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segunda-feira, junho 15, 2026

Depois de um valente susto, um milagre. Talvez, até, dois milagres.
Talvez até por isso, faça coro com as pessoas do vídeo: há que dar valor às coisas boas da vida

 

Este domingo, um dia tão lindo, apanhei um susto enorme: o meu cãobeludo estava com uma bola enorme, no mínimo do tamanho de um ovo, na 'barbela' ou lá como se chama aquela parte da pele do pescoço, ali naquela zona abaixo do queixo, uma bola grande ali pendurada. Sempre fui maricas com os meus e, desde que tivemos a nossa cãzinha, ela, de certa forma, passou a fazer parte dos meus. E este cão, que nos tem dado tantos trabalhos, também o é. À sua maneira, mas é. Claro que fui logo para a IA e recebi possibilidades, umas assim-assim, outras talvez e outras mais perturbadoras. Uma bola tão grande não era forçosamente muito tranquilizante. É que foi tosquiado no fim da semana (para evitar mais sarilhos com a porcaria das praganas, que ainda há três ou quatro dias saiu de uma infecção numa pata por causa de uma) e, portanto, poderia já a ter e não termos visto, debaixo de todo aquele pelo. Nestas alturas a minha energia esvai-se. Não são só as piores perspectivas que me assustam, é todo o processo, o levá-lo ao veterinário que ele odeia, o ter que fazer tratamentos que ele odeia e não permite, transformando tudo numa complicação, e é, sobretudo o receio do que pode seguir-se. Felizmente, lembrei-me de perguntar ao grupo da família, e no sábado tinham cá estado todos, incluindo a fazer-lhe festas, se tinham reparado. A minha filha respondeu logo que não, e mandou fotografias que lhe tinha tirado: zero bola.

Já tinha marcado consulta, mas a certeza de que todo aquele volume se tinha formado em menos de 24 horas assustou-me. Liguei à veterinária que me disse que provavelmente era uma reacção às vacinas que levou no mesmo dia. Que lhe fizesse massagem circular ao de leve. A verdade é que, depois de ter estado o dia todo sem se mexer, sem comer ou beber água -- o que nos deixou ainda mais apreensivos --, de repente, parece que despertou, bebeu, bebeu, bebeu água como se não houvesse amanhã, comeu, correu, correu e saltou e, aos poucos, com o exercício e as massagens, a bolazona foi ficando mais reduzida.

Portanto, ao fim do dia, comecei a respirar de alívio.

Fui, então, para o jardim, respirei, fotografei, agradeci aos deuses, às flores, às árvores, aos pássaros, aos céus e, no meio do encantamento, descobri um botão de magnólia. Um único. Outro fenómeno.

Quando está com os ramos nus, a magnólia rebenta em mil flores. Depois caem as flores e nascem as folhas. Está agora assim, verde, frondosa. E já não nascem mais flores. Portanto, que milagre é este agora eu não sei. Mas adorei. Fotografei-a de vários ângulos. Há que documentar os milagres.

E o passeio que demos ao fim do dia soube-me que nem ginjas. Antes, quando tínhamos ido andar com o pobrezito, arrastava-se, incomodado, aquela bolazona ali a balouçar, pendurada, e, se calhar, todo ele sob efeito de alguma reacção, sei lá, bem não estava. 

Enfim, parece que o susto já passou. Mas amanhã lá vamos outra vez para a clínica veterinária. Ainda há bocado o meu marido dizia que não sabia como fazem as pessoas de menos posses. No espaço de cerca de uma semana, entre tratamento da infecção da pragana, tosquia, vacinas e a ração que encomendei ontem já lá vão para cima de trezentos e tal euros. E, que eu saiba, não há nenhuma versão económica para tratamentos veterinários no caso de donos de menores recursos. 

Mas adiante. 

