Drones não identicados a sobrevoar os céus em 8 estados dos States, a Cristina Ferreira a fazer anúncios a tudo e mais alguma coisa, incluindo a jogo e a apostas, as televisões todas a falar do Almirante e das presidenciais quando falta mais de um ano para as eleições e a malta (a malta real, o povo), para já, se está nas tintas para isso, a ministra Ana Paula, que costuma destratar tudo e todos, na televisão com um sorriso afivelado a demonstrar que agora a amestraram para rir, perguntassem-lhe o que perguntassem, para ver se a gente se esquece de como ela é na realidade. Umas atrás de outras.
Um mundo de patas para o ar, um planeta a voar às arrecuas aí pelos universos, um mundo piroso, em que o nonsense parece estar a normalizar-se.
Por isso, com vossa licença, vou voltar para a minha vidinha.
Já vinha desconfiando mas agora esbateram-se-me as dúvidas: o mundo está perdido.
Bem. Se calhar estou a ser dramática. Se calhar não é o mundo, se calhar é só Portugal.
Bem. Se calhar não é todo o Portugal, se calhar são só 10.000 pessoas. Talvez mais. De facto, parece que 10.000 de cada vez.
10.000 pessoas pagaram 19 euros para ouvir Cristina Ferreira.
Dá para acreditar?
Eu acho que não.
De facto, parece-me uma coisa do além. E, isto da coisa do além não é uma piada à Nossa Senhora que desta vez não apareceu em cima de uma azinheira mas, pasme-se, dentro dos Louboutins da grande filósofa Cristina Ferreira. Milagre e dos bons.
Diz ela que leu aquilo como um sinal. Em vão tenta o Goucha perceber. 'Sinal de quê?'. E aí é que está. Sinal do além quando aparece não tem que ter propósito ou significado. Goucha ficou na mesma mas ela, toda sentenciosa e emocionada, mostra que sinal que é sinal não carece de explicação.
Por exemplo, hoje ao despir umas calças caiu-me ao chão um talão de uma compra. Também li como um sinal, sinal que guardo coisas não sei para quê e que, ainda por cima, mal as guardo esqueço-me delas. Só que a Cristina Ferreira pegou nos sapatos e foi com eles na mão para os exibir aos espectadores. Eu não. Eu apanhei o talão e deitei-o no lixo e peguei nas calças e coloquei-as em cima de uma cadeira.
E, lá está, só por isto se vê porque é que não consigo fazer 190.000€ para dizer chachadas e ela é num abrir e fechar de olhos.
Mas digam-me vocês: quem é que paga 19 euros (ou 1 euro que fosse) para ir ouvir a inspiradora e transformadora Cristina Ferreira...? Quem, senhores...?!
Cristina Talks | 14 janeiro 2023
O evento em que a apresentadora e empresária Cristina Ferreira se apresenta ao público para revelar segredos, incentivar mudanças e partilhar muitas das suas lutas e conquistas. Convidados inspiradores vão juntar-se num momento de partilha único e transformador.
Cristina Ferreira e o seu símbolo de conquista, os seus sapatos de 490€!
Cristina Ferreira recorda momento em que encontrou imagem sagrada nos sapatos | Goucha
No «Goucha», Cristina Ferreira, diretora de entretenimento e ficção da TVI, fala-nos sobre o momento em que encontrou uma imagem de Nossa Senhora de Fátima dentro dos seus sapatos.
Ao domingo, se calha estarmos em casa e disponíveis, gostamos de ouvir o Paulo Portas no seu Global. Independentemente da sua orientação política, tem-se revelado um comentador bastante abrangente e bastante claro. Consegue, de forma geral, fugir das tricas e das mesquinhices do dia a dia e isso, já de si, merece um louvor. Ele aponta à big picture e fá-lo de forma fluente e interessante. Os slides que acompanham o que diz são claros, visualmente apelativos, e sabem cingir-se aos pontos fundamentais. Depois há um tour d'horizon sobre a actualidade, sem fronteiras e, mais interessante, relacionando o que é de relacionar por forma a estabelecer elos de ligação e a transmitir diferentes perspectivas sobre o mesmo facto. Acresce que põe a inteligência ao serviço do que diz e quase consegue ser isento. As suas sugestões culturais também se têm mostrado interessantes.
Portanto, ao domingo, era o noticiário da TVI que costumávamos ver, à espera que Paulo Portas aparecesse para o seu espaço de comentário global.
Até que alguém resolveu lá pespegar a Sandra Felgueiras. Com aquele seu ar justicialista, sensacionalista, populista, antes poluía a RTP. Depois perdi-a de vista. Não sei por onde andou. Apenas sabia que em boa hora a RTP se tinha visto livre dela. Até que há pouco, não sei por que raio de carga de água, apareceu em prime time nos domingos da TVI. Um desastre.
Ora cá em casa somos ambos alérgicos ao estilo. Desgraças, caça às bruxas, presumíveis escândalos e barracadas de toda a espécie e feitio não é coisa que faça propriamente o nosso género. Fugimos a sete pés. Portanto, ao domingo à noite, o meu marido anda entre a RTP e a SIC e, de vez em quando assoma, de raspão, a ver se ainda é ela que está no ecrã. Uma maçada. Enquanto ela lá está, com aquele seu sorrisinho insuportável a dar-se ares de quem está ali para descobrir a pólvora e para dar cabo de uns quantos, nós não nos aguentamos mais do que os escassos segundos necessários para ver se já podemos ficar na TVI ou se temos que nos raspar a toda a brida.
Por isso, agora muitas vezes não apanhamos o Paulo Portas de início, isto quando não o perdemos de todo.
Não sei se quem tomou a decisão de levar a Sandra Felgueiras para a TVI tem aferido as audiências mas, se ainda não o fez, talvez seja bom que o fizesse.
Contudo, não é só o desastre de Sandra Felgueiras a preceder o Paulo Portas: é também o despropósito de, frequentemente, não o deixarem levar a sua intervenção até ao fim, sacrificando com alguma frequência as recomendações culturais. E, vai-se a ver, e qual a pressa? Pois, nem mais: é a Cristina Ferreira, essa bimba histriónica que não faz uma que se aproveite, às voltas com o submundo que levou para o Big Brother.
E o Paulo Portas ali no meio daquilo.
