Mais uma vez estou a ver o Eixo do Mal. Como já deu para perceber, ver as actuações da Clara Ferreira Alves tiram-me do sério. É uma papagaia, fala de cor, empola o que diz para disfarçar a vacuidade do seu conhecimento. Cansa. Irrita. Vê os filmes todos ao contrário. Convenço-me até que não é apenas uma matraca falante e mal informada, que é mesmo pouco ou nada inteligente. E depois como fala sem pensar e sem saber do que fala, tão depressa diz uma coisa como o seu contrário.
O meu marido, de cada vez que ela fala, insurge-se e insulta-a à bruta, sempre a querer fazer zapping. E eu estou quase a fazer-lhe a vontade antes que a sujeita dê cabo da nossa saúde.
Neste momento está o Pedro Marques Lopes, muto bem, racionalmente, a desmontar a cegada que ela para ali esteve a armar. Aliás, está a dar-lhe uma rabecada das valentes. Se ela fosse inteligente (que não é), enfiava-se debaixo da mesa.
Não percebo porque é que a SIC contrata uma criatura como ela: alarmista, desbocada, fútil, mal informada. Praticamente tudo o que diz são tolices, ainda por cima mal fundamentada. Não deviam abrir-lhe um microfone à frente da boca pois dali não vem uma que se aproveite.
E o Luís Pedro Nunes, uma vez mais cavalgou a onda das bocas, e agora está a levar com a fúria não apenas do Pedro Marques Lopes mas também do Daniel Oliveira.
Mas quer o poupas quer a depenada têm uma característica: mal percebem que o que disseram não tem ponta por onde se pegue, ajeitam a conversa. Ela muito mais que ele, claro.
Por isso, para não me focar nem nela nem no vizinho do lado, desloco-me antes para um território mais divertido.
Já no outro dia, a minha filha fotografou o nosso cabeludo mais fofo e enviou-nos a fotografia com um cheeeese como legenda.
E o que engraçado no nosso amicabeludo é que se faz à foto. Pedimos-lhe para se virar para nós e para esperar para o fotografarmos e ele, sempre tão teimoso e temperamental, neste caso aceita e olha para a câmara.
Hoje fomos ao centro comercial com ele. Adora. Mal sai do carro, puxa, puxa, todo feliz. Adora andar no meio da confusão. Mas, então, a graça de se cruzar com um também todo cabeludo mas que devia ser dez vezes mais pequeno que ele, branquinho, e com um casaquinho. O outro virou-se para o meu, todo entusiasmado. O meu virou-se curioso, olhou-o de alto a baixo e, imediatamente, virou-lhe as costas. Um desprezo olímpico. O outro ainda a querer festa e o meu a ignorá-lo em grande estilo.
Mas o que vos convido é a ver o vídeo abaixo onde se podem ver os 10 animais considerados com mais piada, no concurso The Comedy Wildlife Photography Awards.
The 10 funniest animal photos of the year | BBC Global
The Comedy Wildlife Photography Awards crowned the funniest animal photos of the year.
Nunca como antes ficou tão evidente o quanto todos precisamos de todos e o quão importantes -- e vitais -- são algumas das profissões de que tanto nos esquecemos ou que tão arrogantemente menosprezamos.
Se uma grande parte de nós pode estar confinada, protegida de contágios, trabalhando em casa, uma outra parte tem que continuar a sair todos os dias para manter os serviços essenciais a funcionar e para garantir que a cadeia de abastecimento não se interrompa, vencendo o medo, correndo riscos, muitas vezes separando-se da família.
Claro que, desde logo, obviamente, os profissionais de saúde -- embora desses talvez não se possa falar tanto em baixos ordenados (pelo menos, de forma generalizada) mas em que, tema de cifrões à parte, o que há a enaltecer agora é a dedicação, a entrega, a superação que os leva a enfrentar o risco de peito feito -- mas, também, os técnicos que mantêm os equipamentos operacionais e os auxiliares, os bombeiros, os funcionários dos lares e residências de terceira idade.
E, uma vez mais, refiro também os que trabalham nas empresas de águas, nas empresas de electricidade, nos operadores de comunicações, os camionistas, os que se ocupam da recolha de lixo, os empregados dos supermercados, os agentes de segurança, os farmacêuticos, os motoristas de transportes públicos, os carteiros, os operários fabris cujas fábricas ainda laboram, os entregadores de tudo, os donos e empregados de pequenas mercearias, e tantos, tantos outros.
A todos esses nunca agradeceremos o suficiente. E seria bom que a nossa memória, que é fútil e fugidia, nunca os esquecesse. Devemos-lhes tanto.
Uma parte significativa das pessoas infectadas pelo corona serão, certamente, pessoas com essas profissões. Só ligados à Saúde, se bem registei, serão mais de mil e quinhentos os que já foram infectados.
Para nós que, quando vamos ao supermercado, chegamos a casa e nos lavamos e relavamos e que temos mil cuidados com as coisas que trouxémos (e fazemos bem), imagine-se os riscos que as pessoas que circulam, que lidam sabe-se lá com quem, com o quê, correm. E, no entanto, todos os dias têm que fazer frente à inquietação e ir à luta.
