Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, julho 21, 2019

Quem é Margaret Hamilton?
Alguma coisa a ver com aquilo da ida à Lua?



Claro que houve a tremenda coragem de Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins, os  homens que há 50 anos se montaram em cima de uma bomba (Teresa Lago dixit) e foram por aí afora, pelo espaço adentro, sem saberem se conseguiriam voltar, sem saberem se aquilo não explodiria, se não se desintegrariam todos em mil fanicos, se conseguiriam comunicar com a Base, se seriam devorados por monstros, se o combustível daria, se não morreriam à fome e de sede, para sempre náufragos numa jangada espacial sem possibilidade de resgate. Uma coragem quase insana, quase inumana.


Visto a esta distância, pasmamos como aquela verdadeira geringonça equilibrada num foguetão pronto a explodir, conseguiu a proeza que deixou o mundo pregado à televisão, todos incrédulos, emocionados. Mas correu bem.

E, para que tenha corrido, muita gente trabalhou durante anos, acreditando para além do que é razoável acreditar. Mas acreditaram. Confiantes nos seus conhecimentos, nos seus estudos e trabalhos, nos seus testes e nos seus métodos de trabalho. E foram, certamente, muitos os cientistas e engenheiros que colaboraram para que uma nave espacial, albergando uns valorosos homens, tenha ido à Lua e regressado com os mesmos que levara, prontos para contar as suas experiências.


Ainda hoje se vê aquilo e se pasma: ainda hoje, em certos pontos de Lisboa, na era das comunicações, a cobertura de rede é tal que caem as chamadas. Contudo, foram por aí, pelo vasto espaço sideral, e mantiveram o contacto, ouvimo-los, vimo-los com nitidez, conseguiram trasnmitir o som e a imagem. Afoitaram-se e tudo correu bem. 

Quantos cálculos tiveram que ser feitos, quanta programação e simulação teve que ser desenvolvida -- e isto numa era em que os computadores eram a pedal face ao que é hoje a computação.

E se em todos estes festejos, justos festejos, ouvimos falar nos astronautas, foi com surpresa que li o artigo do Madame le Figaro Sans Margaret Hamilton, l’homme n’aurait pas marché sur la Lune. Afinal por trás de tudo esteve uma mulher. Uma matemática. Margaret Hamilton. Fiquei espantada. 


Transcrevo da Wikipedia para ser em português:
Margaret Heafield Hamilton (Paoli, Indiana, 17 de agosto de 1936) é uma cientista da computação, engenheira de software e empresária estadunidense. Formou-se na Hancock High School em 1954 e estudou matemática na Universidade de Michigan. Formou-se em Matemática pelo Earlham College no estado de Indiana (EUA) no ano de 1958 e fez pós-graduação em Meteorologia no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Depois de se formar lecionou matemática e francês no ensino médio por pouco tempo, enquanto seu marido terminava a graduação. Mudou-se para Boston, Massachusetts para fazer pós-graduação em matemática pura na Universidade Brandeis. Em 1960 assumiu uma posição interina no MIT para desenvolver programas de predição climatológica nos computadores LGP-30 e PDP-1 (no Project MAC de Marvin Minsky) para o professor Edward Norton Lorenz no departamento de meteorologia Foi diretora da Divisão de Software no Laboratório de Instrumentação do MIT, que desenvolveu o programa de voo usado no projeto Apollo 11, a primeira missão tripulada à Lua. O software de Hamilton impediu que o pouso na Lua fosse abortado.
Na NASA, a equipe de Hamilton foi responsável por estar à frente do software de orientação de bordo da Apollo, necessário para navegar e pousar na lua, e suas variações usadas em várias missões (incluindo a Skylab, posteriormente).
Apollo 11
O trabalho de Margaret Hamilton evitou que o pouso na lua da Apollo 11 fosse abortado. Quando faltavam três minutos para a Apollo 11 pousar na lua, vários alarmes do módulo lunar começaram a tocar. O computador ficou sobrecarregado com atividades do radar de aproximação, desnecessárias para a aterragem. 
No entanto, devido à arquitetura robusta do software, o sistema continuou funcionando de maneira que as atividades prioritárias interrompessem as menos prioritárias. Mas ela sabia, por ter escrito o código do computador, que ele seria capaz de realizar o pouso, pois foi programado para desconsiderar as tarefas desnecessárias no momento da alunissagem. A falha foi atribuída a um erro humano na lista de comandos a serem executados pelos astronautas.
Margaret publicou mais de 130 artigos, atas e relatórios relacionados aos 60 projetos e seis programas importantes nos quais ela esteve envolvida. Em 22 de novembro de 2016 foi premiada com a Medalha Presidencial da Liberdade pelo presidente dos Estados Unidos Barack Obama, honraria recebida por seu trabalho sobre o desenvolvimento do software de voo a bordo das missões Apollo da NASA (...)

O vídeo abaixo é muito impressionante. Uma homenagem extraordinária.
8:07 p.m. Mojave Desert. Moonlight strikes more than 107,000 solar mirrors to create a portrait of Apollo 11 computer programmer Margaret Hamilton. Bigger than New York’s Central Park, the portrait is a tribute to Hamilton's contributions to the Apollo program and the field of software engineering.


E agora Margaret Hamilton por ela própria


E eu só me interrogo: porque é que só hoje me dei conta do trabalho dela, da relevância da sua intervenção? Por ser mulher? Porque os trabalhos de programação passam despercebidos à maioria das pessoas? Ou fui eu que andei distraída? Na volta foi isso. Tudo.

quinta-feira, novembro 29, 2018

As fantásticas primeiras imagens de Marte.
A InSight está em campo e o mundo assiste espantado ao que lá se passa.
Será que a nossa última fronteira foi ultrapassada?


Podia tecer várias considerações, pôr-me para aqui a divagar, lançar rêveries para o espaço, enunciar esperanças, desfiar dúvidas (e são tantas), carpir receios (mas nem vale a pena falar disso pois recear o desconhecido é pura cobardia e eu posso ser muitas coisas mas cobarde eu acho que não sou). Mas não. Vou ficar caladinha a viver o momento. É tão extraordinário o que se está a passar que me limito a partilhar duas das imagens do que, para já, se pode saber do que lá se passa. Por enquanto ainda não há humanos por lá. Mas nunca digamos nunca.

