgésicos, anti-histamínicos, muitos líquidos e descanso. E, assim, grande parte da malta vai-se orientando sem precisar de ir ao médico. Portanto, os números de que se fala devem ser apenas os dos casos mais graves. Só espero não apanhar pois se me dá outra vez para o sono, não estando eu ainda restabelecida do anterior, não sei como vai ser. 

Quando digo que ainda não me restabeleci é porque, na altura em que tive covid, dormia horas a fio e, um ou dois ou três meses depois, ainda tinha um sono incomum. E agora, um ano depois, tenho ainda mais sono do que me parece normal. Se, depois de almoço ou depois de jantar, me sentar comodamente, sem estar a fazer alguma coisa, é certo e sabido que, daí a pouco, estou a dormir. Mas isto acontece comigo e acontece com o meu marido. Por exemplo, ainda hoje, estava à minha espera para irmos fazer uma caminhada antes de almoço. Sentou-se e, como me atrasei, passado um bocado estava a dormir.

Não sei se é por isso mas também parece que estou mais preguiçosa. 

Nos últimos dias, trabalhei bastante. Andei a varrer, a toda a volta da casa, os caminhos que circundam a casa. Numas zonas, há folhinhas secas de azinheira e bolotas que não acabam; noutras, há caruma, há pinhas secas e roídas; e, por todo o lado, há outras folhas. E há outra coisa que complica imenso a varredura: a folhagem agrega poeiras e terras e, às tantas, já começam a despontar aí ervas ou, mesmo, pequenos pés de azinheiras.

Portanto, arranquei ervas e pontas de coisas que nascem por todo o lado, e varri e varri e carreguei não sei quantos contentores, pesados. Claro que, em primeiro lugar, temo sempre que o esforço continuado perturbe as minhas articulações dos joelhos. Por isso, tentei ser comedida no seu transporte e, sobretudo, airosa no acto de pegar neles, pesadões, e os despejar em zonas em que mais matéria orgânica dará jeito.

E, se por aí, até ver (e deixa cá bater três vezes na madeira), ainda me parece que estou bem, a verdade é que desde ontem ao fim do dia e até hoje, só tenho vontade de dormir. Esforcei-me por não adormecer de tarde não fosse de noite ter alguma insónia. Mas, caraças, que soneira.

Por isso, não vou comentar o espectáculo que são as comissões parlamentares com as pessoas a serem espremidas em directo, com as televisões em cima, nem vou comentar as expulsões da Sónia Tavares e da Bárbara Guimarães por terem sido apanhadas a comer num local destinado a quem pagou bilhete (ou o recebeu de presente) para isso e não a pessoas que ali estão a trabalhar. E não o faço não apenas porque tenho mais que fazer mas porque estou cheia, cheia de sono.

Há bocado, depois de ter acabado o jogo de futebol, o meu marido resolveu ir dar uma volta com o dog mas eu não fui, já tinha dado para esse peditório. O dog também não queria ir, achava que já estava mas é na hora de se encostar para descansar. Regressaram algum tempo depois e o pobrezinho vinha feito um pinto (e refiro-me ao dog pois não trato o meu marido por pobrezinho). Há um lado bom nisto: a terra fica regada. Por isso, apesar de ficar um bocado desconfortável com este tempo, não consigo insurgir-me. O que me vale é que lavei a roupa hoje de manhã. Estava vento, secou bem. 

E agora, antes de desligar o computador, só me lembro de vos dizer que nestes dias em que andei a varrer e a deixar que a minha pele assimilasse vitamina D ao máximo, fui acompanhada por uma maravilhosa borboleta amarela. Não sei se alguma vez tinha visto uma borboleta tão linda. Vários tons de amarelo, quase reluzente. Como andava mais do que à paisana, desprovida de quaisquer equipamentos que não a vassoura, uma pá metálica e um contentor, não tive como registar tamanha beleza. A fotografia lá em cima foi obtida na internet e não tem nada a ver com a formosura da que esvoaçava à minha volta. Não sei, de resto, se era sempre a mesma ou se, tal como há esquilos, agora também há borboletas que, se calhar, são fadinhas douradas.

Ah, é verdade, já me esquecia de dizer que, para além da vida ser uma coisa fantástica, há ainda outra: é que a linha mais curta entre dois pontos é uma linha entre nós (isto é, eu e vocês aí desse lado).

The shortest distance between two points
Is a line from me to you
The shortest distance between two points
Is a line from me to you, me to you, you, you, you, you

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Dias felizes para si que está aí desse lado

sexta-feira, janeiro 27, 2023

Dois palcos marcelistas, um patriarcado à beira de um ataque de nervos, um atrevido Moedas a nadar em cifrões e vestidos de pernas para o ar

 



Um asteroide vai passar mais perto que nunca antes da Terra. Não se pode dizer que seja uma rasante tout court mas, à escala a que estas coisas se passam, é bem perto, mais perto do que alguns satélites. Chama-se 2023 BU (que também poderia ser o nome de um dos filhos do Elon Musk) e, segundo a Nasa, no big deal. Não vai ser por aí. Não só não consta que venha cair-nos em cima da cabeça como o provável é que se desfaça em fanicos na atmosfera e que uns calhauzecos se despenquem por aí. Sorte.

Não ligamos a isto e talvez seja a atitude mais inteligente. Estarmos a ralar-nos para quê? Se um dia um deles, um asteroide em versão gigante, qualquer coisa como um Big BU (quiçá com bacon, pickles e cheddar derretido), resolver vir embirrar connosco, o mais certo é que, sem darmos por isso, nos tornemos os novos dinossauros do futuro, uma espécie meio burra que antes habitava o planeta e da qual pouco ficará. E, se assim for, azarinho.

Também com a cena de a Terra ter o seu íntimo a girar em sentido contrário, a malta está manifestamente a caguar-se (de novo: caguar, com u, que eu, se não sou beta, sou, na mesma, menina fina).

Tem razão, Ccastanho, o que interessa à malta é se o Cravinho não teria feito melhor em caguar de alto para os doentes Covid em vez de deixar que arranjassem o hospital. Inteligentes. 

E agora é o altar. Claro que me estou também a caguar para o altar em si pois, como é óbvio, é tema que não me aquece nem arrefece. Que o Papa Francisco (que me desiludiu com aquela de  homossexualidade ser pecado) venha a Portugal e que, em torno disso, se junte um milhão de pessoas, é coisa que nada me diz. Não sou fã. Nem de igrejices nem de ajuntamentos em geral.

E que arranjem aquela zona da cidade, se for coisa bem pensada e inteligente como foi o caso de toda a zona da Expo, parece-me até bem.

Mas já não me parece nada bem que num altar se gastem cinco milhões. Dizem que vai ficar forever, que vão rentabilizá-lo. Mas como? Vão usá-lo para quê? Para a IURD? Para comícios do Chega? Ou para festivais de rap? Para gravarem o Domingão? Não sei. Nem imagino. 

E parece que no Parque Eduardo VII vai também haver um palco, que se desmontará depois dos festejos, e que vai também para milhão e meio de aereos. Não percebo. A cidade nada em dinheiro? A avioneta não apenas despejou haxixe em cima do Alentejo mas também notas sobre Lisboa? 

