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sexta-feira, outubro 22, 2021

Um dia quase igual aos dias do 'velho normal'

 



Levantei-me mais cedo do que o costume. Tinha pensado vestir uma coisa mas, à última hora, apeteceu-me experimentar outra. Não gostei. Experimentei outra. Também não gostei. Pensei antes numa camisa de seda com riscas verticais em tons de verde seco e branco. Experimentei. Pensei que, se calhar, não. O tempo a passar. Antes da reunião queria ainda ir visitar umas pessoas. Pensei que o melhor era voltar ao que tinha pensado de véspera. Experimentei. Talvez. Mas tive que vestir um top por baixo, o decote estava profundo demais. Fui procurar um no tom da blusa. Vesti. Resolvi que podia ser.

Escolhi os brincos. Pérolas pequeninas. Colar. De pérolas, também. Comprido. 

Depois fiquei na dúvida. Que sapatos? Fui ver quais. Fiquei na dúvida. Pensei nuns mas não ficariam bem com a roupa que tinha vestida. Pensei que o melhor seria mudar de roupa. Mas o tempo estava cada vez mais apertado. 

Pensei então nuns sapatos em tons neutros. Não fiquei muito convencida mas era uma solução de compromisso.

Vestida e calçada voltei ainda ao closet. Perfume. Bergamota como nota principal. 

Pensei ainda em ir buscar a aliança e o relógio. Mas já era tarde. Fui com mãos e braços nus.

Antes de chegar, pensei que esperava que a reunião não fosse lá em cima, numa daquelas salas que tão bem conheço, isoladas, secretas. Quando me fiz anunciar, sem grande surpresa disseram-me que subisse ao último piso. Quando cheguei a sala ainda estava vazia. Pensei: de novo, uma emboscada. Desloquei-me até à janela de vidro de onde se tem uma das melhores vistas do rio. Por baixo um jardim. O sol tornando as águas um espelho luminoso. Pensei: o que será desta vez?

Depois, ele entrou. Conversámos. O meu cão, o cão dele. A minha casa, a casa dele. Depois, contou-me. Disse que, por uma questão de lealdade, tinha que me dizer aquilo e que não são coisas que de que se fale por telefone. Talvez. Depois continuámos a conversa, o que faremos, o que teremos que manter em segredo, o que poderemos dizer. E combinámos nova conversa.

A seguir, dirigi-me ao outro local para fazer a visita que tinha pensado fazer antes. 

Ao ir para o elevador, saiu de lá uma jovem que me cumprimentou pelo meu nome e sorriu, voltando-se para trás, a sorrir: 'não sabia que vinha...'. Puxei pela cabeça. Juraria que nunca a vi mais gorda.

Ao entrar, muitos cumprimentos e, entre as pessoas conhecidas, uma outra jovem com uma blusa sensual e o cabelo apanhado de um dos lados. Cumprimentou-me efusivamente. Pensei: isto será para os apanhados? Que gente é esta e de onde me conhecem? Mas depois assumi que para os apanhados não seria certamente pelo que deve ser gente que tem entrado e que me conhece não sei como ou de onde. Pensei que tinha que tentar perceber. Mas toda a gente tinha muita coisa para dizer e acabou por me passar o esclarecimento do mistério. 

Saí de lá já tarde. Há sempre muitos assuntos. Saio mas poderia ficar lá até à noite a ouvir toda a espécie de histórias, de queixas, de desabafos, de alertas, de conselhos, de sugestões.

Uma vez mais não usei os parques dos edifícios. Preferi, de novo, deixar o carro num parque público para poder andar a pé nas ruas de Lisboa. 

Já estou um bocado desabituada de andar na calçada lisboeta com saltos altos mas é como andar de bicicleta: ao princípio parece que a elegância não está lá mas a verdade é que, logo depois, se percebe que a gente não esquece.

Andei sem máscara e gostei muito. Uma sensação de liberdade muito boa: andar na rua, ao sol, sozinha, sem máscara.

Na rua, muitos estudantes, turistas, gente que passeia, outros que devem andar que nem eu, a curtir o ar iluminado da bela cidade. Ao meu lado, duas mulheres muito elegantes, com pastas, saltos ainda mais altos que os meus, perfeitamente maquilhadas e penteadas. Pensei: advogadas. O semáforo estava vermelho para peões. Elas ao meu lado, ouvi-as a delinearem a estratégia. Eram advogadas.

