Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, março 31, 2018

Tempestade e bonança in heaven





Muito vento. Tanto, tanto. Tive que abrir a porta e ir lá fora, à chuva, pôr um tronco a travar a portada senão ela soltar-se-ia, talvez se partisse contra a parede. 

O tronco está coberto por líquenes e, de dentro de casa, fotografo-o. 


Mas rapidamente me recolho. Um rugido no ar, as árvores possuídas pela ventania, uma onda louca de vento agitando o arvoredo.

Poderia ser assustador tamanha a tempestade, tamanha a fúria dos elementos. Mas a natureza não me assusta mesmo quando enlouquecida. Talvez seja porque sei que a loucura passa, a beleza não.

Fotografei a chuva que caía, o vento fazendo rodopiar as cores da primavera, o som das águas caindo intensamente, os pássaros ocultos.


Depois os céus escureceram, o rugido do vento abafou o som da chuva, pareceu que uma noite precoce se tinha abatido sobre os campos. Coloquei madeira e pinhas na salamandra, deixei que o calor suave me envolvesse, adormeci embalada pelo bem estar do aconchego da casa.

Quando acordei era outra vez dia. O sol entrava na casa e vi que o céu estava quase azul e que a luz primaveril estava de volta.

Saí.

Arabescos floridos, hastes douradas, sombras e luzes nas paredes. Da tempestade nem vestígios.

Apenas a terra ensopada, o musgo macio completamente embebido, as árvores pingando e luzindo à luz doce do fim de tarde diziam que a chuva tinha passado por ali. 


Da azinheira soltaram-se, num sobressalto, uns grandes pássaros de plumagem clara. Mais à frente, o gato branco saltou de dentro do abrigo e desatou a correr. 

Caminho. Caminho em silêncio, agradecida por me se ser dada a graça de assistir às mudanças, sempre extraordinárias, da natureza.

Os verdes diluem-se uns nos outros, as árvores dançam com uma leveza apaziguada, os pássaros cantam e há agora uma alegria serena no ar. 

E as flores já despontam e há-as de todas as cores, florzinhas sempre delicadas e perfeitas. E todo o peso sai de cima de mim e pudesse eu voar e voaria.


O mundo pode ser um lugar perfeito e eu alimento-me de momentos assim para melhor atravessar os dias por vezes cinzentos e pesados que se cruzam nos meus caminhos. 

Tudo é passageiro e nós mais passageiros ainda. E depois dos dias vêm dias. E nada disto é novo porque a vida é este permanente e gracioso devir.

E penso que pouco mais de verdadeiramente importante  há a saber sobre o que quer que seja.




sexta-feira, março 30, 2018

Um hábito recomendável para todos os actuais, putativos ou potenciais avôs


Continuo invandida pela preguiça. Se começo a ler, pouco avanço. Estive a tentar ler crónicas de João Barrento mas fui debicando, de crónica em crónica, até que pousei o livro. Estive com o Raul Barndão Íntimo mas arrastei-me por ele, deixando-me ficar a ouvir a chuva, o vento, vendo as chamas na lareira.

No carro vim com O Leopardo e, de facto, deleitada com o requinte irónico da escrita. Com ele detenho-me mas para saborear a suculência daquelas palavras. Quem mo ofereceu, referindo que esta edição e esta tradução é a melhor de todas, tinha-me dito que é do melhor que a literatura já produziu. Sabendo de cor algumas passagens, tinha exemplificado como com uma escolha criteriosa e inteligente de palavras se conseguia visualizar a subtileza de algumas situações, o sentimento contido, a emoção elegantemente demonstrada, o humor religiosamente envolto em brandura.

Mas, quando me encanto muito com algumas leituras, custa-me avançar. Gosto de reler o que acabei de ler e por ali fico, o pitéu rolando vagarosamente na boca. Ora imagine-se isso, o vagar alimentado, quando a preguiça me tolhe a mente. Fecho os olhos, o tempo vai correndo e eu sem avançar.

Depois passeei, fotografei, olhei os verdes e os céus, adormeci no sofá e agora aqui estou, lenta, procurando nem sei o quê enquanto na televisão alguns quantos comentam qualquer coisa.

E, no meio destas coisas, estando eu ao acaso, aparecem-me coisas com piada. Fiquei agora a saber que não é incomum os chineses dançarem na rua -- e vi vários vídeos em que algus homens, que se vê terem já uma idade bem medida, dançam com crianças ou adolescentes. Coreografias bem afinadas entre o avô e as suas netas. Delicioso. Já mostrei ao meu marido. Acho que ele deveria ensaiar uma dança assim com os netos. Esteve a ver com alguma atenção mas acho que convencê-lo a levantar os pés do chão para saltitar desta forma graciosa com os miúdos é proeza que nunca conseguirei. Mas tenho pena. Acho que vou mas é eu tentar.



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Nem sei se são couves. O que sei é que cresceram e que agora estão todas floridas.


Quem por aqui e acompanha, lembrar-se-á que o meu filho e os meninos plantaram aqui, in heaven, uma hortinha.

Pois bem, aquilo que pensei serem couves chinesas, e até já pus na sopa, estão agora todas espigadas e floridas. Umas belas florzinhas amarelas. Ora nunca vi à venda couves com flores amarelas. Por isso, estou na dúvida: serão mesmo couves? Na sopa o sabor diluiu-se no conjunto e pareceu-me que não sabia a couve; mas como supostamente eram chinesas, admiti que fosse por isso.

Ao lado estão couves normais, seguramente portuguesas (pois reconheço-as) mas estão de tamanho normal e sem darem flor. 

Amanhã, para o almoço, vou apanhar umas destas floridas e cozer a ver se sabem a couve.


