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terça-feira, agosto 04, 2026

Ah, a difícil vida no campo...

 

De manhã, o tempo estava fosco, fresco, e chegou a chuviscar. Da terra molhada subiu aquele perfume bom que faz sempre lembrar-me a longínqua e tão presente emoção do regresso às aulas.

Depois abriu, o tempo aqueceu. 

Há folhas secas por todo o lado. A caruma parece que atrai toda a espécie de folhagem. Estávamos a contar que o rapaz conseguisse cá vir soprar e aspirar o espaço em volta da casa e alguns caminhos. Afinal, mais uma vez, não conseguiu. Por aqui é muito difícil encontrar quem faça estes trabalhos. Por isso, mais uma vez tive que voltar à minha vassoura. É daquelas volumosas, pesadas, com as franjas em aço. As mais leves não têm força para isto. Ao fim da tarde já tinha a feridinha do costume na mão. O meu marido continuou a sua árdua tarefa de transportar os troncos cortados para junto da lenha e as ramagens que estão espalhados por todo o lado para junto dos montes imensos que, quando puder ser, serão queimados.

Pelo meio, frágil pecadora, fui-me enchendo de figos. Estão dulcíssimos, gordos, suculentos, irresistíveis. Não sei quantos quilos a mais já coleccionei. Depois, há um fenômeno que penso que deveria ser seriamente investigado: se eu comer meio quilo de figos, engordo um quilo. Se, no dia seguinte, comer mais meio quilo engordo mais quilo e meio, que se soma ao quilo da véspera. Uma coisa exponencial, muito dif´cil de controlar. 

Acresce que fomos almoçar a uma tasquinha numa aldeia vizinha. Puseram na mesa uma cesta de pão e broa e uma tigelinha de azeitonas bem temperadas. Marchou tudo. É certo que a dividir por dois mas, ainda assim, um estrago adicional. De entrada, não resistimos a ovos com farinheira. Pior um pouco. O prato nem digo o que foi, muito menos falo das deliciosas batatas fritas e da saborosa maionese caseira. No fim, deveria ter-me feito rogada a uma tarte de amêndoa com uma bola de gelada. E fiz-me. Só comi metade. Mas de certeza que aumentei mais dez quilos. 

Portanto, não sei como, mas vou ter que arranjar forças para me embrenhar num jejum. Mas não é daqueles a fingir, tem mesmo que ser a doer. Vai é que ter que ser como o voto de castidade do Santo Agostinho: mas ainda não, mas ainda não...

Já agora, a propósito dos figos diabólicos, vou aqui reincidir num texto maravilhoso do D. H. Lawrence sobre como comer um figo. Os apertadinhos tapem os ouvidos. Avisei.

Cena de Mulheres Apaixonadas

Dias felizes

quarta-feira, julho 31, 2024

Andam anjos in heaven?
Ou vamos mas é ao que interessa: a minha voz é igual à de José Castelo Branco?
(Se acharem que sim, agradeço que me poupem)

 

Dormi que foi um regalo. Acordei tarde, acordei descansada. 

E foi um dia bastante produtivo. 

Tenho sempre muitas coisas que fazer e isso agrada-me, em especial quando são coisas que me agradam (passe a redundância). Mesmo quando trabalhava, quando não havia coisa nova e se entrava quase na monotonia, ficava stressada. De vez em quando, o Grupo comprava empresas e era preciso assimilá-las rapidamente, metê-las no perímetro de gestão das empresas do grupo (metê-las no sentido de enfiá-las, nem que fosse contra a vontade delas), organizá-las, pô-las a funcionar como as demais, e tudo em prazo recorde. Se grande parte dos meus colegas ficava em ponto de rebuçado, achando que eram prazos impossíveis, que as circunstâncias eram irrealizáveis, toda eu vibrava.

Nada me agradava mais do que ter desafios que pareciam irrealistas e equipas descrentes ou equipas que tinham que ser formadas à pressão para começarem a colaborar nesses projectos. Mesmo quando era acusada de me atravessar 'à maluca' ou me atirar para a piscina ainda sem saber se teria condições para isso, e mesmo se eu própria, cá para mim, me assustava e pensava 'caraças, para que é que me fui meter nisto...?', a verdade é que essa adrenalina era um tónico indispensável para a minha existência.