Agora, ao sentar-me aqui, vi o vídeo que partilho de um rapaz que faz entrevistas interessantes. Aqui entrevista pessoas de maior idade, ao acaso, e, no fundo, leva-as a reflectir sobre o que fizeram de bem ou de mal na sua vida. Gosto de ouvir. Revejo-me em muito do que ouço, revejo-me no gosto de viver a vida com leveza, no bom que é a gente maravilhar-se com as coisas simples da vida.

Perguntar a pessoas de 70 anos sobre os seus maiores arrependimentos na vida

Neste vídeo, perguntamos a pessoas desconhecidas na casa dos 60, 70 e 80 anos, algumas das pessoas mais velhas e experientes do planeta, sobre os seus maiores erros e arrependimentos na vida, conselhos que dariam a si próprias mais jovens e outros conselhos valiosos que gostariam de ter aprendido mais cedo. Vídeo gravado em Montreal, Canadá.


Desejo-vos uma boa semana a começar por esta segunta-feira

terça-feira, janeiro 09, 2024

A beleza de viver

 


Claro que o dia foi pessimamente escolhido. Chuva e um impossível frio antártico, dentro e fora de casa. 

Mas, nas actuais circunstâncias -- antes, antevendo o que estava por vir, depois, os exames e consultas, depois as idas aos hospital e, em cima disso, sempre temendo que alguma coisa aconteça --, já não íamos ao campo talvez há um mês. Tempo demais.

Como a minha mãe felizmente está francamente melhor e esta segunda-feira a minha filha lá ia, resolvemos tirar, nós os dois, o dia de folga e, depois da visita no domingo, seguimos para o campo.

Chegámos de noite. Não vos digo nem vos conto... Um gelo. Mal abrimos a porta sentimos logo: parecia que estávamos a entrar numa câmara frigorífica. A casa gelada, gelada, gelada. 

Ainda por cima, como há algum tempo, creio que no verão, estiveram a colocar tubagem nova na salamandra, agora, ao acendê-la, desatou a sair uma fumarada. Portanto, noite gelada, tivemos que abrir as portas para limpar o ar. Ou seja, mais frio entrou.

Afinal, hoje, de dia, o meu marido esteve a inspeccionar a situação, voltou a colocar lenha e a deitar-lhe fogo e percebeu o que se passava. Quem lá esteve, instalou um registo no tubo. Pelo menos foi o nome que ele deu a uma coisinha que roda que, se bem percebi, ou deixa ou não sair o fumo. Portanto, rodou aquilo e imediatamente o fumo deixou de sair e a sala ficou quentinha. 

Só que hoje, para além do gelo cá fora, choveu todo o dia. Portanto, não esteve agradável. Se fosse para estarmos mais dias, ao segundo ou terceiro dia já a casa se teria climatizado e já se estaria bem. Além disso parece que esta terça-feira já nem vai chover. Mas querendo vir esta segunda-feira, mal deu para usufruir. Chegámos no domingo à noite e saímos esta segunda, por volta das seis e meia. Não deu para nada. Ou melhor, para quase nada. Quase.

É que, seja como for, vá lá eu saber porquê, tal como sempre acontece quando lá estou, dormi que me fartei. E só isso já é bom. E dormi sem acordar a meio, sem sonhos maus. Dormi que foi um regalo. Acordei descansada.

E ainda consegui dar uma esticadinha pelo campo. De sombrinha aberta, com frio. Mas que se lixem as condições atmosféricas adversas quando se está in heaven.

A terra está verde, atapetada de musgo, há zonas cobertas de etéreos líquenes, o feto que nasce todos os anos de sob uma pedra está viçoso, pujante de vida, um tronco caído de uma pequena árvore, descarnado, parece uma espada esperando o momento de ser garbosamente empunhada, há cogumelos carnudos, húmidos, de um rubro antigo, e encontrei um, imagine-se, lilás, irreal. 

Fascino-me. 

Não preciso afastar-me da minha casa para descobrir maravilhas do outro do mundo.

