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terça-feira, março 10, 2020

Vem deixar-me uma rosa amarela





Deixa-me uma rosa amarela. Vem em sonhos ou pela penumbra, visita-me em palavras ou em segredo. Levanta-me dos mares, arranca-me das águas onde mergulho o meu corpo ardente. Desliza pela montanha como um leopardo azul, desce em silêncio o labirinto que se esconde nos confins da floresta e vem deixar-me uma rosa amarela. 
Ouviste que ali sitiaram um país? Aquele país das ruas cheias de gente, onde todos conversam e riem alto, está sitiado. Sabias? Até aquela cidade cor de ocre cujas ruas descem até ao cais está sitiada. Está calada e com medo de ser devorada por um vírus. Não consigo acreditar e não sei como poderão viver assim, recatados, os que transbordam de vida. Não quero pensar que poderemos vir a estar também assim. Não quero pensar no inesperado e inexplicável de tudo isto. Por isso não vou falar nisto. Não me fales também.
Fala-me antes em escarpas cobertas de pequenas flores brancas e lilases e prateadas, escarpas que escorrem até ao mar. Ou fala-me de muros brancos recortados contra o sol. Ou de muralhas antigas ou de estátuas abstractas ou, simplesmente, de rochas douradas pelo tempo. Ou, se preferires, fala-me de figueiras com sombras frescas em terras quentes, carregadas de figos carnudos e gulosos. Ou de buganvílias escandalosas emaranhadas em cor e perfume. Mas também podes falar-me de livros que se arrumam e desarrumam e das histórias que se escondem neles. Fala-me de palavras que nunca ouvi e que me trazem bocados de mundos que sabes que desconheço. Fala-me daquelas grandes aves que abrem as longas asas e traçam bailados insensatos nos céus. Fala-me de outras vidas. Das tuas. Fala-me de outros mundos. Dos teus. Fala-me de segredos. Dos teus. Não ouvirei nada. Farei de conta. Como se não soubesse nada. Fala-me do que não podes falar. Manter-me-ei no desconhecimento. 

Tenho uma mesa pequena só para mim. Está ali num recanto junto à janela. Acenderei uma vela. Serei iluminada pela sua luz trémula. E terei um copo alto e estreito. E nele porei a tua rosa amarela. 


Vou dormir e vou sonhar. Se vieres de noite, não te esqueças, arranca-me do mar e deixa-me ouvir a tua respiração quente e nervosa de leopardo azul. Traz contigo o cheiro da erva molhada e das brumas nocturnas da floresta. Traz palavras envoltas em silêncio. E deixa-me uma rosa amarela. 

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Escuta. Agora vou copiar um poema para te deixar junto à janela. Usa-o como um fio de Ariadne. Percorre cada palavra como um passo no caminho para o teu labirinto.

Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho
Que obstinado se bifurca noutro,
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juíz. Não esperes a investida
Do touro que é um homem, cuja estranha
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.

Vai mas depois volta. Volta todos os dias, pela madrugada, naquela hora em que as gaivotas voam por aqui, gritando como loucas. Desce da montanha, silencioso como um leopardo azul, e vem deixar-me uma rosa amarela.

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Fotografias de Lucien Clergue ao som de Get here na voz de Oleta Adams.

O Labirinto e Las Causas são obviamente de Jorge Luis Borges que também escreveu um pequeno conto a que deu o nome de 'Uma rosa amarela'

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segunda-feira, julho 15, 2019

Podia ser a crónica de um domingo feliz in heaven
mas é, sobretudo, uma conversa mole sobre a força dos acasos





A vida é uma sucessão de acasos e não sabemos que outras vidas poderíamos ter vivido se uma conjunto de acasos não tivesse acontecido como aconteceu.

Desde logo o acaso de termos nascido e depois, a partir do momento em que somos gerados, o acaso de sermos como somos. Ainda este domingo, a casa cheia, e eu a ver como tanta criança, vários irmãos, e nenhum que se pareça com outro, Mesmo os meus filhos. Quem diria que são irmãos? Tão diferentes quer fisicamente quer na maneira de ser. Quem não saiba, não dirá que são filhos da mesma mãe e do mesmo pai.

