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domingo, março 22, 2026

A crise tramada em que ainda estamos só a entrar.
Os meus meninos e a política.
E, para desanuviar, pastéis de massa tenra e gelados.

 


Não é obsessão, é verdadeira preocupação. Não dá para assobiar para o lado. Pode ser-se muito optimista e pensar que é lá longe ou que um dia destes o maluco recua. Mas nada disto elimina os riscos graves que todos corremos.

Com um doido varrido, narcisista maligno e demente, ao comando na nação mais poderosa do mundo, rodeado de nacionalistas que aliam um belicismo exacerbado a um espírito doentia e deturpadamente religioso, de ignorantes, de gente que luta pela sobrevivência (pois sabem que, mal sejam apeados, serão presos), ninguém está seguro. Poderia pensar-se 'coitados dos americanos' ou 'votaram nele, agora amanhem-se'. Mas não é uma visão correcta pois, como se vê, o mal que ele faz é extensivo a todo o mundo.

Os combustíveis vão continuar a subir e poderão tornar-se proibitivos, especialmente para quem não usa viatura de empresa e tem que os pagar do seu bolso. Acredito que possam até vir a ser rateados. O impacto que isso vai ter nas nossas vidas vai ser enorme. Em Espanha, muito correctamente, já está a ser recomendado o regresso ao teletrabalho, o incremento do uso do transporte público, o conselho para evitar viagens desnecessárias.  E isto afecta a sociedade em cadeia de uma maneira de que não consigo perspectivar o limite inferior.

Ao mesmo tempo que Trump dá sinais de que quer retirar, aumenta o número de tropas a caminho (e o uso da base das Lages...), aumentam os bombardeamentos, destroem instalações críticas -- e as retaliações iranianas não se ficam atrás. Ou seja, é o caos. E se do caos tranquilo nasce frequentemente a beleza e a criatividade, quando é um caos destrutivo é difícil ver se pode sair algo de bom.

Aqueles países agora tocados por esta guerra absurda dependem, para sobreviverem, de muita coisa que lhes é externa mas também, como todos nós, de água. E grande parte da sua água resulta de dessalinização. Uma central já foi atacada. Um primeiro aviso. Se várias o forem, a crise escalará para outros patamares. E nem quero pensar com que consequências.

Especula-se (e, por enquanto, este é o verbo que quero usar) que, com toda a escassez de combustíveis e consequente aumento de preços,  os juros começarão a subir. Ao subirem, sobem as prestações ao banco de quem está a pagar casa. E isso apertará ainda mais o garrote a muito boa gente. Mas subirá para muito mais que essas pessoas pois todas as empresas e todos os países têm dívidas e, portanto, o impacto será generalizado.

Não sei se há uma saída possível para isto. Se Trump saísse de cena (mas não é provável que saia, pelo menos no curto prazo) e se, em vez dele, houvesse um tipo inteligente e decente, talvez pudesse reunir-se com a China, talvez conseguissem pôr o Putin a bordo (idealmente, alguém mais decente e menos criminoso que Putin), talvez fizessem a delicadeza de contar com o contributo da Europa -- e talvez conseguissem pôr-se de acordo em que já é tempo de pensar em destruição e morte e começar a pensar em paz, no futuro, nas crianças e no mundo que lhes queremos deixar. Mas isto sou eu a efabular, sou eu a querer ter pensamentos positivos

E, muito sinceramente, não estou a consegui-los ter. Parece que o mundo está a ser sugado pela vertiginosa demência e malvadez de uns quantos homens possuídos pelo diabo. Netanyahu é um criminoso insaciável. É como Putin. Não há compaixão, não há misericórdia nesses dois seres viciosos, sanguinários. Matam crianças, famílias inteiras, destroem-lhes as casas, aniquilam-lhes o futuro, fazem com que toda a gente viva apavorada, sem perspectivas, entre mortos e ruínas. E não se condoem.

Poderia acabar-se-lhes o dinheiro, não conseguirem suportar a pesadíssima factura da guera. Mas com esta crise, o Putin fica a rir-se e a facturar. E de onde vem o dinheiro de Israel? Há anos a bombardear tudo e mais alguma coisa... Sabendo-se que o armamento e munições são dispendiosíssimos, de onde lhes vem todo esse capital? São frentes de guerra em simultâneo e em força: Gaza, Líbano, Irão. Não percebo. Têm de tal maneira os Estados Unidos na mão que é de lá que o dinheiro vem? Dívida? Mas estão a financiar-se onde? (Se não fosse tão tarde, tentaria agora pesquisar. Follow the money. Mas daqui a nada são três da manhã, já tenho sono). O dinheiro em Israel parece vir de um poço sem fundo. E um poço sem fundo de dinheiro nas mãos de um regime facínora, com uma apetência insaciável pela destruição alheia e pela ambição desmedida, é um grande, grande e dramático, problema.

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Mas adiante. Não quero contagiar-vos com o que a mim me atormenta.

O meu dia foi muito bom. Tive cá a almoçar os meus rapazes crescidos, desportistas, cheios de apetite e boa disposição. Um deles contou que na preparação física lá no clube onde é guarda-redes levanta 90 kg. Usou uma palavra que não identifiquei. Traduziu: com agachamento. Nem consigo imaginar... 90 kg...? Vai fazer 15 anos. Desde pequeno que é todo dado ao desporto, ágil, habilidoso. O mano mais velho, também guarda-redes, está a pensar começar também a praticar box. Outro dos rapazes, igualmente guarda-redes, agora mudou-se para futsal. O mais novo também já lá andava. E a menina agora faz vólei. No outro dia vi imagens da equipa, um grupo de miúdas giras, divertidas. Tudo gente dada ao desporto. Fico contente.

E estivemos também a fazer o teste dos partidos. Já no outro dia, um dos meninos, um que percebe e gosta de política, o tinha feito. Não se pode dizer que tenhamos que atribuir um grande significado aos resultados pois, com a tenra idade dele, muitos conceitos não estão ainda bem compreendidos nem saberá avaliar correctamente as implicações das opções que se tomam. Mas tenho ideia que lhe deu AD, creio que logo seguida do PS. Fiquei surpreendida. Os dois que hoje o fizeram, sem surpresa a um deu-lhe a AD, logo seguida do Chega e da IL, e a outro o PS. Ao mais velho, o segundo lugar do Chega deve-se ao tema da imigração. Faz-lhe impressão a quantidade de imigrantes que, segundo ele, parecem ter tomado de assalto a Baixa, acha que isso é sinónimo de entrada desregulada de imigração. O irmão perguntou-lhe se lhe faria a mesma impressão se fossem ingleses ou alemães. Gostei da pergunta. Gosto muito de os ouvir discutir estes assuntos, gosto que se interessem por política. O mais velho, 17 anos, prestes a entrar na universidade, preocupa-se que não venha a ter um salário que lhe permita ter a sua casa, a sua família, os seus filhos. É a sua grande preocupação. E imagina que as políticas liberais serão a resposta a isso. E imagina isso porque diz que se as políticas que têm vigorado nas últimas décadas -- e que cola às políticas socialistas -- deram o resultado actual (salários baixos, dificuldade em ter casa, natalidade reduzida), então há que mudar. Compreendo o seu ponto de vista.

