Tenho dormido bastante. Depois de dias algo incómodos e noites mal dormidas com o joelho inflamado e dorido (só com cortisona é que foi ao sítio), eis que, no rescaldo, o corpo se tem desforrado. Durmo de noite e, a seguir ao almoço, é só encostar-me que logo adormeço.
De manhã fomos passear com a minha mãe. Deu-me uma joelheira elástica que era do meu pai. Coloquei-a e senti-me mais confortável. Parece que andava a sentir os ossos e as cartilagens como se estivessem à solta, agora que o inchaço passou e o quisto de Baker se esvaziou.
Tínhamos pensado ir comprar comida chinesa para o almoço mas, afinal, o restaurante estava fechado. Já era tarde. Fui ao supermercado ver como resolvia a emergência e, como contra factos não há argumentos, trouxe frango assado. Devíamos estar com fome pois soube-nos lindamente.
A seguir, foi um sono tão profundo que até sonhei. Sonhei que o meu marido tinha lá chegado e, na brincadeira comigo, como se eu fosse uma menina de quatro anos, tinha pegado em mim ao colo e me tinha sentado na parte de cima de uma estante. E eu a protestar, que não gostava de estar nas alturas, e ele a troçar. Depois tinha ido buscar lenha para a lareira e tinha-me deixado ali. Eu a protestar, que me tirasse dali, e ele sem aparecer. Eu olhava para baixo para avaliar se tinha alguma hipótese de sair por mim. Não: muito alto para saltar e sem possibilidade de descer pela estante como se fosse uma escada pois esta poderia virar-se. Então, tinha resolvido que mais valia deixar-me ficar, aproveitar para dormir.
Quando já passava das cinco, acordei e olhei à volta, convencida que ainda estava sentada lá em cima.
Levantei-me do cadeirão. O cão levantou-se também, tinha estado a dormir no chão, ao meu lado.
Se há prazer de que tenho desfrutado é vir para aqui à tarde. Afasto o cortinado para entrar a luz, pelo sim pelo não ligo o candeeiro de pé, cubro-me com uma mantinha leve e aveludada, ponho-me a ler... e deixo-me ir. Maravilha.
Quando me vê a dirigir-me para as escadas o ursinho cabeludo aparece logo, parece que pressente. Subo, ele também. Eu sento-me e ele também. Eu adormeço e, creio, ele também.
Valiosos momentos de tranquilidade.
Hoje estava a ler a Biblioteca Pessoal de Jorge Luis Borges. Outro prazer.
Ao fim da tarde fomos dar um passeio por aqui. O céu estrelado, a noite fria mas agradável. Só nós na rua. As casas com as luzes acesas, algumas com o interior à vista. Sempre gostei de passear à noite vendo o que, de fora, parece sempre aconchego e intimidade. Em algumas casas, a escadaria entre os pisos é acompanhada por um enorme painel de vidro que dá para a rua. Vê-se tudo, em especial à noite, quando têm a luz acesa. Pergunto-me sempre: não lhes acontece andarem meio despidos? Não se importam se alguém, na rua, os vir?
Há uma casa nova em que a cozinha dá para a rua, com uma janela de vidro de parede a parede. Quando estão a cozinhar ou a lavar a louça estão à janela, virados para quem passa. Fico sempre na dúvida sobre o que devo fazer: fazer-lhes adeus para os cumprimentar ou fazer de conta que não vejo.
Na casa grande cujas traseiras dão para um caminho a partir do qual não há mais casas e em que tudo era envidraçado, sem estores ou cortinas, incluindo o grande quarto de dormir, há agora, justamente aí, um estore de lâminas verticais de madeira. Sinceramente, quando o vi até me senti aliviada pois temia o dia em que visse o que não queria ver.
Tirando isso: quase não temos visto televisão. E isso é muito bom.
Ligo o computador à noite e vou espreitar os vídeos. Gosto em particular de ver casas. Esta que aqui partilho é fantástica. Não que eu gostasse de morar numa casa assim. Mas gostaria de visitar o seu dono, andar a espreitar isto e aquilo, apreciar a elegância das escolhas.
Claro que, como sempre, custa-me perceber como se limpa o pó a uma casa assim. E penso também noutra coisa: uma casa assim é uma casa para ser eterna. Ora, como ninguém é imortal, o que acontece a uma casa como esta, tão pessoal, tão especial, tão indissociável do seu dono, quando este se desprender da existência?