Quando cheguei a casa, o pequeno urso, ao constatar que eu estava de volta, fez aquela festa que me enche de alegria e afecto. Quanta ternura, quanta alegria a dele. Abracei-o e ele a mim, os dois felizes da vida, ele a dar freneticamente ao rabinho, eu a fazer-lhes festinhas, eu a chamar-lhe 'meu menino lindo, minha coisinha mais fofa', ele a tentar mordiscar-me. 

No resto da tarde, tive mais uma reunião. Foi daquelas de arrebimba. Disse o que tinha a dizer sem dosear na franqueza. Há pessoas que não entendem a subtileza, só entendem se lhes falarmos com todas as letras. Como sempre, apesar de saber que ele me apoia, confirmo que fica sem saber como acompanhar a minha assertividade. Quando fala, reforça o que eu disse mas sinto que tenta amenizar um pouco. Obviamente tínhamo-nos combinado, antes. Mas ele, pela sua natureza, não consegue dar murros na mesa nem ser totalmente taxativo. Eu consigo. Claro que o murro que dou é metafórico. Do outro lado, a terceira pessoa protesta, diz coisas mas, tudo espremido, nada. Fala, fala, fala. Deixamo-la falar. É importante que possa esvaziar. Ficamos a saber tudo o que pensa. Quanto mais fala mais se esvazia a ela própria. Acaba a dar o dito por não dito. No fim, já mal sabe explicar porque quis a reunião. 

Uma canseira. As pessoas que se movem por estados de alma, cansam-se a elas próprias e cansam os outros. É aquilo da estupidez. Nada a fazer. É genético. 

Ao fim do dia, já os dois, voltámos à cidade. Tínhamos coisas para tratar. 

Regressámos a casa um bocado tarde. Ainda quis ir fazer uma caminhada mas já escurecia e estava frio. E eu não tinha qualquer agasalho. Portanto, desisti. 

Ao entrarmos em casa, de novo, o nosso ursinho de peluche voltou a fazer aquela festa. Corre, salta, rebola-se, ri, dá latidos, atira-se-nos às pernas. Uma festa. Um afecto incondicional, espontâneo, genuíno. Um aconchego emocional. Uma ternura.

Fui fazer o jantar. E voltei a trabalhar. 

Já tarde, ainda pensei ver uma série mas adormeci. Penso que a sesta não deve ter durado mais que dez minutos mas foi profunda. 

Estou com muito sono. Esta semana tem sido puxada. E custa-me cada vez mais ter que me levantar muito cedo. E há muito trânsito em Lisboa. Não sei o que se passa. Há trânsito por todo o lado. Perde-se muito tempo no trânsito. Anos de vida. 

Bem. Adiante.

Tenho mails por responder, não conheço as notícias do dia mas hoje já não dá. Tenho que me ir deitar. Por hoje acho que já chega.

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Há bocado, o meu filho perguntou quando é que poderíamos voltar à nossa casa in heaven. Dizia ele que era pena agora não podermos ir. A quem ele o diz... Tenho tantas saudades. Não sei se poderemos ir quando o little baby bear levar a 2ª toma da vacina. Espero que seja, que não seja só na 3ª. 

Não sei se já estaremos na época dos cogumelos. Adoro andar por lá a descobrir cogumelos. Há lá sempre tantos, tão diferentes, tão bonitos. Aqui já vi dois minúsculos, branquinhos, quase transparentes. Fiquei em pânico não fosse a omnívora criatura lhes deitar o dente. Sei lá se são pacíficos... Vim logo a correr buscar uma pequena pá de jardim para os arrancar e deitar fora para longe. Mas eram tão lindos, etéreos, quase virtuais.

E, já agora, permitam que partilhe:

Fantastic Fungi | Moving Art by Louie Schwartzberg


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Desejo-vos uma happy friday

Tudo na boa

quinta-feira, agosto 03, 2017

A strange bird




Aconteceram vagas de saídas de gente. O impacto da globalização, as fusões e reestruturações, as imposições da UE, as automatizações -- tudo isso levava a que, volta e meia, se chegasse ao patamar abaixo do qual não podia ser e, que remédio, novas reorganizações e, claro, a decorrência mais visível: levas de gente para a rua. Nunca despedimentos. Negociações, rescisões amigáveis. Depois seguia-se o cumprimento do plano: este mês saíram cento e noventa, mais oitenta em perspectiva. Meses depois, um perguntava: 'e como está a dinâmica de saída?' e outro respondia: 'já está a abrandar, este mês já só saíram trinta e em perspectiva apenas uns vinte'. O outro levantava as sobrancelhas, desgostado, deviam sair mais. Várias vezes isto.

