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quinta-feira, março 13, 2025

Fui ao ginásio e dei no duro, fui a uma bela Biblioteca, vi uma exposição de pintura, passeei à beira mar, fotografei garças e barcos, apanhei chuva, apeteceu-me lanchar mas contive-me, cheguei a casa já tarde mas ainda fui fazer sopa.
E agora vou imaginar que sou eu que estou aqui a dançar o tango e, para que não pensem que me esqueci do tema do momento, transcrevo um texto imperdível de Rui Bebiano no seu magnífico 'A Terceira Noite'

 

E, antes disso, ainda acrescento que já peso menos dois quilos e picos, ou seja, já estou na média para a minha idade e altura, mas que a balança inteligente e sobredotada (comunica-me os resultados por telemóvel, faz gráficos e diz-me em que ponto da escala me situo em relação a cada indicador) diz que ainda tenho alguma gordura corporal a mais. Não é muito, creio que uns 4 ou 5% a mais (tenho o telemóvel a carregar noutro sítio, não me apetece levantar-me para ir ver o valor certo), mas não quero. Só que ver-me livre dela não está a ser pêra doce. O ChatGPT diz que tenho que fazer mais exercício ou consumir menos calorias. La Palice não diria melhor. Só que é uma dor de alma não poder comer o queijinho pelo qual me pelo, tenho que me limitar a um esquálido quadradinho de chocolate preto sem pingo de açúcar. E a fruta, que eu se fosse eu comeria às carradas, agora está mesmo limitada a 3 míseras peças por dia. 

E o pior é que sei que, mesmo quando estiver no ponto, para assim me manter, terei que me manter assim, à míngua. Ora eu sou tudo menos vocacionada para me forçar a provações.

Enfim.

Bora mas é tangar.

No es por ti - Grupo Corpo (Lecuona)


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E agora é mal empregado colocar aqui um texto tão objectivo, tão exacto, como o que vou tomar a liberdade de transcrever na íntegra. Mas as coisas são o que são. O autor é Rui Bebiano, de que já antes aqui fiz referência, e escreve no blog A Terceira Noite que eu sigo religiosamente.

12 de Março de 2025

De forma simplificada, são dois os motivos principais que levaram à rejeição da moção de confiança e à próxima saída de Luís Montenegro do cargo de primeiro-ministro. O primeiro, mais invocado, tem a ver com práticas profissionais que colidem com o dever de exclusividade de quem detém cargos de responsabilidade no governo, por motivos acrescidos quem dele seja a figura principal. O segundo motivo, menos mencionado apesar de também importantíssimo, prende-se com o facto de a empresa envolvida, a Spinumviva, ser apenas familiar, não tendo sequer sede própria e corpos gerentes, dedicando-se basicamente ao tráfico de influências realizado sob a capa de «aconselhamento» em negócios privados.

Nada disto deveria ter acontecido, e, a ser revelado como foi, deveria ter conduzido de imediato à apresentação da demissão do cargo que LM ocupa. Todavia, não só tal não foi feito, como depois da triste novela pública vivida ao longo destes dias, o mesmo LM declarou pretender apresentar-se de novo a eleições e afirmou nada ter feito que «qualquer português não fizesse». Se assim acontecer, o PSD irá arrastar o país para uma situação de impunidade legal e ética premiada. Sabemos que em países como os Estados Unidos da América de Trump isto está a tornar-se trivial, mas, caramba, nós ainda vivemos no democrático país de Abril. Por isso de modo algum pode acontecer.

Nem mais. É isso mesmo. 

terça-feira, fevereiro 18, 2025

Pilates

 

Se até aqui temos andado a exercitar-nos a nível de força e de reforço da massa muscular, com prática nas máquinas, hoje começámos com pilates.

O meu marido, em tempos, já nem me lembro porquê, tenho ideia que foi recomendação médica já não me lembro a que propósito, tinha praticado. Pela descrição e por serem exercícios feitos em aula, em grupo, nunca me apeteceu. Parecia-me uma coiseca, uma frescura. Ele dizia que não, que eu estava muito enganada, mas nunca me convenceu.

Mas toda a gente me tem dito que é óptimo para mil coisas e, portanto, como quero manter-me flexível, com mobilidade e com a devida massa muscular (coisas que a caminhada, por si só, não garantem), é desta que estou a disponibilizar-me para cuidar mais a sério do meu corpo.

O ano passado e no anterior fazia exercícios na piscina mas como estava na aula sem pé, éramos muito poucos e, por vezes, eu era a única. E era um bocado constrangedor ter o instrutor ali a dar a aula só a mim.

Mas, portanto, hoje foi o primeiro dia de pilates. 

Não sei porquê tinha metido na cabeça que aquilo era basicamente uma brincadeirinha, extensões, posições e etc., nada de muito puxado. E o meu marido ou estava esquecido ou antes andava numa classe muito menos exigente. Não fui só eu a ficar com os bofes de fora, por vezes à beira de me atirar para o chão, incapaz de me esticar mais, de fazer mais abdominais, de me dobrar mais, de fazer mais exercícios esticada, retorcida, em equilíbrio, apoiada apenas numa mão e num calcanhar. O meu marido estava igualmente 'esgotado'. Como estava ao meu lado, de vez em quando, ouvia-o a dizer entredentes: 'Mas isto não acaba?'. E, de vez em quando, parava ou mal se mexia.

Fiquei espantada com a quantidade de gente. Muita. E muitos jovens. Aliás, nós dois devíamos ser os mais velhos. Algumas raparigas com uma elasticidade fantástica. E um homem jovem, que já lá estava antes de a aula começar, a fazer exercícios que deveriam ser ioga, pinos daqueles esquisitos e torções impensáveis, fez a aula com uma perna às costas (e aqui pode ser feita uma leitura quase literal) e, depois, quando nós estávamos já sem conseguir fazer mais nada, continuou, na maior, a fazer toda a espécie de proezas. Pensei que quero fazer progressos mas não almejo a tanto.

O engraçado é que, embora quando estivesse no fim da aula, estivesse a pensar que não aguentava fazer nem mais um exercício, mal de lá saí já vinha fresca e leve, sem qualquer cansaço ou dor.

Claro que não sei como vai ser o day after mas so far so good.

Para quem não saiba bem em que consiste o Pilates e quais os benefícios, aqui está a teoria (segundo o chatgpt)

O Pilates é um método de exercício que combina movimentos controlados, respiração e alinhamento postural para fortalecer o corpo sem gerar impacto excessivo nas articulações. 

Os principais princípios do Pilates incluem:

Controle – execução precisa dos movimentos;

Concentração – foco no corpo durante os exercícios;

Centralização – fortalecimento do "powerhouse" (core: abdômen, lombar, glúteos);

Fluidez – movimentos suaves e contínuos;

Precisão – qualidade do movimento em vez de quantidade;

Respiração – controle respiratório para facilitar a execução dos exercícios.

Benefícios do Pilates

✅ Melhora da postura – fortalece a musculatura estabilizadora;

✅ Aumento da flexibilidade – alonga e fortalece ao mesmo tempo;

✅ Fortalecimento do core – reduz dores lombares e melhora o equilíbrio;

✅ Prevenção de lesões – treina o corpo de maneira equilibrada;

✅ Redução do estresse – promove concentração e controle da respiração;

✅ Adaptação para qualquer idade – pode ser praticado por iniciantes, idosos e atletas. 

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E agora vou espreitar o Instagram. Só novidades....

[Não comuniquei a familiares e amigos que estou nisto do instagram. Estou a tentar perceber como se processa tudo aquilo, como é que alguém chega até mim e como é que chego até aos outros. Uma aventura.]

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E claro que senti o tremor de terra. Caraças, se senti.

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Dias felizes

quinta-feira, fevereiro 13, 2025

Cenas da vida de uma cabeça desmiolada

 

Como já contei, tenho andado muito ocupada. Só me sento em frente da televisão à hora de jantar ou depois disso ou, às vezes, enquanto almoçamos. 