Ela nasceu porque sim, porque eu disse que se calhar já era boa altura para termos um filho e ele, nessas coisas, não gosta de dizer que não, chegou-se à frente de peito freito e a coisa deu-se de imediato. Nasceu uma menina e quando a vi percebi logo o que o tempo logo se encarregou de confirmar: tinha puxado ao pai. Morena, cabelo preto, olhos bem escuros, alta, corpo bem desenhado.


Mamou até aos treze meses e quando acabou, ou melhor, quando pus fim a esse hábito, pensei: um tempinho de descanso e depois estará na hora de ter outro. Mas aí entrou em cena aquilo que tinha aprendido com a minha amiga médica: se a fecundação se der antes, durante ou depois da ovulação e se o meio uterino for ácido ou básico e se já não me lembro o quê, assim nasce menino ou menina. Já não sei ao certo pelo que não me arrisco a dizer aqui não vá induzir alguém em erro. Portanto, como pensei que, a seguir á menina, tinha graça se fosse um menino, se não me engano entrei numa dieta básica e andei ali a fazer tangentes, tentando perceber qual o dia certo para a coisa se dar. No primeiro mês foi ao lado e fiquei descoroçoada. Nna outra vez tinha sido logo. Não estava preparada para esperas. Pensei: caneco, terá que ser uma pontaria do caraças para ser na mouche e já estava com vontade de desistir daquela macacada das dietas e das pontarias. A minha amiga disse-me: tira as temperaturas basais para perceberes quando é que a temperatura sobe. Mas ela é daquelas pessoas disciplinadas que, quando metia uma na cabeça, não desarmava nem por mais uma. Eu queria outro filho e, assim como assim, que viesse menino. Mas não estava para demorar séculos à espera da sorte. Por isso pensei que, se não desse certo no mês seguinte, não estava para mais tiros ao alvo. A ideia que tenho é que, a comer batatas e bananas e tendo banido laranjas e afins e com a invasão do óvulo a dar-se no momento certo, com um zoidinho à maneira, a coisa se deu logo a seguir e, nove meses depois, nasceu o meu filho. Grandão, apenas uma leve penugem clara na cabeça, olhos quase claros. Não posso dizer que tenha saído à mãe porque faz dois de mim mas, pelo menos fisicamente, talvez haja nele mais de mim do que do pai. Mas sei lá. Na volta não.


Se calhar, se tivesse contiuado a comer laranjas com fartura e se o momento tivesse sido antes e não durante a ovulação, em vez deste meu filho, teria mais outra menina morena. Ou uma morena de olhos verdes. Não se sabe. E quem sabe se fossem outros os meus filhos se teria na mesma a mão cheia de pimentinhas que hoje nos alegram tanto.

E se eu, naquele dia de reunião geral de alunos, com o pavilhão a abarrotar de gente -- eu sentada no parapeito de uma das janelas -- o meu olhar não se tivesse cruzado com o daquele rapaz barbudo, cabelos pelos ombros, ar de guerrilheiro e andar de desportista que estava a entrar, olhando em volta e parando quando me viu, se calhar eu tinha continuado a namorar com quem namorava e, a esta hora, teria não estes meus filhos mas outros, muito diferentes, talvez algum com os olhos em azul-violeta daquele pai. Mas o facto de o dito guerrilheiro ali ter ido naquele dia, naquela hora, foi outro acaso pois andava a estudar numa outra universidade, numa outra cidade e, naquele dia, andando com vontade de regressar a Lisboa, foi lá informar-se e, cheirando-lhe a baderna, imediatamente se sentiu atraído e entrou no pavilhão a abarrotar para espreitar. Acasos.


E se durante o ano que, a seguir, decorreu -- em que praticamente não sabia dele porque, de facto, nada sabia dele nem fazia ideia de como encontrá-lo -- eu tivesse cedido à vontade do meu namorado que queria casar-se comigo e tivesse aceitado que o amor pode ser apenas gostar de ser amada, amizade, admiração, companheirismo, ele artista talentoso, ele poeta, eu a sua musa, uma vida desenhada nessa reciprocidade, talvez eu não estivesse tão desperta para os acasos, para procurar os imprevistos, para andar de cabeça no ar tentando que um golpe de sorte viesse pôr no meu caminho aquele que eu intuía ser o tal, aquele por quem eu viraria as costas a todas as certezas, jogando-me no desconhecido, sem pensar, sem receios.