Há muita literacia política a levar a cabo junto da juventude. E há que perceber as preocupações e os ensejos dos jovens. Os partidos democráticos deveriam, de forma muito honesta e sensata, apresentar perspectivas e soluções que vão ao seu encontro.

Depois, já para o fim da tardinha, fui comer o meu belo geladinho de gianduja e cheesecake. Quando peco, peco a sério, duas bolas a preceito. Pelo-me pelos melhores gelados de Lisboa e arredores (já devo ter dito mil vezes mas não me canso de os louvar: Casa do Gelado, Avenida de Roma). E passeámos por lá, pela avenida e adjacências, e, antes,  pelo parque do Campo Grande e, apesar de serem lugares que conheço muito bem, que frequentámos assiduamente durante uma parte significativa da nossa vida, senti-me como me sinto sempre: uma turista à descoberta.

E, claro, não poderíamos regressar a casa sem uns pastéis de massa tenra do Frutalmeidas para o jantar (e, note-se: não sou parte interessada nos lucros nem daqui nem dos gelados, sou apenas cliente satisfeita). Claro que tudo isto tem um senão: o estacionamento. Cada vez mais difícil. Carros, carros, carros. Voltas e mais voltas para descobrir onde largar o carro.

Dependemos totalmente dos carros, eu e toda a gente. Até por esta dependência, a crise dos combustíveis em que estamos ainda só a entrar é um problema que deve ser levado muito a sério, que deveria estar já a merecer atenção e medidas como em Espanha. E é tão a sério que até volto a trazê-lo à conversa, aqui, na despedida, entre pastéis de massa tenra e gelados.

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Nas imagens, geradas através de Inteligência Artificial, procuro trazer sempre o motivo da paz [ao mesmo tempo que evoco alguns pintores (Geogia O'Keeffe, Paul Klee, Matisse, Mondrian, Kandinsky)].

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Desejo-vos um belo dia de domingo

terça-feira, julho 06, 2021

Compasso de espera

 

De vez em quando esqueço-me da máscara e, ao lembrar-me, tenho vontade de dizer 'que se lixe' mas, felizmente, acordo para a realidade. Os meus filhos ainda não foram vacinados e os meus netos obviamente também não. 

A minha filha esteve cá com os meninos. Eles estão de férias e férias num apartamento não é coisa fácil, em especial quando a mãe está a trabalhar. Aqui estão à larga, podem brincar à vontade. Crescidos, divertidos, sempre com a resposta pronta.

Se estão a jogar à bola, estão sem máscara e, se eu estou ao telefone com alguém, também sem máscara, como gosto de cirandar na rua enquanto telefono, acontece-me quase me cruzar com eles. Ou, então, de vez em quando, calha pegar no computador e ir para a mesa em que a minha filha está... e estarmos ambas sem máscara. Felizmente, o meu marido -- que tem baixíssima confiança em mim e faz por me vigiar de perto -- aparece a perguntar: 'E a máscara? Já sabia...'. É certo que é ao ar livre mas nunca fiando. Ao que parece, a delta é do mais tinhoso que existe.

A máscara seca-me a boca e o nariz, às vezes quase parece que me falta o fôlego. Quando fazemos as nossas caminhadas, andamos por lugares onde praticamente não nos cruzamos com ninguém. Por isso, posso andar sem máscara. Caminhar de máscara é muito mau. Acho que me desmotivaria, se tivesse que fazer caminhadas com a boca seca, quase a arfar.

Li que Israel está a reconhecer a menor eficácia da Pfizer perante esta bicha indiana. Atenua a gravidade da doença mas não é lá muito famosa a prevenir a transmissão. Que dizer, então, da porcaria da vacina (como a minha mãe se lhe refere) que me espetaram no braço e que agora, afinal, parece que... está bem, está.

O mundo mudou completamente: há uns tempos, tempos até não muito longínquos, haveríamos de ter informação disponível para podermos optar. Agora isso é que era doce. Quando a seringa estava a milímetros da minha pele, soube, porque perguntei, qual era. A minha vontade foi dizer ao rapaz que fosse mas é dar banho ao cão. Mas naquela altura acho que nem se falava na delta nem se sabia tanto quanto hoje se sabe. E todos os dias se vai sabendo um pouco mais. Ou melhor, constatando que se sabe menos do que se pensava. 

Se eu tivesse a certeza que o que tive foi consequência da vacina, informaria o Infarmed e informar-vos-ia. Ou se tivesse a certeza que não foi, também diria: o que me espetaram no braço foi a vacina X mas está provado que o que me aconteceu não teve nada a ver.

Como não sei, não digo.

Ligou-me hoje um conhecido de longa data. Já teve, ao longo da sua vida,  uma bela dose de sustos de saúde. Disse-me que até não há muito tempo se achava saudável, invencível. Quando começou a perceber que os outros o olhavam como uma pessoa doente, percebeu que, se calhar, não era tão indestrutível quanto pensava. 

Dizia-me ele, no fim, a modos que para me consolar: Tirando o que lhe aconteceu que, ao que parece, poderia ter sido muito grave e que deve ter sido um susto dos valentes, nada do que me diz me parece especialmente grave. Se calhar é coisa... como dizer... coisa da idade...

Desatei-me a rir. Na volta...

Também me parecia que a idade passava ligeirinha sobre mim, sem me pesar. Quando era nova, achava graça quando ouvia as outras pessoas, mais velhas, gozarem com a PDI. A PDI era uma sigla que apenas se aplicava a quem estava bem longe de mim. E agora já cá estou, onde os outros estavam.

Enfim. Não tenho feito outra coisa senão andar para aqui nas lamúrias. Imagino a seca que é lerem este desfiar de coisas nenhumas. Mas a verdade é que, por muito que não queira, é um tema agora tão presente na minha vida que me é difícil ignorá-lo.

Mil vezes preferia falar de flores, das ameixas que vão caindo ainda verdes e que, quando estiverem maduras, devem estar comidas pelos pássaros.

