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sexta-feira, fevereiro 04, 2011

John Malkovich, Cauã Reymond, Kristin Scott-Thomas e Clive Owen em Looking for a Dream um filme de ambição, ingenuidade, sedução, sexo, ciúme, morte e amor (e sangue e lágrimas e risos)

Que ninguém me interprete mal, que ninguém pense que sinto menos respeito pelo drama das familias de Carlos Castro e Renato Seabra.

Mas não sou dada a tristezas, a pensamentos mórbidos. Tristezas não pagam dívidas e para a frente é que é caminho.

Por isso vou aqui falar de uma ideia que me ocorreu. Ontem escrevi que a tragédia pessoal de Renato Seabra e de Carlos Castro tem todos os ingredientes para ser um êxito de bilheteira no cinema. Fossem outras todas as circunstâncias, já estaria eu a escrever uma história ficcionando os meses que decorreram entre a candidatura ao concurso À Procura do Sonho até ao julgamento em Manhattan.

Penso nos protagonistas que eu escolheria e, claro, se é para imaginar, imagino em grande.

Para o papel de Carlos Castro escolheria um actor fabuloso, excessivo, doido, insinuante, sibilino, sensual até à perversão. Nada a ver com o Carlos Castro mas a ficção permite melhorar a realidade. John Malkovitch, claro. Além disso, a sua recente incursão no mundo da moda como estilista seria um valioso inside know-how - ele faria certamente uma super convincente bichona dengosa a circular pelos meandros da fashion, da beautiful people.

John Malkovich como Carlos Castro

Para fazer de Renato escolheria Cauã Reymond, que teria que interpretar um personagem mais jovem do que é na realidade mas que me parece ter tudo para um papelão. Olha-se para ele e facilmente vemos um rapaz com um físico fantástico, mentalidade de estudante simplório, directamente do meio paroquial em que tudo se sabe, tudo se comenta, tudo se condena, para o mundo artificial das luzes, da alegria fácil, do ‘fantástico!’, em que vale tudo; saltando de uma vida remediada para uma vida de luxo; transitando dos braços das namoradinhas para o assédio de um obsessivo e possessivo gay – e no final a percepção fria do que estava a acontecer, a vergonha, o medo de que soubesse, os receios, as dúvidas, a vontade de apagar tudo, a insónia, a pressão, a impaciência, o asco, a raiva, a passagem para o lado de lá. Cauã seria um convincente Renato, sem dúvida.

Cauã Reymond como Renato Seabra

Para o papel de mãe, personagem de enorme relevância no meu guião (e na vida real, estou certa) escolheria uma actriz de quem muito gosto. Uma mulher aparentemente frágil, mas cuja inteligência a converte numa interveniente dominante, uma mulher elegante e envolta numa aura de discreto charme. Uma mulher com um olhar compreensivo, com uma enorme capacdade de se emocionar e de nos contagiar na emoção. Contudo, uma mulher que parece estar permanentemente à beira de derrapar para o lado proibido da vida. Kristin Scott-Thomas.

Kristin Scott-Thomas como Odília Pereirinha

Claro que como não aprecio a melancolia nem gosto de me mover in the dark side of life, a história teria a sua componente de sedução, atracção, amor bom, correspondido. Aí entraria o advogado, decidido, inteligente, arguto, manipulador, bon vivant que usaria os seus dotes de perfeito galanteador também com a mãe do rapaz, acabando afinal fatalmente perdido de amores por ela. O facto dela ser estrangeira, de ter como objectivo levar o filho de volta para o país natal, introduzindo aqui o aspecto da urgência face à separação eminente, daria o suspense necessário. Não podia ser outro que não Clive Owen.

Clive Owen como David Touger
Que tal? O que acham?