E pôs. Ia a entrar para um concerto e vi-o. Aquela emoção sobressaltada, aquele turbilhão apaixonado, o coração tresloucado, a cabeça mobilizada para a caçada, eu a predadora pronta a atirar-me à jugular da presa, eu a sentir, com todo o corpo, que não me ia escapar. Sentei-me atrás dele. Deixei-o inquieto. Eu a vê-lo e ele a saber-se observado. Quando acabou, fui com uma amiga, ele não sei com quem. Não sei como consegui ficar sozinha. Mas fiquei. E arranjei pretexto para ir ter com ele. E logo ali ele pediu para me acompanhar. Deixei, apesar de namorar outro. Até hoje.

Há coisas que são mais fortes do que tudo o resto. Acasos que correm bem.


Se não tivesse acontecido aquele dia, teria eu vivido uma outra vida em que, apesar de feliz, durante todo o tempo, andasse à procura que um qualquer acaso voltasse a pôr aquele homem no meu caminho? Ou aquietar-me-ia? Resignar-me-ia eu a ser a eterna musa, o meu corpo descrito e cantado em belos poemas e músicas?

Ninguém poderá sabê-lo.

Vínhamos há pouco para casa. Como sempre, viémos carregados: livros, presentes, o computador, a máquina fotográfica, alguma comida que sobrou, um saco de limões que a minha mãe mandou. Até um melão que me esqueci de servir. Tinha escolhido um que me pareceu bom e, afinal, nem de tal coisa me lembrei. E tinha dito ao meu marido que podia lá ficar, escusava de carregá-lo mas, no meio daquela movimentação, um permanente entra e sai, sempre alguém à procura de qualquer coisa, nem me ouviu e, portanto, ainda foi mais essa. E vínhamos no elevador, já tarde, carregados, cansados e ele disse: e ainda é preciso pôr a máquina a lavar, estender a roupa, agora arrumar isto tudo. Um gajo não descansa. E eu disse que sim e pensei que os anos passam e continuamos a andar nisto, sempre juntos, passando por tanta coisa, a família refazendo-se, tanta gente que já se foi ou cuja vida seguiu outro rumo e tanta gente nova que chegou, alguma da qual com parte do nosso sangue correndo-lhes nas veias.


E agora, a caminho das duas da manhã, no início de uma semana que se adivinha atarefada, ainda aqui estou. Ainda vou ter que ver que fotografias posso aqui colocar de entre as centenas delas que hoje fiz. Vou passar por cima daquelas em que entra gente, vou centrar-me nas árvores e flores.

E nem tive ainda tempo para fazer algumas outras coisas como responder a mails, um dos quais bastante curioso, nem vou ser capaz de responder aos comentários. Que me desculpem. Não sei se na noite que vem conseguirei tempo pois será mais uma noite com programa. Uma avalanche de caranguejos, sabem como é. O meu marido dirá de novo: um gajo não descansa. Pois não. Mas temos o coração cheio e isso é o mais importante.


E lembrei-me de aqui ter 'You are the reason' a abrir e o 'Get here' a fechar pois não há nada como realmente e, tirando isso, pouco mais tenho a acrescentar. Por agora.


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E a todos desejo uma semana feliz, a começar já por esta segunda-feira.

Saúde, sorte, alegria e amor a todos, sejam epicuristas, estóicos ou nem uma coisa nem outra.

sábado, outubro 10, 2015

Ó Prof. Marcelo, olhe que o último a dizer que queria pagar ao País o que o País lhe tinha dado, não se deu nada bem. Falhou em tudo e acabou por se demitir. Foi o colossal Vítor Gaspar que, depois de ter não ter percebido porque é que a receita aqui lhe corria tão mal, foi experimentar para outras bandas

E um planeta com um céu azul para quem quiser estar mais perto de mim.