Ontem vi um pêssego meio roído no chão: parecia que tinha sido roído por um ser humano. Mas capaz de ter sido um coelho... ou a raposa.

Ainda não foi hoje que vimos a Netflix. O meu marido tem andado cheio de dores no corpo. Não sabe o que é. Acorda de madrugada sem posição. Hoje lembrou-se: será que é da vacina? Tomou a segunda dose a semana passada.

Como dorme mal e pouco, mal se deita aqui no sofá, adormece. Depois lá vai, meio derreado, para a cama.

Olhamos um para o outro a rir e dizemos: estamos acabados. E, agora que estou a escrever isto, também estou a rir-me: estávamos bem e, de repente, virámos dois jarretas, com maleitas inexplicáveis, derreados... acabados... 

E pronto, não digo mais nada. E devia era prometer que aqui não voltava enquanto não tivesse alguma coisa de jeito a dizer. Mas, como não sou boa de promessas, mais vale ficar calada.

E, meanwhile, enquanto este enervante compasso de espera -- em que um merdinhas de nada fez o mundo baquear e andar aos pinotes, em marcha atrás -- não passar, vou-me entretendo por aqui. Por exemplo, vou pondo uma musiquinha à maneira e imaginar que um dia poderei organizar aqui no jardim uma cena assim, tudo a cantar e a dançar, sem máscaras, sem doenças, sem dores, sem preocupações. 

O que eu tenho vontade disso, caraças.

Hauser - Waka Waka

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As pinturas são, respectivamente: Cymon and Iphigenia - Frederic Leighton, Ida Rubenstein -Valentin Serov, Portrait of Jeanne Hébuterne - Amedeo Modigliani, No. 22 - Special - Georgia O'Keeffe, Unknown title - Amadeo de Souza Cardosoc. 

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Desejo-vos um dia feliz
E, se não puder ser tão feliz assim, respirem fundo, olhem pela janela, fechem os olhos, imaginem os dias melhores que estão por vir.

terça-feira, junho 01, 2021

O clitóris perdido e solitário: porque é que são tão poucas as pessoas que sabem onde encontrá-lo?
(Artigo do The Guardian)

[E, ainda: o mistério do controverso Ponto G inequivocamente desvendado]

 

Vai em itálico para se perceber que não é obra minha. Gentileza do Guardian. E confesso: estava com vontade de me divertir. Inicialmente o tradutor automático devolvia aberrações com que me fartava de rir. Pensei: vou meter isto na máquina a ver que macacadas saem daqui. Afinal não... uma ou outra incongruência e, em alguns casos, tão inofensivas que até me apetece emendar. 

Apenas a primeira imagem provém do artigo. O resto descobri por aí: imagens, vídeos e, claro, a cançãozinha. De vez em quando, o espírito do serviço público desce em mim.



Numa pesquisa recente, mais de um terço das pessoas no Reino Unido rotulou incorretamente esta parte vital da anatomia feminina. Então, onde está - e para que serve?

Nome: O clitóris.

Idade: Tão velho quanto os homens e - possivelmente mais importante - as próprias mulheres, você reconheceria Adão e Eva? Mais antigo ainda, para não criacionistas.

Como assim? Na mitologia grega, depois que o profeta Tirésias foi transformado em mulher por sete anos - como punição (!) por incomodar cobras (!) - ele foi questionado por Hera e Zeus sobre quem tinha mais prazer nas relações sexuais, homens ou mulheres.

E? Ele disse mulheres.

Por causa de seu clitóris? Possivelmente.

O que Hera achou disso? Não muito, ela o cegou.

Mas esse é o ponto, certo? Prazer sexual? Bem, o clitóris ativa uma série de respostas sexuais - a menos que você seja uma hiena-malhada fêmea, caso em que você urina, acasala e dá à luz através de seu clitóris (reconhecidamente e, felizmente, maior).

Então, não são apenas as mulheres humanas que os têm? Outros mamíferos também. E avestruzes.

E quão grande é, em humanos femininos? Bem, a frase “do tamanho de uma ervilha” é muito difundida, mas este é outro exemplo de como o órgão tem sido mal compreendido ao longo dos tempos. Seus nervos e vasos sanguíneos se estendem extensivamente na pelve, na verdade cerca de 90% de seu volume está abaixo da superfície ...

Alterando rapidamente o curso, para estibordo ... O clitóris é etimologicamente interessante, assim como anatomicamente? Sim, por acaso. Provavelmente deriva do grego kleitoris, que foi traduzido como “pequena colina” e “esfregar”, talvez sugerindo um jogo de palavras.

Mas isso é realmente uma questão de localização, não é? Sempre. Localização, localização, localização.

Difícil de encontrar, não é? Vá em frente, quais são as últimas? A maioria das pessoas no Reino Unido não consegue nomear todas as partes da vulva. Em uma pesquisa, metade dos britânicos não conseguiu identificar a uretra, enquanto 37% etiquetaram incorretamente o clitóris ...

Homens, provavelmente. As mulheres pesquisadas não se saíram melhor. Pobre clitóris solitário, ninguém pode te encontrar.

Bem, é difícil ver, lá em baixo. Sempre há espelhos. E amigos. Você já experimentou o Google Maps?

Eu tenho agora, e eu encontrei! Monte Clitoris, em Luzon, nas Filipinas. Há até uma igreja católica em suas encostas mais baixas, perfeitamente. Maravilha

Diga: “Nossa falta de conhecimento sobre a anatomia da mulher levanta questões importantes sobre a saúde da mulher e deve ser discutido com seriedade e sensatez.”

Não diga: “Vou apenas configurar o gps.”

[Não percebi qual o autor do artigo]

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Uma das várias flores de Georgia O'Keeffe

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E continuando numa de serviço público, um vídeo que me pareceu esclarecedor

Foram precisos 2.000 anos para que a Ciência descobrisse o clitóris

In the history of sexual anatomy, the clitoris has long been dismissed, demeaned, and misunderstood. Here is a view of the clitoris you've probably never seen.


Quanto ao ponto G... got it?

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Dias felizes

quinta-feira, abril 08, 2021

O admirável novo normal: mais natureza, mais robots, mais duros golpes

 

Um dia que acabou sombrio apesar do sol da tarde. Tento racionalizar: é apenas mais um. Mas sei que não é. Ninguém é.