De quantas pessoas me despedi eu já...? Perdi-lhes a conta. Se os vir hoje na rua se calhar já nem os conheço.

No outro dia, vi uma mulher circulando entre os saldos. A cara dela não me era estranha. Talvez ligeiramente mais nova que eu, um ar ainda gaiato, um cabelo juvenil, quase curto, franja grande solta, jeans e tshirt branca com um belo colar. Ela absorta entre os cabides de roupa e eu, ao largo, tentando perceber quem era. Até que me lembrei. Era uma mulher jovem, interessante, suave, ar moderno. Saíu numa dessas levas. Ia animada, tinha ideias, queria dedicar-se a fazer peças de artesanato, queria exportar. Tive vontade de lhe ir falar. Mas não fui. Não consegui lembrar-me do seu nome, não me pareceu bem ir falar com uma pessoa de quem tinha esquecido o nome. E se ela nem de mim se lembrasse? 


Lembro-me de uma outra, uma que era um mulherão, ancas bojudas, toda ela se rebolava enquanto andava. Era casada e tinha uma filha. Tomou-se de amores por um motorista da administração. Ele uma fraca figura ao lado dela. Almoçavam juntos, se ele não tinha serviço saíam juntos, de manhã chegavam juntos. Uma paixão que não escondiam. Quando gozavam com ela, maliciosa e impudica, insinuava que ele tinha atributos que punham o marido a um canto. As pessoas riam porque fossem quais fossem esses atributos, trazia-os ele escondidos pois era coisa que só ela via. Sobreviveram ambos a essas levas. Até que foi ela que um dia foi pedir para negociar a saída: tinha a ambição de abrir um quiosque. Toda a gente se admirou por, depois de anos sempre inseparáveis, ela não se importar de ficar longe do galã. Mas logo a seguir foi ele, tinha resolvido ser taxista.

Eu assistia a estas determinações com admiração: gente que abdicava de um emprego com ordenado certo por uma actividade que podia correr mal. A coragem deles causava-me espanto e recriminava-me por ser pessimista ao temer que não se aguentassem entregues à sua própria sorte.


Uma outra. que trabalhava comigo, muito arrapazada e a quem nunca conheci namorado, um dia foi passear ao Brasil. Não me lembro como, conheceu lá um homem com mais de oitenta anos e por quem se apaixonou. Trouxe-o com ela. No primeiro dia de trabalho depois das férias, vinha radiante. Trouxe presentes de artesanato índio para os meus filhos. Ainda cá tenho essas peças. À tarde, ele foi lá buscá-la e ela fez questão que ele subisse para conhecer as pessoas com quem trabalhava. Todos pasmados. Ela, um autêntico rapaz, um rapaz que julgávamos assexuado, ali estava perdida de amor por um homem quase com idade para ser seu avô. Uma simpatia, ele: jeans, camisa solta, cabelo branco comprido, quase a roçar o ombro, olhando-a enlevado como se ela fosse uma diva, ela derretida olhando-o como se ele fosse o seu primeiro, único e último amor. Saíram de mãos dadas. Passado talvez um mês ela comunicou que queria sair da empresa, ia casar com ele, ia dedicar-se a gerir umas fazendas que ele lá tinha no Brasil profundo. Não faço ideia do que será feito dela. Gostava de trabalhar com ela: exigente, rigorosa, muito boa pessoa. Comunista dos quatro costados.


