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quarta-feira, junho 22, 2022

Nudez, intimidade, prazer, sexo (pago)

 

Está a fazer furor. Eles desdobram-se em entrevistas. Mais ela que ele. Compreende-se. Vários aspectos são tabu: sexo, prazer, intimidade, nudez. Tanto mais sendo sexo pago, sexo pago por uma mulher, nudez duma mulher com mais de 60. Tanto mais quanto ela é a Dame Emma Thompson.

Ao ver a apresentação do filme e ao ver algumas das entrevistas, fiquei a pensar. Será que, em circunstâncias idênticas, eu seria capaz de contratar um profissional de sexo? Não sei. Poderia ter vontade, poderia sentir curiosidade, mas não sei, sou um bocado medrosa para coisas assim. Ficar sozinha com um desconhecido, sem conhecer a sua índole, assustar-me-ia. 

E se fosse um ladrão? E se fosse um assassino? E se fosse um violador? E se fosse agressivo? E se fosse estranho? E se fosse um tarado? E se fosse um chantagista? E se fosse um palerma?

Sou um bocado esquisita, ou seja, exigente. Melhor: muito exigente. O diabo está nos pormenores. Se alguma coisa me desagradasse 

(um cheiro pouco convidativo, dentes mal lavados, cabelo pouco limpo, mais do que um pontapé na gramática, sinais de burrice aguda. umas cuecas foleiras, uma tatuagem ridícula, todo depilado, uma camisa com colarinho ensebado, umas meias encardidas, desatento... sei lá, mil coisas) 

já não ia dar. Tem que haver clima. Pode até ser apenas um climinha. Mas tem que haver. E, para haver climinha, não pode haver nada que distraia, nada que perturbe, nada que possa comprometer.

Por isso, com tanto receio, tanta ressalva, acho que não me arriscava a abrir a porta a um desconhecido havendo o risco de, no minuto seguinte, só querer vê-lo pelas costas. 

E se o mandava embora e ele se recusava a ir? Que medo...

Não... acho que o meu espírito de aventura não é para isto. Mas já me pareceria viável conhecer alguém num encontro em público com a intenção de o conhecer, de conversar. Claro que também poderia não funcionar. Ao fim de dois minutos poderia ter vontade de arranjar uma desculpa e desandar. Mas se, por exemplo, me aparecesse alguém com quem se pudesse ter uma boa conversa sobre a situação na Ucrânia e na Rússia, sobre o suicídio do PCP, sobre os problemas ambientais nos próximos anos... coisa assim, já me parece que poderia ser interessante. Poderia nunca passar disso. Mas isso, em si, poderia ter piada.

Mas, pronto, eu não poderia dar a personagem interessante que a viúva Nancy Stokes parece ser. E também não sei se há por aí muitos Leo Grandes.

Agora uma coisa é certa: não sei se, depois de um filme assim --  e falo apenas por ver a apresentação e as entrevistas -- se vai continuar a olhar para os profissionais do sexo da mesma maneira. É censurável que Nancy Stokes tenha recorrido a Leo Grande para voltar a estar nos braços de um homem, para voltar a sentir prazer, para voltar a sentir o aconchego da intimidade?

Falo por mim: não acho censurável.

Mas... se fosse ao contrário? Se for um homem a contratar uma mulher... já o é? Porquê? Porque um homem vender-se para dar prazer a uma mulher é menos censurável do que se for uma mulher a fazê-lo?

Good luck to you, Leo Grande

com
Emma Thompson, Daryl McCormack


Dame Emma Thompson wants to talk about sex. It’s all because of her new film Good Luck To You, Leo Grande. In it, she plays a widow in search of sexual fulfillment. Relative newcomer Daryl McCormack plays the sex worker she hires to help her in her quest.

Desejo-vos um dia bom
Graça. Alegria. Confiança. Paz.

terça-feira, março 30, 2021

Mulheres como eu

 


São invisíveis. Habitam a noite, esgueiram-se pelos passeios, pelos pinhais da beira da estrada, pelas esquinas da vida. Ou recebem em casa, quando a têm. Há terras em que estão às portas, convidando quem passa. Outras vezes escondem-se, disfarçam-se.

Por vezes vêm de destinos longínquos. Vinham em busca de uma vida melhor. Algumas nasceram em famílias desestruturadas ou, simplesmente, foram vítimas da má sorte.

O mundo divide-se em grupos. Não serei a pessoa mais indicada para o exercício. Mas, a meu ver, consigo identificar alguns.

Há uns quantos que se acham acima de todos, outra estirpe, uma estirpe que se acha tão acima das restantes que não quer nem saber de mais nada. Habitam o Olimpo e isso basta-lhes. Há, depois, uma parte do mundo que, afortunadamente, não tem de que se queixar e que louva a vida. Todos os dias me sinto agradecida por, até agora, ter feito parte desse grupo. E há aquela parte do mundo, uma parte crescente, que, com ou sem razão, sorri para as selfies, ficciona vidas de ilusão, exibe ao mundo as suas insignificantes vitórias, procura ser universalmente seguida, procura avidamente a aprovação nem que seja através de um 😊 ou de um 👍. E há os outros, os muito discretos, os remediados, os que não têm muita razão para se sentir felizes mas que a vão levando, pouco falando, existindo sem sobressalto e gerindo bem a angústia. E depois há os outros, os silenciosos, os que querem que ninguém os reconheça, os que preferem ser desconhecidos e ignorados, os que aprendem a controlar a vergonha ou a revolta, os que tentam aprender a racionalizar a vida que a má sorte lhes reservou, os que apenas tentam sobreviver.

Tenho muita pena das mulheres que se prostituem. Respeito-as e lamento que usem o seu corpo como instrumento ao dispor de quem não as respeita. Não consigo sentir, no meu íntimo, repulsa ou condenação. Tenho apenas um sentimento de profunda solidariedade. São mulheres como eu.


Amber



Faith


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Fotografias de Mark Laita que também realiza estes vídeos

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Desejo-vos um dia bom

segunda-feira, julho 20, 2020

O bairro das prostitutas à pinha e o presidente maluco que reconhece um elefante
[E, com isto, até fico quase sem jeito para dizer que transporto o teu coração dentro de mim]





Durante anos, antes de o conhecer, imaginava que o Red Light District seria um antro de perdição, um lugar com mistérios e malícias, transpirando glamour, com aquela pitada de secretismo e de interdito que supostamente deve apimentar os encontros sexuais.

Até que um dia fui numa viagem de negócios a Amesterdão com um colega que tinha trabalhado na cidade e que se propôs fazer-me uma visita guiada pelos locais mais conhecidos. Sendo ele um conceituado executivo, dir-se-ia que me levaria a ver locais ligados ao conhecimento ou às artes. Mas não. Perguntou se eu gostava de conhecer os lugares da droga e da prostituição. Não me fiz rogada, julgando eu que ia entrar em meandros onde só os entendidos se aventurariam, coisa com o seu quê de bas fond,, de clandestino, ou, pelo menos, coisa reservada apenas a connaisseurs. 

