Em momentos de comoção como este, todas as atenções se concentram na condenação unânime do acto sangrento. Ao condenar o acto, não se condena apenas aqueles que premiram o gatilho e, a sangue frio, dispararam contra os jornalistas e cartoonistas do Charlie Hebdo como, também, o movimento em que se integram e, a coberto do qual, de forma bárbara, executam, sem dó nem piedade, qualquer um que lhes pareça não respeitar o Profeta.
E com esta condenação moral de toda a população livre e democrática - em que se pede justiça também sem dó nem piedade, em que se pede que ninguém se detenha em desculpas, em atenuantes, e se punam exemplarmente os facínoras - as atenções focam-se nas consequências e esquecem as causas.
Não me levem a mal mas eu sou mesmo assim. Para verem bem a massa de que sou feita, conto-vos que, por exemplo, não fui capaz de me vestir de branco e, de vela na mão, ir fazer vigílias por Timor. Se nunca tinha percebido a forma como os portugueses tinham virado as costas a Timor deixando que a Indonésia pusesse e dispusesse daquele longínquo território, também nunca achei que existisse grandeza moral num homem como Xanana que aparecia vestido de benfiquista a louvar os carcereiros e que era visto (e ainda é) como o grande salvador de Timor Leste. Ou seja, não sou de me deixar ir em qualquer onda emocional (o que, se calhar, é defeito meu) pois, em momentos de crise, torno-me fria e o meu lado racional impera sobre o emocional.
Por isso, gostava que soubessem o que penso sobre o que aconteceu em Paris no semanário humorista Charlie Hebdo, naquela inacreditável carnificina no coração de uma Europa livre.
1. Claro que fiquei chocada quando soube. Ia no carro e fiquei arrepiada, horrorizada.
2. Contudo, tenho dificuldade em cegamente pedir sangue, não querendo olhar a atenuantes.
A minha primeira reacção perante quem faz enormidades deste tipo é querer que sejam impedidos de as continuar a fazer - e, a seguir, o meu coração perdoa. Posso não esquecer, posso ficar atenta, de pé atrás, vigilante - e fico. Mas, dentro de mim, perdoo.
3. Já aqui o disse: acho que todo este movimento é, essencialmente, uma coisa de rapaziada aventureira, que não tem causas, que se sente desenquadrada e sem objectivos e que, para além do mais, pratica jogos de guerra de forma obsessiva e que, por desfastio, em busca de um objectivo, mobilizados pela adrenalina de um combate global, se lançam nestas aventuras como se não fosse uma coisa a sério mas sim mais um nível num qualquer jogo de guerra.
Com variantes, acontece isso sempre que há uma guerra: magotes de voluntários oriundos dos mais diferentes cantos, que se alistam nem sempre por razões lógicas, geralmente para irem experimentar a excitação de uma brincadeira a sério.
4. Mais. Uma vez lá, alistados, em ambientes de desenraizamento, sujeitos a treinos militares, com armas a sério nas mãos, com missões, sentem-se importantes, heróis, macho men, querem provar que estão à altura. E aí vão eles. O homem que as televisões e os jornais difundem e que, na rua, matou um polícia que já estava por terra parece a imagem de uma cena de um jogo de guerra. Não há sentimentos quando se joga: há apenas necessidade de matar os inimigos, fazer pontos, passar ao nível seguinte. Sabem lá eles o que diz o Corão, conhecem lá eles a interpretação profunda da mensagem do Profeta. Devem conhecer umas quantas interjeições, uns quantos clichés e pouco mais.
5. Na sua imaturidade precisam de inimigos para terem missões, para poderem pôr em prática o que aprendem nos seus treinos. Qualquer um que faça humor 'à custa deles' ou que de alguma forma pareça desafiá-los fornecer-lhes-á o pretexto ideal para passarem à prática, para, empolgados, planearem uma missão, para, depois, a executarem à espera dos louvores e da suprema recompensa.
6. Mas isto são eles. Gente que se junta vinda de vários países, de meios sócio-económicos distintos, com histórias de vida díspares, sem uma cola cultural comum. Conjunturalmente calha juntarem-se. Quando caem neles e querem fugir, são mortos porque passam a inimigos. Ainda esta quarta-feira li que um dos decapitadores apareceu agora decapitado. Quem com ferros mata, com ferros morre - é mais do que sabido.
7. Mas então como é que estes bandos heterogéneos conseguem ganhar tanto terreno, tamanho ascendente? Interrogo-me.
8. E, no entanto, sei a resposta: porque são alimentados. Armam-nos primeiro com o pretexto de que vão combater ditadores ou que vão ajudar a derrubar regimes inimigos ou conquistar território para uma qualquer causa. Mas, de facto, armam-nos porque a indústria de armamento é poderosíssima e tem que se manter activa. É preciso manter as fábricas de material militar a trabalhar. Essas fábricas têm que vender o que produzem, têm que escoar a produção, os stocks. Têm. Têm mesmo - nem que para isso alguém tenha que inventar guerras, movimentos separatistas, grupos de combate a qualquer coisa.