A TVI não vai por bom caminho, não vai, não. Pelo menos, é o que penso.
Gostava muito de ver o filme de que abaixo mostro a apresentação. Não sei se vem para Portugal nem sei se ganharei confiança para me enfiar durante hora e tal numa sala fechada a respirar o ar saturado, expirado pelas outras pessoas. Claro que há que acreditar que os sistemas de climatização dos espaços públicos estão configurados e mantidos para não comportarem riscos para a saúde pública, em especial em época de contágios pelas vias respiratórias. Mas, ainda assim, como nas relações um pouco saturadas, acho que prefiro dar um tempo.
No entanto, confesso que, apesar do cheiro e do ruído mandibular associado às pipocas, ainda acho que há uma mística em assistir a filmes no escurinho da sala de cinema. Além disso, como frequentemente ia ver filmes que não atraíam muito público, era bafejada pela sorte de ter salas com pouca gente e, sobretudo, por partilhar o filme com gente silenciosa, respeitadora.
Seja como for, para garantir que o via, a verdade é que gostava que o filme passasse na Netflix ou na HBO. Tromperie|Deception.
Gosto bastante da Léa Seidoux, em geral gosto de filmes franceses; e ser baseado numa obra de Philip Roth é um plus que não deve ser negligenciável.
Ao ver a apresentação, ocorreu-me que uma das dificuldades para quem tem uma vida sentimental e sexual muito movimentada e uma escrita confessional deverá ser o risco de reacção de quem se sente retratado e, para os que são casados, o receio de que o/as respectivo/as tentem tirar a limpo se o que é ali retratado tem fundo de verdade.
[Alimento a esperança de ainda vir a ter tempo para me dedicar, de alguma forma, à escrita. Se me puser a escrever memórias, creio que terei alguns episódios interessantes para reportar. Mas tenho para mim que mais do que apontamentos que possam ter algum interesse do ponto de vista da petite histoire associada à história dos dias, teriam graça os episódios anedóticos ou atrevidos. Mas... e se os envolvidos o lêem e não acham graça nenhuma? Perdoar-me-iam que os expusesse daquela forma?
Será mais seguro ficcionar. Mas como ficcionar na íntegra, escrever na base de uma imaginação bacteriologicamente pura, quando a vida é tão rica e supera em densidade, divertimento ou picante a ficção?]
E pode um escritor ficcionar uma história de adultério, descrevendo ao milímetro as aventuras, os cenários e os momentos de amor, sedução ou prazer, descrever os riscos incorridos, descrever as perplexidades, os sustos, descrever a adrenalina, descrever as combinações em segredo... e o cônjuge não desconfiar que aquilo não é ficção coisa nenhuma, que aquilo é confissão pura e dura?
E como reage um escritor quando é confrontado com essas desconfianças? Ou com acusações de deslealdade por parte de quem, em segredo, viveu esses amores encobertos?
Nega? Confessa? Pede desculpa? Ou, no íntimo, está-se nas tintas e quer é viver situações extremas para ter o que contar?
Tromperie | Deception (2021) | Realizado por Arnaud Desplechin
An American novelist living for a time in London converses with his wife, his mistress, and other female characters he may have dreamed up.
Arnaud Desplechin returns with a powerful, haunting story of sex and loyalty, love and deceit. Adapted from Pulitzer Prizewinner Philip Roth’s bold autobiographical novel exploring the world of adulterous intimacy.
E, ao que parece, Léa Seydoux, 36 anos, assina mais uma memorável representação.
Estou danadinha por vê-la a beijar as palavras
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Percebi que começaram os debates para as Legislativas. Não vi. Sei bem em quem vou votar. Não é com trocas de galhardetes em formato de condensado televisivo que vou mudar de opinião.
Ao fazer zapping vi que começou outro Big Brother, desta vez com a Madame Brega in action, gritando como uma capada. Na sala das anedotas, um bando de gente de aspecto suspeito, incluindo o Bruno de Carvalho. Não conheci ninguém a não ser ele. Pelo aspecto do que vi, parece que sacaram um bando de desocupados nalguma casa de alterne. Curiosamente, parece que chamam a esta edição a dos Famosos. A TVI na sua trajectória descendente, a bater no fundo.
Quanto aos outros canais não tenho ideia. Estive a ver a Terapia com o Gabriel Byrne (e daqui vai, de novo, o meu obrigada pela dica!).
Não estamos a começar bem o ano, televisivamente falando.
Pouco tenho a acrescentar. Dia tranquilo, com uma ou outra demanda e com as dúvidas que nos têm ocupado a mente. De manhã caminhámos e, como ultimamente tem acontecido, cruzámo-nos com muitas pessoas. Notoriamente já ninguém consegue manter-se fechado em casa. É normal. Ainda por cima com este tempo amável puxando as pessoas para os seus braços... Mas, ao ar livre, e havendo um mínimo de distanciamento -- e, se não for garantido, com máscara -- acho que tudo bem. Arzinho livre mais bom...!
Enquanto almoçávamos, ligámos a televisão. Estava a Nuno Rogeiro a comentar cenas. E, uma vez mais, senti-me beige. Onde é que ele desencanta toda aquela informação? Li há algum tempo que ele se arma em bom, travestindo-se de espião, fazendo de conta que está a fazer revelações escaldantes, quando, na verdade, diz coisas que estão disponíveis em todo o lado. Não vou nessa. Nos jornais normais, pelo menos, não vêm. Ele mostra fotografias, ele revela conversas, ele sabe de telefonemas, ele divulga relatórios secretos. E mostra as provas. Ouço-o e fico sempre sem perceber: é ele um garganta funda que actua às claras? Um descarado dedo-duro? Um alcofinha new age? E tudo o que ele diz é verdade ou anda há séculos, com ar de quem tem a manga recheada, a espalhar fakes por tudo o que é sítio? Por acaso gostava que me esclarecessem. É que, se tudo aquilo é verdade, gostava que me dissessem como é que ele tem acesso a coisas tão improváveis? E mesmo que me digam que é tudo público, gostava que fizessem o favor de me dizer como é que ele selecciona e relaciona tudo aquilo. É muito jogo. E há um outro mistério a envolver o caso: é que, sendo tudo aquilo tão extraordinário, como é que a coisa não dá brado? E, reparem, nem falei no penteado. É que se juntasse esse pormenor, ainda a situação assumiria contornos mais inexplicáveis.
