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domingo, outubro 23, 2022

Tricot ou podcast?

 


Passou por aqui uma antipática e controversa criatura que opina sempre com enervante sobranceria. Estava a falar dos mercados, pareceu-me. O meu marido, que é quem estava com o comando, tirou-a logo da nossa sala. Mas disse que ela era capaz era de ter jeito para filmes pornográficos. Dei-lhe razão. Uma impiedosa dominatrix. Não consigo perceber qual o racional que justifica que alguém contrate tal pessoa para falar em televisão. É má, antipática, tendenciosa e, receio bem, algo perversa. Poderia dizer 'parva' mas não digo, estou em dia bom.

Estou é com muito sono. Levantámo-nos cedo para irmos com a fera à sua aula. De quinze em quinze dias vai mostrar os progressos que fez e aprender novas técnicas. As aulas são mais para nós que para ele. Ele aprende logo. Nós é que nem tanto.

Depois de ter começado, no primeiro dia, por querer atacar e, à bruta, fazer de tudo para afugentar o instrutor, pessoa com pós graduação em comportamento canino (coisa que desconhecia que existisse), agora está amicíssimo dele. A gente queixa-se que é um urso, implacável com estranhos, e... ele derretido e aos beijinhos ao homem. A gente diz que ele é um teimoso e um maluco e... ele obedece a todas as ordens e porta-se como um fofo. Só visto. Contado não se acredita.

A seguir demos um passeio pelo parque, grande parte do tempo debaixo de água. Bonito mas molhado, o passeio.

Dali seguimos para casa da minha filha para ajudarmos em tarefas de arrumações e decorações. Os rapazes crescem, precisam do seu espaço, têm as suas coisas que já não são de criança. 

Viemos de lá à tarde e eu achei que estava merecedora de um gelado, daqueles maravilhosos. Ocorreu-me, até, que poderíamos ir passear ali perto, para a Guerra Junqueiro, lugar de que muito gosto e que, em tempos, esteve elencado para lá arranjarmos casa. 

Não descobrimos, na altura, mas descobrimos ali perto, na Avenida da Igreja, muito perto do jardim. Era um apartamento com seis assoalhadas, grandes, e que tinha até um logradouro, transformado num jardinzinho simpático. Entusiasmados, apalavrámos. Nós dois na maior alegria. O pior era em casa. Enfrentámos uma resistência tão forte por parte dos nossos filhos, uma frente unida, que não tivemos outro remédio senão desistirmos. Eu e o meu marido achávamos que viver ali, numa zona tão simpática e tão perto dos nossos trabalhos era o máximo. Eles, conservadores, não quiseram mudar de sítio. Ela já namorava e nem pensar em deixar de morar ao pé do namorado. Ele praticava um desporto cujo pavilhão era perto de casa e da escola e recusava-se a mudar. Cedemos. Pouco tempo depois ela mudou de namorado e ele fartou-se daquele desporto. É no que dá irmos na conversa dos filhos...

Mas dizia eu que me tinha ocorrido ir até à Guerra Junqueiro. Afinal desatou a chover que deus a dava. Ainda comi o gelado. Duas bolonas: gianduja e cheesecake. Se era para a desgraça, que fosse das valentes. Bom, de morrer a chorar por mais. Quanto ao passeio, desistimos. Voltámos para casa, fui ao supermercado e, depois das coisas arrumadas, fizemos o passeio do costume, por aqui mesmo.

Quando regressámos era de noite. O dia inteiro fora de casa. E um sono...

Outra coisa. Chega o mau tempo e a gente que anda o ano quase todo de manga curta, fica com vontade de aconchego. 

A minha mãe, por exemplo, anda com alguma vontade de fazer um casaco de malha para ela. 

Escolheu um modelo que nos mostrou e que não mereceu o nosso apoio. A minha filha disse que era um casaco à velha. Eu também achei, sobretudo pelo cor de castanho acinzentado escuro, coisa deprimente. Está a caminhos dos noventa mas não a vemos, e não queremos ver, como velha. Ontem disse que viu um, numa loja, que era bonito. Pensa aquilo que eu pensei quando me desmotivei de fazer camisolas e casacos de malha: há tanta coisa à venda a bons preços que, na volta, não faz muito sentido gastar-se dinheiro em lãs ou gastar tempo a fazê-los. E já falava era de fazer-me mais um poncho. Não me desagrada a ideia pois gosto imenso de ponchos. Mas há casacos de malha tão bonitos que resolvi fazer uma pesquisa e enviei-lhe uns quantos por mail. Casacos elegantes, modernos, com cores de gente que gosta de viver e de confecção pouco complexa. Gostou. A ver se a convenço a fazer um que é lindo.

Só que, ao pesquisar casacos e ponchos, também eu fiquei com uma vontade danada de pegar em lãs e desatar a improvisar, a fazer peças originais, com modelos coloridos, com um toque macio. Que vontade... Há quanto tempo... Até uma manta macia, linda, com um mescla de cores fluida. Que vontade de fazer.