Hoje, no ginásio, já foi mais a doer. Já ponho a passadeira com uma certa velocidade (hoje há a pus a 5,5 km/h), já a inclino (hoje fui a 8), e até já consigo manter-me a andar em cima sem me apoiar, só com equilíbrio. O pior é quando saio de lá, parece que venho do alto mar. Tenho que me agarrar. Almareada, almareada...

E, nas máquinas de braços e pernas, já ponho mais pesos, mais resistência. É bom, tenho-me sentido bem. Mas hoje não conseguia destravar uma máquina que é de abrir e fechar as pernas. É suposto estar sentada, encostada, e depois abrir as pernas em tesoura. Mas é preciso fazer força. Mas primeiro é preciso destravar aquilo e eu não estava a conseguir. Então desmontei-me e puxei a patilha para aquilo abrir. A minha ideia era montar-me nela, já com as pernas abertas. Está bem, está. Estava ao lado dela a ver como era aquilo, puxei por uma patilha, aquilo soltou-se e apanhei com um dos suportes a toda a velocidade na minha perna. Doeu-me a valer. A ver se não vou ficar dorida. Depois também não consegui subir para a cadeira com os dois suportes abertos. Umas figurinhas... O que vale é que o instrutor veio em meu socorro.

Depois, quando chegámos, fomos fazer a caminhada com o dog de guarda. Venho de lá com a pica toda, só me apetece caminhar a toda a velocidade.

Mas depois, à chegada, aconteceu uma coisa: à hora de almoço tomo um suplemento para manter as articulações em bom estado, sobretudo as dos joelhos (sulfato de glucosamina, receitado pelo médico, claro). A dose daquilo são 2 comprimidos por dia (2 x 750 mg), depois da refeição. Tomo-os ao almoço. Claro que é frequente esquecer-me. Então, para ver se não me escapam, passei a levar o frasco para a mesa. Mas como estamos geralmente a conversar ou a ver televisão, acontece que os tome mecanicamente sem dar por isso e depois, passado um bocado, já não sei se já os tomei ou não e, por via das dúvidas, não os tomo. 

Passei, então, a ter a disciplina de tirar os dois comprimidos da embalagem e, portanto, enquanto ali estiverem é porque ainda não os tomei. 

Muito bem. Assim funciona.

Claro que o meu marido se passa pois não percebe porque não sou mais disciplinada e porque não presto mais atenção. Isto é o género de coisa que com ele nunca aconteceria.

Só que hoje me distraí e deixei lá ficar o frasco. E estava ali a almoçar, na boa, conversando, e então peguei nos comprimidos fora da embalagem e tomei-os. Mas, no instante em que os engoli, reparei que o copo estava quase vazio e que o frasco estava mesmo ao lado do prato e tive a nítida sensação que já os tinha tomado. Ou seja,, em vez, dos 1500 mg máximo por tia, tinha tomado, o dobro, 4 compridos, 3000 mg. Mas já estava.

Ainda pensei ficar bem caladinha para não ouvir o meu marido. Mas depois receei que aquilo tivesse consequências e era melhor avisá-lo. E li a bula. Diz que em caso de se tomar mais do que a dose máxima, se deve contactar o médico ou o farmacêutico com urgência. Claro que o meu marido queria logo que eu ligasse para a Saúde 24. Só que eu não sabia (e não sei) se fiz disparate ou não.

Fui então ao ChatGPT, where else

Disse-me que o sulfato de glucosamina é razoavelmente seguro mas que devia hidratar-me bem e ficar atenta a dores de cabeça, náuseas, vómitos, sonolência excessiva. Se isso acontecesse deveria ir às Urgências. Portanto, por causa das coisas, bebei logo, de penalti, uns dois ou três copos de água. 

Felizmente não tive nada de mal mas tive que ir a correr algumas vezes para a casa de banho, aflita para fazer chichi. E, pelo meio, adormeci. Mas estou bem.

A partir de agora já não levo a embalagem para a mesa. Tiro os comprimidos e levo-os, só a eles, para a mesa. 

Isto para que se veja: entre paginar documentos, editar livros, alimentar a conta do instagram e perceber como por lá se navega e mais as ginásticas e o resto, não me sobram neurónios para atinar com os comprimidos...

E é isto.

Ia falar do Musk com o filho às cavalitas a fazer o Trump de parvo mas agora já não vem a propósito. Já não são horas para me pôr a falar de distopias.

terça-feira, fevereiro 11, 2025

Ano novo, vida nova

 

No primeiro dia do ano, no meio de festejos e celebrações, consegui arranjar tempo para conseguir cumprir o meu desejo: publicar um livro. Já estava muito encaminhado, quase, quase, mas consegui que o que faltava se concretizasse ainda no dia 1 de Janeiro. E, depois desse, já avançaram outros. 

Porque li por todo o lado e me disseram que, sem redes sociais, é para esquecer, cedi e rendi-me: aderi ao instagram. Não publico selfies nem tenho gatinhos para mostrar. Estou a dar os primeiros passos, a aprender, a tentar perceber qual o gozo ou a utilidade. Mas já estou a dar os meus primeiros passos e a ver como tirar partido sem ficar 24 horas por dia a ver a avalancha de posts que, em contínuo, corre pelo feed. Isto já para não falar nas stories e em tudo o resto.

E porque era uma necessidade que vínhamos sentido e também muito por pressão familiar, inscrevemo-nos num ginásio e já começámos a 'malhar'. Faço bicicleta, passadeira, máquinas para os braços, máquinas para as pernas. 

Claro que tendo os dias as mesmas horas, há que reajustar rotinas para encaixar novas solicitações. As caminhadas continuam sagradas, tratar da casa, cozinhar, falar com a família, ir às compras, tudo isso continua a fazer parte dos imprescindíveis, portanto, por vezes o tempo parece que não chega. Parece não: não chega. Não chega mesmo.

Claro que há que pacientar pois as alterações nas rotinas levam algum tempo até que a gente as encaixe sem perturbação.

Depois, pelo meio, há os extras que, parecendo que não, roubam tempo. Por exemplo, hoje fui à consulta anual de cardiologia. Antes tinha feito análises e exames. Felizmente está tudo bem. E o médico confirma que só faço bem em somar o exercício físico mais 'pesado' às caminhadas. Para a semana, adicionaremos pilates. Mais tempo adicionado às novas rotinas.

Mas, para uma consulta, que deve ter demorado menos de meia hora, perdi praticamente toda a tarde. Ir, estacionar, entrar, esperar pela vez (como sempre, o médico estava mais de uma hora atrasado), depois, assim como assim, não se ia desperdiçar o passeio sem ir comer um belo gelado. Depois ainda fui ao supermercado. Conclusão: horas.

Ainda não é hoje que vou divulgar os nomes dos livros nem o nome da autora nem o caminho para o meu instagram pois ainda estou a apalpar terreno, a perceber se as coisas têm pernas para andar. Logo que me sinta mais confiante, de tudo aqui darei a devida conta.

Acho que vos devo isso pois a vossa presença aí desse lado sempre foi um incentivo, uma companhia, uma mão que se estende. 

Até lá peço que não levem a mal não ter respondido a comentários ou a mails. Não tenho tempo... Leio tudo, disso podem estar certos. Quando aprender a organizar-me dentro destas novas solicitações, creio que voltarei a ter mais disponibilidade.