Decepção: na zona da erva, malta encostava-se às paredes, outros estendiam-se pelo chão, outros entravam e saíam das lojas mas tudo sem qualquer elevação. Apenas gente janada, alguns num estado de dar dó.

Chegados ao bairro vermelho, fiquei ainda mais decepcionada. Coisa mais pirosa, pensão de meia tigela à vista de todos, gentinha a ver por ver, turismo pacóvio. 

Regresssei ao hotel de luxo a achar que aquilo não abonava muito a favor dos holandeses.

Mais recentemente voltei lá. Na altura, falei nisso. Pensei: será que na outra vez vi outra coisa? ou estava mal disposta e fiz uma má avaliação do que vi? ou será que, se era mesmo mau, agora está mais decente? Mas não. A mesma colecção de tesourinhos deprimentes. Pequenos compartimentos com uma caminha fajuta, tenho ideia que um bidé a um canto, uma toalhinha. As mulheres na montra. Depois entra o homem, fecham a cortina. Um cubículo triste. As ruas cheias de gente. Até eu, ali no meio, querendo compreender o que não é para compreender. Que género de homem fura a barafunda para entrar numa pequena loja, cumprir o seu propósito, provavelmente lavar-se e sair dali? É apenas uma experiência, coisa ocasional? Irá gabar-se de ter ido às putas no Red Light District? Haverá alguém no seu perfeito juízo que ache que é feito de que possa orgulhar-se? Ou será simplesmente um solitário que, não tendo melhor alternativa, vai ali desovar?

Mas, nisto das coisas estranhas da vida, o melhor mesmo é a gente não se arriscar a dar palpites nem tentar arranjar motivos para situações de que não temos qualquer inside conhecimento. O que para nós é uma coisa triste, desolada, sem futuro, pode ser apenas uma bóia de salvação a que alguém se agarre para se aguentar na sua solidão. 

Mas isto para dizer que foi, pois, sem surpresa que li que, ao reabrir o bairro das meninas em Amesterdão, aquilo se apinhou de tal maneira que as autoridades tiveram que recuar na libertação dos impulsos, mandar fechar ruas. Uma coisa que a minha razão não percebe bem pois aquilo é, a meus olhos, uma coisa decadente, triste, o género de coisas que, por não ter qualquer vestígio de requinte, mistério ou jogo de sedução, deveria era afastar as pessoas que não deveriam querer testemunhar a tristeza alheia. Mas, tal como eu já fui lá ver por duas vezes, ambas por curiosidade absurda, se calhar é isso que todos os papalvos lá vão fazer. Esses e os outros, os que frequentam e mantêm vivo o negócio pois sabemos lá nós que necessidades se escondem por detrás da coragem que, vendo bem as coisas, também é precisa para transpor aquelas portas. 

E, depois, quem diz que, entre uma pinocada a correr e uma lavagem rápida antes de sair porta fora para dar lugar ao próximo, não nasce um dia um grande amor? Não produziu E E Cummings belas cartas de amor a pensar numa prostituta que conheceu em Paris? Já mais do que uma vez aqui tive poemas seus, tanto que gosto deles, pessoa apaixonada, ele. E, com a mesma paixão com que os escreveu, pelos vistos assim escreveu antes palavras de amor e saudade a Marie Louise Lallemand.

Transcrevo do Guardian, e, portanto, não em francês mas em inglês:
In one letter, written from the frontline in France, Cummings told Lallemand: “Darling, Marie Louise, you who are more to me than the scarlet poppies which are mown, more than the yellowing evenings which we see die, more than the silence full of stars, the completely white silence of night, only awaiting dawn, – take the kiss which I give you, that kiss, without value, because it comes from a soul which loves you.”
[Artigo completo: Revealed: how a Parisian sex worker stole the heart of poet EE Cummings.]
Portanto, adiante.

Mais preocupante, mas muito, muito mais, incomensuravelmente mais do que a provocada pelo maralhal amontoado à porta das montras com as prostitutas de Amesterdão, é o que se passa nos Estados Unidos, com uma besta quadrada à sua frente, um psicopata, um inútil e um destituído como são inúteis e destituídos todos os narcisistas, pior aqui por se tratar do supostamente mais importante país do mundo a ser governado por tal cavalgadura. Sempre que o vejo pasmo: como é possível que ainda ninguém tenha arranjado maneira de o mandar de volta para casa dele? Tudo o que diz e faz revela o miolo de batada moída que tem dentro daquela cabeça. Mas não é só as cavaladas que diz: é a forma como diz, é o tom de voz, é tudo. Uma desgraça que não se percebe como alguém consegue aguentar. A mulher, apesar de ser aquela boneca empalhada, nem suporta que ele lhe toque, mal se aproxima dele, creio que nem vivem juntos, e os colaboradores e colaboratrizes rodam a grande velocidade, incapazes de suportar tanto egocentrismo, tanta estupidez e parvoíce (pode parecer que estupidez e parvoíce são sinónimos mas não, há nuances que fazem toda a diferença). Cada entrevista que a alimária dá revela o vazio alucinado que o preenche e, cada uma, só por si, deveria gerar um escândalo nacional e internacional. Mas não. Aceita-se que um atrasado mental que acha que acertar num teste que um elefante é um elefante é prova de sanidade mental continue a governar os Estados Unidos. Algo vai mal no mundo com coisas destas a acontecerem. A existência do Trump como presidente dos States legitima que, um pouco por todo o lado, muitos outros que tais empestem os países, as cidades, as ruas, as casas deste planeta. Uma triste lástima.
É ler Donald Trump v Fox News Sunday: extraordinary moments from a wild interview para se ver mais uma das suas últimas. (Facing a feared interviewer, the president ended up insisting that identifying an elephant proved his mental capacity)
Que burro, senhores. Pior do que um psicopata é um psicopata burro. 

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Já agora, por falar nele: "i carry your heart" de E E Cummings (lido por Tom O'Bedlam)


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Pinturas de Egon Schiele a acompanhar 'Les amants de Paris' na voz de Edith Piaf

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E a todos desejo uma bela semana a começar já por esta segunda-feira

quinta-feira, maio 02, 2019

O sexo real vai sobreviver ao sexo virtual?


Depois do Professor David Spiegelhalter revelar a tendência decrescente no número de relações sexuais praticadas (ver aqui e aqui), é agora o Guardian a vir alertar para que a Netflix está cheia de cenas a apelar ao amor e ao sexo por outras vias que não as que o Adão e a Eva inventaram. 


Mais uma vez limito-me a papaguear terceiros porque não sei mesmo já que, como contei há dias, não frequento (ainda) o Netflix. Mas o Guardian, que não engana ninguém, anda a levantar a lebre: diz que parece que, pelas bandas do Netflix, gostam muito de robots, bots, AI e quejandos para satisfazer as carências amorosas e sexuais do pessoal.


Digital love: does Netflix have an unhealthy robot sex obsession?