Ando nisto. Com vontade de apagar mails de trabalho até que a caixa de correio fique no osso e com desejo de artesanato, tricot, crochet, tapetes. Penso que Freud explicaria isto. Mentalmente já estou a fazer a transição, não será?
Mas entre a vontade e a concretização vai uma grande distância. Já sei que não vai dar. Para me atirar às coisas tem que ser com dedicação e foco. Não dá para andar a pensar em criatividades e, ao mesmo tempo, com a cabeça enrolada em mil problemas. Ou então faço como antes: à noite. Só que, se me atirar a isso à noite, bye bye blog. 

Também posso enveredar pela versão podcast. Com as mãos vou fazendo casacos, ponchos e mantas e com a boca vou falando estas coisas que para aqui escrevo. Será que funcionaria?


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A música chama-se The heart asks pleasure first e é da autoria de Michael Nyman e faz parte da banda sonora do magnífico O piano

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Um bom dia de domingo

Saúde. Tudo de bom. Paz.

quarta-feira, maio 02, 2018

As mulheres no mundo do trabalho





Não sinto que tenha sido prejudicada, a nível profissional, por ser mulher, mas talvez eu seja uma excepção. Não sei, se quisesse ter funções de maior responsabilidade do que as que tenho, se as poderia ter mas nunca tirarei isso a limpo porque não tenciono querê-las. Há um ponto em que o aumento de responsabilidade tem a óbvia consequência de uma redução na qualidade de vida. Sem me dar conta, de forma natural e progressiva, fui-me tornando muito dependente das responsabilidades que fui assumindo. Muita da minha paz de espírito ou tempo de descanso têm sido consumidos por eu, simplesmente, não poder virar as costas às minhas responsabilidades. Mas mais do que isto não. Sempre estabeleci uma fronteira muito clara: nunca o trabalho poderia afectar a minha disponibilidade para os meus filhos (em especial até serem adultos e agora também, sempre que necessário, para os filhos dos meus filhos), para o meu marido e, agora também, para os meus pais. Equilibrar o tempo para a família e para o trabalho sempre foi árdua ginástica mas tem resultado. E penso que é aqui que se estabelece parte da diferença entre homens e mulheres a nível profissional. Os homens facilmente dão o passo que desequilibra a sua presença na família em favor da presença no trabalho. Mas isto advém de um outro aspecto que, em si, é causa e consequência da preponderância masculina em alguns cargos ou profissões: o excesso de horas de trabalho fora de horas. Há este mito de que, para desempenhar algumas funções, tem que se estar sempre disponível, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Engano.
Quantas famílias se desfizeram ou não chegaram, sequer, a fazer-se para alimentar este estúpido mito?
Voltando a mim. Também não creio que ganhe menos por ser mulher mas também não tenciono tirar isso a limpo. Sou desprovida de sentimentos de inveja ou despeito. Por onde tenho passado nunca os ordenados foram tabelados. Cada um ganha o seu ordenado. Também, anualmente, em função dos resultados das empresas e das avaliações, recebemos um prémio. Nunca quis saber se o que recebo é maior, menor ou igual ao dos outros. Não quero saber. Recebo o que me pagam sem questionar. Acho que o que ganho chega e sobra para as minhas necessidades e, como não me comparo com ninguém, também nunca arranjo pretextos para me aborrecer.

Contudo, grande parte dos meus colegas ou subordinados não é como eu. E, ao longo dos anos, tem-me sido dado percepcionar como a maior razão de descontentamento das pessoas se prende com o sentimento de injustiça. Nem sempre têm razão. Aliás, na maior parte dos casos, em minha opinião não a têm. Isso resulta de quase toda a gente se achar melhor do que é. É natural e, por isso, todos devemos ter isso presente e, por conseguinte, dar o desconto quando achamos que deveríamos merecer mais do que o que recebemos (seja dinheiro, reconhecimento ou afecto).
A forma como os outros nos vêem não é a mesma que a nossa. Nós tendemos a ser generosos e tolerantes connosco e implacáveis justiceiros para com os outros e isso distorce a percepção de justiça relativa.
Mas, a propósito disto de ser mulher num mundo profissional em que a maioria dos cargos de poder são ocupados por homens, devo dizer que o que acima disse em relação a mim, não significa que ache que sou um bom exemplo do que se passa, em geral. Tenho tido a sorte de trabalhar em empresas civilizadas e, portanto, não posso vitimizar-me. Contudo, a análise estatística das remunerações por género mostra bem como há um caminho a percorrer.

A desigualdade é ainda uma realidade.

Como já o referi algumas vezes, tendo eu partido de uma posição convicta contra as quotas, hoje estou certa de que, se não se for lá à força, através de quotas que imponham a presença feminina em cargos tradaicionalmente reservados a homens, não se vai lá.