Abraços.

domingo, janeiro 26, 2025

Agora ainda mais esta:
"Por que você deve focar em ganhar músculos - e não em emagrecer - conforme fica mais velho"

 

Pensava que as caminhadas eram quase remédio santo mas, afinal, parece que não. O meu filho tem vindo a informar-se e diz que parece que há unanimidade: a massa muscular é crítica. Acreditamos que sim -- e aliás, a mim, quando foi aquilo dos joelhos, os médicos sempre referiram que os músculos é que sustêm o esqueleto e não o contrário, pelo que há que fortalecê-los.  O meu marido deu um jeito ao ombro e ficou com a clavícula esquisita e o osso que se junta com o esterno inflamado e, claro, cheio de dores. Depois de vários exames, as conclusões apontaram que, em paralelo com uma fisioterapia, o essencial era reforçar os músculos. Tem estado em casa a seguir o plano que lhe deram na clínica e, por incrível que possa parecer, as dores do ombro passaram. 

Portanto, vamos pôr-nos em campo a ver se no início do mês que vem começamos a sério (a sério dentro das nossas limitações e condicionantes, claro) e, entretanto, já estamos a fazer séries de exercícios em casa guiados por uns vídeos que a minha filha nos enviou. Todos os dias, tenho feito cerca de meia hora de exercícios. Isto para além de cerca de uma hora ou hora e meia de caminhada todos os dias. E na boa.

Não sei se todos os que estão aí desse lado estão ao corrente disto mas como, enquanto trabalhei, o meu foco estava em conseguir dar conta de todos os recados e o meu corpo ficava para secundaríssimo plano, admito que haja mais como eu. Portanto, partilho o vídeo abaixo:

Por que você deve focar em ganhar músculos - e não em emagrecer - conforme fica mais velho

A médica americana Gabrielle Lyon tem uma mensagem a seus pacientes: para envelhecer bem e ter qualidade de vida na velhice, é necessário construir e manter músculos.

"Talvez a gente não se importe tanto em usar biquíni, mas nos preocupamos muito mais em sermos autônomos, ter força para pegar nossos netos no colo. Carregar suas próprias compras, viver de forma independente, esse é o primeiro motivo para se preocupar em manter uma boa massa muscular", diz a geriatra, que é autora do livro A Revolução dos Músculos, lançado pela editora Intrínseca em março.

"Mas vai muito além disso. Manter massa muscular ajuda a prevenir doenças crônicas como obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares... Quadros que se tornam mais comuns conforme as pessoas envelhecem."

Neste vídeo, a repórter Giulia Granchi fala do superpoder da musculação. Confira.

quarta-feira, novembro 01, 2023

Nudez e cumplicidade nos balneários.
E receita rápida e boa para um jantar de halloween

 


Os balneários da piscina são todo um mundo. Em locais assim, mesmo sem querer, fico 'antenada'. As conversas são uma delícia. Muitas vezes acho que são altamente disparatadas, outras que são cúmplices e interessantes.

Há agora muito mais pessoas que antes. Hoje, quando cheguei já o meu cantinho estava ocupado, tive que ir para uma zona para onde nunca tinha ido, para junto de pessoas com quem nunca antes tinha falado.

A zona dos duches já não alberga todas ao mesmo tempo.

Continuo a não ser capaz de me pôr nua no meio das outras. Passo-me por água com o fato de banho vestido. Mas ao meu lado, a escassos centímetros e a toda a volta, as minhas companheiras ensaboam-se alegremente, lavam a cabeça, põem amaciador, viram-se e reviram-se. Algumas levam aquelas coisas que não sei como se chamam (não é esponja, mais parece uma espécie de rede plástica). Há uma senhora, diria que talvez mais velha que eu, que é relativamente baixa e muito gordinha, aliás bastante, bastante gordinha. Para lavar o rabo e os genitais faz uma ginástica extraordinária, baixa-se, curva-se toda, para conseguir chegar com aquela redinha cheia de espumada às partes baixas... E, enquanto está nestas acrobacias continua a conversar como se nada fosse. Fico espantada com o à vontade delas.

Hoje, já no balneário, uma mulher simpática, neste caso bem mais nova que eu, conversava comigo sobre o peso que já perdeu desde que faz hidroginástica e natação livre. Contava-me que todos os dias, à hora de almoço, vai para ali, dois dias de hidro e três de natação. Que gostava de fazer caminhada mas estava com excesso de peso, doíam-lhe os joelhos, deixou de caminhar, cada vez mais sedentária. Então resolver mudar de maneira de viver. Mudou a alimentação, começou com a piscina, ao fim de semana caminhada. E dez quilos já lá iam... E, enquanto conversava comigo, toda nua, aplicava hidratante em todo o corpo, na maior das calmas. E eu, com uma toalha gigante cobrindo a minha nudez e vestindo-me, por dentro da cortina do toalhão. Não sei porquê isto. Que pudor meu é este que não me deixa despir-me, lavar-me, hidratar o meu corpo em público?

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Hoje o meu dia foi mais tranquilo. Mas ando num estado em que parece que estou sempre em estado de alerta total, sempre à espera que as coisas descarrilem e que me veja, uma vez mais, em stresses. Por isso parece que não chego a desfrutar bem os instantes de tranquilidade. Até o meu sono anda inquieto, sempre com sonhos em que há situações de preocupação ou susto, acordando meio sobressaltada. Por isso, quando acordo, agora, volta e meia, estou com dor de cabeça.

Mas, enfim, hoje não foi mau de todo pelo que tenho é que aprender a conseguir desligar nos momentos tranquilos, nem que seja para recarregar baterias para quando tiver momentos intranquilos.

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Antes de terminar, conto o que cozinhei agora para o jantar, num instantinho e que ficou bom.

Tinha trazido lombos de atum congelados.

Descongelei. Numa tigela, coloquei cebola-doce cortadas às rodelas, os lombos de atum, mais rodelas de cebola, salta picada, um pouco de sal, um pouco de azeite e o sumo de duas limas. Ao fim de um bocado, se calhar aquilo estava ceviche e comer-se-ia bem assim. Mas não arrisquei.

Depois coloquei num tacho azeite e a cebola que estava a cobrir o atum e, em lume muito brando e com o tachinho tapado, deixei a cebola amolecer. 

Entretanto, noutro tacho cozi batata com casca cortada em rodelas largas. Quando estavam cozidas, escorri, temperei com azeite e orégãos.

No tacho em que estava a cebola, coloquei os lombos de atum marinado, depois piquei um tomate grande, maduro e esguichei um pouquinho de ketchup. Em lume brando, tapado. Ao fim de uns minutos, não sei se chegou aos cinco, desliguei. Deixei ficar tapado, envolvendo tudo bem, umas coisas nas outras.

Digo-vos que estava mesmo bom. O atum mal passado, macio, a saber a lima e ao tempero bom, o tomate picado ainda com leve sabor a fresco, as batatinhas com todos os sabores absorvidos.

E foi num instante...


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Ainda há bocado estiveram a tocar-nos à campainha. Devem ser os miúdos aqui do burgo. Ao fim da tarde, noite cerrada, vimos dois grupos de fantasminhas, serezinhos diabólicos, ruidosos mascarados. 

Para descelebrar o dia, plantei aqui graffitis que talvez tenham alguma coisa a ver com o dia das bruxas, Creio que são da autoria de Plast (Buenos Aires). 

Acompanha-nos Philip Glass com Musicbox.

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

Saúde. Serenidade. Paz.

sexta-feira, setembro 15, 2023

Passarinhos (uns esvoaçantes e outros cagões), uma arvorezinha despistada, e eu sem saber como, dentro de água, me manter direita como um fuso enquanto bato pernas e braços

 



Uma amiga disse que tinha uma árvore e mostrou-a de bonita que era. Pelo nome, antevi que cheirasse muito bem. Ofereceu-se para me arranjar uma. Agradeci.

Quando a recebi, linda, não percebi a razão do nome que tinha. Pelo que dizia no vaso, o ilustre nome em latim, percebi que ela estava equivocada. Não era o que ela dizia, era outra, porventura não tão carismática mas mais mimosa, mais bonita.

Está plantada no meu jardim e já deu florzinhas desde que ali está. Tomara que vingue e se faça linda. Para sempre ficará como a ilustração de como é essa minha amiga, generosa, alegre... e um tudo-nada um bocadinho despistada.

