Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, julho 31, 2019

Olha, afinal as golas não são inflamáveis....
Mas, entretanto...


  • Quem terá sido o chico-esperto que se lembrou de lançar o boato de que as golas pegavam fogo? 
  • Quantos doutos papagaios vieram, a seguir, dizer que as golas pegavam fogo? 
  • Quantos doutos comentadores enxamearam os balcões onde se servem opiniões a copo, prontos a fazer justiça com as suas próprias mãos? 
  • Quantos jornalistas na reserva saltaram avidamente para a ribalta para sujar o bom nome do jornalismo, falando do que não sabiam?
Não sei quantos. Só sei que muitos.

Já Patrícia Gaspar tinha explicado: não se quer que as pessoas vão para o pé do fogo, que vão apagar fogos; pelo contrário, o que se quer é que fujam dele e as golas são apenas para evitar a inalação de fumo.

Mas qual quê: alguém inventou que as golas pegavam fogo e, incapazes de pegarem em assuntos inteligentes, logo todos os canais, como gato a bofe, inflamadamente se atiraram às golas e desataram a clamar contra o Governo.


E eu gostava de ver se a mesma maralha, nos mesmos canais, vai enxamear outra vez os media para fazer o mea culpa junto da opinião pública. É o vês. Caladinhos que nem ratos.

E eu gostava de ver outra coisa: será que a malta que de repente virou especialista em materiais inflamáveis faz ideia se as calças, as blusas, os casacos ou os ténis que usa ou o das pessoas que se virem em situação de fugir ao fogo são ignífugos...? Cá para mim nem lhes ocorreu tal dúvida metódica. Como burros encartados, pensar não é com eles. Põem-lhes um coisa à frente e logo eles, sem pensar, a enfiam na cabeça todos gabarolas. Se depois lhes disserem que aquilo não era um chapéu, eram umas orelhas de burro só para gozar, tiram-nas logo, fazem de conta que não é nada com eles, assobiam para o lado e dão meia volta de fininho. Não desfazendo: na verdade são uns caguinchas, uns putativos maraus de meia tigela.

E a única coisa que se pode dizer de tudo isso é: santa ignorância, santa estupidez. 

Agora dito isto, digo outra coisa: se os objectos que compunham o kit não obedeceram a uma decisão informada ou se a escolha da empresa que os forneceu obedeceu a critérios que não os normais (ie, melhor preço para qualidade e prazos de entrega equivalentes) então que se apure isso. Com rigor e sem dramas. Escrutinar os actos da administração pública é um dever e é normal nos regimes democráticos. Mas não faço ideia de se houve algum favorecimento. Se há dúvidas apure-se e apure-se sem condescendências. Não vou atrás de qualquer osso que um qualquer manhoso atire para a rua. Preciso de demonstração, de factos confirmados.

Hoje, ao ouvir as notícias, já aparecia outra: a empresa da qual o filho do Secretário de Estado tem uma quota de 20 ou 30% fez três negócios com autarquias ou lá o que foi. Posso não estar a ver bem mas, só por isto, não vejo mal nenhum. Se fizesse negócio na Secretaria de Estado à frente da qual está o pai, aí já me pareceria eticamente reprovável. Agora em organismos onde o pai não risca peva, não estou a ver qual o problema. Há que evitar fundamentalismos senão perde-se toda a racionalidade.

E digo isto com a consciência tranquila: não exerço nem nunca exerci cargos públicos nem estou ou alguma vez estive filiada em qualquer partido política. Sou absolutamente contra qualquer forma de corrupção, compadrios ou beliscaduras na ética. Mas sou também absolutamente impermeável a fundamentalismos ou juízos precipitados ou levianos.

Portugal é um país de justiceiros, de gente que se acha moralmente superior aos outros, gente que cultiva a maledicência, a intriga, a inveja, a cobardia. Mas atacar ou difamar gente que é inocente é cobardia, é também maledicência, é maldade e, frequentemente, demonstra aquela inveja surda dos que olham alguns dos que exercem cargos políticos como desprezíveis 'poderosos' esquecendo-se que, na maioria dos casos, são pessoas normais, com família, com sentimentos, com valores.

Já o referi algumas vezes: tenho, muito próximas, algumas pessoas que exercem relevantes cargos públicos. Curiosamente, nenhum deles é filiado ou simpatizante do PS, partido com que mais me identifico. E uma coisa posso eu dizer: são pessoas íntegras. E nenhum deles enriqueceu ou está a enriquecer com essa sua ocupação. Pelo contrário. Ganham menos do que ganhavam nas suas actividades anteriores e o que, de facto, ganham é cabelos brancos, dores de cabeça, estafas sobre estafas, noites mal dormidas e grandes sacrifícios das famílias.

De novo, dito isto, acrescento que acredito que haverá ainda muito por aí alguns pequenos amiguismos, combinações de correlegionários de partido que tentam influenciar pequenos negócios. Gente de Juntas de Freguesias, gentinha que ainda anda por dentro dos aparelhos de algumas Direcções Gerais. Acredito. E, havendo, acho que é gentinha que não interessa, cujos hábitos devem ser banidos, cujos crimes devem ser punidos. A transparência é fundamental.

Mas chega-se lá com maturidade, com ponderação, com inteligência -- não com juízos precipitados e goelas inflamadas. Sou a primeira a condenar oportunismos, interesseirismos, gatunagem. Mas não acuso só porque sim ou porque algum palerma que ninguém sabe quem é diz que sim. Acuso quando estou certa de que estou a ser justa. acusar. Acusar um inocente não tem perdão.

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Tirando isto: estou curiosa de saber se, por estes dias, o PSD se vai auto-destruir, comendo-se todos uns aos outros. Literalmente. Quiçá, até, biblicamente. No final, apenas um monte de ossinhos debaixo dos lençóis.
Por exemplo, o Hugo Soares, que andava por aí todo fera, comerá alguém? O Rio? Ou o Rio virará o jogo e, qual tarzan, a cavalo numa liana, conseguirá comer alguém? Quiçá o José Eduardo Martins? Ou a pombinha da paz descerá sobre eles e sairão todos de lá aos beijos na boca? E a Maria Luís Albuquerque entrará em que cena? Beijos de língua? Ou não porque toda a gente tem medo porque sabe que aquilo lá é língua venenosa? Eo marido dela pairará por lá armado em body guard? E o Miguel Pinto Luz? In love com a Manuela Ferreira Leite? E o Professor Marcelo telefonará em directo para desejar muitas audiências?
Também estou curiosa de saber se, nas próximas eleições, o CDS vai conseguir eleger alguém. Se calhar não. Se calhar, o CDS já era. O pernão não funcionou, o vestido dos kiwis também não, a peixeirada também não, o mostrar folhas com desenhinhos  na Assembleia também não, a votação no penteado também não, o falar pianinho também não, o ter diarreia de ideias também não. Bolas. Ou melhor: bola. Zero. 

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E agora uma coisa boa


E até já.

terça-feira, julho 30, 2019

Avistamentos no metro, conversas sobre automóveis e, com vossa licença, algumas ignoranças neste mundo pequeno


Que não se pense que me armo. Nada. Não é isso.