NASA’s InSight’s -- First Photos from Mars







Mais imagens aqui

sábado, agosto 05, 2017

Estrelas cadentes, desejos, afectos, solidão -- coisas assim
[Com um desfecho inesperado]





Até fiz uma gravação. Se não fosse uma preguiçosa, até aqui a publicava. Mas as manobras de passar o vídeo para o youtube parecem-me cansativas demais para a vitalidade de que, a esta hora, disponho. Mas conto o que eu lá dizia: vínhamos para cá, eu meia a dormir, e o meu marido chama-me: Olha! E olhei e vi uma estrela cadente. Um rasto de luz atravessando o espaço. Pensei que devia pedir um desejo e, então, pedi os três do costume. Depois pensei que a coisa não devia ser bem assim, a estrela não devia despenhar-se no chão senão havia borrasca pela certa -- que apanhar com uma estrela em cima não devia deixar o que estivesse por baixo em grande forma. Fui informar-me e, de várias fontes, transcrevo o que fiquei a saber:
Meteoro, chamado popularmente de estrela cadente ou estrela fugaz, designa o fenómeno luminoso observado quando da passagem de um meteoroide pela atmosfera terrestre.
Ao atingir a atmosfera, a velocidade média da estrela cadente é de 250 mil km/h. A maioria delas são totalmente desintegradas antes de chegarem ao solo, normalmente entre os 90 e 180 km acima da superfície terrestre.
Aliás, do ponto de vista científico, caso o corpo celeste consiga atingir a superfície da Terra a sua nomenclatura muda, passando a ser chamado de meteorito. O termo meteoro ou estrela cadente costuma ser usado apenas para as partículas cósmicas que se desfragmentam totalmente quando entram em contato com a atmosfera terrestre.
Reza uma lenda ocidental que os deuses, muito curiosos, para saber como era a vida na Terra, punham-se a olhar para baixo, e nestes momentos podiam fazer deslizar uma estrela. A estrela cadente simbolizava, portanto, o momento exato em que um deus estava olhando para baixo, por isso criou-se a lenda de que era um bom momento para fazer um desejo, pois ele seria ouvido e realizado.
Vim feliz da vida durante o resto do caminho por ter visto a estrela que não era estrela e por ter aprendido isto. 


Depois de termos arrumado os mantimentos no frigorífico e etc, vim pousar-me aqui. Tenho sempre vários mails. Gosto de os ver a todos mas, tarde como é, para ter tempo de aqui escrever não consigo tempo para lhes responder. Um deles comoveu-me. Tinha fotografias de uma pequena casa numa árvore no meio de uma serra de onde se podem contemplar múltiplos horizontes. Era a propósito de eu, numa noite muito complicada, ter escrito que gostava de escrever sobre as casinhas nas árvores (e acho que deixei perceber que gostava de aqui, in heaven, ter uma). Fiquei a olhar as fotografias com uma emoção talvez inusitada. O encantamento em que fico com coisas assim não o sei explicar.

No deve e haver da minha vida acho sempre que recebo mais do que dou. Talvez por isso tenha sempre em mim este quase insconsciente sentimento de agradecimento.


A semana passada voltou a ligar-me o meu ex-colega que está muito doente, aquele que tem uma doença degenerativa que o condiciona severamente. Pela segunda vez, pedia-me que lhe arranjasse uma consulta de uma determinada especialidade, não relacionada com a principal doença mas para um outro problema que também o condiciona bastante. Como quase não se percebe o que diz e como vive sozinho, penso que não consegue aguentar-se com as marcações via contact center nem deve ter mais a quem pedir. Penso, mas não estou certa. Não questiono. Ele pede-me e eu faço. Na quinta-feira ligou-me de novo. Fico sempre numa aflição porque são chamadas longas em que percebo apenas uma pequena parte e, como não quero dizer-lhe que não percebo, tenho que accionar um descodificador mental para conseguir discorrer o sentido da conversa a partir de uma ou outra palavra que perceba. Pensei que, às tantas, tal como na vez anterior, à última hora tinha desistido. Mas não, era só para me dizer que no dia seguinte, tinha, então, a tal consulta e que estava esperançoso, que acreditava que o médico ia arriscar e operá-lo, que estava desejando de lá ir. Ouvi vozes à sua volta. Perguntei-lhe onde estava. De vez em quando, percebe-se melhor o que diz. No outro dia disse-lhe que estava a percebê-lo melhor e respondeu que é quando está sob efeito dos comprimidos. Respondeu-me, então, com aquela sua voz entaramelada, que tinha ido ver a mãe ao lar. Fiquei admiradíssima. Perguntei que idade tinha a mãe. 94. E que estava melhor que ele. Com aquela ironia dele, acrescentou: Sempre a acusar-me. 'De quê?!' E ele: De tudo. Volta e meia, não me conhece e passa o tempo todo a dizer-me mal do filho. Quando me conhece, acusa-me, diz que a culpa é toda minha. Não sei de que é que sou acusado, se é dela já ter 94 anos, se é de eu estar doente, se é a de a minha mulher me ter deixado. Depois pergunta-me pela família, a memória intacta, o nome dos meus filhos bem presente. Mas sinto que a pergunta é sobretudo um pretexto para se queixar da filha que vive fora e do neto que vê apenas uns dias por ano. Diz que o menino é vivo, esperto, mas que fica sempre um bocado estranho porque vê muito pouco o avô e porque vê o avô naquele estado. Fico sempre com muita pena. Não é só dele, é de todas as pessoas que se vêem sozinhas, debilitadas, a perceberem-se a caminhar para um estado de dependência. No entanto, no meio daquele amontoado de palavras em grande parte incompreensíveis, noto sempre o seu antigo e ainda presente sentido de humor.


Hoje, ao fim do dia, ligou-me de novo. Todo contente. Que tinha gostado muito do médico, muito atencioso. Diz que, por ele, opera e escreveu uma carta para o colega, para que o colega saiba os riscos que ele identifica. Tem riscos mas, se não operar, dentro de dois ou três anos não ando. E eu se não ando, morro. Agora é que me custa cada vez mais que eu, antes, era um galdeirão. Por isso, agora vou ao meu médico a ver o que ele diz. Depois, ligo-lhe a si também para me aconselhar. Não posso fazer ressonâncias magnéticas. E a primeira operação pode não resultar e ter que fazer uma segunda. Mas eu não me importo. Ficar sem andar é que não. E eu ouço e fico numa apreensão, porque o mal dele, o outro, o principal, que é progressivo, também condiciona, e não é pouco, o andar. Mas ele passa por cima disso e agarra-se à esperança de ficar melhor. Tomara que sim. Tomara.


Entretanto, anuncia-se outro fim de semana de calor. É assustador. O mundo não tem cuidado de se preservar. O que há uns anos parecia um prenúncio de terror -- antevendo-se, no futuro, altas temperaturas, secas extremas, o solo gretado -- começa a ser uma realidade. E o terror é tanto maior quanto o gelo, ao derreter, está a deixar à vista os corpos de gente que estava desaparecida há décadas. Antes tinham sido encontrados um casal suíço e dois soldados austríacos da Primeira Guerra Mundial. Agora mais um homem, nos Alpes. O passado regressa para nos lembrar que, durante este tempo todo, andámos a violentar o equilíbrio do planeta. Como é que o mundo não acorda de vez para a necessidade de repensar este modo de vida absurdo e não elege como uma das prioridades máximas a de tentar preservar o respeito pela natureza? Como é que os americanos foram eleger aquele anormal que faz gala em mostrar que se está a marimbar para este tipo de questões? E como é que, depois do que já viram, não arranjam maneira de correr de lá com ele? E a China, com as cidades a rebentarem pelas costuras, quando é que põe em prática os princípios que já percebeu serem incontornáveis?