Há bocado, ao fim da tarde, fui ver se um mini-sistema de rega estava ligado. Ao aproximar-me, levantaram-se do chão dezenas de passarinhos. Ao vê-los a elevarem-se e, depois, a voarem, pareceu um bando. Fiquei contente por estarem ali no meu jardim. Fico feliz quando vejo que os animais, sejam quais forem, gostam de estar no espaço que habito, admito que seja porque reconhecem que aqui há um respeito absoluto pela natureza.

No entanto, há um mas. Todos os dias de manhã, no terraço, debaixo do alpendre, sempre no mesmo sítio, aparece um grande cocó de pássaro.  Não percebemos onde está o pássaro quando ali vai fazer as suas necessidades. O ninho fica longe, não há onde se apoie e, digo eu, não é provável que faça cocó suspenso no ar, sempre no mesmo sítio. O meu marido fica furioso.

E, por falar em estar suspenso, creio que já referi que optei por outra modalidade de ginástica na piscina, agora em suspenso, sem pé. É mais puxado, cansa um bocado. Mas tal como tive grandes dificuldades quando comecei na outra, dificuldades ao nível da coordenação, agora estou a enfrentar outra complexidade. Ao passo que os meus colegas estão direitinhos como um fuso, na vertical, fazendo todos os exercícios sem sair do mesmo lugar, comigo é uma festa. Passeio pela piscina. Por exemplo, se o exercício for fazer movimentos de abrir e fechar as pernas, isto na vertical e sem pé, relembro, e ao mesmo tempo, com os braços abertos, fazer movimentos circulares de levantar a água, para fortalecer os músculos dos braços, faço tudo mas os movimentos que faço levam-se a deslocar-me. Por vezes vou parar à ponta da piscina. Enquanto os outros estão a fazer um exercício, estou eu a nadar para me reposicionar. Outras vezes tenho que parar para não atropelar os outros que ali estão, verticais e aprumados. Já perguntei a vários deles, incluindo ao professor, qual o truque para não andar de um lado para o outro. Não sabem dizer. Descansam-me, dizem que com o tempo vou conseguir, que é intuitivo. Ora isto é desconhecer que isto é física pura, estamos perante uma questão vectorial, de forças e impulsos. Presumo que tenha que me inclinar um pouco para trás ou para a frente ou fazer qualquer outra coisa. Mas ainda não percebi o quê.

Tirando isso, posso ainda contar que ao jogar ao disco com a minha neta, com receio de atirar para longe, atirava curto demais. 

Ela ficava sempre admirada: 'Mas o que foi isso...? Daqui a nada vou dar-te uma aula de musculação...'. E eu disse que sim, estava curiosa. Mas, afinal, esquecemo-nos. Não faz mal, fica para a próxima.

Resumindo: foi um dia bom.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Alegria e simplicidade. Paz.

sábado, abril 08, 2023

Um urso cabeludo, um coelho aos saltos, um cão imponente, muita natureza, paz e beleza
-- In heaven --

 

Estava a passear ao fim da tarde, passarinhos cantando de dar gosto, olhando e fotografando flores e florzinhas, só eu e o meu urso cabeludo, quando o vejo dar um salto e largar em louca correria. No mesmo instante, vejo um coelho aos saltos, correndo e saltando. Por pouco não fiz o mesmo. 

Em vez disso desatei aos gritos, gritando pelo nome do urso perseguidor. Poderão achar que é exagero meu mas juro que estava arrepiada. Nos momentos em que um crime pode estar em perspectiva todo o meu corpo fica em transe. Finalmente vi o urso deter-se num zona de moita mais compacta e desatar aos saltos, com latidos curtos e bem sonoros. E eu  gritar por ele. Temi até ao último instante que me aparecesse com o inocente coelhinho nos dentes.

Mas o coelho, veloz, deve ter-se enfiado nalguma lura. 

Pois eis que o urso veio a correr, aos saltos, a dar ao rabo, pondo-se de pé, todo ele sorrisos e felicidade. Pela reacção percebi que achou que fez o que achou que tinha que ser feito: rechaçou o inimigo.

O meu marido chegou entretanto e ele fez a mesma festa. Nitidamente estava a dar conta, também ao dono, de que tinha feito uma boa acção.

Depois foi pegar-se com os enormes lobos da quinta lá de baixo. Os três bisontes ferozes encostados à vedação do lado de lá e o urso do lado de cá, uma peleja que só visto. Dos três do lado de lá, há um que é imponente. Quando me aproximo, cala-se e fica a olhar para mim. É um animal fascinante.

Como continuei a minha caminhada não vi o vizinho, apenas ouvi vozes. O meu marido contou-me que o vizinho estava a chegar e, ouvindo tamanho ruidoso concerto, foi ver o que se passava e aproveitou para desejar boa páscoa. Simpático.

Entretanto, andei a apanhar nêsperas e, pelo sim, pelo não, a comê-las. E fiz também os meus telefonemas. E etc.

Já quase noitinha, o meu marido sugeriu que era melhor virmos para dentro e eu concordei porque a friagem começava a descer. Ele foi chamar o cão de guarda que andava desaparecido. Aqui é que o dog anda nas suas sete quintas. 

A fotografia está assim pois foi feita muito de longe, um zoom bem longínquo

Chamou, chamou. Por fim já chamava à bruta, na base da ordem de ou vens ou vais pagá-las. Fui também chamar. E também assobiei (que I know how to whistle). 

Nada de fera.

Passado um bocado apareceu, lampeiro, com as barbas meio molhadas e todo ele se lambendo. Feliz da vida.

Passado um bocado, já aqui na sala, veio pôr ao pé de mim uma corda de brincar. Peguei e ele agarrou com os dentes para eu puxar e ele fazer o mesmo em sentido contrário. E então senti-lhe um cheiro que não identifiquei, um cheiro orgânico, a coisa viva, uma coisa muito disturbing. O meu marido disse: por isso não veio quando chamei por ele. Nem quero pensar no que pode ter sido.

Para além de coelhos há de certeza vários esquilos. 

Debaixo dos pinheiros do costume há um mar de pinhas roídas. Quantos esquilos serão necessários para darem conta de tamanho ror de pinhas...?

Mas lá em baixo, ao fundo, também já vi vestígios deles. 

E sabe-se lá o que mais há de bicharada. Já para não falar nos pássaros. Um chilreio que derrete qualquer coração. Aliás, tudo aqui derrete, afaga e conforta o meu coração.

Tirando isso, fui ao supermercado e fiquei outra vez estarrecida com o que gastei. No fim, olhei para o talão tentando perceber como foi tal possível. As coisas a um preço estúpido. No fim, como que para gozar com a minha cara, aparecia escrito que tinha poupado 19€. Se tivesse apanhado a patroa do supermercado à minha frente capaz de fazer uma bolinha com o talão e, pedindo-lhe licença, fazer-lhe pontaria à cara de pau com que se apresenta a dizer que, nisto tudo, a distribuição está a fazer grandes sacrifícios. 

Mas, pronto, já fiz as compras todas para o fim de semana. Dessa já estou despachada.

Só ainda não contei que depois da visita familiar, da ida ao supermercado e do almoço, viemos os dois até ao sofá, carregámos no botão para o transformarmos em quase cama e, não sei como, quando demos por nós, eram seis e meia da tarde. Não sei quando é que este peso de sono nos vai sair de cima. Imagina se isto nos dava quando ainda estávamos no activo. Havia de ser bonito. Ou então isto não tem a ver com a covid mas com cansaço acumulado durante décadas. Não sabemos. 

Mas há-de passar.

O que sabemos é que há por aqui muito que fazer, muito mato para cortar, muita árvore para podar. Temos que vir com mais tempo. 

E só de pensar nisto me encho de felicidade.

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E, já agora, dois vídeos cheios de muita beleza e que também me trazem felicidade


Julie Gautier. Musica de Carlos Hof do album ADORE.