A questão é que, por ter que me movimentar bastante entre distâncias que são razoáveis, não apenas a nível pessoal mas, sobretudo, a nível profissional, me vejo forçada a deslocar-me de carro. E, por isso, não sei há quantos anos não ando de transportes públicos. A última vez foi há uns bons anos e foi uma pequena deslocação de autocarro (de que aqui dei conta pela diversão que foi).

De metro, então, nem faço ideia. Resmas, paletes. Muitos anos.

Ainda ontem conversávamos sobre isto: o mundo desorganizou-se de uma forma irracional. 

O número de carros que invadiu as cidades é um absurdo. Há gente demais a trabalhar longe das suas casas, tendo que se deslocar bastante. Como frequentemente não há transportes directos acabam por usar o carro, em especial se tiverem que incluir no trajecto a escola dos filhos. Tenho alguns colegas que usam os transportes públicos mas apanham quatro transportes para chegar ao emprego, consumindo nisso quase duas horas (duas para cá mais duas para lá). Esses são os que não têm dinheiro para irem de carro. 

Uma coisa horrível, horas de vida desperdiçadas.

E sei do que falo pois, apesar do cu tremido, não são negligenciáveis as horas que também estupidamente desperdiço.

As ruas estão pejadas de carros. Nas ruas, em pára-arranca, nos passeios, em cima dos passeios. Carros, carros e mais carros. Já nem falo na poluição, problema maior. Falo agora na invasão territorial, retirando a possibilidade às pessoas de andarem nos passeios, desfrutarem a cidade. 

No dia em que os aspectos da sustentabilidade do planeta e da qualidade de vida das pessoas forem levados a sério, uma quantidade de políticas integradas e disruptivas terá que ser posta em marcha.

[Pena que, em vez de se limitarem andarem de roda de temas do tamanho de golas, os políticos não se ocupem de coisas verdadeiramente relevantes)

Este punk alternativo,
leva uma tira de entrecosto na cabeça

Não sei se as medidas passam por fazer pesar crescentemente a fiscalidade sobre cidadão em cujas habitações exista mais do que um carro, se simplesmente por aumentar os transportes públicos de qualidade. Ia escrever de qualidade e rápidos mas não é preciso pois, mal se consiga reduzir o número de carros em circulação, o trânsito fluirá melhor. E outra coisa que, de resto, já se vê bastante em Lisboa: ter cada vez mais vias bus. Se se facilitar a vida aos transportes e complicar aos carros individuais os hábitos começarão a mudar. 

Mas, enfim, quando a questão é sistémica, para actuar sobre ela é preciso actuar em todas as suas variáveis. E são tantas. Portanto, nem vou aqui dar palpite porque o assunto é sério, é para urbanistas, para gente que estudou e sabe do assunto, não para amadores especialistas em palpites.

Agora uma coisa é certa: um dia que me veja livre desta coisa de trabalhar parte do tempo numa cidade diferente daquela em que vivo e no resto do tempo numa terceira cidade, é muito provável que compre um passe social (e baratos como estão ainda melhor) e me desloque quase exclusivamente  em transportes. Nem sei até se, sendo velhinha, não terei ainda rebuçadinho exta. Claro que, para ir a casa dos meus pais ou para o campo, irei de carro mas, tirando isso, vai ser uma liberdade fantástica. Só o facto de não ter que andar às voltas para ver se descubro um lugar para deixar o carro me parece um alívio extraordinário.

Reparem na bolsa que o senhor leva na mão
(mais do que uma bolsa,
uma escultura em madeira)

E depois há outra: tenho ouvido dizer que as estações de metro estão uma graça, com obras de arte, coisa de dar gosto. Quando confesso a minha pecha, não acreditam e vão desfiando: 'Mas quê?! Nem a do Chiado?!' e vão dizendo uma atrás de outra. Galeria de arte que um dia terei mesmo que frequentar.

Quando andava a estudar, deslocava-me de metro que me fartava. E gostava. Arranjando-se lugar sentada, então, até dava para ler. Bem bom. 

Como sempre gostámos de fotografia, durante alguns anos assinávamos a Photo. E lembro-me bem de algumas reportagens feitas no metro de Nova Iorque, Coisas do além, as que se viam. Por cá tudo muito neutro, muito mediano e, por lá, de vez em quando, cada excêntrico, cada exótico mais engraçado... 

O Bored Panda tem uma série também cheia de imagens insólitas. 45 Funny And Strange Things Spotted On the Subway 

Estive a ver de gosto (e aconselho a que vão até lá para ver se também não ficam a ver de gosto como eu). Da minha parte, ainda maior teria sido o gosto se pudesse tê-las visto ao vivo e, oba!, fotografá-las.

Acho mil vezes mais piada a coisas assim do que ver gente muito emproadinha.

No outro dia tive um almoço de trabalho num dos restaurantes icónicos da cidade. É grande, muito bem decorado, muito caro, cheio de empregados que se sentem gente muito importante, nobres de gema. Enquanto lá estive, vi chegar, em separado e para mesas distintas, um reputadí$$imo e pentadí$$imo advogado da nossa praça, pouco depois um conhecido especialista numa dada matéria e, por isso, presença assídua nos comentaderos da TV e, pouco depois, o empertigadote líder parlamentar de um partido da oposição acompanhado por um trio que cá para mim eram de um jornal (e a ver vamos se, um dia destes, não vai sair uma cena daquelas 'à mesa com'). Tudo gente apertadinha, daquela que não parte um pratinho, gente dentríssimo da caixinha, sem um fio de cabelo descomandado-zinho. E eu, igualmente rodeada por ilustres cavalheiros bem comportados, só pensava que haveria de ter graça se, numa mesa qualquer, alguns dos comensais, indo ao engano, se apresentassem em contramão, ruidosos, uns declamando poesias do Bocage, outros cantando canções de escárnio e maldizer. Isso, sim, é que era. Mas não. Tudo bem comportado do princípio ao fim. Além disso, o arroz estava mal cozido, encruado. Não paguei a conta mas é daqueles almoços que grátis mais grátis não pode haver. Além disso, puxa, a pagar é que lá não punha os més. Mesmo.

Cenas.

Cá por mim, mal por mal, mil vezes preferia ir passear com um cacho de bananas pela trela.

Cá está:
um cacho de bananas com uma trela, como se fosse um animal de estimação
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E, a despropósito, dois vídeos muito bons com o doçura e o afecto que o sotaque brasileiro confere à língua portuguesa


David Sacks, que gravou com Tom Jobim, e Nelson Faria tocam e conversam sobre a Bossa Nova



E uma vez mais, aqui, um vídeo precioso pela voz e pelas coisas extraordinárias que a voz diz:

Manoel de Barros - O Livro das Ignoranças, Mundo Pequeno e Autorretrato


E agora vou dormir uma little sesta que o meu corpo continua a exigir que eu reponha as horas que não usei na noite de sábado para domingo. Se acordar pode ser que ainda cá volte porque hoje é daqueles dias em que assunto tenho bué

segunda-feira, julho 29, 2019

Dia de corte de cabelo a la maison, de passeio em grupo à beira rio, de ida à praia à hora das gaivotas. E etc.