Mas, enfim, a esta hora já é sábado, não é dia para estar com conversas soturnas. Daqui a nada tenho que estar a pé a limpar a casa, a preparar refeições, a adiantar tudo para, quando chegarem, ter todo o tempo do mundo para eles.

Por isso, fico-me por aqui. Termino com um vídeo extraordinário. Mesmo quem não é dado a ver vídeos, acho que deve ver este. Delicioso. Aliás, mais do que isso. Uma graça e muito, muito trabalho. E muito, muito talento que, para fazer o que aqui se faz, apesar de parecer uma brincadeira de amigos, é preciso ser-se muito bom.

When someone asks if you work out



São eles Harper Watters & Rhys Kosowski do Houston Ballet 

As fotografias são algumas das vencedoras do National Geographic Travel Photographer of the Year 2017

Lá em cima era Bernardo Sassetti em Sonho dos Outros (Timbuktu Solo Sessions #5)

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A si, Caro Leitor que está aí desse lado, desejo um sábado muito bom.

E vai com um abraço, esse meu desejo.

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sábado, abril 15, 2017

O pó das estrelas, eu, aquilo que fui, aquilo que serei



Muitas vezes sinto que tenho em mim memórias de outros tempos. Se recuar até eles, parece que me vejo lá. Casas vitorianas, saias roçagantes, chás perfumados, tertúlias literárias. E recuando mais ainda: aquelas sombras dos átrios em que, etrusca, me deliciava com prazeres vários, liberdades a céu aberto. Tenho também a impressão que me identifico com bichos, árvores, como se fosse feita da mesma matéria que eles. Irmã de árvores, cúmplice de bichos. Como se eu agora fosse uma mulher a viver um intervalo de tempo e que, depois, muito de mim continue por aí, não tanto nestas palavras que talvez perdurem através dos vastos espaços siderais, mas vivendo através da natureza. Átomos que vão e vêm, viajando através dos tempos, pós estelares que pousam onde o tempo lhes dê espaço para viver.

Digo isto e, se me olhar de fora destes meus pensamentos, sou capaz de me atribuir momentos de pura navegação imaginativa, a mente à deriva.


Contudo, sei também que isto que digo não são apenas palavras de efeito. Há nelas qualquer coisa de verdade. Dizia Sagan:“The nitrogen in our DNA, the calcium in our teeth, the iron in our blood, the carbon in our apple pies were made in the interiors of collapsing stars. We are made of starstuff.”

Transcrevo de um site que encontrei ao procurar isto escrito em língua portuguesa.
Uma pesquisa comprovou o que Carl Sagan já falava há tempos: os humanos realmente são feitos de poeira de estrela. Depois de analisar 1500 estrelas, astrônomos chegaram à conclusão de que tanto os seres humanos quanto os astros brilhantes possuem 97% do mesmo tipo de átomos. 
Constataram ainda que os elementos essenciais para a vida como a conhecemos (hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, fósforo e enxofre) são mais prevalecentes nas estrelas que estão no centro da galáxia. 
A questão é: como os astrônomos sabem quais elementos compõem as estrelas se eles não conseguem chegar até elas? Elementar, meu caro Watson. Eles usam uma técnica conhecida como espectroscopia.
O vídeo abaixo, da autoria de Emma Allen, de certa forma remete para isto.

An animated self-portrait exploring the transfer of energy of life forms from one incarnation to another. 

Ruby - Stop-motion face paint animation



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E queiram descer caso queiram contemplar a luz das flores em Lisboa


quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Cenas que me fascinam


Há muitas. Não poderia sequer enunciá-las. Coisas que têm a ver com pessoas, com a mente das pessoas, com a natureza, com artes, com livros, com física, com matemática (especialmente se forem cenas maradas), com música, com a forma como os artistas vêm o mundo.

E com culinária. E com decoração. E com mar. Também com rios. E com coisas que não percebo. Essas são as que prefiro. Em particular coisas que não existem. E com as sombras que a luz desenha. Com extravagâncias. Adoro extravagâncias.

Em suma: com mil, mil, mil coisas.

Exemplifico com uma. No dia em que leio notícias que dão conta da nossa pequenez (e passo a transcrever):


Descobertas sete "Terras" num sistema solar distante


A maioria destes novos mundos serão rochosos e pelos menos três deverão ter oceanos de água líquida e, quem sabe, talvez vida.
A descoberta é anunciada como sensacional: são sete "Terras" duma vez, em torno de uma única estrela, todas com as dimensões aproximadas do original - o nosso próprio mundo -, e tudo indica que a maioria desses exoplanetas é de natureza rochosa (como o original), e três pelo menos terão oceanos de água líquida na superfície. Ou seja, têm as condições certas para a possibilidade de lá existir vida.
Neste momento é impossível dizer se haverá vida nalgum destes novos mundos, que estão na órbita de uma estrela chamada Trappist-1 (o nome é o do telescópio do ESO, instalado no Chile, que permitiu fazer a descoberta), a cerca de 40 anos-luz de distância daqui. Mas para os cientistas, a descoberta deste verdadeiro jackpot planetário vem também confirmar uma coisa essencial: os planetas idênticos à Terra serão a regra, e não a exceção, na órbita das estrelas da Via Láctea. E a vida, provavelmente, também.

Descubro este vídeo que me deixa fascinada:

Vivemos num multiverso?



E, já agora, um outro vídeo que versa um tema que me prende:

Porque é que o tempo passa?



...

Até já.

..

domingo, agosto 28, 2016

Filmes caseiros e a casa virada do avesso
- e, quem sabe, os da Próxima a observarem todas estas cenas




Pois é, a questão é que aqui estou outra vez já bem depois da meia-noite. É a história da minha vida. Tinha pensado que, durante o dia, algures no tempo e no espaço, conseguiria chegar até ao blog e escrever sobre o que ontem tinha em mente: o novo planeta, parecido com a terra, talvez com vida. Apetecia-me tanto divagar sobre isso.