Mas adiante.
Agora à noite, perante a indigência que é a programação televisiva dominical, fiz zapping e passei pela mais estrídula, descabida e narcisística criatura de que há memória nos escaparates. Pior que a Guilherme. Pior que tudo o que se conhece. Desta vez apresentava-se mascarada de cleópatra ou o escambau. Um carnaval ambulante enfeitado de guinchos e escancaradas fake gargalhadas. O meu marido entrou na sala, olhou para a televisão e, ao vê-la a interagir com um bizarro painel, disse: 'Parece tudo muito rasca, não é...?'. E é, concordei. Desandei rapidamente do canal em busca do que se pudesse ver. Ele disse: 'Não queres acreditar mas a única coisa que se consegue ver é o futebol'. Uma tristeza.
E, portanto, acho que não tenho muito mais a dizer: não sei de nada, não vi notícias nem comentadores. Mantenho-me longe dessa praga que é pior do que a lagarta do pinheiro.
Circulo pelo internacional e, tirando aquelas desumanas e insanas notícias que me fazem ter vontade de hibernar, só coisas sui generis é que call my name. Desta vez foi a notícia de que os monges de uma abadia em França estão a orar para que apareçam clientes para as toneladas de queijo que têm feito e que, graças à covid e à falta de fiéis e devotos a visitar a abadia, correm o risco de passar o prazo de validade. Assim vamos. Penso que é a isto que se chama o novo normal: os padres a rezarem para terem clientes para o queijo. Não sei onde é que isto vai parar. Sempre pensei que a fé não tinha nada a ver com pragmatismos ou prazos de validade. Afinal tem. Se calhar com isso e com mais coisas do género. Credo.
Já agora, por falar em queijo: ao jantar comi apenas uma maçã royal gala -- as que prefiro, das miudinhas, destratadas e saloias -- acompanhada por little fatias de um queijinho artesanal recheado com mel. Dá para imaginarem a delícia dos deuses que é? Claro que não moderei. A moderação cansa-me.
E, vá, para que haja substância nisto, que se junte alguém que faz do perigo a sua profissão -- e que venha o mais rogeiro dizer-me que isto não é nada, que destas tem resmas para mostrar aos espetadores. Espetadores sem c, claro está.
The world's most dangerous bus route 😱 | Mountain: Life at the Extreme - BBC
Quem me acompanhava antes desta segunda leva de confinamento sabe da minha paixão por aquela parcela de terra a que aqui chamo heaven. Tudo ali me fascina. De uma terra seca, coberta por pedras e mato rasteiro, transformámo-la numa terra fértil onde tudo medra e onde as árvores, que plantámos com cerca de palmo de tamanho, se tornaram altas e frondosas. A terra no inverno está coberta de folhagem húmida e musgo e dela brotam cogumelos de todas as cores, tamanhos e feitios. E eu, que me habituei a deslizar silenciosamente por aqueles caminhos, vou descobrindo pequenos seres que não são gente nem bicho nem flor e que nascem perfeitos, espantando as pedras que se afastam para os deixar exibir a sua glória de existir. Outros nascem dos troncos e parecem folhos delicadamente matizados, ornamentos perfeitos e inesperados. Sejam como forem e nasçam onde nascerem são sempre inesperadas aparições, milagres.
Agora, com o confinamento, com o teletrabalho e com a proibição de mudar de concelho entre a sexta ao fim do dia e a madrugada de domingo, não conseguimos lá ir com a frequência desejada. Por isso, não tenho podido assistir ao devir da natureza que sempre tanto me encanta. Na última vez que lá conseguimos ir, na terça-feira de carnaval, ainda havia cogumelos. Menos em quantidade e menos em exuberância mas sempre perfeitos e inexplicáveis. Parte considerável do imenso fascínio que sinto pela natureza tem a ver com a maravilha que são os líquenes, os cogumelos.
Mesmo agora aqui, e isto aqui não é exactamente campo, ando atenta à terra, tentando descobrir alguns. E, para minha sorte e alegria, tenho descoberto uns quantos. Não são tão efusivos mas, ainda assim, são surpreendentes. Alguns parecem a madeira do tronco a que se encostam, outros parecem pequenas flores brancas, outros são tão discretos que mal se dá por eles.
Tenho uma certa tendência natural para deixar a natureza escolher o seu destino e é isso que tem acontecido in heaven. O rosmaninho, o alecrim, os orégãos, as aroeiras tudo nasce por si e os perfumes propagam-se de uma maneira límpida. Isso não é compatível com este jardim que foi pensado, desenhado e alimentado para acolher espécies que são belas mas que se vê não serem espontâneas e onde os espaços estão harmoniosamente delimitados. Penso que um dia que tenha tempo, ou seja, que não esteja tão absorvida pelo trabalho, talvez comece por desconstruir um pouco a zona da horta para que, aí, a natureza possa ganhar algum espaço.
Quando penso nisso geralmente ocorre-me ter patos que andem livremente por ali. Julgo que isso também é incompatível com este espaço mas é uma coisa que me ocorre. Lembro-me de ser pequena e de andar a brincar com o meu grande amigo e ter como incumbência atribuída pela minha avó -- que, naquela altura, na casa em que vivia, tinha um espaço campestre em volta -- ir descobrir os ovos postos nesse dia. Era uma verdadeira caça ao tesouro. Que alegria sentia quando descobria um ovinho. Também me lembro de uma outra coisa. A minha avó também tinha uma grande capoeira, num lugar longe da casa, onde tinha perus. Enquanto os patos andavam à solta, tenho ideia que os perus, em regra, não. Não sei porquê mas acho que era assim. Lembro-me que a minha avó fazia umas papas para os perus. Apanhavam-se ervas, tenho ideia que urtigas, que eram migadas e misturadas com sêmeas e água. Ficava uma paga grossa que era levada aos perus. Aqui na horta, estão a nascer urtigas e eu penso que é pena não ter perus para as poder aproveitar.
E comecei a escrever isto pois vi um vídeo que me encantou. Já vos mostro. Mas, lá está, comecei nos cogumelos e já vou nos perus. E não é para falar numa receita de peru com cogumelos porque, se ainda fosse, talvez houvesse alguma lógica.
Mas adiante.