From VR sexcapades in Maniac to amorous AI in Osmosis, the streaming service keeps bombarding us with disturbing tech hookups. Enough! (...)

E ali li que já há bordéis com humanóides, bonecas 'inteligentes' (e ponham aspas nisso), nomeadamente em Barcelona, e que em Amesterdão, na rua das luzes encarnadas, terá aberto em Março deste ano um cinema 5D no qual, ao 3D, vai ser adicionado o cheiro e o tacto.



O Guardian tem, contudo, o cuidado de dizer que há coisas que não são de agora. Mas assinala o que é diferente e é para isto que o artigo chama a atenção.
Depictions of coitus with artificial beings is not an entirely new area of pop-culture fascination. The cyberpunk novels of William Gibson, Jude Law’s bittersweet robot gigolo from Kubrick and Spielberg’s AI, plus the romantic entanglements of the two heartbroken Blade Runners, Harrison Ford and Ryan Gosling, all come to mind. What is new, though, is a deeply antisocial trend about the depiction of artificial partners. Increasingly, robots, VR personas and digital proxies are not seen as cradles of consciousness, but as mere objects of (mostly male) sexual desire.
E continua:
Yet those examples seem to be the exceptions. So is our fascination with AI now turning into a fear, induced by deep fakes (digitally manipulated videos) and vicious AI deployed by nameless agents from all around the world? Are we just flirting with the idea of sexual gratification with someone (something) you don’t have to cuddle up to, make breakfast for or call up the next day, but can simply switch on and off depending on your desires?
Um dos casos que o Guardian refere é Osmose. 
The opening scene of the French-language thriller Osmosis sees Agathe Bonitzer perform the same feat, albeit in classier surroundings. Her virtual sexcapade takes place at once in a luxurious hotel bathroom and the offices of her company Osmosis, which aims to revolutionise the art of sex and love itself. Agathe is getting off through a nanobot-controlled brain transplant that builds up a mental image of one’s soulmate and embeds a friendly neighbourhood AI named Martin in the subjects’ heads that leads them to their ideal match. The show then goes on to contemplate whether this mindreading-AI-driven manipulation is a viable business model in a society so oversaturated with digital devices and virtual selves – and we find that for streaming television, it certainly is.
Não conhecendo eu o Osmosis fui cuscar. Aqui está o trailer:


E é isto. O admirável mundo novo. 

Eu, cá para mim e com vossa licença, prefiro coisa mais corpo a corpo sem bots ou AI's a atrapalhar. Assim, por exemplo, como a Dança Sinfônica pelo Grupo Corpo:



E, se é para ser virtual, virtual por virtual, prefiro coisas mais simples -- como, por exemplo, estes xilreios 



Mas isso sou eu e eu, cuidado, não sou exemplo para ninguém.

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E só me apetece desejar-vos uma boa semana -- mas hoje tenho que fazer um ajustamento ao acrescentar... a começar já por esta quinta-feira.

quarta-feira, novembro 29, 2017

Da prostituição





Por mais do que uma vez disse que, se tivesse que tomar partido entre as Mães de Bragança e as prostitutas brasileiras, provavelmente me colocaria do lado das prostitutas. A forma como aquelas 'mães' falavam incomodava-me profundamente. Lembro-me de as ver, inflamadas, feitas vítimas, clamando vingança. Parecia que se achavam donas dos maridos e falavam como se eles fossem uns atrasados mentais à mercê de umas perdidas. Pelo contrário, as brasileiras pareciam-me inteligentes e dignas. 


Nunca consegui sentir repulsa pelas prostitutas ou, sequer, pela sua profissão. Ao invés, o que lamento é não ter oportunidade de conversar com mulheres que exerçam a prostituição. Quando passo nalguma rua de alguma cidade em que haja mulheres à porta a oferecer os seus serviços (estou a lembrar-me de algumas zonas de Paris ou mesmo duma certa rua do Porto) tenho que controlar a minha curiosidade pois gostava de poder aproximar-me, conhecer a sua história de vida. Deve ser um prazer ouvi-las, devem ter uma experiência de vida riquíssima.


Claro que há muita miséria e, por vezes, muita decadência sobre aqueles corpos e imagino as humilhações que, tantas vezes, devem sofrer. 

Se passo numa estrada nacional, e ainda no outro dia passei, ou em Monsanto, em que há mulheres na berma e camionistas por perto, o que penso é nos riscos que elas correm, no desconforto, nas situações difíceis pelas quais, certamente, passam. Impressiona-me, acima de tudo, a sua coragem.


E, quando penso nas dificuldades terríveis de tão controversa profissão, e pondo agora de lado as humilhações ou os riscos que acima referi, mais do que no comércio do sexo o que a mim me gera uma impressão profunda é a proximidade física que têm que suportar em relação a alguém que, por algum motivo, possa causar-lhes asco ou medo.
Muitas vezes, quando aqui escrevo e mostro que não sinto reservas morais em relação a algum tema, recebo depois críticas por ter sido interpretada como defensora da causa. Por isso, permitam que esclareça o que a mim me parece óbvio mas que pode não o ser para quem me lê: não advogo como recomendável o exercício da prostituição. Mas o facto de não aplaudir ou não incentivar não é sinónimo de me achar moralmente superior a quem o exerça. 

Cada um sabe de si, cada um tem as suas motivações ou necessidades, cada um sabe das suas circunstâncias, cada um lida melhor ou pior com o que tem que fazer para ganhar a vida. As vezes em que eu aturo o que abomino ou me forço a suportar até à náusea situações que afrontam as minhas convicções não têm conta. Penso, nessas alturas, que o que me apeteceria fazer seria virar a mesa, bater com a porta, mandar essa gente dar uma grande curva e, no acto, demitir-me. Mas depois penso que consigo aguentar mais um pouco e que é a minha profissão. Desempregar-me não me parece melhor opção. É aquilo pelo que passo, nessas alturas, mais agradável do que abrir as pernas a um estranho...? Não sei. Nunca experimentei esta opção. Mas de uma coisa estou certa: piores afrontas e mais duras violentações de consciência passam outras pessoas. Entre o asco sentido por uma advogada ao defender um corrupto em tribunal ou o asco sentido por uma mulher que, igualmente por dinheiro, receba um estranho num quarto de pensão, qual é o socialmente mais defensável? Não sei. 

Mais: admito até como provável que algumas mulheres por vontade de aventura, por desfastio ou por qualquer outro motivo que não o económico, resolvam exercer a prostituição, talvez uma prostituição selectiva e que não lhes custe nada. E, também nesses casos, não me sinto tentada a exprimir condenação moral. 