Não sou moralista e detesto a caça aos culpados de cada vez que acontece alguma coisa. Mas esta situação da covid que, à primeira vista, parecia uma treta sem relevância, um corona como tantos outros, uma cagada em três actos, veio a revelar-se a gota de água que fez transbordar o desconchavo que é este mundo. Os países paralisados, as ruas desertas, as lojas fechadas, as escolas vazias, silenciosas, grande parte das fábricas paradas, alguns países a deixarem morrer ao abandono os seus mais velhos ou os mais pobres, mortos a serem deixados à espera de vaga na morgue, enrolados em plástico ou enfiados em caixões de cartão ou enterrados em valas comuns -- tudo coisas impensáveis nestes tempos que julgávamos de abundância, nestes tempos que julgávamos civilizados.
[E isto também já para não falar numa coisa de que um dia iremos perceber o alcance mas que, para já, não é tema para aqui chamado: em toda a linha da satisfação das necessidades vitais, equipamentos e tecnologia chinesa. Em tempo de guerra não se limpam armas e, estando em causa a vida humana, a nacionalidade das armas e munições é secundária. Mas é tema a que, quando estivermos saudáveis e fortes, a viver uma vida normal, certamente haveremos de voltar.]
Para concluir, que hoje não me sinto de muita conversa: um dia que tenhamos que voltar à normalidade, à 'nova normalidade', certos de que ainda corremos riscos -- conscientes de que são sempre muitos os riscos que corremos porque essa é a nossa natureza, frágil, efémera, vulnerável -- tendo que vencer o medo, é bom que nos lembremos de quem nunca pôde estar resguardado, de quem, todos os dias, venceu o medo para que nós, os fantásticos e os melhores do mundo, pudéssemos estar resguardados.
Embora por melhores palavras, é também isto que diz Emily Maitlis.
Antes de começar o post, vinha para falar do meu dia -- que foi de trabalho de manhã e tranquilo à tarde, ao sol e entre passarinhos -- mas, não sei porquê, comecei a pensar no dia em que vamos sair da hibernação... e derivei para isto. Não nos vai ser fácil, imagino. O mundo que conhecíamos deverá, então, parecer-nos estranho. Deve parecer-nos pouco seguro. Depois, dei por mim a pensar outra vez nas pessoas que continuam a dar o corpo às balas enquanto os outros, como eu, se confinam, tudo fazendo (e bem) para quebrar os elos de propagação do vírus. Não sei como faremos para agradecermos a essas corajosas pessoas e, sobretudo, para que passemos a tratá-las com o respeito que lhes é devido.
Claro que não devia aperaltar o texto com macacadas, pinturas ou esculturas com máscaras, mas é que acho que não vale a pena pôr um ar ensimesmado para falar de coisas sérias. E, de resto, andarmos com máscaras vai ser o que nos espera nos próximos tempos. E também sinto que deveria ter esperado por um texto mais adequado para aqui partilhar o Moving On pelo Leonard Cohen. Mas, na volta, não bato certo e o que melhor se me ajusta são coisas que pouco têm a ver umas com as outras. Seja como for, peço que também vejam o vídeo do Moving on, tão bonito.
A verdade é que quase nada tenho a dizer sobre isto. Há alturas em que o ridículo cobre como sarna quem toma decisões que são tão estúpidas que custa a acreditar a quem as ouve.
Não sei quem é que teve a brilhante ideia no primeiro caso. Talvez tenha sido mais uma das ideias avançadas da Santa Mana Joana, essa sumidade de rigor, isenção e boa gestão. Se foi, é mais uma medalhinha que poderá ostentar na lapela, a juntar a todas as outras relativas a fiascos, passos em falso e palermices que apadrinhou.
Buscas no Ministério das Finanças, uma farronca justiceira e esdrúxula que não lembra ao diabo: como se ali alguém tivesse roubado alguma coisa, como se Centeno ou a sua equipa fossem vulgares meliantes. E os jornais, as rádios e as televisões, tudo na brocanlhice, a notiviar a baderna. Se o ridículo matasse, a Santa Mana já se tinha finado há que tempos.
A propósito da ida de Centeno à bola com o filho o que posso dizer é que não conheço os contornos já que foi tema que nunca me interessou -- mas, caraças, nem preciso de conhecê-los. Algum animal pensante acredita que Centeno se deixou corromper com dois bilhetes de futebol? Tenho cá para mim que só um néscio muito néscio acredita numa dessas.Estou em crer que nem a Santa Mana Joana ou o Super-Judge Alex acreditam em tal (e isto só para evocar duas sumidades na arte de bem avaliar situações).
Ainda a semana passada, numa reunião, estive com uns colegas que foram a uns dados jogos a convite de uma certa empresa. Não fui porque ir ao futebol é coisa que não me assiste. Mas se fosse um concerto dos bons e estivesse para aí virada, era bem capaz de ir. E estaria eu a ser favorecida, corrompida ou comprada ou whatever por aceitar um bilhete...? Se alguém achar isso o melhor é que vá dar banho ao cão e, de caminho, se encha do mesmo shampoo e se enfie no mesmo alguidar a ver se a estupidez e as pulgas lhe saem de cima.