Sobre o meu dia apenas posso dizer que, por razões que não vêm ao caso, fui a casa de uma pessoa que mora perto de mim, uma pessoa muito simpática. Fui convidada e, porque gosto de ver outras casas, fui. Fui sozinha, claro. Por vezes fico surpreendida pois, em minha opinião, a casa não 'joga' com as pessoas que lá vivem. Mas, depois, pensando bem, uma casa nasce numas circunstâncias e com umas expectativas. Se as circunstâncias mudam e as expectativas se goram, as pessoas ficam a sentir-se peixe fora de água e é natural que percam parte da sua motivação. No fundo, sabem que ficam a viver uma situação transitória, a casa em que vivem já não as representa.
Tivemos também uma conversa remota com um simpático casal sobre umas ideias para uns arranjos que queremos fazer no jardim. Depois tive que ir fazer umas medições para ir ver a que distância fica a laranjeira da romãzeira. Tenho pena de sacrificar o que quer que seja e, às tantas, a equação fica impossível. O meu marido não é disso. Quando perguntei: 'E a laranjeira?', disse logo: 'Vai abaixo'. Não aceito isso assim, de mão beijada. As belas laranjas que ela dá são uma bênção. É uma coisa que tem que ser muito bem pensada. Mas já estava a anoitecer, estava um frio. A amplitude térmica está demais. Tanto frio.
Tirando isso, posso acrescentar que, porque a minha mãe me disse que ia começar um programa na TVI que talvez fosse bom, fui ver. E vi uma exibicionista Cristina Ferreira com um vestido inenarrável de mau gosto e despropósito, coisa como não há memória. De saia curta e perna aberta, uma flor disparatada à frente, um vestido que lhe acentuava o rabo -- tudo nela é mau gosto. Uma gaiteira. Quanto às gargalhadas e à boca escancarada acho que já nem vale a pena falar. Em frente de quem actuava, um painel de gente a dizer coisas parvas. O meu marido disse que era um big brother em versão musical. E tem razão, era o que parecia. Mudámos de canal, pois claro.
E, para finalizar, devo dizer que, sempre que escrevo um post destes, acho que o que estou a fazer é pura parvoíce. Bem podia fazer um post pequenino sobre cogumelos lindíssimos e sobre as saudades que tenho ir vê-los in heaven, outro sobre casas de pessoas a quem a vida trocou algumas voltas, outro sobre a ridícula, narcisista e kitsch desbocada da Malveira. Agora assim tudo misturado resulta numa miscelânea sem ponta por onde se pegue. Mas fazer o quê? Não me dá para planear ou fazer coisas com pés e cabeça: sou mais de me pôr para aqui a escrever e seja o que deus quiser ('seja o que deus quiser' que é como quem diz, claro, porque uma agnóstica invocar o sagrado nome de deus a propósito de coisa tão deslustrada também não faz qualquer sentido).
Resumindo: calo-me já para não estragar ainda mais. E passo ao maravilhoso vídeo dos cogumelos.
Stephen Axford: How fungi changed my view of the world
Stephen Axford has a unique expertise in macro images and time-lapse photography of fungi. The beauty and scientific accuracy of Stephen’s fungi photography have captivated national and international media, fungi experts and the general public.
Ligámos a televisão e fomos parar ao novo estúdio da TVI. Cheira a Cristina Ferreira por todo o lado. Os jornalistas passeiam, gesticulam, tudo naquela azáfama tenta mimetizar o estilo histérico da vendilhona da Malveira. Estão à espera que chegue o grande momento: a entrevista à directora que é também patroa, a populista-mor, aquela que vira as costas a quem calhar quando lhe acenam com dinheiro.
Mas o que mais chamou a minha atenção foi o José Alberto de Carvalho a apresentar o noticiário das oito a meias com o Pedro Mourinho, ao lado um do outro, perto um do outro, a falarem quase boca a boca. Na realidade, um atropelo, quase tiram as palavras da boca um do outro --e a respirarem o ar que cada um expele, gotículas incluídas.
Neste momento, filmam o estúdio e o que vejo é toda a gente sem máscara. Tudo a menos de um metro, num espaço confinado -- e tudo sem máscara. Se o corona ali entra vai ser uma razia maior do que no lar do Reguengos. Um péssimo exemplo o que estão a dar ao país.
Percebo agora que vai também começar um novo Big Brother com Teresa Guilherme. O ramalhete composto: são ambas histriónicas, agudas, agitadas, sorrisos em exponencial máximo, todas elas graçolas, bocas, tudo ao mesmo tempo, tudo a grande velocidade para que não dê tempo a pensar no absurdo exagero que para ali vai.
E agora está a começar a entrevista à dita CF, a tal que, dizendo-se uma ex-coitadinha a quem nem o gps apanha a sua morada e que aplica nas acções as suas poupanças, milhões, num lugar em que diz que ficará até ao fim dos seus dias, na verdade já deu mais do que provas de que se pela por dinheiro como macaca por banana, deixando na mão quem se fica atrás na jogada. A entrevista começa com um vídeo que é uma verdadeira vénia à madame. O culto de personalidade em estilo coreano-reality-show à moda da coitadinha de queluz.
Não vai acabar bem, a madame. Quem é assim, como ela é, inevitavelmente dará, um dia, um passo maior que a perna. Se calhar é o que está a acontecer agora. Diz que fica até ao fim dos seus dias esquecendo-se que a aquilo ppode desvalorizar que algum, provavelmente ainda mais patego que ela, compre as acções a preço de uva mijona e a ponha a fazer entrevistas ao frio e à chuva à frente de um quartel de bombeiros ou se limite a oferecer-lhe dez réis de mel coado e um pontapé na bunda. Ah, a fama quando chega à cabeça dos deslumbrados fá-los esquecer quão efémero é tudo isto.
Mas pior, neste exacto momento, e foi isso que me levou a escrever isto, é a covid que deve circular à vontade ali nos estúdios da TVI -- é o que lhe correr mal a ela corre só a ela mas o que correr mal na TVI corre mal a muita gente. E o exemplo que dão pode, ainda por cima, fazer correr mal a vida a muita gente.
Portanto, não gosto do que estou a ver. Estava à espera de ver o comentário do Paulo Portas, que parecendo que não, tinha o melhor comentário político das televisões portuguesas, mas nem sei se vai acontecer. Vou mudar de canal. Não gosto da televisão feita por gente como a Cristina Ferreira e a Teresa Guilherme nem gosto de ver, num estúdio de televisão, tanta proximidade descuidada em tempo de pandemia.