A manhã foi complexa. Penso muitas vezes naquilo: é melhor ser amado ou ser temido? Apesar de não ser uma princesa, tento relembrar as observações ou conselhos. Aconselhei: guarde alguma distância, tem que conseguir ter amplitude de movimentos para decisões difíceis, não queira ser popular. No ecrã do computador vejo, em grande plano, o rosto daquele a quem exprimo o meu desagrado. Em ponto pequeno, em baixo, poderia ver o meu rosto. Mas não olhei. Por um lado, estava concentrada no que dizia e em ouvir e dirimir nos argumentos do outro lado e, por outro, não sei se é essa a minha face que mais gosto de ver. Talvez me assustasse, se me visse. Sei que o meu semblante não esconde o que sinto.

Aquele que durante anos foi o meu melhor amigo (e que apenas já não o é porque as circunstâncias profissionais e da vida nos afastaram geograficamente tanto que aquele contacto quotidiano se foi esbatendo) dizia, meio a brincar meio muito a sério, que eu, como adversária, era temível. E davam-lhe razão. Eu ouvia, divertida mas sem contestar. E lembro-me de um dia, em casa de amigos comuns, já há uns anos, um outro me ter perguntado de quem eu, na altura, dependia. Quando respondi, ele, o meu amigo, soltou uma gargalhada. Os outros voltaram-se para ele, tendo ele esclarecido a propósito do meu chefe de então: 'Ele pensa que manda nela. Mas mais ninguém acha isso, toda a gente acha que ela é que manda nele. Aliás, acho que ele próprio tem consciência disso.'. O meu marido ainda hoje, de vez em quando, me lembra isso como testemunho de que não acato ordens ou sigo orientações. Não é verdade. Acato, sigo. Mas apenas quando acho que fazem sentido. Mas, reconheço, tenho em mim uma natural tendência para ser eu a ditá-las. Não serei autoritária mas sei que, se vejo um caminho, não penso duas vezes antes de apontá-lo e, se alguma coisa não me parece bem, não consigo escondê-lo nem consigo enrolar a conversa ou dourar a pílula. Muitas vezes penso: 'bruta como as casas'. Mas, nessas situações, não sei ser de outra maneira.

Mas isso foi até à hora de almoço. Nessa altura, fizemos a nossa caminhada e, depois, almoçámos. A meio da tarde, num little break, fui plantar, no canteiro do pequeno varandim, umas plantinhas que tinha comprado no outro dia. Sardinheiras e umas outras que descaem e de que não fixei o nome. E outra coisa: naquela acção da distribuição de árvores, calharam-me não romãzeiras ou medronheiros mas três ciprestes e uma azinheira. Parece que nunca viram tanta procura de medronheiros. Trouxe, pois, quatro projectos de arvorezinhas. Pequeninas, um ou dois palminhos. Alertada para o irritado comentário do Leitor que, no outro dia, aqui dizia que nunca tinha visto tamanha ignorância, que plantar árvores nesta altura seria condená-las à morte, validei: 'E podem plantar-se agora? Têm que ser regadas, não...?'. O senhor esclareceu: 'Não plante na terra. Coloque-as num vaso e vá cuidando. No Outono, lá mais para Outubro, quando começarem as chuvas, muda-as para a terra'. E, portanto, assim fiz. O que eu gosto de fazer mudas de plantas, de mexer na terra, de regar, de observar o seu crescimento, de me deslumbrar com a sua beleza. Depois voltei ao trabalho. Uma tarde cheia de surpresas e quase todas negativas. Irritações, telefonemas. Até que, estando ao telefone com a minha filha, soube da notícia. À noite, na televisão, os testemunhos foram-se sucedendo. Emocionados, tomados pela surpresa e pela comoção. Estes tempos vão assim, inclementes, tantas vidas sendo ceifadas, tantos desgostos para quem fica.

Depois ainda outro telefonema. Estava a fazer o jantar. Queria saber como tinha sido. Escandalizado com o que contei. Que tínhamos que averiguar, ir até às últimas consequências. Por fim, já nos ríamos os dois a bom rir. Há coisas tão estupidamente escabrosas e parvas que, começando por nos chocar e irritar, acabam por nos dar uma irresistível vontade de rir. E foi ainda a rir que ajeitei o tacho com a janta.


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E, por falar em flores, as pinturas são de Georgia O'Keeffe. Lá em cima não posso dizer que o vídeo esteja pela música. Como é bom de ver, está pelas imagens do National Geographic: Time-Lapse: Watch Flowers Bloom Before Your Eyes

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E agora aquilo com que, para espairecer, me entretenho enquanto vejo o House: o maravilhoso e assustador mundo dos contrastes: natureza versus robots. Contudo, nem sempre, no fim, me sinta muito espairecida. O mundo vai divergindo e não sei como vai ser.

Growing a Greener World Episode 1111: Creating Paradise Through a Shared Passion for Gardening



Robots of the future at Boston Dynamics



Uma bela quinta-feira
Saúde. Sorte. Alegria. Afecto.

quarta-feira, agosto 26, 2020

Tá-se





Sinto-me em casa. Desde o primeiro dia, mesmo quando a casa estava invadida por cento e tal caixotes repletos, mesmo quando não sabíamos onde estavam as coisas mais básicas, que me sinto em casa.

Mas, agora que tudo está no sítio, é com alguma surpresa que me apercebo que apesar de tudo o que aqui está tenha vindo da outra coisa, parece que aqui é que as coisas encontraram o seu lugar. Surpreendo-me com o perfeito ajustamento das coisas a cada sítio. A minha mãe também estava surpreendida ao ver como, tendo tudo mudado de sítio, quer na perspectiva absoluta quer na relativa, tudo parece estar como se tivesse sido escolhido de propósito para onde agora está. Hoje dizia-me aquilo que já outras pessoas que aqui vieram (o rapaz que veio pôr a internet, a mulher do chefe dos pintores, um dos simpáticos brasileiros da mudança) me disseram: esta é uma casa feliz.

Havia a questão do cheiro. Os meus filhos diziam a casa tinha um cheiro próprio, não que fosse mau mas era um cheiro que não era o da minha casa. Sim, não era o meu cheiro. Mas a casa foi toda pintada pelo que, apesar de ter sido bem arejada e da tinta supostamente não ter cheiro, algum odor específico pode ser ficado. Mas agora já começo a reconhecer o meu cheiro à medida que passo pela casa. E será uma questão de tempo. Afinal só cá estamos há poucos dias, uma semana e picos. 

Neste momento tenho outra máquina de roupa a rodar. E parece que este cheirinho de roupa lavada faz o seu caminho. Gosto do cheiro a limpo e lavado.

Tenho vindo a aderir ao conselho da minha filha: substituir as cores quentes pelas cores claras. A diferença que faz. Em dois sofás tenho, por cima, a cobri-los, colchas brancas. Antes, para não correr o risco dos miúdos me sujarem os sofás, cobria-os com cobertas coloridas. Agora é tudo em beige clarinho ou branco. E as colchas ganham uma nova vida.