Como este é que eu nunca tinha visto...!


Já dormi, já tentei ficar acordada, já desisti de tentar e agora aqui estou a tentar acordar apenas o suficiente para conseguir chegar à cama. Mas é missão impossível. Muita canseira e muito carrossel emocional dão nisto: KO. Mas, meanwhile, pus-me a tentar descobrir algum vídeo que tivesse o condão de me despertar.

E, no meio de nada de especial, eis que dou por mim estupefacta sem perceber o que estava a ver. Não é que tenha acordado, que isso acho que é impossível, é mesmo apenas estupefacta. Um homem possuído pelo espírito da música. Coisa jamais vista. Amanhã, quando estiver na plena posse das minhas faculdades, a ver se consigo reproduzir qualquer coisa como esta. Provavelmente ao fim de meio minuto estou partida de alto a baixo mas, enfim, tentar não custa.

Ora vejam, por favor, esta coisa extraordinária. 


...

quinta-feira, março 29, 2018

Os russos, os bifes, os espiões, os artistas
- e, entre venenos e expulsões, os papagaios e os carneiros






Por formação (ou deformação, como queiram) só vou pelas coisas quando as vejo demonstradas, q.e.d., e só aceito hipóteses como verdadeiras quando, sujeitas a testes, os superam. Diz-que-diz-que não é coisa que me assista. Mesmo que referendado pelas redes sociais em peso, comunicação social e comentadores: não me impressiono. Não sou Maria-vai-com-as-outras nem à lei da bala. Só vou quando, por mim, me convenço a ir.

Ou seja, pode meio mundo cair a pés juntos sobre uma verdade absoluta que eu só vou saber que é verdade absoluta quando a vir provada, cientificamente provada.

Isto traz-me, com alguma frequência, alguns desconfortos. Bem que colega amigo costuma avisar-me: cuidado não vão dizê-la desalinhada. E sou.


A invasão do Iraque era inevitável e mais do que justificada porque havia provas do uso de armas de destruição em massa, não era? Como duvidar quando alguns dos mais poderosos Chefes de Estado o afirmavam sem sombra de dúvida?
Não para mim. Só com as provas à vista, provadas e recomprovadas.
Lembro-me bem da acesa discussão no dia da invasão. Estava numa bela moradia no Restelo. A enorme sala dava para um jardim relvado e florido. Circulávamos por ali, um simpático coktail era servido entre comentários sobre a notícia do dia. Os meus interlocutores aplaudiam. Eu relutava. Eles convictos: provas, o ditador assassino, uma invasão inevitável. E eu céptica. Como pode ter dúvidas? Não ouviu as notícias? E eu que não ia em conversas, muito menos daqueles ali. Queria saber de provas. Não se invade um país com base em conversa, em bocas, em indícios.  Os meus interlocutores -- gente de bem, gente civilizada -- abanavam a cabeça. Uma selvagem no meio de gente fina. Estava isolada.

E, no entanto, depois do país destruído e de tantas vidas destruídas, descobriu-se o embuste.

E, no entanto, todos os papagaios e demais passarinhas que se tinham afobado a defender a invasão e a justeza da guerra, enfiaram o rabo entre as pernas e nem um pio, nem um mea culpa por terem defendido uma cambada de aldrabões assassinos.


Podia agora invocar alguns dos casos mediáticos em que meio mundo acusa e condena a partir do Correio da Manhã. Todos estão certos de tudo. Todos relacionam tudo com tudo. Se o Correio da Manhã diz é porque é -- e se o amigo emprestou dinheiro é porque o dinheiro não era do amigo era dele e se o dinheiro era dele então é porque ele é corrupto e se ele é corrupto então a crise financeira foi culpa dele. Esta é a linha de raciocínio da vox populi. E eu que estudei como analisar a lógica dos raciocínios e como desmontar sofismas traiçoeiros e como demonstrar os mais complexos teoremas e como comprovar hipóteses por mais rocambolescas que pudessem parecer, não é agora, que vou renegar as minhas bases e desatar a papaguear argumentação badalhocamente construída.

Podia invocar esse e outros casos mas não o farei: estão em segredo de justiça, segundo dizem.

Mas vou falar disto do ex-espião russo. Alguém o envenenou. E à filha. E isso é uma coisa condenável. Inaceitável. Ponto.

Mas quem colocou o veneno? Não sei. Alguém sabe? Penso que apenas os executantes e os mandantes o saberão.

Não faço ideia se foram os russos. Podem ter sido os ingleses para mobilizarem a opinião pública a favor do governo (que anda pelas ruas da amargura e que bem precisados estavam de um novo fôlego). Sabemos lá.

O que também sei é que o círculo das suspeitas em torno do inner circle do actual establishment político inglês tem vindo a estreitar-se.
Pressure grows on PM over Brexit Cambridge Analytica scandal. Campaigners demand Theresa May investigates what Michael Gove and Boris Johnson knew.
E toda esta campanha em torno da expulsão dos russos vem mesmo a calhar. Em situações assim nada como atirar poeira para os olhos. O Brexit aconteceu devido a fraudes em cima de fraudes? As figuras gradas do Brexit podem estar implicadas? Upsss... Que jeito que dá uma coisa que apele ao medo, que una as pessoas em torno de potenciais ameaças, que convoque os mais íntimos instintos nacionalistas?


Portanto, nada sabendo eu do que se passa, posso enunciar a partir do que vou lendo: que se conheça, não haveria móbil para os russos envenenarem o ex-espião e a filha. Que se conheça, haveria forte motivação para os ingleses inventarem uma cena que distraísse as atenções do seu eventual envolvimento nas barracadas do Brexit e da Cambridge Analýtica (já para não falar na sua baixíssima popularidade interna e a escassa credibilidade nos meios internacionais).