E é que, se os milhões viessem dos cofres da Santa Madre, eu não tugia nem mugia. Mas, por espantoso que possa parecer, não é a Igreja que entra com o carcanhol mas sim, uma vez mais, o zé pagode, quer através das autarquias quer do Governo. Pode uma coisa destas? Eu acho que não.

E agora ouvi que o sistema de som e de vídeo vai também para uma mão cheia de milhões. Tudo à grande.

Não sei se foram os requisitos que foram estratosféricos (pode ser, a malta mais pequena, perante a perspectiva de deixar obra, às vezes perde a cabeça, fica desvairada), se são os fornecedores que viram que o Moedas & Companhia (o Moedas era o dono da obra? Pergunto) estão numa lógica de sempre a abrir e, sem rebuços, puseram a pata no acelerador e lá vai disto, ou se há meninos lá pela Câmara, daqueles chico-espertos que mal ouvem as moedas a tilintar começam logo a mostrar os bolsos a ver se lhes toca algum. Adjudicações directas e o escambau. Podia ser pior, diz o fofo do Moedas. Então não. Pode sempre ser pior, pode-se até cair e partir uma perna. 

Não sei. O que sei é que receber o Papa Francisco no meio desta gastação destemperada parece coisa de gente perturbada.

Claro que o imparável Presidente Marcelo não podia perder a oportunidade de cavalgar a onda. Onda que é onda tem o Prof Marcelo a surfá-la. Imagine-se se é uma onda benta, como é o caso desta que, não apenas é benta, como, cereja em cima do bolo, é papal. Marcel Surfistinho upa lá-lá na onda papal. Tá certo, não tem como enganar.

Neste momento, se o Moedas era o dono da obra já não o é. Num salto cataventista Marcelo tornou-se ele mesmo o dono e gestor da obra (até quer estar ao corrente das reuniões de obra, quiçá até conferir os autos de medição), mas mais que isso: tornou-se o negociador com os fornecedores, quer descontos, o urbanista, o arquitecto de obra, o engenheiro civil, o decorador, creio que, até, o promotor turístico. É obra. 

Neste ínterim, arranjou uma bronca com o Patriarcado que o desmentiu, dizendo que ele não se fizesse de anjinho porque já sabia muito bem que se ia gastar os olhos da cara. Ele ofendido. Que é lá isso? Não sabia nada. A gente a rir com a revista à portuguesa. Mas eis que, logo a seguir, veio um Bispo, creio que auxiliar e américo, armado em santinho magoado, a branquear a baderna que estava ali a armar-se e limpar a barra do Marcelo, que, aos microfones (sempre na ribalta, o bom do Marcelo), não escondeu o alívio. É muito jogo.

Os asteroides a rasar os ares e a malta entretida a brincar aos organizadores de arraiais e cavalhadas com preces, orações e muitos milhões à mistura. Só falta mesmo um traveca musculado, mascarado de padre com cueca de fio dental, saltar para o estúdio, invadir as televisões, pegar no microfone e expulsar os apresentadores dizendo que só ele tem competência para falar de tão sagrado tema. Ámen.

Portanto, não sabendo eu já onde está o alfa e o ómega disto tudo, muito menos sabendo traçar a bissectriz entre vectores tão sagrados e tão profanos, todos divergentes entre si, alieno-me e deslizo até outras paragens. Bora comigo?

E é assim que, com vossa licença, vou mas é partilhar uma passagem de modelos que se situa num outro patamar. Os vestidos estão ao lado ou à frente ou, até, de pernas para o ar. De vez em quando, oh surpresa, vão no sítio. E eu, olhando-os e achando-os lindos, fico até a pensar se não estará na hora de me casar vestida de noiva, quiçá até aproveitando o cenário das Jornadas do Marcelo. 

Casada e com a bênção do Papa...? -- perguntarão vocês, disfarçando a ironiazinha. 

Qual Papa? - perguntar-vos-ei eu.

Mas, antes que me esclareçam, logo vos responderei: Ná. Pelo próprio Santo. Pelo São Marcelo.

Viktor & Rolf turn Paris Fashion Week upside-down

Um dia bom

Saúde. Cabeça no lugar. Paz.

domingo, abril 03, 2022

Num sábado in heaven, depois de um certo susto à chegada, aparece-me agora o Putin e o fantasma dos Romanov...?

 



Quando chegámos, antes de abrirmos a porta de casa, o meu marido foi abrir o portão que dá para o lado de trás. E aí disse: 'Acho que temos aqui um pequeno problema...' e a voz não augurava nada de bom. Fui ver. As portadas da cozinha estavam abertas de par em par. Mau... E as janelas estavam abertas, basculantes. Ficámos os dois a olhar para aquilo. Somos cuidadosos ao sair. O meu marido, em especial, verifica sempre tudo antes de sairmos. Naquele momento pensei que nos dois últimos meses não tínhamos lá ido. Entre a última vez e este sábado aconteceu aquele episódio da lagarta do pinheiro que ia causando a morte do nosso ursinho felpudo. Não foi in heaven mas in heaven há imensos pinheiros e, em alguns, há daqueles ninhos delas e é normal, pela primavera, vermos procissões delas. Como não temos zonas delimitadas onde possamos reter a fera, resolvemos não arriscar. Até agora.

Fomos dar uma volta por fora da casa e constatámos que não estava mais nenhuma janela ou portada aberta. Menos mal. O meu marido inspeccionou a janela da cozinha por fora e não viu sinais de arrombamento. 

Ainda assim, abrimos a porta um pouco a medo. O meu marido foi inspeccionar a casa por dentro. Tudo bem.

Já mais tranquilos, constatámos: 'O alarme não disparou... E, além disso, como é que se põe uma janela a bascular pelo lado de fora...?'. E dentro de casa parecia que ninguém tinha entrado.

O meu marido, então, disse: 'Sabes uma coisa? Isto não abona nada a nosso favor...'. E eu pensei a mesma coisa: se calhar fomos mesmo nós que deixámos as janelas abertas...

Mas depois arranjei uma desculpa: a última vez tinha sido um dia dos diabos. Eu e o meu marido estávamos com reuniões. Pelo meio, foi lá o senhor que, tempos antes, tinha arranjado a salamandra e a tinha deixado no meio da casa porque, quando perguntou ao meu marido qual o lugar exacto onde ficava, ele tinha respondido que 'no mesmo sítio'. Isto foi num dia em que eu não fui. Ora, nesse dia, a salamandra estava praticamente no meio da sala pois tínhamo-la afastado para pintar a parede por trás. Portanto, o senhor, bem mandado, instalou-a ali mesmo. Quando lá cheguei fiquei passada. O meu marido, como sempre, disse que não achava que estivesse mal. Mesmo que estivesse pendurada no tecto de pernas para baixo ele diria a mesma coisa... Claro que liguei a pedir que fossem pô-la encostada à parede. Portanto, nesse dia, início de Fevereiro, o senhor voltou lá. Desinstalou-a. Mas, ao voltar a instalá-la, para a encostar à parede ou se achatava o tubo -- e não o recomendava -- ou tinha que se fazer outro buraco no tecto. Resultado: completamente desconsolada, pedi que a instalasse de novo onde estava, quase no meio da sala... Fazer o quê? Obras outra vez? Buracos no tecto...? Ná, nem pensar. Claro que o meu marido encarou isto como uma vitória... Mas, pronto, paciência.

