Fomos andar à beira de água ao fim do dia. Estava calor e cheirava a maresia. Quando o disse o meu marido disse: Cheira é a ganza. E, de facto. Não sei que é isto mas agora, ao andarmos por ali, cheira que se farta. Não sei se liberalizou, se virou moda, se é por motivos terapêuticos. Se for, não sei a que é que faz bem, talvez à ansiedade. A malta está numa boa, a sentir as boas vibes do mar, a inalar uns ansiolíticos em estado gasoso. Digo eu.
Por volta das sete e muito da tarde, perto das oito, talvez mesmo oito, a praia estava cheia. Muita gente de outras paragens o que dá aquele ar eclético que me agrada. Línguas que reconheço, línguas que não. Gente a tocar, musiquinha com arzinho de mar e de sunset. Gente de skate, gente de bicicleta, gente a correr, gente a coxear. Eu não, que o brufen de ontem à noite me deixou fina. Sempre gostei de ser turista acidental no meio de outros turistas acidentais.
E muita gente a tomar banho. Não sei se a água estava boa, se há muita gente corajosa. Devia ter levado a máquina para fotografar. Mas não levei. Quando saí de casa estava exaurida, com vontade de me pôr a milhas.
Há muita gente a passear cães e é engraçado que a nossa fera se marimba para todos. Os pequeninos passam-se da vida com ele. Ladram-lhe, querem-se-lhe atirar. Hoje uma lulu peluda e bem penteada, branquinha, fez-lhe um cerco e, do nada, tentou morder-lhe. Assustei-me e até soltei um pequeno grito. O meu marido quase o içou, para o salvar da garina afobada. E ele, estranhamente, nem aí. Continuou a andar na maior indiferença.
No outro dia, na praia, um outro pôs-se a brincar, ele a brincar, os dois de roda um do outro, a cheirarem-se, a correr, a saltar. Amigos. Mas, de repente, começámos a perceber que o urso felpudo estava como que a querer colocar-se numa posição algo estranha. Assustámo-nos. Os miúdos apreensivos. Eu a não querer que aquilo avançasse. Todos a pensar que o big bear, na volta, seria gay, como que a querer saltar para a espinha do outro (por assim dizer). Mas não. O meu marido limitou-se a lamentar a nossa ignorância, disse que não tinha a ver com sexo, que era a forma dele demonstrar ao outro a sua posição dominante.
Pois não sei.
Mas, na verdade, também estou naquela: quero é que ele seja feliz. E, de resto, daqui por uns meses, se calhar, fazemos o que a veterinária aconselhou: a castrar a fera. Não se depois fica a ladrar fininho ou se a coisa não afecta. Mas também não interessa.
Bem. Adiante.
Dizia que o que sei é que não se enerva com os outros cães.
O que o enerva verdadeiramente é quando o 'seu' rebanho dispersa. Por exemplo, se eu me afasto para entrar numa loja ele fica possuído, dá saltos no ar, quase piruetas, puxa, quer ir atrás, quer soltar-se da trela, fica num estado de nervos. E, quando me reaproximo, põe-se de pé, abraça-me, emocionado pelo reencontro. E isto acontece quando os miúdos se afastam, quando qualquer um de nós se afasta. O seu instinto de pastor fica bem patente quando alguma ovelha parece tresmalhar-se.
Resumindo.
Voltámos para casa tarde, oito e tal, se calhar quase nove. Já não uso relógio, não sei. Nada de mal pois o jantar estava feito: restos. Souberam bem, souberam a sexta-feira, a não ter que fazer o jantar.
A semana foi complexa, o trabalho com algumas coisas ensarilhadas, o dia embrulhado desde muito cedo até ao fim do dia. E tinha eu pensado que a semana ia ser tranquila. Fiz mal. Não se deve pensar isso. Devemos deixar rolar.
Felizmente já estamos no sábado. Um fim de semana a começar e calorzinho e canto de passarinhos e a primavera toda atrevida a dar-se ares de verão. Coisa boa.
E é quase dia 9 e vamos ver o que aí vem. Muito preocupada com tudo. Não é só a brutalidade. É também a hipocrisia. O desrespeito.
Mas não vou falar disso.
Tenho que descobrir um mantra para mim. Como poderá ser? Como é um mantra? Palavras de agradecimento e de alegria? Palavras que transportam flores no seu regaço? Não sei. Não sei mesmo.
As flores foram fotografadas pelo talentoso Cho Gi-Seok e fazem-se acompanhar por Melody Gardot e Philippe Powell que interpretam This Foolish Heart Could Love You
Dias muito aloucados, cheios de muito trabalho e preocupações. Como se não bastasse, acordei com uma dorzinha na perna. Tento lembrar-me do que possa ter sido. Muitas idas e vindas com o regador grande? Idas e vindas do supermercado, os sacos pesados demais? Muitas horas de reuniões? Tenho sorte em não ter que fazer quilómetros a pé. Ou estar dias seguidos encolhida debaixo da terra. Tenho sorte.
Ao fim da tarde, fomos até à praia e trouxemos de lá sushi. Não deu para andar muito, estava meio coxa. Só que a minha coxidão melhora à medida que ando. Ainda assim não abusei, estava a melhorar mas não a ficar boa. Mas bem o sei: quando os músculos dão de si, melhor mesmo é não abusar. Mas sei: pior mesmo é estar sentada, horas sentada. Só que não dá para evitar. Só se passar a fazer reuniões de pé.
Já tomei um comprimido a ver se amanhã me aguento toda a manhã a resolver, sentada, os grandes problemas da humanidade.
