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sexta-feira, janeiro 18, 2019

Lisboa tem montras com leitões, calçadas, ratinhos, galos, santos e santinhas.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 2 de 8]




Está muito frio. Quando fomos fazer a nossa caminhada e estava que não se podia. Não sei se era do ar que se respirava, se era de mim que o respirava.

Motivos para fazer aqui uma festarola não faltariam: 
  • não só as macacadas dos defuntos da era lapariana, todos a darem à costa -- a pinókia dos  swaps, a  tal da justiça que dá mau nome às louras, o aguiar do escritório de advogados, o Hugalex que nunca mais atina, sei lá, tudo a sair à cena -- palavrentos, biliosos, conversas trapalhonas, falta de ética, todos prontos a destruir com o ácido da sua bílis não só Rui Rio mas toda a sua entourage, afinal todos correlegionários. 
  • mas também poderia falar do abraço apaixonado e emocionado entre as duas múmias paralíticas que sempre se odiaram, o Rio e o Menezes
  • ou poderia dizer qualquer coisa da dupla sinistra que a SIC convidou para falar de Vara, uma dupla que pareceria uma anedota se eles não fossem um perigo, a Procuradora Boca Guedes e o ressabiado Mano Costa. Não fui autorizada a ver já que, aqui em casa, se preza muito a higiene mental mas, num rápido zapping, o que vi e ouvi foi de susto. Gente destas é tóxica, estraga tudo, envenena o solo que pisa e o ar que respira. Mas não me alongo, remeto para as palavras do Valupi.
  • e até poderia falar do anormal do Trump com as suas burrices e alarvidades e com a última tirada a dar entender que a mulher poderia fazer as saladas para servir aos convidados (já que continua o shut down). Mas a Melania não se deve importar, gosta de fazer papel de parva, de escrava parvalhona.
  • ou poderia falar da pangalhada do Brexit e da demonstração da irresponsabilidade dos populistas que levaram o Reino Unido a este beco sem saída. Todos à deriva, conduzidos por uma totó.
Mas, infelizmente, não estou in the mood. Continuo com pouca vontade. Estou melhor, bem melhor, thank you, mas, ainda assim, aquelas cócegas nos dedos de que o Francisco, no outro dia, falou, essas ainda não deram as caras.

Por isso, volto-me para o meu passeio de domingo pelas ruas desta Lisboa de que gosto todos os dias e, sempre, cada vez mais.

Comecei, lá em cima, com a fotografia um bacorinho que podia passar por atleta mas que a fumar daquela maneira não o é e que, ó Caro Rei dos Leittões, pela cor dos pezinhos, lamento mas não é da sua família, um ilustre Pata Negra.

Noutra montra um garboso galo, um bem comportado acólito e não sei se um Santo Antoninho. E azulejos. 


E depois um quadro lindo, uma Nossa Senhora, um menino e mais uma amiga da mãe do menino e, à frente, uma orquídea perfeita e umas pecinhas.

E o reflexo dos prédios da frente. Gosto de fotografar montras em Lisboa pois contêm sempre a beleza das ruas reflectida nelas.


E continuo Rua Alecrim acima, agora do outro lado da rua, passando por uma loja de que gosto há bué. Comprei lá uma caixinha para jóias para a minha mãe que, desde há mil anos, está em cima da cómoda do quarto que era de ambos e que agora, desde que o meu pai está numa cama articulada com um colchão eléctrico anti-escaras, é só dele. Também é de Louças de Sant'Anna uma cigarreira com cinzeiro acoplado que não exerce outra função que não apenas a de ser apenas uma bela peça. Herdei também o pé de um candeeiro, uma mesinha pequena com tampo de mini-azulejos e creio que mais qualquer coisa mas de que agora não me lembro.



Lá em cima, já no Chiado, a Vista Alegre. Não fotografei bem pois no chão há montinhos de pedras da calçada e não as apanhei. Só fotografei as peças cujo desenho é inspirado no belo trabalhado das ruas.  E, uma vez mais, o reflexo das ruas. Tudo tão bonito.

E, atravessando a rua, a bela loja Hermès. Tudo ali é bonito e de boa qualidade, desde as sedas -- cada écharpe mais linda -- até à decoração das montras.