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

O menino dentro do filme - Renato Seabra algemado, 'not guilty', Manhattan Supreme Court

Quantas vezes a mãe de Renato terá visto séries de TV passadas nos tribunais americanos, o réu entrando algemado, rodeado de guardas prisionais, depondo perante o Grand Jury? Quantas vezes, sentada na sua sala, tranquilamente, terá visto na televisão advogados planeando estratégias de defesa contra procuradores contundentes?

Nos seus sonhos para o seu filho, a mãe de Renato imaginou-o certamente a ter um bom futuro como a sua vida augurava: bom filho, bom menino, bom aluno, licenciado aos 21 anos, atleta universitário, depois finalista num programa na televisão, de repente conhecendo uma das mais conhecidas figuras do 'jetset' português, cronista social, organizador de eventos de moda. Ela própria costumava levar o filho ao seu encontro (ele ainda não tinha carta de condução), provavelmente imaginando que o estava a ajudar a singrar na carreira.

Nunca, nem nos seus piores pesadelos, deve ter imaginado que um dia esse seu menino bonito iria estar dentro do cenário das séries de televisão que contam histórias de brutais assassínios, nunca, mas nunca deve ter imaginado que o seu menino se iria tornar o personagem principal de um filme de terror.

Quantas vezes terá também Renato visto na televisão, nas séries americanas, os prisioneiros a chegarem nas carrinhas blindadas, quantas vezes terá brincado aos maus e aos bons, aos polícias e ladrões? Em que lado gostaria ele de brincar?

Menino da catequese, acólito na igreja em Cantanhede, Renato Seabra aparece-nos agora nas televisões, cabelo crescido, com a farda de prisioneiro, algemado, rodeado de polícias. Ele hoje é o mau, o assassino, o criminoso para quem a temível procuradora exige prisão perpétua.

Com fato de treino e blusão da prisão, algemado, no tribunal

Apático, rosto sombrio e inexpressivo, o bonito futuro modelo que um dia partiu à procura de um sonho, que sonhou ser famoso, aparece agora nas televisões de todo o mundo. É famoso, sem dúvida, e ninguém fica indiferente a esta história que tem todos os ingredientes para ser um êxito de bilheteira. Renato é agora o jovem amante de um gay de 65 anos a quem assassinou de forma inusitadamente brutal.

Renato Seabra no Supremo Tribunal de Manhattan

Sem a família, sem os amigos, com um advogado americano, típico advogado americano das séries de TV, com um tradutor, rodeado de polícias, Renato parece ter caído por acaso no meio de uma filmagem da qual não faz parte.

Com que angústia verá a mãe este rosto triste, de quem se sente perdido no meio de um pesadelo?

Nestes últimos tempos, quantas vezes não terá ela percorrido a sua própria história tentando descobrir em que falhou, tentando perceber, nas anteriores reacções do filho, se já se esconderia dentro dele o criminoso em que se iria mais tarde transformar? Quantas vezes não se arrependeu dos seus próprios actos, culpabilizando-se pelo acto bárbaro do filho? Porque uma mãe é mãe toda a vida em todas as circunstâncias e sempre pensa que está nas suas mãos proteger, amparar os filhos. 

Vendendo património para fazer face à enormidade das despesas, Odília não pode estar presente nestes momentos difíceis da vida do seu filho, tal como não pode acudir quando ele lhe ligou antes do crime pedindo ajuda. Tal como nós, é pela televisão que ela vê o seu menino.

Perante o grande júri declarou-se inocente, num murmúrio, not guilty, relativamente à acusação de ter havido intenção de matar. Neste momento, faz o que o advogado considerar a melhor estratégia de defesa.

Na confissão lida em tribunal, Renato descreve com detalhe a tresloucada sequência dos acontecimentos que levaram ao assassinato de Carlos Castro e à sua desfiguração e castração. Desconcertantemente, a seguir, sujo de sangue, toma banho, muda de roupa e sai.