Só quando as mulheres passarem a estar nas direcções das empresas, nos governos e em todos os lugares de decisão podermos ter equilíbrio e justiça pelas estruturas organizativas abaixo. Com mulheres nos órgãos de decisão, certamente muitos paradigmas se alterariam. Trabalhar em excesso, trabalhar como se não fosse essencial equilibrar o tempo de trabalho, o tempo de lazer e o tempo de descanso, como se a família e os amigos não fossem um esteio indispensável no equilíbrio emocional de qualquer pessoa, impor condições rígidas de trabalho quando as pessoas moram longe, não têm com quem deixar os filhos ou os pais e não têm dinheiro para arranjar apoios -- é qualquer coisa que uma sociedade evoluída e socialmente responsável não deveria admitir. E, estou em crer, as mulheres, porque sempre foram mais sacrificadas, são mais sensíveis aos problemas advenientes pelo que, mais facilmente, se tiverem poder, quererão mudar o estado das coisas.

Volto a mim num aspecto que é marginal mas, nem por isso, despiciente: apesar de não me sentir discriminada, sei bem como, por vezes, a presença de uma mulher em lugares de direcção é um factor de desconforto ou de desestabilização. Quando mais de uma dúzia de homens estão juntos, em ambiente informal, o espírito de equipa coeso e forte, e a conversa avança, naturalmente, para futebol, para anedotas brejeiras, para marcas de carros e para coisas do género, naqueles momentos em que não consigo alimentar grande conversa em torno desses temas, volta e meia dou por mim a pensar que eles prefeririam que eu não estivesse ali a perturbar o ambiente, a fazê-los ter algum cuidado ou a terem que puxar um bocadinho pela cabeça para arranjar assunto para fazer sala comigo. Irrelevâncias, é certo. Mas quantas vezes, na hora de escolherem mais um elemento para o seu inner circle, os homens -- pela facilidade de não terem que fazer concessões, para poderem estar à vontade ou, simplesmente, para não serem pressionados para mudar algumas coisas -- não optam por escolher um homem e não uma mulher? Portanto, pelas pequenas razões e pelas razões de fundo, desejo que as quotas de género sejam obrigatórias e que haja danos reputacionais para as empresas ou instituições em geral que não as levem a sério.

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A mulher na primeira fotografia é Jacinda Ardern, primeira-ministra da Neo Zelândia (que, por acaso, está grávida). A pintura, que pretende traçar um não paralelismo dos tempos, é de William Henry Margetson: At The Cottage Door, c.1900.

sexta-feira, março 24, 2017

De olhos completamente fechados





Terei, então, que fechar os olhos? Terei? 

Terei, então, que deixar que o azul e o verde e os pássaros venham pousar nas pálpebras que deixo correr sobre os meus olhos cansados para que o dia não venha mostrar-me a realidade cinzenta e triste?

Peço segredos e cânticos e nada recebo, peço um pássaro amarelo e macio cantando na janela ou um bicho arrogante exibinto os seus aparatos sobre o meu corpo, e nada recebo. Nada.

Peço silêncios e palavras leves como sonhos -- e nada.

Continuo rodeada por ruído e penares.

Mas não faz mal. Fecho os olhos. Sacrifico-me. 

Fecho os olhos e vejo lagos, sombras floridas, borboletas, pássaros, nenúfares. Verdes, azuis, encantos.

(Mas vem na mesma.) 

Traz-me poemas, céus estrelados, campos de trigo, aldeias maravilhando ao sol, bichos dourados, ciprestes eternos, sempervirens, céus ondulando, nuvens azuis como marés, ventos quentes, doces memórias.


Vem.

Traz nas mãos as tuas palavras mais puras, vem dizendo coisas como jardins de jasmins, rochas cobertas de limos e conchas, conta-me de abismos e paraísos.
Esconde lamentos e saudades, não me fales de lágrimas nem de mãos vazias, nunca me digas palavras duras nem da dureza que, por vezes, habita o teu coração. Não me digas porque não posso acreditar. Nem quero.
Por isso, fala-me apenas de videiras, de roseiras luzindo à luz do sul, fala-me de muros de alvenaria, de bichos dormindo ao sol, fala-me de anémonas, de mares sem fim, fala-me de pombas desenhadas em quadros que cantam a paz, fala-me de gatos e de deuses. Conta-me de ti. Conta-me mentiras.


Ou não digas nada. Deixa apenas que ouça a tua respiração.

Fecho os olhos. Fecho os olhos em silêncio, penso em poemas longínquos, palavras brancas, alvores, rios que me enleiam. Vejo montes, vulcões, ondas e nevões, planícies e pássaros, lonjuras e flores de gelo, azuis, muitos azuis, e o branco de onde tudo nasce. Ouço a tua voz que nunca ouvi, vejo o teu olhar cego que me olha sem me ver, sinto o teu corpo que me cheira como um animal vadio.

Não quero saber de nada. Quero imaginar brincadeiras, risos, patos no lago e crianças a atirarem pão, quero imaginar flores no meu cabelo, palavras brandas como carícias incertas, quero jogar às escondidas, quero ser aquela que não existe, invisível, sem nome.