Agora, reformada, também não paro de me meter em cenas e de me atirar 'à maluca'. Gosto de arriscar, gosto de ir à luta e, apesar das derrotas (que tendo a encarar como percalços naturais), muito dificilmente desisto. Posso ajustar o rumo, posso repensar estratégias mas desistir é para mim muito difícil.

Bem. Adiante.

A meio da tarde deitei-me cá fora e pus-me a olhar para o céu. E só pensava: 'Azul'. Ou não pensava nada, simplesmente olhava. Estive ali durante muito tempo a olhar para o céu e a única coisa que atravessava a minha mente era a palavra azul. Depois reparei que, muito lá em cima, um pequeno pontinho branco se movia. Como estava presa ao 'azul' levei algum tempo a pensar: 'avião'. Mas logo retrocedi e me fixei no mesmo: 'azul'. Depois ocorreu-me que, se calhar, estava a meditar. Para a coisa ser mais consubstanciada, pus-me a fazer respirações. 

No fim estava ainda mais descansada. 

Depois estraguei tudo. Fui aos figos. Comi uns poucos. E isto preocupa-me pois já sei que a balança vai castigar-me. Mas é o que é. Parece que nasci mais para pecar do que para ser abstémica.

E, como habitualmente, andei a passear in heaven e, mais uma vez, me deu para fazer vídeos. Fiz dois. Mas, para não ser uma overdose de maluqueira, hoje partilho apenas um.

Um dia destes tenho que ver se é possível transformar os vídeos feitos com telemóvel em vídeos de écran inteiro. Acho que seria melhor, não acham?


Dias felizes para todos!

quarta-feira, agosto 10, 2022

Um chouriço estrelado e um saco de luxo

 

Este mundo é cheio de mistérios e eu não sei é mais nada. A gente vai andando e, se estiver com atenção, é surpresa atrás de surpresa. Só se ficarmos fechados sobre nós mesmos é que não divisamos nada do que, à nossa volta, aparece. Quando olhamos e vemos ficamos a pensar que devemos ter nascido na véspera ontem para nunca antes termos dado por nada.

Comigo é assim. 

Sempre achei que sabia pouco e até ficava a recear que se descobrisse que ainda sabia menos do que eu e toda a gente pensava. E, talvez até por isso, sempre tive uma insaciável vontade de aprender. Sempre com curiosidade e sempre a querer descobrir coisas novas. Sempre aflita por haver tanta coisa ainda para aprender. Mas, desde há algum tempo, comecei a perceber que o tempo é curto demais para tudo o que há para saber. Não vale a pena. Vale a pena é prestar atenção, dedicar carinho e cuidado ao que nos rodeia, aproveitar bem o prazer dos instantes. 

E achar graça às coisas, às pequenas coisas: à graça dos pássaros, à graça das flores, à graça das palavras, à graça das crianças, à graça das sombras que as árvores desenham nos muros, à graça dos sons perfeitos, à graça dos momentos felizes.

Hoje estive no campo, trabalhei a partir de lá. À hora de almoço fui dar uma volta e surpreendi-me com a suave carnadura que os figos já mostravam. Deitei mão a um e, nisto dos figos, da mão à boca vai menos que um segundo. Estão com aquela gota que brilha ao sol. Figos pingo de mel. Comi vários. Todas as épocas do ano são tentadoras para quem é dado a tentações. O natal é porque é o natal, depois são os aquários que aparecem a pedir parabéns, depois os carneiros, algures por aí a páscoa, dos caranguejos nem se fala, festas, bolos de anos, férias, leões à mão cheia, e, como se não bastasse, pelo meio, os figos. Um e outro e outro e outro, uma fiada deles a caminho da boca. Gordos, carnudos, doces, dulcíssimos. 

Claro que a seguir virão as uvas, pérolas sumarentas, doces, macias. E antes já tinham vindo as nêsperas, néctar suave e dourado a desfazer-se na boca.

Como resistir-lhes?

Ao fim do dia, reguei as laranjeiras que estão tão secas. Que pena me dão. Receio que passem muito mal até ao fim desta secura. A terra está toda ela uma tristeza, ressequida. Até os arbustos mais campestres dão mostras de desidratação. Olhei para o céu na esperança de descobrir uma nuvem, mesmo que furtiva. Nada. Uma aflição.

Depois fui apanhar figos. O urso felpudo andava maluco, também a querer apanhá-los, a mordiscá-los. Enchi um saco e estou com vontade de comê-los em todas as formas e feitios: com kefir, no forno a acompanhar assados, com queijo e mel. Uma irresistível tentação.