Olhe-se para o rosto deste miúdo que ouve a acusação. Parece uma pessoa calma, como todos os amigos o descrevem. E é isso que ainda mais nos perturba. Não é como o Rei Ghob ou outras figuras preversas que parecem trazer o crime impresso na expressão. Não, olhamos para Renato Seabra e é um rapazito que vemos, um jovem inexperiente e sem maldade. 

Saíu cabisbaixo tal como entrou e, na imagem seguinte, o que vemos é a carrinha prisional que se afasta pelas ruas de Manhattan. Lá dentro vai o rapaz português que se desencontrou do seu sonho.

Carrinha celular em NY com Renato Seabra
Voltou para o Bellevue Hospital, onde se encontra preso e sob vigilância psiquiátrica. Vejo essa imagem e penso, uma vez mais, na sua mãe. Longe, num sítio em que as ruas estão cheias de neve, preso, sozinho, correndo o risco de ficar preso o resto da vida (ou grande parte da sua vida), está o seu menino, o menino cujo sonho ela própria incentivou.

Bellevue Hospital, EUA

Enquanto isto, por cá preparam-se mais umas cerimónias fúnebres, depositando o resto das cinzas de Carlos Castro num cemitério: acaba assim aquele que, no seu último dia, se disse mais apaixonado do que nunca, que tinha feito feliz uma pessoa como nunca antes, que gostava de morrer agarrado à recordação do grande amor que estava a viver. Paixão ingénua? Insana ilusão?

Não sabemos.

Nada sabemos da natureza humana.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Renato Seabra e Carlos Castro: o fim - e homossexualidade e homofobia

Penso que será esta a última vez que me refiro ao assunto que tanto nos abalou: o assassinato de Carlos Castro alegadamente pelo jovem modelo Renato Seabra em Nova Iorque, de uma forma trágica e algo macabra (se é que há homicídios que o não são).

Faço-o por uma razão. O primeiro post que escrevi sobre o assunto recebeu um número invulgar de visitas e vários comentários, muitos dos quais não publiquei porque são claramente homofóbicos. Publiquei apenas um para poder responder, por ele, a todos os que manifestaram quase apreço pelo acto tresloucado de Renato, como se fosse legítimo e até salutar matar homossexuais.


Se o que escrevi nesse post ou nos que escrevi depois (Império dos Sentidos e Taxi Driver) não ficou bem claro que lamento o crime, então expliquei-me mal. Retirar a vida a outra pessoa é, só por si, um acto tremendo que não pode ser aceite. E não pode ser aceite seja qual for a raça ou orientação sexual da vítima. Ninguém pode ser responsabilizado pela sua própria raça ou sobre a sua própria orientação sexual. Tal como não se escolhe ser heterossexual, também não se escolhe ser homossexual, nem é uma doença que se apanhe, nem é um mau hábito, nem é influência de más companhias. A mesma coisa se passa com a raça. E isto é tão óbvio que é até la-paliciano eu estar a escrever isto.

Por isso, como compreender esta raiva estranha de quem aplaude quando algo de mau acontece a um homossexual?

O que eu pretendi transmitir é que imagino que o que se passou foi a rutura emocional, a rutura nervosa, uma fractura no limiar da loucura por parte de Renato Seabra, um Face Model, um jovem desenraizado do seu meio, um jovem antes habituado a uma vida simples, oriundo de uma terra pequena de província, com namorada, hábitos desportivos, um jovem de profunda educação católica (que condena as práticas homossexuais), um jovem imaturo que, teve a infelicidade de imaginar que conseguiria controlar uma situação ambígua saindo dela ileso, que, inexperiente, achou que poderia iludir Carlos Castro aproveitando a sua movimentação nos meios sociais ligados à moda, que achou que poderia alimentar a paixão exacerbada e ficcionada deste sem ter que dar nada em troca. Que teve a triste sina de se tornar a fantasia amorosa de um homem que, como referiu Guilherme de Melo, seu amigo, era um romântico infantil mas, simultaneamente, quando se apaixonava, compulsivo, obsessivo, ciumento.