E, com isto, o que também posso dizer é que, com base no que se sabe, andar meio mundo a expulsar russos parecem-me carneiradas e rangelices desprovidas de sentido.

E, a menos que se fique a saber (de fonte segura) qualquer coisa mais, acho que mais valia que se falasse menos e se pensasse mais.

Será escusado recordar que nestas coisas que metem espionagem, disputas políticas internas, guerras comerciais, alianças internacionais tantas vezes espúrias, etc, etc, nunca nada é aquilo que parece e que pareceria prudente que a reserva se sobrepusesse à precipitação.
Mas, enfim, o mundo não é perfeito.

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Testemunhos interessantes: Christopher Wylie e Shahmir Sanni





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As imagens que aqui usei provêm da Vogue russa.

Benjamim Clementine interpreta London

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Gatinhos zombies, perversos, sobrancelhudos... e, até, uma gata descarada e melancólica


Por acaso, quando passeio no Ginjal e vejo um gato, não resisto a fotografá-los. Têm qualquer coisa de misterioso que me atrai. Parecem ser inteligentes e, ao mesmo tempo, reservados. Se ao mesmo tempo revelassem sentido de humor ainda gostaria mais deles. Assim nunca me deu para querer ter um cá em casa. Anmais herméticos ou ensimesmados já aturo eu demais ao longo do dia.

Mas hoje dei de caras com uma selecção de gatos que aparecem em pinturas medievais e já aqui estou sorridente como se me tivessem contado uma bela piada.

Diz o texto que introduz o tema que pintar gatos não é coisa para iniciados. Por acaso, nunca me deu para isso. O único bicho que me deu para pintar foi o cavalo mas, que me lembre, só aconteceu uma vez. Agora um gato... Na volta, se me desse para pintar um, apareceria aquela driving force do caraças que me puxa para o disparate e ainda o pintava com ar de safado e a fazer alguma indizível diabrura (como o bicho mau da terceira imagem que, ao que parece, deixou algum senhor em maus lençóis).

Mas, enfim, vejam se eram capazes de fazer gatinhos tão lindos e fofinhos como estes que aqui vos mostro.

Tenho um colega igual a este, quase sem queixo, boca desasada e olhinhos atentos.
Não tem é as sobrancelhas tão arranjadinhas como este.

Este, desconsolado, parece uma vizinha aqui da rua,
uma velhinha mal humorada, com ar de ser uma vencida da vida, sempre mal dormida

Deste nem sei que diga.
Querem que ele largue aquilo que leva na boca em troca de um peixinho
mas não me parece que ele vá deixar-se convencer

Este é uma gata, não é?
Não é por mais nada, é só porque me parece que tem as nails dos pés pintadas e com um corte todo artístico
Está é muito desinfeliz, coitada, com um ar mesmo melancólico e sofredor.

quarta-feira, março 28, 2018

Estou a ver o Luís Montenegro na TVI 24 e a única coisa que me ocorre é que o senhor não pode ser inteligente nem sério


E admiro-me como é que ainda há gente com paciência para discutir o que quer que seja com ele. Ana Catarina Mendes, tranquila, faz de conta que está a falar com um homem com os alqueires bem medidos e que respeita a verdade dos factos e a inteligência dos interlocutores. Ora, na verdade, Montenegro é o oposto -- e o sorrisinho sacana atesta-o.

Quando um sujeito, que tem obrigação de saber ao que anda, continua a ignorar a origem financeira sistémica e internacional da crise que assolou Portugal e vários outros países e, pacoviamente, atira as culpas para o Governo da altura (de Sócrates) que, ainda por cima, estava a seguir as recomendações europeias, só pode ser mentalmente destituído ou intelectualmente desonesto.

O que também me causa espécie é as televisões e as rádios continuarem a contratar tão fraca figura. Será que dá audiências ter um indivíduo assim a dizer parvoíces? Se calhar dá. 

Pois cá por casa, quando aparece gente destas, imediatamente fazemos zapping. Não é que a burrice e a trampolinice se pegue mas o convívio com gente assim, ainda que convívio remoto, saúde também não dá.


Cabelos, nails e facebook





Andava para ir dar um jeito no cabelo há que tempos. Como a vida tem estado por conta própria sem que eu consiga fazer o que quero ou preciso e, ultimamente, sempre, a levar-me, arrastada pelas circunstâncias, não dava. O cabelo desordenado e eu sem conseguir um tempo para cuidar dele. Sem problema. Fui fazendo o que sempre faço: da mesma forma que corto o cabelo que resta ao meu marido, corto também o meu. Volta e meia, chegava a casa e, num acto de exorcismo, ia buscar a tesoura grande da costura e, em frente do espelho, lá vai disto. Como o cabelo é basto e como gosto de me ver com ele a atirar para o despenteado, a perfeição é desnecessária.

Mas já estava a ficar um bocado fora de controlo, nem curto nem comprido, nem a direito nem escadeado. No outro dia, afoitei-me e marquei hora para um tempo depois. Mas, depois de ter marcado, o meu marido chamou-me a atenção: era a pior hora e o pior dia possível. De facto. Parece que até fico com dificuldade em organizar capazmente os meus tempos supostamente livres. Então, no sábado passado, havendo vaga já para o fim da tarde e a precisar mesmo de tirar um valente peso de cima, lá fui.


Na estação de serviço tinha comprado o Expresso para ler o artigo sobre a Agustina e, portanto, ao contrário das outras vezes, não me atirei logo às Caras, Nova Gentes ou VIP's. 

No entanto, frequentando tão raramente estes microcosmos, é sempre com grande admiração que ouço as conversas que me cercam pelo que atenção, atenção ao artigo, só o dediquei mesmo nessa noite. Ali, discretamente, fui assistindo ao que se ia passando.