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Tenho andado para escrever isto desde que li um texto magnífico. Foi a Ana que o escreveu e foi das coisas mais verdadeiras e inteligentes que, nos últimos tempos, li na blogosfera. Chama-se Vender sexo e para ele peço a vossa atenção:

nunca considerei que fosse mais grave vender sexo do que vender ideias, do que abrir mão daquilo que se acredita ser certo, por dinheiro, por segurança. nunca considerei a prostituição uma profissão inferior a outra qualquer. qual professor que se sujeita a tutelas das quais discorda, CEOs que negligenciam os valores que apregoam no seio da família, padres que pregam o que não cumprem, médicos que não defendem, com unhas e dentes a vida. vender sexo parece-me muito menos indigno do que qualquer outro contrato que nos faça abrir mão daquilo que somos, daquilo que acreditamos, da nossa verdade.nunca considerei que pudesse interessar a alguém o que considero, mas sabe-me bem escrever isto, porque o penso, e porque faz-me lembrar daquela prostituta que vendia sexo na avenida da boavista para pagar os estudos dos filhos, e também me faz lembrar da colega de trabalho dela, que ajudava os idosos que moravam na rua onde ela alugava o sexo. também me faz lembrar do advogado que forjava provas para vencer os processos, e do homem que caluniava a mulher para que os filhos desrespeitassem a mãe, e do cirurgião que assustava os doentes para vender cirurgias.
e esta manhã, ao acordar, depois de ter escrito isso aí acima antes de me deitar, lembrei-me que também eu troquei sexo para evitar dias de mau humor do homem com quem estava casada, durante anos, por um humor que nunca entendi, que desprezava. nem dinheiro recebi por isso. se tivesse recebido, certamente hoje teria uma vida muito menos trabalhosa, feitas bem as contas até podia estar rica
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E, já agora, que entre e nos faça companhia Séverine, a Belle de Jour


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As fotografias são da autoria de Ellen von Unwerth e, digo eu, nada têm a ver com o tema aqui abordado

Lá em cima Khatia Buniatishvili interpreta Handel

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terça-feira, março 21, 2017

Doidas, doidas, doidas andam as galinhas
para tirar a Caixa lá do buraquinho.
[E ainda o fatalismo da Ana Lourenço, a prostituição da Fátima Campos Ferreira (salvo seja, claro) e o apicultor na rua da minha mãe].





Não tenho novidades do Stephen Hawking. A verdade é que, mal acabei de escrever o post sobre quem parece fadado para não conseguir experimentar a felicidade, caí para o lado. Deve ter sido a profundidade do tema que me deixou arrasada.
(e eu devia agora incluir aqui um smile, três eheehehe e mais um lol para ter a certeza que todos percebem que estou a gozar -- senão ainda ficam a pensar que sou parva, como se acreditasse mesmo que aquilo que escrevi tivesse alguma profundidade). 
Adiante.

Acordei com o meu marido a levantar-se do sofá, meio a dormir, e a ir para a cama. Mas ele tem razão em estar assim pois madrugou e, antes, ainda foi fazer uma caminhada. (Não estou eu já farta de confessar que gosto de malucos?) Mas, portanto, lá acordei. Arrastei-me até aos comentários para agradecer e agora, ainda patati-patata, apeteceu-me voltar a abrir uma página em branco.

Não que tenha alguma coisa para dizer porque não tenho. 

Não tenho paciência para as cenas da CGD. Parece que fica tudo maluco quando o tema é CGD. Como é que é possível que alguém consiga gerir uma empresa, que é coisa que se rege por princípios racionais, com meio mundo a meter o bedelho? Era a mesma coisa que eu, lá no meu estaminé, fazer as contas para ver como manter lá uma cena qualquer equilibrada e saltarem-me em cima as temíveis manas Mortágua, o walking dead Láparo, a Cristas enxertada em kiwis, o Carlos César a reboque, e, pasme-se, até o ubíquo Marcelo -- todos a alvitrarem isto, aquilo e o outro. Havia de ser giro.


Está tudo mas é passado, oh caraças.


Manter um banco vivo e de boa saúde passa por geri-lo com seriedade, com sentido de inovação, e com os pés na terra (e as mãos, que se querem limpas, sempre à vista). Não passa por sujeitar cada decisão a plenário nacional. 

Se há actividade que maior reconversão sofreu e há-de ainda sofrer é a da banca. De negócio de proximidade passou, sobretudo, a negócio virtual. E isto tem que ser encarado com pragmatismo. É assim e cada vez há-de ser mais.

Claro que nas aldeias, nas vilas, em lugares de população envelhecida, isso não existe, o que existe é o balcão e a pessoa que se conhece e em quem se confia. Então não vejo pela minha mãe? Ou somos nós que tratamos de alguns assuntos pela net ou é ela que vai ter lá com a amiga da CGD. 

Só que a verdade é que não faz sentido manter um balcão em cada canto e esquina só para movimentar meia dúzia de contas e atender uma pessoa de vez em quando. Mais vale haver lojas de cidadão com pessoas disponíveis para ajudar na utilização de meios informáticos e que apoiem na consulta a saldos ou a fazer levantamentos ou depósitos.

E o que faz ainda menos sentido é esta histeria colectiva em que mergulham os políticos (de A a Z) de cada vez que o tema é Caixa.


Tirando isso não sei de mais nada. No telejornal, durante o bocado que vimos, só se falava de mortos, quer de mortos por acidente, por briga ou por doença. Depois ouvi a Ana Lourenço a perguntar sobre o aumento de capital já nem sei de quê, devia ser da CGD: 'e o que é que pode correr mal?. Parece que toda a gente se viciou na desgraça. Sobre um tema destes, um aumento de capital, a pergunta que lhe ocorreu foi aquela. Se eu estivesse lá e a pergunta me fosse dirigida acho que poria o meu ar mais sério e diria: 'pode vir uma onda maior e levá-lo' ou outra parvoíce qualquer que cheirasse a tragédia.


Mudámos logo de canal. Depois passei para a prostituição na RTP 1 mas, ou porque já estivesse com sono ou quiçá até mesmo a dormir, pareceu-me que a única que disse coisas interessantes foi a profissional do sexo. Os outros nem percebi bem quem eram. Isto do sexo ser discutido por gente que parece que nem sabe bem o que isso é nunca pode dar grande coisa. 


Depois a televisão desligou-se e, embora tenha o comando ao meu lado, não me apetece ligar. Gosto é de ver programas sobre bichos raros do fundo do mar, ou expedições a aldeias perdidas no meio de inóspitas montanhas, ou entrevistas a pianistas ou pintores. Coisas assim.

Uma coisa engraçada que tenho para contar é esta: ontem, quando estava à porta a despedir-me da minha mãe, vi um vulto do além a fazer-lhe adeus e a dizer-lhe 'tudo resolvido, já as tenho aqui comigo, vou levá-las à serra' e apontou para qualquer coisa dentro de um jeep.

A minha mãe contou-me, então, que de tarde, um vizinho tinha visto vir pelos ares uma nuvem escura, uma coisa estranha, e que essa nuvem tinha ido para dentro do quintal duma outra vizinha. A medo e já suspeitando, o vizinho foi espreitar. Eram milhares de abelhas. Por sorte, sabia de um apicultor. E era esse apicultor, todo coberto, que eu ali tinha visto. Só tinha visto antes na televisão e nunca esperaria ver um ali, na rua da minha mãe. Chapéu, máscara, colete, mangas, luvas. Achei graça a ele dizer que as tinha apanhado a todas e ia levá-las de volta para a serra. As malucas tinham vindo dar uma volta à cidade.