Aqui nesta sala é uma coberta de algodão espesso que não sei bem de onde veio. Tenho ideia que a comprei há mil anos, numa venda de rua ali para os lados de Entre-os-Rios. Estava guardada e esquecida. No sofá grande da sala da lareira está uma colcha que também estava completamente esquecida, uma colcha espessa, em crochet, uma colcha que pesa toneladas, compacta. A minha mãe confirmou que não foi a minha avó, mãe dela, que a fez. Foi, certamente, uma das tias do meu marido. Presumo que, na altura, imatura que era, não a devo ter apreciado como merecia. É intemporal, será sempre uma colcha moderna. Gosto imenso de a ver ali. A minha mãe trouxe-me uma outra, justamente feita por essa avó. Achava-a muito convencional. Quando me casei, deixei-a lá ficar, não lhe via utilidade. Agora é diferente: parece que para esta casa convergem todas as oferendas que as pessoas que gostaram de nós nos fizeram e a tudo nós colocamos no altar dos nossos afectos.
Mas isto para dizer que roupa há muito guardada tem cheiro a isso mesmo, a roupa guardada. Por isso, tenho feito uma máquina de roupa por dia. Lavadinha e, depois, a secar ao sol do dia. Quando agora me levantar, vai estar o cheirinho a roupa acabada de lavar. Tão agradável. (Mas estendida só vai ser de manhã, santa paciência).
O quadrinho com o bordado que emoldurei ou a espécie de naperon que está no carrinho, ambos feitos pela minha mãe, o pequeno móvel que o meu pai fez, as colchas que a minha avó fez, a colcha, o naperon lindíssimo ou a pequenina figurinha feita pelo Armani que aquela tia especial do meu marido nos deu, até o pequeno porta-chaves de prata que um incrível armador belga em cujo jardim passeavam veados e que tocava jazz com os irmãos uma vez me deu e que nunca mais tinha visto apareceu, a jarrinha em tons turquesas de um vidro baço, linda, que uma vez recebi pelo natal de uma pessoa com quem trabalhava e que me surpreendeu oferendo-me uma peça tão linda, dizendo que, um dia, ao vê-la, achou que tinha tudo a ver comigo, peça esta que estava num lugar em que mal se via, agora está bem à vista. Tantas coisas.

Uma vez lembrei-me de convidar uns estudantes para pintarem a parede de um corredor da empresa, um graffiti avant la lettre. Num edifício absolutamente convencional apareceu uma parede pintada. Houve uma professora que os orientou. Pois bem, nesta mudança apareceu um envelope com um papelinho escrito à mão, muito carinhoso. Era a professora a agradecer a oportunidade, a ideia arrojada e a confiança que eu tinha depositado no trabalho de um grupo de estudantes. E dizia que não era um presente para agradecer o meu gesto mas uma forma de retribuir o carinho que eu tinha demonstrado pelos jovens. Fiquei a ler, contente, revendo uma coisa da qual já não recordava a existência e, ao mesmo tempo, intrigada: o que é que ela estava ali a oferecer-me? Não consegui recordar-me. Pois bem, dias depois, ao guardar peças de algum valor, caíu da saqueta alguma coisa que fez barulho ao cair no chão de madeira. Fui ver o que era e, como por vezes me acontece em situações assim, peguei naquilo sentindo-me surpreendida e comovida. Era uma peça de prata, muito bonita, desenhada por ela, uma peça para pendurar num fio. Tinha-me esquecido. Usei-a durante algum tempo. Comprei uma gargantilha também em prata, uma espécie de arame grosso em volta do pescoço. E, a meio, aquela peça. Entretanto passaram nem sei já quantos anos. Na volta já uns vinte. Caneco, o tempo passa de uma maneira... E agora tudo isso apareceu. É como se os momentos bons e os afectos de todos os tempos viessem até mim, em visita.

No outro dia, ao ir a uma livraria para comprar uns livros para oferecer, comprei uns para mim. Estão agora aqui ao meu lado, no sofá onde me acolho à noite para aqui estar a escrever. Estou, pois, em minha casa: a escrever, a casa silenciosa, uma luz sobre o computador, livros como companhia. Têm flores na capa, têm títulos bonitos. E são, tenho a certeza, grande literatura. É bom, isto. Tá-se bem. Ou, mais simplesmente, tá-se.


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As flores são obviamente de Georgia o'Keeffe e vêm ao som de Moving on de Leonard Cohen

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E é isso aí: bola para a frente. Para a frente é que é caminho.

Força. Saúde. Alegria.

quinta-feira, agosto 13, 2020

A nossa casa




Quando o vendaval começou a rodopiar em minha volta, só me apeteceu levantar os pés do chão, cortar raízes, mudar completamente a minha vida. E mudei.

E, às tantas, ao mesmo tempo que me preparava para mudar de emprego, de local de trabalho, de tudo, e não sendo capaz de despir a pele e aparecer com uma nova, apeteceu-me também mudar de casa. Durante meses, à noite, andava a ver sites de casas. Era disso que eu falava. O rival do blog, o que retinha a minha atenção, era isso: pesquisar casas. Mil casas. Depois também a minha filha. Mandava-me listas de links. Entusiasmavamo-nos, achávamos que uma tinha potencial, outra tinha graça. O meu marido nestas coisas põe-se à margem. Acha que são maluquices. Coisas tuas e da tua filha, dizia. Quando não adere às iniciativas demarca-se tanto que até parece que a filha é só minha. Nós duas fazíamos short lists, telefonávamos para as agências, pedíamos informações, visitas virtuais. Ele nem aí. A minha filha via a coisa a progredir e perguntava: 'E o pai? O que é que o pai diz?' e eu respondia com a verdade: 'nada'. Ela própria inquiria o pai. Não conseguiu mais do que eu: 'Vocês são malucas' ou 'Não tenho nada a ver com isso' ou 'Isso são coisas da tua mãe'.


Querendo saber a opinião do meu filho, eu mandava-lhe links. Também não ligava, achava que não havia qualquer racionalidade no processo, dizia que não se percebia a lógica por detrás daquelas opções, que nada naquelas escolhas fazia sentido, dizia 'tu e a mana embarcam as duas num entusiasmo que não tem qualquer racionalidade' ou 'exactamente, qual a ideia?' e, a maior parte das vezes, nem respondia aos mails que eu lhe mandava.