Quero ser aquela que, de eyes wide shut, inventa um  olhar sonhador, um olhar louco e que, de tanto querer o silêncio, escreve palavras sem dono e logo as solta na noite.

Agarra-as, são tuas.

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Maquilhagem inspirada respectivamente em Claude Monet, Van Gogh e Katsushika Hokusai.

A música é The Sacrifice, do filme, 'O piano', da autoria de Michael Nyman

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E queiram, por favor, descer caso queiram ver o que se esconde num silêncio limpo, sem palavras

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segunda-feira, dezembro 28, 2015

Casinhas às cores, delicados mirós, corpos flutuando ao vento, muita beleza em azul


O mar descansa-me. Uma manhã de inverno ameno, andando junto à água, é um privilégio de que, sempre que posso, usufruo. Com mau tempo também gosto mas o passeio não poderia ser tão longo como este que vos vou contar.

Quase ninguém. Uma paz imensa, uma largueza de horizontes, uma frescura branca, a música das ondas e do vento ao de leve, roçando a areia.

As gaivotas adultas deviam andar ao largo. Por aqui, apenas gaivotinhos brincando tranquilamente na água, uns afoitando-se junto à rebentação, outros, talvez outras, vendo-se ao espelho no pano de água que se estende pelo areal. Quando me aproximo, esta jovem levanta ao de leve a cabeça, confere que não vou perturbar e depois continua.




Ao longo da praia vou vendo as casinhas coloridas, quase casinhas de brincar. Alguém as imaginou, escolheu os materiais, as cores. Algumas simulam moradias de veraneio, sóbrias, janelas dando para um varandim onde deve ser bom ver o sol fazer de conta que mergulha num mar em chamas. Ou ver a neblina branca por onde se escondem os barcos, os pássaros, as ausências, os dolentes silêncios.


Deve ser bom estar lá dentro destas casinhas ouvindo o mar. Deve ser ainda melhor em noites de vendaval como o que agora se levantou, que bem o ouço, de rugidos do mar, de gritos de gaivotas. Deve ser bom ler um livro dentro de uma casa destas, ouvindo música, a música dos homens, e, ao fundo, a música do mar, do vento inquietando o mar, das sereias inquietando os pescadores. Deve ser bom.


Como será uma casa destas por dentro? Gostava de ver. Terá confortos? Ou será quase nada, um colchão, uma mesa e cadeiras, um armário? Tanto faz. Quem faz o ambiente são as pessoas, o que faz a magia é o espaço que nos envolve.

Sempre desejei ter uma casa junto do mar. Uma vez andámos à procura de uma casa rente ao mar. Mas as casas que víamos eram casas impreparadas, e um alertava para as humidades, outros para os salitres, outros para a pesada manutenção. E os miúdos não queriam, estavam habituados a estar no centro, à mão de semear para qualquer amigo. A custo desisti. Conformei-me com a cidade mas o apelo do mar é sempre muito forte.


Nos dias de marés vivas deve ser assustador, terror de que uma onda vadia arraste a casa para o mar alto, a despedace sem clemência, destrua memórias, apague os gemidos de amor que se inscrevem nas suas paredes.

Mas elas sobrevivem. Pintadas, arranjadas, as cores alegres de quem está habituado a conviver com os prazeres primários: o prazer do sol sobre a pele, o prazer da água sobre o corpo, o prazer do amor no meio de nada. O prazer de viver.


Vou caminhando. Não tenho pressa, tenho uma vasta extensão de areal à minha frente, tenho um mar muito belo ao meu lado. De vez em quando tenho que correr: uma onda mais forte traz a água até mais longe, quase me molho.

Quando se recolhe, observo os pequenos despojos. E o que vejo são composições graciosas, a aleatoriedade feita arte, o outono longínquo trazido pelas águas até aqui, até junto aos caminhos que os meus passos desenham.


Tal como há tempos, penso em Miró. Sinais, signos, estrelinhas, pontos de luz, conchinhas, pedrinhas, restos de vida que o mar afeiçoou. Não mexo em nada. Limito-me a ver a harmonia das composições: uma pena quase azul, uma pena maior -- e eu penso que, talvez, com ela eu conseguisse escrever, inventar um abecedário invisível, escrever palavras cá minhas que o vento levaria, que o mar guardaria, que as ondas levariam até alguém que as soubesse decifrar -- e uma outra mais escura, e uma folha trazida de longe, bolinhas brancas, um pauzinho. E eu em volta, maravilhada, fotografando, soletrando sóis, árvores, amores intemporais, alegrias, saudades, poemas cheios de luz.