Não posso fazer de conta que ando muito bem informada porque não ando. Os meus dias têm sido marados de todo, e o que sei é o que ouço no carro ou, agora, numa espreitadela à pressão depois de ter chegado a casa depois da meia-noite (cineminha, meus Caros, e o bem que me soube O Estagiário...).




Mas basta-me ter visto o título das notícias para achar que o Marcelo das Vichyssoises virtuais não está a começar bem.

Diz que está disposto a servir como presidente para pagar dívida a Portugal. Mas daqui eu lhe digo: se o País lhe deu muito, acho que ficamos assim, a malta é desinteressada, a malta não está à espera de retribuição, fique lá o que lhe demos, senhor.


Depois de, compulsivamente durante anos, fazer intrigas, depois de manipular tudo o que lhe ocorre, seja por uma causa, seja só porque sim, de falar de livros da treta à mistura com livros bons, de colectividades de beira de estrada à mistura com coisas sérias, augurar resultados eleitorais e se deitar a fazer palpites para jogos de futebol, fazer propaganda a telenovelas, aparecer em capas de revistas a fazer de conta que anda a paqueirar a Judite, a dar entrevistas à Cristina Ferreira ou a fazer ele entrevistas já nem me lembro a quem (seria ao Ronaldo?) ou a meter conversa com quem quer que lhe apareça com um microfone à frente, eis que, depois de andar há um ano a bater perna pelo país a fazer pré-campanha, aí o temos, finalmente, a cumprir o sonho de uma vida: ser candidato presidencial.

Já antes tinha tentado ser presidente da Câmara e espalhou-se ao comprido, já tinha tentado estar à frente do PSD e pouco tempo lá se aguentou. Nos comentários falava dessa sua experiência como líder da oposição como se tivesse sido coisa de décadas: qual quê, pouco tempo, uma aventura, só peripécias, tendo saído pela porta baixa como um vulgar mentiroso. Parece que é bom como professor e tem graça como entertainer. Tirando disso, não se tem dado bem*. 

É certo que, ao fim de tantos anos, todas as semanas na televisão, o povo já se lhe afeiçoou. É como o cão da minha vizinha, vejo-o sempre aqui na rua, um cão simpático, parece que já me afeiçoei ao bicho. Mas será que vejo o cão da minha vizinha como o sucessor do tal das cagarras? Não sei. Não digo que não. Só digo que não sei. É que para ser melhor que o tal das cagarras não é preciso muito mas, ainda assim, teremos mesmo que deixar qualquer um entrar em Belém? Não sei.

Digo isto sem ser capaz de dizer qual me pareceria na mouche. O Nóvoa é um querido, um intelectual despojado, um idealista, mas ainda não me convenceu. Da Mariazinha de Belém também não me chegam bons presságios, não me convence, acho-a muito seguradinha. Não sei. A coisa não está famosa. Mas o Prof. Marcelo não me parece. Acho que mal, por mal, mais vale deixar-se estar ali no renhonhó com a Judite.

Até ver, o meu voto ia era para o Candidato Vieira. 
Vai Vieira, avança! Estou contigo!



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As imagens são do extraordinário We Have Kaos in the Garden.


* - Chamo a vossa atenção para o comentário já aqui abaixo do Leitor Fernando Ribeiro no qual ele fala justamente dos feitos e desfeitos do Professor Marcelo.

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É tarde e eu, para variar, estou cansada. Mas não quero ir sem uma palavra mais pessoal.
Por isso, com vossa licença. mudo de registo, agora.