E agora calo-me. Tenho em carteira mais uma coisa sobre a inteligência artificial e uma coisa qualquer que me ocorra sobre casamentos porque vi umas fotografias com uns vestidos de noiva mesmo ao meu gosto e estou até capaz de fazer uma dieta que me ponha com dez quilos a menos para caber dentro de um modelito assim para depois convencer o meu marido a renovar os votos, e isto só para o ouvir disparatar, até porque isso dos votos deve ser só para quem casou por igreja, o que não foi o nosso caso, e porque ele não tem o mínimo de pachorra para essas coisas (e eu ainda menos que ele).

Mas fica para outro dia. A ver é se no dia em que estiver para virada para esses temas esotéricos não me aparece o Marcelo a opinar sobre a pessoa que querem substituir no balcão da CGD de Alguidares de Baixo, coisa que, justamente, nem a dona leal ao coelho nem a dona galinha nem as manas amazonas acharão nada bem e isto para já não falar nas pessoas que serão interpeladas na rua por uma chusma de jornalistas exorbitantes e que dirão, para as câmaras, que fulano de tal é muito boa pessoa, sorri para toda a gente e que nunca antes ninguém tinha desconfiado que batesse na avó.

Mas, pronto, partindo do princípio que isso não vai acontecer, pode ser que eu, para a próxima, arranje oportunidade para falar de temas relevantes.


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As fotografias claro que não têm nada a ver com o assunto, estão aqui só porque gosto delas. Fazem parte das selecções das Fotos do Dia do The Guardian

Lá em cima Benjamim Clementine interpreta I Won’t Complain.

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E, caso queiram conhecer três casos verídicos de quem nunca conseguiu relacionar-se bem com a felicidade, é só descerem um pouco mais.

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sexta-feira, março 06, 2015

A menina Otília foi às Finanças







A menina Otília foi às Finanças. Queria um esclarecimento e foi lá informar-se. Não deixando nada ao acaso, produziu-se toda: minissaia justa, decote fundo, meia preta, maquilhou-se cuidadosamente e pintou as unhas de vermelho. E, do alto dos seus maravilhosos 29 anos, bem vividos, lá entrou, triunfante. Tirou a senha e sentou-se, enquanto desfrutava do olhar baboso de uns tantos cotas e menos cotas a olhar para ela, como que a quererem dizer-lhe, “comia-te toda”. 

Quando o seu número surgiu no ecrã, levantou-se e apresentou-se ao manga-de-alpaca da Autoridade Aduaneira (“que raio de nome”, pensou). O “manga”, com um fio de baba a escorrer-lhe pelo canto da boca, com voz trémula de desejo, perguntou-lhe: “então menina, o que temos, enfim, em que lhe posso ser útil?” Otília explicou-se: “Era puta, profissão que exercia desde que começara a crise, visto ter ficado desempregada. Ou seja, há já cerca de 5 anos. Por vezes, recebia a sua clientela em casa, outras ir ao encontro da clientela. E como não era esquisita, muito pelo contrário, tanto satisfazia homens, como mulheres, novos ou jovens. O importante era realizar dinheiro.

Ser puta era um bom investimento, razoavelmente duradouro, mais do que um atleta de alta competição, ou futebolista, por exemplo. Tinha despesas, é certo, porque isto de se ser puta implicava cuidados com a sua forma física nos fitness-centers, bem como na compra de vestuário adequado às circunstâncias. Ao contrário do que muita gente imagina, é uma profissão algo cansativa. Por exemplo, ter de aturar gente, muita das vezes, com gostos e desejos bizarros, etc. 

Mas, agora o que seriamente a preocupava era o seguinte, daí ter vindo aconselhar-se às Finanças: desde que iniciara aquela sua actividade liberal, nunca tinha emitido uma factura, nunca descontara para o IRS, nem tão pouco para a Segurança Social. Ora, depois de ver a perseguição de tinha sido alvo, recentemente, um dos seus mais ilustres clientes, por essa imprensa sem vergonha, ficou apreensiva”. 

Aqui, o “mangas”, já com a camisa húmida de baba, interrompeu-a, muito atencioso: “mas, apreensiva porquê, menina?” 

Otília lá esclareceu: “É que, fui convidada para exercer uma função governamental e tenho medo de que venham a descobrir que, não estando inscrita no Fundo de Desemprego desde que fiquei sem trabalho, o que seria normal, não tendo declarado rendimentos, como poderei justificar o pagamento da renda de casa, da água, gaz e electricidade, como me sustento, como me transporto e de onde me vem a choruda conta bancária que já possuo, embora conseguida com muito esforço, dedicação e entrega? Não queria ter rabos-de-palha, já basta o meu, tão cobiçado pela clientela masculina!”

O Sr. Honorato, o manga-de-alpaca, com um largo e babado sorriso solícito, sossegou-a: “Oh menina, não se preocupe com isso. A menina não faça nada. Vá por mim, salvo seja. Como não tinha que passar facturas, nem estava a recibos verdes, não tem que descontar nada. A menina é uma decentíssima puta e ninguém tem nada com isso. Nunca roubou ninguém, muito menos o Estado, já que essa sua versátil profissão não consta da lista das actividades profissionais reconhecidas oficialmente. Assim sendo, não está obrigada perante a lei e o fisco, quer a descontar para o IRS, quer para a Segurança Social. Se conseguiu viver e sustentar-se razoavelmente bem, furando a crise, até aos dias de hoje, a si lhe diz respeito e a mais ninguém. Olhe, sabe a menina, pode ter essa profissão de puta, como diz, mas puta de profissão é a minha, que não tenho dinheiro para ir às putas, sofro cortes no meu salário, desconto cada vez mais, tenho menos férias, vou ter uma reforma de merda e ainda me obrigam a trabalhar mais horas! Vá com Deus e a Nossa Senhora, aceite o lugarzinho político que lhe vão oferecer, aproveite-o para futuros contactos e influências, que a vida é curta. Tenha uma boa tarde!” 

Otília, de tão contente, até deu um beijo na calva testa do Honorato manga-de-alpaca e, baixinho, ainda lhe disse, ao ouvido: “a si faço-lhe um precinho especial, de amiga!” 

Uns dias depois tomava posse.

E alguns meses após, era capa do CM: “na cama com Otília!” E lá vinham os nomes de vários dos seus clientes. Quase tudo gente fina, banca, empresas, políticos, advogados, um mundo profissional “imaculado”. Como aquilo tinha surgido não sabia.

Mas, aquilo que mais receara não fez parte do tablóides, ou seja, se tinha feito descontos para a Segurança Social, se tinha pago o IRS, nada. Feito o desmentido oficial, Otília por lá continuou. 