A cabeleireira, a irmã que a ajuda (e que também se ocupa de estética) e mais a bela jovem que se ocupa das nails são a tripulação deste pequeno salão de bairro. Conhecem as clientes todas e, do que percebo, têm relação de amizade com grande parte delas. Terão uns trinta e tal ou quarenta e poucos anos, elas duas, e dá ideia que todas as colegas de escola ou vizinhas ali vão. Tratam-se quase todas por tu e referem maridos, filhos e amigos pelo nome e constato que a familiaridade parece ser grande. De vez em quando, a mãe delas entra e, silenciosamente, vai buscar vassoura e pá e varre o chão do pequeno espaço. Outras vezes, leva pão para a filha-cabeleireira que trabalha de pé horas a fio. Depois senta-se numa qualquer cadeira que esteja vazia e fica em silêncio ouvindo as conversas que por ali giram. Ouvi uma das clientes a conversar baixinho com as duas irmãs sobre o tempo que leva a processar o subsídio e que, mesmo não sendo muito, sempre é uma ajuda; e que ia informar-se sobre a data em que iam pagar. As irmãs agradeceram. No meio da conversa, pareceu-me ouvir falar em funeral e ocorreu-me que talvez o pai tenha morrido e que a silenciosa senhora esteja viúva. Mas pode não ser nada disso, não consegui apanhar a conversa toda.

Mas o que aqui me traz é outra coisa.


Na véspera à noite eu tinha aqui escrito sobre o facebook, sobre os riscos para a democracia e para a saúde política dos países por haver uma tão potente plataforma tecnológica completamente desregulada ao dispor de milhões e milhões de pessoas incautas, mal informadas, desprotegidas.

Pois bem. Durante todo o tempo que ali estive o facebook veio inúmeras vezes à baila. Completamente alheadas de todas as polémicas em torno dos escândalos que começam a vir a lume (a ponta do iceberg), elas falavam descontraidamente da utilização que fazem do facebook. Uma cliente mostrava imagens de outras no facebook. A cabeleireira dizia que estava a perceber qual o corte que ela queria mas que aquelas das fotografias tinham muito menos cabelo que ela. Ela então mostrava uma fotografia sua numa festa qualquer, para mostrar um penteado que tinha feito para a ocasião e que lhe tinha ficado muito bem. As outras pasmavam: 'Mas és tu?'. Ela, orgulhosa, que sim, que também tinha uma maquilhagem diferente. E mostrava outras fotografias suas. O telemóvel passava de mão em mão, todas pasmadas com a beldade que ali se mostrava. Eu, que não vi as fotografias e apenas a ela, ao vivo, não consegui imaginar qual a transformação que estava a deixar a assistência tão rendida.

Depois foi a vez da irmã esteticista: confirmou as maravilhas da maquilhagem também mostrando fotografias suas no fim do ano. E as clientes igualmente se espantavam. E ela, sentindo-se uma estrela, mostrava o vestido, o cabelo, o colar, a maquilhagem. Provavelmente selfies. E facebook para aqui, facebook para acolá. E todas sorriam, sentindo-se socialites, vampes, vip's.


Entretanto, a menina das nails, que estava desmaquilhada, dizia que no facebook nunca se punha assim como era, 'deslavada'. E mostrava. As outras já conheciam mas riam, diziam que ninguém diria que eram a mesma pessoa. Ela confirmava: só se punha nas fotografias do facebook com grandes e espessas pestanas e lábios pintados. E facebook e mais facebook e sorrisos e mais sorrisos. A sua cliente, para escolher a decoração das unhas, também consultava fotografias no facebook e hesitava: corte quadrado, corte em bico, corte bailarina. E todas iguais e apenas a do anelar diferente ou todas em bicolor ou com desenhos ou com purpurinas? O telemóvel circulava entre algumas e cada uma opinava, rindo-se de algumas decorações como se fossem pirosas. 
Nessa altura, escondi as minhas -- curtas, básicas, apenas com um brilho transparente -- por entre as folhas do Expresso. Dir-se-ia que eu, naqueles preparos, as unhas nuas, tinha saído de um outro tempo.
Pensei: se eu agora abrisse a boca e dissesse que o facebook é uma treta, que os algoritmos manipulam as pessoas, que os seus dados podem ser usados para lhes conhecerem os gostos a ponto de as conseguir levar a votar num inimigo do país, iriam olhar-me como se eu fosse uma maluca fugida do manicómio. 

Por vezes, o banho de realidade tira as peneiras a quem se acha bem informado e se julga capaz de ver ao longe. Mas de que serve ver ao longe quando não se vê ao perto?
Qual o valor da liberdade se não se puder mostrar a selfie embonecada às amigas...? De que serve uma democracia esclarecida e transparente se não existir a montra que permite todos os deslumbramentos?
Não é?


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[Foi aqui que a civilização nos trouxe? Como foi que isto aconteceu?]

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Sobre as quatro primeiras fotografias (que vi no Bored Panda): 
One of those magical objects that caught Ylinampa‘s eye was a lovely Kotisaari island in Rovaniemi, that used to be a traditional stronghold of the Lumberjacks in Kemijoki. Floating in the scenic Kemi river, it became just the right place to fulfil photographer’s wish to capture the changing beauty of nature. He documented the island from a drone through all four seasons, which resulted in four really different but mesmerizing pictures of this wonderful piece of land

A última mostra Christina Aguilera que, para uma sessão fotográfica para a Paper Magazine, se mostrou sem maquilhagem, ficando irreconhecível.


Lá em cima Marlon Williams interpreta 'Arahura'


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terça-feira, março 27, 2018

Eu, Charlie e Sergei


Se vos contasse o meu dia de hoje. 