Jorge Jesus vai e vem, faz e desfaz, salta de clube em clube, é aplaudido e vaiado, sai em ombros ou ao estalo, passa de rival em rival, atravessando a segunda circular ou o atlântico, dancing for money e cagando para o resto. Pelo caminho vai abichando uns milhões. Não há cá amor à camisola, conversa mais fajuta, há é profissionalismo. E os $$$$$ a crescerem na conta bancária (nas muitas contas bancárias) e quem o achar traidor que pense duas vezes: quem trai traidor deve ser como o ladrão que rouba ao ladrão, mil anos de perdão. E nham-nham-nham, rebenta o balão. (O balão do pastilhão, bem entendido)
Cristina Ferreira, outra caga-milhões, salta da TVI para a SIC e na SIC é recebida em ombros, deitam-se no chão para ela saltar em cima, o pastor Rodrigo fecha o noticiário com 'o país, o mundo e o bolo da mãe da Cristina Ferreira' e as engraxadoras da Arrastadeira Vermelha lambem as botas e os próprios pés da Cristina, e a Cristina guincha e escaganifa-se com risinhos escaganifobéticos e toda a gente aplaude, e vai aos globos de ouro armada em nossa senhora de fátima e toda a gente ajoelha e agora, sem mais nem ontem, a dita Cristina, santinha no altar das vaidades, caga de alto para os devotos da SIC e baldeia-se outra vez para a TVI. Cristina e Jorge Jesus, grandes profissionais do espectáculo e da carteira recheada. Diz que vai agora para accionista. Quem a venerou, babando-se enquanto a venerava, que vai agora dizer? (Pergunta retórica esta minha).
E, provando e reprovando que abriu a época das transferências, eis que me cai o queixo ao chão. Na mesma onda dos anteriores, dou com mais uma troca-sensação. Ferreira Fernandes, ex-Público bandeou-se para o Diário de Notícias onde chegou a Director. E se eu gosto de lê-lo, caraças. Pois bem, bandeou-se outra vez para o Público. Faz sentido? Eu diria que não. Mas a minha segunda consciência diz-me: 'Define sentido'. Não sei. Dou-me uma segunda oportunidade: 'Define faz sentido'. Mas também não sei definir pelo que, na volta, isso de 'fazer sentido' não existe. Portanto, trocas e baldrocas é o que está a dar e que se fornique essa coisa do sentido. E eu, que não gostaria nada de estar a servir o FF na mesma travessa em que apresento o JJ e a CF, face às insólitas circunstâncias, vejo-me forçada a fazê-lo. Ele há coisas.
Depois disto, só falta o Durão Barroso, esse perfeito-nulo, porteiro das Lajes, nos aparecer como grande educador da classe operária, liderando o MRPP, ou o Ventura, esse pintarolas manhoso, aparecer no PSD de braço dado com o Passos Coelho, esse grande estadista que, apesar de só ter feito merda, agora por aí anda ao colo de tudo o que é burro neste país e, para cerejar o topo do bolo, nos aparecer o Carlos Costa, essa mítica figura que esteve cega, surda e muda enquanto o sistema financeiro ruía, como gestor de offshores.
Não sei porquê mas parece que só me apetece exclamar: Eh Lecas.
Tirando isto... que mais?
Quarenta e tal graus por aqui, uma temperatura desumana. Deve ser isso. Estas temperaturas de assar pimentos ao sol estão a virar as casacas do avesso, estão a virar frangos às cegas, estão a fazer cambalhotear as mais gradas figuras desta grande nação.
Eu própria tenho que pensar bem. Qualquer dia destes, se a coisa é pegajosa como o corona, ainda pego a pandemia e ainda vos apareço a assinar posts aí num outro blog, num daqueles que vos deixaria de cara à banda: What?! Esta aqui?!?! Não... Não é possível...
Ah pois não, violão.
E vai daqui um beijinho para vocêzes. Com máscara, claro, que eu, noblesse oblige, com isto do corona, não facilito.
Porque a semana não me chegou e porque esta que entra também se afigura do caneco, para este fim de semana trouxe trabalho de casa -- trabalho chato e com alguma responsabilidade e, ainda por cima, parte escrita em inglês o que complica um pouco a faena já que, a uma hora destas, sem pachorra, quero fazê-lo com um olho no burro e outro no eleitor-alvo do CDS -- e isso, em cima de dias muito dedicados à família, deixaram-me sem grande disponibilidade para as minhas coisinhas ou para o fait divers. Ou seja, por exemplo, não tenho conseguido responder a comentários ou mails pessoais nem, a seguir, cirandar pelo mainstream.
Por isso, há bocado, enquanto trabalhava e o meu marido, mais a dormir do que acordado, via futebol e respectivos resumos e comentários, resolvi surripiar-lhe o comando e fazer zapping. E passei por uma coisa extraordinária. Eram os Globos de Ouro. Não sabia que era dia disso pelo que aquele aparato começou por me parecer uma Gala de algum programa qualquer que não estava a identificar. Mas logo percebi.
Apresentava o espectáculo a Cristina Ferreira vestida de uma forma inenarrável. Estava de asas pregadas a um vestidinho de tipo baby-doll, toda ela lingerie em desfile de Victoria Secret. O meu marido acordou com os gritos dela e quase se assustou com o que viu. Depois de se restabelecer, resmungou: 'Esta gaja não aprende'. Depois percebeu que estava diminuído (sem o comando na mão, ele não é ele) e pediu: 'Dá cá o comando'. Dei-lhe e ele voltou a fazer zapping. Passado um bocado, à sorrelfa, repeti a cena. Lá estava ela, outra vez mascarada, com plumas, folhos, tules, disparatada até à raiz dos cabelos. Ele voltou a acordar e quase não conseguiu protestar: 'Lá estás tu. Para que é que queres ver esta gaja?'. Levantou-se, então, e disse que ia dormir.