Fomos ver algumas ao vivo. O meu marido contrariado. Antes de ir e de vê-las já tinha decidido que eram 'uma porcaria'. Em todas eu via um lado bom: se fizer obras, se modificar, imaginava eu as possíveis virtudes. O meu marido, contrariado: 'só perder tempo'. Achava as casas uma porcaria, os locais uma porcaria, a ideia descabelada.

Foi neste processo que constatei como há tanta casa tão feia, tanta casa esquisita, tanta gente com mau gosto, tanto ambiente depressivo, piroso, estranhíssimo. 

Até que um dia reequacionámos tudo, pusemos tudo em perspectiva. E se a decisão fosse ainda mais radical? E se olhássemos para outro tipo de casas, para outros lugares?

Aí, o meu marido e o meu filho começaram a prestar atenção. A minha filha apoiou a mais do que cem por cento.


Um dia, estava eu a espreitar sites, descobri uma casa extraordinária, daqueles projectos de arquitectura arrojada, uma casa feita para existir quase vazia, só a casa e o espaço. E a luz...? Liguei para a agência, perguntei ao meu marido se lá poderíamos ir ao fim do dia. Nem lhe mostrei a casa. Sabia que ele ia adorar. Mandei o link aos meus filhos. A minha filha não ficou entusiasmada, o meu filho amou. Como foi muito em cima da hora, ela não conseguiu ir. Ele sim, ele, a mulher, os filhos.

Lá chegados, toda a gente ficou encantada. Coisa para além de. Parecia que estávamos num outro lugar, a viver num outro comprimento de onda. O meu marido olhou para mim, surpreendido. Vi que seria com agrado que lá viveria. A minha menininha chamou-me de lado e disse-me: 'Eu vivia aqui na boa'. Corriam pela casa, contentes, escolhendo quartos. Na divisão grande, esconsa, decretaram que dormiriam eles e os primos.

A mim surgiam-me dúvidas: lavar tanta janela, tantos painéis de vidro, tão grande clarabóia. Diziam: terá que se contratar uma empresa. Mas logo todos diziam: tanta luz, à noite a ver-se o céu do sofá. E era, tanta luz, tanta amplitude, aquele terraço largo, as divisões comunicando-se, quase sem paredes. A cozinha cheia de cor e luz, aberta, ampla. 

Hesitei. Eles queriam. A minha filha na dúvida, dizia que a arquitectura mais lhe parecia de hotel que uma casa. Eu pensava na decoração: teria que me desapossar de grande parte da minha mobília, bibelots nem pensar. Mesmo quadros seria difícil, tudo tão amplo e aberto, tanto vidro e portas e janelas, quase nenhumas paredes boas para pregar quadro. Mas como, justamente, estava mesmo nessa, de me desfazer de tudo o que fosse passado e presente, não seria por aí. É que havia também o preço: um bocado acima do orçamento. Partimos, pois, para a negociação. Fizemos uma proposta agressiva e, para nossa surpresa, do lado de lá, em vez de nos mandarem passear, veio uma proposta a meio caminho.


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Hoje fico-me por aqui, estou cansada demais (e talvez percebam agora melhor que arrumações radicais são estas em que ando metida e porque é que chego a esta hora com os bofes de fora).

As pinturas são de Georgia O'Keeffe e quem a acompanha é Maria Bethânia com 'A nossa casa'

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Desejo-vos uma bela quinta-feira.
Saúde. Sorte. Alegria.

quarta-feira, junho 26, 2019

Apesar das tormentas,
para sempre voamos
século após século no ressalto dos ventos





Há um aspecto nas cidades portuguesas que é muito diferente do que se pode encontrar noutras cidades europeias. Não precisamos de ir muito longe, basta ir aqui ao lado, a Espanha. Se estivermos depois das cinco da tarde na Plaza Colón ouviremos como que um muito sonoro chilreio: são crianças. Montes de crianças. Correm, brincam, chamam umas pelas outras, riem. Grande parte está com as empregadas, grande parte delas da América do Sul. Mas o que verdadeiramente impressiona é a quantidade de crianças. Numa outra cidade espanhola, aquela que prefiro, em minha opinião uma das mais belas cidades euopeias, San Sebastian, a Donostia do País Basco, também, a partir de meio da tarde, as ruas e os jardins estão cheios de crianças, aqui já muitas com os pais e não tanto com as babás como no centro do Madrid. Em Amesterdão, tenho ideia que é ao longo de todo o dia que se vêem jovens mães ou pais com crianças nas bicicletas. Tantas crianças.

Por cá, durante a semana, pouco se vêem. Não apenas não há muitas crianças como as poucas que há têm que ficar nas escolas até tarde já que os pobres pais têm que trabalhar até tarde e, depois, enfrentar longos e demorados percursos, presos no trânsito.


Se há aspecto francamente descurado por todos os governos, incluindo pelo da geringonça, é o demografia. É certo que tem havido uma ou outra medida mas, reconheçamos, nada que seja efectivo, tudo muito em ponto pequeno, medidas desgarradas, timoratas. E, por isso, não espanta que os resultados sejam tão desoladoramente incipientes.

Uma das filhas da senhora que vai ajudar a minha mãe a tratar do meu pai vive na Alemanha e tem duas filhas pequenas. As licenças de maternidade são extensas, os horários são reduzidos enquanto as crianças são pequenas, o ensino é completamente gratuito, incluindo todo o material escolar, e nem sei que outros apoios tem, pois, volta e meia, quando me contam, fico tão admirada que acabo por não fixar, quase como se fosse uma quimera em que nem vale a pena pensar. Apesar de não ter um emprego por aí além e de ser emigrante, ela não teve qualquer problema em ter uma criança e, pouco tempo depois, uma outra. E quando fala com a mãe, via Skype, está fresca e bem disposta, nunca se queixando de nada.


Um país com muitas crianças é um país com futuro, em que a população pode viver tranquilamente, encarando o futuro com tranquilidade, sem o peso do receio de uma possível falência de sistemas de segurança social. Em países como Portugal, em que há cada vez menos pessoas a entrar como novos contribuintes para um sistema repleto de idosos que vivem cada vez até mais tarde, paira sempre sobre o pescoço, em especial dos que caminham para a madura idade, o receio de que o cutelo do corte das pensões empobreça a sua velhice.

Por isso, é vital que se reforcem todos os apoios ao incremento da natalidade, e que se seja criativo, arrojado, que se tenha uma visão abrangente -- que haja subsídios de apoio ou redução fiscal (o que for mais eficaz) para famílias com crianças, que haja infantários e escolas públicas, obviamente gratuitas, com actividades e horários alargados e funcionando todos os meses do ano, que haja amplo apoio pediátrico, que se reduzam os horários para pais com filhos até aos doze anos, que se fomente o teletrabalho, que haja uns quantos dias para ausências para que os pais possam acompanhar os filhos, que haja também alguns dias para avós que tenham que prestar apoio aos netos.