Acredito que quem não costuma receber coisas destas ache muito mal e acredite que é favor que acabará por, de uma maneira ou de outra, ser pago. Pois façam fé no que vos digo: nem pensar. Quem se corrompe a sério, vende-se por muito mais do que uns bilhetes para a bola. Por muito mais, meus Caros. E fará as coisas bem feitas. Ninguém saberá de nada, não existirão provas.
Agora ir à bola e estar ali à frente de todos? Isso é corrupção...? Caraças é que é. Por muito injusto que possa ser para quem tem menos rendimentos e nunca recebe facilidades ou prebendas que tais, a vida é mesmo assim, carregadinha de injustiças.
Convites para isto, aquilo e o outro...? A toda a hora. Read my lips: a toda a hora.
Já o expliquei e explico outra vez: há uma coisa que são os patrocínios. Quem patrocima um evento ou um clube tem direito a bilhetes. Melhor: muitas vezes o patrocínio traduz-me justamente em comprar antecipadamente parte dos bilhetes daquilo que patrocina. Depois obviamente não ficam com eles na gaveta. Distribuem-nos por amigos, clientes, etc. Imagine se um cliente, ao receber um convite para um espectáculo, reage: 'Não aceito. Sou um puro. Não quero ser corrompido'. Era a gargalhada geral no mundo do trabalho. Quem pensa assim, que vá para um convento ou que ponha a cabeça de molho.
Já o disse anteriormente: convites para cenas dessas, para viagens, almoços, pequenos-almoços executivos, conferências e o que quiserem recebo dia sim, dia sim. Geralmente nunca aceito. Aliás: raramente aceito (e ponham raramente nisso). Mas não é para não ser corrompida porque não sou de me corromper. Acredito que um dia ficarei muito rica -- mas será porque me há-de sair um jackpot chorudo no euromilhões. Não é, pois, por receio de ceder à tentação e vir a favorecer de alguma forma o ofertante: é simplesmente porque gosto de ser eu a escolher as minhas companhias e os meus programas e nas minhas horas vagas prefiro larear a pevide e não ter que fazer sala ou conversa de circunstância ou simplesmente dar de caras com colegas ou conhecidos do mundo profissional.
Quanto a terem despachado o Nuno Artur Silva depois do que ele fez na RTP e com o pretexto esfarrapado que usaram só tenho a dizer que decisões dessas são próprias de gente cobarde. De gente assim sempe ouvi dizer que não valem um caracol furado, que é como quem diz que dos pequeninos e cobardolas não se faz a história.
Não gosto de viver numa sociedade em que se governa ou decide em função da vox populi da carneiragem ou em que se governa ou decide em função do medo da opinião das lavadeiras de roupa suja, das alcoviteiras de serviço os das virgens ofendidas que pululam nas redes sociais. Não gosto mesmo nada.
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Vou mas é escrever mais um post para a minha fofa mais doce. Quero mostrar-lhe uma coisa. Se não conseguir acabar agora de noite (estou com muito sono), tentarei acabá-lo de manhã.
De repente, depois de uns dias frios em que as noites junto ao rio se apresentavam envoltas num vento cortante, eis que chegou o calor, o céu limpo, o rio espelhado ao pôr do sol.
Há uma doçura no ar, a doçura que vem com a promessa da natureza a renascer, com a temperatura que trará a pele para o contacto do sol. As cores estão suaves, limpas, e as pessoas passeiam devagar, namoram ao sol, conversam olhando os barcos que passam.
E para lá fomos, portanto, e lá foram ter os que tinham ido buscar quem chegou do norte. Os meninos gostam de brincar, correm, escondem-se atrás das árvores, jogam à bola, atiram o disco. Hoje o disco foi para ao rio. Vimo-lo a afastar-se. Um deles disse: não faz mal, é só um prato.
Aquele a quem eu chamava ex-bebé e a quem já não poderei chamar isso, uma vez que está prestes a fazer quatro anos, um rapaz divertido e corajoso a quem os primos tratam por Kokokas, subiu ao pequeno farol, e, destemido, queria ir mesmo até lá acima, queria ver a luz.
Não o deixámos, claro, mas, ainda acima, ficou perto da lua. Aliás, quando viu a lua a esboçar-se naquele céu tão limpo, ficou intrigado e disse que se calhar já ia ficar de noite.
Depois o sol começou a pôr-se, esfriou. A luz coalhou-se nas águas, os barquinhos pareciam querer ir para lá do horizonte, mergulhar no oceano que vai para o outro lado do mundo.
Dali seguimos para um lanche, uma mesa grande, e os dez em volta da mesa, sempre aquela animação, as crianças riem, nós rimo-nos a olhar para elas. Quando cheguei a casa, já anoitecia e estava frio.
Estive, então, a ler o Expresso e, para começar, folheei a revista, vi as fotografias de Herberto Helder, depois li os vários textos, senti a emoção de quem os escrevia deixando transparecer a admiração profunda por este poeta maior.