Mais à frente, outra imagem que me deixa fascinada. Fascino-me com coisas assim. Há muita beleza não declarada, invisível. Há muita beleza que se constrói por quem pousa, ao de leve, o olhar. Há beleza que é só nossa, secreta, misteriosa. O tempo acrescenta nuances -- uma sombra que prolonga o movimento, um desenho que se adivinha como se tivesse saído da nossa imaginação, talvez a dolorosa e bela tatuagem no coração de um amante inexistente --, o mar lava o supérfluo, deixa os ramos nus, a pele macia, e tudo é quase branco, quase novo, um ramo que é quase imaterial, talvez o bouquet que alguém, lá longe, quis atirar ao mar para que eu, aqui, o olhasse embevecida. Mas pode ter sido apenas o vento, ou talvez a mão de alguém sem corpo, sem nome, talvez alguém de um outro tempo, de um outro mundo, alguém que sonha os meus sonhos e adivinha as minhas palavras.


E eu deixo para trás o belo ramo que se espraia na areia, e sigo. Sei que, um outro dia, o terei de novo; talvez um dia pegue nele e o guarde comigo, num lugar especial. Talvez nesse dia ele esteja ainda mais requintado na sua essência branca, mais depurado, mais pronto para ser meu.

Mais à frente, uma menina dança, salta, contorce-se: parece uma flor oscilando ao vento. Junto a ela um cão que, certamente habituado à graciosidade da dona, já nem a olha. Brinca à sua volta, inocente e livre como ela. E a menina bailarina brilha como um raio de luz pousando no areal, e as suas pernas curvam-se no ar e toda ela é graça, ausência de gravidade, suave leveza. A vida inteira pela frente e ela ainda sem saber que são loucos os caminhos que se lhe hão-de desenhar ao longo dos tempos (assim ela os saiba perceber), que são imprevisíveis os jardins, os labirintos, os atraentes abismos, as perigosas escarpas de onde se alcança a melhor vista, que é bela a vida, tantas as sombras, tantos os esconderijos, tantos os miradouros, as grutas, os píncaros, o infinito fundo do mar, os bosques acolhedores, o amor dos homens, a ternura dos abraços. E que raras são as palavras capazes de dizer o que vai no mais fundo de nós, e que férteis são os ventos que transportam as gotas do mar e o perfume das flores de carne e paixão, e que amáveis são as mãos que escrevem, que afagam, que amam, e que doces são os olhares que se escondem lá longe, lá longe.


E eu continuo. Na volta, mais calor, o mar mais tranquilo. Nada e ninguém perturba a paz que o ondular suave do mar nos traz.

E, então, mais à frente, um outro corpo oscila. Olho-o. Durante muito tempo assim está este homem, parece um caule elegante balouçando ao vento. E um outro cão. Este descansa, talvez medite, talvez pense na graça das coloridas casinhas ou se admire com a força dos braços do seu jovem dono. Amor fiel e incondicional o de um cão pelo seu dono: o dono demora-se e ele, paciente, aguarda.

Talvez o jovem aspire o perfume que sobe da areia molhada, talvez goste de tocar o céu com a pele nua dos pés, talvez imagine que caminha sobre o azul intangível do imenso espaço.


Caminho para regressar, sem tempo, com vagar. 

Um corpo reluzente em negro sai do mar transportando uma esguia concha branca. Do outro lado, as serras desenham sombras azuis sobre o céu azul, elevando-se sobre as águas também azuis. Olhando bem, vê-se que, naquilo que talvez sejam cidades, os pontinhos brancos são casinhas, talvez casinhas de brincar habitadas por pessoazinhas de brincar, iguais a mim e a si, Leitor, pequenos seres, irrelevantes na nossa pequenez face à imensidão da beleza azul desta natureza generosa, tolerante, abençoada. Podia esta paisagem ter sido imaginada, um sonho, um deslizar do pensamento sobre o vago ondular da espuma do mar. Mas é verdadeira. Aqui, só eu sou inventada.

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Muitos dos que me lêem são de longe. Todos os dias, muito mais de cem pessoas chegam do Brasil e quase outras tantas dos Estados Unidos e outras de vários outros países. Todos os dias, desde há muito tempo. Talvez sejam leitores regulares, talvez já sintam que me conhecem, talvez gostem de estar perto das minhas palavras. Penso que, a esses em especial, tenho o dever se mostrar os lugares que me trazem esta felicidade simples e boa. E, mesmo de entre os que são de Portugal, talvez haja quem não tenha a sorte de sentir o bem-estar feito de passeios dados na areia molhada, num tranquilo dia de maresia branca evolando-se de águas azuis. É dezembro, já foi o natal, e em vez de andar sobre a neve, os meus pés procuram a água do mar, esta água bravia, cheia de vida. É dezembro, o ano está a acabar, e eu sinto-me cheia de sorte por saber que, aí desse lado, está alguém que gosta de estar aqui comigo. 

Sorrio enquanto escrevo e só tenho pena de não saber depositar o meu sorriso nas vossas mãos, no vosso olhar. E de não poder levar-vos o perfume molhado das águas do mar.
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Balada del mar no visto

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As fotografias foram feitas neste domingo de manhã no vasto areal da Caparica, um lugar de sumptuosa e tranquila beleza.