Quando o governo cessou funções, era célebre e tinha uma carteira de clientes, do melhor, até ao ano 3 mil! Era puta, mas puta de vida é que ela não tinha. Bem pelo contrário!


Autor: P. Rufino


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Transcrevi a suculenta história que o Leitor P. Rufino me enviou por mail. As imagens, a música (Roberta Sá interpretando A Vizinha do Lado) e o destaque são de minha responsabilidade.

Se a menina Otília é arraçada de láparo ou tem qualquer coisa a ver com as 50 sombras fiscais e contributivas de Passos Coelho isso não sei.


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domingo, agosto 24, 2014

Madame Claude, a mais exclusiva Madame de Paris, terá tido como clientes John Kennedy, de Gaulle, Onassis, vários Rothschilds e muitos outros nomes sonantes. Mas misteriosa mesmo foi a sua vida.


Nos dois posts abaixo já partilhei convosco os vídeos de duas pessoas que têm carradas de carisma, Benedict Cumberbatch e Lady Gaga, num dos momentos que marcam o verão de 2014: o banho de gelo como forma de apontar os holofotes para uma doença que merece mais atenção, a esclerose lateral amiotrófica (ELA). Não deviam ser precisos números destes - e eu, para dizer a verdade, sou muito avessa a estas cenas virais - mas se, com isto, se vai angariar uma 'pipa de massa' e ajudar os doentes, então fico de bico calado em relação aos métodos e faço votos para que os resultados sejam estrondosos e que o dinheiro seja muito bem usado a bem de quem dele precisa.

Mas isso é nos dois posts a seguir a este - e vale a pena ver. Muito estilo.

Aqui, agora, a conversa é outra.

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[Fossem outras as minhas circunstâncias e talvez me alongasse mais. 
Madame Claude merece muita atenção, não apenas duas ou três linhas mal alinhavadas.]


Madame Claude nasceu, de facto, Fernande Grudet e é caranguejo de Julho de 1923. É francesa e foi criada num convento gerido por freiras. Mais tarde, durante a ocupação alemã durante a II Grande Guerra, foi agente da Resistência Francesa.



À direita, Madame Claude, com 73 anos, numa foto de 1996.
À esquerda, a porta para a antiga residência de  Madame Claude no nº 18 da Rue de Marignan, in Paris.



Depois disso, Madame Claude teve várias ocupações incluindo vender Bíblias porta a porta, até que estabilizou naquela que viria a ser a sua actividade mais conhecida: tornou-se uma Madame. Tinha a seu cargo uma exclusiva rede de prostituição e servia clientes que eram altos dignatários, figuras de Estado, gente de prestígio, chefes da polícia que a protegiam. Gente da CIA. E gente da Mafia.


Foi objecto de perseguições várias, tentativas de desmantelamento da sua rede e, por fim, para fugir aos impostos, exilou-se nos Estados Unidos.

Madame Claude é uma lenda e foi uma instituição. 

O que se passava das portas de Madame Claude para dentro era sigilo. Fala-se em muitos nomes. Madame Claude, que era férrea na defesa do nome das mulheres que trabalhavam com ela, algumas das quais que casaram ricas ou se tornaram artistas de cinema, de vez em quando, no decurso do trabalho jornalístico que abaixo refiro, deixou cair os nomes de alguns clientes. John Kennedy (que pedia mulheres parecidas com a sua Jackie mas em hot), de Gaulle, Pompidou, Onassis (que terá aparecido com Maria Callas e que terão feito pedidos depravados que terão deixado Madame Claude corada), vários Rothschilds, Agnelli, o Xá da Pérsia que as enchia de jóias, Chagall que oferecia esboços com nus feitos com as mulheres com quem fazia a festa, Marlon Brando, etc, etc. 


Disse ela que estes homens famosos, homens que podiam ter tudo e todas, não estavam a pagar para ter sexo. Estavam a pagar uma experiência. 

Elegante, vestindo Chanel,
Madame Claude
mais parece uma poderosa banqueira
do que uma proxeneta


Mas como comprovar que ela fala verdade quando deixa cair estas recordações? Não estará a fantasiar? Pode uma memória conservar-se intacta quando vive durante tanto tempo num ambiente que é, todo ele, paralelo, clandestino, uma ficção?

Há quem a declare mitómana. Há quem diga que ela sabe mais do que o que diz. Não interessa. 

O facto é que é uma vida rodeada de mistérios mas o maior de todos é a própria vida de Madame Claude. 

Dizia eu, no início, que gostava de ter disponibilidade e sossego mental para dedicar mais tempo a esta história suculenta. Mas não tenho.

Depois de mais um dia de aniversário que terminou com jantar numa esplanada e os pimentinhas, felizes da vida, a brincarem uns com os outros e a escaparem-se por todo o lado e depois de uma semana preenchida como um ovo (preenchida de momentos de felicidade, leia-se), já não tenho capacidade para ler com mais cuidado e resumir o artigo Behind Claude’s Doors da autoria de William Stadiem e publicado na Vanity Fair. Mas aqui fica o link para quem queira e possa aventurar-se.


E aqui fica um excerto do belo livro de J. Rentes de Carvalho Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, pág. 299:

Eu não fazia ideia de quem Nicole fosse e a minha curiosidade também não era muita, habituado como estava a vê-lo nas companhias mais variadas. Bluebell Girls, maravilhosas filles de Madame Claude (o bordel parisiense onde também o xá da Pérsia e Onassis se abasteciam), manequins mocinhas de bar, actrizes de nome e menos nome e, de longe a longe, como para criar a excepção que justifica a regra, uma ou outra burguesa caída nas malhas do seu dinheiro e do seu charme.


Também deixo um pequeno excerto de um filme de 1981 realizado sobre Madame Claude.




A ver se um dia destes tenho tempo para me debruçar com mais atenção sobre este assunto que parece ser bem interessante.

E agora vou descansar porque bem preciso.

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Recordo: baldes de gelo levados com muita pinta, é a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.

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segunda-feira, outubro 28, 2013

Um domingo de Outubro num Porto cheio de vida (Parque da Cidade, Castelo do Queijo, as belas casas da Av da Boavista e do Campo Alegre, Casa da Música, Serralves, Jardim Botânico, etc. - com a reportagem fotográfica possível)


Tinha deixado a máquina fotográfica a carregar durante a noite mas, para minha arrelia, hoje de manhã a bateria estava a meia haste. Uma pessoa passear sozinha é coisa que não deve ter ponta de graça mas eu, que tenho a sorte de ter companhia nas minhas andanças, quando não tenho forma de fotografar fico em estado de carência, quase como imagino que fique uma pessoa a ter belas coisas para ver e não ter com quem as partilhar.

Claro que tentei dosear mas se tirei umas 20 fotografias com a máquina foi muito. Cheguei a Serralves e ela tinha-se ido. Nada a fazer. Fui tirando fotografais com o telemóvel mas está muito longe de ser a mesma coisa. Além disso, naba como sou, ainda não aprendi a passar fotografias do telemóvel para o computador. Deve ser com um cabinho mas nem faço ideia onde esteja isso. E mesmo que ainda exista, deve estar em casa e não aqui comigo in Oporto City.

