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quinta-feira, dezembro 19, 2019

Patxi Andión: o adeus às palavras na hora lobicán






Há coisas que não percebo, que penso que fui eu que me confundi, que há-de ter uma explicação lógica, eu é que não estou a ver.  Por isso, não fico a pensar nelas. 
E sei que nem devia aqui falar delas. Mas, se ninguém me conhece, que importância tem se acharem que sou maluca ou com imaginação a mais?  
Podia eu ser um mero avatar, alguém-ninguém, uma Lili Marleen, um ser sem materialidade. Podia eu ser um simples aplicativo, um teste de inteligência artificial deixado em roda livre pela blogosfera, um vulto intangível que para aqui se põe a escrever coisas. 
Por isso, para quê inibir-me ou preocupar-me com o que pensam do que escrevo, se posso nem ser real?
Conto (e acreditem se quiserem).


De manhã, antes de ir trabalhar, ao reentrar no meu quarto para ir à casa de banho dar um jeito no cabelo, estranhei ter a luz da minha mesa de cabeceira acesa. Não tinha qualquer ideia de a ter acendido. Fiquei um pouco intrigada. Mas admiti que, por algum motivo, o tivesse feito. Ia apagá-la mas pensei que, já agora, ainda não o faria pois ainda voltaria à casa de banho para pôr creme nas mãos antes de sair.

Fui escolher o casaco, vesti-o e, quando voltei a entrar no quarto, para meu grande espanto, a luz já estava apagada. Fiquei pregada ao chão. Ainda pensei que, ao contrário do que pensava, se calhar o meu marido ainda estava em casa. Chamei por ele. Nada. Pensei: será possível que esteja alguém em casa? Assustada, fui dar uma volta por todas as divisões. Conferi que as janelas estavam fechadas, que a porta da rua estava fechada. Apreensiva, tentei tranquilizar-me: mais do que certo, eu é que não estava a ver a explicação. Depois pensei que, na volta, era a lâmpada que estava a fazer mau contacto. Voltei lá para verificar. Não, estava tudo bem e o interruptor até é dos decididamente on/off, nada de contacto ao de levezinho que uma insuspeita aragem tivesse accionado. 

Voltei a dar mais uma volta para dar oportunidade a que, de novo, a luz se acendesse. Mas não. O candeeiro mantinha-se desligado. Saí para trabalhar mas com uma certa ansiedade, uma espécie de mau pressentimento, uma inexplicável inquietação. Não é a primeira vez que acontecem coisas assim. 


Mas, como tantas vezes refiro, tenho a meu favor o ser irmã de ramo de árvore, filha da terra, bicho: primária, despreocupada. No carro, a ouvir a música, já fui voltando ao meu normal. Fui trabalhar e nem mais de tal me lembrei.

Saí cedo pois tive mais um almoço longe, por sinal, mesmo muito bom -- boa comida, boa companhia, boa conversa. Mas, então, ia no carro. Estava no noticiário do meio-dia. Então ouvi uma voz. Reconheci. O jornalista disse: La hora lobicán. A inquietação voltou. Desassossego fundo. Aquele buraco que se abre no peito. Logo a seguir a notícia. Patxi Andion tinha morrido. Um acidente de carro. Um arrepio percorreu-me o corpo. Percorreu e eu senti-o a percorrer-me: os braços, o peito, o torso, as pernas. Depois as lágrimas. Os olhos molhados, as lágrimas a descerem. Inquietação. Prestei atenção à notícia. Acidente. Depois, a seguir à hora do lobicão, as palavras. Veinte años de estar juntos esta tarde se han cumplido. Tantas vezes as ouvimos. Tantas vezes o meu marido as cantou para mim.

Tristeza. Inquietação.

Depois o pressentimento. E logo a certeza.


Quando agora à noite cheguei a casa, fui logo pesquisar: a que horas morreu. Sem surpresa confirmei: foi de manhã, exactamente quando o candeeiro se acendeu sozinho para, a seguir, se apagar.

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Veinte años de estar juntos
esta tarde se han cumplido.
Para ti... flores... perfumes,
para mi... algunos libros.
No te he dicho grandes cosas
porque... porque no me habrian salido,
ya sabes... cosas de viejos...
requemor de no haber sido.

(...)

Que helada que está esta casa...
Sera... sera que esta cerca el rio...
o... o es que estamos en invierno
y estan llegando... estan llegando
los frios.

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Com tristeza mas sem me despedir: Palabras.
Patxi Andión.


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Pinturas de Anders Tomlinson: Once these words