Depois passei para o jornal principal e, como sempre, fui para a crónica de Pedro Santos Guerreiro. E, aí tenho que confessar, comovi-me. Não estava à espera, não falava de economia, bancos, crises financeiras, do mal do País. Não, Pedro Santos Guerreiro falava com o Poeta. Chamou-lheCrónica H.
Estou acordado. Fala-me de ti. Hoje não há espadas trespassando os cometas da semana, Herberto Helder morreu e eu vou escrever uma crónica. Não é um texto de opinião, não é um editorial, não é sequer uma coluna, são apenas quatro quartos de coluna, é uma crónica, é fogo daqui em diante, a saída de emergência é já aqui. Saia.
Fique.
(…)
Este texto é meu e não vim cá hoje para ver nem para ler, vim para estar. E ir. Afinal, isto é uma crónica e é a minha forma de expressar não o amor por ele mas o amor pelo amor que ele nos revelou. Herberto, o que quero eu? É apenas uma crónica, não preciso de vencer. Só quero dizer: Herberto é para ler todo e serve para ler tudo. E para nos vermos a nós depois dele, no nosso mundo depois daquele, que são o mesmo, mas nós diferentes.
Sim, estou acordado. Fala-me outra vez.
[A Crónica H completa, de Pedro Santos Guerreiro, pode ser vista aqui]
Também especialmente comovente a parte final do Eixo do Mal.
Clara Ferreira Alves, emocionada, mas solid as a rock, falou não tanto da obra, imensa na sua imensa beleza, mas sobretudo do homem, uma catedral, um homem grande neste tempo de homens pequenos. Contida, a voz arrancada palavra a palavra, disse palavras justas e marcantes sobre o pai do homem que, em sua frente, a escutava. Também contido embora comovido, Aurélio Gomes passou a palavra a Pedro Marques Lopes que, olhos marejados, voz emocionada, disse que apenas diria que era o poeta da vida dele e o pai de um grande amigo. Luís Pedro Nunes não quis falar e eu compreendi. Finalmente falou o filho. Daniel Oliveira disse que nunca tinha querido falar do pai e agora falava apenas para pedir que não façam agora ao pai aquilo que ele não quis em vida: dar o seu nome a uma rua ou praça, fazer um busto, coisas assim. Não o disse mas deve ter pensado que era a primeira vez que o pai não o estaria a ver como sempre costumava fazer. Mas sabemos lá nós se não o estaria mesmo a ver.
A seguir, emocionado, Aurélio Gomes passou Fernando Alves a dizer um poema de Herberto Helder, enquanto mostravam fotografias do poeta. No fim, estavam todos comovidos e eu também. Ninguém gosta de pensar que os poetas também precisam de descansar.
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O poema de Herberto Helder que Fernando Alves diz no vídeo do Cine Povero é As manhãs começam logo com a morte das mães.
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No post a seguir falo das Testemunhas de Darwin e de outras.
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Desejo-vos,meus Caros Leitores, um radioso dia de domingo.
Pois. Escusam de me atirar à cara com a futilidade do tema que escolhi para hoje quando o país parece que está a cair de podre.
Eu sei, eu sei. Deveria centrar-me no tema mais mediático do momento até porque não é apenas um tema mediático, é mais a ilustração dos claustrofóbicos tempos que correm.
Sócrates mais uma noite preso. Amanhã conhecer-se-á o que decide o omnisciente Carlos Alexandre. Os jornalistas estão ávidos: quais as medidas de coacção que vão ser aplicadas? Terão já na box, prontos para entrar em estúdio, comentadores de todas as cores e feitios para as interpretar: Prisão preventiva? Menos que isso? Mais do que isso (decapitação sumária, por exemplo)?
Ouvi Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes comentarem que, depois de um aparato destes, já não há reversibilidade possível. Mesmo que se provasse que tudo não teria passado de um monte de equívocos e falsas suposições, o que ia a Procuradoria Geral da República dizer? Que se tinham enganado...? Não, não o fariam. Se o fizessem, seria o descrédito total da Justiça. Seria uma vergonha. A coisa ganhou tal repercussão mediática, aqui e no estrangeiro, que já não é possível senão ir em frente mesmo que não haja razão válida para isso.
Se havia razões de suspeição, que averiguassem com discrição, com reserva. Se se viesse a confirmar que havia razões, então avançaria o processo. Se não houvesse, também não teria havido aparato, ninguém perdia a face. Agora assim? Carros de polícia a apitar pela cidade, interrogatórios de dias inteiros, um ex- primeiro ministro já 3 noites a dormir nos calabouços do Comando Metropolitano da PSP (calabouços como fazem os jornalistas questão de frisar, reforçando o dramatismo da situação)... Como arrepiar caminho? Também não vejo que seja possível.
Venho escrevendo isto desta sexta feira: este assunto incomoda-me muito, de forma quase visceral. Tudo nisto muito incomoda, a começar pelo forma como decorre. Não sei porque é que Sócrates não pode dormir em casa e apresentar-se na segunda feira para responder a mais questões (mas a sua mãe deu-lhe dinheiro porquê? Porque é que a sua mãe não espera para morrer para você só ter o dinheiro através de herança? ...etc). E também não sei o que leva as estações de televisão e os jornais a colocarem no meio da rua, à noite e ao frio, os jornalistas de microfone na mão à espera que passe o carro com Sócrates lá dentro. Nem sei como arranja ele vontade de rir para as câmaras que aguardam ansiosamente a visão de uma lágrima, nem sei como encontra ele força anímica para sobreviver a tanto embate da vida. De resto, também não sei como é que os comentadores profissionais encontram conversa para tanta opinião, a toda a hora, sobre todos os assuntos. Sempre os mesmos, uma seca, sempre, a toda a hora.