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Corda flexível de aço @CirqueduSoleil
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Um dia bom
Saúde. Serenidade. Paz.

quinta-feira, abril 06, 2023

Aconteceu aquilo que, até aqui, só tinha acontecido nos meus piores pesadelos

 

Já o confessei: parece que ando meio aluada. Muita mudança em simultâneo, alguma perturbação na rotina, algumas preocupações, alguma falta de energia. Tudo junto dá este cocktail em que parece que não ando completamente com os pés na terra. E é que, em simultâneo com isto, tenho sempre muita coisa para tratar -- as que andaram a acumular-se durante tanto tempo à espera destes dias mais as que, de repente, me caíram em cima.

Levanto-me (e, por incrível que possa parecer, sempre cheia de sono e a sentir-me a modos que meio desorientada), tentando organizar-me face ao programa de festas do dia e do que lá terei que encaixar.

Claro que, depois das abluções matinais e antes do pequeno almoço, costumo vestir-me normalmente.

E, nos dias em que tenho a hidroginástica, logicamente antes de ir, visto o fato de banho e preparo o saco, guardando a roupa interior, a toalha, a touca, os chinelos, a bolsa onde guardo o telemóvel e as chaves. 

Pois bem. 

Neste último dia, vendo que estava bom tempo resolvi vestir logo o fato de banho e ir assim tomar o pequeno almoço lá fora, ao sol. E não é pelo bronze, é mais pela vitamina D. 

E até aqui, tudo tranquilo.

Antes de ir para a piscina, arrumei o saco, verifiquei se tinha o cartão de acesso. Menina organizada.

Lá chegada, despi a roupa de fora, calças brancas e túnica fininha, guardei tudo no cacifo, coloquei a touca, calcei as chinelitas e ala moça, piscina com ela. Tudo jóia.

A aula voltou a ser puxada. Ora trabalham os abdominais, ora os ombros, ora se fortalecem os braços, ora as pernas ou, o pior de tudo, a coordenação e a concentração. A última que me deixa de cabeça à nora é saltar a abrir e fechar as pernas em tesoura, para o lado e juntar, abre para o lado, fecha e junta, e, ao mesmo tempo, os braços, não a acompanharem esse movimento mas, para a frente e para trás, desencontrados. Uma coisa terrível. E se estão para aí a rir, experimentem. Vão ver como é difícil... Mal dou por mim, estou com os braços a fazer o mesmo que com as pernas. E quando finalmente consigo atinar, lá vem o 'E troca!', ou seja, os braços a abrir e fechar ao lado do corpo e as pernas uma para a frente e outra para trás, e salta e salta e salta. E troca. Caraças.

Bem. 

No fim, para fazer o gostinho ao meu lado nadador, fui dar umas braçadas. Já aguento um pouco mais.

Portanto, quando saí da piscina já os meus companheiros e companheiras estavam nos respectivos balneários.

Quando lá cheguei para o meu duche só de água com o fato de banho vestido, já as minhas parceiras estavam quase no fim do seu duche, naked way, com gel e shampoo ou, outras, a vestirem-se. Cada um é como cada qual e eu sou pudica. Fazer o quê?

Dirigi-me, então, para a zona dos cacifos para me vestir.

Tirei o saco, a roupa, coloquei tudo no banco. Retirei a touca, abanei a cabeça para soltar bem o cabelo, e, com a toalha pelas costas, discreta e pudica, retirei o fato de banho. Só que, quando fui à procura do saco de plástico que costumo levar para pôr o fato de banho encharcado, a touca e os chinelos, onde estava ele...? Vi que me tinha esquecido. Portanto, tudo encharcado para dentro do saco.

Mas o pior... muito pior... estava para vir. 

Quando fui à procura das cuecas e do soutien... que é deles...? Espreitei. Nada.

Por um instante, nua debaixo da toalha, fiquei paralisada. Percebi que me tinha esquecido.

O que fazer? 

Para vestir, só as calças brancas, por sinal com o fecho meio estragado. Fecho-o mas, ao mínimo movimento, abre-se. Com uma blusa mais comprida ou uma túnica, não há problema, não se vê.

Mas sem cuecas...? Ui...

E por vezes não visto soutien mas, nesse caso, visto um top para evitar o efeito das transparências das blusas. Mas que é também do top...?

Sem soutien e só uma túnica fininha...?

Palavra...

Ainda hesitei, seria de voltar a vestir o fato de banho encharcado...? 

Não. Não ia passar pelo incompreensível vexame de voltar a vestir um fato de banho ensopado. E não me ia vestir por cima de um fato de banho carregado de água.

Então, foi o que teve que ser. 

Ali, ao pé das minhas parceiras desinibidas, eu, a pudica da turma, vesti as calças sem cuecas por baixo, e a túnica também sem soutien por baixo. 

Calcei os ténis, desejei boa páscoa e zarpei a todo o gás dali para fora. Na volta ficaram a comentar que, no fim de contas, o que sou é um espírito livre, nem cuecas uso...

Quando cheguei ao pé do meu marido vinha a rir à gargalhada. Quando lhe contei, ele nem queria acreditar. 'Ao fim de duas semanas de piscina já de lá vens sem cuecas...'

Expliquei-me: foi aquilo de ter vestido logo o fato de banho. Nos outros dias, quando visto o fato de banho, dispo as cuecas e o top e guardo-os. Assim... varreu-se-me... Ele, gozão: 'Sim, sim. Desculpa-te.'

Ainda por cima as calças com o fecho aberto. 

Espectácuuulo....!

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Levitating - Dua Lipa (1920s Style Cover) ft. Sweet Megg


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Um dia bom
Saúde. Espírito livre. Paz.

sábado, março 25, 2023

Não é para todos

 

Começo a duvidar se não serei descoordenada motora. Nunca antes tinha suspeitado, juro. Mas, na hidroginástica, vejo-me aflita para atinar com alguns exercícios. Tudo o que seja do género: levanta a perna esquerda para o lado esquerdo e acompanha com o braço direito que vai para a esquerda, depois leva a mesma perna esquerda para a frente e passa o braço esquerdo para trás das costas, depois a perna esquerda chuta alto para o lado direito e o braço esquerdo vai para a frente e para a direita. E troca. E aí já começo a baralhar-me. Qual braço e qual perna vai agora para onde? Ou então: segura com o braço esquerdo o braço direito, levanta o cotovelo direito por cima da cabeça e empurra com o braço esquerdo. E troca. E aí já eu não sei onde pára o braço esquerdo ou o direito e até chega a parecer-me que a mão direita se mudou para o braço esquerdo. 

E como é música bem puxada para aquilo ser de tipo aeróbico, mal começo a concentrar-me para ver se atino (chego a fechar os olhos para ver se consigo raciocinar) já o professor ordena: e troca! 

Outra que é do caraças é fazer exercícios com uns tijolos de espuma compacta. Fora de água é coisa de crianças, não pesam nada. Dentro de água viram um pesadelo. Com cada um em sua mão, abre os braços (debaixo de água) e leva-os até às pernas. E abre, e fecha, e abre, e fecha. Rápido, rápido. E segura neles à frente e levanta as pernas e junta-os por baixo das pernas. E passa a mão esquerda com o tijolo por baixo da perna direita e troca. E troca. E troca.

Muito difícil.

No outro dia uma camarada, com um tubo de espuma por trás das costas e as mãos sobre as extremidades, num exercício de levantar as pernas, deu mais balanço do que devia e ficou numa aflição, rebolando-se de barriga para o ar. Teve que ser ajudada. Aguentei-me sem me rir pois pensei que poderia ser comigo. E que não fosse. Há que respeitar as dificuldades alheias. Se alguém me filmasse naquela dislexia motora também haveria de ser bonito.