Que, certamente cansado, sem dormir, exausto e assustado com o que se estava a passar, revoltado sobretudo consigo próprio, envergonhado de uma forma insuportável, sem forma de apagar a sua própria conduta que contrariava todos os seus valores, sem ter capacidade para gerir a situação (que ele próprio tinha alimentado), sem ser capaz de lidar com a situação de ter a seus pés um homem de 65 anos apaixonado, ciumento, obcecado, perdeu a razão e tentou desfazer tudo o que o vinha 'perseguindo': a visão do homem que o adorava, o sexo do homem que o desejava, a vida do homem que queria viver para ele. Agrediu-o, asfixiou-o, desfigurou-o, castrou-o, provavelmente querendo, dessa forma, apagar da sua vida aquilo que mortalmente o humilhava e envergonhava.

Outra coisa que me perturbou nisto: vi o jovem no concurso da televisão À procura do Sonho e, como disse antes, era um rapazito tranquilo, via-se que queria aprender e que era humilde. Sorria com afabilidade. Como foi possível que, num momento de tresloucura, tivesse perdido a noção de tudo, de modo a tornar-se um animal acossado, agressivo, perigoso, mortífero?

Temos todos nós dentro de nós estes demónios que, em situações limites, saem e tomam conta de nós?

Não quero arranjar explicações para o comportamento do jovem modelo que agora é acusado pela vox populi de psicopata, de gigolo, de vulgar assassino - ou de herói. Mas questiono-me se poderia acontecer com um de nós, que nos achamos normais. 

Carlos Amaral Dias, psicanalista, fazendo a análise psicológica possível a Renato (autópsia psicológica, como se diz), refere que não lhe parece que estejamos em presença de um psicopata mas sim de alguém, 'normal' que teve uma crise psicótica reactiva, isto é, uma saída de si próprio no decurso de um reacção emocional extrema.

E, se bem imagino o que agora se passa, vejo o Renato, dobrado sobre si próprio, arrependido, sem conseguir compreender como conseguiu fazer tudo aquilo, sem conseguir admitir que, foi por decisão sua, que manteve práticas sexuais com Carlos Castro, envergonhado, incapaz de enfrentar o mundo, querendo ficar preso para o resto da vida.

Que tudo isto esteja a acontecer com um jovem que, até há poucos dias, tinha um futuro radioso pela frente, só me pode dar pena.

Mas, ao mesmo tempo que digo isto, digo também que acho absurdo o cordão humano e as manifestações e homenagens em Cantanhede (incluindo o absurdo minuto de silêncio....) em favor de Renato e que, naturalmente, também lamento o que aconteceu a Carlos Castro (de quem eu não era admiradora); mas nem para a minha falta de admiração, nem para a minha pena, contribuem a sua orientação sexual.

Ou seja, o que eu penso relativamente ao que se passou seria exactamente igual se, em vez de ser o Renato Seabra e o Carlos Castro, fosse um casal heterossexual. A sexualidade aqui apenas é relevante porque foi um dos factores que desencadeou a tragédia.


O amor é um sentimento igual seja qual for o sexo dos apaixonados.

Eugénio de Andrade, poeta homossexual, escreveu o poema abaixo, assim falando de alguém que andava como um deus, que sorria como se dançasse. Assim imagino que veria Carlos Castro o Renato quando este desfilava na passerelle ou quando passeava na rua.

To a Green God

Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era um corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar. 

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Travis, o Taxi Driver - Renato Seabra, o modelo da Face Models

Qual o efeito do desenraizamento? Nos pinheiros, a morte é muito provável. Nos animais, é sabido o efeito que a perda do habitat nativo provoca: mudam de hábitos, mudam de comportamento, ficam estranhos, podem ficar perigosos.

Nas pessoas também corre mal com alguma frequência.