Melhor: se vos contasse o meu dia de sábado... Não acreditariam. Se, não há muito tempo, eu soubesse que ia viver estes momentos, diria que não, que não seria capaz. Afinal sou capaz. Mas ainda me custa a acreditar. Se me dissessem que saberia reagir, que saberia relativizar a este ponto situações que são absolutas e não relativas, diria que nem pensar. Mas afinal sei reagir, sei relativizar, sei manter-me inteira e optimista mesmo em situações limites. 

Na tarde de sábado liguei à minha prima. Muito pouco a dizer. O que se sabe. O expectável. Um dia de cada vez, disse-me ela que é médica. Repeti: é isso, um dia de cada vez. Mesmo pensando que não haveria outro dia. Acordada a meio da noite a pensar, com medo, que o dia poderia já ter chegado ao fim.

E se vos contasse o meu dia de domingo também não acreditariam. Uma coisa... Incrível, incrível, incrível. Como é possível? E como sou capaz? Não sei. Mas sou. 

Somos. Somos capazes de tudo. Não só eu. Todos. 

Mil dias dentro de um único dia. Lágrimas e festa, gemidos e aplausos. Não são máscaras, não são mil faces. Não. Sempre a mesma. 

Talvez um dia conte. Mas agora não. Tudo muito, tudo muito excessivo. 

E hoje já outro dia. E, uma vez mais, mil contrastes, contrastes totais. E eu a percorrer o meu caminho como se o caminho não percorresse, ele próprio, paisagens tão díspares como se de planetas distintos proviessem. 

Tantas coisas nestes meus dias feitos de estilhaços, de reflexos, de abraços, de medos, de tudo. E as reuniões e o trabalho como se, no resto, nada de diferente se passasse. E eu, no meu trabalho, como se nada, lá fora se passasse de incomum. 

Serão todas as pessoas assim ou serei eu que não sou muito normal? Não sei. 

O que sei é que aqui chegada, às tantas da noite, não consigo aprofundar-me em dissertações inteligentes. Pelo contrário, só me apetece entreter-me. 

É como quando, in heaven, desato a varrer ou a podar arbustos e árvores como se não houvesse amanhã. Acho que é a minha maneira de atirar para trás das costas o resto de tudo o que me inquieta.

À conta disso fiz, no verão, quando em férias, uma rotura parcial num tendão: com dois internados em simultâneo, um em cada hospital, cada um pior que o outro, altas e recaídas e reinternamentos e tudo periclitante e tudo a ter um desenlace a cada momento, entre idas e vindas e telefonemas sempre com más notícias (até que, num dos casos, houve, de facto, um dramático desenlace), nos exíguos intervalos entreguei-me às lidas rurais e domésticas com uma intensidade extraordinária, como se o meu corpo tivesse a elasticidade e resistência de uma atleta profissional. Deu no que deu. E à noite aqui estava como se nada se passasse. 
(Acho eu que parecia que nada se passava mas, às tantas, os meus Leitores mais atentos e perspicazes conseguiram perceber o temporal que eu estava a atravessar)
É frequente ler-se na blogosfera relatos sofridos de abandonos ou perdas ou de doenças próprias ou alheias, preocupações com filhos, zangas com irmãos ou tios, sérios amuos com mães ou pais ou sogros, venetas fatais com chefes, insuportáveis desatinos com colegas tóxicos. Leio com admiração. A mim dá-me para o oposto.

Quanto mais o mundo à minha volta parece querer vir abaixo, mais a mim me dá para a maluqueira, para procurar motivos de risota. E o estranho é que, no meio dessa maluqueira e dessa risota, primária como sou, acabo mesmo por me bem-dispor e quase esquecer o que me assusta ou arrelia. Só quando a bonança regressa é que consigo falar do que se passou, já com algum distanciamento, e, mesmo assim, é quando é. E ao de leve. Ao de leve porque não gosto de coisas pesadas. Muito menos de pesadelos.

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E esta conversa à toa para vos convidar a ver comigo estes dois vídeos. Lindos.

Charlot, o entertainer



Sergei, o entertainer



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As imagens escolhidas estão ali, no meio do texto, apenas porque as acho o máximo. Pelo menos as duas do meio são da autoria de Gerhard Haderer.

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Trump e Kim Jong-un estão prestes a selar acordo?


Entre um e outro venha o diabo e escolha. Cada um mais doentiamente narcisista e tresloucado que o outro. Mas consta que os esforços de bastidores estão a dar bom resultado e já circulam provas do que será o intercâmbio que está a ser gizado. E, convenhamos, não surpreende.

Kim Trump
Donald Jung-un

segunda-feira, março 26, 2018

O caminho para o amor




Eu não sei qual o caminho para o amor. Nem sei ensinar ninguém sobre nada. Nem sei qual o maior ou o melhor amor, para falar sobre ele. Conheço muitos amores e todos são grandes, bons. 

Nunca procurei o amor, nunca inventei caminhos para lá chegar. Os caminhos vieram até mim ou nasceram de mim. Por isso, não sei ensinar a procurar ou a persistir nos caminhos do amor. Falta-me muita experiência na vida (mas de alguma passo bem sem ela). 

O que sei, e é certamente curto este meu saber, é que a vida é boa se vivida com amores ou memórias de amores ou sonhos de amores. 

Há a realização profissional, há a plenitude que vem com o sucesso político, há a satisfação intelectual, há o prazer estético. E haverá mais. Certamente, muito mais. E são importantes, sei que são.