No sábado, depois de termos visitado os meus pais, fomos almoçar e o almoço deu para tarde. Estava com um bocado de dor de cabeça pelo que bebi uma bica a ver se arrebitava. Ora bebo sempre dois cafés de manhã, talvez até três mas, se bebo algum depois das duas e tal, é mais do que certo que vai afectar-me o sono. Não sei se por isso, se por estar cansada demais, se por dormir no sofá, se pelo enternecimento dos rapazinhos abraçados a dormir, se pelo enternecimento de ouvir as meninas a conversar na outra sala, se por qualquer outro motivo, a verdade é que, apesar de estar tão cheia de sono e cansada enquanto acordada, agarrei uma tal espertina que apenas me deixou adormecer de manhã. Vi as horas a passar e eu sem pitada de sono. Passado um pouco já eles estavam acordados e, claro, pouco depois acordaram-me. 

Depois, chegou o casalinho que tinha estado num animado copo de água até de madrugada. E, a seguir, as meninas crescidas começaram a falar de cortes de cabelo, uma sem saber como cortá-lo, a ver imagens em revistas e instas, e outra a oferecer-se para lho cortar. E uma que não e outra que sim e uma que não e outra que deixa lá. Até que a segunda, ó milagre!, convenceu a renitente primeira. Foram as duas para uma casa de banho e o cabelo cortado foi crescendo, apesar do que continuava na cabeça se manter avantajado, manta fofa e quente. Eu também já me tinha oferecido para fazer o mesmo mas, como tenho fama de ser sempre a abrir, sem querer saber de assimetrias ou pontas -- até porque a última coisa de que gosto é de me sentir penteada -- a outra cabeleireira, mais ponderada, levou a melhor. E ficou muito bem. Eu não teria feito melhor. E a dona do cabelo, exigente que só ela, também gostou.

No fim havia cabelos all over mas com pás e vassouras, papel higiénico e água, tudo se limpou. 

O meu marido passa-se um bocado com isto mas, no meio de tanto reboliço, acaba por nem ter grande ocasião para protestar. Quando ouviu que iam cortar o cabelo só disse: 'A ver se no fim não fica tudo cheio de cabelos!' pelo que, as ladies, talvez para não desiludirem o dono da casa, no final levaram a limpeza mais a preceito. Aliás, antes da faena, começaram por se instalar as duas dentro da banheira para conter os danos, uma sentada num banco, a outra atrás. Mas não dava espaço de circulação, pelo que tiveram que se instalar normalmente: a cliente na mesma sentada no banco mas fora da banheira e a lady da tesoura à sua volta.

Entretanto, ainda consegui fazer a roupa de máquina da ordem, com os lençóis das camas dos hóspedes mas deixei para amanhã outra máquina com os toalhões. 

E de seguida, com aquilo tudo, já era quase hora de almoço -- e, pronto a ser comido, eu só tinha o resto do cozido da véspera; mas nem para encher a cova do dente de tanto comensal aquilo daria pelo que pensámos que mais valia irmos todos almoçar fora. O meu filho reservou e lá fomos. E a seguir ainda fomos refrescar num passeio a pé à beira rio. E soube bem andarmos a caminhar por ali, a respirar a fresquinha.

Até que dispersámos. Quando cheguei a casa, estendi-me em cima da cama, a janela aberta, o aragenzinha a entrar e a deslizar sobre mim - e pimbas, tiro e queda. Deve ter sido uma hora bem dormida, a sono solto.


Mas parte do grupo tinha dito que, ao fim da tarde, iria à praia, se não queríamos ir também. Por isso, quando acordei, o meu marido também recém acordado, achámos que mais valia irmos até à praia senão ficávamos em casa a molengar, na volta a dormir até ser hora de jantar.

Fomos. Já lá estavam.

Ficámos até às sete e tal. Agradável embora, para o fim, tenha começado a levantar-se um ventinho fresco. As crianças tomaram banho apesar da água fria e brincaram, inventando brincadeiras, e os rapazes pequenos e grandes jogaram à bola e eu andei por ali, curtindo a alegria de estar com eles. E, claro, fotografei-os. Por exemplo, à saída da praia, fotografei pai, filho e neto, três gerações, os três com o mesmo nome. E fotografei todos os outros, sempre animados, a pele dourada pelo sol, bonitos, o verão pousado neles.

E fotografei as gaivotas.

E fotografei as costas de uma senhora que carregava com a Marilyn Monroe, o Peter Pan e o que me pareceu ser uma bruxa a cavalo numa vassoura. O meu marido fez um ar arreliado, achou que eu estava a fotografar as costas da senhora demasiado à descarada. Mas não podia deixar de fotografar. Aquelas costas estavam impregnadas do mais genuíno surrealismo.

De regresso a casa, atirei-me então a arrumar a casa. E depois do banho sentei-me, então, aqui, Estava a dar o Marques Mendes mas ou porque, como geralmente, não estava a dizer nada de jeito ou porque o corpo (o meu) continuava a pedir-me descanso, passado um bocado estava na mesma, quase a dormir.

O que vale é que o meu marido me chamou. Fomos jantar e agora aqui estou a fazer o gosto aos dedos, escrevendo sem pensar, ao correr da pena.


Já estive a ver a agenda para os próximos dias. Tirando um dia que vai ser dose, o resto parece-me que tem tudo para não ser daquelas semanas que me deixam com os bofes de fora. Vamos entrar em Agosto e o nosso querido mês de Agosto tem fama de ser mês feliz, mês de deixar boas recordações. Portanto, talvez tenha tempo para pôr um conjunto de coisas em dia, nomeadamente começar a pensar nos presentes dos leões e leõezinhos que, a seguir aos caranguejos, já aí estão em força.

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Acabo com um vídeo que fala de cinco beneficios da caminhada para que uma certa pessoa o veja. É das formas de exercício mais saudáveis para o corpo e para a mente. Andar diariamente deve ser hábito a manter em qualquer idade, em qualquer circunstância da vida. Por muito que se pense que não se tem tempo ou que não se tem onde ou que não se tem com quem, é importante que se saiba que não é preciso muito tempo, não é preciso nenhuma pista ou trilho especial, não é preciso ter companhia. É, sim, preciso andar, andar com convicção, andar olhando aquilo que a vista alcança, andar focado apenas nisso: em andar. Andar e deixar o corpo tonificar-se e a mente arejar.



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Queiram aceitar o meu convite: hoje no meu Ginjal tenho A grande e turva flor desse fogo ainda por abrir sobre poema de Carlos de Oliveira e muito gostaria de vos receber por lá. Haverá música, como sempre e mistérios em volta de palavras sugeridas.

domingo, julho 28, 2019

Receita de cozido a modos que, crónica de um dia que meteu voltinhas de carrossel, casinhas de passarinhos azuis e mais algumas coisas e tal





Hoje houve voltinhas no carrossel, mais uma voltinha mais uma viagem, os meninos chamando uns pelos outros, felizes da vida, e isto a seguir ao passeio à beira mar onde respirarámos todos o ar fresco, pintado de maresia. E isto, por sua vez, depois da visita semanal aos meus pais. 

