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domingo, agosto 15, 2021

Lá chegaremos, lá chegaremos...

 


Não sei se saberemos enfrentar com sucesso as alterações climáticas. Não havendo urgentes, inovadoras e muito eficazes medidas que, a nível do planeta, travem o desastre em curso, a vida humana pode começar a enfrentar sérias ameaças e não sei até quando conseguirá aguentar-se, pelo menos nos moldes que hoje conhecemos. Mas, admitindo que o toque a rebate se fará ouvir em todo o mundo e que a inteligência animal associada à sobrevivência se imporá, então, pode acontecer que se viva ainda o tempo suficiente para que os humanóides sejam uma realidade: seres humanos com aparência normal mas, de facto, programados para agirem como verdadeiros seres humanos.

No mundo das empresas o conceito o 'machine learning' já é quase um déjà-vu. Não que as empresas já estejam a usar em velocidade cruzeiro mas já falam, já estudam, já querem equipamentos cujo sotware assente em algoritmos que incorporem os dados obtidos e, mediante um encadeado de ifs, façam as máquinas terem em linha de conta as funções identificadas, as métricas adequadas, as estatísticas e as probabilidades associadas. Mas nem é preciso ir tão longe: a palmilha dos meus sketchers anuncia que tem memória. E há colchões que se anunciam com as mesmas capacidades. Aqui não há electrónica e computação, há simplesmente materiais estudados e fabricados mediante simulações e funções matemáticas para 'perceberem' o corpo que os vai usar. 

Programar uma coisa para agir como uma pessoa não é difícil. E conseguirá programar-se para ser meiguinho ou irreverente ou obediente ou desafiador ou sedutor ou mal-educado. Ou perigoso. Tivesse eu agora os vinte anos que tinha quando andei a navegar por águas afins e muito provavelmente andaria agora por estas paragens. Claro que, nestas matérias, penso que o que faria seria sobretudo pelo fun of it. Mas esse é também o perigo. Sendo uma área em que se actua de forma totalmente desregulada, quem garante que um maluco que está a programar coisas para agirem como pessoas às tantas não vai longe de mais ou que a 'coisa' não lhe escapa das mãos?

É que nisto há o auto-desafio -- e o auto-desafio é o maior produtor de adrenalina. 

Será que consigo...? 

Ou: Ora deixa cá ver até onde consigo que isto faça o que eu quero...

Ou: Deixa cá ver se o 'tipo' é capaz de me surpreender...

Parte da actividade dos hackers começa também assim: pela vontade de perceber até onde se consegue ir. E quem diz dos hackers diz a malta que se entretém a criar cenas na base da inteligência artificial.

Mas, tecnologias à parte, avancemos para o tema em questão: o dos seres 'feitos' à medida.

O tema é aliciante: em vez de se ter que aturar cromos, palermas encartados, zé-cuecas permanentemente encrencados, amélias, mal enjorcados sem pingo de sentido de humor, narcisistazecos de meia tigela 
-- sim, há quem, por ilusão ou falta de tino, tenha caído em esparrelas destas --, 
imagine-se que se poderia definir o conjunto de  parâmetros pretendidos e, tempo depois, receber alguém que neles assentasse que nem uma luva: que fizesse boa companhia, que fosse disponível, que divertisse, estimulasse, brincasse, ouvisse, que tivesse sempre a palavra certa no momento oportuno, que nunca desiludisse, que não empatasse a paciência a falar exclusivamente dele próprio e dos seus inúmeros problemas, que gostasse de passear, que gostasse de ler, com quem houvesse verdadeiras afinidades, que fosse de boa boca, amoroso, alegre, espontâneo, culto, simpático.

Claro que há quem tenha a sorte ou a capacidade para encontrar um/a assim, à sua medida mas em bom, ou seja, humano genuíno -- não um humanóide programado. 

[Uma vez que o meu compagnon de route ao fim de semana não vê isto de certezinha absoluta, posso aqui dizer que eu acho que me incluo no grupo das sortudas. Assim, não lendo, não fica a achar-se a última coca-cola do deserto, todo convencidão. Posso, portanto, na vida real, a continuar a deixá-lo na dúvida. Mas aqui confesso: não tenho dúvidas, não senhor. A mim saiu-me o brinde.] 

Mas há pessoas a quem sai a fava. E para esses ou para os/as mais aselhas ou os mais deslumbrado/as que tanto querem encontrar um príncipe/princesa encantado/a que se iludem e acabam por levar para casa um inútil sapo-cabeçudo, para esses a solução do humanóide movido a inteligência artificial era o que vinha mesmo a calhar. Aliciante. Diria mesmo: capaz de se tornar deveras viciante.

Se já antes o Her -- com Joaquin Phoenix no papel de Theodore, totalmente 'agarrado' à voz de Scarlett Johansson, como assistente virtual movida a inteligência artificial -- foi uma amostra do que pode ser mas em que a 'coisa' apenas se materializava através da voz, aqui, no 'I'm your man' o enredo vai mais longe, vai até onde um dia destes, se lá chegarmos, estaremos.

Transcrevo do artigo do The Guardian em que se fala de como se pode chegar à felicidade na companhia de um humanóide.

The last thing that academic Alma (Maren Eggert) wants, following a messy breakup with a colleague, is a man. But in order to gain funds for her own research, she is persuaded to take part in a trial: for three weeks, she must live with Tom (a deft comic performance from Downton Abbey’s Dan Stevens), a humanoid robot that has been precision-tooled to be her perfect companion.

(...)  it asks pertinent questions about loneliness and a world in which algorithms can know us better than our human partners ever will.

 

I'm your man



Tenho que ver, tenho, tenho.

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Desejo-vos um belo dia de domingo