Uma outra. Da minha idade. Um filho da idade da minha. Muita empatia. Conversávamos muito uma com a outra. Arranjava-se muito bem. Tinha um corpo bem desenhado que ela gostava de acentuar com toilettes sempre bem escolhidas. Teve uma paixão louca por um colega, um de quem já aqui falei, um campeão nisto das namoradas. Todas casadas e bem casadas. Não se dava conta de quantas já tinha tido. Uma força da natureza, um gestor de arromba, sempre com a adrenalina num pico. Mulher em quem ele pousasse os olhos com ar de quem queria pôr as mãos, era mulher que se deixava apanhar. Nunca tal ela referiu nas nossas conversas e eu nunca dei a entender que sabia. Como ele saía tarde, ela ficava a fazer tempo. Um dia, já o contei, fora de horas, ele foi apanhado a fazer sexo em cima da mesa de reuniões do gabinete com outra. À boca pequena, não se falava noutra coisa. Mas não sei se ela não o soube ou se perdoou. Tempo depois, ele recebeu um convite irrecusável para outra empresa. Foi. Juntou centenas de pessoas num jantar de despedida. Todas as suas namoradas lá estavam, chorosas. Algum tempo depois, soubémos que tinha adoecido. Trabalhou até ao fim, corajoso. Quando fui à capela, estava uma multidão à porta, não cabiam na capela. Todas as namoradas marcaram presença. Tristes como a viúva mas, enquanto elas estavam na rua, a viúva permanecia, desfeita, junto ao corpo do marido. Algum tempo depois, saíu o totoloto a essa minha colega. Saíu da empresa, toda independente e jubilosa. Ia montar um negócio de flores, comprar umas casas, assegurar o futuro do filho. Há tempos disseram-me que se eu a visse não a reconheceria, que se tinha deixado engordar muito, que nem parecia ela. E que se tinha separado e que tinha tido sérios problemas com o filho.


Um dos que tentei por tudo que não saísse foi um contínuo. Agora já não existe muito essa figura. Distribuía correio interno, fazia recados, serviços no exterior. Era alcoólico. Quis sair com indemnização. Na verdade, era um peso morto para a empresa. Inventava-se trabalho para o manter ocupado. Quando ele foi pedir para sair, muita gente esfregou as mãos de contente. Eu não. Dizia ele que ia montar um negócio de sapateiro, arranjar sapatos. Não acreditei que fosse possível, achei que ia espatifar o dinheiro em três tempos para, logo de seguida, acabar na miséria. Pedi para não aceitarem o pedido dele. Mas não fui atendida. Diziam-me que ainda bem que saía sem que a empresa tivesse que tomar providências face ao estado em que se apresentava para trabalhar. Quando se foi despedir de mim, ele todo feliz por achar que estava rico e que ia tornar-se um empreendedor, tive vontade de chorar, imaginava-o caído no passeio, abandonado como um cão doente, velho e sem dono. Não sei se ainda é vivo. Temo o pior.

Outros saíram para se tornarem agricultores. Com o dinehiro, compravam montes no Alentejo, quintas no Ribatejo ou nas beiras. Outros iam dedicar-se ao turismo de habitação, reabilitando casas de família.

Gostava de poder escrever aqui o nome de cada uma dessas pessoas enquanto me lembro pois, de algumas das pessoas cuja vida se cruzou com a minha, já não as reconheceria se as visse e, de outras, reconhecendo-as já o nome se esvaíu. O tempo passa.


Daquelas que partiram para novas vidas, gostava de saber se os seus sonhos correram bem, se estão bem.

Gostava, em particular, de saber daquela que foi tornar-se florista. Será que se mantém casada, conservando o agora taxista para quando lhe apetecer uma feérica tarde de amor?

Ou que será feito da que foi embrenhar-se no Brasil profundo? Talvez o seu bem amado já não seja vivo. Será uma fazendeira rica, daquelas que sai a cavalo pelos campos? Eu, pelo menos, é assim que a imagino -- talvez indo todos os dias ao lugar onde terá soltado ao vento as cinzas do seu amor.

A imaginação leva-me. Um dia memórias e imaginação quererão misturar-se. Se agora me deixo ficar aqui, noite adentro a escrever isto, talvez venha o dia em que não saberei mais se sonhei ou se foi verdade aquilo de que apenas vagamente me lembrarei.

Sou um pássaro estranho que se alimenta de palavras. Um estranho pássaro que habita noites cheias de memórias e de sonhos.

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Permitam que partilhe convosco uma outra história

Há casos de quem mude de vida e descubra uma paixão. Há casos de devoção, de descoberta, de forte motivação e de grande realização profissional. É o caso de Aimee Lee, a fazedora de hanji.