Mas, enfim, ideias peregrinas à parte, é um gosto ver casas bem desenhadas e bem decoradas
Refúgio francês cheio de tesouros do designer John Galliano (com 7 objetos exclusivos) | Vogue
__________________________________________
Lá em cima, a música é de Handel: "Eternal Source of Light Divine", com Thomas Dunford, Jupiter, Lea Desandre, Iestyn Davies
O título do post são palavras de Stevenson citadas por Borges.
Este meu fim de semana foi muito atípico, com alguns imprevistos francamente dispensáveis. Pelo que intuo, as coisas poderão não ser o que parecem e todos os transtornos poderão ter sido (e estar a ser) em vão. Mas, enfim, se eu tiver razão, menos mal.
Por seu lado, os meninos finalmente parece que estão em fase de recuperação depois de se terem ido contagiando uns aos outros e depois de se estarem a livrar de todas as sequelas destas mal arraçadas gripes A (se é que tem sido isso que tem andado de uns para outros). Mas este fim de semana apenas os vimos por fotografias e vídeos. Apesar de se dizerem bem, estão fanhosos, ranhosos e com tosse. Mas já não há nenhum com febre ou com diarreias e, por isso, já se sentem bem. Espero que a partir de agora estejam bem e que a minha vida também se simplifique (e, claro, que a minha mãe fique bem) para que possamos estar outra vez todos juntos.
Apesar de tudo, antes de irmos para os nossos afazeres de ir buscar isto e aquilo, levar isto e aquilo, estar lá, voltar a ir levar isto e aquilo, conseguimos ir num saltinho até à Avenida da Liberdade, para um passeio com flavour natalício. Uma coisa é passar de carro e outra, bem diferente, é andar a pé a ver as montras, a ouvir as diferentes línguas de quem passa (muitos italianos!). As árvores estão lindas com pombas brancas suspensas. Muito bonito, simbólico.
As grandes marcas estão lá todas a preços galácticos (ou seja, com preços à altura da carteira do Ronaldo e da sua Georgina do rabo alçado, mas muito aquém das carteiras dos vulgares mortais). Acho que, mesmo que me saísse o euromilhões, não quereria dar mil euros por uns pirosos ténis de plástico dourado ou dois mil por um vestidinho da treta, curto e de alças. Não gosto de gastar dinheiro mal gasto. Claro que poderia abrir uma ou outra pequena excepção como, por exemplo, num casacão largo de veludo muito fino em profundo azul marinho, quiçá Armani. Mas, enfim, preços à parte, há montras bem apelativas e é engraçado olhar lá para dentro, para os clientes. Como o zoom da minha máquina fotográfica não funciona, não tenho motivação para fazer as minhas habituais reportagens. Tenho que ver se arranjo tempo para ir ver se tem reparação.
Tive vontade de ficar por lá numa esplanada mas não apenas o nosso urso (antes felpudo e agora um fininho dog quase skinhead) estava connosco e costuma fazer má vizinhança pois, quando assentamos arraiais, seja onde for, acha que tem que nos guardar e em cada pessoa vê um possível agressor, como estava chuviscoso, pouco convidativo para esplanar (não confundir com explanar). Além de mais, o nosso programa de festas para depois de almoço estava carregadinho. Por isso, fomos comprar uma pizza e viemos despachá-la a casa antes de nos pormos a caminho.
Por tudo isto e porque quase nenhum tempo tive para mim, pouco tenho a dizer.
Só me ocorre contar que, no outro dia, quando passeávamos à noite, o nosso amigo deu uma corrida sobressaltada em direcção a um muro. Lá chegado, estacou a ladrar, posto assim naquela posição de quem descobriu coisa, de quem está à espera que lhe deem pretexto para saltar em cima (quando aprender a falar, em ocasiões destas, certamente dirá 'make my day'). Olhei espantada e não vi nada. E, aqui chegada, repito em minha defesa: era de noite. Além disso, sou míope e não uso óculos. O meu marido ao princípio também não percebeu. Depois disse: é um ouriço. Aproximei-me. Há montinhos de caruma nos passeios e era isso que me tinha parecido. Mas, vendo bem, era mesmo: um ouriço! Usei o telemóvel e dei-lhe uma flashada a ver se o apanhava. E apanhei. Aqui o têm, abaixo. Até parece que era de dia, tal a luz que lhe foi despejada em cima. Ali estava encostadinho, certamente assustado com o ladrar e os saltos da fera, com a nossa presença.