O dia amanheceu cedo e, depois de um belo pequeno-almoço, ala que se faz tarde.

Durante anos o Porto fazia parte das expedições familiares anuais. Contudo, ultimamente as expedições têm sido meramente profissionais o que, em termos turísticos, é zero. Tantas vezes que venho ao Porto mas é um toca e foge que mete nervos. 

Por exemplo, por incrível que possa parecer, eu que tanto gosto de jardins e parques, ainda nem conhecia o Parque da Cidade. Toda a gente me dizia que se trata de uma obra ímpar mas, sei lá como, nunca lá tinha conseguido ir. Fiquei encantada. Enorme, harmonioso, acolhedor. Fez-me lembrar o Parque da Paz em Almada e, fui agora confirmar, de facto é da autoria do mesmo arquitecto: Sidónio Pardal. os mesmos muros e muretes, arcadas e fontes em blocos de granito, as quedas e os planos de água. Mas onde o Parque da Paz  tem elevações, grandes desníveis, este é quase plano e estende-se até ao mar. E o de Almada ainda tem muitas árvores jovens enquanto este tem árvores feitas.

De certa forma, até me fez lembrar o Parque do Retiro em Madrid. Para minha admiração (tinha ideia que o pessoal do Porto não era tanto de vida ao ar livre), vê-se muita mas mesmo muita gente: imensa gente a fazer jogging, gente a caminhar, outros a andarem de bicicleta, imensas crianças, pessoas a passearem com os cães. Claro que no parque de Madrid há, por todo o lado, gente a cantar, gente a fazer malabarismos, gente a fazer teatro de marionetas e sei lá que mais - mas, enfim, os espanhóis são espanhóis, são aquela animação que se sabe, enquanto os portugueses preferem carpir ou pôr-se armados em virgens a censurar os outros (e a gente do Porto, embora talvez diferente dos demais, não deve fugir muito à regra).

Seja como for, este Parque da Cidade é notável. Belas árvores, belos percursos, recantos, bom ar, sossego e, apesar disso, um espaço habitado, cheio de vida. 

Fomos, portanto, até ao mar. O passeio junto ao mar cheio, cheio, gente a fazer desporto, gente a confraternizar, gente a desfrutar este belo espaço. E uma coisa que também dá gosto ver: também aqui, à semelhança do que vi na Ribeira, as esplanadas  todas 'à pinha'. Aliás isto tem sido uma constante e há nisto uma diferença substancial em relação a Lisboa. Aqui, por todo o lado vejo esplanadas, cafés, pastelarias, o que for, tudo cheio. Imensa gente sentada em mesas, a lanchar, e há lojas e lojas de bolos. E é cada bolo... Enormes! E bons. No sábado, numa esplanada cheia de sol, comi uma queijada sem queijo que era uma delícia (e, em tamanho, o dobro do que se comeria em Lisboa).

O passeio junto ao mar é uma maravilha. Trazer as cidades para junto do mar, tornar as cidades aprazíves, dar aos cidadãos a possibilidade de poderem estar na natureza em segurança e com qualidade é uma das virtudes de quem governa uma cidade a pensar na sua população. Aqui vi uma jovem que parecia uma gaivota, ensaiando um voo sobre as rochas, sobre as ondas. Não sei se conseguiu levantar voo mas, se o não conseguiu este domingo, consegui-lo-á um dia. Se tem alma de gaivota, voará.


E há um caminho que sai do passeio e vai mesmo rente ao mar. Que belas caminhadas, que belas lavagens cerebrais e emocionais aqui se podem fazer. Se os meus dias livres não fossem tão escassos, por aqui me quedaria, entre a sombra macias das árvores e a braveza destas águas.

Depois viemos andando pela Av. da Boavista que tem com cada casa que dá gosto, benza-as deus. Que casarões, uns tradicionais, outros modernos, outros condomínios, uma coisa...!

No Campo Alegre também há moradias, casas apalaçadas, que mostram bem o lado abastado do Porto.

No entanto, há contrastes assinaláveis. Há muitos pobres. Há locais em que se vê gente nos caixotes de lixo ou a dormir no chão ou gente com ar de quem não tem muito para viver.

E vi uma coisa que não é frequente: muitas pensões com mulheres à porta, uma prostituição às claras. Estranhei. O meu marido diz-me que, se calhar, se passar pelo Intendente, vejo a mesma coisa. Não sei, não costumo lá passar. Aqui, é o dia todo. E ali para os lados do Bolhão até ouvimos um sujeito mal encarado a discutir o preço, que 20 euros era demais para o serviço. A sério.

Bom, retomo o passeio.

A partir daqui não tenho fotografias pelo que terei que ser meramente descritiva.

Era hora de almoçar pelo que, ficando em caminho, ali na Boavista, fomos ao BB Gourmet. Muito bom. Entradinhas frias e quentinhas, depois um prato quente (bacalhau à bráz feito com todos os matadores), depois umas saborosas sobremesas. Tudo excelente.

Dali seguimos para uma espreitadela à Casa da Música, aquele fantástico edifício, Uma vez mais me surpreendi: dezenas de miúdos fazendo skate nas rampas e contra-rampas que circundam o edifício. Nada pode ser mais agradável do que perceber como um edifício assim foi adoptado pelos jovens da comunidade em que se insere.

Depois fomos, é claro, para Serralves. Serralves é para mim um must. As exposições são frequentemente uma coisa muito estranha mas é, sobretudo, pelos jardins que sou atraída.

Pois bem, uma vez mais, não apenas o museu estava cheio como o parque estava também agradavelmente habitado. Turistas, sim. Mas uma cidade vive mais, embeleza-se, quando há uma miscigenação, quando os seus habitantes se misturam com nórdicos, com japoneses, com o que calhar. Não é bom ouvir o sotaque cerrado do puorto, carág, e, logo a seguir, uma romântica voz italiana, uma sedutora voz francesa, ou ver a elegância de uma jovem japonesa como aquela que ontem fotografei? Eu acho que só faz bem às cidades, torna-as menos ensimesmadas, abre-as à diversidade.

A seguir fomos visitar o Jardim Botânico e ver (mas apenas na entrada e por fora) a Casa Andresen, a casa da família de Sophia e de Ruben A. Já estava escuro, esta porcaria da hora de inverno dá nisto. Antes das seis da tarde e já é quase de noite.

Compras? Não deu para nada. O tempo é curto.

Mas consumista que é consumista não deixa de consumir mesmo quando o tempo é escasso. 

Então foi assim: na loja de Serralves comprei três livros, um sobre os muitos retratos de Fernando Pessoa (retratos que os vários pintores têm feito de Pessoa), outro sobre Paula Rego (várias pessoas escrevem sobre a sua obra) e um sobre a amizade entre Fenosa e Picasso.