Na minha santa ingenuidade até pensei que ia conseguir responder a mails. Gosto de escrever cartas e responder a mails é, na minha mente sonhadora, quase como voltar ao tempo em que havia tempo para escrever cartas que o carteiro haveria de ir entregar aos destinatários. Queria tanto e, no entanto, mais um dia sem o conseguir. Também precisava de escrever uns mails de trabalho. Na noite passada, acordei a meio com uma epifania que mudava tudo. De manhã pensei que tinha que mandar uns mails a fazer uma série de mudanças, talvez primeiro uns a saber a opinião ou a dar conhecimento antes de passar à acção. Mas... e o tempo para isso...? O dia já aqui vai e não é a esta hora que vou começar a tratar de coisas que requerem ponderação.

Impossível. O dia todo preenchido e cada vez mais preenchido à medida que o dia foi avançando.

Tive cá a tropa miúda toda e parte da graúda e, como sempre, gera-se aquela potenciação energética de sempre. Os mais pequenos chegam com as pilhas todas mas, à medida que brincam, correm, saltam, lutam, cantam, representam, gritam, riem e fazem a festa, mais as pilhas se recarregam. Energia gera energia.

O mais crescido, talentoso e ágil na execução de tudo o que lhe ocorre,  deu em realizador e faz uns filmes deliciosos com os outros mas os filmes metem lutas, perseguições e correrias e aquilo é o desassossego, a casa virada do avesso. Vinham raptar a princesa mas a coisa deu em batalha campal. Até eu apareço no filme a dizer 'Cuidado! Não se magoem!' e, às tantas, o realizador 'Oh Tá, vais passar o filme todo a dizer a mesma coisa?'

Quando o filme ficou pronto e o vimos, todos têm a voz mais grossa que a minha, dir-se-ia que sou eu a princesa.

Uma coisa constrangedora.

No fim das gravações havia almofadas pelo chão, as banquetas todas fora do sítio, e até bolas de natal saíram à cena, acho que eram o tesouro da princesa, a outra, a verdadeira.

O meu marido aborrece-se, que eu sou muito permissiva. Mas que posso eu fazer: andar feita avozinha aos gritos atrás das crianças, a obrigá-los a estarem sentados com as mãos nos joelhos e a falarem baixinho? Impossível.

Há bocado, chegou à sala, tinham eles tirado a parte do assento do sofá dele para darem saltos no chão em cima daquilo, um número tipo Jogos Olímpicos. Quando viu, ficou fulo. Deu-lhes um berro: 'Éh pá, que vem a ser isto? As almofadas já postas no sofá!'. Eles fizeram-no de imediato, obedecem sempre ao avô, mas continuaram a brincar como se nada se tivesse  passado. O ex-bebé, um artista, é que se virou para mim como que indignado: 'Oh Tá, e tu deixaste...?'. Nem quis acreditar. Como se a culpa fosse minha. Uma coisa mesmo de gajo.  E o meu marido: 'E tu aí, sentada, na conversa, podem os gajos destruir a casa que nem dás por nada, sempre na boa'. Também não lhe respondi, continuei na conversa, observando a minha filha a ser maquilhada pela sobrinha.

E o mais pequeno? Um comediante de primeira: faz palhaçadas, canta, dança, atira-se para cima dos outros, um brincalhão de primeira. Cresceu no meio do reboliço dos outros (e tem ainda outro primo rapaz, para além de uma prima bebé) pelo que não se torce nem se amolga no meio daquelas lutas livres que eles lá fazem, especialmente com o primo do meio, o dito ex-bebé, que é possante como um touro. E eu sempre com medo que ele se magoe. Neste momento, dos três rapazes, é o maior vendaval, nada teme, nada o inibe, e é um motivo permanente de atracção artística

Derreto-me a observá-los.

Contudo, a verdade é que chego ao fim do dia sem pilhas: os miúdos comem como uns lobos, falam muito alto, fazem-me andar num revirote, brincam e perseguem-se em contínuo, gera-se uma tal dinâmica entre eles que é quase impossível sossegá-los -- e uma pessoa fica com a cabeça feita em água.
No entanto, talvez o sono a começar a descer, os três rapazes acabaram a noite sentados no sofá com o avô, a verem desenhos animados e nós três, meninas, nos penteados e maquilhagens.

Às tantas, às escondidas, a bela menina pegou num gloss meu e pintou os lábios de cor de morango. A tia já lhe tinha posto um brilho branco nas pálpebras que ainda iluminou mais o seu incrível olhar azul. Estava linda. Mas zanguei-me: 'Não pode ser, vai limpar os lábios'. Respondeu-me com a sua irredutível calma olímpica: 'Nunca'. Fez agora seis anos e cada vez está mais coquette e, ao mesmo tempo, determinada. A minha filha desatou-se a rir e imitou-a em voz baixa para ela não se aperceber: 'Nunca.' Mas eu insisti: 'Vá, tira isso. Quando os pais chegarem vão zangar-se'. Fez de conta que não ouviu e foi buscar umas lãs de várias cores para a tia lhe fazer uma pulseira. Claro que, logo de seguida, chegaram os pais e não tive tempo de lhe tirar o gloss. O meu filho não achou graça nenhuma, claro que não podes permitir, mãe, não tem jeito nenhum ela andar assim, e com certeza um baton que não é de criança. Claro que não. Mas como, senhores? Depois das onze da noite, eles frescos que nem viçosas alfaces e eu e o meu marido quase inânimes, Como impedi-los de fazerem avarias?

E, dito isto, não conto como são inteligentes, divertidos, bem educados, autónomos, resolutos. São. Umas crianças encantadoras. E, quando ficam cá aos dois de cada vez, a coisa até é relativamente pacífica. Mas quando se juntam os quatro...! E é que uma coisa é estarem juntos mas ao ar livre e darem largas à sua extraordinária energia em espaço aberto e outra, bem diferente, é estarem confinados a divisões da casa onde, apesar de haver alguma largueza, há móveis, tralha, obstáculos, coisas que os impedem de exteriorizar a genica e a alegre vivacidade em todos os sentidos

Mas pronto, é o que é, e nós ficamos sempre com o coração cheio, felizes, com aquela sensação boa de que a nossa vida se tem movido no sentido bom. A esta hora eu e o meu marido já repusemos as coisas no lugar e, depois de mais umas quantas arrumações, ele foi dormir e eu aqui estou, mais adormecida do que acordada.

Tinha aquilo do planeta para falar. Está pertinho, apenas a quatro anos-luz, e sabido que é improvável que não haja mais formas de vida em todo o universo, haveria de ter graça que os nossos vizinhos estivessem, afinal, aqui tão perto de nós. Mas já não consigo escrever mais nada. Durmo e acordo e, de cada vez que acordo, já nem sei a quantas vou na prosa.

Portanto, deixo-nos apenas com o vídeo.  Caso para perguntar: 'Eles andem aí...?' Pois não sei. 

The exoplanet next door


Astronomers have discovered evidence of a small, rocky planet orbiting our nearest star – and it may even be a bit like Earth. Nobody knows whether the planet, called Proxima b, could ever sustain life. The little planet orbits our sun’s nearest neighbouring star, Proxima Centauri, making it the closest exoplanet ever found.