A música, The heart asks pleasure first, da autoria de Michael Nyman, pertence ao filme O piano

Para os que nunca viram este mar -- o poema Balada del mar no visto é de León de Greiff cuja voz se ouve no vídeo.

Mis ojos vagabundos,
mis ojos infecundos...:
no han visto el mar mis ojos,
no he visto el mar!
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E, embora depois de ter escrito isto e de ter escolhido estas fotografias para vos mostrar, não me apeteça, digo-o na mesa: a seguir encontrarão um texto escrito num outro comprimento de onda. Aí falo sobre a entrevista concedida a Judite Sousa pelo incontornável Jorge Jesus e, ainda pior... falo também sobre o golden boy Marques Mendes, um que também já podia ir pregar para o deserto (é que já não se aguenta tanta conversa maltrapilha, com casacos tão apressadamente virados do avesso e sempre com aquele sorrisinho lampeiro de vizinha linguaruda que já cansa).

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domingo, agosto 31, 2014

'E se os bárbaros vierem desta vez?' e 'A palavra no osso' - Ana Cristina Leonardo no seu melhor no Actual e o Expresso de parabéns por saber valorizá-la. Os leitores agradecem.


Eu sei que, no post abaixo - no qual falei na oposição a sério ao Governo feita este sábado por Marques Mendes na SIC (e agora até me estou a lembrar que o PS e o PCP bem que poderiam aprender com ele em vez de andarem na brincadeira, como andam) - disse que o post seguinte seria sobre o que andei a fazer durante o dia e que ia mostrar fotografias e tudo.

Mas, como também referi, pelo meio ainda ia dar uma espreitadela ao Expresso. E assim fiz. E aqui estou para dizer uma coisa que me faz adiar para amanhã a reportagem fotográfica prometida.









E o que quero dizer é que gostei muito da crónica da Ana Cristina Leonardo 'E se os bárbaros vierem desta vez?'. Muito justamente o seu espaço no suplemento Actual do Expresso chama-se Isto anda tudo ligado pois de liaisons, geralmente pouco inocentes, se constroem os textos de Ana Cristina. 


Desta vez, começa por ir buscar a abertura de 'Este país não é para velhos' para citar Cormac McCarthy e para depois perguntar, ela própria, Como se enfrenta o Mal sem arriscar a alma?

Um pouco mais adiante, Ana Cristina  prossegue: É impossível para quem esteja minimamente atento ao que acontece no mundo, não ter dado conta dos profetas da destruição. Perseguições e limpezas étnicas e religiosas, mortandade desenfreada, violações de mulheres, raptos de jovens e crianças, execuções sumárias, gente enterrada viva, conversão ou morte! Como uma onda gigante que se adivinhou muito ao longe e que vem galgando o mar já próxima das margens. No terreno onde tudo isto germina jorram poços de ouro negro, estende-se uma manta de petróleo. Convém não esquecer. Perante isto há quem olhe atónito a televisão, leia, incrédulo, as notícias, vá sabendo coisas de que preferia continuar ignorante. Há cerca de 70 anos, a Europa despertava do pesadelo nazi levado a cabo em nome da superioridade rácica. Hoje o que se ouve são gritos de 'Allah Akbar'. A burocracia da morte foi substituída pelo tumulto guerreiro mas depois de Auchwitz ninguém terá perdão se desviar o olhar.


Mais uma crónica marcante de Ana Cristina Leonardo. 

Têm sido variadas e todas muito boas as suas crónicas. No outro dia escreveu uma outra cheia de sul, de sol, de cheiro a figos, de sons da infância. Sendo eu neta de algarvios que rumaram a norte mas que conservaram lá as suas raízes, revi-me naquelas palavras. São assim, como ela as descreveu, as recordações que tenho das estadias nas casas das tias e primas que por lá ficaram. Lembro-me das casas caiadas rodeadas de campo, da quietude noctívaga das casas, do latido abafado dos cães, da sombra de um gato a equilibrar-se num muro, da robustez das figueiras, do leite viscoso dos figos, do aroma inebriante das alfarrobas na zona de Loulé, lembro-me de uma casa grande e fresca numa rua de Faro, do olhar reptiliano das gaivotas e do gingado nervoso das andorinhas-do-mar, de faróis, do horizonte iluminado por traineiras, da rouquidão dos motores que passam ao largo apontando à barra, lembro-me de outras casas, de outras vozes, de outros calores. Estava lá tudo, na bela crónica de Ana Cristina.

Esta semana assina também uma excelente recensão: deu-lhe o título A palavra no osso e fala do livro Ouro e Cinza de Paulo Varela Gomes. Ultimamente têm sido bissextas as suas incursões nesta área e é pena. Esta de hoje não apenas está muito bem escrita como dá uma visão muito clara do que deve ser o livro e, lendo a sua opinião, dá vontade ir conhecê-lo. Quando regressar à cidade, irei certamente comprá-lo.