Os mesmos não, que apareceu agora um advogado que tenho ouvido com agrado, o advogado Manuel Magalhães e Silva. Claro, directo, desalinhado, parece saber do que fala ao contrário dos papagaios que lhe têm posto pela frente. De forma fundamentada e isenta (diz que nem tem simpatia pessoal ou política por Sócrates), tem referido que a prepotência e arrogância da actual Justiça são preocupantes.
Depois há outra coisa que é de nos deixar a todos de pé atrás: o advento para a ribalta de gente que se arroga o direito de opinar como se fosse muito douta mas que revela ser superficial, leviana, medíocre. Aparecem, põem-se de bicos de pés, dão-lhes ouvidos, dão-lhes poder e, aos poucos, vão ganhando influência. Com esta escumalha miúda se vem fazendo a história em Portugal. É esta gente que vem ocupando, aos poucos, os partidos, os meios de comunicação social, a gestão das empresas, os órgãos de decisão de tudo o que é coisa.
Portugal vai-se afundando, empobrecendo, esvaziando. Enquanto isso, gente como Duarte Marques, Nuno Garoupa, Felícia Cabrita, e tantos outros vão fazendo o seu caminho, as alas vão-se-lhes abrindo.
Muitas vezes me interrogo como é tal possível e chego sempre à mesma conclusão (e nem estou a referir-me agora aos citados em particular): é, geralmente, gente sem pruridos, que não tem pejo nem pudor.
Pelo contrário, com frequência pessoas que têm outro nível intelectual e moral têm uma humildade intrínseca, não se vangloriam, perante ataques desleais aquietam-se, desmoralizam, desistem. Por delicadeza deixam-se vencer, por delicadeza deixam-se morrer.
Acabam por ser os porcos a reinar, a ditar regras. Prepotentes, estúpidos, indelicados, os porcos gostam de se fazer passar por gente a sério mas são e sempre serão porcos. Mas porcos que mandam nas pessoas, nas pessoas que, aos poucos, se foram deixando vencer.
Mas, enfim, apetece-me arejar a cabeça, falar de outra coisa qualquer.
Por isso, agulha mental: vou desviar-me para um caminho lateral a ver se começo a semana com boa disposição.
Chris Hemsworth foi eleito pela revista People o Sexiest Man Alive em 2014.
Todos os anos a revista People elege o homem mais sexy do mundo. Costumo conhecê-los. Mas este ano tenho que ser honesta: nunca tinha ouvido falar em tal pessoa. Fui ver as imagens: nunca o tinha visto mais gordo, deve andar por filmes ou séries que não vejo. Mas pronto, não é feio de todo. Bonitinho, musculado, ar saudável.
Contudo, em minha opinião (e, pelos vistos, ando fora de moda), para um homem ser sexy deverá perceber-se nele alguma sabedoria, alguma malandragem subtilmente destilada, e deve ser evidente alguma patine. Ora este Chris parece que só tem saúde, carinha laroca e corpinho bem feito. Pode ser que daqui por uns anos esteja lá, mas, por enquanto, diria eu que ainda tem que deixar a vida passar um pouco mais sobre ele.
Vídeo em que Chris Hemsworth explica como é que ele e a mulher reagiram à notícia de que tinha sido eleito o homem mais sexy do mundo em 2014 e, vá lá, onde ele mostra um pouco da sua gracinha.
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Não sei se este Chris encaixa na categoria dos metrossexuais de que o Cristiano Ronaldo é um dos mais badalados ex libris mas, embora eu não seja especialista na matéria, parece-me que sim. Os metrossexuais são aqueles homens que prezam muito a sua imagem, que se depilam, se enchem de cremes, que cultivam o corpo, que gostam de ter músculos bem desenhados. Geralmente dedicam a sua atenção ao cultivo do corpo, esquecendo o cultivo da mente.
Mas leio que agora surgiu um novo tipo, que é o que agora está a dar. Os lumbersexuals. Barbudos, aspecto de lenhadores, camisa de flanela aos quadrados, gorros mal escondendo cabelos descuidados, e nada de depilações, todos bem peludos.
Olho para as imagens e, no entanto, e desculpem se estou enganada, o que me parece ver são bichas de tipo muito macho. Não me tomem por preconceituosa. Não sou. Mas há coisas que não enganam. Homem que não é bicha não se encaixa nestas modas muito moderninhas: nem é aparadinho, depiladinho, mariquinhas, nem é urso, ornamentado com pelos, gorros, botas e outros maneirismos.