Entretanto, nesse mesmo dia, chegou o técnico que ia instalar a nova central de alarme, com video-sensores, tendo que andar pela casa. 

Como se isso não fosse pouco, tivemos um problema maior: a pequena fera, cão de guarda de corpo e alma, ladrava freneticamente, querendo atirar-se aos estranhos. E, por isso, se era eu que estava com os senhores, o meu marido tinha que estar com ele, pela trela, noutro sítio. Ou vice-versa. Um desatino.

Pior: o técnico não atinava com a programação da central. Era tarde, de noite, estávamos com fome, o cão não parava de ladrar e o homem não se despachava.

Portanto, acredito que, no meio daquilo, já de noite, nem reparámos que a janela da cozinha estava aberta...

Com tantos roubos que volta e meia há lá pelos campos, tivemos sorte.

A verdade é que dois meses com as janelas da cozinha abertas foram boas para o ambiente interno da casa: não estava fria nem húmida nem cheirava a casa fechada. Estava mesmo agradável.

Agradável mas a precisar de limpeza. Andei a aspirar, a sacudir, a limpar. Estava um solzinho bom e a casa agora, com as portas, janelas, rodapés e tudo branquinho e com a decoração também toda em clarinho, fica ainda mais acolhedora, luminosa. Gosto tanto.

E o campo... lindo, florzinhas, cores delicadas, tudo tão bonito, tão sereno, tão bom. A natureza renasce a cada dia, haja o que houver. Lá andei, como sempre, a fotografar, a respirar o ar limpo, a passear devagar, a ouvir os passarinhos.

De regresso, fizemos o desvio do costume para eu matar saudades dos melhores gelados à superfície da terra: um cone com duas bolonas, uma de rum com passas e outra de chocolate com laranja. Tão bom. 

Ao regressar, depois do banho e do jantar, ainda estive a tratar de umas cenas. Depois pus a box para trás para ver o Tabu. Já disse que tenho gostado imenso de todos os episódios do programa? É uma aposta arriscada mas que o Bruno Nogueira está a superar com talento. Humor inteligente. Isso e a dignidade e carinho com que trata os convidados são a receita que garante o sucesso.

E agora estive a ver as notícias sobre as quais hoje não vou falar. Mas vou partilhar um vídeo muito interessante. Ele há coisas...

Putin's Russia and the ghost of the Romanovs | The Economist

Tsar Nicholas II of Russia and his family, the Romanovs, were murdered 100 years ago today by Marxist revolutionaries. What does this anniversary mean for Vladmir Putin?

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Desejo-vos um belo dia de domingo

Ânimo. Tolerância. Afecto. Paz.

sábado, janeiro 29, 2022

E se repensássemos algumas coisas...?
As ruas, as cidades, a agricultura, a energia... (por exemplo)

 


O dia foi mais um daqueles em que tento manter a agenda relativamente aberta mas em que, sei lá como, ela se vai fechando por si. É uma reunião que se prolonga para além do expectável, é outra que é solicitada à última hora, são os telefonemas, são os documentos que não podem deixar de ser lidos e comentados. E, quando dou por ela, já é tarde e o dia passou. 

À hora de almoço tinha dito que, depois de almoço, iria aprender a trabalhar com a roçadora própria para aparar a relva junto aos muros e aos caminhos. À noite o meu marido provocou: 'Não era hoje que ias dedicar-te ao jardim?'. Também tínhamos combinado que faríamos uma caminhada antes de anoitecer. De facto, quando saímos ainda não era completamente noite mas, quando regressámos já era. E os dias estão maiores que é um gosto.

Agora, enquanto aqui estava, ocorreu-me que houve uma altura em que no meu gabinete se juntava uma turma animada que discutia política com um entusiasmo que, à distância, quase me enternece. Predominantemente éramos socialistas mas havia uns que não se acusavam mas que eram conservadores embora muito críticos do PSD e descrentes do CDS, dois que votavam declaradamente no CDS, um por convicção e outro porque se dizia anarquista de direita e achava que o partido mais inconsequente era o CDS. Havia um outro que também não se acusava mas que se dizia ser 'informador' dos sindicatos e muito próximo do PCP. 

Ainda me lembro de uma altura em que, por mudanças a nível dos accionistas, passei um mau bocado. Na altura recebi um telefonema de alguém que eu não conhecia mas que queria dizer-me que eu tinha a confiança da comissão de trabalhadores e que estavam ali para o que fosse preciso. Pouco depois, quiseram propor-me uma reunião. Com a intermediação desse colega, organizaram um almoço. Era um restaurante típico, acolhedor, ali para a Mouraria. Para além desse meu colega estavam uns que eu não conhecia. Vim a saber que um deles pertencia ao comité central do PCP. As coisas em que eu já me vi metida não dão para explicar.

Mas, dizia eu, eram alturas em que eu discutia política a sério, cada um esgrimindo os seus argumentos com uma vivacidade que nos vinha das entranhas. Eram tempos também em que nos juntávamos a jantar em casa uns dos outros, primos, cunhados, a miudagem toda. Em volta da mesa esperávamos as sondagens, sofríamos a ver a evolução dos resultados, era uma emoção, tantas vezes uma alegria. Lembro-me até que, uma vez, uma, que era (e é) artista, até fez um bolo com uma decoração de uma rosa. 

Enfim, outros tempos. Os miúdos cresceram, formaram família, a família desenvolveu-se, esses primos separaram-se. Desabituámo-nos disso. 

Mas, embora de forma mais restrita, iremos na mesma esperar as sondagens, a contagem dos resultados, o desfecho.

Agora o que eu acho é que não apenas estas eleições são um absurdo pois não havia razão para se ter interrompido a legislatura como a própria campanha, em vez de ser usada para se discutirem assuntos de facto relevantes, foi usada para servir de pasto à comunicação social. De tal forma as televisões com os seus infinitos comentadores têm um efeito triturador como toda a comunicação social procura a celeuma, as frases que dão títulos chamativos, o episódio caricatural. Qualquer tema mais sério ou estrutural parece descabido no meio da espuma com que a comunicação social envolve os candidatos.

E depois os próprios candidatos, salvo duas ou três honrosas excepções, são criaturas medíocres. Ventura, Chicão, Catarina, Rio, e toda essa gente que por aí andou a dizer graçolas ou a lançar dichotes não têm estatura de figuras de Estado.

E, no entanto, há tanta coisa a repensar... A sociedade que queremos deixar aos nossos descendentes é esta em que vivemos? A caminho do descalabro climático? Com pandemias recorrentes? Com desregulações onde elas são mais necessárias? Com a democracia correndo sérios riscos de vir a ser asfixiada sob o peso descontrolado das plataformas digitais onde tudo é possível? Com a tecnologia cada vez mais ubíqua e omnipotente, omnipresente e omnisciente... e totalmente à solta e à mercê de quem a quiser usar...?