Transcrevo parte do seu texto: O rigor da informação presente na frase serve-nos de trampolim: (...), não existe na escrita de Paulo Varela Gomes uma palavra a mais nem uma palavra a menos. Apenas a palavra (eticamente) justa. Ao rigor da sintaxe alia-se o rigor semântico. Em contracorrente, o edifício de palavras construído por P.V.G. não corre o risco de se desmoronar no vazio. Aqui não há crochet, há carpintaria. Não há frases em bicos de pé, há proposições com sentido. 


Os seus textos e os de Pedro Mexia, quer nas crónicas quer nas breves (e irregulares no caso dela) recensões críticas são das razões que me fazem ter vontade de ler o Expresso, fidelizam-me como cliente do jornal em papel.

Depois de no outro dia ter criticado a falta de critério na selecção de alguns colaboradores para o Expresso Diário não posso agora deixar de felicitar o Expresso pela valorização de Ana Cristina Leonardo como crítica literária. E, se me é permitido, aqui deixo uma sugestão:  bem que a sua crónica semanal Isto anda tudo ligado poderia ter mais espaço e estar em lugar de maior destaque.



Critico quando acho que devo criticar, louvo quando acho que devo louvar. E isto aplica-se a tudo e a todos.


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A música lá em cima é Big My Secret de Michael Nyman e faz parte da banda sonora de The Piano. Acho que liga bem com a Ana Cristina Leonardo.

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E por tudo e por todos, permitam que vos diga que, caso queiram saber o que achei da charla semanal de Marques Mendes na SIC e do que acho dos socialistas e comunistas que nem a brincar sabem fazer oposição, deverão descer até ao post já a seguir.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores um belo dia de domingo.



terça-feira, setembro 18, 2012

Lídia, a mulher muito triste, passa a noite no hospital


Música, por favor, para acompanhar Lídia



[Do filme The end of the Affair, da autoria de Michael Nyman - Love Doesn't End ]



O carro patrulha levou-a até ao hospital. Confusa, cansada, chorava sem conseguir dizer nada que se percebesse. Falava no emprego, no chefe, falava na mãe, nas gotas que tinha dado à mãe, chorava, não sabia dizer nada de concreto.

Puseram-na a soro, deram-lhe um ansiolítico, e ali ficou numa maca. Adormeceu de imediato.

Quando acordou, lembrou-se que tinha sonhado de novo com um cão, que estava deitada abraçada a um cão, que vinha dele um calor bom, um calor quase humano a que não estava habituada. 




Mas, de repente, percebeu que não estava em casa e sobressaltou-se, tentou gritar mas não tinha força, e foi quase num murmúrio que gritou por alguém, acudam, acudam, a minha mãe, a minha mãe, valha-me Deus, a minha mãe. Mas quase não se ouvia, era apenas uma lamúria.

Passado um bocado alguém passou e viu que estava a acordar. Foi vista de novo, agora por um outro médico, mas Lídia estava numa aflição, a voz presa na garganta e, sem força, gemia, deixei a minha mãe sozinha, meu deus, não fui trabalhar, meu deus, a minha mãe. Depois, mais tarde, uma assistente social veio ter com ela, levou-a por um braço para um pequeno gabinete. Mas Lídia, quase sem lágrimas, assustada, aflita, muito cansada, tenho que ir para casa já, deixem-me sair, por favor e já era uma súplica, embora quase silenciosa. Depois lembrou-se que não tinha dinheiro, e então rompeu num choro brando, envergonhado. Meu deus que é isto que me está a acontecer?

Achavam que não estava em condições de sair dali sozinha mas a aflição dela era tanta que a deixaram ir e marcaram duas consultas, escrevendo os nomes dos médicos e as datas numa pequena ficha que meteram na sua mala, tratando-a como se trata uma velha demente, olhe que não se pode esquecer, ouviu? Reparou que lhe pusemos um papelinho na mala com as datas? Não perca, veja lá. Olhe, qualquer coisa volte cá, ouviu? Olhe, vamos pôr na mala também a receita, depois vá aviar e comece a tratar-se, ouviu? O que a senhora teve é aquilo a que se costuma chamar um esgotamento. Tem que se tratar a sério. Percebeu? Percebeu que tem que se tratar? E que tem que cá voltar? Vá, vá lá, as melhoras e tenha calma. 

Tão atenciosos mas ela tão aflita. Não ouvia nada, só queria sair dali a correr. Mas não conseguia, estava aérea, cansada, estranha. A assistente social levou-a até à porta e fez sinal a um taxista. Ele aproximou-se e ela, habituada a estas situações, combinou, olhe, a senhora quando chegar a casa vai buscar o dinheiro para lhe pagar, está bem? O taxista disse que sim. A assistente social disse ainda umas palavrinhas ao taxista que assentiu, compreensivo.