Agora todas as montras têm ratinhos fofinhos e alegres. O decorador de montras deve ter uma explicação para a opção mas, pelo menos para mim, não é evidente. Não interessa. Ratinhos, gatinhos, gatões, leitões -- tanto faz.

Já no outro dia, quando falei da Lisboa musical, mostrei outra montra, uma com ratinhos músicos. 


Devo dizer que não sou grande cliente da marca, é tudo caro demais para o meu gosto. Mesmo as gravatas de homem, sempre com um bom toque e com desenhos bonitos, me parecem excessivamente caras. Penso sempre que gravatas Hermès só para homens que fazem questão de ostentar marcas. Tinha um colega muito vaidoso que tinha uma grande coleção delas. Quando gozei com ele, disse que não era vaidoso e que não tinha comprado uma única, que os amigos é que, pelos anos, lhe ofereciam sempre gravatas Hermès. Claro que gozei com ele por causa desses amigos, deviam ser escolhidos a dedo para terem poder de compra para lhe oferecerem gravatas Hermès. Whatever.

Para mim, de Hermès, apenas os seus bons perfumes. 

No outro dia, por exemplo, vacilei quanto a um que é excelente, o Eau de Rhubarbe Écarlate: pensei que não precisava e depois, quando lá voltei, com a auto-desculpa que era uma extensão dos presentes de Papai Noël, já se tinha ido. Fiquei com pena. Devemos seguir os nossos instintos. Quando os contrariamos fazemos mal.


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Espero que tenham gostado deste meu passeio a ver montras. 
A ver se agora vos mostro o tal alfarrabista. Têm que ver.
O pior é a minha falta de energia.

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sábado, setembro 09, 2017

O barco vai de saída.
[1º de 6 posts]



Sem contar essa história escondida
Por servir de criado essa senhora
Serviu-se ela também tão sedutora
Foi pecado
Foi pecado
E foi pecado sim senhor
Que vida boa era a de Lisboa


E a conversa já vai longa e a noite já também se alonga. Deixo-vos com o veleiro que, ao longe, muito ao longe, quase etéreo, branco e elegante, vai indo para o mar. Vou também eu descansar. Levo para os meus sonhos o azul do mar, o azul do céu, o azul de quem ama o azul. E as gaivotas que aqui também são brancas e as velas também brancas dos veleiros que guardam a luz e o sal que vem do mar.

Vou no espantoso trono das águas
vou no tremendo assopro dos ventos
vou por cima dos meus pensamentos


vou de viagem ai que largada
só vejo cores ai que alegria
só vejo piratas e tesouros
são pratas, são ouros,
são noites, são dias

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Desejo-vos, também, meus Caros Leitores, um belo e luminoso dia.

E vão descendo pelos posts abaixo, vão descendo, sim senhor,

com sonhos de prata e fantasia
com sonhos da cor do arco-íris
desvaira se os vires
desvairas magias

...................................

quinta-feira, julho 24, 2014

Ana Drago, Daniel Oliveira e pareceu-me que também Ricardo Paes Mamede chegam-se à frente e dizem que é preciso unir a esquerda e que, por isso, bora lá formar mais um Partido...? É isso? Percebi bem? E, se bem percebi, vão formar este Fórum, ou Manifesto ou Partido ou lá o que é e depois juntam-se ao Livre e, de braço dado, vão bater à porta do PS? Ou percebi mal? É que, se é isso, não seria mais fácil irem inscrever-se no PS? Ó esquerdinha mais destrambelhada sem qualquer tino na cabeça...


No post abaixo já falei das notícias da imprensa de mão, que dão conta de que o Coelho não se importa de deixar ir a Albuquerque para a Comissão Europeia. E não disse mas dei a entender: cantam bem mas não me embalam.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.



O barco vai de saída



(Fausto, no seu melhor)

_

A direita é mais bronca, inculta, gentinha incompetente, pequenos conservadores ultramontanos, pacóvios e provincianos, tementes em relação à cultura e ao conhecimento. Dói só de a gente saber as burrices que dizem e fazem. 