Voltei ao meu trabalho, esperando que fossem horas de dar o Desassossego da Maria João Seixas mas estava a dar atletismo pelo que, passado um bocado, coloquei outra vez nos Globos de Ouro. Apareceu ela, então, agora a receber também um prémio. E já estava mascarada de outra coisa, desta vez com as raízes dos cabelos espetadas para fora, e de tal modo era que chamei imediatamente o meu marido para vir ver. Quis saber o que era mas não lhe disse porque se lhe dissesse que era para ver a Cristina Ferreira era o vinhas. Disse-lhe só que era uma coisa do além. Ele chegou à sala, viu-a, e, perante o óbvio too much, agoraem versão santinha a caminho do altar, fez um esgar quase de dó e disse: 'Eh pá...' e desandou. E já não viu o pior: é que, quando ela acabou um discurso (de tal forma auto-convencido que parecia estar a ajustar contas com alguém que lhe quisesse tirar o lugar) e virou costas, pareceu-me ver no manto os contornos ou da Nossa Senhora ou da Irmã Lúcia. E, nessa altura, fiquei naquele estado que se designa por estupor catatónico. Mas que raio de maluquice era aquela? É o que eu digo, parece que já vale tudo.
Voltei a fazer zapping, tentando ver se o Desassossego já tinha começado mas, enquanto não, fui ver se conseguia descobrir que desconcertante desenho era aquele no vestido dela. Mas já ela se tinha trocado de novo. Estava outra vez em espampanante toilette, desta vez misto de Victoria Secret e de bailarina de Moulin Rouge, um excesso de plumas cor de rosa. Nela, talvez pelo exagero, talvez pelo tom de voz, talvez pelo conjunto, tudo fica com toque a novo rico em versão mais do que kitsch. Vinha agarrada ao Balsemão que, não sei se atarantado com tanto pink, tanto guincho e tanta luz, parece que vinha almareado -- e isto para não dizer que vinha disfarçado de múmia andante.
Fiz zapping, claro, e felizmente já a Maria João Seixas tinha começado. Desta vez convidou, de novo, o José Pedro Serra (digo de novo porque já o tinha convidado para o Afinidades). Um bálsamo. Até parei de trabalhar para melhor os ouvir.
Não costumo ver telenovelas portuguesas nem acompanhar a vida, os sucessos, as crises, os amores e desamores dos seus actores.
Hoje, já depois de ter conversado com a minha filha, recebi dela uma sms dizendo-me para ver a entrevista do Diogo Amaral no programa da Cristina Ferreira (e acrescentou que eu ignorasse a bimbice dela).
Achei tão insólita a mensagem que a li em voz alta. O meu marido também ficou admirado mas desvalorizou, admitiu que tivesse a ver com algum aspecto relacionado com a vida profissional dela. Quando li Diogo Amaral, visualisei-o embora com dúvidas se seria esse mas, confesso, fiquei na mesma. Perguntei-lhe porque queria que eu visse. Não quis dizer-me, apenas acrescentou para eu reparar na linguagem corporal dele e para ver em silêncio. Comecei a ficar curiosa.
Agora, antes de pôr a box no dito programa, googlei-o para confirmar: era mesmo quem eu imaginava, aquele rapaz que me faz lembrar o Sergei Polunin, aquele corpo escorreito, aquele ar vagamente atormentado.
Mas nada sabia do rapaz pelo que foi com muito cepticismo que me predispus a entrar na casa da Cristina Ferreira. Apenas, mesmo, para fazer a vontade à minha filha.
Pus aquilo a andar à pressa toda, a x64, para não me desestabilizar com a gritaria dela e ir directamente ao ponto. Mal o rapaz entrou em cena pareceu-me que estava pouco à vontade. Ela toda gaiteira e ele tenso. Até que ela lhe perguntou se estava bem e ele, enervadíssimo, disse que tinha uma coisa para dizer. E, então, aconteceu um momento surpreendente. Uma emoção frontal, uma confissão dita de frente, sem lágrimas, de olhos bem abertos. Pediu desculpa a quem o contratou. Já fui saber. Estava em gravações e teve uma branca e foi incorrecto para com a equipa técnica e para com os colegas, acabou por sair antecipadamente do argumento.
E, então, mãos nervosas, esfregando-as nas pernas, corpo completamente em tensão, contou.
Contou: foi um período de consumo de droga. Contou: mentiu muito a muita gente. Contou: ia deixar o filho a casa dos pais para poder ir drogar-se. Contou: andava zangado com o pai e isso transtornou-o mas não responsabiliza o pai pelo que aconteceu. Contou: naquela altura enganava toda a gente. Contou: percebia que as pessoas o olhassem com desconfiança. Contou: percebia que, ao contar isto, ia dar cabo da vida da mãe. Contou: antevia os momentos que aí virão. Contou: mais uns meses e acabava com tudo, com a profissão, com o namoro, com tudo. Contou: esteve numa clínica na Escócia a tratar-se. Contou: foi Ljubomir Stanisic, um irmão, quem o agarrou, quem o ajudou. Contou: se calhar é prematuro estar já a falar pois deixou de consumir há apenas um ano.
Diogo Amaral estava trémulo, os grandes olhos muito abertos, dispostos a receber todas as perguntas, todas as censuras.
Custou-me muito ver. Imagino o sofrimento da mãe ao ver o filho a expor-se daquela maneira, imagino o sofrimento da mãe quando, tempos antes, soube o problema de drogas do filho, vendo-o a deitar a vida a perder. Imagino o sofrimento dele sabendo o sofrimento que esta entrevista vai causar nos pais.
Mas imagino que o sofrimento dos pais não seja pela entrevista -- que se lixe a entrevista, que se lixe o que as revistas vampirescas vão explorar -- mas de medo que ele não aguente a pressão e tenha uma recaída, que o sofrimento seja pela vontade de que ele não sofra mais, seja por não saber como protegê-lo de si próprio e da vida que escolheu viver.
Esta vida de actor de novela, com exposição permanente nas redes sociais, em eventos, em revistas, sempre a ter que dar entrevistas, sempre a ter que estar bem, deve violentar a alma de quem tem alguma coisa sob a pele. Não deve ser fácil arranjar forças para estar sempre bem sob a luz dos holofotes.
Nem deve ser fácil, em geral, encarnar novas personagens, conseguir emocionar-se a fingir sem perder a capacidade de se emocionar de verdade. Acredito que, de vez em quando, deve haver a tentação de esvaziar a alma.