Claro que há também o consumo doméstico mas isso são amendoins. A população americana armada até aos dentes, uma habituação desde a nascença ao mundo das armas, seja através de filmes e séries, seja através de jogos, uma aculturação conduzida pelos grandes interesses, dá no que dá. Há poucos dias foi um bebé de dois anos que, num supermercado, matou a mãe. A mãe, transportando consigo uma criança de dois anos, trazia, certamente com naturalidade, uma arma pronta a disparar. E, no entanto, os americanos condescendem e o mundo fecha os olhos. Mas isso, de facto, não é o que aguenta uma máquina de guerra. Para tal há que exportar armas, viaturas, mísseis, fardamento, munições - tudo o que precisa de vendas de grande volume para que o negócio se mantenha próspero.
Para pagar esse armamento, os movimentos que o recebem apoderam-se de fontes de petróleo ou são apoiados por produtores e traficantes de droga. Mas isso é apenas um outro pormenor.
Ora bem: quais são os países em que a indústria de armamento é mais forte? Quais são os países que geralmente encontramos a apoiar movimentos destes? Estou a pensar em dois ou três, ou quatro. Claro que já se apressaram a condenar os actos bárbaros. Claro que choram os mortos, claro que fazem discursos inflamados, escorrendo sentimento. E, no entanto, quanto do sangue que escorreu dos corpos dos que caíram no Charlie Hebdo teve origem nos disparos de armas que saíram desses países?
9. Se, em vez de toda a comoção contra dois ou três dementes, manipulados, desenraizados, três iguais a tantos outros, estivéssemos, antes, em fúria contra o cinismo, a hipocrisia, a amoralidade dos senhores da guerra que manobram, que viciam, que compram os políticos que tudo aceitam, bem mais a salvo estaríamos e melhor defenderíamos a liberdade e a democracia.
10. E, no entanto, eu sei. Na poderosa indústria do armamento está grande parte do PIB dos países em que se insere. Muita gente a trabalhar lá, gente de muitas especialidades, e, a montante, muito aço, e muita electrónica, muita indústria complementar. Não é de ânimo leve que algum governante vai deixar cair a indústria de armamento na qual circula muito dinheiro, muitos segredos, muitas pontas soltas.
11. Só governantes fortes, líderes visionários, dispostos a enfrentar lobbies poderosos e perigosos é que, com tempo, com acordos de regime de longo prazo, muito bem estruturados, conseguirão reconverter a indústria de armamento para algo menos mortífero e certamente pior remunerado. Só com acordos inter-países, só com uma forte consciencialização global é que se poderá fazer qualquer coisa. E só quando isso acontecer é que o mundo estará livre de momentos de terror como os que atingiram o Charlie Hebdo, ou massacres como o da escola do outro dia, ou ataques de toda a espécie, atentados sangrentos, pânico e insegurança.
12. Posso dizer um milhão de vezes que sou Charlie e, tal como eu, podem todos os meus Leitores, todos os leitores de todo o mundo e todos os jornalistas, escritores, políticos do mundo inteiro que nada disso resolverá o que quer que seja.
Talvez um dia o mundo acorde para a necessidade de controlar tudo o que se move nos bastidores do mundo e que deixa rastos de sangue ou pobreza por onde passa: as entidades financeiras sem rosto, a indústria de armamento de que ninguém fala, o mundo da droga. Até lá, vamos andando iludidos.
Vamos fazendo de conta que, se dissermos todos que somos Charlie, divulgarmos cartoons, fizermos minutos de silêncio ou hastearmos bandeiras a meia haste, resolvemos alguma coisa. Era bom que sim mas, em minha opinião, na prática, isso vale pouco mais que nada.
Vamos fazendo de conta que, se dissermos todos que somos Charlie, divulgarmos cartoons, fizermos minutos de silêncio ou hastearmos bandeiras a meia haste, resolvemos alguma coisa. Era bom que sim mas, em minha opinião, na prática, isso vale pouco mais que nada.
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Os cartoons que ilustram este texto foram feitos por diferentes cartoonistas para diferentes jornais como forma de solidariedade pelos colegas assassinados. Obtive-os no Libération.
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O que é o Charlie Hebdo? O que aconteceu e porquê?
- o Wall Street Journal explica em menos de dois minutos.
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E, sem mais, para terminar:
Click-Pause-Silence pelo Nederlands Dans Theater - Jiří Kylián
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.
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