Quando tomam conta da quinta, fazem leis que não lembram ao diabo, destratam quem podem, avacalham o que os rodeia, destroem tudo à sua passagem. Sem pruridos ou remorsos.

Ana Drago é inteligente, tem o verbo fácil, é fotogénica.

Mas... so what...? De concreto, o quê?

Os inteligentes de esquerda vêem isso e sentem genuína repulsa. Têm angústias literárias, exaltações quase místicas, epifanias criativas e, de todas as formas possíveis e imaginárias, parodiam, insultam, desprezam os mentecaptos dos direitolas.

Depois, cada um de per se quer parir a tirada mais iluminada, quer citar o intelectual mais cosmopolita, quer obter o reconhecimento deslumbrado dos seus pares, de facto, quer ser primus inter pares.

E, nessa ânsia narcísica, em que os princípios se querem os mais puros, as intenções as mais nobres, o despojamento o mais onírico, começam as divisões.

Enquanto a direita se une, a esquerda divide-se.

Portugal pode estar a ruir, as contas desequilibradas, a dívida a subir para níveis estratosféricos, os juros da dívida a sugarem toda a magra seiva que a frágil economia consegue produzir, podem os desempregados estar a deixar de receber subsídio e os excluídos a deixar de receber o subsídio de inserção, pode o país estar a tornar-se um país onde as desigualdades mais se cavam, e podem os professores ser humilhados e tratados como cães sem dono, e os cientistas ser desprezados como parasitas, podem os jovens sair em debandada, reproduzindo-se longe deste país pobre e envelhecido... que a esquerda continua a agir autisticamente, numa lógica que é essencialmente de estética política. 

Um por aí anda a tocar ferrinhos e a apelar à desunião dentro do próprio partido, outros a repetirem, no mesmo tom de voz, os mesmos slogans de há dezenas de anos que já ninguém escuta, e os da esquerda que se quereria arejada e moderna a brincarem aos partidinhos, juntando-se e desajuntando-se. Um filme que seria de risota se não tivesse a consequência de deixar o caminho livre à destruição que vem sendo levada a cabo - sem oposição.

Acho Ana Drago, Daniel Oliveira, Ricardo Paes Mamede ou Rui Tavares gente inteligente. E João Semedo ou Catarina Martins também. Ou Francisco Louçã, também. Inteligentes e boa gente.


Quantas vezes já vimos estas pessoas a formarem manifestos, partidos, tendências?

Falam, falam, falam... e não fazem nada...


Mas, lá está, falta-lhes qualquer coisa. Falta-lhes um suplemento de quelque chose. Falta-lhes uma cola agregadora. Falta-lhes alegria e força intrínsecas. Miguel Portas tinha tudo isso e tinha, ainda por cima, carradas de charme. Ora nenhum destes tem isso porque isso não se herda, isso ou está nos genes ou, azarinho, não está.

Se ainda não perceberam que, para além de tudo o que é genético e de todos os puros ideais, têm que ter os pés assentes na terra, têm que ter um mínimo de pragmatismo e que, se querem chegar-se ao poder e aliar-se ao PS, então devem ter sentido prático e, de facto, juntarem-se ao PS - ou, então, vão andar o resto a vida a fragmentar os partidos por onde passam, depois a formar outros, depois a provocar cisões, depois a voltarem a juntar-se noutros, uma brincadeira inconsequente e ridícula. 

Fazem-me lembrar as bolinhas de mercúrio quando se partia um termómetro do antigamente. Têm muita pressa de fazer qualquer coisa, juntam-se a outras bolinhas, depois as bolinhas dividem-se em duas e depois voltam a juntar-se a outras bolinhas; mas tanta dança de bolinhas não passa disso mesmo: de uma dança de bolinhas.


Pressa. Muita pressa. Foi neste ritmo que Daniel Oliveira abriu esta quarta-feira ao final da tarde a sessão organizada pela Fórum Manifesto para “Uma governação decente”. Do lado oposto da mesa, mas em sintonia perfeita, na pertença à associação política, mas também na escolha dos verbos e adjectivos, estava Ana Drago, igualmente ex-dirigente do BE.

(...)