Ou isto tudo junto, a germinar sobre um solo adubado pelas tristezas e inquietações que toda a gente tem mas que um actor tem que esconder para ser outro.
Cristina Ferreira, apanhada de surpresa, quase ficou bloqueada. Chorou e chorou por ele e por ela e eu, pela primeira vez, achei que ela estava a ser genuína.
Mas mostrou que tem algumas limitações: um bom entrevistador teria sabido encontrar o registo certo para deixar o entrevistado falar, deixando que ele fosse tão longe quanto estava disposto a ir.
Diogo Amaral estava com vontade de falar e teria respondido a muito mais. Cristina Ferreira deveria ter sabido conter-se -- mas pode alguém ser quem não é? -- em vez de ir quase para cima do rapaz, fazer-lhe festinhas, oferecer o seu ombro. Desnecessário. E, não sendo capaz de prosseguir, acabou a entrevista. Ou isso ou tinha que cumprir o alinhamento e ir vender o seu peixe. Não sei. Sei é que despachou o rapaz.
E, quando falo em que ele poderia ter falado mais e que penso que seria importante que ela tivesse sabido agarrar a oportunidade, digo-o não por curiosidade mórbida mas porque não é habitual alguém estar disponível para falar tão francamente de um vício tão estigmatizante e há muitas pessoas para quem as palavras dele poderiam ter sido ainda mais úteis do que, sem dúvida, mesmo assim foram.
Explico um pouco melhor.
Há algum tempo, num dos meus folhetins, um dos personagens drogava-se. Às escondidas, disfarçando, mentindo. Enganava todos os que viviam perto dele, a família, os colegas de trabalho. Era um profissional bem sucedido à luz do dia. Mas, na sombra, era um consumidor de droga. Até que começou a perder o pé, a precisar de mais dinheiro, a pedir dinheiro, a contrair dívidas -- mas tudo sempre envolto em explicações credíveis, sempre sincero e bom rapaz.
Não era um personagem inventado. Não. Muito próximo, muito. Consumia. Mesmo numa festa de anos de uma criança da família, tendo chegado do trabalho, ainda de fato e gravata, ele teve que ir à casa de banho consumir. Ás escondidas, claro. Depois eufórico, bem disposto, a alegria da festa. Sem ninguém desconfiar. A mãe contente com a alegria dele, o pai orgulhoso, a namorada apaixonada. E, no entanto, vivia uma vida de mentira. E, mais para o fim, perante mil evidências, ninguém dsconfiava de nada. Não desconfiava ou não queria desconfiar. Parece tão improvável, tão inimaginável que, quem deveria ver, não vê. Até que ele próprio, certamente incapaz de continuar a enfrentar a mentira do quotidiano e o sofrimento, se afastou, tentou curar-se, afastar-se do círculo de amigos 'agarrados' e de traficantes.
E até hoje eu não percebo como é que ele conseguia arranjar a droga, quero dizer, quando é que tinha tempo se trabalhava durante o dia e ia ter com a família e amigos depois disso, como é que ele conseguia enganar toda a gente.
Por isso, digo: para a família e amigos poderem perceber melhor os sintomas e melhor poderem ajudar os que atravessam os labirintos negros da droga, seria bom que mais pessoas falassem da sua experiência e de como podem ser ajudados.
Teve muita coragem o Diogo Amaral e tomara que acredite que o seu exemplo pode ser uma ajuda para quem atravessa o que ele atravessou e tomara que saiba como melhor ajudar os que ainda não conseguiram vontade para sair desses tenebrosos labirintos.
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Não sei se antes, se durante o período das drogas, o vídeo abaixo -- uma sessão fotográfica para mostrar o seu corpo. Apenas para ilustrar isto de que há vidas de exposição pública -- em que é suposto mostrar o bom físico, o belo sorriso, a boa disposição permanente, a capacidade para responder a toda a espécie de perguntas -- que, por vezes, têm um reverso: uma vontade de descer ao nada. Ou de fugir em direcção ao tudo.
Ao longo da entrevista, Diogo Amaral fala com orgulho deste filme que protagonizou:
Pedro e Inês
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Devo dizer que, quando acabei de ver a entrevista, fiquei muito impressionada. Não ia escrever sobre isto. Como muitas vezes me acontece quando alguma coisa me toca assim, estava capaz era de ir escrever sobre maluqueiras, rêveries ou faits divers. Mas a minha filha disse que achava que eu deveria escrever, não apenas para 'dar força ao rapaz' como para mostrar que a recuperação é possível e que isso pode ajudar outras pessoas. Não sei se fui capaz mas, acreditem, é sentidamente que desejo que o Diogo Amaral tenha uma vida longa e feliz e que quem hoje se encontra em situação de dependência, també consiga força para virar as costas ao vício.
Gostava de contar todas as minudências do meu dia mas acredito que seja fastidioso para quem me lê. Tudo muito mais do mesmo e, como sempre, nada de relevante.
Conto apenas por alto que desbastei uma árvore grande que está num dos lados do caminho que vem do portão grande. Não sei que árvore é aquela, não é azinheira nem é aroeira. É uma árvore muito linda e tem uma madeira amarela que, quando cortada, cheira muito bem. No fim, estava no chão um mega monte de ramos que arrastei com esforço lá para baixo. Quem veja e não saiba, nem vai perceber o grau de desrame que a árvore sofreu: continua armada e sombrejante como se não tivesse passado por toda aquela amputação. Também continuei com ancinho e vassoura a apanhar bolotas, folhas, terra, musgos e restinhos de cenas que, tudo junto, voltou a dar mais um montão de carrinhos de mão. Também varri, lavei e limpei a casa por dentro. E, para além de peixe cozido para o almoço, cozinhei queixadas de porco no forno com orégãos, alecrim e mel e bochechas, também de porco, estufadas. Para acompanhar, arroz de cenoura feito com o caldo do estufado. E isto trouxe para jantarmos em casa da minha filha. Rever os meus amores, estar na conversa, é das coisas boas da minha vida. Estão grandes os meninos, brincalhões, felizes da vida. Viemos de lá relativamente cedo porque o meu marido anda com dores no pescoço e, às tantas, fica impaciente e, além do mais, tínhamos coisas para arrumar e, segundo decretou, 'estamos a precisar de descansar'.