Por isso, hoje também não vi televisão. Não vi O Expresso da Meia-Noite nem qualquer dos programas que hão-de ter dado em que jornalistas-entertainers e comentadores-avençados hão-de ter esgrimido fracos (e fake) argumentos sobre irrelevantes temas. 

Entretive-me, antes, a ver vídeos em que se lançam ideias, se divulgam projectos ou se repensa o futuro. Pode ser utópico, inviável -- ou o contrário. Mas interessa pensar, equacionar. De entre cem ideias lançadas, duas ou três poderão ser fantásticas. Há que abrir espaço para novas formas de pensar e de viver. Colocar as hipóteses em perspectiva, ter a mente aberta: Será que ...? Porque não...?

Alguns exemplos:

We’re using our streets all wrong | Hard Reset by Freethink

The rise of the private automobile in American life and culture has dramatically changed how cities were designed, John Frazer, a mobility futurist, wrote for Forbes. 

Emerging from World War II, automakers became economic powerhouses, employing workers who suddenly could afford their own cars — rumbling manifestations of the freedom of the American Dream.

Cities were designed around that dream. Frazer quotes University of Houston historian Martin Melosi, who said that roughly half of the space in American cities has been given over to roads, parking lots, parking spots, gas stations, traffic signals, and other things pertaining to cars. And at the same time, space for other forms of transportation — like sidewalks — were squeezed out.Even the sidewalks themselves are designed to resist change; large concrete slabs, they don’t lend themselves to being changed around. Making an infrastructure change can cost millions, a price many cities won’t or can’t pay. 

But maybe we can take those spaces back; they are public spaces, after all. We could hard reset, and make streets a place for user-generated urbanism. 

 

The Futuristic Farms That Will Feed the World 

| Freethink | Future of Food

Amidst climate change, a growing population, and people consuming more of less sustainable food, how will we feed our future world? The answer may not be increasing resources--land, water, and employees--but rather improving production efficiency to create more sustainable farming of crops. The key question: How do we increase the amount of food we produce while using the same or fewer resources? 

When it comes to scaling agricultural production sustainably, one small country has a very large impact. Bolstered by a national commitment to produce twice the amount of food with half the resources, the Netherlands has become the world’s #2 produce exporter. The close collaboration between the government, science organizations and the food industry have driven impressive innovation and an efficiency that’s unmatched anywhere else in the world. 

On a normal open-field tomato farm, one could expect 4 kilograms of yield per square meter. In a high-tech greenhouse in the Netherlands, that number shoots up to 80 kilograms of yield per square meter, with 4X less water. That’s a 20X improvement on output! And it’s not just tomatoes--the Dutch are #1 in the world on producing chilis, green peppers, and cucumbers (measured by yield per square mile). With conservation and sustainable food as two of the most important global issues, could other countries copy their approach to help save the earth?


How mirrors could power the planet... and prevent wars 

| Hard Reset by Freethink

Concentrated solar power is produced using a large amount of mirrors which are angled to reflect the sunlight onto a large solar receiver. Aside from being clean energy, one of the most promising advantages of CSP is that it can generate transportable energy for use far beyond where it was harvested. 

The idea of concentrated solar power isn’t new — the first commercial plant was developed in the 1960s. But a company called Heliogen has found a way to make the process of reflecting and storing sunlight much more accurate and efficient. And soon, it might be more cost-effective than fossil fuels.

If adopted globally, this could lead to a hard reset in the manufacturing industry, not to mention prevent wars over oil and mitigate climate change.


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Fotografias feitas in heaven e que aqui se fazem acompanhar por David Gilmour que interpreta Where We Start

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Desejo-vos um belo sábado
Tudo de bom para si que está aí desse lado.

quinta-feira, julho 15, 2021

Um clube de leitura moderado por aquela de quem já disseram ser uma open leg e que, com um bocado de sorte, não tem um broken heart

 




Estava a sonhar um sonho bom quando, de manhã, o telefone tocou. Estava a sonhar que uma amiga, que, no sonho, era igual à Linda Vater, estava a combinar comigo irmos a um clube de leitura. Dizia-me que era numa casa elegante, onde se conhecem sempre pessoas interessantes. Eu queria saber onde era e ela estava a explicar-me que era na Avenida da Liberdade, uma casa remodelada, com muita pinta. 'E eles não vão'?, queria eu saber sobre os nossos maridos. E ela dizia que, se o meu gostasse de clubes de leitura, que fosse, que o dela não apreciava, não ia. E eu estava na dúvida se um clube de leitura não seria uma valente seca também para mim. Mas, ao mesmo tempo, estava curiosa.

Então tocou o telefone, interrompeu o sonho, acordou-me.


Fiquei o dia todo a pensar nisto. Tenho pensado: e se eu convidasse amigos para virem aqui a casa falarem sobre livros? Não agora mas quando acabar esta cegada da pandemia. Cada amigo poderia trazer outro amigo, um de cada vez para não haver enchentes. Não seria engraçado?
Tenho duas amigas que frequentam essas coisas dos encontros de leitura. Não sei se lêem em voz alta ou se discutem livros. Convidaram-me várias vezes. Agora que escrevo, tenho ideia que combinam ler um livro e vão para lá mostrar serviço. Nunca fui e nem consegui dizer-lhes a verdadeira razão. Digo aqui: acho que a maior parte das pessoas que falam sobre livros só dizem vulgaridades. Um bom livro não tem muito que se diga sobre ele, pelo menos não assim, em público, sem pudor.
Mas, ao mesmo tempo, se eu convidasse amigos que não têm a mania de se armar ao pingarelho, talvez a gente se juntasse aqui e talvez algum, em meia dúzia de palavras, dissesse o que jamais eu esquecesse  umas palavras tão insólitas que me ficassem gravadas na memória. Talvez até ficasse com vontade de ir ler ou reler o livro.


Ou, então, juntávamo-nos uns seis ou sete para falar, por exemplo, do Murphy do Beckett. E o tempo passava e ninguém dizia palavra que fosse sobre o livro. E, de repente, um desatava a rir e todos desatavam a rir, uma gargalhada pegada. E estaríamos a rir das maluquices do Murphy.

A seguir, eu servia sumo de abacaxi com lima, pedras de gelo e umas folhas de manjericão. E não se falava mais no assunto.

Bem.


O dia foi cheio, a começar cedo. Tinha a agenda aliviada. Numa de me poupar, agendo muito menos reuniões. Recebi mais um dos relatórios médicos. Estava nervosa quando abri. Já vou com medo. Parece que tenho medo de descobrir que me aconteceu mais alguma. Mas parece que não é mau de todo. Confirma-se a sequela no coração, pois claro, e li umas frases que me assustaram. Fui ao google e vi que aquilo aparece em quem teve enfartes ou que está sujeito a stress. Pensei logo que tenho que evitar a todo o custo sujeitar-me a reuniões em contínuo. Mas é raro o dia em que não me pedem uma ou duas ou três reuniões.

Claro que poderia dizer que não dá, que tenho outros compromissos. Mas não consigo. 