Quando se escreve aqui sem saber quem está aí desse lado, não se sabe se alguém recebe isto como sendo para si, em especial. Eu gostava de saber escrever de forma a que cada um de vós sentisse que as minhas palavras lhe eram destinadas. Mesmo que nem todos sentissem, que ao menos alguns sentissem. Ou, pelo menos, que uma pessoa, uma única, sentisse. Mas não sabemos, escrevemos como se soltássemos sonhos no ar, palavras aladas cruzando um céu infinito e, em segredo, desejamos que elas pousem no coração de alguém, que floresçam, que lá criem raízes, as nossas palavras a perfumarem de afecto o coração de alguém especial. 
E, hoje, é a pensar que ao menos um pessoa sentirá que é para ela que aqui venho, tão tarde -- e que escolho a música, a imagem -- que vou ao céu buscar um pequeno planeta. 
Este é um planeta que esconde gelos e véus, grutas e outras vidas, mas que se veste de azul de propósito para os poetas amorosos que embalam recordações boas não esqueçam o dia de céu azul em que, numa varanda florida, sob árvores suspensas, desceu ao seu encontro alguém que trazia sorrisos e silêncios, carinhos, surpresas no olhar. É para tocar o coração desse alguém que aí está desse lado que aqui estou. 
Não sei de que partículas é feita a atmosfera deste pequeno planeta, uma atmosfera talhada em mistérios e palavras azuis, não sei de Cinturas de Kuiper, nem consigo pegar nas minhas mãos para agora depositar nas vossas nem Éris nem Ixion, sequer Varuna, mas posso, sim, posso, trazer-vos este que aqui vos mostro, simples como eu gosto de pensar que sou, distante como sei que sou, cercado de azul como gostava que me imaginassem - e pedir-vos que o guardem convosco, num recanto secreto da vossa vida. 
Quando o virem, saberão que nele estarei eu, convosco, tão perto de vós, aqui tão perto de vós, tão perto que talvez consigam sentir a minha respiração azul.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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sábado, abril 18, 2015

No coração da sua estranheza





Aquilo a que chamamos desejo: onda obscura de matéria inominável.






 'Era em Mégara, subúrbio de Cartago, nos jardins de Amílcar.'
-  o festim dos Bárbaros, quadro de abertura de Salammbô.


Os Bárbaros de Flaubert 'estendiam-se sobre as almofadas, comiam acocorados em torno de grandes bandejas ou então, deitados de barriga para baixo, puxavam para si os pedaços de carne e saciavam-se apoiados nos cotovelos, na posição pacífica dos leões quando dilaceram a presa. Os últimos a chegar, de pé encostados às árvores, contemplavam as mesas baixas, meio ocultas sob tapetes de escarlate, esperando a sua vez'.

'Estendiam-se sobre as almofadas'.

Flaubert escreveu inicialmente 'espalhavam-se'


Lógica daquele que vê: não a sintaxe das coisas que nascem e morrem, mas a sintaxe das coisas que estão ali. E, neste ali, passado e futuro não contam para nada, mesmo que que haja um passado que esmague tudo, ou quase, e devir não quer dizer nada, nada de nada, nada mais que a suspensão de um relâmpago.

Parábola sem herói nem moralidade: as imagens alimentam-se ostensivamente do que está no coração da sua estranheza, isto é, da plena luz sobre o seu quotidiano, libertadas de qualquer inquietação, inclusivamente a de durar, como se para durar houvesse um esforço a fazer, esquecidas de fingir que compreenderam (compreender é ainda aumentar o lastro, aumentar a dificuldade de deitar fora esse lastro), e esquecidas também do nada que não compreendem e que é aliás completamente indiferente, tal como a diferença entre compreender e não compreender.




os fumos, as névoas ou a sua contrapartida, as arestas, as placas, o gosto ácido da flecha através das névoas, cenografias de Turner,

a seda e a areia, a rocha e a lama,

a brancura do papel, de que devemos fruir como a carne desfruta o sol,

por um acaso de dados ou por um caminho raciocinado, a sementeira à toa de pontos, de linhas, de manchas,

estabelecer, descobrir ou deixar vir afinidades, antagonismos, conflitos, tensões,

compensações, oposições, correspondências,

tentando organizá-las em sistemas coerentes (que quererá isto dizer?),

(...)

Não me apetece continuar: este carreiro corria o risco de nunca chegar a um fim, visto que as imagens que o compõem se renovam com uma prática dia a dia retomada e questionada. E com a matéria da palavra a seduzir o acto de escrever, assim como a memória que lhe serve de suporte, suspeito de que o meu discurso ameaça deslizar para esse olvido que nos de má vista deve fazer as vezes da preguiça do olhar.



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  • As palavras são excertos ao acaso e não sequenciais de 'Da cegueira dos Pintores', Parte Escrita II, de Júlio Pomar - um livro fascinante.