Duas certezas para já: vai nascer uma plataforma política e eleitoral que se baterá por ir a votos já nas legislativas de 2015. E que entende que é “suicidário” excluir o PS. Um partido? Aderem ao Livre? “Vamos ver como é possível organizar esse esforço. É muito cedo para ver a forma institucional”, disse Ana Drago.


Por um lado dizem que têm pressa mas, ao mesmo tempo, que ainda é cedo. Em que ficamos? Em lado nenhum, claro.

Há pouco ouvi o Rui Tavares na televisão. A mesma lenga-lenga intelectualizada, bem articulada. Mas, senhores, falta-lhes garra, sentido prático, experiência de vida, capacidade para deitarem mãos ao trabalho.

Se nem conseguem unir-se entre eles, meia dúzia de gatos pingados, como pensam conseguir algum dia mobilizar um país? 

Sabem o que me ocorre perante tudo isto? Que, por este caminho, e se, ainda por cima, os amigos do Seguro o conseguirem aguentar lá, o Passos Coelho e o vice-irrevogável Portas nem precisam de se ralar com as próximas eleições. Têm, de facto, muita sorte: governam um país manso e ainda por cima têm passarinhos destes na oposição... 

___


E, a propósito do Passos, queiram, por favor, descer até ao post seguinte.

.

domingo, dezembro 01, 2013

'Aquilo que me perturba em Portugal é a mansidão' diz Rui Nunes, o filósofo. Não sei o que deu nos seniores, todos a apelarem à violência. É este, é o Mário Soares, é o Papa Francisco (o mais explícito, o mais radical de todos). Isto só visto!




A Europa, tal como está organizada, chefiada por burocratas cínicos, destituídos de cultura, no sentido mais profundo do termo, funciona como uma pátria concentracionária (...)

(...) Porque a Europa vai sentir um dia a ira daqueles que viram morrer os seus como lixo às portas dessa pátria mítica. A Europa vai pagar isto. 

- Quando regressa a Portugal também encontra essa ira dos excluídos?

Não. Aquilo que me perturba em Portugal é a mansidão. Isso é terrífico. Este povo foge, não enfrenta.


[Breve excerto da entrevista concedida por Rui Nunes a Alexandra Carita no Actual do Expresso.]


Rui Nunes tem 66 anos e se calhar também seria classificado como um velho do Restelo pelos ignorantes que assim têm designado Mário Soares e as pessoas que estiveram na Aula Magna (ignorantes esses que notoriamente nem sabem quem foram esses senis, apalermados do Restelo, na volta uns 'tios' já gagás). Digo ´seria classificado' porque sei que a esses ultra-montanos e a essas virgens ofendidas nunca lhes passaria pela cabeça ler esta entrevista de que aqui falo.

Adiante.

E já que parece que os anciãos estão todos a virar uns perigosos revolucionários, uns trauliteiros de primeira, venha daí mais um: Fausto.

O caso é que a minha amiga Leonor manda dizer que tem estado a ouvir as músicas recomendadas pelo seu amigo Dr. Lampião e que, para aqui hoje, vem a calhar o 'Eis aqui o agiota' do Fausto, rapaz com 65 anos acabados de fazer.



*

O autor da fantástica fotografia é Spencer Tunik,  fotógrafo muito conhecido por fotografar grandes grupos de pessoas nuas.

quinta-feira, maio 03, 2012

Das cenas do 1º de Maio no Pingo Doce ao Ensaio sobre a Cegueira de Saramago, com brevíssima dissertação sobre as fragilidades humanas. Das estatísticas desgraçadas relativas ao desemprego em Portugal que já vai em 15,3% ao artigo de Min Zhu do FMI, passando pela teoria de Sinatra sobre o casamento e o amor. Começa com uma verdade inquestionável: uns vão bem e outros mal e não sou eu que o diz, é Fausto.


Música, por favor

Fausto - Uns vão bem e outros mal 



Hoje, quando bebia o meu café matinal, ao meu lado um cliente dizia ao gerente do pequeno estabelecimento que, na véspera, quando tinha estado no Pingo Doce, não tinha havido distúrbios de maior, que as pessoas é que não sabiam comportar-se. 