Tive um colega, um bom amigo, inteligente e divertido, que uma vez me disse que eu tinha um grande problema. E acrescentou que não podia dizer qual era porque ia soar deselegante. Eu insisti e ele disse que teria que usar o inglês para não soar tão vulgar: 'Você é uma open-leg'. Desatei a rir. Quando alguém me pedia ajuda ou me pedia que resolvesse problemas alheios eu não conseguia dizer que não. Ora, como é sabido, os homens são muito tribais. Se o pedido vinha dos supostos adversários, o meu amigo achava que eu devia marcar posição, mandá-los à fava. E eu, pelo contrário, arranjava sempre maneira de acorrer.

Daí em diante, se estávamos em reuniões em que havia contenda, se eu tentava resolver os problemas de toda a gente, discretamente ele mostrava-me, meio às escondidas, o indicador e o médio afastados ao mesmo tempo que abanava a cabeça em sinal de reprovação, como que a fazer o sinal de vitória mas ao mesmo tempo sob censura. Mas não era sinal de vitória coisa nenhuma. Significava apenas que ele achava que eu estava, uma vez mais, a 'abrir as pernas' -- e tinha que me esforçar para não me desatar a rir.

É mais um dos meus problemas congénitos. Nada a fazer.


A meio da manhã veio um telefonema diferente. Estava a ouvir com alguma desatenção pois pensava que que a intenção era pedir-me conselho sobre quem deveria participar num evento que, enquanto ouvia, me estava a parecer interessante. Afinal a conversa deu uma volta e o intuito era convidar-me para ser eu a oradora especialista no tema. Achei graça, disse que sim. Que não era preciso preparar-me, só ser eu, disse-me ele. Fiquei admirada. Claro que não vou preparar-me. Nem saberia como. Espero sair-me bem.  Espero não dizer banalidades. Mais tarde haverei de contar.

A tarde esteve especialmente amena. Depois do trabalho vim cá para fora. A minha filha e os meninos estavam cá. Estão de férias. Depois da praia vieram cá ter. Estava-se muito bem. Uma tranquilidade imensa, uma luz dourada, os pássaros cantando na maior alegria. Fico sem fazer nada, apenas olhando, ouvindo, conversando, respirando. O meu marido chegou, entretanto, e nem dei por ele. Depois veio para o jardim fazer uma coisa e pediu ajuda a um dos meninos.

Esse menino depois pediu-me uma massagem. Sentei-me numa cadeira e ele numa cadeira à minha frente, abraçado às costas da sua cadeira. Depois até foi buscar uma almofada, para ficar mais confortável. Estava em tronco nu. Tamborilo os dedos nas suas costas, na cabeça. Fica zen, tempos sem fim. Até pensámos que tinha adormecido. Mas não, está apenas tranquilo, feliz da vida.


Quando estavam quase a ir-se embora, esse menino, em cima da árvore grande, chamou-nos a atenção para um ovinho caído no chão. 

Quando íamos ver de perto, ele avisou-nos que não fossemos por ali. Olhei e as folhas que estavam caídas no chão pareciam-me lustrosas. Ele voltou a avisar que não pisássemos as folhas. 'Fiz chichi aqui'. Não estavam lustrosas, estavam eram molhadas. 

Às vezes, à noite, ocorre-me que devem fazer pouco chichi pois raramente os vejo virem à casa de banho. Afinal é isto: vão atrás de uma árvore e lá vai disto. Boys being boys.

Cheguei muito tarde à sala. Hoje não vimos Netflix. Ainda assim, fui espreitar as coreanas. Não sei. Não engraço com séries ou filmes cuja língua não percebo. Parece-me tudo muito distante da minha matriz cultural. Não sei... não quero dizer que não só por ter dado uma espreitadela. Mas vou já dizendo que não me senti atraída. E eu sou de coup de foudre. Se a coisa não se dá, nem vale a pena ter esperança. Mas, enfim, as pessoas mudam e eu, apesar de ser mais bicho do que pessoa, na volta também mudo. E, de resto, consta que estou mais velha e, por isso, pode ser que me deixe de coisas.

E acho que é isto.


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Pinturas de Paul Gauguin que obviamente não têm nada a ver com o texto 
e, claro está, muito menos com Comfortably Numb com David Gilmour e Benedict Cumberbatch 

E o título do post é o que é
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Dancemos


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Desejo-vos uma boa quinta-feira 

sábado, maio 29, 2021

Diário de uma coxinha

 



Só para dizer que não torci o pé, nem no passeio nem noutro lugar. Também não caí e também não me caiu nada em cima dele. Quer o enfermeiro da despistagem quer o médico olharam para mim a ver se detectavam algum segredo que eu estivesse a querer esconder. Quando fui fazer o rx, a senhora, vendo o estado do dito, voltou a fazer as mesmas perguntas. E eu nada, sem explicação. Pensei: deve ser isto que acontece quando alguém quer esconder um episódio de violência doméstica, querendo que não adivinhem mas percebendo que estão a suspeitar.

Lembrei-me de quando há mais de mil anos, num dia em que estava estafada e me reclinei no sofá da sala, a minha filha que deveria ter, se tanto, uns dois anos, ainda não existia o meu filho, pequenina, rolicinha, bem disposta, toda alegre, pegou numa peça das Loucas da Fábrica de Sant'Anna que estava numa mesinha ao lado do sofá, o lado onde eu tinha a cabeça, e, numa de brincadeira, a atirou ao ar. Felizmente não caiu ao chão, senão eu teria muita pena. Ainda lá está, sobrevivente, in heaven. Mas não caiu no chão porque me caiu em cima, em cima da cara, mais concretamente em cima do nariz. Tive uma dor violenta, daquelas dores em que as lágrimas involuntariamente escorrem, e o nariz imediatamente começou a inchar, especialmente entre os olhos. Num instante os próprios olhos estavam inchados e tudo negro. Parecia que tinha apanhado uma valente pera, acho que aquilo que se diz uma pera nos cornos. Aflita, aflita, cheia de dores no nariz, pensando que ele estava partido, lá fomos para o hospital. Quando lá chegámos, a pergunta e suspeição: 'Como é que isso aconteceu...?' e olhavam de lado para o meu marido. Quer eu, quer ele, dizíamos: 'Foi ela...'. Eles olhavam para ela, uma quase bebé, e dificilmente imaginariam como é que uma coisinha fofa daquelas poderia esmurrar-me a ponto de me deixar naquele estado. O meu marido explicava: 'Acertou-lhe com uma peça de louça'. E o olhar cada vez mais intrigado. Expliquei: 'Eu estava deitada...' Mas até ao fim, acho que ficou a suspeita. Já não me lembro bem o que deu o rx mas a verdade é que passei vergonhas, que aquilo custou a desparecer e toda a gente desconfiava da explicação. E o que doía...

Pois bem. O rx ao pé não detectou nada, nada nos ossos, nada nas articulações, mas as análises assinalaram uma inflamação cujo valor era mais do dobro do limite superior do intervalo. Mas essa indicação pouco acrescentou pois a inflamação estava (e está) patente: inchaço, um vermelho escuro, a pele lustrosa e quente. 

No fim, perante o rx e as análises, voltaram as questões: nada que explique isto? não se lembra de nada? uma entorse...?