  • As pinturas, como é bom de ver, são também de Júlio Pomar.
  • Lá em cima Oleta Adams interpreta Get Here.
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Permitam que vos convide a descer até aos dois posts seguintes: há um novo vídeo do Cine Povero com Gonçalo M. Tavarese, a seguir, Os outros falam de Herberto Helder.

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E, com isto, vou descansar para estar preparada para um dia que se espera animado. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado vivido em paz e, se possível com afecto.

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quinta-feira, abril 12, 2012

Depois de uma noite perfeita, eis que chega, para Eva, o grande dia


Música, por favor

Uma vez mais aqui, Oleta Adams - Get here


Por volta da três e tal da manhã, Miguel ainda dizia poemas num sussurro, quase ao ouvido de uma Eva quase anestesiada (para não dizer inebriada, que poderia parecer excessivo),

                                                                   eu gostava de poder dizer
                                                                   que entrei no teu corpo como um pássaro
                                                                   espreitando de invisíveis ruínas
                                                                   e que o som da tua voz bastava
                                                                   para me salvar

Eva respondia, num sopro muito leve, um segredo quase silencioso:

                                                                   a língua sobre a pele     o arrepio
                                                                   os teus dedos nas escadas do meu corpo

                                                                    as lâminas do amor    o fogo    a espuma
                                                                    a transbordar de ti na tua fuga


E depois, interrompendo-se: 'Olha, e por tua fuga....'.

Miguel interrompeu-a a ela e, apoiado sobre um cotovelo, deitado de lado enquanto passava a mão pela pele macia da anca de Eva, também deitada de lado, perguntou simplesmente: ‘Antes da minha fuga, diz-me lá então, femme fatale, em que é que ficamos?’.



Eva, ensonada, espreguiçando-se como uma gata, nua, madura, roliça: ‘Pois olha, nem sei que te diga… Era uma maçada desmarcar tudo em cima da hora, não é…?’ e bocejava. ‘Também, verdade seja dita, que fizeste a minha vontade durante tantos anos, vivendo amancebado quando querias tudo certinho, de papel passado, que também te posso, agora, dar uma colherzita de chá.’

Miguel sorriu condescendente, ‘Ok, eu sou um menino de província, querendo tudo certinho e tu és uma libertina do caraças que vai assentar… é isso então? Ou seja, mantém-se o casório. Toda esta cena era, portanto, totalmente escusada’, mas o tom de voz, se era cansado, era também de quem apenas constatava um facto, não de quem censurava.

Eva, já quase a dormir: ‘Ou seja, não apreciaste a despedida de solteiro.’

Miguel, já também quase a dormir: ‘Não, não apreciei nada… Vinha para uma despedida de solteiro e em vez de uma miúda nova a sair de dentro de um bolo ou coisa do género, saíu-me a fava, ou seja, a mãe da miúda’.

Eva fez-lhe uma festa nos pelos do peito, já meio grisalhos: ‘Pois foi, não correu nada bem. A mim, que gosto de polícias musculados que fazem striptease, apareceu-me um médico grisalho e que, ainda por cima, não vinha de bata branca nem de estetoscópio ao peito...'  

'Não vinha de estetoscópio ao peito... mas...', ia Miguel gracejar, mas Eva interrompeu-o: 'Estou com sono, deixa-te de parvoíces. Agora vá, vai-te lá embora para casa do filho que eu ainda quero ver se durmo alguma coisa. Se é para ser à antiga portuguesa, que seja mesmo, não podemos dormir juntos na última noite. Vai.’


Era já meio dia quando Eva acordou descontraída, muito bem disposta. Telefonemas e mais telefonemas a perguntarem-lhe se ainda não tinha desistido, se estava nervosa, que ainda estava a tempo de fugir, etc e tal. A indecisão, a neura, a inquietação, tudo tinha desaparecido. As longas asas do arcanjo Miguel operam milagres em Eva.

Um pouco depois, a filha chegou com sacos de roupas, de sapatos, de make up, com o bouquet, num entusiasmo: ia casar a mãe.

A cerimónia seria o mais simples possível, pouquíssimas pessoas - mas tinham combinado que a produção individual seria tipo red carpet. Ao longo da semana experimentaram penteados, viram como se conjugava o penteado com o vestido, com os sapatos, com possíveis jóias. A filha analisava, fotografava de frente, de lado, de trás, sugeria alterações e Eva fazia o mesmo. Divertiam-se como duas miúdas.