Uma coisa é certa: sempre pensei que, com o par certo, haveria de ser capaz de dançar um tango à maneira. Mas, ao fim de um par de aulas de hidroginástica, já perdi as peneiras. Não seria capaz de me sincronizar. Nem pensar. Não seria só o caso de o pisar. Haveria de, sem dar por isso, lhe passar rasteiras... e até cabeçadas lhe haveria de dar.

Já Aoniken Quiroga, o improvável tangueiro, é um mimo. A música funde-se com as células do seu corpo e ele desliza, rodopia e encanta com um destreza extraordinária. Muito bom. Talvez se ele me levasse ao colo eu conseguisse ter a ilusão de conseguir dançar um belo tango. Mas só assim.

Alejandra Mantinan y Aoniken Quiroga - Berlin - 2022 - Exhibicion - Tango Show
Bailan: Y te parece todavia - Hector Varela


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Ia dizer sobre o vídeo abaixo: assim seria eu. Mas não digo, porque tomara eu...

Mariela Sametband y Guillermo Barrionuevo - La Milonga de Buenos Aires


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Um bom sábado
Saúde. Boa disposição. Paz.

sexta-feira, março 17, 2023

A caminho de me pôr fit -- dia 1.
Isto em dia de grande alegria sportinguista cá por casa.
Com surrealismo gostoso à mistura

 



O dia foi bom. O pior foi que, andando eu distraída da meteorologia, a meio da tarde fui surpreendida com o dia a escurecer e a chuva a cair. Pensava que ia estar um dia de sol e, afinal, descambou daquela maneira. 

Ia começar a rever a minha obra literária mas tive que me deixar disso e ir apanhar a roupa que tinha estendido pouco antes. 

Entretanto, as coisinhas de que falei no outro dia já estão penduradas, bonitinhas e a piscarem-me o olho para me deixarem feliz da vida. Olho para a parede e fico toda contente.

E, como tinha pensado, fui inscrever-me nas minhas actividades hídricas. E, quando a menina da secretaria ia começar a explicar-me a dinâmica do local e o que eu devia trazer, disse-lhe que já vinha equipada e pronta para entrar em acção. 

E assim foi. 

No balneário estava atrapalhada com o cadeado (levei um de código) quando uma parceira foi em meu socorro. Pouco depois já uma segunda se nos tinha juntado e, simpaticamente, começado a explicar-me o funcionamento da coisa, não só dos cacifos mas de tudo.

Depois foi a aula. Gostei imenso do professor. Jovem, alegre. Música a bombar. 

Claro que tive alguma dificuldade em sincronizar-me. E salta, e levanta o joelho direito e toca com a mão esquerda no calcanhar direito. E troca. Levanta o joelho esquerdo e toca com a mão direita no calcanhar esquerdo. E troca. E etc. Sempre em acção. 

Estar a olhar para ela e conseguir aguentar o ritmo, movimentando braços, pernas, ancas e ombros, foi um desafio. Mas lá me esforcei para me manter alinhada. 

Foi bom. Sempre a bombar. Contudo, devo confessar que, para o fim, já me sentia um pouco cansada. Com a prática e com mais uns dias de pós-covid em cima espero ficar mais em forma.

No fim, fiz sinal ao professor para saber se podia dar umas braçadas. Como gosto muito de nadar, uma piscinona ali ao dispor era para mim um convite irrecusável. 

Disse-me que sim. Fui. Mas aí percebi que não estou mesmo em forma. Os vinte e cinco metros para lá ainda foram bem. Agora os vinte e cinco metros para cá já foram em esforço. Nessa altura é que me lembrei: gaita do corona. Ainda me canso mais do que é normal, essa é que essa. Por isso, fiquei-me por aí.

A este nível tenho contudo uma outra dificuldade que, esta, não sei se é transponível: não consigo pôr-me nua a ensaboar-me por dentro e por fora, tudo na maior fraternidade, todas conversando e rindo na maior naturalidade, tudo ao léu na maior descontra. Não consigo. Não sei se diga que ainda não consigo ou se diga que não consigo nem conseguirei. Não sei.

Enquanto eu estava lá, o meu marido andou a fazer uma caminhada com o urso-fofo. Eu bem tento mostrar-lhe os benefícios da coisa. Não consigo. Irredutível. Aquilo não é número para ele.

Ao fim da tarde fomos fazer o nosso passeio de fim de dia e já estamos a começar a retomar as distâncias anteriores.

E a nível de actividade física foi isto. 

Também aproveito para andar enquanto estou ao telefone. Sempre assim foi, mesmo quando estava circunscrita ao gabinete.

E hoje, para além das chamadas diárias normais, tive uma bem longa, e agradável, com um ex colega. 

Ou seja, ao ver agora o comentário do Ccastanho, fui ver qual o meu score, convencida de que andava bem modesto. E até fiquei admirada... Depois de dias de sono e borreganço, hibernação covídica pura e dura, eis que voltei a ver os meus usuais 15.000 passos.

Fiz uma captura do ecrão do telemóvel para eu própria não duvidar.


A ver se esta sexta-feira vamos avaliar o tema do ginásio para ver o que nos recomendam e se nos agrada. 

O meu marido avisa-me: não te estiques. Mas, depois da chatice do joelho e da covid, só me apetece é partir para a acção. Fartinha de dormir e de pouco fazer, fartinha, fartinha.

E estou focada na escrita. E, também, a fermentar a vontade de me atirar às tintas. Só que tal como ao escrever não consigo pensar em escrever 'para nada' e só penso em como conseguir publicar, também ao pintar penso logo em como fazer para vender o que pinto. Ora, como são meios que em absoluto desconheço, sinto-me um bocado às escuras. No entanto, esta sensação é, para mim, parte do processo de encantamento em que gosto de estar (não saber no que me vou meter, estar na mais absoluta ignorância... e desejosa de partir à descoberta, ignorando dificuldades, sem medo de bater com a cabeça na parede, toda eu atirada para a frente, ansiosa por arriscar)

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Falta-me dizer que reina a alegria aqui por casa e que, a certa altura, até me assustei tal a intensidade do grito. Quando tentei perceber, só ouvi: que golaço!

Muita alegria. De casa da minha filha veio logo um vídeo. Outro sportinguista aos saltos e transbordante de alegria. Aliás, o avô estava a dizer que ele deveria estar radiante. Um outro, mais novo e com treinos e jogos às oito da manhã e ao fim do dia, já tinha adormecido.

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Como ando a pensar em pintura, aqui o algoritmo do YouTube -- que me adivinha os pensamentos --, apareceu-me, todo lampeiro, a oferecer-me o vídeo que qui agora partilho (e, desta vez, com legendagem em português)

O mundo surreal de Rene Magritte 

(autor das pinturas que ilustram este texto)
 

Art History School

Aprenda sobre o mundo bizarro de Rene Magritte, nesta biografia de Rene Magritte. Ele foi um artista surrealista belga e um dos mais famosos pintores surrealistas. As suas pinturas eram caracterizadas por símbolos particulares – o torso feminino, o “homenzinho” burguês, o chapéu-coco, a maçã, o castelo, a rocha, a janela e outros objetos comuns, frequentemente colocados em situações inusitadas ou inesperadas. Como outros pintores do surrealismo, a sua obra é misteriosa e deliberadamente difícil de decifrar. Casou-se com Georgette Berger em 1922 e fez amizade com Andre Breton, Paul Eluard, Hans Harp, Joan Miro e Salvador Dali do grupo surrealista parisiense.

As obras mais importantes de Rene Magritte incluem The Menaced Assassin, The Red Model e The Enchanted Domain, um mural que ele criou para o Knokke Casino na Bélgica. O trabalho de Magritte teve um grande impacto desde sua morte. Pop art, conceitualismo e a pintura dos anos 1980 podem apontar para a sua influência e o seu trabalho ainda inspira arte comercial e designers gráficos em todo o mundo. O Museu Magritte, inaugurado em Bruxelas em 2009, possui mais de 200 pinturas, desenhos e esculturas de Magritte, que merecem uma visita.