E à noite houve brincadeira e pijama party com um DJ que só lhe deu para escolher a Marisa e, quando os outros protestaram, disse que amanhã logo punha a Ana Moura. E quando alguém protestou, disse que ele próprio, gostava de cantar o fado. E cantou. Seis anos de alma fadista.

E depois de quererem ouvir uma história, coisa que desta vez não esteve a meu cargo mas da menina grande, acabaram por cair no sono. E depois fiz uma trança no cabelo grande e pesado da menina grande, para que aquela manta não lhe dê calor ao dormir. 

Agora as meninas dormem numa sala, os rapazes nesta em que estou. As camas das meninas são daquelas desdobráveis, os meninos dormem em colchões aqui no chão. Por uma razão ou por outra, nenhum dormiu no quarto. Dois quartos sem freguesia e as duas salas à pinha. A dormir no quarto, como se não fosse nada com ele, só o sortudo do avô. E à larga porque eu vou ficar a dormir aqui, num sofá. Prefiro assim, não vá o bebé levantar-se e pôr-se por aí a cirandar de noite, e eu, no quarto a dormir, não dar por nada.


Para o jantar fiz um cozido meio marroquino, meio à portuguesa. Assim:
Num tacho grande com bastante água, coloquei sal, meio chouriço de carne, duas cebolas e uns bocados de pá de porco com osso. Depois de já ter aberto, mais de meia hora, juntei frango do campo, em especial pernas e coxas mas também miúdos. No fim juntei uma farinheira e deixei que cozesse um pouco mais.
Às tantas, para um outro tacho, retirei um bocado do caldo do tacho das carnes. Juntei feijão verde aberto ao meio, bocados de abóbora e courgette. Cozinhou.
A seguir, num tabuleiro grande, coloquei couscous, meia chávena por pessoa, reguei com azeite, coloquei um pouco de manteiga, pouco e, cobri com sensivelmente a mesma quantidade de caldo das cozeduras. Talvez um pouco mais do que a quantidade dos couscous. A olho. Depois dos grãos piquinininhos incharem, mexi com um garfo. Depois alisei. Coloquei por cima, a meio, os pedaços das carnes. Em volta coloquei num lado o feijão verde, noutro a abóbora, noutro a courgette e no outro o chouriço às rodelinhas e a farinheira. Por cima, para dar graça, um fiozinho de azeite.
Comeram que se regalaram.

Depois morangos e, para rematar, o resto da tarte das framboesas de ontem e um magnum pequenino para os mais comilões.

Amanhã para o pequeno almoço haverá ovo cozido e ovo mexido, queijo fresco de cabra, cheddar, limiano, papas de aveia, leite, pão, fruta, iogurte, frutos secos. Toda a gente tem apetite e gosta de variedade e, assim, com um buffet à maneira, saber-lhes-á a férias num hotel. Se calhar os que agora ainda estão num casório e que devem de vir de lá a belas horas ainda se nos juntam para o breakfast.


E, por hoje, nada mais de relevante que faça sentido aqui colocar. Se é que o que aqui coloco faz algum sentido. Mas enfim.

O que sei é que, por tudo isto, estou a milhas do que este sábado se passou no mundo. Provavelmente continua a onda de calor mais a onda de palermice e, ainda, a onda de coisas sem nome e sem história. E eu dar ou não por isso não alterna em nada o rumo das coisas pelo que diga eu alguma coisa ou coisa alguma vai dar no mesmo.

Fiz algumas fotografias mas foram às danças, às brincadeiras e aos afectos e isso não é coisa que eu aqui possa publicar. Por exemplo, agora fui espreitar os rapazes que aqui dormem e é uma ternura. Até estou com vontade de ir fotografá-los outra vez. O mano do meio está abraçado ao bebé. Lindos. Claro que não vou depois aqui publicar tal. Portanto, vou à procura de fotografias de passarinhos azuis.

É que, à falta de melhor, com vossa licença, deixo-vos com um vídeo muito bonito. Al Larson, um senhor agora com 97 anos, faz ninhos para passarinhos. Calcula que cerca de 50.000 bluebirds tenham tido habitação feita por si. centenas de casinhas para passarinhos azuis. Um feito que o mantém vivo e motivado. Um feito que me enternece.


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Como d'habitude estou a escrever completamente a dormir e tenho cá para mim que o texto está polvilhadinho de gralhosas de toda a espécie e feitio. Tremo de pensar nas vírgulas que, só para me atentarem o juízo, pousam onde calha ou nas letras que, também para me amofinar, voam das palavras para fora ou trocam as pernas, baralhando o tino das palavras. Mas não posso fazer nada, tenho que me ir estender no sofá senão daqui a nada está o galo a cantar e o quartel a levantar-se rebentando de fome.

Portanto, até já e tenham um belo dia de domingo.

sábado, julho 27, 2019

Shakuhachi, a felicidade que é uma fatia de bolo, uma senhora de cabeça perdida, um pato de rosa ao pescoço e outras cenas





Aprendi hoje que existe um instrumento musical que permite uma sonoridade encantatória. Ia no carro e e só queria que o trânsito se atrapalhasse, que os semáforos não abrissem, que mil imprevistos surgissem no meu caminho. Maravilhada a ouvir, espantada por, uma vez mais, constatar como é infinito o meu desconheciento.  

E estava sem perceber bem como dizer a palavra, era uma palavra nunca ouvida, e queria retê-la para depois tentar pesquisar e com medo de me esquecer e perder o rasto à fugaz descoberta. Por isso, mal estacionei, escrevi no telemóvel como me soava.

Quando consegui ligar o computador, com uma pessoa à porta a perguntar-me se tinha uma certa manhã livre para me enviar um convite para uma reunião, indelicadamente pus-me a googlar. Disse: 'Desculpe estar a falar consigo e a ver uma coisa no computador mas é que tenho mesmo aqui um assunto urgente'. Ele desculpou: 'Ora essa. Veja se quer que volte mais tarde'. Mas já o google corrigia a palavra e me sugeria a palavra certa. Percebi que era isso. Copiei a palavra para um mail que enviei para mim própria.

E hoje foi dia grande: de manhã muita coisa que fazer e, ao almoço, uns meninos com a mãe foram ter connosco para o mais crescido escolher uma bicicleta e a seguir almoçámos juntos. Saí dali a mil para uma reunião que, para mim, era decisiva. Depois, ao fim da tarde, saí a mil mas um trânsito danado dificultou-me a vida pelo que, mal saí do elevador, senti cheiro a comida o que me enervou instantaneamente. Cozinhar é meu pelouro, meu território, minha bandeira. Era ele que, vendo que eu estava atrasada, se atirou aos tachos. Felizmente, conseguir conter o estrago. E, num ápice, assumi o comando e, minutos depois, as quatro placas estavam a bombar e tudo sob controlo.

Quando estava a acabar, começaram eles a chegar. Os da hora do almoço e os outros. Parecem touros desembolados quando entram na arena. Correm, riem, brincam, pregam partidas, perseguem-se -- ou seja, festejam a alegria de estarem juntos. E, em menos de um foguete, a mesa grande estava cheia e as tropas todas comendo. No fim, cantaram-se os parabéns a você pois durante a semana não tinha sido possível reunir toda a gente e hoje, ao fim do dia, com uns regressados do sul e outros de mais acima, era o momento ideal para o festejo e, claro, o melhor sítio é cá em casa, abrigo e ninho que gosto de ter cheio. 