Uma das jóias e toilettes testados 


Almoçaram sopa, salada, iogurtes, fruta, para irem leves mas sem fome. Depois ajudaram-se mutuamente com a opção aprovada para a toilette, para o penteado, para a maquilhagem. Eva, wild girl, não gosta de grandes penteados, coisas complicadas, ar muito arranjadinho. A filha também não. E estava linda, a filha, linda, linda. O que ela gostou de pentear a filha que tem uma bela cabeleira, forte, com um belo ondulado natural. Que linda ia a sua menina mais linda.

Eram seis e tal da tarde quando saíram. Por essa hora, já Eva estava um bocado nervosa, estas coisas dão-lhe sempre um friozinho no estômago, um aceleramento nas pulsações.

A filha ia numa alegria desbragada, fazia telefonemas, mandava e recebia sms em contínuo, trocava impressões com o irmão e depois dava testemunho: ‘O pai está num stress, há mais de uma hora que está pronto, não pára sossegado.’ Depois coordenava-se para garantir que ela e a mãe seriam as últimas a chegar.

Quando lá chegaram, trocaram de posições. O filho entraria com ela, a filha iria para o pé do pai, esperar pela mãe. Depois trocariam de novo, uma coreografia que, entre eles, engendraram. 


Se a música lá de cima já acabou, então, por favor, agora esta

Katie Melua e Eva Cassidy - What a wonderful world


Quando ela entrou com o filho, emocionou-se. O filho estava lindo, alto, compenetrado, emocionado, o seu menino querido, e ela só lhe apetecia fazer um miminho ao seu menino lindo, que belo homem estava. Levava-a pelo braço e sorria-lhe, uma lagrimita no canto do olho, o seu menino querido. E Eva quase a desmanchar-se, que Eva é assim.

Depois viu Miguel, lindo também, sorrindo, comovido. Miguel sorria-lhe, olhava-a enlevado, via-se que estava embevecido, que estava apaixonado. E ela sorria-lhe também, à beira das lágrimas, rendida, apaixonada também. 

Depois, a seguir - diz quem lá estava - que nunca viu coisa assim.


«»

Os poemas são, na verdade, excertos de poemas de Alice Vieira in  'Dois corpos tombando na água'. 


E, por poesia, hoje lá no meu Ginjal e Lisboa, a love affair, escrevo umas palavras que voam sobre um excerto de um dos poemas que mais indelevelmente me marcaram, 'Mulheres correndo na noite' de Herberto Helder. Jessye Norman acompanha com 'D'amour l'ardente flamme' de Berlioz, um luxo. Gostava de vos ter também por lá..

«»

E, por hoje, é isto. Tenham, meus Caros, uma bela quinta feira. E divirtam-se que não há coisa melhor que estarmos bem, felizes, divertidos.

E, meus Amigos, se me permitem, deixem-se ficar agora aqui mais um pouco, a ouvirem o What a wonderful world até que se entranhe bem na vossa pele, no vosso sangue. É que, apesar de tudo, meus Caros, que belo mundo é este.
  

domingo, agosto 07, 2011

Get Here (chamamento extraordinário de Oleta Adams)

Não é a primeira vez que aqui coloco esta canção mas, por gostar tanto, tem direito a 'encore'.



You can reach me by railway, you can reach me by trailway
You can reach me on an airplane, ou can reach me with your mind
You can reach me by caravan, cross the desert like an Arab man
I don't care how you get here, just - get here if you can

You can reach me by sail boat, climb a tree and swing rope to rope
Take a sled and slide down the slope, into these arms of mine
You can jump on a speedy colt, cross the border in a blaze of hope
I don't care how you get here, just - get here if you can

There are hills and mountains between us
Always something to get over
If I had my way, surely you would be closer
I need you closer
You can windsurf into my life, take me up on a carpet ride
 You can make it in a big balloon, but you better make it soon
You can reach me by caravan, cross the desert like an Arab man
I don't care how you get here, just - get here if you can


(Letra de 'Get here' da autoria de Brenda Russel)