[Traduzido pelo Translate do Youtube]


Um dia bom
Saúde. Ânimo. Paz.

quinta-feira, março 16, 2023

Uma pena...

 

Meia decisão já está. Vou começar a fazer hidroginástica pelo menos duas vezes por semana. Para os meus joelhos que tão sacrificados têm sido, não apenas por andar com tanta criança ao colo como por carregar tanta pedra, é aconselhável fazer exercícios que não lhes ponham carga em cima.

Ao escrever isto, lembrei-me do que andei com os meus filhos ao colo quando eram bebés. Não conduzia na altura e ia levá-los à minha sogra. No caso da minha filha, até ao irmão nascer. Pelo meio fiquei grávida e carreguei-a a ela, aí apenas ao colo quando dizia que estava cansada, e mais  a minha enorme barriga. Depois ela foi para o infantário, e ia levá-la e depois seguia com ele para a minha sogra. Qualquer deles era bem pesado. Tinha que apanhar dois ou três transportes até lá chegar e a mesma coisa no regresso. 

O meu marido tinha um trabalho que o obrigava a uma disponibilidade profissional grande, nomeadamente a deslocar-se. Passava frequentemente dias fora. Eu, como amamentava, tinha duas horas a menos de trabalho por dia, ou seja, só tinha que fazer seis horas. 

E aquilo não me custava muito. Cansava-me, é certo, e às vezes quase me parecia que não conseguia dar passo (pois levava-os a eles, levava mudas de roupa, levava a minha bolsa e, às vezes, uma pasta com documentos que levava para trabalhar em casa), mas depois facilmente recuperava. Com vinte e poucos anos faz-se tudo com uma perna às costas.

E depois foi aquilo lá in heaven. Pedras por todo o lado. Algumas só com uma máquina se moviam. Mas tudo o que fosse pedregulho, e lindos que eram (e são), eram movidos à mão por mim (e pelo meu marido, contrariado) para fazer bordaduras de caminhos ou canteiros. A minha mãe ficava doente só de me ver, dizia que eu iria pagar isso, nos joelhos, nas costas, quando fosse mais velha. Agora está sempre a recordar-mo. Mas agora já não posso voltar com o tempo para trás. Portanto, adiante.

Outra vez, ouvi dizer que, para o chão de madeira ficar bonito, nada como vaselina líquida. Resolvi então aplicá-lo. E estava nisto ouvi tocar à campainha, um toque insistente. Levantei-me e ia à pressa abrir a porta, esquecida que o chão estava cheio de óleo. Voei. Literalmente voei. E foi de tal maneira que, não sei como, aterrei de joelhos. Sabem aquela palavra que até arrepia, excruciante...? Pois, exactamente. Tive uma dor excruciante. Durante um bocado fiquei no chão, incapaz de me mexer. Doeram-me os joelhos durante não sei quanto tempo. Ainda agora, ao recordar esse episódio, me lembro da dor que senti.

Não me ocorreu ir ao médico. Com duas crianças pequenas, um trabalho que não me dava tréguas e o meu marido numa multinacional que o absorvia sobremaneira, a minha preocupação era não falhar com as minhas obrigações. Tudo o resto era desvalorizado.

Agora já não interessa. O que interessa é conseguir viver o melhor possível com a condicionante que tenho. Na maior parte do tempo, aliás, nem me lembro que a tenho. Mas se faço algum esforço, aí já sei que pode sair uma inflamação do caneco.

Portanto, hidroginástica com ela.

Mas não chega. 

Sobretudo, como o meu marido se recusa a fazer hidroginástica (não o diz mas sei bem que ele acha que hidroginástica é coisa para velhas), queremos fazer qualquer coisa a dois. A dois, não. Ao mesmo tempo. 

Portanto, já pensámos onde havemos de ir e amanhã ou depois vamos lá falar com um PT para nos traçar um plano de exercícios, sobretudo de flexibilidade e musculação. E estou a escrever musculação e não sei se é a designação correcta. Mas, pela parte que me toca, se puder perder gorduras localizadas, melhor. O meu marido diz que, neste capítulo, talvez uma dieta fosse mais eficaz. Se calhar também vou pensar nisso a ver se perco estes quilos menopáusicos que aqui se alojaram e não saem nem por mais uma.

Mas isto para vos dizer que, se numa próxima cerimónia dos Oscares, quando se chegar ao de melhor argumento, virem subir ao palco uma turbinada portuguesa apenas como uma pena sobre os seios já sabem quem é. E mais não digo.

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Mas, calma, esta aqui acima não é quem possam estar para aí a pensar. Ná. 

Pela parte que me toca, o que posso dizer é que ainda tenho muito trabalhinho pela frente até chegar ao ponto em que Hunter Schafer se apresentou nos Oscares.

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segunda-feira, agosto 02, 2021

Ela era a melhor e, no entanto, por ter vergonha do seu corpo, desistiu.
Katelyn Ohashi - não há muito um 10 absoluto

 


Quando começaram os Jogos Olímpicos fui ver se Katelyn Ohashi lá estava. Não estava. Fiquei muito admirada. O que lhe teria acontecido?

Quando aconteceu isto de Simone Biles ter desistido, afirmando-se atormentada e sem vontade anímica para se atirar para o ar pois receava que o corpo agisse descomandado face à mente, voltei a tentar saber de Katelyn. 

Sendo jovem e superlativamente brilhante, alguma coisa deveria ter acontecido. Lesão? Paixão ou ocupação incompatível com a carreira desportiva? Algum drama pessoal?

Várias vezes aqui presente no Um Jeito Manso, não conseguia perceber porque é que a menina voadora, divertida e de borracha tinha ficado de fora.

Fui ver algumas das suas brilhantes actuações para me certificar de que hoje a minha opinião ainda seria equivalente à de quando a tinha visto há uns dois anos. 

E é.

Enquanto Simone Biles é uma máquina programada para a perfeição, um corpo pequeno e poderoso que executa os mais arriscados movimentos com mestria e coragem, parece até que com um certo sentimento de dever, Katelyn é de outra cepa, mais intuitiva e brincalhona. Tudo nela é alegria e desafio, arrojo e prazer.

Mas eis que fico a saber que também ela foi vencida pela insegurança, pela falta de autoestima. Gozavam com ela: era a sua baixa estatura, era o seu corpo com curvas generosas, era bicho não destinado a altos voos, pássaro anafado, insucesso anunciado. 

Poder-se-ia pensar que uma pessoa com o talento dela faria ouvidos de mercador a quem não via o seu valor, prendendo-se, antes, a preconceitos. Mas não. Katelyn, afinal, foi mais outro ser que revelou ser humano. Katelyn é de borracha, não de ferro. 

Habituamo-nos a ver estas jovens que avançam destemidamente para os aparelhos, que se elevam dando saltos pelos ares como se confiantes no poder impulsionador das suas asas, e não nos ocorre a pressão a que estão sujeitas e que pode desprogramá-las. Nem nos ocorre a inconsciência do risco que correm, pondo em causa a sua integridade física para se superarem aos olhos de quem delas exige tudo. Sobretudo, não nos ocorre que, se alguma coisa falha, por milimétrica que seja a falha, a queda pode ser fatal. Ou, se não fatal, pelo menos muito dolorosa, porventura incapacitante.

A pressão a que estas ginastas são sujeitas é permanente, brutal e, de facto, não estou certa de que o espírito olímpico seja isto. 

O que aconteceu a Kerri Strug em 1996 é exemplo da superação que se espera (que se exige) aos desportistas de eleição: aguentou a dor até conseguir o salto perfeito que lhe valeu a medalha de ouro. 

Mas faz isso sentido? Faz sentido que se exija a dor, física e mental?

Não estou certa disso.