À saída de um Pingo Doce


Contava, com ar de quem tinha ido à guerra e saído vitorioso, que tinha compensado. Que tinha comprado 10 garrafas de litro de azeite, que agora tinha azeite para 2 anos e olhava sorridente à volta, orgulhoso pelo feito. O gerente dizia que também tinha comprado muito azeite mas que tinha optado por garrafões de plástico, vários, que também lhe iam dar para 2 anos, pelo menos, que o prazo de validade é grande. Quando eu saí ainda eles comparavam o volume de compras que tinham feito.


À saída de um Pingo Doce


Claro que, vivendo com dificuldades, as pessoas não pensam duas vezes e disparam, por vezes sem racionalidade, quando lhes acenam com metade das compras à borla. Claro que, para isso, teriam que efectuar compras no valor de 100 euros, coisa que, já de si, não é pouco mas nem devem ter avaliado o impacto no seu orçamento doméstico de compras da ordem dos cento e tal ou duzentos euros num único dia (numa reportagem de televisão vi um senhor orgulhoso dos 400 euros que tinha gasto, em vez dos 800 que seriam).

Questões de vária ordem poderiam ser analisadas sobre este facto mas quero apenas referir que este é, na sua maioria, o povo votante deste país, o povo que decide o sentido de voto. Pessoas que procuram uma instantânea melhoria nas suas condições de vida, sem se deterem a analisar o porquê, o como, o até quando, etc., pessoas que agem por impulso, sem fazerem cálculos ou sem se deterem em considerações de carácter filosófico.

Foi assim - porque gostaram da cara de quem lhes prometia uma política de verdade, que lhes dizia que não era admissível que se aumentasse mais os impostos ou que se sonhasse sequer em mexer nos subsídios de natal - que deram a vitória nas eleições a uma pessoa como Pedro Passos Coelho, colocando-o a ele e  ao Relvas, ao Gaspar e a outros neófitos, ex-jotas e aprendizes à frente da governação deste país.

É fácil, muito fácil, manipular pessoas que, de alguma forma, se encontram fragilizadas (ou porque se sentem inseguras, ou carentes, ou revoltadas, ou doentes, ou desempregadas ou o que for).

*

Parábola dos Cegos - Pieter Brueghel, 1568

Estavam muito perto do supermercado, em algum destes sítios se deixou ela cair, a chorar, naquele dia em que se viu perdida, grotescamente ajoujada ao peso dos sacos de plástico cheios, valeu-lhe um cão para a consolar do desnorte e angústia, este mesmo que aqui vai rosnando às matilhas que se chegam demasiado.
(...)
A claridade do dia iluminava até ao fundo o amplo espaço do supermercado. Quase todos os escaparates estavam tombados, não havia mais do que lixo, vidros partidos, embalagens vazias.
(...)
O cão das lágrimas ganiu baixinho. Tinha outra vez o pêlo eriçado. Disse a mulher do médico, Há aqui um cheiro, Sempre cheira mal, disse o marido. Não é isso, é outro cheiro, o da putrefacção, Algum cadáver que estará por aí, Não vejo nenhum, Então será impressão tua. O cão tornou a gemer. 
(...)
Atravessaram o supermercado até à porta que dava acesso ao corredor por onde se chegaria ao armazém da cave. O cão das lágrimas seguiu-os, mas de vez em quando parava, gania a chamá-los, depois o dever obrigava-o a continuar. Quando a mulher do médico abriu a porta, o cheiro tornou-se mais intenso.


[Excertos de uma das cenas pungentes de Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, cena em que os cegos tinham invadido o supermercado e depois se tinham precipitado, escada abaixo, caindo uns sobre os outros... e mais não digo porque o que vos aconselho a ler é o livro todo, um dos livros que mais me impressionou desde que me tenho por gente. Digo-vos apenas que é um documento impressionante sobre as baixezas mais torpes e vis de que as pessoas são capazes em situações limite - e que, ao ler, sentimos que nós próprios - bem falantes, bem pensantes - também o faríamos se nos víssemos naquelas circunstâncias]

*

Imagem do filme Ensaio sobre a cegueira (Julianne Moore como a mulher do médico, um dos muitos cegos)


Hoje soube-se que o emprego continua a subir. Já vai em 15,3% (e em mais de 36,1% nos jovens) e estes são os números oficiais que são inferiores aos números reais.