Se, na altura, já soubesse, poderia ter respondido que talvez mas por simpatia, os efeitos sem ter havido a causa física. Mas não sabia pelo que me limitei a encolher os ombros.

Portanto, pé elástico, em cima de uma banqueta, gelo, analgésicos. Não pode haver carga, disseram. Sem problema, pensei. Há um par de canadianas cá em casa. Os miúdos gostam de andar a brincar com elas. Afinal não conseguimos ajustá-las, parece que desapareceu a peça que permitia rodar a parte de dentro para pô-las maiores ou mais pequenas. A ver se amanhã conseguimos passar por uma farmácia a ver se algum truque nos está a passar.

Portanto, o meu dia foi assim: reuniões, telefonemas e análises de documentos gigantes, mal estruturados e confusos sem a atenuante de poder andar enquanto telefono, sem caminhada à hora de almoço, sem tempo para respirar. Acontece que, de dia, não tomei o ben-u-ron e a dor começou a ser mais incomodativa. Ora uma pessoa com dores fica impaciente. Eu, pelo menos, fico. Provavelmente alguns dos meus interlocutores acharam que eram eles ou os seus assuntos que estavam a irritar-me e, afinal, era o pé a doer-me. Ainda por cima, estando inchado (na parte de cima do peito do pé, de lado a lado, e na ligação à parte da frente da perna), não consigo enfiar as sapatinhas que uso em casa. Portanto, às tantas estava também com frio nos pés, em especial no pé coxo. 

E depois há aquela coisa enervante. Vou buscar um copo de água e, como levo séculos a chegar à cozinha, levo o telemóvel não vá o diabo tecê-las. Quando regresso, instalo-me e... toca o telemóvel na cozinha... E lá vou eu outra vez, coxinha... Ou lembro-me que preciso de ver uma coisa e... a coisa está sempre longe de mim. Para não me fazer de inválida lá vou devagar, a arrastar o pé. O meu marido vê-me, fica fulo porque, segundo ele, gosto de me armar em valente... Um desatino.

Ou seja, é esta a triste descrição de um dia dolorido e sem história. 

Claro que, durante o dia, aconteceram mil coisas, algumas dos diabos. Mas são coisas que não são para aqui chamadas, Portanto, com vossa licença, fico-me por aqui. Vou descansar que esta semana não foi pera mole. 

E estamos quase a entrar em Junho, ou seja, no verão. Que aceleração do tempo é esta? Está a acontecer isto com toda a gente ou sou eu que ando distraída?

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Os lábios artísticos são obra de Andrea Reed e estão aqui para ouvir David Gilmour a interpretar Hickory Wind

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E não deixem de saber da mais recente novidade: 

a última vítima da vacina contra a Covid -- uma perda para a humanidade

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Um belo sábado.

E toca a saltar para festejarem a sorte de não estarem coxos...!

segunda-feira, maio 10, 2021

Ele disse-me que punha água no cágado todas as semanas. E, mesmo que seja de plástico, vou gostar dele na mesma

 


Estou aqui com umas dúvidas e, quando isso acontece, pesquiso, pesquiso. Mal tenho tempo para me dedicar ao blog ou a outras leituras. Tem a ver com o jardim. Gosto muito dele, muito mesmo. Mas tenho alguma vontade de deixar mais espaço à natureza. Só que não sei como. Não o quero feito matagal, intransitável. Longe disso, Gosto dele amplo, todo bom para se usufruir. Agora anda-se por todo o lado, as crianças correm e jogam à bola, os adultos deitam-se no chão. Há sol e há sombra, há árvores, há recantos. Mas há relva e a relva tem que ser tratada como um animal doméstico cujo pelo tem que ser aparado, tratado, escovado. Esse aspecto aborrece-me um bocado. Gosto de coisas mais espontâneas, gosto de algum improviso. Não acho graça a animais amestrados, apinocados. Com as plantas é a mesma coisa. Gostava que houvesse mais espaço ao curso natural da natureza. O meu filho falou em permacultura. Desde há muito que vejo vídeos sobre permacultura. Só que o que vejo de permacultura é mais virado para a utilidade do que para a estética. E a estética, em volta da casa é fundamental. A horta é lá ao fundo e é lá que está bem. E a relva é verde e o verde é uma maravilha. Se descobrisse uma maneira elegante de usar a permacultura, de conjugar a estética com a o curso natural da natureza...

Tenho que investigar mais.

Enquanto não estiver esclarecida, não sei. Só sei que tenho aqui uma vontade de estudar e descobrir.

O dia foi tranquilo. Cozinhei, arrumei, caminhei. À tarde fomos buscar a minha mãe e fomos passear para a cidade. Quando saiu do carro exclamou, como se estivesse assustada. Pensei que tinha acontecido alguma coisa. Afinal tinha trazido os sapatos com que anda em casa, daqueles de conforto, de renda elástica. Tinha-se esquecido de trocar pelos de vir à rua. Também não reparei. Descansei-a, que ficavam bem, que não tinha mal nenhum. Mas ao princípio estava arreliada, se encontrava alguém conhecido, que vergonha. Depois, distraiu-se disso. 

Andámos à beira rio, andámos pela baixa, andámos a ver as montras. As lojas chinesas eram as únicas abertas. Para além das esplanadas, gelatarias, etc. Não resisti e comi um geladão com duas bolonas, uma de gengibre e canela e outra de maracujá. Quando a minha mãe me viu a sair da loja com aquele exagero, exclamou: sabes quantas calorias estão aí?! Respondo que não nem queria saber. Tão bom, tão bom. Quero lá saber das calorias. Há séculos que andava de desejos por um belo gelado. Adoro elados.

Depois, numa loja chinesa que tinha roupa, ímans, nossas senhoras de fátima e toda a espécie de santos, sacos, chapéus e bonés e toda a espécie de coisas, na montra, no meio de tudo o que se possa imaginar, vi o que me pareceram vasinhos de suculentas ou cactos, nem percebi. Mas bonitos, invulgares. Mínimos. A minha mãe e o meu marido disseram que deviam ser de plástico. Resolvi ir perguntar. O rapaz ficou na dúvida, disse que achava que sim, que eram de verdade. Mas não estava muito confiante na resposta, percebi. Falava um bom português. Disse que eu podia ir ver. Perguntei se podia tirar aquele que me agradara. Disse que sim. Uma coisinha pequenina, bonitinha, curiosa, com uma florzinha ainda mais mínima, uma florzinha que parecia de papel ou de ráfia, como se a florzinha tivesse sido posta ali só para enfeitar. Perguntei se a flor era verdadeira. Olhou, admirado e disse que se calhar não. Depois, em chinês, disse qualquer coisa. De um canto, sentada no meio das roupas, uma jovem, de rabo de cavalo, bonita, com um telemóvel na mão, disse qualquer coisa também em chinês. Nem a tinha visto. Sorriu-me. O rapaz disse-me: A flor não deve ser verdadeira mas o cágado deve ser. Olhei para ele, espantada. E ele: Ponho água no cágado todas as semanas. Percebi. Deveria querer dizer cacto.

Trouxe.