Amanhã há outra vez proliferação de programas pelo que, para estarmos todos juntos, esta sexta à noite é que era mesmo. Em privado, o eu marido tenta torcer ao nariz: 'Eh pah, não sei porquê mas à sexta à noite é que tinha que ser...'. Mas não é. Ou seja, não é só á sexta. Por exemplo, a partir de amanhã à tarde e até domingo é também, e vai ser non stop, embora não todos ao mesmo tempo. Portanto, não se percebe porque é que ele fala das sextas à noite.

Os últimos saíram há pouco. Não vale a pena pôr-me com grandes arrumações porque amanhã tudo será revirado, de novo. 

Há bocado, enquantos uns ainda jogavam à bola, estivemos a ver fotografias de quando éramos todos mais novos, os meus filhos ainda miúdos, todos nós tão jovenzinhos. Irmãos, cunhados, primos, sobrinhos, tudo na flor da idade. E tanta gente que já não está entre nós. E a nossa casa in heaven no meio do nada, sem árvores, uma aridez pedregosa de mato rasteiro e seco, e todos por lá, grandes fotografias de grupo, todos incluindo a nossa querida cãzinha, primeiro ainda bebé, uma bebé fofinha ao colo dos meus filhos, também ainda pequenos e fofinhos, depois mais crescida, pêlo cor de mel, macio, olhos inteligentes e meigos.

E, agora que liguei o computador, vi o mail que me enviei. Uma única palavra: shakuhachi. Caí em mim: é que, com o redemoinho que foi o dia, já nem de tal me lembrava.

Poucas outras coisas a esta hora poderiam saber-me melhor do que o som tranquilo desta flauta de que nunca antes ouvira falar. Som mais bom...


Fiz agora duas fotografias para aqui colocar. Uma com uma espátula para bolos que a minha filha me trouxe e que amei. Happiness is a piece of cake. Usámo-la com a tarte de framboesas que foi o bolo dos anos do menino mas, depois de a lavar, fiquei com medo que se partisse e gostei tanto dela e tanto que a minha filha se lembrasse de a trazer para mim que vou guardá-la aqui numa estante com portas de vidro. Mais um objecto precioso na minha vida.

Depois fotografei também um cavalinho e um animal da selva que saíram à cena e que foram dormir a sesta ao pé da senhora do gatinho. Não sei de onde saíram mas aqui em casa é sempre assim. Aparecem coisas vindas não se sabe de onde. Mas, assim como aparecem, também desaparecem.

Há bocado um dos meninos deu um pontapé com mais força e a bola roçou nas coisas de uma mesinha de apoio. O meu marido, arreliado, de imediato suspendou a partida. Passado um bocado, o menino apareceu com a cabeça de uma das figurinhas que está nessa mesa. Silêncio. E perguntou porque é que a cabeça da senhora estava ali. O meu marido devolveu a questão: 'Adivinha'. E ele: 'Não sei'. E eu a sentir-me quase um pouco aborrecida: 'Deve ter sido a bolada, bem te avisámos'. E então ele abriu uma caixinha e disse: 'Se fosse isso, como é que a cabeça ia parar dentro de uma caixa fechada?'. E abriu a caixinha e mostrou a cabeça. Desatei a rir. O meu marido não desatou a rir mas ficou calado, certamente a tentar conter-se. Agora uma coisa é certa: nunca tinha reparado que a senhora que ali está, estava de cabeça perdida.

Vou fotografar para vos mostrar.


Que absurdo, credo. Afinal não é uma senhora, é um cavalheiro em fato de banho e touca também de banhista. Parece mentira como sou tão distraída. A cabeça dentro do pato que é uma caixinha, pato esse que, também misteriosamente, está com uma rosa ao pescoço. Não me perguntem quem foi que não faço ideia, nem da cabeça escondida nem da rosa em volta do pescoço do pato. Só sei que me dá vontade de rir.



Desejo-vos um belo sábado. 

E do not forget: happiness is a piece of cake.

sexta-feira, julho 26, 2019

Nota à Introdução





Dizer o quê? Que dos nomes da gramática retive o sujeito, o predicado e o complemento directo? Bem, o indirecto também. Já a voz activa e a passiva não sei se é coisa que encaixe na gramática ou se é outro ramo da matéria. Dividir em orações já nem me lembro do propósito. Lembro, sim, a charada das orações nos Lusíadas. Coisa para ser levada a sério tem que ter lógica, alguma matemática. Agora coisa que mais parece entretém de dondoca desocupada e que não dá para traduzir em teorema que se perceba, não pega. 

Escrever eu escrevia. Chegava à hora da redacção e eu via meia turma de cabeça no ar sem saber como pegar no título para com ele insuflar a página e já eu por ali fora, cheia de ideias, histórias a atropelarem-se para caberem todas na folha. Ler também. Muita leitura. Agora chegada à hora da gramática era uma contrariação. Sem o saber já era avessa a burocracia e aquilo era regrinha frouxa uma a seguir à outra. A minha mãe queria que eu prestasse atenção, não rejeitasse, tentasse dar importância. Qual quê.

Depois, quando os meninos foram para a escola e eu espreitava a matéria já aquilo tinha tudo mudado de nome. Os casos notáveis ou a forma de dar a volta às equações ainda estava tudo na mesma mas a gramática estava travestida, talvez para ver se tinha mais graça. Mas não. Inútil na mesma.

Agora, se calha ouvir os meninos dos meninos a falarem do assunto, é ainda pior: é língua estrangeira. Não se percebe nada mas, ao que me parece, permanece a inutilidade, a burocracia, um banho de desengraçamento em cima da beleza das palavras.

Dir-me-ão: é preciso ser muita bruta para escrever tamanha alarvidade. E estarão certos. Sou bruta mesmo. Primitiva. Podia viver nua nas cavernas, descer até ao rio e apanhar peixe à mão, subir às árvores para apanhar frutos e bagas, deitar-me na terra a ouvir o som dos bichos e ver os desenhos das nuvens. Ou podia viver num mosteiro, descalça, em silêncio, e, à hora da reza, à socapa, fugir para os claustros do mosteiro vizinho para ouvir os cânticos dos monges gregorianos e viris. 

Para quê a agramática? Para quê comezinhar a beleza singela da escrita, arranjar-lhe significados e subentendidos, minimizando-a? Não me entra. Atribuir segundas intenções ao texto, inventar-lhe sub-textos, espreitar as intimidades das palavras parece-me feio, falta de decoro, é não saber respeitar o pudor da frase. Não, comigo não, violão, não contem comigo para nada disso. 