Quando Lídia estava a entrar para o táxi, um homem que não conhecia dirigiu-se a ela. Então como está? A assistente social ficou à espera. Lídia olhou-o confusa, não percebia quem era o homem, o que queria. O homem perguntou-lhe? Então, não me está a conhecer? Não estava.  O rosto num esgar de aflição, quase sem conseguir falar, com muito esforço, conseguiu responder, não, não sei quem é mas estou com pressa, a minha mãe está sozinha, não sei se está bem. O homem percebeu a aflição e disse, sou um dos agentes que ontem à noite a encontrou e a trouxe aqui. Liguei para cá de noite e disseram-me que ficava cá até de manhã, em observação. Como estou no turno que entra às 4 da tarde, resolvi vir cá ver se está tudo bem. Tirou do bolso a identificação. Lídia ouviu sem atenção, aflita, com pressa, assustada como sempre. O homem ofereceu-se para a acompanhar. A assistente disse que era melhor. O agente disse que podia levá-la no carro dele. A assistente perguntou a Lídia se queria. Como ela não fosse capaz de decidir nada, foi a assistente social que resolveu, então, se não se importa, talvez seja melhor, pode ser que seja preciso mais qualquer coisa e, assim, o senhor, se não se importa, estando perto dela, pode ajudar. Encaminharam-na para o carro do homem, ajudaram-na a pôr o cinto de segurança. A assistente social estendeu-lhe um papel com a morada e disse, era o papel que eu ia dar ao taxista, encontrámos a morada nos documentos que a senhora tinha na carteira.

O carro arrancou e Lídia, aos poucos, foi sentindo uma espécie de alívio. Finalmente alguém que a acompanhava, alguém que a levava de carro a casa, alguém disposto a ajudar. Olhou pela janela do carro. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto mas agora havia nela uma estranha tranquilidade. Estava num carro com um desconhecido depois de uma noite passada num hospital e, no entanto, parecia-lhe que nunca estivera tão protegida como naquele momento.

Depois reparou que o homem falava. Lídia não lhe tinha prestado atenção, não sabia se ele tinha começado a falar naquele instante ou se já estava a falar há muito tempo. A voz do homem era muito tranquila. Olhou para ele. Talvez fosse dos calmantes ou de tudo o que se tinha passado, sentia-se a pairar, atordoada, tudo à sua volta lhe parecia distante, vago.

Chamo-me Paulo, dizia ele. Ela não disse nada, olhava-o com olhar vazio. Não saberia dizer como era o seu olhar compassivo ou a boca que quase parecia sorrir.




Estamos quase a chegar. Quer que entre consigo? Ela ouviu a pergunta mas não sabia o que responder. Pensou que a mãe podia estar morta e que ele a podia ajudar e, ao pensar isso, reparou que a ansiedade que sempre a tomava quando pensava nisso, parecia muito distante. Depois pensou que não conhecia o homem, podia ser um ladrão, ou que as vizinhas podiam pensar coisas ao verem-na a chegar de manhã com um homem. No entanto, não disse nada, não conseguia arranjar as palavras certas nem tinha força para as procurar.

Passado um pouco, o carro parou, o homem saíu, depois veio abrir-lhe a porta. Teve que a ajudar a soltar o cinto de segurança, ela estava sem acção. O homem acompanhou-a. 

Subiram até ao segundo andar. Depois Lídia não descobria a chave, estava cansada, apetecia-lhe desistir de procurar mas o homem ajudou-a, abriu-lhe a porta; e, apesar dela não o ter autorizado, entrou depois dela.

Lídia, lentamente, dirigiu-se ao quarto da mãe. Num primeiro instante, sentiu um sobressalto. A mãe estava destapada, de olhos abertos, imóvel, descarnada. 




Está morta. Alguém a amortalhou, pensou, mas estava estranhamente calma. Foram as gotas. Matei-a. Mas não sentia emoção alguma. De pé, imóvel, sem reacção, Lídia olhava a mãe. 

Olhou pela janela. Acabou-se tudo, pensou. Vou-me entregar. E sentia um grande alívio, é o fim, vou descansar, quem me dera morrer também, e quase lhe apetecia deitar-se ao lado da mãe, começar já a morrer devagarinho, ou simplesmente dormir.

Quando voltou a olhar a mãe, viu que esta pestanejava. Com a mesma indiferença pensou, está viva, ainda bem.

Muito cansada, respirou fundo e deixou-se ficar ali, de pé, parada, a olhar a mãe que olhava para um ponto fixo na parede. Lídia sentia-se suspensa no tempo, um tempo indefinido e longínquo.

O homem estava junto dela, em silêncio.


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As pinturas são ainda de Lucian Freud. Acho que ainda não disse que a mulher de idade era a sua mãe.

Quem quiser ler esta história desde o início poderá pesquisar aí do lado direito do écran a etiqueta 'Lídia - uma mulher muito triste'.

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Uma vez mais chego ao fim com vontade de vos pedir desculpa pela tristeza desta história. As minhas histórias não costumavam ser nada assim, não sei porque é que agora me está a dar para isto. Mas, enfim, isto acaba não tarda nada, que eu não sou dada a tristezas. Ou fica já por aqui, ainda não sei.

Seja como for, que este espírito não vos contagie. Tenham, meus Caros Leitores, uma bela terça feira!