Pois ia eu no carro à hora de almoço quando ouço, perplexa, o Secretário de Estado do Orçamento, Luís Morais Sarmento a mostrar-se muito admirado com estes números inesperados (inesperados dizia ele, claro)...!

E concluía a "inteligente" criatura que o que era preciso para resolver isto era liberalizar o mercado de trabalho, flexibilizar ainda mais.

Fiquei de boca aberta. É que, meus Amigos, o problema maior não é só estarmos a ser governados por quem não sabe o que faz: o problema maior é que nem sabem tirar conclusões face às consequências do que fizeram...! Então se o problema é o desemprego estar a aumentar a um ritmo que nem eles percebem, o remédio que lhes ocorre é, justamente... facilitar ainda mais  os despedimentos...?!

Ou isto não é nabice da mais pura que há mas, sim, coisa deliberada? Maldade pura?! Defesa de interesses inconfessáveis?! Já nem sei que diga, perante coisas destas.

Quanto ao Álvaro ou a alguém do Ministério das Falências e do Desemprego, nada: estão noutra. Economia e Emprego é coisa que não lhes assiste.

Portugal é o 3º país ex-aequo com o maior desemprego num conjunto de 29 países ditos desenvolvidos, li num artigo do FMI. 



O autor, o chinês Min Zhu, questiona-se: ‘desenvolvidos na miséria?’ pois é nestes países que o desemprego mais se acentua e, de entre eles, para nossa vergonha e sofrimento, Portugal, só é antecedido (na desgraça) pela Espanha e pela Grécia (e igual à Irlanda). 

Logo no início do artigo, Min Zhu parafraseia uma frase de Frank Sinatra - em que este diz, referindo-se ao casamento e ao amor, que não existem um sem o outro - dizendo que é a mesma coisa em relação ao crescimento económico e ao emprego. Não há emprego sem crescimento, nem crescimento sem emprego.  

E mais uma vez recomenda moderação na aplicação de ajustamentos e, também, garantia de liquidez no sistema financeiro. Injecções de liquidez, políticas de desenvolvimento, abrandamento nas políticas de austeridade – só assim se evitará o suicídio.

Mas, claro, nem Passos Coelho nem nenhum do seu grupo lêem este género de artigos. E, mesmo que lessem, duvido que percebessem. 

No dia 1 de maio, com ar ligeiro de quem pronuncia uma banalidade irrelevante, Passos Coelho disse que os portugueses se deveriam preparar para mais uns anos de desemprego alto. Ainda não percebeu o buraco em que está a enfiar Portugal nem a miséria para que está a atirar os portugueses.

*

Não me apetece falar mais disto que fico indisposta.

Por isso, com vossa licença, para terminar, um bocado mais de Ensaio sobre a Cegueira para que saibam, meus Caros Leitores, que há cegueiras de que se recupera e que há histórias que acabam bem (e, se há lágrimas no final deste excerto, não se admirem, elas são de compreensível emoção de descompressão).

Eu acredito nisso.


Então o médico disse o que todos estavam a pensar, mas que não ousavam pronunciar em voz alta, É possível que esta cegueira tenha chegado ao fim, é possível que comecemos todos a recuperar a vista, a estas palavras a mulher do médico começou a chorar, deveria estar contente e chorava, que singulares reacções têm as pessoas, claro que estava contente, meu Deus, se é tão fácil de compreender, chorava porque se lhe tinha esgotado de golpe toda a resistência mental, era como uma criancinha que tivesse acabado de nascer e este choro fosse o primeiro e ainda insconsciente vagido. O cão das lágrimas veio para ela, este sempre sabe quando o necessitam, por isso a mulher do médico se agarrou a ele, não é que não continuasse a amar o marido, não é que não quisesse bem a todos quantos se encontravam ali, mas naquele momento foi tão intensa a sua impressão de solidão, tão insuportável, que lhe pareceu que só poderia ser mitigada na estranha sede com que o cão lhe bebia as lágrimas.