Na sexta à noite jantei naquele cantonês magnífico ali em frente da Portugália da Almirante Reis. Ao nosso lado estava um casal de bichas. Barbudos, à primeira vista muito straights. Mas depois, para escolher, estiveram mais de meia hora, hesitações, risinhos, escolhe tu, não, tu, vá lá, diz lá e olhavam-se nos olhos, riam, todos dengosos. Pela conversa percebi que trabalhavam em revistas, ou designers gráficos ou jornalistas. Uma converseta gay todo o santo jantar. Mas, lá está, barbudos, pretensamente muito fashion, muito machões. Não tem nada de mal, claro que não, cada um é como é e que um casal de gays sinta afecto e o demonstre ou que tenha os seus flirts parece-me coisa completamente normal.
Agora o que não posso deixar de achar graça é a estas modas. Aparecem-nos como um novo tipo estético e a gente vai ver e parece coisa apenas para gays.
Com as mulheres isso não acontece, acho eu. Quando há modas que pegam, as mulheres aderem, sejam hetero sejam homo. Agora estão na moda as capas, os ponchos e, se a gente vê imagens, não nos passa pela cabeça dizer: olha, cá está, moda para lésbicas. Não: quando a moda é para mulheres e é das boas, todas aderem.
da Harper's Bazaar
Já agora. Este é o tipo de moda que me agrada: capas, écharpes largas. A minha mãe já me fez um poncho em castanho e creme, já fez um em cinza claro esverdeado com barra branca para a minha filha, agora está a fazer um azul e branco para a minha nora. São super confortáveis, quentinhos sem abafar.
Mas, enfim, esta conversa também não leva a lado nenhum. Estou para aqui a divagar apenas para fugir ao que me preocupa.
Por isso, vou mas é ficar por aqui. Mas, antes, vou ouvir um pouco de música para ir mais confortada. Se me permitem, partilho convosco. Uma maravilha.
Daniel Müller-Schott interpreta o Concerto para Violoncelo de Dvořák com a Berliner Philharmoniker dirigida por Alan Gilbert
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E por hoje é isto. Desculpem-me por este post que não é carne nem é peixe, é mais o pot pourri possível numa noite em que a cabeça quer ir para um lado e eu, por outro, quero aligeirar (até para não vos maçar muito mais já que, como poderão ver pelos posts abaixo, ando, desde sexta feira, a falar neste tema que tanto me tem incomodado).
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda feira.
E a ver se o céu não cai de vez em cima das nossas cabeças.
No post abaixo já prossegui com as minhas aulinhas práticas com a assistência da minha ajudanta Martina Hill: o que fazer depois de uma aula de exercício ou depois da prática de corrida ou caminhada. Podem fazer o mesmo que ela. Tem graça e não ofende.
Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é mais séria.
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De forma geral gosto de ler e ouvir Clara Ferreira Alves. É directa, agarra os bois pelos cornos, não usa meias palavras. É certo que usa frequentemente um desagradável tonzinho de superioridade, de quem engoliu todo o saber do mundo e, cheia de saber até à goela, tem que o verter imparavelmente mesmo que, para isso, não tenha tempo para medir o efeito que causa nos outros.
Mas, enfim, entre uma pessoa convencida mas culta, inteligente, objectiva e bem intencionada, e um meias-tintas, doseado, ignorante e apalermado não hesito em pôr-me do seu lado.
No entanto, não costumo dar o meu apoio só porque sim: costumo elogiá-la porque a tenho em conta de quem sabe do que fala.
Mas eis que, este sábado, no Eixo do Mal, a vejo a atirar-se com as habituais unhas e dentes contra o Manifesto mas dizendo coisas que não tinham cabimento. Criticava o documento por coisas que não estão lá ou omitia outras que, de facto, lá estão. Comecei a ficar apreensiva. Então a falar com aquela segurança do costume e... a mostrar, a cada palavra, que estava a falar de cor, que não tinha lido o documento...?
A self-assumed melhor-de-todos afinal também comete o mesmo erro que os outros? É preguiçosa, não faz o trabalho de casa mas envolve o desconhecimento em pesporrência, parecendo que sabe daquilo como se não tivesse estudado outra coisa desde que nasceu...?
E tanto não tinha lido que nem sabia quem o tinha subscrito. Azar...! Ao seu lado no programa senta-se Pedro Marques Lopes, um dos subscritores.
Vi como ele estava desconsolado, tanto quanto eu e provavelmente tanto quanto todos quantos se habituaram a admirar Clara Ferreira Alves.
O pasmo dela quando soube que Pedro Marques Lopes era um dos que ela tinha acabado de criticar tão veementemente comprovou o que já toda a gente tinha percebido. Pedro Marques Lopes não escondia a sua decepção:
'Ó Clara, mas isso está na página 6...'
'Mas ó Clara, tu não leste o documento. Não está escrito nada disso...'
'Mas ó Clara isso é o que a gente defende...'
'Ó Clara mas se tivesses lido o documento não estavas a dizer isso...'
Vá lá, uma vez descoberto o lapso, ao menos não mentiu. Escapou um pouco à questão, disfarçou, tentou aplicar igual ênfase noutros pontos - mas a mancha na imagem tinha ficado.
Enfim, toda a gente tem momentos menos felizes e não é uma ou outra andorinha que vai fazer uma primavera - mas que desceu um pouco na minha consideração, lá isso desceu.