A minha mãe disse: Isso não é verdadeiro, compraste uma flor de plástico. O meu marido, estava era arreliado por eu lá ter entrado, mexido em dinheiro, trazer uma coisa na mão, acha sempre que não tenho cuidado. Pôs-me álcool gel nas mãos. Disse-lhes: Segundo o rapaz me disse, acha que é de verdade, até me disse que todas as semanas põe água no cágado. Ficaram admirados. Disse-lhes qual a minha interpretação. A minha mãe desatou a rir. O meu marido estava era farto daquele passeio em câmara lenta. Parámos em frente de cada montra, conversámos, eu e a minha mãe. Ele, que não tem um pingo de paciência para estes números, já devia estar pelos cabelos (a minha sorte é que os não tem). 

Bem. Quanto ao objecto, planta ou artefacto, está ali fora. Não chegámos muito cedo. Resolvi sentar-me no cadeirão de relax e pôr-me a ler um livro que me pareceu promissor. Mas deu-me uma pancada de sono das valentes. Adormeci, e, quando despertei, já não eram horas para investigações. Amanhã vou a ver se arranjo um vaso maior para lá pôr o cágado. E mesmo que seja de plástico ponho na mesma. As coisas são o que quisermos que sejam. Essa é que é essa.


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Amanhã, se não m esquecer, fotografo o meu pequeno cágado para vos mostrar. Estes que aqui estão foram encontrados por aí e, apesar de serem altamente curiosos, parecem-me mais prováveis que o meu.

David Gilmour interpreta Diamond Ring sem querer saber das minhas dúvidas para nada.

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Caso queiram festejar o 95º aniversário de uma pessoa muito especial, é só descerem até ao post que se segue.

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Desejo-vos uma bela semana

terça-feira, abril 27, 2021

Uma gaiola, alguns carrinhos, umas gordinhas, um livro escondido

 


Isto foi no domingo. 25 cheio de graça.

Sugeri à minha menininha mais linda que ela podia convencer o avô a trazer a gaiola da garagem. Foi logo a correr pedir ao avô. O meu filho disse que isso era manipulação. Aliás, creio que não foi essa a palavra que usou. Também não foi instrumentalização, acho. Mas o sentido foi esse. Reconheci: O avô não é capaz de lhe dizer que não. Humilde, a minha menina mais doce disse: 'Nem a mim nem a qualquer dos outros netos'. Contrariei: 'Olha que não. Acho que é mais contigo'. Ela disse: 'Se calhar é porque sou a única menina'. É muito terra a terra e nunca se acha o máximo e, por isso, ainda a admiro mais. O avô ouviu a conversa como se não fosse nada com ele. Mas lá foi à garagem. E nós com ele. E lá empurrámos a big gaiola rampa acima e lá a puxámos pela relva, quase tendo que a pegar em peso. E o avô nem refilando...

O meu filho perguntou se eu queria aprisionar pássaros. Expliquei que não: quero, apenas, proporcionar-lhes água e alimentação e as portas vão estar todas abertas. 

Afinal, andando de volta da gaiola, não descobri as ditas portas. A minha nora foi ver. Descobriu: apenas uma pequena portinhola. O meu filho diz que, se um pássaro entrar, depois vai ter dificuldade para sair, que a gaiola vai ser uma armadilha. Isso preocupa-me. E confirmou que, se os pássaros lá forem, aquilo vai estar sempre sujo. O meu marido diz que é isso que tem andado a tentar explicar-me. Mas o menino do meio, espertíssimo, logo descobriu que há uma espécie de tabuleiros que se puxam e que podem lavar-se à mangueirada. Aliás, fizeram-no logo. A gaiola nunca deve ter tomado um banho tão a preceito.

Mas, enfim, não quero saber dos problemas, prefiro o lado romântico. A gaiolinha já ali está e está linda. Agora tenho que arranjar alpista e recipientes para a água. Também pensei que, em último caso, caso não consiga atrair passarinhos para os brunches, arranjo rouxinóis. Custa-me a ideia de ter pássaros engaiolados mas, se calhar, alguns não se importam. Cantam bem. Ou periquitos, que são tão lindos. Acho que não cantam tão bem mas são bonitos. Ou um papagaio. Isso seria o máximo, um papagaio malcriadão. Ensinava-o a dizer mal do Cavaco. Eu diria: 'Olha lá, Tobias, o que achas do Cavaco?'. E ele soltaria uma de salão: 'Eu quero é que o Cavaco se f...'

Mas não sei. Vou por partes. Primeiro tenho que arranjar alpista e água. Depois logo vejo como corre.

De manhã, fomos outra vez ao viveiro. O meu marido a antever que as empregadas iam fazer uma festa por me verem ao fim de uma semana sem lá ir. Não ligo. A minha nora enviou-me um artigo sobre suculentas de chão e achei uma grande ideia para pôr nuns canteiros que estão sem nada de jeito, in heaven. Então, lá fomos. Muita gente. Cada vez mais gente a comprar plantas. E, então, imagine-se, não é que o meu marido se lembrou  de levar umas suculentinhas para oferecer à neta? Claro que não disse 'suculentinhas', acho que disse apenas 'dessas plantas'. E eu, em brasileiro: 'Gordinhas?'. Não disse nada. Não me dá muita confiança quando estou numa de gozar com ele. Então escolhemos um vasinho e umas pequeninas que, de tarde, eu e ela, em conjunto, plantámos. Ficou contente, a minha menina mais linda, e eu ainda mais contente por a perceber contente.

O menino do meio, alto e esguio, já sem a tala no braço, foi lá acima buscar os carrinhos que tinham sido do pai. O mais pequeno também gosta de brincar com aqueles carrinhos perfeitos como carros de verdade. A menina, depois, fez figurinhas com bocadinhos de guardanapo de papel para fazer de condutores e penduras. 

Quando estavam a despedir-se, o menino chegou-se ao pé de mim e disse-me: 'Sabes do que eu andei à procura?'. Pressenti. Ele confirmou: 'Do livro...'. Desatei a rir. 'Seu grande malandro'. E ele: 'Vá lá... Diz lá... Onde está...?'. Eu a rir: 'Esquece. Não vou dizer'. E ele: 'Vá lá... É só arte...'. Sacaninha. Não se esqueceu... Mais eu me ria: 'Nem por sombras te vou dizer. Quando tiveres dezoito anos. Ofereço-te a carta de condução e o livro'. E ele: 'Vá lá... Diz só a inicial da divisão onde ele está...'. E eu: 'Desiste. Não vou dizer'. Lá foi, pedindo, refilando.

Há anos que isto dura. Uma vez, há uns anos, teria o quê? uns quatro? cinco? talvez quatro anos, descobriu um livro de fotografia com alguns nus. Mulheres. Ficou doido. Maminhas, maminhas, maminhas. (Sai ao pai. Era pequenino e todo ele vibrava com maminhas). Escondi o livro no sítio mais remoto da sala. No dia seguinte, a irmã contou que, tendo acordado cedíssimo, ainda quase de noite, tinha apanhado o irmão com o livro na cama. Fiquei espantada: 'Mas como? Como o descobriste?'. E ele, pequenino: 'Não sei... apareceu aqui na cama...'.  Insisti: 'Apareceu na cama?!?! Ó seu maroto! Levantaste-te de noite...? Foste à procura...?... Só pode...'. Riu-se. Menino mais inteligente, mais persistente. E nunca mais desistiu de descobrir o bendito do livro. Já empreendeu expedições com os primos, já me reviraram tudo. Só visto.