E isto já para não falar do latim ou do grego. Grego nem nunca tentei. Latim aflorei mas não era a minha praia. Para mim, língua morta já era. Pode ser que seja a raiz e que conhecer a raiz, ou, sei lá, a semente ou a linhagem, seja importante. Não digo que não. Digo só que vivo bem sem isso. Podiam as palavras ser de geração espontânea, podia ser como se a fada do dentinho ainda por aqui pairasse e todos os dias me deixasse, debaixo da almofada, um papelinho com palavrinhas novas. Por mim, estava bem. E o grego, aquilo de estar tudo nos gregos, de ser essencial conhecer as tragédias gregas -- filho que mata a mãe, gentinha que esvazia os olhos, pai que se perde no mar mas que afinal se encontra, mulher que fica à espera feita freirinha bordadeira, órfãos incestuosos que se desgraçam a cada passo que dão (e se non è vero que estes são gregos, è ben trovato e honi soit qui mal y pense), ou ninfas, monstros ou bicharada aluada -- que é que isso acrescenta à minha felicidade? Nada.


Se fosse dada a cenas dessas, via as telenovelas portuguesas do horário nobre. E não quero saber que estejam de boca aberta perante tamanha ofensa à cultura matricial, à génese da civilização. Não quero mesmo saber.

Tudo o que seja obrigatório me incomoda. Não gosto de ortodoxias. Latim e grego são fundamentais? Passo.

Fundamental para mim é outra coisa: é não ter que ler documentos escritos por doutores que escrevem 'poder-mos' ou 'á um mês atráz' ou não ter que ouvir outros eloquentíssimos seres a dizer em que nunca foram fortes a matemática para se desculparem por não saberem quanto é dez por cento de quinhentos.

Portanto, é isto.

E também não sei porque é que estou com todo este converseio. Se quero ser casca bruta pois que o seja em privado, que não o alardeie em público. Mas é aquilo de a ignorância ser muito afoita. Perco a prudência e mostro ao que venho. Azarinho.

Tirando isso, com vossa licença, uma 'Nota à Introdução'

Pinar só co'a cabeça
É protérrima noção
Ca Literatura começa
Ter em muita aceitação.

Entrada a tola entra tudo: taco
tórax e veio.
Se não couber no buraco
Racha-se o buraco ao meio.

-- Nem rachar será preciso:
Só rasgar um bocadinho.
Como na árvore, inciso,
O nome do passarinho.



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O poema é de Mário Cesariny in 'O Virgem Negra', as pinturas de Júlio Pomar e o Cry Baby é cantado com as vísceras de Janis Joplin
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E queiram aceitar o meu convite e apareçam no meu Ginjal para testemunharem que não é Nem no cântico dos seios nem no soluço das pernas, coisa que proveio de David Mourão-Ferreira ao som da Carmen.

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quinta-feira, julho 25, 2019

Sharon Stone, a bela e sexy mulher que teve o desplante de não morrer nova






Há algum tempo recebi a visita de uma ex-colega que não via há algum tempo. Quase tive um choque. Mantinha a mesma maneira de se pentear e de se vestir mas tinha engordado, o rosto tinha papos por todo o lado, a pele estava baça e disfarçada com base, num colorido artificial. O cabelo estava também sem vida apesar do tom avivado. No conjunto, estava uma caricatura do que tinha sido.

Quando uma outra colega entrou na sala em que estávamos, não a reconheceu. Tive que fazer de conta que ela estava distraída: 'Então, sempre acelerada, nem repara na Drª Ana que aqui veio visitar-nos...?'. Pela reacção, quase um sobressalto, percebi que estava a ter a mesma involuntária impressão. Ao fim do dia, quando pude comentar com esta última, ainda não me tinha restabelecido: 'Já viu como ela está...? Tive que me esforçar para não deixar transparecer a surpresa que estava a sentir'. E ela: 'Nem me diga nada... tive que disfarçar...' E eu: 'Mas o que é? Está mais gorda...? Viu os papos? Quase parece desfigurada...' E ela: 'O que é? É simples: são 10 anos a mais. E acha que nós estamos iguais ao que éramos há dez anos...?' Acho que já não respondi. Devo ter ficado apreensiva, senão mesmo um bocado triste.

Tendo trabalhado em várias empresas e passado por fusões e cisões, tem sido frequente perder de vista muitas pessoas e, passados alguns anos, calhar a encontrá-las. E há uma interjeição recorrente quando me vêem: 'Ah... mas está igual...' ao que geralmente respondo: 'Olhe que não, olhe que não... capaz é de estar a precisar de óculos, não...?'. Racional como sou, não me deixo levar pois, a ser verdade, ainda estava com cara de dez anos.

Creio que já contei que, num dos últimos enterros a que fui, dei de caras com um homem que conheci na minha infância. Ele estava com uma mulher que não reconheci como sendo a mulher dele até porque estava certa de que ela tinha morrido. 'Não me estás a conhecer, pois não...?', disse-me ele. E eu, atónita, a achar que não podia ser, o senhor não podia estar quase igual ao que era umas décadas atrás, apenas um bocado mais velho. Não arrisquei: 'Acho que sim, que conheço mas não estou bem a ver quem...', até porque tinha até ideia de a minha mãe, em tempos, me ter dito que o senhor também tinha morrido. Então ele disse-me o nome e eu só não me deixei cair para trás porque já aprendi a disfarçar quando levo um murro no estômago. Era o meu grande e insubstituível amigo, o meu primeiro amor, minha companhia de brincadeiras e longas conversas -- até ter ido cada um para seu lado. Fiquei sem acção. E ele: 'Pois eu conheci-te logo, estás igual, o mesmo sorriso.' E eu muda, provavelmente o mesmo sorriso pasmado no rosto. Depois apresentou a senhora, era a mulher. E ela disse: 'Toda a vida ouvi falar de si'. E eu, em estado de estupor catatónico, incapaz de retribuir a simpatia. Só me ocorria que a senhora parecia capaz de ser minha mãe, que não podia ser a mulher do meu amigo de infância e que ele não podia estar transformado naquele homem enorme, encorpado, ar pesado e olhar triste. Quando comentei com a minha mãe, ela contou-me que ele tinha saído do banco onde tinha um cargo dirigente, tinha tido uma depressão, vivia agora toda a semana numa quinta, que estava transformado num homem do campo. Ao fim de semana, vinha à cidade ou a mulher ia ter com ele ao campo. E senti alguma tristeza. Já aqui falei muitas vezes desse meu grande amigo. Sempre foi reservado, tímido. De uma inteligência invulgar, chegou a receber o prémio do melhor aluno do país, coisa que soube pelos meus pais e não por ele. Eu era então provocadora, gostava de fazê-lo sofrer, fingia que não gostava dele, fingia que preferia os outros meninos, desafiava-o para fazer coisas que ele não gostava de fazer mas que se sentia compelido para não me contrariar. Mas, na verdade, eu não conseguia passar sem ele. Andávamos sempre juntos. Eu conversava, sonhava alto, fazia-o viajar nas minhas palavras e ele, calado, sorridente, nunca me contrariava. Nunca, nunca. Tinha uma paciência incrível e eu, embora nunca lhe dissesse, sentia-me agradecida por poder contar com ele.

Não suportou o peso da vida na cidade e a sede daquele grande banco que fervilhava com centenas de pessoas, aquele ambiente, aquela pressão, foram-lhe insuportáveis. Aguentou talvez uns trinta anos e depois refugiou-se no campo.

Mas isto para dizer que o tempo passa inexoravelmente sobre nós. Sorte a de quem lhe sobrevive.