A seguir ao almoço, fui num bocado espreitar o calor da rua. A pequena fera cabeluda veio comigo. Somos unha com carne. Enquanto eu estou a trabalhar, ele deita-se ao pé de mim. Quando há sossego, ele gosta de dormir. Se vou à rua, ele vem. Se regresso, ele corre para me acompanhar. Tem receio que o deixe na rua. Já o enganei vezes de mais, por isso já não se fia. Compreendo-o.
Agora na casa grande aqui do lado, há dois cães. Um deles é um pastor-alemão gigante, com um vozeirão daqueles. O ursinho peludo, que é todo territorial, fica possuído. Ladra, corre ao longo do muro, põe-se de pé. Do lado de lá, o outro faz o mesmo. Não se vêem mas pressentem-se. O meu felpudinho já anda nas patas de trás. Põe-se de pé e anda em duas patas. Também, várias vezes por dia, põe-se de pé, abraça-me, dá-me beijinhos. Juraria que sorri. Retribuo com carinho e mimo todo esse afecto.
Há dois dias, também fomos os dois até ao jardim. Ele deitou-se na relva. Eu deitei-me ao lado dele. Ele pôs-me uma patinha por cima do meu pescoço. Fiquei a descansar, deitada, ele abraçado a mim, eu abraçada a ele. Quando me soergui, estava um pintor encavalitado no muro do outro lado, do lado dos outros vizinhos. Fiquei atrapalhada e acho que ele também disfarçou.
Gostava de saber se o esquilinho ainda anda in heaven. Gostava que aqui também os houvesse. Um lugar que os animais escolhem para viver é um lugar abençoado.
Gosto cada vez mais de animais. Gosto da natureza. Venero a natureza.
E, no entanto, passo grande parte da minha vida fechada entre quatro paredes a resolver problemas e a enfrentar gente que só me traz complicações, mal me deixando respirar.
Há bocado estive a ver as notícias do dia e a ver vídeos. O meu marido queria ouvir qualquer coisa na televisão e disse para eu baixar o som ou me deixar disto, diz que eu devia ver menos coisas sobre a bárbara e inqualificável infâmia que a Rússia não se cansa de levar a cabo na Ucrânia. Muitas vezes durmo mal por causa disto, tenho pesadelos, acordo.
Então fiz-lhe a vontade e pus-me a ver o último episódio das Avós da Razão. São sempre engraçadas. Divertem-se a conversar e a relembrar o passado. E são todas pr'à frentex. Não há ali saudosismos, arrependimentos tal como não há baias nem medos. Entre risotas, não apenas batem bolas como, na maior das alegrias, chutam à baliza. Três mulheres que se alimentam da amizade, do riso e do futuro que têm pela frente.
Ao ouvi-las lembrei-me de no outro dia a minha mãe nos ter perguntado se uma conhecida, uma que até há alguns anos era do mais jetset, com vários editoriais e reportagens em família, ainda era viva. Há algum tempo que não ouvimos dela. A minha filha disse que sim e contou que a tinha ido ir ver ao hospital. Ao chegar, pensou que estava a dormir e disse à acompanhante que voltaria mais tarde. E que, para grande surpresa, da cama, ela exclamou: 'Não 'tou nada a dormir! 'Tou acordada, atão não vê...? Sente-se aqui, querida.' Diz a minha filha que estava tão esticada, tão repuxada, que nem se percebia onde estava a boca, onde acabava o nariz e começavam as bochechas e em que paravam os olhos. Diz que parecia que estava a dormir. Afinal estava era tão repuxada que não se lhe dava por sinais de vida.
Foi como noutra vez, já aqui o contei, um amigo ao mostrar-me a reportagem fotográfica de um evento a que tinha ido e ambos, na fofoca, comentando este e aquele. Até que ele disse: 'Olhe, a sua amiga'. E eu, a olhar para um grupo em que estavam dois casais a conversar e sem conhecer as mulheres. Os homens eu conhecia, e bem, mas não as mulheres. 'A minha amiga...?', eu, sem ver qualquer amiga. E ele: 'Olhe bem. Atão não 'tá a conhecer?'. E eu, vista apurada: 'Não...'. Até que ele disse o nome dela. E eu: 'Nãããooooo...'. Por mais que olhasse não me parecia nada ela. E ele: 'Atão não vê...? Repuxou-se outra vez. Ela e a mãe estão quase iguais.'. Nem uma ruga, nem uma pelezinha mais flácida. Tudo em cima. Irreconhecíveis face ao que eram antes. Viciadas em plásticas.
Mas é lá com elas, claro.
O que me espanta é que não têm medo de anestesias nem do desconforto pós-operatório. Há quem faça preenchimentos e choques vitamínicos na pele e raspagens na pele e sei lá que mais. Mas há quem vá mesmo à faca e opte por retirar vários anos de cima. O pior é que, no acto, perde-se a expressão.
Mas, se calhar, é preconceito meu. Se calhar, se houvesse uma maneira fácil, indolor, caseira e eficaz de eliminar rugas ou de eliminar os vestígios da idade, se calhar eu até tentava. Mas tinha que ser coisa pouca, ao de leve, que não me descaracterizasse. Uma coisa como fazer depilação em casa.
Mas, enfim, passemos ao que interessa: a conversa aqui das minina. Não há tabus, não há nada disso: só espontaneidade e graça.
VALE TUDO PARA SE SENTIR JOVEM | Avós 182
____________________________________
Fotografias de Cho Gi-Seok na companhia de Sarah Vaughan que interpreta Tenderly