Transcrevo:

In Korea, there’s a saying that “Good silk lasts 100 years, good hanji lasts 1,000 years.” Hanji, a special paper, is made through a complex, centuries-old process that combines mulberry tree pulp and hand threading. Aimee Lee, a Korean-American artist, received a Fulbright fellowship to learn the craft in Korea. There, she studied with master hanji-maker Jang Seong-woo. Despite being a male-dominated practice, Lee excelled. Her perseverance, audacity and aptness for hanji impressed her mentor so much, that he now refers to Lee as a colleague. Today, she’s the leading hanji weaver in the United States, and has dedicated her career to teaching others this ancient Korean practice. 


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As fotografias intercaladas no texto são, tal como as de ontem, finalistas do prémio EyeEm 2017

Lá em cima Isaac Waddington veio de novo fazer-me companhia enquanto eu escrevia

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta-feira muito boa.

Obrigada pela vossa presença.

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sábado, março 25, 2017

Como se seleccionam pessoas para um trabalho?
(Há receitas infalíveis? Se houver, por favor, digam-me)


Estou incapaz de ter o que dizer. Há na vida qualquer coisa de muito incompreensível. 




Por exemplo. Uma pessoa vive a vida inteira uma vida oca, frustrada. Desperdiça a vida, ocupando-a com insignificâncias que são exponenciadas a ponto de parecerem emergências. Por tanto se devotar a esses insanos labores, a pessoa espera reconhecimento. Como os outros acham absurda aquela devoção, não mostram o esperado reconhecimento. A pessoa sente-se, então, vítima de incompreensão, ainda mais frustrada. O tempo passa, a pessoa está na meia idade e praticamente não tem amigos, também se afastou da família. Nunca teve tempo para eles, a sua prioridade sempre foi outra. Entra em depressão -- que não reconhece pois acha que os problemas estão nos outros e não nela. E eu olho e fico com pena e admirada. Como é que pessoas assim não percebem que passa um ano e outro e outro e que, se olharem para trás, não verão nada, só vazio? Trabalham de manhã à noite e nada mais fazem na vida. No dia em que deixarem de trabalhar os outros respirarão de alívio porque uma pessoa assim é uma nuvem negra carregada de recriminações. E este é um caso real, igual a tantos assim. 

E outro. Uma pessoa escreve maravilhosamente. É culta. Tem graça. É ágil. Está a milhas de muitos outros cujos nomes inundam livrarias em livros que valem zero ou assinam crónicas regiamente pagas e que valem menos que um chavo. E, no entanto, quando tinha tudo para produzir obra de qualidade em nome próprio, esgota a sua arte e perícia em vacuidades ou em trabalho anónimo. Os anos passam, porque sempre passam, e um dia será tarde para tentar repôr a justiça para com os dons que possui. Também é um caso real.


Antes de sair, colega foi levar-me um dossier com candidaturas para eu, durante o fim de semana, dar uma vista de olhos a ver se algumas me interessam para se dar início ao processo de recrutamento. Muita gente, bons currículos. Há sempre, em mim, alguma angústia quando faço isto. Forçosamente ponho logo algumas de lado. Não é possível seguir com muita gente até escolher um, perder-se-ia muito tempo. No entanto, os CVs são muito parecidos. Procuro alguma coisa que revele alguma diferença, que chame a minha atenção. Mas não: formatos normalizados, informações sintetizadas, também praticamente normalizadas. A maior parte tem fotografia. Gosto quando estão a rir, gosto quando detecto descontracção ou simpatia. Fazem-me impressão os que se mostram completamente formais, circunspectos. No entanto, temo cometer injustiças. Já me parecem incompletos os que não têm fotografia. Procuro hobbies, actividades que não tenham a ver com a profissão. A maior parte omite isso.


Aparece-me um que parece muito bonito, atlético, brasileiro, CV bem estruturado. Quase me apetece pô-lo no topo da short list.
(Depois, ao ter esta ideia, penso que deve ser assim que os homens escolhem candidatas mulheres). 
E eu tenho aqui para cima de uma dúzia de candidaturas e, no entanto, apenas uma é de uma mulher. Aparece-me um que não diz a idade mas que, pela fotografia, imagino que ande acima dos cinquenta. Cursos que não acabam, bons cursos. Não sei quantas empresas por onde passou. Agora desempregado. Dá ideia que, ao longo da vida, não conseguiu perceber qual a sua vocação ou não conseguiu adaptar-se a nenhum dos trabalhos que teve. Ou, então, não teve sorte. Fico mais angustiada ainda. Ponho-o de lado? Estava a pensar em alguém novo, sangue novo, disruptivo. Custa-me muito isto. É a vida das pessoas nestas folhas que aqui tenho espalhadas ao meu lado, no sofá.