E é verdade. Foram uns belos dias in heaven mas em que trabalhámos de sol a sol. Intercalei apenas por volta do meio dia para ver o António Costa com a mulher, os filhos e a nora no programa da Cristina Ferreira. Muito bem todos, uma família simpatiquíssima, tudo gente boa onda. Todos bem... excepto a Cristina Ferreira. E o excepto tem a ver com aquele excesso, aqueles gritos, aquela gargalhada insuportável, aquela maneira histriónica de ser e de se vestir, aquela maneira absurda de se pôr de perna aberta quando está de pé a falar com alguém, aquela parvoíce que aparece a todo o momento como, por exemplo, ao tirar os sapatos e pôr-se de chinelos, supostamente para ir almoçar. Não há dúvida que bate a concorrência aos pontos mas, como nunca vejo televisão de manhã, não consigo estabelecer paralelismos. Provavelmente os outros, nos outros canais, são mais sóbrios e a malta gosta é de chinfrim, de baderna e de fofoca. Do que percebo, a grande aposta da Cristina Ferreira é devassar a vida privada das figuras públicas. Ora isso apela ao voyeurismo de que toda a gente padece um bocadinho. No fundo, no fundo, é a decadência.
Confesso que, na véspera, ao ouvir que o Costa lá ia, temi o pior. Pensei: não me digam que vai sujeitar-se àquelas perguntas que apelam ao sentimentalismo, à lágrima. Se ceder a essa piroseira vai ter-me à perna, ah vai, vai. Mas não senhor, manteve-se no seu registo de boa onda e depois concentrou-se na cataplana, foi respondendo com a leveza típica de quem vai conversando enquanto faz a comida e deixou a Cristina a fazer a festa com o resto da família. Gostei de vê-lo, na boa, com a sua alegre Fernanda, com o filho que é outro simpático e as duas meninas, bonitas e sorridentes. Portanto, por esta passa. E se aquilo chega a casa de um milhão de pessoas pois, muito bem. Manteve a dignidade, não disse nada que envergonhasse aqueles que o apoiam. Portanto, adiante.
Tirando isso, só sei que daqui a nada estou de volta ao trabalho e que nem tão cedo volta a haver feriados e isso não é ideia especialmente inspiradora. Também sei que tenho alguns assuntos de que gostava de falar aqui (e um foi-me agora enviado pelo P, a quem muito agradeço) mas requerem alguma concentração e, a esta hora, não tenho neurónios acordados em número suficiente. Também sei que, neste momento chove que deus a dá, sopra o vento com intensidade, atirando fortes bátegas de água contra a janela -- e esse som é outro que me agrada.
Como sempre faço, abro o Youtube, preguiçosa de ir à procura, passiva, curiosa de ver o que o safado do algoritmo resolveu escolher para me mostrar. E, uma vez mais, ele acertou. Tinha, logo em primeiro lugar, mais um extraordinário desempenho da mocinha reboludinha, pequeninha, elástica, risonha: Katelyn Ohashi. É humana, mulher e, no entanto, parece uma boneca saltitona, um pássaro maroto, alguém muito diferente dos outros humanos. Vê-se e pasma-se. Como é possível?
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Como continuo tomada pela indolência, em vez de ir escolher fotografias feitas por mim e para fazer jus ao potpourri do título, fui buscar a companhia de uma malta dada ao surrealismo, a saber, respectivamente, Roberto Matta, Wolfgang Lettl, Paul Klee, Salvador Dali, Wolfgang Lettl e Jindřich Štyrský. Para companhia musical: Malena de Ennio Morricone. Tá-se bem.
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E agora já ia desejar uma boa semana a começar por ... quando dei por mim a acordar a tempo de ver que onde é que já lá vai a segunda-feira. Thanks god já é quarta-feira. Mas que seja tudo bom na mesma, ora essa.
Hoje, para meu espanto, várias pessoas repetiam a desculpa de Marcelo, dizendo que ele tinha ligado em directo para a Cristina Ferreira para equilibrar com a entrevista que deu ao Goucha. Uma desculpa esfarrapada. Mas a malta não apenas gostou como engoliu.
Se isso fosse razão, agora deveríamos ver o Presidente da República a aparecer de surpresa no estúdio da Tânia Ribas de Oliveira, a fazer uma perninha numa gravação com a Sónia Araújo, ter uma simpatia captada pelas câmaras para com a Paula Moura Pinheiro, fazer um agrado público a alguma pseudo-repórter do Correio da Manhã, comparecer no Eixo do Mal e no Governo Sombra para dar troco a qualquer dos residentes... e por aí vai. É que se fez aquele pífio e inaceitável telefonema para a Cristina Ferreira para equilibrar não sei o quê, então tem muito mais atenções públicas para distribuir.
Mas a malta gosta sempre de ser boazinha e desculpar tudo. Brandos costumes. Eu também sou assim, tendo a não gostar de pisar quem está no chão. Mas Marcelo não está no chão. Tem a popularidade nos píncaros.
E, calma aí, eu até acho que ele tem feito, em regra, um bom papel.
É dado a excessos, abusa da ubiquidade, não perde a pica de ser comentador, comentando tudo a toda a hora, gosta de gostem dele e faz de tudo para se certificar disso quase parecendo querer garantir que será entronizado como o presidente dos afectos ou, se possível, até canonizado. Mas é civilizado, tem mundo, é culto, é contemporizador, tem boas maneiras e, também em regra, não nos envergonha. Depois de Cavaco, ele é o dia a comparar com a noite.
Mas isso não me impede de achar que, volta e meia, derrapa para o lado perigoso da coisa, lá onde o excesso tende para o ridículo (como foi agora o caso do inenarrável telefonema para a escaganifada da Cristina Ferreira), lá onde o querer ser simpático e querer ser o primeiro o leva a atirar-se para fora de pé (como foi o convidar o 'irmão' Bolsonaro a vir visitar Portugal) ou noutros casos em que só nos ocorre que não havia necessidade.
Está-lhe na massa do sangue ser como é -- e a roda-viva em que anda ainda acelera mais aquele metabolismo já de si acelerado.
E eu só posso recomendar-lhe que tire uns dias para descansar, para reflectir. Caso contrário, um dia a coisa derrapa de vez e já se sabe como é -- com a velocidade a que as coisas correm nas redes sociais e com a tendência para a malta se mover em rebanho -- daí até cair em desgraça junto dos portugueses vai um ai.