O que me divirto com eles... 

Há a máscara, é certo, mas paciência, que seja com máscara. Mas, bolas, melhor ainda será quando pudermos estar todos, ao mesmo tempo, todos em cima uns dos outros, eu agarrada a eles, às beijocas gordas, abraçada, feliz da vida por vê-los todos juntos, bem dispostos, sem a porcaria da máscara. 


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Como é bom de ver as fotografias foram feitas aqui em casa. David Gilmour e Romany Gilmour interpretam The Magpie. Ou seja, enquanto escrevi a companhia não podia ter sido melhor

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Desejo-vos um dia feliz.
Lot's of joy, my friends

sábado, abril 17, 2021

Eu, versão nude

 



Raramente agora uso saltos altos. Só quando tenho que calçar forçosamente sapatos pretos. Não sei dos meus sapatos pretos, básicos, de meio salto a que tanto recorria. Eram meio em pele, meio de camurça e com salto não excessivo nem em altura nem de finura. Provavelmente ficaram in heaven do primeiro período de confinamento. Os que tenho cá são uns bem altos, outros em dois tons ou, outros, num modelo adequado a quem tem o pé feito a sacrifícios. Agora, andando maioritariamente de ténis ou chinelóides, até tremo quando me arranjo toda a preceito e, quando estou para sair, constato que tenho que usar sapatos pretos. Lá tenho que trepar para os que cá estão.

Écharpes também. Raramente as uso. Em casa não vou estar de echarpe. Se saio ao fim de semana ou, durante a semana, ao fim do dia, para as compras ou outros afazeres, também não vejo sentido em grandes aperaltamentos. Jeans ou afins, blusas simples, um casaquito básico ou um poncho. Apenas se vou a trabalho reencontro aquele ritual que era tão meu. Mas aquelas precedências que eram tão intuitivas, falham. Vou a sair, toda pronta, e quando vou calçar os sapatos, verifico que ainda estou com as meias de algodão ou lã fina que uso em casa. Coisas assim. 

Também nunca mais usei o meu relógio. Era inseparável dele. Só ao fim de semana é que não o usava. Isso e a aliança. Nunca mais a usei.

Ai... caraças... (já venho)

Bolas. Bolas! 

Já apanhei um susto. Nem vos conto. Que susto.

Estava a escrever isto e, de repente, ocorreu-me que há mais de um ano que não os uso. Entretanto mudei de hábitos, mudei de casa, mudei de emprego. E deu-me um susto: onde estariam? Com o coração a palpitar, fui à procura, cheia de medo de lhes ter perdido o rasto. Tinha muito presente onde os tinha, na outra casa. Mas agora tudo mudou de sítio, não apenas em termos absolutos mas, também, em termos relativos. Dantes, usava o quarto que tinha sido da minha filha, para ter as minhas coisas à larga. Em cima da secretária dela, tinha uma caixinha onde tinha os anéis de uso corrente e era aí que todos os dias, ao chegar a casa, colocava anéis, aliança e relógio. De manhã, o gesto era também automático: depois de me perfumar e vestir, escolhia o anel e o colar que iam bem e a aliança e o relógio.

O relógio já o contei: inseparável dele. Tem um peso, um toque, uma elegância de que não conseguia desprender-me. O ponteiro das horas avariou. O dos minutos estava bem. Eu usava-o assim mesmo. Até que resolvi que não fazia sentido. O arranjo custou uns duzentos ou trezentos euros, nem sei. Voltei a poder ter horas certas. Até que, passados uns tempos, talvez uns dois ou três anos, voltei a notar que o ponteiro das horas começava, de novo, a perder a pedalada. Deixei-me estar. Por mim, sem problema. O pior eram as outras pessoas: dava por elas a espreitar-me para o relógio, depois olhavam para o delas. Algumas ultrapassavam a barreira da indiferença e diziam: acho que o seu relógio não está certo. E eu explicava o que expliquei mil vezes: só o das horas é que não está bem. As pessoas ficavam meio desconcertadas. Uma pessoa sabe sempre mais ou menos as horas, não sabe é os minutos. Portanto, como o ponteiro dos minutos estava bem, eu orientava-me. Ainda pensei voltar à ourivesaria reclamar da reparação. Mas a reparação já tinha uns dois ou três anos. Depois meteu-se a pandemia. Agora já nem moro perto. 

Agora, quando vou trabalhar presencialmente, nem me lembro do relógio ou da aliança. Também estou a pensar que antes punha sempre rímel e que nunca mais o pus, nem de tal me lembrei. Baton ou gloss agora só uso em teletrabalho. Na rua ou no trabalho presencial não, só serviria para sujar a máscara. Parece que eu, a meus olhos, já só existo bem na versão nude: no make up, no toilette, no high heels.

Quando ouço falar no regresso à 'normalidade' estremeço por dentro. Não sei se sou capaz de voltar a andar metida no trânsito em horas de ponta, não sei se sou capaz de voltar a andar todos os dias de saltos altos, aperaltada, todos os dias a comer em restaurantes, todos os dias confinada em torres e todos os dias rodeada de gente que, muitas vezes, não nos permite sermos donos da nossa própria agenda.

Mas, dizia eu que apanhei um susto ao escrever sobre o relógio e a aliança: afinal já os encontrei. Senti um tremendo alívio. Nem imagino a aflição em que ficaria se não os tivesse achado.

Esta sexta-feira, ao fim do dia, fomos à outra casa ver se estava tudo bem, trazer o correio, buscar comida feita para o jantar e para o almoço de sábado. De caminho, pensei parar para ir procurar mais duas suculentas e uma nova taça. É que, no outro dia, ao distribuir as que tinha comprado, tinha-me sobrado uma. Mas então não é que, antes de ir pagar, tive uma chamada que me fez distrair-me por dois minutos? Mal dei por ela, já o meu marido as tinha posto deitadas, dentro da taça de barro. Conclusão: partiu várias folhas, fez outras tantas caírem. Nem queria acreditar. Fiquei passada. Mas, sonso como é, achou que eu devia estar maldisposta por outra coisa qualquer para estar tão chateada por motivo tão nulo. Fiquei ainda mais passada. Disse-me que não estivesse ao telefone em vez de estar a tomar conta delas. Desisti. Ao chegarmos, sendo já tarde, de noite, não pude ocupar-me delas. A ver se faço um bercinho para tentar que das folhinhas partidas renasçam novas flores.

Só me apetece ir tratar disso. Não me apetece pensar nas chatices que invadiram o meu dia nem noutras maçadorias. Só em jardinagens, coisas simples, andar com as mãos na terra, pensar em coisas boas.

E é isto. Ou melhor, não passa disto. Passa das duas da manhã. Tenho que me levantar cedo. Por isso, vou parar com esta conversa mole, que não ata nem desata. 


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Fotografias de Ben Hassett na companhia de David Gilmour com Yes, I Have Ghosts

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E tenham, por favor, um belo sábado.
Be happy.