Depois de uma manhã um bocado complicada -- a altura das avaliações, quando levada a sério, pode ser um bocado desconfortável, especialmente se, do um dos lados lados, está alguém avesso a isso como é o meu caso -- e antes de uma tarde também agitada, breve pausa à hora de almoço. Fuga para lugar de eleição. Vontade de me sentar e ficar a ler. Vontade de folhear longamente. Sempre novidades. Ou talvez não, talvez apenas os meus olhos descubram coisas não vistas antes. Tenho aqui comigo junto aos CVs um belo livro. É pesado, muito texto, muitas poesias. Gosto da capa. Espreito uma e outra vez e agrada-me. Tem um CD que certamente vai acompanhar-me nas  deslocações pela cidade.

Quem enviou as suas candidaturas não sonha que a decisão está nas mãos de alguém que lê os livros que eu leio, que pensa como eu penso. 


No verão seleccionei um em que os que o entrevistaram, numa primeira triagem, estavam tentados a afastar dizendo-me que era um despassarado, se tinha perdido ao ir para lá, tinha chegado atrasado, tinha dado respostas 'ao lado', parecia estar um bocado noutra. Tocaram logo campainhas dentro de mim. Está lá agora a trabalhar. Uma pessoa incrível, incomum. Nada interessado num trabalho em horário normal. Aceitei. Fez ele o horário. Quis apenas uns meses. No outro dia, combinei que lhe propusessem um contrato de 1 ano, melhores condições. Para grande espanto de quem pensou ir dar-lhe uma boa notícia, não quis. Não quer prender-se. Todos espantados. Eu achei graça. Fui ter com ele: 'então, não quis assinar o contrato?'. Ele riu, que não, só até às férias, que não sabe o que vai fazer a seguir, que até pode ser que continue mas que agora não sabe. Fiquei contente. Mantém-se igual a si mesmo. Livre. Ainda bem. Privilégio é tê-lo connosco mesmo que neste regime completamente atípico. Nestas coisas acho que ser mulher faz alguma diferença. Aceito estas situações. Aliás: agradam-me.


O que me cansa, e cansa cada vez mais, são as pessoas completamente convencionais, que traçam regras restritivas para si próprias e para os outros, os que são moralistas e tentam moralizar a vida dos outros. Mas ao mesmo tempo sou muito exigente. Do descritivo das minhas funções, na parte comportamental, consta 'intolerância à mediocridade'. Neste ponto cumpro a 100%. Avessa à mediocridade e à mediania.
Como, de entre estas folhas que aqui tenho ao lado, descubro os que encaixarão bem naquilo que quero nas minhas equipas?
Como saber se, em cima do que sabem fazer profissionalmente, gostam de ler, se gostam da natureza, se é gente boa onda, se são generosos para com os colegas? 


Acho que, aos que pre-seleccionar, vou pedir que me digam o nome de um poeta, vou perguntar se sabem algum poema de cor. Vou pedir que me falem num músico que apreciem. Que me recomendem um passeio. Que mostrem que sabem que há vida para além do trabalho, que mostrem que gostam da profissão e que são capazes de se focar nela sem descurarem o que há para além dela.

E eu sou assim. Não gosto de sujeitar os candidatos a testes, a situações que excluam os que não são 'normalizados'. Conheço outros métodos completamente diferentes de seleccionar pessoas mas não estou certa de qual a maneira mais infalível.

A vida é uma coisa complicada. Não há consensos. A vida constrói-se. Mas há quem, por pouca sorte ou falta de jeito, mais pareça empenhado em destruí-la. Ou então é aquilo dos acasos. O ter a sorte de encontrar alguém que acredite em nós, que nos deixe usar as asas, que nos mostre que há muitas perspectivas, pode fazer a diferença. Mas encontrarmos essa pessoa é, na maior parte das vezes, puro acaso. Eu espero que quem trabalha nas minhas equipas ache que foi uma sorte ter-se cruzado comigo. Se calhar espero demais. Mas gostava.


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Um sábado feliz a quem me lê.

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