No regresso, já de noite, deu-me uma daquelas vontades. Yoggy cherry. Bom, com aquela acidez boa do iogurte e o travo intensificado da cereja, mas muito doce, devem ter-se distraído na quantidade de açúcar. Mas comi-o todo, na mesma.

Claro que jantámos tardíssimo. 

Aqui, fui espreitar as notícias. Tenho sempre aquela curiosidade de ver se aconteceu uma grande descoberta, um feito inaudito, uma inspiração divina. Qualquer coisa que faça com que o dia tenta valido a pena. É isso que procuro. Aconteceu alguma coisa que mude o rumo dos acontecimentos? Que mude a nossa perspectiva sobre os grandes dilemas da existência?

E... não é que aconteceu...?

Étienne Klein, um cientista, tirou uma fotografia a uma rodela de chouriço e inventou que era um novo astro fotografado pelo Webb. E a malta caiu. E a graça maior é que o cientista não é um qualquer cientista maluco. Não senhor. É, imagine-se, físico e filósofo (uma mistura explosiva): é francês, diretor de investigação da Comissão Francesa de Energia Atómica. 

E depois de ter caído que nem uma pata, já babando perante a Proxima Centauri, a malta, para não dar parte de fraca, virou virgem ofendida -- e agora o pobre do Étienne teve que vir pedir desculpa. Sentido de humor é coisa que as virgens ofendidas não têm.

Pedir desculpa por uma ideia tão genial? Tirar uma fotografia a uma rodela de chouriço e anunciar ao mundo que o telescópio tinha feito uma sensacional descoberta...? Caraças. Como é que alguém se ofende com uma destas...? Eu acho o máximo. Uma rodela de chouriço a ser tomada por uma estrela em vias de ser descoberta. O máximo. Tão de excepção que até me apetece encher o texto de lol, lol, lol, loh. Ou ahahahahaha.

Ao que comecei por não achar o máximo mas a que acabei achando foi uma outra que quase parece brincadeira de mau gosto. 

Saco de plástico, daqueles do lixo, a lembrar os sacos que os refugiados enchem de pertences quando fogem em busca de um destino mais seguro -- mas vendido pela marca Balenciaga. No fim do desfile, até houve um piscar de olhos de solidariedade para com a Ucrânia. 


Uma coisa a modos que bizarra. Já para não dizer descabida. Mas, vai-se a ver e parece que o saco não é propriamente de plástico, que não é de lixo coisíssima nenhuma, saco de luxo é que ele é, pele ou lá o que é, e que custa nada mais, nada menos que a módica quantia de 1.400€. 

Coisa de doidos, dir-se-á. Mas, pensemos, se é coisa inócua e se há doidos que gostam e que dão dinheiro por isso, então, a ideia é capaz de não ser tão má assim (e melhor seria se a marca doasse o que ganha com os sacos a organizações que apoiem os refugiados).

Ou seja, pensando bem, há malucos para tudo e se calhar a mais maluca de todos sou eu que ainda não percebi bem isso.

Tirando isso, está tudo bem. Ou seja, tá-se.

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

Saúde. Coragem. Paz.

sábado, março 28, 2020

De que falamos quando falamos de um tempo fora do tempo?






Continuo a não ver aviões. Pelo contrário -- ou talvez também por isso -- sinto que as árvores estão povoadas por cada vez mais pássaros. Cantam, cantam. Parece que estou num recanto do paraíso. Não há sons de gente, não há poluição. 


Tudo floresce e, em volta das flores, há sempre abelhas e outros insectos. Algumas árvores apresentam-se já com pequenos frutos. Os figos que, no verão, estarão pesados, carnudos e doces, são agora umas amostrinhas verdes. As nêsperas já começam a ganhar tamanho e começam a querer ter cor. Penso nelas, sumarentas e doces, e no prazer que terei a comê-las.


Ocorre-me que, se calhar, este ano vou antecipar-me aos pássaros na degustação das ameixas.

Ultimamente, pelos caminhos, à minha frente, vai geralmente uma borboleta. Não sei se é por vontade dela, se apenas coincidimos no espaço e no tempo, eu, silenciosa, ela efémera e bela, ambas sem propósito.

Vejo também cada vez mais lagartixas. Vou a andar e a senti-las a esconderem-se à minha passagem. Talvez não seja medo, só vontade de brincadeira. Tenho vontade de me deixar estar, um dia, sentada no chão, imóvel, em silêncio, para ver que bichos se abeiram de mim. 