A pessoa pode fazer um esforço enorme de adaptação, pode esforçar-se ao máximo por aprender os hábitos do novo meio, os tiques, a maneira de falar, de andar, pode esforçar-se por esquecer o seu antigo ambiente, os seus antigos amigos, a sua família, o seu anterior suporte emocional.

Pode esforçar-se por adaptar-se a um ritmo de vida diferente, a novos horários, pode habituar-se a deitar-se tarde quando antes se deitava cedo, pode habituar-se a quase não dormir, quando antes o sono era sagrado.

Mas se há adaptações mais fundas, que envolvam a sua própria natureza, as coisas tornam-se mais difíceis. Pode docilmente esforçar-se por não demonstrar o desconforto, pode docilmente mostrar-se que se está a ficar cada vez mais integrado mas, no fundo, uma raiva vai nascendo, uma raiva que se vai abafando. E, ao mesmo tempo que, por fora, a pessoa parece cada vez mais normal no novo meio, perigosas conjecturas vão fermentando, às escondidas, virulentas, perigosas.

E, um dia - frequentemente na sequência de noites de insónia, de agitação e grande nervosismo, de profunda desilusão, quando nada parece já merecer sequer o esforço de continuar o esforço - a mente não aguenta mais: impossível disfarçar, impossível continuar a parecer feliz, impossível esconder mais a raiva. E, como tudo o que é acondicionado sob pressão, há uma explosão irracional, descontrolada, sem medir consequências, um acto de loucura, um gesto desesperado que ninguém vai compreender.

Imperdível o grande filme de Scorcese, onde Jodie Foster, menina ainda, faz o papel da menina-prostituta Iris e Robert de Niro é o desenraizado Travis Bickle, o taxista. Veja-se a evolução de Travis, veja-se o percurso silencioso, desconhecido de todos, que o leva a cometer a loucura final - afinal tão expectável para quem, como nós, acompanha a sua vida 24 horas por dia.

No meu post anterior relativo ao assassinato de Carlos Castro pelo desenraizado modelo Renato Seabra (longe da família em Cantanhede, dos colegas em Coimbra, dos desportistas do basquetebol e, de repente, inserido nos meios espumosos da sociedade pink, nos meios gay da moda, das passerelles, do jet leg, do assédio sexual), alguém comentou que uma raiva assim, descontrolada, absoluta pode acontecer nos casos de pedofilia. Acredito que sim. Quantas vezes, no silêncio da sua humilhação, as vítimas não imaginarão vingar-se? Quantas vezes, no silêncio da sua revolta escondida, a vontade de mutilarem sexualmente o agressor não lhes passará pela cabeça?

Ao contrário do que uma leitora escreveu, obviamente que não defendo os crimes, os homicídios, nem este nem nenhum. Obviamente que não. Ninguém os defende, a começar por quem os pratica. Um acto desesperado assim não tira a vida apenas a quem morre: tira também a vida a quem mata. Ninguém, em perfeito estado de sanidade mental, pode defender isso.

Claro que não posso também defender que alguém, não apenas agrida e mate uma pessoa como ainda a mutile sexualmente, certamente com gestos brutais, selvagens, de animal tresloucado. Não posso defender. Nem quem pratica esses brutais actos espera, certamente, que alguém o defenda. São actos limites, de quem não dorme, de quem deixou de pensar, de alguém que não suportou mais a vida que levava, de alguém para quem tudo deixou de fazer sentido.

Por isso, não defendo: é indefensável. Mas tento compreender a angústia, a aflição, o desespero, a humilhação, a raiva descontrolada de quem, por desnorte da vida, por infelicidade, se vê desenraizado, à mercê de um mundo que lhe é estranho, sentindo-se pouco mais que um animal acossado.

De facto, ao mesmo tempo que lamento o triste fim do jornalista Carlos Castro - apaixonado, convencido de que estava a iniciar a verdadeira relação amorosa da sua vida - ao perceber o engano, ao perceber a raiva incontida que a sua proximidade física tinha despertado, lamento também a vida arruinada que o jovem Renato tem pela sua frente.