E depois confirma-se o milagre pelo qual eu tanto esperava: os esquilos voltaram. Sob alguns pinheiros voltaram a aparecer as pinhas roídas. Que alegria. Espero que nunca mais tenhamos que fazer alguma coisa que os assuste e afugente. Gosto de sabê-los por lá, confiantes, livres, como se aquele fosse o seu heaven.


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Agora que tenho estado cara a cara com os mistérios da finitude da vida, com a fragilidade e, ao mesmo tempo, a força dos fios que unem os corpos à vida, gostei imenso de ver o vídeo que abaixo partilho. Também eu me tenho interrogado sobre muitas coisas e me tenho imposto a necessidade de degustar com prazer os pequenos prazeres: olhar o céu, deixar-me estar a ver o voo de um pássaro, encantar-me com a perfeição de uma flor efémera e campestre, contemplar os muitos tons de verde, ouvir uma música de olhos fechados, pensar naqueles que mais amo, sentir e agradecer a paz à minha volta.

The beauty of living

Wrinkles, lines, scars - there are many ways that time leaves its mark on our bodies.  Yet mainstream culture dreads getting older - we are urged to fight the ageing process, and many feel pressure to lie about their age.  But as Betty Friedan famously said: "Ageing is not 'lost youth' but a new stage of opportunity and strength."  

With age can come confidence, and freedom to realize who we really are.  As we age, we grow into a deeper kind of beauty, one which works its way from the inside out. It’s a more authentic beauty because it radiates from within.  So let’s celebrate lives well lived. And feel lucky to wake each morning to appreciate what the new day has to offer.

Filmed in McGregor, South Africa. 

Featuring Annie Norgarb.


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Um dia bom
Saúde. Boa sorte. Paz.

sexta-feira, dezembro 03, 2021

As moçoilas do cabelo às cores dizem: escute os sinais e respeite seu momento.
E eu não posso estar mais de acordo.
E claro que a culinária aqui vem completamente a despropósito. Mas fazer o quê...?]

 


Estes dias estão a transbordar. Muito trabalho e, em cima de uma agenda demasiado preenchida, há a campainha a tocar com entregas, telefonemas das mais diferentes proveniências, o urso cabeludo a precisar de atenção -- e eu sozinha em casa. 

Chego ao fim do dia com a cabeça feita em água. Por vezes, aqui à noite, penso que, no dia seguinte, deveria pensar nos presentes de natal. Uns já despachei mas, na verdade, uma ínfima minoria. Mas depois, durante o dia, falta o tempo. Claro que agora, em vez de estar para aqui feita carpideira, bem podia estar a puxar pela cabeça e a navegar, de site em site, escolhendo presente para um, presente para outro. Só que esta cabeça aqui, a esta hora, já não deita sumo, só palavras desasadas. E escolher presentes sem inspiração nem energia não é boa coisa. A escolha de presentes requer uma boa vibe, uma boa onda, a good mood, senão vira burocracia, coisa falha de validade.

Há-de aparecer a vontade. Portanto, adiante.

Ao fim da tarde, num ápice, fui até ao supermercado. Não tinha bananas em casa e isso é coisa que não pode faltar. Desde que me lembro, ao pequeno almoço, uma banana não me escapa (entre outras coisas). E não sabia o que fazer para o jantar. Então vi um lombo de salmão à provençal, congelado. Fiz como recomendado e acompanhei com um arroz com muitos legumes. Ficou bom. Vou dizer como fiz o arroz:

Num tacho, coloquei azeite, uma cebola aos bocados, um alho francês, uma folha de louro e salsa em boa quantidade. Refogou ao de leve. Quando estava tudo molezinho, juntei três tomates maduros aos bocados, um molho de feijões verdes também cortados aos bocados, metade de uma courgette cortadas aos bocadinhos, um pouco de sal, pouco, sempre pouco. Ficou tudo a cozinhar devagarinho. Quando estava tudo bem cozinhadinho, juntei um bocadinho de abóbora também aos cubinhos. Juntei dois copos de água, deixei ferver, Juntei um copo de arroz basmati. Quando ficou quase sem caldo disponível, desliguei e deixei o tacho tapado a apurar. Modéstia à parte, estava bem saboroso. Saborosinho. Inho, inho (que isto hoje está a dar-me para os inhos -- deve ser do frio, uma pessoa até encolhe, incluindo das ideias).