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Devia identificar os pintores cujas obras escolhi hoje por terem crianças muito bem comportadinhas - mas não dá.
[E imagino o lindo estado de imperfeição em que está o que escrevi. Relevem, please.]

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E desejo-vos, meus Caros Leitores, um feliz dia de domingo.

....

quarta-feira, maio 04, 2016

Quem tem razão: os gregos ou a SUSI? Ou tudo nasceu de uma corda?

- ou talvez baste olhar o mistério do universo com a beleza luminosa da mente



Dentro da nossa mente desconhecida, como num céu iluminado, elevam-se arabescos abstractos, signos misteriosos, um alfabeto que transporta enigmas e rastos de luz, elegantes hastes floridas, raízes que mergulham em doces memórias, etéreas asas de pássaros transparentes, palavras muito simples, a essência do mundo, silhuetas que se movem sem pressa, florestas nuas, quase invisíveis.
The tremendous knot of cells when connected in a certain way gives rise to a strange sense of “I” that is able to ponder and learn things about its environment. It is an utter miracle, and is at the root of why we are conscious beings able to appreciate this world and all of its beauty. How can you not love it?! 


Cercados pelo que não vemos, sujeitos ao que desconhecemos, levados por forças que não compreendemos, temos, contudo, a felicidade de poder testemunhar a perplexidade de estarmos perante um imenso mundo que nos aceita.
The Greeks had a simple and elegant formula for the universe: just earth, fire, wind, and water. Turns out there's more to it than that -- a lot more. Visible matter (and that goes beyond the four Greek elements) comprises only 4% of the universe. CERN scientist James Gillies tells us what accounts for the remaining 96% (dark matter and dark energy) and how we might go about detecting it.


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Na vigília de uma só das minhas noites,
mil anos passam e por isso sei,
Deus de Moisés, que o homem amado
não é barro nem será pó,
é Matéria da tua matéria:
para mim foi ontem,
para ele, carne do Teu espírito, mil anos
numa mínima volta do relógio.
E também eu Te pedi, Deus de Moisés,
que me ensinasses a contar o tempo
na Tua língua, que é de sempre e para sempre,
para abrir as portas à sabedoria e dar o mesmo
descanso ao coração: a erva crescida de manhã,
de tarde seca, depois se corta.

Este dia e as horas deste dia são
um número a menos dos que me cabem contar 
(...)

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As primeiras palavras em itálico são de Greg Dunn e o primeiro vídeo mostra as suas obras, de uma beleza abstracta, oriental.
Greg Dunn is a neuroscience PhD student at the University of Pennsylvania and an artist passionate about Japanese minimalist scrolls. While these interests may appear radically incongruous, Dunn’s artwork suggests otherwise. The artist creates dazzling works of enamel, gold leaf and ink inspired by science.
Some of the works, like “Hippocampus II,” give those of us who do not spend a lot of time around a microscope a look at the complex architecture of our neurons. And then there are the occasional stumpers that are impossible to decipher as neuron or nature. “Two Pyramidals,” for example, look like upside down dandelions far more than, as Dunn explained over the phone, “a type of neuron found in the brain that integrate information received from their dendrites, process it, and transmit it to other cells through its axon.”
in Neuroscience Art: Greg Dunn’s Neurons Painted In Japanese Sumi-e Style 
 ___


O segundo vídeo é Dark matter: The matter we can't see - segundo James Gillies, numa animação TED-Ed.


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O poema, aqui incompleto, é Plano A, sobre o salmo 90 de Moisés e, de novo, pertence ao estranho e luminoso livro de Eugénia de Vasconcellos 'o quotidiano a secar em verso' da Guerra e Paz.


segunda-feira, maio 02, 2016

O sol da Caparica -
com memórias, glúteos, cães, leitores e passeantes de todos os géneros e condições
[E a voz da Terra]


Depois do campo, é o mar que me chama. A praia, o sol, caminhar junto à água, sentir a pele quente, sentir a fresca maresia, ver os corpos que se descobrem, observar as pessoas, o que fazem, como - cada uma à sua maneira - desfruta estes belos momentos de uma primavera que este domingo foi mais de verão.



Sou bicho de rua, animal do campo, animal da beira de água, de sentir o vento e a chuva e o sol na pele. No entanto, durante cinco dias por semana, passo os meus dias inteiros, de sol a sol, enfiada no asséptico ambiente condicionado de edifícios modernos, energeticamente eficientes, sem janelas que se abram. Vejo o sol lá fora ou vejo a chuva ou vejo a copa das árvores a balouçar-se ao vento mas não as ouço nem sinto. Por isso, quando chego a casa, mesmo que já de noite e mesmo que já cansada, procuro a beira do rio, o frio, as luzes da noite que cai e ando até me sentir mais leve, mais inteira.

E, ao fim de semana, encaixo os afazeres domésticos em momentos em que, a grande velocidade, despacho tudo o que posso para que me sobre tempo para estar na rua. Preciso de largos espaços, preciso de sentir os elementos junto ao meu corpo.

Se, por algum incontornável motivo, me vejo forçada a estar um dia inteiro em casa, logo uma neura miudinha se instala em mim, parece que há moleza no ar, parece que o tempo se adensa, que não flui, parece que há uma pressão atmosférica amorfa e pesada sobre mim, tirando-me energia e alegria.

Por isso, depois de sentir os pés a pisar a terra e de andar encantada a fotografar as flores, foi para perto da rebentação que me desloquei. Um dia de verão e de praia, este domingo. No areal e no passeio contíguo, as pessoas desfrutavam este belo dia de calor e azul.

Ao contrário do que acontecia até há algum tempo, agora as pessoas já se habituaram a sair de casa e a procurar o ar livre, a caminhar, a pedalar em liberdade. De todas as idades e condição física, sozinhas ou acompanhadas, vê-se de tudo, e eu passo invisível entre as pessoas, fotografando-as mas tendo o cuidado de não as expor, querendo apenas captar o ambiente. Gostava de saber como se lida com esta situação. Sabido que é que adoro fotografar, confesso que gosto, sobretudo, de fotografar pessoas. Contudo, sei que se as procurasse e dissesse 'Permite que a fotografe e que, depois, se me parecer oportuno, divulgue as fotografias?' as pessoas reagiriam com estranheza ou, na melhor das hipóteses, perderiam a naturalidade. Por isso, contorno a situação, não as fotografando de frente para que, se possível, não sejam identificáveis. 

Não sei como é que os fotógrafos de rua ultrapassam isto. Se toda a gente tivesse os cuidados que eu tenho, ninguém documentava a realidade anónima. E agora estou a lembrar-me de Vivian Maier que fez milhares e milhares (cerca de 150.000) fotografias de rua que permaneceram desconhecidas até que acidentalmente alguém descobriu a preciosidade que residia em tantos e tantos negativos.