O meu dia foi, de novo, ridiculamente intenso. Estou em casa e sem tempo para ela. Isso perturba-me. Em casa, estou habituada a ser rainha e senhora. Agora sinto-me escrava das circunstâncias, habitante improvável.


Fui dar um passeio pelo campo perto das sete da tarde. De novo, muito frio. Caminhei enquanto o sol se punha, aspirei a frescura, enchi o peito de ar perfumado, senti-me mais forte, talvez um pouco mais livre. Quando seriam as sete, ouvi, vindo do lado da serra, o som de um sino. Será que, algures numa aldeia perdida no tempo, ainda vai alguém à capela tocar o sino como se estivesse a chamar os fiéis para o culto? Será que ainda há pessoas na rua? Ou estarão também fechadas em casa como estão tantas pessoas no mundo?

Regressei a casa, já quase anoitecia. Quando a luz se esvai chegam os sons esquivos da noite, um rumorejar, um rastejar, um indefinido bater de asas. Nada se vê. São sons que me arrepiam.

Não passei perto da gruta. Pensei que o ser melancólico e solitário que talvez a habite poderia não gostar de me sentir por perto. Tive medo. As noites são perigosas. Não sabemos quem nos espreita. Talvez um lobo, talvez um louco.


O frio entranhou-se-me. Vim pelo caminho mais longo. Quando cheguei a casa, vesti logo um casaco quente, preparei uma infusão de cidreira e casca de limão. Fiz um arroz com azeite, cebola, alho, cenoura, tomate, salsa, feijão verde, ervilhas e umas lasquinhas de bacon para temperar. Ficou mesmo bom. Serviu como acompanhamento das costeletas que tinha posto no forno à hora de almoço, apenas com um fio de azeite, alhos, orégãos, em calor brando. Claro que à hora de jantar já estavam frias mas deu-se-lhes uma aquecidela e fizeram um gostoso pendant com o arrozinho. Temos comido bem, acho eu. Mas é cansativo. Habituada a ter refeições fora várias vezes por semana, agora obviamente comemos sempre em casa. Sempre a cozinhar, sempre à pressa e sempre a comer à pressa. Mas hoje o jantar foi mais vagaroso. Em tempos, numa vida que quase me parece longínqua, às sextas-feiras à noite eu ia passear à beira-mar e jantar na praia. Agora recordo-o com aquela saudade acrescida que advém de não saber quando poderei retomar essa minha outra vida. 

Para este sábado pensei dedicar-me à arrumação e limpeza, lavagens daquelas que gosto de fazer. A ver se dá tempo para tudo. Mas também há uma secretária grande para montar. Em tempos, numa outra vida que recordo ainda mais esbatidamente, tive uma secretária grande, de madeira de verdade, com um canto em redondo. Depois deixei de ter onde guardá-la e foi desmontada. Há tempos, decidimos que cá é que estaria bem, no estúdio. Talvez seja a tal mesa sob a janela que dá para as laranjeiras à qual me sentarei a escrever. Mas não sei se nos aventuraremos. Agora parece tão difícil, tantas peças, tudo tão pesado. A ver.


Assim vão estes meus dias. Sem perceber onde acaba o presente e começa o futuro ou sem perceber se o futuro será uma espécie de continuação do que era antes ou se vai ser um salto no escuro, não consigo situar-me na linha do tempo nem formular desejos.

Hoje, numa reunião, defendi uma medida radical para o day after mas os meus colegas não quiseram nem sequer pensar nisso, acreditam que dentro em pouco nos reencontraremos fisicamente e voltaremos ao business as usual. Custa-me que não percebam que o mundo tal como o conhecemos é coisa do passado e custa-me pensar que, no day after, em vez de estarmos num mundo entretanto reconstruído, ainda possamos ter a maior parte das pessoas a querer reencontrar um mundo que ruiu.


Mas já chega desta conversa inconsequente. Quando comecei este post tinha acabado de ver o maravilhoso vídeo que vou partilhar e tinha pensado que ia limitar-me a partilhá-lo. Afinal, distraí-me dos dedos e, quais crianças irrequietas, desataram nisto, a fazer o que lhes dá na real veneta. Seja, que brinquem sempre que lhes apeteça. Quem sou eu para cercear a sua liberdade?