O salmão foi assim: claro que, primeiro, descongelou. E a seguir:

Numa frigideira coloquei um pouquinho de azeite e cobri o fundo com uma cebola grande cortada aos bocados. Sobre essa cama generosa coloquei o lombo que tinha cortado às postas.  A pele do peixe ficou para baixo. Para cima a parte com as ervas aromáticas. Ficou para ali em fogo leve e brando, até que a cebola quase caramelizou, o peixinho cozinhou e o perfume a boa comidinha encheu a cozinha.

Quando o jantar já estava ao lume recebi um telefonema da empresa, o último do dia. Ao contrário do que é costume, boas notícias. Várias boas notícias num único telefonema. Fiquei toda contente. De repente, parece que todas as situações complicadas do dia se tinham dissipado.

E agora aqui, ao ver os vídeos do dia, uma vez mais, o das Avós da Razão chamou a minha atenção. Falam de períodos da nossa vida em que parece que estamos num impasse, improdutivas, desinspiradas, abúlicas. Uma mulher de trinta e quatro anos perguntava se as Avós já se tinham sentido assim e, em caso afirmativo, o que fizeram. E a resposta que elas deram é a que eu daria: claro que sim. Quem nunca? E, numa situação assim, não se faz nada. Espera-se que passe. A menos que a pessoa esteja doente -- com uma depressão, por exemplo, e aí deve tratar-se -- passa sempre.

Falo por mim. Sou avessa à monotonia. Essa coisa da velocidade cruzeiro não funciona comigo. Prefiro mar encapelado sem saber bem o que fazer com ele. Gosto de me sentir a desbravar caminho, a construir, a enfrentar as dificuldades do que se faz de raiz, a criar coisas, a formar equipas, a deitar obstáculos abaixo. Depois, quando está feito e apenas há que manter, eu começo a roer-me de impaciência, doida por saltar para outra. Mas nem sempre há para onde saltar. E, nesses compassos de espera em que me sinto sem pachorra para o mar flat e sem saber se me vai aparecer lugar para onde me pirar, sinto-me a aboborar, a criar raízes quando gosto é de sentir as asas a romperem das costas, impacientes por me levarem nem eu sei bem para onde.

Mas, com o tempo, aprendi. Nessas alturas, não vale a pena fazer nada. Um dia tudo se vai resolver por si. O melhor é arranjar um qualquer entretenimento mental para ajudar a aguentar. Porque é apenas uma questão de tempo. Não vale a pena forçar. Tenho para mim que o que tem que ser será. Mas só o é na altura que tiver que ser. 

A nível profissional ou pessoal sempre me aconteceu isto: depois de estar como que em hibernação mental, o próprio corpo a pedir descanso, um belo dia, sem saber porquê, acordo e aparece-me uma decisão que me vira a vida noutra direcção. Por vezes, uma ideia anda por aqui a pairar, indefinida, inconcreta, impalpável, vaga, vaga, como uma ilusão longínqua. E, do nada, aparece a cola que liga as peças, une as pontas. E, aí, é só ir atrás que a coisa se dá.

Mas eu sou eu e pouca graça tenho para falar das coisas. Agora as moçoilas aqui abaixo têm toda uma sabedoria, graça, irreverência e cabelo às cores que é impossível a gente não pensar que quando for grande quer é ser como elas. 

[Relembro: Gilda tem 79 anos, Sonia 83 anos e Helena 92 anos] 

E mais nada. O resto é conversa.