A tradução destas legendas é pavorosa mas, enfim, foi o que arranjei...
O filme é uma adaptação da obra de José Saramago, e foi realizado pelo brasileiro Fernando Meirelles

*

Bom. Caso ainda tenham paciência, não quererão os meus Amigos ir dar uma espreitadela lá ao meu Ginjal e Lisboa? Hoje as minhas palavras voam em volta de um poema de que gosto muito de Maria Sousa. Acompanha com Puccini, La Bohème... mas oh que encenação!... Só mesmo visto. A sério.

*

E, claro está, desejo-vos uma bela quinta feira, de olhos bem abertos... 
(para verem as coisas boas desta vida!)

sábado, fevereiro 25, 2012

A insustentável leveza da minha amiga, os disparates preconceituosos do marido - e eu já sem saber o que pensar desta gente toda...!


Estive ocupada todo o dia, sem receber telefonemas. À hora de almoço vi que tinha, entre as chamadas não atendidas, duas da minha amiga, duas do marido. Contudo não deu para ligar de volta.

Apenas ao fim da tarde pude devolver algumas e comecei por ela – estava cheia de curiosidade, eu. Esta minha brincadeira tem perigos vários e nem toda a gente tem estômago para digerir a gracinha. 

Música, por favor

Para Elisa - Beethoven


Mas ela continuava no mesmo registo, solta, inocente, ‘então ontem gostaste do sítio. É giro, não é?’. E eu pensei cá para mim, ‘mas querem lá ver que agora deu em pomba-lesa..? Então, depois do que eu relatei, aquilo a que ela prestou mais atenção foi à descrição do local…? Mamma mia…!’.

Mas entrei no registo, ‘há quanto tempo está aquilo ali, que eu nunca tinha ouvido falar?’, que ‘está muito agradável’, que ‘as bolachinhas com sementes estavam uma delícia’, 'as de gengibre também, tens razão', que ‘o chá era muito bom’, que ‘nunca tinha experimentado aquela mistura’ (lembro-me lá eu que chá é que bebi!) e ‘quem são as donas daquilo?’, e contou-me que eu as conheço (e eu sei lá de quem é que ela estava a falar!) mas, enfim, converseta simpática de fim de tarde. Até que, finalmente, a voz fica outra, quase adolescente, e me diz ‘O que achaste dele? Já sei que achas giro, que achas que cheira bem, que achas que é um sedutor, que achas que a voz é boa para dizer poesia, já li isso tudo… mas, de resto, conta lá…’.

Fiz uma pausa, respirei, o que havia eu de dizer? Mas, enfim, ‘olha, não tinha esta ideia dele, costumo vê-lo na televisão a invectivar o capitalismo selvagem, a apresentar propostas num tom sempre super engagé, não me passaria pela cabeça que afinal houvesse ali uma alma de poeta, sei lá, olha, fiquei muito admirada, que queres que te diga…?’. E ela: ‘Pois, já viste, quem vê caras não vê corações, não é? Ao princípio também fiquei admiradíssima. Um espanto. E tenho aprendido imenso com ele, tem uma cultura fantástica, e tem-me incentivado como tu nem imaginas’ e a voz era de devoção.

‘Incentivado como?’, perguntei, ‘incentivado a fazer o quê?’

‘Mas, olha, é que nem ias acreditar!’ e riu. Depois, sem pausa, mudando de assunto: 'Não pode com o meu marido; aliás, quando se refere a ele é o vendido do teu marido, o chinês, o botões de punho. Farto-me de rir’ e eu outra vez sem saber o que dizer. Do outro lado, ela ria. Quando eu ia começar a tentar perceber ‘…mas olha lá, afinal…’, interrompeu-me, ‘olha, linda, vou ter que desligar… adivinha quem me está a ligar…?’

Beijinho, beijinho.

A meio do telefonema tinha-me levantado e tinha falado a olhar pela janela. Quando a chamada acabou, deixei-me cair na cadeira. ‘What the hell…!?’, interroguei-me.

Bebi água, respirei, olhei lá para fora e liguei então para o chinês (esta é boa…!)