E estou a escrever ao correr da pena. Mas que se abra um debate público, que se faça um inquérito junto de jovens pais para saber quais as suas dificuldades e outro junto dos que não têm filhos para saber o que receiam.

Dir-me-ão que receiam os ordenados baixos o desemprego. Claro. Mas isso combate-se com uma economia pujante -- e é outro lado da equação. 

E não é apenas para a sustentabilidade dos sistemas contributivos que é indispensável ter um equilíbrio demográfico: é também porque cidades sem crianças pequenas e sem jovens irreverentes são cidades soturnas, tristes. E, quem diz cidades, diz vilas ou aldeias.

E, enquanto não estejam no terreno todas essas medidas e que comecem a produzir efeito, pois que se incentive a imigração.

E aceitem-se miúdos de países em risco, famílias de refugiados com filhos pequenos. E 'importem-se', por exemplo, médicos e enfermeiros.
Não os há que cheguem nos hospitais porque cada vez há mais clínicas e hospitais mas as Faculdades de Medicina são basicamente as mesmas. Como é que os médicos e enfermeiros hão-de ser suficientes? Não são, claro. Mas não é drama: incentive-se a vinda de médicos de outros países. 
Ou engenheiros informáticos, que estão também em falta. Ou engenheiros de ambiente, engenheiros sanitários, engenheiros de materiais, ou físicos ou bioquímicos, ou gente que venha investigar seja o que for. Muita falta nos fazem.  Todos os que cá tivermos serão sempre poucos.

E, já agora: uma vez que começam a rarear muitas profissões, criem-se muito mais escolas técnico-profissionais onde se ensine a ser electricista, canalizador, mecânico, instrumentista, torneiro, etc, para ter oferta diversificada a nível de ensino, incluindo para jovens que não querem fazer cursos superiores.

E outra coisa. Uma muito importante.

Estou a falar de algo que, em meu entender, é vital nas cidades para lhes dar vida, uma vida jubilosa, uma vida com irrequietude de espírito, alegria e criatividade: a arte.

Uma vez escrevi uma carta ao presidente da autarquia com um conjunto de sugestões: que enchesse as ruas de arte, que oferecesse prémios e bolsas para artistas que fizessem trabalhos para a cidade, que tivesse residências e ateliers para artistas vindos de onde quisessem vir, que tivesse galerias públicas.

A arte atrai bons espíritos, atrai mais gente, e mais gente atrai mais trabalho e prosperidade, maior qualidade de vida e maior qualidade de vida é segurança, e segurança e qualidade de vida dá mais vontade de criar família, de ter crianças, de renovar o mundo.

Terras sem artistas, sem arte pública, sem comunidades de artistas vibrantes, criativos, diferentes, são terras tristes, ensimesmadas, com tendência ao esvaziamento, terras com triste futuro.

É outro aspecto fundamental nas políticas públicas: muita arte, arte ao dispor de todos, arte a inspirar todos.

Forte apoio à natalidade, forte apoio à imigração, forte apoio às artes -- são três medidas que espero que estejam bem presentes no programa do próximo governo. Isso a par da defesa do planeta que, espero bem, há-de ser uma das principais causas dos anos que aí vêm.

Claro que muito mais que isto. Bibliotecas públicas abertas de manhã à noite e ao fim de semana, também, por exemplo. E mais, claro. Mas a estas políticas a que aqui dei destaque eu dou total importância. E defendê-las enche-me de entusiasmo, como se tivesse uma suave brisa a tocar-me o rosto, como se tivesse os braços cheios de braçadas de flores, como se tivesse outra vez dez anos e largasse a correr por um sinuoso caminho descendente, a saia voando, os cabelos compridos pelos ares, eu com a vida pela frente, eu ainda nunca desiludida, eu ainda inocente e crente na força da minha vontade.


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E, já agora, queiram dar uma espreitadela a este lugar onde fervilha a arte: Dubai



E outro: Leipzig


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E para o Leitor que hoje chegou aqui depois de ter escrito num motor de busca 'o que é a beleza de uma mulher', aqui deixo uma possível receita:


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Usei pinturas de Georgia O'Keeffe e o Smile pela Madeleine Peyroux para dar alguma graça a este post. O título é um excerto do poema Eternidade de Maria Teresa Horta

E desejo-vos uma feliz quarta-feira

quarta-feira, junho 20, 2018

'Entre as onze horas e a uma, obtemos muitos sorrisos' dizia a Enfermeira Beverly Whipple




Começo pelo fim: gosto de me chegar à frente, de me atravessar. Como no outro dia já contei, declararam-me (de papel passado e tudo e, por acaso, no primeiro ponto até contrariando o oftalmologista), sou de ver ao longe e movo-me bem é fora da caixa. Portanto, não querendo saber de riscos ou de ciências analíticas, às duas perguntas que se possam formular eu poderia arriscar e atirar-me já de cabeça para a dupla afirmativa. Sim e sim. Mas hoje estou de pianinho. Portanto, vou com calma.

E vou caminhando, mansinha, entre inocentes e vulvícas flores.


Retomo, então, o fio e dirijo-me para o começo. O post começa agora. E começa assim: não sou cientista. Já tinha dado para perceber, mas, para os mais distraídos, nunca é demais assegurar que as premissas estão bem entendidas: não sou cientista.

E mais: também não sou especialista, nem disto, nem daquilo nem daqueloutro. A ser alguma coisa, serei generalista, salta-pocinhas, maria maluca -- ou a bissectriz entre tudo isto, se é que se consegue traçar uma bissectriz entre coisas deste género.

Portanto, gostando eu de me poder aventurar pela temática que se me afigura de basto interesse público, sinto que me falta competência. Claro que poderia usar o truque que uso quando não tenho bases para elaborar um raciocínio bem sustentado, ou seja, poderia falar da minha experiência pessoal. Mas aí, algum daqueles eremitas que gosta de se esconder na moita com um barreto na cabeça, haveria de saltar para o palco e, com os guizos a saltarem-lhe dos miolos, haveria de decretar: 'Cá está, é narcisista, sim senhor'. Ora como eu hoje estou naqueles dias em que um diabólico cansaço se me apresenta disfarçado de santidade, tolhendo-me os dedos -- e, também, para não despertar maus olhados ou conclusões asininas -- deixo-me aqui estar, beatinha, no meu canto.