Voa, Sergei, voa. 
Enquanto é tempo.



A todos desejo um bom sábado.

Saúde.

domingo, agosto 18, 2019

Crónica de um dia in heaven recordando chormigas na cotas, janténas, descobrindo brinquedos all over, livros transgeracionais, fardas azuis, argolas a la Carmela, pernadas vergadas, figos escorrendo mel cor de rubi, parafusos a mais, havaianas a menos e etc.



A indolência é bicho mais corrosivo que o cansaço. Se à indolência se colar a espessa camada de preguiça que emana do calor na pele, então, fica a coisa ainda pior. E que calor hoje aqui tem estado. Só ao entardecer se levantou uma aragem mais forte.

Deveria ser bom sair pela noite, mergulhar numa piscina de água fresca, negra, apenas umas luzes marinhas num dos cantos para orientação ao emergir. Ou sair nua por entre as árvores, ouvir a respiração quieta dos animais, deitar-me na terra adormecida e fresca.

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Mas estou dentro de casa, com calor, deixando que a lassidão me tolha os movimentos. Tinha pensado que hoje, bem dormida, estaria aqui cheia de energia a responder a comentários transactos, a mails antigos. Mas não. Nem ainda arrumei metade do que deveria ter arrumado. Dormi, preguicei, li, comi figos, fotografei, vi televisão. Tudo na maior lentidão, no maior langor. 

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O dia foi tranquilo. À chegada, enchi-me de sorrisos. 
Quando estamos apenas os dois, antes de sair, arrumo a casa (apesar de, quando só os dois, pouco desarrumarmos). Gosto de, ao chegar, encontrar tudo no seu sítio. Mas se a casa está cheia e saímos todos ao mesmo tempo, é impossível pôr-me com arrumações. Saio conforme a casa está, em pleno desalinho, vibrante de confusão.
Abrindo a porta e andando pela casa foi quase como se ainda cá estivessem todos, tanta a alegre desarrumação com que me ia deparando.


Pelo caminho vinha a lembrar-me das conversas do bebé, comentando-as com o meu marido, rindo-nos os dois. Por exemplo, dizia ele, no outro dia, à tia: 'Tá chormiga na cotas'. Ela riu-se: 'Ó rapaz, dessa conversa agora é que não percebi mesmo nada'. Ele encolheu levemente os ombros. Mas a mãe, que é boa intérprete, questionou-o sobre se a sua leitura estava correcta 'Está formiga nas costas?'. E ele: 'Chim...'. Achámos graça à chormiga e rimo-nos, sem atribuir grande sentido à coisa. Mas a mãe, cautelosa, fez mais que isso: por via das dúvidas, espreitou-lhe mesmo para as costas. E pimbas, caçou-a: 'E não é que tinha mesmo uma formiga nas costas?!'. Fartámo-nos de rir.

Pouco depois fui encontrá-lo a brincar com um objecto desconhecido. Perguntei: 'O que é isso?'. Ele disse, como que admirado por eu não saber: 'Uma janténa...' e só faltou dizer 'dahhh....'. Olhei para aquilo e tentei perceber o que seria uma janténa. Não percebi: 'Uma janténa?'. Ele então explicou: 'Dá uz a xenda'. Ui. Na mesma. Então a mãe que estava por perto, descodificou: 'lanterna, dá luz na tenda'. Olhei melhor. Claro. Uma lanterna nova geração, totalmente diferente das lanternas que conheço. Pouco antes tinham estado a acampar e levaram, então, a dita lanterna. Mas eu, outra geração, se visse aquilo à venda, jamais desconfiaria de que se trataria. Hoje, quando vi a nossa lanterna pré-histórica em cima da bancada da cozinha, pensei que o bebé, se a visse, se calhar nem percebia que também é uma janténa.

Enfim.


O que sei é que, hoje, à chegada, descobri um parafuso em cima de uma mesa, ao lado de uma roda, e não faço ideia de onde ele veio. A roda é simples: algum carrinho desrodado. Agora o parafuso... A ver se não cai para aí nada que aquilo devia estar a prender alguma coisa.

E achei uma pequena havaiana que fotografei e enviei sms a saber a quem pertencia. Bingo. Era uma das que estavam desaparecidas de um dos meninos. Ainda não encontrei a outra mas tem que andar por aí. Há-de aparecer.


Também foram encontradas umas calças de pijama de homem e um ursinho de peluche que dá pelo nome de Tedy. 