Avós da Razão: Escute os sinais e respeite seu momento


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Ao longo do texto, fotografias e montagens de Grete Stern na companhia do violinista Augustin Hadelich a interpretar Dvořák: Humoresque No. 7 in G-Flat Major

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E bora lá curtir mais uma sexta-feira
Boa disposição, boa sorte e boa saúde.

domingo, janeiro 03, 2021

Faz de conta que é a crónica de mais um dia nesta absurda situação

 


Não vou gastar muito tempo a falar desta coisa que me atacou, direi apenas que pior não estou mas muito melhor ainda não. O dia foi passado, de novo, na indolência a que, se eu quiser ser menos crua, poderia chamar repouso. Calhou à tarde dar o filme da Gaga com o Bradley que a minha filha andava há tempo a dizer que visse. Gostei, boas interpretações. Tínhamos acabado de ver, não sei em que canal lá mais para a frente, o drama dos opiáceos e do álcool entre as figuras do rock americano. Uma decadência a que assusta assistir. Não conhecia a história do filme, imaginava que teria um happy end e, à medida que a trama ia evoluindo, fui percebendo que era muito improvável que o fim feliz fosse possível. Dramas infelizmente reais naquele meio. Naquele meio e se calhar em vários outros meios e, por acaso, até sei de alguns.

Para além disso, toda a tarde me debati com sono, sentindo as pálpebras pesadas; contudo, não sei porquê não consegui dormir. À hora de almoço fui fazer a minha caminhada, mas tal como nos dias anteriores, em versão light, caminhada para quase entrevadas. E a meio da tarde fui para o jardim mas senti que o frio, cortante, não iria ser de grande ajuda. Por isso, apanhei uma laranja, comi-a, sumarenta, doce e gelada, e pouco mais. A minha filha mandou-me receitas de doces com tangerinas e ando com vontade de experimentar. Mas custa-me estar de pé, sem andar, e também não sei se é boa ideia pensar em doces, depois do exagero do Natal. 

No inverno, por aqui, impera o silêncio. De vez em quando ouvem-se alguns cães a ladrar: é quando passa algum desconhecido junto à separação entre as casas. Ou ouve-se o grasnido de grandes gralhas negras. Não sei se são gralhas nem se se a sua voz é grasnido ou gralhar mas penso que é capaz de não andar longe. As rolas andam mais desaparecidas e silenciosas. Há passarinhos pequeninos que andam em grupos a debicar a terra sob a relva, para apanhar pequenas minhocas ou, então, sementes invisíveis. Quando passei ao pé da cameleira, que está cheia de camélias, aproximei-me para as cheirar e, para meu espanto, preguei um susto aos pássaros que lá estavam abrigados. Saíram, num sobressalto, as asas a bater na folhagem, voando desconcentradamente.

Mas, portanto, foi isto. Assisti durante um bocado à entrevista do João Adelino Faria à ministra da Justiça e, confesso, gabo a paciência de quem se sujeita a um interrogatório acusatório daqueles, pesporrente, sem querer ouvir as respostas nem perceber o que se passou, apenas julgar, condenar, empolando e dramatizando uma coisa que, sopesando os factos e colocando-os em perspectiva, podem ser desagradáveis mas, do que percebi, não maculam o todo. Mas o João Adelino Faria, encarnando o implacável e embrutecido agente inquisidor, não estava ali para ouvir Francisca Van Dunem. Juro que, se fosse comigo, lhe diria que, se era para apenas se ouvir a si próprio e tirar conclusões dos seus próprios raciocínios, então a minha presença era escusada pelo que iria levantar-me e dar a entrevista por acabada. Claro que, por estas e por outras, é que eu nunca aceitaria um cargo público. Falta-me a paciência para exibicionistas, ainda por cima com comprovado défice cognitivo.