Muito seco: ’Sim, diz’ e eu ‘digo nada. Estou apenas a responder às tuas chamadas’.

Como se acordasse, ouvi-o a respirar fundo, pausa, pausa, como se estivesse a ganhar fôlego, e então ouvi-o a cantar:


A Nau Catrineta - Fausto

[‘Lá vem a nau Catrineta/ que tem muito que contar/ouvide, agora, Senhores/ uma história de pasmar. Passava mais de ano e dia/ que iam na volta do mar/ Já não tinham que comer / já não tinham que manjar’ (...)]


Desatei-me a rir: ‘Engraçadinho..! Fausto? Almeida Garrett? Mas que bem...’ e ele a rir também: ‘Já que ficaste derretida com o diseur... eu faço ainda melhor, até canto…! Mas olha lá, por falar em não ter que papar, então ontem foste conhecer a bicha?’

‘O quê?!’, quase gritei.

‘Ouviste bem. Queres ver que não percebeste…, a bicha, a grande amiga da minha mulher. Andam sempre as duas a fazer programinhas juntas, ele é leituras de poesia, ele é concertos de fim de tarde, ele é bailados, acho que a bicha gosta muito de ballet, já para não falar nas longas conversas ao telefone às tantas da noite…, nem sei até se não vão ao cabeleireiro juntas…’

‘Estás parvo. Só pode. Bicha?! Não estás bom da cabeça’, respondi-lhe.

Conheço-lhes os tiques. Para começar, dão-nos sempre uma espreitadela corpinho abaixo, não com ar de quem está interessado mas para verem o que a gente traz vestido. Bicha?! Nem pensar.

Mas ele ria-se, ‘Estou a dizer: bicha, bicha. Aliás, aquilo lá está cheio delas.’

‘Aquilo lá…?! De que é que estás a falar?, eu sem perceber.

‘Sim, mais do que uma organização política aquilo lá é o braço esquerdo da ILGA,  ou da LGBT ou lá como eles chamam àquilo, elas umas sapatonas, eles uma bicheza, intelectuais,  reivindicativas, azedas.’

‘Estás parvo, credo. Conservador, preconceituoso, que horror, cada vez estás pior, agora até homofóbico, que coisa...!’, e rematei:  ‘Nem sei como é que a tua mulher ainda tem paciência para te aturar’.

Riu-se: ‘Nem eu. E, olha, tomara que não...’

‘Não percebi. Tomara que não o quê?’, perguntei-lhe. Esta gente tem o condão de falar por meias palavras, que chatos.

Mas já ele mudava de conversa: ‘Olha, ontem tive um jantar e depois os tipos não quiseram ir logo para o hotel, quiseram dar uma volta a pé. Entrámos numa livraria e vi um livro de que vais gostar. Amanhã ou depois passo por tua casa para o deixar. Pode ser?’

‘Podes. O que é?’

‘Nada de mais, logo vês’. E depois, voz sisuda: 'Escuta. Esta conversa não pode, obviamente, ser reproduzida. Estás a ouvir? Senão ainda me aparece aqui, na companhia, a bicha a desafiar para um duelo. Ouviste? Estou a falar a sério. Acho que já chega de te armares em menina má. Desta vez, por favor, não o faças, estás a ouvir? Mas olha, se te queres meter com as duas, põe lá um clip com aqueles gajos que dançam ballet vestidos de mulheres.'

Beijinho, beijinho. Fim de chamada.

E eu fiquei ali a rebobinar o filme de ontem e de todas as vezes que vi o caviar gauche na televisão. Bicha?

No way. Deve ter sido ela que inventou esta para o despistar. Só pode. 

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E, portanto, para te fazer a vontade, meu amigo, aqui deixo a oferta, em teu nome, para a tua mulher e para o sedutor e interessante diseur (qual bicha, qual carapuça!)

Lago dos Cisnes - Les Ballets du Trockadero 


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(E, já sabem, estas peripécias encontram-se arrumadas no separador 'Folhetim' que, caso queiram ler de seguida, poderão seleccionar aí ao lado à direita, lá para baixo)

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Tenham, meus Caros, um belo sábado. E divirtam-se, está bem?