Mas, e agora falo por mim, nada tem sentido se vivermos esses momentos de motivação ou realização com o coração seco. Nem sempre a vida abençoará toda a gente mas a ausência de emoção e sentimento é sempre temporária e, se o coração ainda bate, haverá a recordação ou o desejo dos ternos momentos de partilha e amor e isso é também boa companhia.

E depois. E depois há o que vive apenas dentro de nós. Por exemplo. Um momento na vida de uma pessoa, um único momento, pode ser uma tão luminosa e fértil semente que alimente de amor o resto da sua vida. E pode ser que essa semente seja, a um tempo, a fonte de uma inesgotável e doce memória e também a fonte de mil esperanças, de loucos e ardentes sonhos. 

Mas não sei dar lições. 

Sei pouco e o que sei é coisa cá minha. Sobre a mesma coisa podem os outros ter entendimento diferente e não discuto qual o mais certo. Posso apenas dar o meu testemunho. 

E o meu testemunho é este: agarro, com alegria e agradecimento, o que de bom a vida me dá. Conheço quem queira sempre mais e queira sempre diferente, assim passando a vida numa demanda pelo que não têm. Eu não. Eu vejo o lado bom e festejo-o. E se a vida me dá coisa que me inquiete ou desagrade, eu tento superar e tento encontrar uma explicação fácil, que me sirva de consolo, e arranjar força para seguir em frente.

Este domingo estive com o meu pai, tão, tão débil, tão ausente.

Estive com a minha mãe, forte, lutadora, frágil, alegre, jovem.

Estive com os meus queridos e tão amados filhos, sempre de coração aberto, sempre bem dispostos, um sorriso feliz na maneira de ser. Estive com aqueles que os seus corações escolheram.

Estive com os meus cinco pimentinhas, amores redobrados e totalmente incondicionais, sempre tão alegres, eles, ruidosos, irrequietos, brincalhões.


E estive com aquele que o meu coração ama. E com aqueles que recordo com amor e que sempre me acompanharão.  

Não sei tecer mais considerações ou dar lições. Sei só o que sinto e que os meus caminhos e os daqueles que amo estão entrelaçados com leveza, com inteireza, sem grandes palavras, sem grandes explicações.

E o meu coração sente-se agradecido.

Julia Prinsep Jackson, mais tarde Julia Stephen, sobrinha e modelo preferida de Cameron (e mãe de Virginia Woolf)

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As fotografias são da autoria de uma mulher fotógrafa, Julia Margaret Cameron (1815 - 1879)

Lá em cima Marlon Williams interpreta Make Way For Love

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Valtinho, melga confesso, enerva-se com o Herberto Helder



Teve um poema em que dialogava com Herberto Helder. É um deus?
É verdade... O Herberto Helder foi para mim das figuras mais iluminantes do mundo e vivi com a ansiedade de o poder conhecer. Mas o Herberto não era acolhedor. Cheguei a falar com ele por telefone umas duas vezes e até lhe bati à porta - teria uns 26 anos -, e falámos pelo interfone. Não abriu a porta nem me quis receber. Disse que só queria apertar-lhe a mão e ter o privilégio de olhar a cara dele uma única vez; recusou e disse que não desceria nem abriria a porta. Depois disso, disseram-me que estava sempre num café, mas achei que não me competia aproximar mais dele. Foi o que fiz, deixei-me estar. Magoou-me e vai magoar-me a vida toda o facto de ele não ter tido normalidade suficiente para me cumprimentar, mesmo que continue a ser uma personagem divina no meu universo.
O poema não está nesta antologia!
Não está e nem desgosto dele, mas o Herberto Helder enerva-me e por isso não está no livro.

[excerto do artigo: "Herberto Helder enerva-me, por isso não está neste livro", com uma entrevista feita por João Céu e Silva a Valter Hugo Mãe]

domingo, março 25, 2018

Champanhe para Agustina. Tchim-tchim!



(A filha, Mónica) vem todos os dias à casa do Gólgota ver se está tudo em ordem, agora que só cá vive a escritora, sempre acomponhada por uma senhora que toma conta dela e a segue como uma sombra. "Nunca a sua presença foi tão forte na casa. Sentimos a sua força, a sua intensidade, só que agora já não interfere. Só há o silêncio. Às vezes é muito desconcertante.", diz. Como um enigma.

Confere que a mãe acabou de almoçar e bebeu uma taça de champanhe. Faz questão de beber uma taça ao almoço e outra ao jantar, um hábito que adquiriu desde de que estabilizou depois do AVC, naquele acto de voluntarismo que espantou a neta. A filha interpreta esta vontade de champanhe a acompanhar cada refeição como a celebração de mais um dia. 

Das imagens mais fortes que guarda de Agustina é dela na sala, a escrever com uma prancha em cima dos joelhos, papel e caneta na mão. Mónica entrou de repente na sala, a mãe interrompeu-se e deu-lhe atenção, depois regressou ao texto, numa expressão que a filha estranhou, "como em transe". Como se tivesse passado por um mundo diferente.



[Excerto do artigo "Agustina íntima" de Ana Soromenho, no Expresso deste sábado que comprei de propósito para ler este artigo.  As fotografias obtive-as eu na net, ou seja, não integram o artigo]


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Já agora permitam que partilhe um vídeo que estive agora ver: 

Agustina, no Porto, à conversa com Manoel de Oliveira




E, uma vez mais, o documentário "Agustina Bessa-Luís - Nasci Adulta e Morrerei Criança"



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Tchim-tchim!