Por vezes cruzo-me com pessoas que fazem coisas que não reconheço. Tenho que me voltar para trás para ver se percebo. No meio de quem passava, o jovem praticava o que não sei se seria kickboxing. E tão cansativo me pareceu ser para o jovem que dava murros andando em volta do senhor como para este, que segurava um escudo almofadado e que tinha que o elevar ou baixar para aparar os golpes do rapaz.

Mas o que mais me surpreendeu é que me pareceu que só eu estava surpreendida com estes exercícios feitos em pleno passeio público. Todas as outras pessoas passavam sem olhar, como se aquilo fosse normal. Se calhar, é.


E passam vestidos, despidos, magros, gordos, brancos, negros, a andar, a correr, de skate, de patins, de saltos altos, descalços, de mãos dadas, abraçados, a conversar, em silêncio, sozinhos, a ouvir música. Há de tudo.


E há quem se estenda na areia, quem entre na água, quem jogue à bola ou quem, na maior tranquilidade, se instale em cadeiras e leia enquanto, de quando em vez, espraia o olhar pelo mar.

Um dia destes, vou encher-me de coragem e vou ao pé de alguma pessoa falar com ela, saber o que está a ler, o que está a sublinhar, pedir que me deixe fotografar de frente, enquanto lê ou sorri de olhos fechados na direcção do sol. Hoje tive mesmo vontade de fazê-lo com este casal aqui tão deliciosamente instalado.


E depois há os cães. Lembro-me tão bem da minha. Gostava tanto da praia. Ainda o carro vinha longe, já ela se impacientava, ganindo de alegria. Depois, mal abríamos a porta do carro, tínhamos que a segurar senão largava a correr para a areia. Quando lá chegava corria, doida de felicidade, baixava-se, desafiava-nos, depois vinha a correr na nossa direcção, louca de alegria. A brincadeira preferida era que lhe atirássemos um pau ou a bolinha dela. Era um prazer para ela e para nós.

Quem não tem cães não percebe que quem os tem goste de lhes proporcionar essa felicidade. Eu percebo e gosto muito de ver as pessoas a brincarem com os seus cães na praia.


Ver uma imagem como a destes jovens aqui abaixo em harmonia com os seus dois cães é muito bom, há uma comunhão, há um prazer partilhado, há um afecto notório entre os quatro.


E disse no título que o post tinha glúteos dentro mas é uma coisa parva de se dizer porque um cu não existe independentemente de quem o transporta mas é uma parte do corpo que, ao sol, tem graça, parece que é o corpo em todo o seu desplante.

Lembrar-me eu como, quando era adolescente e gostava de usar biquini, tinha dificuldade em arranjar modelos coloridos, bonitos, a meu gosto, atadinhos de lado, com graça. O primeiro que tive era castanho, uma coisa sem piada. Depois lá arranjava modelos mais curtinhos e coloridos nos Porfírios ou por aí mas, cotejando com a variedade absoluta de hoje, não há comparação possível.


E, por falar em biquinis ou tanguinhas, não sei se já o contei. 

Poucos meses depois de ter começado a namorar aquele que viria a tornar-se meu marido, no primeiro verão (no segundo já estávamos casados), para passarmos férias juntos de manhã à noite, e dado que não podia pernoitar em minha casa, ele resolveu alojar-se numa pousada de juventude (ou, se não era isso, era do género) em Tróia. Logo de manhã eu apanhava o barco, ia ter com ele e passávamos o dia na praia ou nas dunas, almoçávamos por lá, nas piscinas, no self-service. De tarde, ele ia comigo para a cidade, por lá jantava ou jantava connosco e depois ficávamos juntos até tarde, até ele apanhar o último barco.

Nunca relatava nada do que se passava na dita pousada. Dizia que chegava, tomava duche, deitava-se e dormia até se levantar e se despachar para ir ter comigo. Achei que devia ser isso já que não lhe devia sobrar tempo ou energia para mais. Já me tinha dito que dormia num quarto com mais duas ou três camas. Admiti que aquilo não fosse misto mas não tive curiosidade em saber.

Contudo, um dia fui até lá, acho que ele se tinha esquecido de qualquer coisa. Quando entrei no quarto nem queria acreditar. Acho que me senti ficar sem pingo de sangue. No quarto estavam mais umas duas ou três raparigas, não me lembro ao certo, só me lembro, e bem, que estavam bronzeadíssimas e eram louríssimas, de olhos claríssimos... de curta tanga e em tronco nu. Lembro-me de uma se ter posto de pé em cima da cama dele para ir buscar uma coisa a uma estante (ou seria beliche) e de ficar com os bronzeados e rotundos seios ali bem junto a nós

Fizeram uma festa quando o viram e por ali continuaram, deitadas ou semi-deitadas ou a circular no maior dos à vontades, como se fosse o usual. Eu para morrer.

Pois se julgam que ele se atrapalhou é porque não o conhecem. Que nunca tinha reparado que elas andavam assim, que nunca me tinha dito nada porque não havia nada a dizer, que não tinha mal nenhum e que nunca lá estava de dia para as ver assim. Se eu não o conhecesse ainda poderia acreditar mas sabendo-lhe os gostos, eu estava estarrecida. Penso que deve ter sido a primeira vez na vida que devo ter sentido alguma coisa parecida com ciúmes. Só imaginava o que não seriam os bacanais com aquelas malucas naqueles preparos de roda dele.

Mas, enfim, primária como sou, acho que logo me esqueci do facto. Também que podia eu fazer? Ir lá exigir que se vestissem quando ele estivesse por perto? Levá-lo para minha casa? Olha, paciência, coração ao alto. 


Enfim. Volto ao sol da Caparica.

Portugal é um país de praias fabulosas, tem um clima que permite que, no início de maio, possamos estar como em pleno verão, o mar é imenso, limpo, o sol doura os corpos e eu, que tinha umas coisas para dizer ao láparo que, cá para mim, anda a bater mal, mas mesmo mal da cabeça (ou, então, é a situação que não lhe permite manter a pose de estadista e começa a revelar o bacoco e matarruano que existe dentro dele) com isto tudo deixei, outra vez, que o tempo passasse e agora já não são horas para me atirar àquela desclassificada criatura. Mas não perde pela demora que até tenho umas fotografias à maneira para ilustrar o que hei-de escrever. Amanhã será.