Ninguém merece morrer como morreu Carlos Castro, à pancada, no meio de violência, de gritos, de insultos, em sangue, uma autêntica tragédia grega, um olho esvaziado, castrado, um pobre farrapo. Mas a mãe de Renato e toda a família devem estar também a sofrer muito por verem ruir o sonho de um menino de futuro promissor, por verem a vida infeliz que afinal terá pela frente. Afinal, não mais lhe será dado voar como o fez naquela sessão fotográfica em que sorria como os meninos cheios de esperança fazem. Impossível não ter pena de um jovem de 21 que anos acabou de desperdiçar a sua vida de uma forma tão infeliz, tão traumática, tão imperdoável. A sua penitência começa agora e será dura. Acusado de homicídio nos EUA, longe da família, o que o espera é tudo o que uma mãe deseja fervorosamente que nunca aconteça a um filho.


Renato Seabra, o menino de sua mãe ou o Fim do Sonho - na morte de Carlos Castro

Não é inédito acabar em crime violento a relação entre um homem homossexual de certa idade e o namorado mais novo. Discussões, ameaças, sangue num quarto de hotel, castração e morte, são, não raras vezes o destino trágico destes relacionamentos. Há uma qualquer tensão descontrolada, uma qualquer revolta profunda que faz com que um jovem perca a cabeça ao ponto de tirar a vida ao homem mais velho que por ele se apaixonou.

É uma realidade que não conheço senão superficialmente e que me causa alguma perplexidade.

Perante o assassinato de Carlos Castro, que lamento (lamento em abstracto pois igualmente lamento qualquer outro assassinato), contudo, lamento ainda mais a triste vida que espera o jovem Renato, presumível assassino - obviamente se se provar que, conforme os índicios conhecidos, é ele mesmo o homicida.



Lembro-me de o ver no À procura do Sonho na SIC, um programa da estilista Fátima Lopes, em que se elegia o melhor futuro modelo masculino e o feminino, Face Model of the Year: Renato Seabra foi finalista, é bonito, escultural, atlético, tímido, um sorriso algo triste, tranquilo e humilde.

Foi campeão de basquetebol, acabou recentemente a licenciatura. Soube hoje que é de Cantanhede, filho de enfermeiros, com uma irmã médica. Entrou no concurso por incentivo da mãe. No final do programa, rezou a agradecer, diz que é religioso.

Imagino-o em criança, em jovem adolescente, um menino bonito, os pais orgulhosos, os avós felizes por terem um neto assim, alto, bem constituído, bom aluno, bem comportado.

Na televisão, em depoimentos emocionados de amigos tais como Sofia Alves, de quem era padrinho de casamento, Lili Caneças, sua 'cúmplice' na pink society, Claúdio Montez, amigo de longa data, ou o jornalista Luís Pires, ouvi que Carlos Castro tinha confidenciado que estava numa fase muito boa, feliz como nunca, completamente apaixonado - embora fosse sabido, e confirmado por Carlos Castro, que o jovem Renato era heterossexual.

Depois do concurso, foi agenciado por Fátima Lopes e começou a trabalhar como modelo, conhecendo então Carlos Castro, homossexual assumidíssimo, a quem se conheceram antes várias relações, algumas francamente duvidosas (conforme referem os amigos).  Segundo parece, foi este que, através do Facebook, se aproximou de Renato, prontificando-se para o guiar no competitivo mundo da moda.

Mas, se era hetero, porque começou, então, o Renato a andar com o Carlos Castro (levando este a referir-se ao jovem como namorado)? Para que lhe enviava sms a dizer 'amo-te', a ser verdade o que Carlos Castro, orgulhoso, contou aos amigos? Para que este o introduzisse no milieu da moda? Para que este o levasse à Broadway? Acho tão estranho. Um jovem bem formado, pertencente a um meio de gente bem formada (digo-o sem saber, apenas por o admitir, dado que os pais são enfermeiros), certamente sem dificuldades financeiras. Não costumam vir destes meios os jovens que negam a sua natureza, que se prostituem, que vendem a alma ao diabo. Uma ambição envolta em ingenuidade? Imaturidade?