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No post abaixo: a aula prática de bom comportamento feminino pós-exercício físico é já a seguir.
Não gosto de transcrever artigos na íntegra pois pode parecer que quero usurpar o mérito alheio. No entanto, dois artigos que acabo de ler merecem-me tal apreço que me permito transcrevê-los quase na íntegra. Ou melhor, o primeiro deles, o de Paulo Baldaia, vou mesmo divulgá-lo todo pois tenho dificuldade em extrair parágrafos sem lhe retirar a força.
Lidos pela ordem que aqui vos mostro, talvez fique clara a explicação para a estupidez e desumanidade, para a canalhice política que tem o seu corolário na situação descrita por Paulo Baldaia: talvez tudo resulte, sobretudo, da maneira de ser dos fautores de toda a demencial e sangrenta estratégia que, tão laboriosa e insensivelmente, vem sendo levada a cabo, fautores esses de quem Pedro Marques Lopes fala no seu artigo.
*
Para acompanhar a leitura destes dois textos, que venha Yo-Yo Ma e interprete Bach
(Sarabande of the Six Suite for Unaccompanied Cello)
Dança sobre o gelo a cargo de Jane Torvill e Christopher Dean.
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Sexta, às nove - por PAULO BALDAIA
Sexta-feira, às nove da noite, estava em casa a ver um programa de reportagem na RTP com o nome que dá título a esta crónica. A essa hora fiquei com a certeza de que a sociedade faliu por decisão política. Há crianças pobres com necessidades especiais e com deficiências a quem o Estado está a recusar subsídios, que até aqui fornecia.
Para que não pareça apenas mais uma crónica contra a austeridade, devo recordar que eu sou dos que entendem que Portugal viveu acima das suas possibilidades, dos que entendem que o Estado tem de deixar de ter défices para poder pagar o que deve, dos que entendem que os cidadãos não podem exigir do Estado o que Estado não for capaz de pagar.
Mas não é do pagamento em auto-estradas que um dia foram grátis que estamos a falar. Nem sequer de cortes nas pensões e nos salários ou da brutal carga de impostos que queima em lume brando a classe média. É pior, muito pior. É a desistência de seres humanos que, pela sua fragilidade, mais precisam da nossa ajuda.
Eu pago impostos e pago-os com gosto por ver neles a vantagem de estar a contribuir para uma melhor redistribuição da riqueza, mas, acima de tudo, porque sei que há determinadas coisas que só o Estado pode resolver e que para isso precisa de dinheiro.
Na reportagem da RTP havia, por exemplo, uma criança de seis anos que estava a dar os primeiros passos no mundo das palavras (apenas dizia carro). A família, com um rendimento de 900 euros, viu recusado um subsídio de 300 para pagar uma das terapias de que a criança precisa. E a outra família com um rendimento de 620 também foi retirado o subsídio. Não estamos, portanto, a falar de o Estado recusar ajuda a uma família que tem rendimentos que dispensam esse apoio.
Sexta, às nove, fiquei a pensar em jornalismo e a desejar que aquela reportagem seja suficiente para os governantes corrigirem o tiro. Não consigo perceber como alguém consegue dormir tendo responsabilidade nesta matéria, nem entendo como pode algum político aceitar como opção cortar nos subsídios a crianças que, tendo nascido com necessidades especiais ou deficiência, vivem em famílias com carências financeiras.
Sim, eu sei, sabemos todos, que o dinheiro não chega para tudo.
Num país que tem mais de 300 mil desempregados sem qualquer rendimento ou subsídio do Estado, é evidente que, pelo menos temporariamente, deixar pessoas para trás e sem qualquer apoio é uma opção política que alguns consideram válida. Incluir neste pelotão de deserdados crianças que tiveram a dupla infelicidade de nascer com deficiência e em famílias carenciadas não é apenas uma questão política, é uma questão civilizacional.
E ainda querem falar de natalidade? Haja vergonha!
O Congresso do PSD da semana passada não teve propriamente muitas novidades.
(...)
Apareceu Marcelo Rebelo de Sousa, que fez questão de se rir na cara de Passos Coelho, como quem diz: "Podes-me chamar cata-vento e tudo o que tu quiseres, mas não tens outro remédio senão apoiar a minha candidatura à presidência." Assim se encerra definitivamente o dossier candidato do centro-direita, para desgosto dos barrosistas e dos assessores políticos mais próximos de Passos Coelho que adorariam criar uma espécie de Sarah Pallin à portuguesa.
E, claro, o regresso de Miguel Relvas à política. Imagino que para quem teve tanto trabalho a tornar minimamente interessante um congresso sem assunto, a dar-lhe dinâmica e a tentar criar factos políticos, será duro perceber que o grande tema do evento foi o regresso de Relvas. Mas foi. As más notícias batem sempre as boas, já se sabe.