O dia em que Alberto, depois de, dois dias antes, ter estendido um tapete vermelho para Agustina, a deixou sozinha na sala





Com 94 anos [Alberto Luís, marido de Agustina] parece ter a energia renovada na urgência em deixar pequenas coisas prontas. Um arranjo nos degraus de um corredor interior para atenuar a descida que liga a ala da mulher ao resto da casa, agora adaptados ao andar de passarinho de Maria Agustina. O trabalho terminou na sexta-feira ao fim da tarde, quando a madeira foi coberta por um tapete vermelho. Uns dias antes, Alberto andara com o jardineiro a passear pelo jardim e tambémlhe dera indicações; a laranjeira velha teria de ser deitada abaixo, as hidrângeas secas deveriam ser substituídas por outras novas, talvez em Setembro voltassem a florir o jardim do Gólgota. 

Sábado à noite, telefonara a Mónica, a única filha do casal Bessa-Luís, por causa de uma série de fotografias de viagem que estão a organizar. Mónica não conseguia identificar algumas pessoas e ia levá-las para o pai a ajudar. Era o trabalho para o dia seguinte. Para esse domingo de 12 de Novembro de 2017.

Às dez da manhã, quando Agustina acordou, já havia um burburinho pela casa. Tomou o pequeno-almoço e decidiu a roupa que queria vestir, como sempre faz. Depois foi para a sua sala, onde ela e o marido passaram juntos os últimos onze anos, ele a ler e a trabalhar, ela sentada na sua mesa de trabalho, no lugar onde sempre escreveu. Só muito tempo depois perguntou: "O Alberto?". Quando lhe contaram que o marido tinha já morrido, ficou serena, expectante do momento seguinte.




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Tal como no post abixo, o texto em itálico é um excerto do artigo 'Agustina íntima' de Ana Soromenho no Expresso de dia 24 de Março de 2018. A bela primeira fotografia é uma das que ilustra o artigo. As duas outras, obtidas na net, mostram Agustina e Alberto.


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E queiram descer até ao post que se segue caso tenham vontade de festejar cada dia de vida de Agustina com um copo de champanhe

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sábado, março 24, 2018

Em dias de chuva, um certo sentimento de seca.
[E, de passagem, a origem das entrevistas de emprego e a cena do alentejano com o punk]



Por vezes dou por mim, no meu dia-a-dia laboral, a pensar que estou prestes a atingir o ponto de saturação; e o pior é que começa a acontecer com alguma frequência. 

Exemplifico:
Aturar colegas que precisam de, a cada momento, dar de comer e beber ao próprio ego ou que os outros lhes afaguem o dito -- não há pachorra
Aturar colegas que caminham desordenadamente, saltando de galho em galho, incapazes de seguir a direito ou de produzir coisa consistente que se veja -- não há pachorra
Aturar colegas que padecem do mal compulsivo de exibicionismo, de cada pequeno nada fazendo um tremendo e ridículo show-off -- não há pachorra
Aturar colegas que se acham a última coca-cola do deserto e que, vá lá saber-se porquê, querem impor aos outros as suas estúpidas maneiras de trabalhar -- não há pachorra
Aturar colegas que, mesmo que o céu caia em pedaços, continuam a, paulatinamente, dar os seus pequenos passos, incapazes de um golpe de rins, de um golpe de asa, como se o mundo pudesse esperar por eles -- não há pachorra
Aturar colegas que, por medo de ouvirem um não, são incapazes de perguntar e, por isso, só fazem escusados disparates -- não há pachorra
Aturar colegas que, quando em entrevistas de trabalho, não percebem que o candidato é um calhau com olhos e continuam a fazer perguntas e mais perguntas como se a criatura pudesse ter qualquer hipótese, alimentando-lhe falsas expectativas -- não há pachorra
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Mas, enfim, é sábado, não vale a pena estar com conversas destas

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E, à falta de tema mais profundo, uma anedota chegadinha por mail


Num autocarro, um velho alentejano senta-se num banco mesmo em frente a um punk de cabelos compridos, com crista parecida com um galo, madeixas verdes, azuis, rosas e vermelhas.

O velho fica a olhar para o punk e o punk a observar o velho, ambos calados.

O punk vai ficando cada vez mais nervoso até que não aguenta mais e pergunta ao velho:
- O que foi, amigo? Você nunca fez nada de diferente, quando era jovem?
O velho responde:
- Sim, fiz! Quando era jovem, dormi com uma galinha...e agora estava cá a pensar: "...Será que este cabrão é mê filho?!..."
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As imagens mostram pinturas de Fernando Botero

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As pessoas eram as donas da Web. Os gigantes tecnológicos roubaram-na.



Social media gave the powerless a weapon but it was wrenched away by firms such as Facebook and Cambridge Analytica



Witness the model built by researchers at Stanford and Cambridge that, simply by looking at your Facebook “likes”, can assess your personality with a startling degree of accuracy. It takes just 10 “likes” for the computer to know you better than your work colleagues. Give the machine 150 likes and it can predict you more accurately than your parents or siblings. Give it 300 and it knows you better than your spouse. No wonder the Trump campaign and so many others were ready to hand over big money to Cambridge Analytica. This week I met Hossein Derakhshan, a true Homo digitalis once known as Iran’s “blogfather”, whose activities earned him six years in prison. “Predictability is control,” he told me, recalling the hold his jailers had over him. Once you can predict someone’s actions and reactions, you can control them. (...)

Digitally speaking, the 21st century “belongs to the illiberals”, he says. The technology is available to anyone, but it’s Moscow that dares fund a troll factory, the Internet Research Agency in St Petersburg, pumping out lies and hate. London or Washington would not make so egregious a move, either because they’d regard it as a violation of their democratic norms or because they’d fear exposure, depending on your degree of cynicism. But the Kremlin bows to no such constraint. (...)


[Artigo de Jonathan Freedland, no The Guardian]

sexta-feira, março 23, 2018

As desculpas de Zuckerberg e as promessas de que vai corrigir o que esteve na origem do brutal fuga de informação do Facebook, deixa-te mais descansada, ó Sta UJM, e vais, finalmente, abrir uma conta no Facebook....?