Podia até evitar o assunto que é tema que não interessa à comunidade bem falante, aquela comunidade que gosta de grandes causas e despreza as miudezas da raça humana. Eu também reconheço que, na escala das causas, esta é daquelas que não se vê.
Vejo assim a escala das causas: há as grandes até demais para serem abarcadas pela infeliz mente de nós outros, depois as grandes mas de tamanho comportável, depois as grandes mas invisíveis, depois as passageiras, depois as mixurucas, depois as merdices, lá no fim as paneleirices sem história e, no fim de tudo, as pequenas misérias humanas de que mais vale a gente nem saber.
Este tema que aqui me destraz hoje é daqueles de que não reza a história e que toda a gente prefere fazer de conta que é invisível.

E tanto assim é que meio mundo opina mas nada que fique assertivado em artigo da Nature ou que a Science perfilhe. Aliás, a Nature já por lá andou mas não consigo ler o artigo todo para poder aqui botar abstract conclusivo.

O que sei é que uns afirmam categoricamente que não existe, outros, mais cautelosos, não garantem que exista ou inexista e outros, a medo, dizem que parece que sim mas que está por provar.


A temática é dupla: por um lado, duvida-se da existência de um certo G e, por outro, da existência de múltiplos O's.

Para abreviar os preliminares, aponto para um artigo do The Guardian. Para a coisa ficar ainda mais robusta, deveria dizer: do insuspeito The Guardian. Reza assim: The search for the multiple orgasm - does it really exist?

E, introduz o tema, desta forma: On-screen depictions of sex show women coming again and again, yet in reality many women never climax during sex. Here’s what we know so far about the clitoris and G-spot


O artigo é extenso pelo que, recomendando a sua interessante leitura, me fico por um little excerto:
A recent documentary on the “super-orgasm” – actually multiple orgasms – found that women who had multiple orgasms had slower alpha waves than the average woman. Their brains were quieter, making more room for pleasure. “The thing about sex of all sorts,” says Martin, “is that sex takes place in the body. It’s very hard to think about pleasure if you are worrying instead of focusing on your body.”
What might you be worrying about? Probably whether you’re going to have an orgasm. Only about 20% of women can reach orgasm by penetration alone; the rest of us need clitoral stimulation. The vagina is marvellous, but it is not packed with nerve endings like the clitoris.
You may think differently about the vagina if you believe in the G-spot. Puppo has little patience with it, and labels anatomical illustrations with: “the invented zone for the G-spot”. It is named after Ernest Gräfenberg, who wrote a paper in 1950 about an erogenous zone on the vaginal anterior wall. This was launched into popular perception by an eponymous 1981 book written by two psychologists and a nurse, and by countless articles since. The nurse was Beverley Whipple, who told the Science Vs podcast that her team had investigated by inserting fingers into women’s vaginas and feeling around the clock. “Between 11o’clock and 1 o’clock,” Whipple says, “we got a lot of smiles.”
(...)


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E esta é a acima referida Enfermeira Beverly Whipple que parece saber do que fala e que explica algumas coisas -- entre as quais uma curiosa, que os homens são um linha (penso que deverei dizer um segmento de recta), enquanto as mulheres são um círculo (pelo desenho, penso que deverei traduzir por circunferência embora, com a riqueza sensorial das mulheres, talvez não seja demais deixar ficar o círculo)


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O primeiro desenho é de Olimpia Zagnoli.
As vaginais flores (desculpem o lapsus: queria dizer as virginais) são de Georgia O'Keeffe
A última pintura é de Júlio Pomar
E, lá em cima, Nina Simone interpreta I wish I knew how it would feel to be free



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E por aqui me fico, mas não sem antes sugerir que desçam à descoberta dos mais lindos chapéus do mundo e sugerir, também, que vão em busca das respostas (conselho extensivo a Leitores de todos os sexos)

quinta-feira, junho 22, 2017

Contra o obscurantismo... marchar, marchar!
[Afinal já estamos no século XXI, caraças. Como ainda tanta cliteracia...? Como, senhores...?]



O tema de hoje não é inédito no Um Jeito Manso. Mas não é de estranhar porque este é um lugar que é quase um gineceu. Bem, talvez não. Os homens são aqui muito bem vindos. Mas, enfim, não levem a mal, apenas como meros voyeurs. Observadores, em português. Ou, vá, como convidados.

Mas, portanto, é tema que me apraz. Por exemplo, faz cerca de um ano escrevi um post cujo título rezava assim: 

As mulheres devem pôr o seu clitóris em cima da mesa?

Ou devem começar por libertar os mamilos?


Pouco tempo depois reincidi e o título foi:




Não que o tema me excite a veia prosaica, muito menos a poética, mas tenho um lado dado à ciência que acha graça ao funcionamento das coisas. Portanto, o interesse é -- digamos assim -- científico. Não tivesse eu divergido no ramo da ciência e talvez a botânica ou a biologia estivessem mais vezes aqui presentes. Assim, limito-me aos bonecos, aos desenhos animados... Ou seja, quase poderia dizer que eu é mais bolos, pastelaria fina, bombons, por exemplo.

Ora bem.


Como não sei nada de história, não posso afiançar que seja mesmo mas li que na Grécia antiga o dito era celebrado. Aqueles gregos não eram parvos nenhuns. Depois, nas Idades Médias, o bichinho foi ignorado. A seguir foi a vez dos cientistas deitarem mãos ao assunto e, quais mineiros por grutas e labirintos, acabaram por descobri-lo. Eureka, eureka, ali estava ele -- um organito, um pequeno botanito. Depois, garimpando com atenção, perceberam que, afinal, o botanito tinha umas perninhas. 


E agora vem Lori Malépart-Traversy e resolve educar o pessoal e faz um filme que está a dar que falar. Para já, já ganhou vários prémios, entre os quais o Best Short Film Award no Festival Vues e o Best Documentary no Chicago Feminist Film Festival 2017.


O filme chama-se:

Le clitoris - Animated Documentary


E, como o nome indica, explica o que é, como é e como funciona o único órgão do corpo humano dedicado exclusivamente ao prazer. E que apareça aqui o primeiro machão a achar que é superior às mulheres que terei que lhe atirar com esta. Foram, por acaso, os homens contemplados com tamanha benesse do Criador ou de quem gizou o big plano desta coisa toda? É o foste...

Ora aprendam, se faz favor, que o conhecimento não ocupa lugar e, volta e meia, desce em mim o espírito do serviço público. Ou isso ou aquela inspiração que me faz sentir uma santinha, a vossa bem conhecida Sta UJM. Aprendamos irmãos (e irmãs, como diria o outro).



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Talvez até já.
E, vou já avisando, depois desta lição, quando regressar, espero encontrar-vos já mais instruídos. Bem.

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