Entretanto estou a ver, na Sic Caras, um programa que mostra a vida a bordo de um veleiro. Eram 6 clientes e uma tripulação para aí de oito ou mais. Conheço umas pessoas que, até há algum tempo, mais propriamente enquanto o pai era vivo, todos os anos iam num grande iate passar férias no Mediterrâneo, o avô, a família toda. Não sei quantas pessoas estariam a bordo como convidados, imagino que umas boas dezenas. Nem imagino o que seria a tripulação para uma coisa destas. Mas agora que digo isto, acho que estou a fazer confusão, acho que era apenas o avô e os netos. Portanto seria muito menos gente. Quando uma vez me disseram o valor da brincadeira pensei que não podia ser. 'Ai pode, pode...', asseguraram-me. Lembro-me que, na altura, perguntei: 'Mas não lhe ficaria mais barato que o barco fosse dele em vez de estar a alugá-lo?' e perguntaram-me: 'mas quem é que disse que não é?'. Outros números, outras escalas, outras vidas, outros tempos. 

Claro que nunca me vi metida numa destas. O mais aproximado, e de aproximado não tem nada, foi um barco fretado para passear no Tejo, com almoço, música e bebidas até ao sunset. Uma coisa exclusiva para convidados, onde estava la toute Lisbonne. Hoje estas coisas seriam impensáveis. Um notável advogado, muito mediático e namoradeiro, espalhava charme às descaradas. Um empresário e um ex-ministro segredavam. Muita malta bebia como se o romantismo da cidade visto do rio pedisse um espírito etilizado. Alguns queriam dançar e era divertido vê-los a tentar controlar o balanço do barco e a sua mal disfarçada euforia. Ainda devo ter para aí um polo de excelente qualidade que nos ofereceram de recordação. E acho que mais qualquer coisa, não me lembro. Lá está: outros tempos. Por fim, já estava era deserta que aquilo acabasse mas não dava para sair antecipadamente, saídas à francesa num passeio de barco não são muito convenientes. Tive que aguentar.

Bem. O resultado de dias de repouso forçado dão nisto: zero de que falar. A ver se amanhã consigo energia e motivação para ao menos pegar num livro. Detesto ter tempo livre e, ao mesmo tempo, falta de vontade para o usar de uma forma minimamente razoável.

Deixo-vos, uma vez mais, com um dos vídeos que o algoritmo do youtube anda a recomendar-me que vejo sempre de gosto. Cada vez mais, tenho para mim que não é preciso procurar muito a felicidade. Temos é que saber de que é que gostamos. E, sabendo, focar-nos nisso, não nos metermos por caminhos que nos afastam do que verdadeiramente  gostamos. Se, por exemplo, a minha cara Leitora gosta é de altos e espadaúdos que a peguem ao colo e tenham a vida de entrosamento e empatia com que sempre sonhou, seria de bom senso meter-se com um zé cueca que mais não é do que uma mala sem alça? Não, não é? Ou, se gosta de uma vida animada e que inclua passeios e encontros de amigos, não vai acomodar-se a uma vida que não inclua nada disso, não é? Ou se gosta de viver na montanha, conduzir tractores e andar com memés ao colo, vai arranjar um emprego das nove às cinco onde não veja nem nesga se terra? Ou, se gosta de descobrir e estudar literatura, vai estudar marketing? Ou se gosta de jardinar, escolhe viver num lugar onde não consegue nem ter um vaso na varanda? A vida é uma só e é apenas o que fazemos dela. Os vídeos da Green Renaissance são muito nesta onda, de sermos fiéis àquilo de que gostamos. É esta também a minha onda.

Uma vida plena 

Maggie Fourie, uma mulher imparável

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Pinturas de He Sen ao som das Ghostly Kisses a interpretarem The City Holds My Heart

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Desejo-vos um belo dia de domingo
[Amanhã tentarei responder aos comentários e aos mails, hoje já não tenho energia., sorry]