Num hotel que leio que é luxuoso, em Nova Iorque, a passar o ano, a verem espectáculos, a encontrarem-se com amigas de Carlos Castro, imagino um rapazito de 21 anos, a quem os pais desejavam certamente um bom futuro, de quem os avós sentiam certamente orgulho, a ver-se a si próprio, jovem católico, como o amante de um homem pouco dotado fisicamente, um gay de 65 anos, com tiques de gay: o garotão de um velho gay.

Imagino a confusão que ia na cabeça do rapazito, um belo corpo mas uma mentalidade de miúdo de 21 anos, atormentado e dividido: por um lado a querer entrar no mundo da moda, por outro a ter que suportar o odor, a voz, os modos, o sexo de um gay muito rodado.

Quando telefonava à mãe, dizia que há dias que não dormia.
Ouviram-nos discutir. Imagino. Imagino as discussões, noite após noite, noites sem sono numa cidade que não dorme.

Imagino o velho jornalista apaixonado, a não querer perder o namorado bonito, inteligente, bom aprendiz, imagino-o inseguro, ciumento, a insinuar que o jovem modelo andava com ele só por dinheiro, imagino-o desesperado a ameaçar não o ajudar mais, imagino-o de cabeça perdida, imagino-o a implorar um gesto de ternura, um beijo, a querer sexo, imagino o  imenso pavor, a crua angústia, por poder perder um tão grande amor.

Imagino a discussão em crescendo, os gritos, imagino o jovem ainda imaturo, pouco mais que um menino, o menino de sua mãe, revoltado, infeliz, a afirmar a sua heterossexualidade, a sua honestidade, cheio de asco pelo velho apaixonado, por si próprio, pelo rumo que a sua vida estava a tomar.

Imagino as vozes em estridência, os empurrões, os puxões, uma bofetada a despoletar outra, a força de um corpo jovem, musculado.

Imagino a tensão, a violência descontrolada, a raiva no limiar da loucura. A perda da consciência de si, na expressão de António Damásio. O sangue, a raiva, o terror, o fim.

E tenho pena.

Imagino amigos e conhecidos incrédulos, imagino o desgosto sem tamanho dos pais, da família toda.

E imagino o estado de irreversível mutilação psicológica em que Renato Seabra, o presumível assassino estará.

Não era para ser assim. Que pena.

.

O império dos sentidos

Não consegui descobrir com legendagem em português mas, 'L'empire des sens', aqui legendado em inglês, foi já por várias vezes considerado o filme mais erótico de sempre. Todas as classificações são discutíveis mas este é, sem dúvida, um filme cujas cenas realistas e cuja cor, um encarnado profundo, nos marca de forma duradoura.

Da autoria e realizado por Nagisa Oshima, o filme relata uma história verídica.

Uma história de desejo, de obsessão, a história de uma situação em que os limites deixam de fazer sentido.

Como tantas vezes acontece com as histórias assim, esta acaba mal.

E o sangue final, a mutilação genital, a castração, é, nestes casos, um desenlace provável.

A história não tem comparação com a situação - infelizmente uma história também tristemente real - que conduziu ao assassinato de Carlos Castro num quarto de hotel em Nova Iorque.

Sobre isso falarei no texto acima. Renato Seabra o pretenso namorado, o modelo que iniciava a sua carreira, um jovem estudante universitário, um menino de ouro segundo amigos e familiares, o menino de sua mãe como refiro no post, é o principal e, creio, o único suspeito.

Mas, tal como no Império dos Sentidos, o fim da história escreve-se também com sangue e o sexo acaba igualmente despedaçado, para vincar bem que, se de sexo se fazia a história, com a sua mutilação fatal, a história está acabada.