Há quem tenha dito, com alguma piada, que Passos Coelho está tão preocupado com uma eventual derrota, ou vitória demasiado curta, de António José Seguro, nas eleições europeias, que trouxe Miguel Relvas de novo para a política. De facto, o antigo ministro é, para todos os portugueses e para grande maioria dos congressistas do PSD presentes no Coliseu - como se percebeu pela votação na lista que ele liderava -, o símbolo de algo que ninguém quer na vida política. Ao contrário do que o primeiro-ministro possa pensar, ninguém se esqueceu das mentiras ao Parlamento, do patético processo da licenciatura, da inexistência dum pensamento político minimamente elaborado, dos truques, da RTP, da TAP, dos ditos por não ditos, dos negócios mal explicados. Francisco Assis talvez não o faça, mas nada melhor para que Paulo Rangel perca votos do que recordar amiúde que Miguel Relvas o está a ajudar na campanha.
Agora parece que, afinal, estávamos todos enganados. Miguel Relvas encabeçou a lista, patrocinada por Passos Coelho, ao Conselho Nacional do PSD, principal órgão do partido entre congressos, mas não está de regresso à política. Foi o próprio ex-ministro que o afirmou, na última sexta-feira, ao semanário Sol.
A pergunta impõe-se: se Miguel Relvas vai para primeira figura dum órgão político mas não vai fazer política, vai para lá fazer o quê?
Há um lado quase ingénuo nas declarações do ex-político mas principal figura dum órgão político, atual consultor de empresas mas sem que se saiba que tipo de consultoria faz. Sim, obrigado pela lembrança, nós sabemos que há muita gente que está na política para tudo menos para fazer política. Homens e mulheres para quem a política é uma maneira de arranjar contactos, oportunidades de negócio, empregos. Até para vender consultoria, às tantas.
(...)
O que mais perturba, porém, é ter um primeiro-ministro que tem como principal aliado, como alma gémea, como compagnon de route, alguém que está na política para fazer outra coisa qualquer que não política.
Depois de, no post abaixo ter falado da Malavita, o filme que vi este domingo com Robert de Niro - o actor excelentíssimo - volto agora a assuntos sérios.
Leio na 1ª página do Expresso:
Privatizações de redes: o risco chinês
O congressista americano de origem portuguesa David Nunes, membro do Comité de Intelligence da Câmara dos Representantes dos EUA, alertou ontem as autoridades portuguesas para os perigos da venda a países estrangeiros de redes de comunicações essenciais ao país, referindo-se concretamente à aquisição da EDP e da REN pela China.
Concordo em absoluto. Uma vergonha, um risco, uma estupidez. Estas privatizações com que Passos Coelho está a empobrecer Portugal estão, junto da opinião pública, a passar por entre os pingos da chuva - e, no entanto, são verdadeiros atentados de lesa-pátria. Não apenas já ultrapassaram o que a troika queria em termos de montantes como estão a ser conduzidas de uma forma que retiram soberania de facto ao País.
Leio também no DN o certeiro artigo de Pedro Marques Lopes que merece bem a leitura na íntegra. Transcrevo apenas uma parte:
O facto é que a economia portuguesa está ainda mais dependente de decisões políticas do que alguma vez esteve. Ou será que alguém pensa que a EDP não seguirá à risca o que for melhor para o Estado chinês? Ou será que alguém sonha que a REN não criará problemas graves a Portugal por um qualquer interesse de um dirigente do PC chinês?
O resultado de toda a política que até agora tem sido seguida era previsível e está a confirmar-se: uma economia destruída acaba por se tornar dependente do único poder que permanece: o do Estado. A sistemática destruição económica dos últimos anos deixou o tecido empresarial tão enfraquecido que se torna praticamente inevitável a intervenção estatal.
Daqui até à intromissão do Estado em assuntos que não devem estar na sua esfera, ao aumento do clientelismo, ao crescimento do poder arbitrário do Governo nas mais diversas áreas, vai o passo dum anão.
Com a mesma lógica, não surpreendem os números, que esta semana vieram a público, que mostram que meio milhão de crianças e jovens perderam o direito ao abono de família em três anos e que há muito menos pessoas a receberem o rendimento social de inserção e o complemento solidário para idosos (dados do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa). Não será preciso lembrar que não haverá altura em que estes apoios seriam mais necessários. Por outro lado, o Estado está a investir fortemente em cantinas sociais.
O que se está a tirar em direitos e apoios para que as pessoas mudem de vida e se diminuam as desigualdades está a dar-se em esmolas. É o regresso da sopa dos pobres.
Também diz que o Governo é apoiado por um partido social-democrata.
No fundo, o Estado sai de onde devia estar, diminui as suas funções essenciais, reduz drasticamente os apoios sociais - que já eram dos mais baixos da Europa - e aumenta muito a sua presença onde não devia estar e que quando está só estraga. O Estado torna-se mais fraco onde devia ser forte, e decisivamente forte onde devia ser apenas regulador e facilitador. É a inversão total da lógica do funcionamento do Estado numa democracia que quer ter uma sociedade civil forte e independente e uma economia mais livre e com mais iniciativa.
O Governo não é nem liberal, nem social-democrata, nem nada. É apenas incompetente e ignorante.
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Tal e qual. Concordo.
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(Relembro: para espairecer de assuntos tão aborrecidos, é descer até ao post seguinte onde falo de três grandes actores se juntaram para fazer um filme bastante agradável de ver.)