Quando aqueles que achamos muito belos morrem na flor da idade, lamentamos muito e guardamos deles a imagem da sua eterna juventude. Habitam a nossa memória (e agora habitam também o infinito repositório da net), cristalizados, iguais ao que eram quando a sua beleza impressionava quem os via.

Claro que agora aquela app que, através da inteligência artificial, não apenas fica com um manancial de inumeráveis rostos como simula como ficam as pessoas quando envelhecerem, conseguimos ver como seriam hoje aqueles que, em tempos, cativavam o mundo com a sua radiosa beleza. Os próprios fazerem isso é uma coisa, cada um decide por si. Ou fazer isto com pessoas que estão vivas também é como o outro. Agora, quando fazem isso com quem já morreu, sinto que é preciso ingratidão e maldade para querer ver como teriam sido frágeis e decadentes aqueles que se evadiram da lei da vida sem que o mundo as visse a perecer.

E eu, ao olhar o belo rosto de Sharon Stone, que está viva e bem viva, e ao ver como as pálpebras tombam e o cabelo embranquece e como o seu corpo tentador hoje se encobre para lamentar o afastamento a que se viu votada, sinto pena -- o tempo é ingrato e mau. Ou não é o tempo, são as pessoas. Ingratas e más. E, no entanto, que bonita que ela é e que bem que está e que sorte teve ao escapar, sem sequelas, a esse inferno que é um maldito AVC. E que solidariedade, cá muito minha, sinto ao pensar no que ela deve ter sofrido ao ver-se sem falar, sem andar, totalmente dependente, a ter que reaprender tudo, a força necessária, a coragem, a superação do medo e do desgosto. Tão difícil tudo.
Penso no meu pai. Tão bem que estava, tão saudável, tão orgulhoso que sempre foi e, no entanto, um dia viu-se inerte, apenas com metade do campo de visão, sem orientação, sem força num braço, sem andar, de fraldas, a ter que ser alimentado à boca, a ter que ser lavado, a ter que depender de outros para tudo.
Felizmente ela conseguiu ultrapassar tudo: está bem, saudável, inteira.


Mas queixa-se que a esqueceram, que deixaram de lhe dar trabalho. O cinema queria-a como mulher sensual, maliciosa, enérgica, intimidantemente tentadora, não como uma mulher de meia idade que, em tempos, foi isso tudo e que agora perdeu o viço. Como deve ter sido difícil para ela esforçar-se por recuperar, sentir que estava de novo a reconquistar a plenitude das suas facultadas e, ainda assim, sentir-se rejeitada. Uma coisa horrível.

Quando agora fiz anos perguntei aos meninos se sabiam quantos anos eu tinha feito. Não sabiam, atiravam números à sorte, uns para cima, outros para baixo, e eu esclarecia-os dizendo que tinha cem anos. Desatavam a rir, que era impossível. E eu, muito séria, dizia que era mesmo. Cem anos. Riam, perguntavam aos pais. Mas eu, no meu íntimo, antecipava o prazer de viver cem anos e ainda estar para as curvas, com vontade de brincar e de rir, com vontade de seduzir, de provocar, com vontade de me pôr a caminho.


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A segunda vida de Sharon Stone


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Isabella Rossellini, Jack Nicholson e Jennifer Lawrence aparecem aqui sob o efeito de uma outra app, desta feita uma que converte as pessoas em pinturas de antanho. Por acaso, se não me importasse de oferecer o meu rosto a estranhos, gostava de me ver nesta.

A Lady Di, a Marilyn Monroe, o Brad Pitt, o Putin, o Trump, o Zuckerberg e outro que não sei quem é foram envelhecidos pela FaceApp e nesta é que eu não me meto. Livra.

A Sharon Stone, na fotografia, está como é agora e como era antes, sem inteligência artificial à mistura. 

Crossroads pelo Don McLean, que eu não conhecia e que é tão bonita, está aqui porque estou a gostar imenso de ouvir. Acho-a triste, triste, mas não consigo deixar de ouvir.

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Tenho andado a tentar reavivar o meu Ginjal e Lisboa, a love affair pelo que, se estiverem para aí virados, serão muito bem vindos nesse meu lugar à beira Tejo plantado. Hoje tenho: E o seu nome seja o seu próprio pudor sobre poema de António Ramos Rosa ao som de Divna Ljubojević. E eu gostava muito que gostassem de lá estar. 

[E desculpem por, nos últimos dias, não ter respondido a comentários ou mails mas, acreditem, o meu tempo não dá para mais. Hoje respondi, ou melhor, coloquei uma pergunta porque era um único comentário e a minha pergunta era simples. Mas leio sempre (e fico sempre com um sentimento de culpa por achar que parece pouco educado por não retribuir a simpatia de quem por aqui passa mas ponho-me a escrever posts e quando dou por ela são quase horas de me levantar)]


quarta-feira, julho 24, 2019

Paris, Lisboa





Escolho uma música que, com uma certa pena, penso que pode parecer até banal. Faz parte daquilo a que se chama, também com banalidade, o imaginário de muita gente. Uns acordes que rasgam a alma de quem um dia se sentiu perdido, de quem, para sempre, se desencontrou do seu destino. E quem ouve, mesmo que não tenha vivido histórias de perdição, sente a dor e a solidão de quem se detém tentando encontrar o caminho de volta a uma casa onde um dia sonhou ser feliz.
Esta terça-feira, na Avenida de Paris, passou à frente do carro, na passadeira, uma mulher alta, magra, com um vestido preto, até aos pés, sem mangas, e o vestido ficava-lhe solto apesar de estreito, e ela parecia vinda de um outro tempo. Tinha o cabelo ruivo apanhado mas de forma solta e uns brincos muito grandes, em vermelho. E caminhava como se não tivesse pressa, como se não tivesse para onde ir. Todos os outros andavam rapidamente, excepto aquela esfíngica mulher. Fiquei a vê-la. Não sei se parecia perdida ou se ia apenas a pensar ou a sentir o prazer de existir. Pela forma leve como andava, poderia pensar-se que seria bailarina. Ou alguém com asas na alma. Ou alguém que caminhasse nua.

No espaço em que consegui vê-la, parecia ausente. 

Depois segui e certamente não mais a verei. Assim é a nossa vida. Cruzamo-nos com pessoas que não nos vêem ou que nós não vimos, seguimos por outros caminhos, perdemo-nos sem nunca nos termos encontrado. Estranhos, invisíveis, para sempre desconhecidos. Insignificantes pontos de luz que se cruzam por acaso e que seguem o seu caminho como se nunca tivessem coincidido no mesmo espaço, no mesmo tempo.




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As fotografias, tal como no post abaixo, são de Jörg Colberg e encontrei-as na Vogue 

Your Post Has Been Deleted
e
Not your girl




Espanto-me quando vejo as marchas gay. Tanta gente. Pode acontecer que alguns que ali estão sejam apenas apoiantes mas, quando as câmaras se chegam, vêem-se muitos casais abraçados, a beijarem-se. Tantos. Vejo também cada vez mais casais no seu dia a dia, a céu aberto, sem esconderem a sua orientação sexual. E penso como deve ser libertador para eles poderem fazer o que a maioria faz: manifestar o seu afecto. E como deve ser-lhes reconfortante a indiferença de quem com eles se cruzam. E imagino como, pelo contrário, deve ser horrível viver tendo que esconder uma coisa que é da própria natureza, viver uma vida de mentira, recear os olhares de censura ou de chalaça dos outros, recear ser segregado, rejeitado.