É o vais...!

Explico.

Não é possível garantir que não volta a acontecer porque já aconteceu, certamente, muito mais vezes e porque, de facto, de facto, não é possível garantir que vão corrigir o que quer que seja ou que não se forjarão novos buracos por onde os dados poderão vazar sabe-se lá para onde. E não será apenas com os bandidos do Cambridge Analytica mas com muitas, muitas outras empresas.

Como diz Steve Bannon: “Facebook data is for sale all over the world”.


É da própria natureza do Facebook: é um repositório de informação alimentado por quem lá a põe indiscriminadamente (e, por informação, leia-se: o que se escreve, as fotografias ou filmes que se partilham, os likes, etc) e é um modelo de negócio que consiste em vender publicidade e espaço para as empresas lá colocarem apps, anúncios, etc. E tudo o que lá se põe pode ser visto por gente e gente e mais gente e mais gente. E as próprias apps podem, elas próprias, ser portas de passagem para os dados ou buracos disfarçados ou armadilhas. E a larga escala a que tudo se passa e a forma aberta como tudo funciona torma tudo isto literalmente impossível de agarrar. 

Admito que provavelmente as pessoas mais incautas acham que o que estão a colocar nos seus perfis ou murais de facebook está a salvo -- ou porque dizem que é só para os amigos verem ou porque acham que é qualquer coisa que está apenas nos seus computadores. Não. Na verdade, estão a pôr essa informação em computadores da empresa Facebook, computadores que estão algures, geridos por uma rapaziada aventureira e ondem correm programas (e algoritmos) engendrados também por rapaziada que gosta de experimentar cenas.


Relembro que Mark Zuckerberg é o mesmo menino que, quando estava a começar a sua aventura facebookiana, disse: "I have over 4,000 emails, pictures, addresses, SNS. People just submitted it. They "trust me". Dumb fucks." Dum fucks - ou seja, em linguagem mais de salão, os 'totós' que lhe entregam toda a informação, mesmo a privada, sem ele ter que pedir nada. Assim falava ele dos incautos que abriam conta no Facebok.


E é que é tudo em tão vasta dimensão e cresce tão exponencialmente que o seu controlo é materialmente impossível. Ao estar aberta a milhões e milhões de utilizadores mal informados ou a apps que podem conter código malicioso, o Facebook não pode garantir o que quer que seja.

Sabem os meus Leitores que as minhas reservas e os meus cuidados sobre o Facebook são de sempre. Por isso o que se está a passar não me deixa admirada. O que está a acontecer é apenas o óbvio. 

E o que me preocupa não são os malefícios individuais de quem se vê alvo de intrigas por parte de 'amigos' ou de quem se vê objecto de perfis falsos ou de saber que fotografias suas são usadas por terceiros não autorizados. Isso é aborrecido mas é a pequena história. Também não me preocupa a distorção de comportamentos que leva as pessoas a tornarem-se exibicionistas, expondo ao mundo o que vestem, o que comem, o que vêem, o que dizem a toda a hora, tirando selfies compulsivamente. Isso perturba-me um bocado mas é um mal menor. O que me preocupa é o grande mal.

O conhecimento exaustivo de dados de populações inteiras permite, a quem o queira, fazer o que quiser com essa informação. Para já é sabido que conseguiram manipular a população de um país a votar o Brexit ou, noutros, a votar nos alarves que quiseram.

O que temo são, pois, os atentados descontrolados à democracia -- e digo 'descontrolados' porque são situações obscuras a que as instituições normais (políticas, judiciais) não conseguem aceder ou monitorizar ou evitar ou, sequer, perceber.

E não me refiro (apenas) ao facto de os partidos (e logo os parlamentos) ou as magistraduras e demais instituições dos regimes democráticos estarem infestadas de gente de quinta categoria, gente cada vez mais medíocres, mais impreparada e que, por via da sua deficiente escolaridade e experiência de vida, cai em qualquer esparrela e são pouco mais do que verbos de encher.

Anunciam-se agora inquéritos, possíveis coimas, campanhas para se apagarem as contas. Não chega.

Estamos perante potentes plataformas tecnológicas que são um risco real, especialmente quando o mundo não está preparado para saber regular monstros desta dimensão e natureza.

Estamos agora debaixo de outra polémica com as tarifas decretadas por Trump contra as importações de bens oriundos da China -- e qualquer dia podem ser sanções contra as importações da UE ou pode ele decretar guerra a um país qualquer ou pode fazer mil outras coisas que façam tremer os alicerces dos frágeis equilíbrios internacionais. E, como pano de fundo a tudo isto, teremos sempre as redes sociais, prontas a difundir notícias inventadas ou a alardear factos forjados ou a manipular opiniões públicas. 

E isto não é ficção ou futurismo. Isto é a realidade. Uma realidade perigosa.

Não sei no que vão dar todos os inquéritos e investigações que estão a ser postos em marcha mas eu não tenho dúvidas de qual a medida que a democracia e o direito a uma liberdade esclarecida e responsável deveriam impor: o fim do Facebook.


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As imagens são da autoria de  Gerhard Haderer e estão aqui apenas porque lhes acho imensa piada e colocá-las aqui no meio do que escrevi parece-me tão boa opção como outra qualquer.

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Por mera curiosidade (e não para ilustrar o que acabei de escrever):

os Williams, Lucinda e Marlon, falam do Facebook.


Já agora, para quem não sabe quem é Marlon Williams, para que este post tenha uma coisa boa, aqui fica um vídeo que mostra quem ele é. E aviso desde já: gosto dele que me farto.



Já agora, um vídeo também com a Lucinda Williams.


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