É que ainda por cima o meu marido não achou graça à fotografia que eu tinha escolhido para encimar o blogue, aquela que tinha uns bonecos, achou até um bocado sinistra. Eu não tinha feito a mesma leitura, até me pareceu uma paródia. Mas, por via das dúvidas, cá coisas sinistras é que não e, portanto, troquei-a. Ainda hesitei quanto a esta, não apenas por ser um bocado too much ousada -- como a querida Rosa Pinto já me disse (vide comentário mais abaixo) mas por poder transmitir a ideia que aqui é lugar de narcisismos, eu a falar das minhas dores e mágoas, muro de lamentações, desfile de penteados, nails e sapatos -- e, fogo, não é nada disso. Mas, para já, fica esta, não tenho tempo para continuar à procura. Só que depois tive que trocar também o fundo, já não ficava bem o outro com flores às cores, preferia uma com flores encarnadas. Felizmente encontrei este com papoilas. Mas o tempo passa e eu a ver que já não tenho tempo nem para responder a mails nem a comentários, nem tão pouco para me atirar ao transtornado do láparo.


Por isso, fico-me pela praia e pelas pessoas que procuram o belo sol da Caparica e pelo prazer que tenho em andar por lá, a passear, a apanhar sol, a fotografar -- enfim, a curtir o belo prazer de existir.

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E fico-me ainda pela voz da Terra. Estas coisas atraem-me. Intrigam-me. Fascinam-me.

(Tinha escolhido primeiro um vídeo sobre as marés, o que as origina, os efeitos gravitacionais da lua e do sol - mas não era permitido incorporá-lo-lo aqui, só pode ser visto no youtube; contudo, durante a procura, dei com este aqui, que não terá muito a ver mas de que gostei muito; partilho-o convosco)

NASA Space Recordings Of Earth

Our Universe is not silent. Although space is a vacuum, this does not mean there is no sound in space. Sound does exist as electromagnetic vibrations.The specially designed instruments on board the Voyager and other probes, picked up and recorded these vibrations, all within the range of human hearing (20-20,000 cycles per second).
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Lá em cima Xavier Rudd interpreta Follow The Sun

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Caso vos apeteça agora entrar comigo no meu reino de flores e perfumes, aceitem o convite e desçam comigo: vamos entrar in heaven

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sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Eis que se abre um pouco mais a grande porta do infinito:
"Ladies and gentlemen, we have detected gravitational waves. We did it!"






No outro dia escreviMas sei que há uma flor navegando pelos ares, que há água e estranhas formas de vida noutros planetas, que há milhões de sóis, milhões de céus, milhões de sonhos perdidos em órbitas desencontradas, palavras flutuando sobre as ondas que as marés siderais levam e trazem, medusas aladas, anjos, luas, pedrinhas, memórias, braços que procuram abraços, sons estelares, infinitos nadas; e lugares escuros, sem tempo, onde passado, presente e futuro se misturam. 



Não escrevi por escrever: escrevi porque é assim que vejo o vasto espaço que nós habitamos -- nós seres ínfimos, insignificantes, pouco inteligentes, uns entre muitos outros seres dispersos pela inimaginável vastidão. Vejo o vasto espaço como um imenso mar feito de partículas infinitamente pequenas que, em situação normal, isto é quando não existem brutais explosões, deslizam suavemente como vastas marés, um ondular suave que transporta memórias (restos de impactos, restos, restos não sei de quê, talvez pós de pedrinhas, invisíveis areias vindas de longínquas luas, poeiras do que antes foram pessoas, agora talvez anjos), um espaço atravessado por sons provenientes do movimento dos astros, dos astros que morreram, dos que são sugados para o interior de si próprios, dos que se expandem mais do que exponencialmente. Vejo isto na minha cabeça. Vejo a partir do que leio. Vejo talvez a partir de sonhos vindos não sei de onde. Estava a escrever aquilo e, como disse no fim do texto, era como se não fosse eu a escrever -- de tal maneira que não consegui dar título ao que escrevi.


Falar da Física tem este misterioso efeito sobre mim, falo sem saber do que falo, falo como se os rastos de luz que aquilo que não se vê deixa na atmosfera guiassem as minhas mãos. Sinto-me cega, tacteando o invisível, querendo descobrir o desconhecido, o intangível, o imaterial, percorrendo caminhos que não vejo, que nunca vi e que me levam não sei onde. Cega, inocente como uma criança, inventando histórias impossíveis, dou por mim a acreditar que por vezes em mim coexistem aquilo que fui, que fui nesta minha vida, com aquilo que fui num qualquer outro corpo (seja de mulher, seja de cavalo ou gaivota), e também com aquilo que sou agora e com aquilo que serei. Uma fusão intraduzível em palavras. E também sinto, por vezes, que estou perto daqueles a quem posso tocar com as mãos mas também perto dos que, estando longe, estão aqui, agora, ao meu lado, porque me lêem, porque me querem bem, porque, como dizia a Rita num comentário a um texto mais abaixo 'somos todos mais parecidos do que nos julgamos', tão parecidos que nos tocamos, nos interseccionamos e que, parte de mim, está agora convosco tal como agora que escrevo tenho aqui comigo alguns de vós. Sei que escrito assim pode parecer uma coisa de doidos mas é o que eu sinto como verdadeiro, sem que consiga explicar o que quer que seja a propósito disto -- melhor: sem que queira explicar.


A verdade é que, se eu deixar de me impor barreiras e deixar que o meu pensamento flua, ponho-me a dizer coisas sem um nexo identificável. E, como disse, não tento sequer pôr ordem nas minhas palavras não vá perder-se o fio de ariadne que me conduz através do infinito labirinto. Eu que gosto tanto de brincar a transformar o mundo em modelos e que me delicio com os milagres da simulação que se aproxima tão tangencialmente da inteligência artificial, em momentos assim, seria incapaz de verter o meu despensamento em expressões algébricas. Pelo contrário, toda eu me movo na mais pura abstração e se tivesse que descrever por onde ando, falaria de espaços que são abertos, sem formas identificáveis, uma imensidão sem princípio nem fim, percorrida por algo que não é silêncio nem som, por um movimento que não se sente, sem sombras nem luz, onde o tempo não existe e onde tudo é tudo. E penso que gostaria de ser capaz de me exprimir sem recorrer a estas palavras que estão puídas de tanto uso pois queria falar de realidades primevas, espaços e tempos em que a razão dispensava a expressão, em que a emoção existia envolta em silenciosos e apenas pressentidos frémitos.


Querer equacionar, neste contexto, como foi que tudo começou parece-me pensamento fútil. Não começou. O imenso infinito onde muitos mil sóis, muitas mil luas, muitos mil seres navegam em elegantes movimentos ou desaparecem recuando ao âmago da sua origem ou se expandem em louca exuberância é um contínuo sem princípio nem fim. Se não há começo não há, pois, quem o tenha começado. Mas, se não há um deus fundador, há, sim, muitos mil deuses. É a feliz aleatoriedade que por vezes é mãe da harmonia e da felicidade, é a beleza das descobertas ocasionais, é a suavidade das convergências improváveis, é a infinita mão que nos protege, feita da memória de todas as boas mãos que alguma vez existiram, é o bailado milagroso que se dança dentro nossa cabeça e do qual nasce a nossa capacidade de olhar, de ouvir, de sentir, de amar, de escrever poesia, de escrever palavras sem dono, injustificáveis como números primos.