Não sei que percentagem da população é homossexual mas estou em crer que não é tão marginal quanto se possa pensar e estou também em crer que muitos ainda não são francamente assumidos. Talvez a gente mais nova já se sinta mais liberta e são esses que mais se vêem de mão dada ou, mesmo, a darem um ou outro beijo, mas muitos que hoje já são pais e mães de família imagino eu que não tenham coragem para se assumir. Por exemplo, desde há vários anos que convivo com um que todos achamos que é completamente gay e, no entanto, é casado, faz-se de muito hetero e até passa a vida com anedotas e gracinhas sobre gays. E sei de uma que é lésbica, assumida na sua vida privada, e que, no entanto, na sua vida social ninguém desconfia nem um pouco da sua orientação. A duplicidade a que isso obriga deve ser arrasadora. Mas, com eles, nunca falamos no assunto, é tabu. 

E se hoje se fala muito em inclusão a propósito de deficiências e se dão passos importantes no sentido das acessibilidades e da adopção de políticas de recutamento abertas a pessoas portadoras de deficiência, a verdade é que, em privado, na primeira oportunidade, parodiam-se alguns possíveis trejeitos ou ampliam-se as suspeitas das simpatias gays. 

Não quero com isto dizer que um homossexual seja deficiente e se aqui faço esta ressalva é porque sei como é fácil uma pessoa ser treslida. Uma pessoa homossexual não é deficiente. O que quero dizer é que enquanto a deficiência tende a despertar o lado caritativo dos decisores 
(e digo isto consciente do que estou a dizer pois se há um lado de abertura mental ou de consciência social, a verdade é que há também muito um lado que é isso mesmo, caritativo, e isto porque há muito, entre os decisores, a ideia de que o poder de que dispõem os torna invulneráveis, ou seja, superiores, disponíveis para dar uma 'mãozinha' aos seres inferiores), 
a homossexualidade é ainda vista, por muita gente, como uma perversão, um comportamento desviante, um traço de personalidade que predispõe os homossexuais à submissão, a serem alvo de gozo, humilhados. 


Já aqui o disse mil vezes e é um facto. Sou heterossexual irredutível e, desde que me conheço, que me sinto atraída pelo sexo oposto. Sempre me conheci em estado de enamoramento por meninos primeiro pequeninos e depois maiorzinhos. Nunca senti qualquer atracção por nenhuma mulher e, se penso na possibilidade de ter algum contacto sexual com uma, involuntariamente sinto alguma aversão física. Mas isso sou eu. Se calhar, teria uma vivência mais rica se fosse bissexual. Mas, lá está, isso não é coisa que se escolha.

E é por ter muito claro que isto é coisa da natureza e/ou das circunstâncias de vida que, aqui, não me canso de falar no direito dos homossexuais à sua vida vivida em plenitude, na companhia de quem escolherem, sem terem que esconder ou, de alguma forma, pretender mitigar a sua orientação sexual. Toda a gente tem direito a viver feliz e em liberdade.

E estou a escrever isto porque vi umas fotografias na Vogue italiana e apeteceu-me tê-las aqui. São muito bonitas.

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A primeira fotografia é de Jörg Colberg e a segunda e este vídeo já aqui acima são de Stella Asia Consonni.

Vi a primeira em Your Post Has Been Deleted – Censorship on Instagram e a segunda em Not Your Girl, ambos na Vogue italiana.

A Nina Simone está aqui porque sim, porque mil vezes sim, pela voz, pelo piano, pela presença. E porque o Strange Fruit é muito bonito.

terça-feira, julho 23, 2019

Strip numa noite quente


Esta minha sala é quente. Toda envidraçada, bate-lhe o sol desde a nascença até que, a meio do dia, se vira para o outro lado. Estive como habitualmente: à espera de aqui ficar sozinha para poder ligar o vento frio. Sabe-me bem o vento frio a soprar-me a pele.

Tanto que lutei contra isto. Anos. Nem queria pensar no que um aparelho destes desfearia esta minha sala tão cheia de coisas especiais. Anos. Toda a família a querer vergar-me, a apelar ao bom senso que, em mim, tantas vezes vagabundeia. 

Até que baixei a guarda. 

Seguiu-se a escolha do lugar menos intrusivo. Eu queria-o escondido. Mas escondido não atiraria o ar com toda a pujança. O técnico elegeu o melhor sítio. Zanguei-me: nem pensar. A estética deve sobrepor-se ao conforto. Absurdo, disseram. Teimei: nada feito, só escondido. Absurdo, repetiram. 

Até que cedi. 

Ali está. Já nem dou por ele. Acho que ninguém dá por ele.

E o que sei é que, desde há algum tempo, mudei muito. A sala é ampla e consegui que, apesar de todas as muitas estantes a circundar todo espaço, permanecesse com este ar espaçoso e amplo. Mas os móveis, na maioria, são móveis escuros, de bela madeira maciça, ou de raiz de nogueira ou de mogno. Mesmo as últimas estantes, do IKEA, são escuras. E tenho peças muito bonitas, especiais mesmo. Mas, dizia eu, mudei. Hoje não escolheria nada disto. Aliás, assalta-me a vontade de simplificação, de móveis brancos, de zero objectos especiais. Zero vidros de murano, zero clepsidras -- e que lindas são, umas de pó dourado que, devagarinho, se vai esvaindo, todas de formas elegantes, umas de um belo líquido azul, o mar a escoar-se em silêncio vagaroso, e caixinhas de música ou outras, lindas, com bonequinhos em biscuit. Para quê tudo isto? Só quereria algum objecto caído do céu como aquele leque de finas lâminas de madeira com desenhos à mão, dedicatórias de amor e poemas manuscritos, coisa de mil oitocentos e tal que um dia descobri. Ou não: como os tais livros que me descobrem (assim mo dizem), também este leque me descobriu numa tarde longínqua.

De resto, zero.

Digo-o apesar de tanto gostar de tudo.

Na realidade, não consigo desfazer-me destas minhas coisas. A sala, apesar de tudo, não está escura. Pintei uma parede de sanguínea. Faz a sala vibrar. Tenho nessa parede um quadro grande que pintei e do qual jorra a cor. E os tapetes são coloridos e os sofás também têm cor e as almofadas também. Mas seria diferente se todas as estantes fossem absolutamente simples, brancas, se os sofás fossem larguíssimos e todos brancos, se as paredes fossem brancas, quase sem nada. E eu, numa noite assim tão quente, nua, numa chaise bem longue, corbusier por exemplo, minimalista -- eu e a cadeira.

E nem conto aqui sobre o striptease que faria antes porque este blog não é dado a intimidades desnecessárias.

Em contrapartida, para ilustrar a desnecessidade de roupa em cima, aqui vos deixo uma série de strips de toda a espécie e feitio. Inspiração para whatever.


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Não sei em que filme é que a Sofia Loren deu cabo do juízo do pobre do Marcello Mastroianni mas, quem tenha curiosidade, talvez descubra.

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