E também reuni, para fotografar e aqui ficar pró-memória parte dos ganhos das rifas que o grupo que cá estava a passar férias tinha ganho quando, à noite, foi à festa numa aldeia nas redondezas. Aliás, na véspera, aquando do telefonema diário, um dos meninos pediu para eu passar o telefone ao avô, que tinha uma boa notícia para lhe dar: tinham uma farda azul para ele. E depois várias vozes, no calor do entusiasmo, disseram ao mesmo tempo, a euforia na voz: 'E umas argolas para ti e um saleiro e um pano de cozinha e dois pratos e dois elásticos para o cabelo'. Quando desligaram eu e o meu marido ficámos a olhar um para o outro, admirados. Mas onde é que eles tinham andado para ganharem aquilo tudo? Pensei que devia ser coisa a fingir, de plástico para ser mais barato.


Afinal, mal chegámos, foram logo mostrar-nos aquilo tudo. E não queriam nada, tudo para nós. Só os elásticos para o cabelo que isso dava sempre jeito, o resto não, não precisavam. 

Mas é tudo engraçado, qual plástico, qual carapuça. Cerâmicas, coisas com piada. O saleiro já está em uso, tem um galo e tudo. E os pratos são bonitos. E o pano é bom, de um tecido encorpado.

Agora a farda é que é curiosa. O pano parece bom, espesso, talvez uma sarja forte. O meu marido disse: O casaco é bom para quando faço as fogueiras. Mas as calças não lhe servem nem de perto nem de longe, dá ideia que estão desirmanadas do casaco. Pode ser que se consigam abrir, pôr uns atilhos. Não sei. É assunto a estudar.


As argolas é que não sei em que circunstância as usar já que mais parecem pulseiras e que, tendo-as experimentado, ouvi dizer que ficava a parecer a Carmela Soprano (apesar de não me lembrar de a ver com algo tão exuberante). Mas, pronto, quem sabe um dia não me dá para ousar.


Ficámos todos espantados com tanto ganho. Os miúdos, então, esfuziantes. Mas, de facto, não dá para entender. Acho que gastaram quatro euros em rifas e saíu-lhes isto tudo.

Entretanto, na salinha da televisão cá estavam os livros com que devem ter estado entretidos, livros  que, tal como os brinquedos, são de várias gerações.


E, à mistura com uma pantera que não é cor de rosa mas quase, as folhas do jogo das palavras que gera sempre discussão e tentativas de batota por parte dos mais competitivos. Desta vez o maior pomo de discórdia foi que um dos meninos, na letra d, para animal, escolheu dinossauro e um outro, o mais crescido e que não gosta de perder nem a feijões, não queria aceitar como certo pois teimou que dinossauro não era animal mas 'família de animais', que, por exemplo, Tyrannosaurus rex é que seria um animal. Larga e inflamada discussão em torno do tema.


Tirando isso, este sábado, por cá, apenas a registar que mais uma big pernada de uma das maiores figueiras vergou. Já o ano passado, na mesma figueira, outra pernada tinha vergado. É o peso que é muito e talvez ela que, pela idade, já não aguente. Está agora muito mutilada.


Enquanto o meu marido andou a cerrar a pernada gigante e, para a conseguir desenlaçar das restantes, também a cerrar outras, eu andei a apanhar os figos bons dessas pernadas cortadas.

E claro que me fartei de comer. Mas desde que, em boa hora, fui aqui informada que os figos são frutos sagrados, como-os sem me sentir em estado de pecado, na verdade quase em estado de êxtase. 


E, portanto, foi um dia muito bom, sereno, quente, indolente.

A ver se este domingo me atiro ao trabalho que dentro de casa há muito que arrumar. Já fiz uma roupa de máquina que secou ao sol que foi uma maravilha mas, tirando isso e o almoço, pouco mais fiz já que até o jantar foi um pouco do muito que tinha ficado no frigorífico. Tenho também que varrer à volta da casa. Há caruma por todo o lado. No outro dia, andámos todos a varrer e, depois disso, voltei eu a varrer mas já está uma cama ruiva de dar gosto -- só que nem sempre o que dá gosto é o que deve ser e, neste caso, não pode ser.

E, por ora, é isto. 

[E é tardíssimo, uma vergonha. Não consigo entrar nos eixos e aprender a deitar-me cedo.]

Desejo-vos um belo dia de domingo