No dia seguinte passei lá de dia e nem sinal dele. Aquilo que podemos observar, de dia, é uma pálida parte da animação que é a vida nocturna.
Também posso referir que no outro dia tive uma agradável surpresa. No meio dos ramos da roseira trepadeira junto à nossa entrada, um ninho. Um ninho relativamente pequeno mas, reparem abaixo, uma graça. Penso que deve ter sido feito relativamente depressa pois não tenho ideia de o ter visto antes. Ainda não tinha ovinhos lá dentro. Fiquei encantada. Os pássaros confiam no nosso pacifismo e isso deixa-me feliz. Costumo ver os ninhos nas árvores, em cima, e aqui também temos dois encostados à parede da casa, perto do telhado. Devem ser feitos com lamas e ramos pois parece que estão mesmo colados à casa. Este aqui não, este está pouco mais que à altura da minha cabeça, à altura das nossas mãos.
Também posso contar que hoje, quando íamos a passar na Avenida, vi um amigo nosso sentado numa esplanada. Ri-me, tirei os óculos escuros para me aproximar e cumprimentar. Espantei-me por ele ter ficado impassível e até surpreendido a olhar para mim. Em situações normais, ter-se-ia levantado e vindo a rir para nos cumprimentar. Foi nessa altura, quando estava mais próxima, que percebi que era uns palmos mais alto do que o nosso amigo. Disfarcei, segui, e disse ao meu marido: 'Viste? Não é igual, igualzinho ao Zé?'. O meu marido limitou-se a dizer: 'O dobro do Zé'. Rebati: 'Igual, igual. Só que é mais alto que o Zé. Só percebi isso quando me aproximei'. O meu marido acabou por me dar razão: 'Ao princípio também pensava que era ele'.
Mas fiquei impressionada. Como é que é possível? Duas pessoas com caras iguais. Iguais. Que coisa tão estranha, tão estranha.
A mim já me aconteceu confundirem-me com outra pessoa e jurarem a pés juntos que era igual e que até a voz era igual. Uma coisa nos limites da improbabilidade.
Não. Nada. Não há nada a dizer. Nada. Nem antes, nem durante nem depois. Ela, Boris, Kwasi Kwarteng, outros que tal. Nada. Figurantes de uma tragédia que tem um nome: Brexit. E que tem um actor principal, que actuou na sombra, que criou as condições, que financiou, que engendrou, que manipulou, que mexeu os cordelinhos. E actores secundários que usaram ferramentas proibidas, que estudaram as motivações profundas, que exploraram os medos, que brincaram com a ignorância, que pagaram.
E os britânicos votaram sem saber no que estavam a votar. Não perceberam o logro. Deixaram-se enredar na perigosa e imprevisível trama do logro.
E agora ninguém consegue gerir esse logro. O logro é ingerível. Cai um ministro, cai outro, caem às mãos cheias, e cai um primeiro-ministro, cai outro, cai outro, repescam os que caíram. Uma farsa, um absurdo, um caos.
E o rei assiste impotente porque está lá apenas para ser o public relations do reino, para ajudar a vender canecas e bandeirinhas, não para tomar decisões relevantes.
Por isso, nada a dizer da pobre coitada da Liz, nada a dizer do bacano do Boris, nada a dizer do James, nada a dizer de todos os que já se demitiram e dos que ainda se vão demitir. A única coisa com graça nisto do Brexit foi o pai do Boris se ter naturalizado francês.
Um dia aparecerá um político a sério, o Brexit será revertido, as coisas voltarão a entrar na normalidade. Só não sei quando. Talvez quando o actor principal, o diabo que actua na sombra, tiver virado pó.
Até lá, que viva o outono que, finalmente, parece estar a aceitar deixar de ser verão. Que traga chuvas, aragens, neblinas, cheiro a lareira, terras molhadas, árvores gotejantes, vontade de aconchego.
E que os tempos tragam algum presciência a quem vive ou assiste ao declínio moral que aqui e ali vai medrando nas sociedades democráticas, abertas, tolerantes, inocentes.