Até não há muito, quem mostrava as suas falhas anímicas era alvo de troça. Miolo mole. Cabeça fraca. Maricas. Fracote. Por isso, quem sofria -- dor física ou dor de alma -- sofria para dentro, nada revelando. Deuses em forma de máquina, corpos amestrados para serem mais do que corpos humanos, corpos habituados ao esforço supremo e à dor. A elegância e a leveza que revelam é, sobretudo, uma construção. Uma longa e dolorosa construção.

As ginastas, e agora apenas falo delas, sorriem, avançam determinadas, saltam, praticam, correm e, ao mesmo tempo, estão disponíveis para entrevistas, palestras e sessões fotográficas. Se têm dúvidas ou dores, prudentemente disfarçam-nas.

Até ao dia em que não aguentam mais. E aí todos nós ficamos espantados. Não tínhamos dado por nada, só víamos a perfeição, os sorrisos abertos, a destreza. Não víamos a insegurança, as dúvidas ou as dores que sentiam.

Aconteceu com muitos desportistas de alta competição, desde o nosso Mamede até ao fabuloso Phelps. Os JO do Japão vão ser os jogos em que Simone falou dos problemas que tem por a mente não conseguir comandar o corpo e ter atingido um ponto de saturação, levando-a à desistência.

Mas, como podemos ver abaixo, algo de idêntico tinha acontecido a Katelyn Ohashi. É pena.  


Pode ser que com estes casos a virem a público, aos poucos volte a ser possível que os desportistas sejam também seres humanos. 

E os humanos, nós todos, se formos espertos, poremos a mão na consciência. Pode ser que se aprenda alguma coisa com isto. Mas não sei, não...


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Desejo-vos uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.
Estamos em Agosto e desejo que, para todos os que aí estão desse lado, seja um querido mês.

quinta-feira, julho 29, 2021

Simone Biles, nos braços de um anjo

 


Como é bom de ver, de desporto pouco sei e da pressão que os desportistas de alta competição sofrem ainda menos.

O que sei é que nunca tive qualquer vontade que os meus filhos levassem demasiado a sério qualquer desporto que praticassem. 

A filha de uns amigos nossos, praticamente da idade da minha filha, fazia já não me lembro se ginástica artística se natação. Tenho ideia que praticava ambos os desportos mas posso estar a confundir. O que sei é que um deles lhe consumia várias horas por dia, todos os dias. E que havia provas e que lá andavam eles atrás da miúda.

Tenho também um ex-colega, competentíssimo e afamadíssimo, inclusivamente muito ligado a grandes casos mediáticos, que reduziu à mínima expressão a sua actividade para poder acompanhar o filho que, praticando um certo desporto, se foi dedicando cada vez mais, obrigando os pais a terem staff permanente, nomeadamente um treinador, uma psicóloga e, a tempo parcial, uma nutricionista e um fisioterapeuta. Ele passou a viver para alimentar a dedicação do filho, um adolescente, a esta actividade desportiva.

Nunca percebi esta opção. Pensava sempre que ou o rapaz era egoísta até à décima casa, não se importando por ter o pai reduzido a seu agente, ou era uma vítima da ambição ou exigência do pai.

Lembro-me do meu colega dizer que havia muito trabalho a fazer diariamente, nomeadamente a gestão de patrocínios que, legitimamente, queriam ver resultados, queriam contrapartidas, com quem era necessário aturadas questões discussões jurídicas. E quando eu o questionava por quase viver em função do filho ele relatava-me peripécias e casos em que, se não fosse ele a agir como intermediário, era pressão e perturbação que caía em cima do rapaz, correndo o risco de, segundo ele, lhe fritar os miolos.

Estou a falar de um jovem pertencente a uma família estruturada, sem dificuldades financeiras ou outras e com uma estrutura de apoio que amortecia quaisquer pressões exteriores.

Quando, ao entrar na idade adulta, se percebeu que a carreira do jovem, sendo boa, jamais o levaria aos primeiros lugares, desistiu da carreira e hoje pratica essa actividade apenas por lazer, ou melhor, apenas por desporto.

Imagine-se isto numa outra dimensão, num contexto muito mais profissional e mais mediático, mas com uma jovem que, em menina, a par dos seus irmãos, esteve a cargo de uma mãe com problemas de álcool e drogas, várias vezes presa, sem possibilidade de lhes proporcionar estabilidade ou, até, a alimentação suficiente. Simone Biles viveu consecutivos dias de fome e de medo. Acabaria por ser criada pelos avós. Já adolescente viria a sofrer agressões sexuais por parte do médico que acompanhava as atletas americanas e, segundo tem referido, disso guardou um trauma para o resto da vida, ainda receando que a toquem mesmo que em actos meramente clínicos.

Simone Biles é mais baixa, muito mais elástica e forte do que a maioria das mulheres da sua idade. O que ela faz com o seu corpo desafia as leis da gravidade. Parece levada nos braços de um anjo. 

Horas e horas e horas de treino, horas e horas e horas de exercício, de busca da perfeição. Com as câmaras sempre em cima, escrutinada em permanência, Simone, tal como os desportistas de alta competição, está sujeita a uma pressão esmagadora. Ela tem que ser a melhor, a superlativa, a ganhadora de medalhas, a perfeita, o exemplo, a mais resiliente, a mais inspiradora. Se, por acaso, tiver dias de desconforto, dias de hesitação, dias de dor física ou de dúvida terá que escondê-los e ultrapassá-los para que ninguém suspeite de que não é Simone Biles. 

As suas articulações, os seus músculos, os seus ossos e a sua força anímica têm que estar sempre no máximo para que, nunca, nada falhe, Nos treinos, Simone corre, salta, eleva-se no ar, rodopia no chão e no ar, contorce-se, aterra e eleva-se e voa. Horas e horas, dias e dias. E, pelo meio, entrevistas, sessões fotográficas.

Na sua cabeça, os seus demónios: a recordação do medo, da angústia e da fome dos tempos em que a mãe se perdia dos filhos, a par da repulsa e da vontade de esconder a memória do toque abusivo de Larry Nassar, devassando o seu corpo inocente.

Enquanto corre para saltar e rodopiar, esses diabos rodeiam Simone. E rodeiam estes e rodeiam os outros, os diabos menores, os diabos avençados pelos mercados, pelos investidores, que alertam: se não continuas a ser a melhor, retiramos-te o tapete, cuidado...

Ao elevar-se para saltar, agora nos Jogos Olímpicos, Simone perdeu momentaneamente a consciência de si, deixou de saber onde estava e, em vez das duas voltas e meia no ar, apenas deu volta e meia. Ao aterrar, vacilou, estremeceu. Nela, super-mulher, perfeita, isto é estranho. Em qualquer outra pessoa, em mim, em si, se nos conseguíssemos elevar no ar meio metro e, ao mesmo tempo, darmos meia volta, certamente ficaríamos sem saber de que planeta seríamos e cairíamos desamparados, estatelados, partidos, no chão. Para nós, não para Simone -- que costuma saltar, voar, encarpar-se, rodopiar, tudo como se fosse um boneco de molas -- que cai sempre de pé, aprumada, elegante e segura.


Nessa altura, quando, no ar, o corpo tentou evadir-se da mente, percebeu que, a continuar, poderia enlouquecer ou cair desamparada, magoando seriamente o seu corpo.

Parou e, corajosamente, explicou o que se passava.

O mundo pasmou com a surpreendente retirada de Simone e com a inesperada confissão. Simone é humana, afinal.

Não sei bem que mundo é este nosso em que se pretende que os bons sejam muito bons, bons demais, excelsamente bons e em que se desprezam aqueles a quem os deuses deixam de levar nos braços. Mas sei que Simone Biles, a gigante, fez mais pelo verdadeiro sentido desportivo e pela necessidade de acarinharmos a humanidade daqueles que admiramos do que mil discussões estéreis e mil palavras cheias de lágrimas de crocodilo. 

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Fotografias de Simone Biles, algumas da autoria de Annie Leibovitz. 

Sarah McLachlan interpreta In the arms of an angel

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Uma bela quinta-feira