Nesta quinta-feira, à hora de almoço, olhei o telemóvel, espreitei as notícias. E só não caí de joelhos porque me segurei. Tinha sido anunciada a descoberta das ondas gravitacionais. Pensei logo nas minhas ondas das marés siderais. Fechei os olhos, arrepiada. Finalmente. Depois abri os olhos, procurei mais informação. Só me apetecia ir para o campo, para o meio das árvores, ou para  a beira do mar, deitar-me, encostar os ouvidos à superfície do planeta, tentar ouvir os seus segredos, adivinhar o mistério que ele esconde. Mas depois pensei que o segredo não está no interior da terra. E depois pensei que não há segredo. E depois pensei que o que há é beleza, a magia da infinita beleza, a mágica beleza do infinito.


Onda gravitacional é a onda que transmite energia por meio de deformações no tecido do espaço-tempo, ou seja, perturbando o campo gravitacional. A teoria geral da relatividade prediz que massas aceleradas podem causar este fenómeno, que se propaga com a velocidade da luz.(...) Em 2016, pesquisadores do projeto LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory) observaram "distorções no espaço e no tempo" causadas por um par de objetos com massas enormes interagindo entre si. Acerca da descoberta, David Reitze, diretor do projeto, em uma entrevista coletiva em Washington, disse: "Nós detectamos ondas gravitacionais. Nós conseguimos".



O avanço científico está a ser recebido com uma das descobertas do século. A equipa internacional que fez a descoberta diz que esta primeira deteção das ondas gravitacionais significa a entrada numa nova era na astronomia.

O físico teórico alemão Albert Einstein (1879-1955) defendeu, na Teoria da Relatividade Geral, que o celebrizou, que os objetos que se movem no Universo produzem ondulações no espaço-tempo e que estas se propagam pelo espaço. Previu, assim, a existência das ondas gravitacionais e demonstrá-la de forma direta era o último desafio em aberto da Relatividade.



E leio, sobretudo, a contagiante alegria de Carlos Fiolhais: HABEMUS ONDAS GRAVITACIONAIS! 

Como disse um dos cientistas envolvidos, até agora só tínhamos olhos para o espaço, Agora temos também "ouvidos". E o espaço não é um sítio de pasmaceira, é um cenário de acontecimentos violentos, que nos fornece feéricos espectáculos de luz e cor.
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Vídeos sobre as Ondas Gravitacionais




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No meio de guerras com armas de toda a espécie, incluindo as financeiras, eis que mais uma porta maravilhosa se abriu. E, portanto, se, por um lado, vivemos tempos sombrios, por outro, atravessamos uma época de luz.
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Lá em cima, Renée Fleming interpretou a Canção à Lua de Dvorak

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E, depois disto, caso sejam dados a gostos estranhos como mergulhar na lama, mais propriamente no imenso lamaçal em que está transformada a comunicação social portuguesa completamente infestada pelos PàFs e pró-PàFs, queiram, então, por favor, deslizar até ao post já a seguir onde falo da forma implacável como Manuela Ferreira Leite lhes baixou os fundilhos e lhes aplicou umas valentes nalgadas. E aplaudi, claro está.


segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Poderia pintar os anjos brilhando


Onde está a parte dos outros que é nossa quando eles estão longe e nós os sentimos tão misteriosamente próximos?

Por que lugar do imenso espaço circulam as palavras, as saudades, os sorrisos daqueles que se querem e que nem sempre podem ver o brilho do olhar e sentir na pele a doçura da voz do outro? Em que infinito lugar gravita, pois, a memória dos que não estão junto a nós mas habitam o nosso coração? 

E qual o céu para onde vamos quando entramos no atraente corredor de luz que nos espera? E em que nos transformamos quando deixamos de ser aquilo que hoje somos? Em pó? Em matéria escura? Numa desconhecida matéria feita de coisa nenhuma, talvez apenas feita de tracejados movimentos, de aparentes aproximações? Ou de ínfimos, muito ínfimos, pontos de luz amorosamente enlaçados? 

E em que outros mundos nos encontrámos, nós os que nos conhecemos desde sempre, talvez de outras vidas? Num mundo rarefeito em que nem o tempo existia? 
E os que assim se conheceram, viverão juntos por toda a eternidade? Mesmo que invisíveis, intangíveis, habitando um misterioso halo de luz, para sempre estarão unidos por um amor inexplicavelmente real?
(Eu acho que acredito que sim. Ou melhor: eu gostava de acreditar que sim).

Energy flow



À volta de cada uma das galáxias, os astrónomos observam o efeito de um grande halo de matéria que revela a sua existência através da força gravitacional com que atrai estrelas e desvia a luz. Mas esse grande halo, do qual observamos os efeitos gravitacionais, não conseguimos vê-lo directamente e não sabemos de que será feito. Foram estudadas muitas hipóteses, mas nenhuma parece funcionar. Que haverá ali qualquer coisa parece já evidente, o que será, não sabemos. Chamemos-lhe hoje "matéria escura". Parece de facto tratar-se de qualquer coisa que não é descrita pelo modelo padrão. Caso contrário, vê-la-íamos. Algo que não é nem átomos nem neutrinos nem fotões...

Não é de surpreender que existam mais coisas no céu e na Terra, caro leitor, do que sonha a nossa filosofia; e a nossa física. No fundo, até há poucos anos nem sequer suspeitávamos da existência das ondas de rádio ou dos neutrinos, que, no entanto, preenchem o universo. 
(...) 
Por ora, é isto que sabemos da matéria. Um punhado de tipos de partículas elementares, que vibram e flutuam continuamente entre o existir e o não existir, que pululam no espaço mesmo quando parece não estar lá nada, que se combinam até ao infinito como as vinte letras de um alfabeto cósmico para narrar a imensa história das galáxias, das estrelas inumeráveis, dos raios cósmicos, da luz do Sol, das montanhas, dos bosques, dos campos de cereais, dos sorrisos dos rapazes nas festas e do céu negro e estrelado de noite.


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O título do post pertence a um poema de Herberto Helder. A primeira e a última fotografias foram feitas este domingo in heaven. A música é de Ryuichi Sakamoto - Energy Flow.O texto em itálico pertence ao livro 'Sete breves lições de física', capítulo "Partículas" de Carlo Rovelli.
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Muito gostaria ainda que descessem até ao post seguinte para ler um texto sobre os quanta e sobre as descontinuidades que existem em nós.

Ainda mais abaixo continuo com Herberto Helder, desta vez no último vídeo do Cine Povero.

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