E no sábado, em Gaia, comprei um Santo António, artesanato, uma peça bonita. Se não fosse tão tarde ia fotografá-lo para o mostrar aqui. Mas estou mais para lá do que para cá, um sono... Logo faço isso.

Depois, à noite, porque ainda não estávamos com fome para uma jantarada, andámos à procura de uma coisa ligeira e demos com uma coisa muito simpática, o Lado B, mesmo em frente do Coliseu. Mandámos vir um prego no pão à Lado B, um hamburger com abacaxi grelhado, uma salada mista e, para sobremesa, o melhor bolo de chocolate do mundo e um crumble de maçã com uma bola de gelado. Supostamente deveria estar fechado ao domingo mas a verdade é que estava aberto e repleto. E o meu marido ainda viu um bocado do futebol embora talvez preferisse não ter visto. O Sporting só lhe dá desgostos.

Já agora: no sábado à noite matei as minhas saudades do Abadia. Tão bom. A qualidade de sempre. Já lá vou faz séculos mas há algum tempo que não ia. Das últimas vezes que tenho jantado no Porto tem sido em serviço e, nessas alturas, costumamos ir a lugares onde se bebe do fino. Mas, para mim, esses lugares não têm a mística da Abadia. Pois bem; se era para matar saudades, fizemos de forma a que ficassem bem mortas: Tripas à Abadia e Duo de Bacalhau e Polvo no forno com batatinhas e couve. De sobremesa, tarte escondida de maçã e abacaxi. Tinto para acompanhar, claro.

Amanhã de manhã ainda quero fazer parte do programa que estava destinado para hoje e que não pôde ser cumprido por causa do dia ter encolhido e, a seguir, rumamos um pouco mais a norte. 

Foi apenas um fim de semana mas tão recheado que parece que estou de férias há uma porção de tempo. E agora só são mais dois diazitos mas quero lá eu saber: é o que se pode ter e é mais que bom.

Como sempre vim carregada de livros. De cada vez que faço a mala para ir a qualquer lado, não consigo evitar um prenúncio de desaguisado conjugal, Preparo-me sempre para vir com uma carrada deles, para um just in case, e o meu marido força-me a abdicar de alguns, não está para ter a mala tão carregada. Como é bom de ver ainda apenas comecei com a introdução de um deles. Li o Expresso e, mesmo assim, não foi fácil. A ver se amanhã me consigo dedicar a isso, pelo menos enquanto estiver no carro.

E pronto, por aqui me fico. Escrever neste petit notebook e com internet móvel é um suplício, uma pasmaceira, nem sei como não adormeço à espera que isto se mexa.

Para o caso desta minha soneira ter transparecido e vocês estarem também quase a dormir, aqui vos deixo 'O Porto aqui tão perto' do Sérgio Godinho.




Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira. 
Be happy.

quarta-feira, setembro 25, 2013

O dia em que tive a maior vergonha da minha vida. Ainda hoje, tanto tempo depois, só de me lembrar já sinto aquela sensação horrível. Que vergonha...


No post abaixo mostrei quatro políticos nacionais de se se lhes tirar o chapéu. Comunistas. Não sei se são solteiros e bons rapazes mas isso também aqui não interessa para nada. Se no domingo houver sítio para se votar nos mais giraços, voto neles, está decidido. Quatro pães (dantes dizia-se borrachos). O PCP faz criação de homens bonitos, disso parece não haver dúvida.

Mas isso é no post seguinte. Aqui, agora, a conversa é outra. Estava a escrever aquilo e a pensar que os rapazes são uns borrachos e, por borrachos, lembrei-me dos meus tempos de namoro com o maior borracho do pedaço. Vamos ver como vou escrever para não chocar as almas mais bentinhas.

*

Já aqui contei: eu namorava outro. Era bem comportado, educado, simpático. Os meus pais gostavam dele. Antes desse, eu tinha andado de namoro com outro que era doido varrido, um caso sério de paixão louca entre nós dois e os meus pais sobressaltavam-se. Com este a coisa era mais calma, não havia razão para alarme. As minhas avós também gostavam muito dele, era bonito, delicado, cantava lindamente. Os pais dele também gostavam muito de mim. Quando eu fazia anos ou pelo Natal, ofereciam-me sempre um presente para mim e um para a casa. Esta de me oferecerem louça e coisas assim deixava-me um bocado incomodada mas enfim. De qualquer maneira, ainda agora uso umas travessas de inox que foram eles que me ofereceram, estão como novas, lembro-me da senhora dizer que eram boas e, de facto, têm sido. De vez em quando os meus pais convidavam os pais dele para virem a nossa casa e outras vezes eram eles que convidavam os meus pais. Não sei porquê mas aquela coisa tão familiar não me agradava muito mas o namoro nasceu logo tão pegado e tão institucional que a coisa andou dessa forma.

Enxoval já todo feito, famílias cada vez mais próximas (tias incluídas), tudo levava a crer que o casamento estava mais do que certo.

Até que aconteceu aquilo de que aqui já vos contei

A minha mãe estava mais ou menos ao corrente daquela minha vida dupla e vivia apavorada que a coisa desse para o torto, Lidar com um já é uma canseira, fará com dois, dizia-me ela. E tu vê lá no que te metes. E, Ai valha-me Deus. Um susto permanente. Por isso não lhe podia contar tudo. E sempre a recomendação final, E o teu pai que não sonhe...

Não sonhou.

Na véspera de acabar o namoro com o noivo disse ao meu pai. Vou acabar o namoro. O meu pai não disse nada. Ficou sério. Depois perguntou Mas porquê? Respondi, Porque já não gosto dele. Não insistiu mas ficou apreensivo. Acho que pensou que se calhar eu corria o risco de ainda ficar solteira.

A minha mãe tinha-me pedido, Tu não digas nada ao teu pai que já tens outro senão ele desconfia logo que foi por isso. Não gosto nada destas coisas mas tanto me pediu que lhe fiz a vontade. Aliás, como vos contei, era minha firme intenção deixar passar um tempo antes de me meter noutro namoro. Mas no dia seguinte mudei de ideias.

A minha mãe pediu: Mas, para já, não digas nada ao teu pai, deixa passar algum tempo.

Mas eu não sou de deixar passar o tempo. No fim de semana seguinte, o meu pai tinha ficado de me ir buscar a um sítio. Eu estava com o meu novo namorado mas, para não ferir a susceptibilidade do meu pai, combinei que me despediria antes para o meu pai não o ver. Só que, nestas coisas, não sou de me dar a grandes cuidados. Para poder estar com o meu amor até à última, deixei que ele me levasse mesmo até ao sítio onde o meu pai me iria buscar. Nada a fazer. O meu pai já lá estava. Quando me viu, saíu do carro e olhou muito admirado para o meu acompanhante, um total desconhecido para ele. Eu apresentei-o. Acho que apenas disse o nome, tenho ideia que não disse que era o meu novo namorado. Mas não foi preciso. Esquecida de cuidados, despedi-me dele com um daqueles big beijos na boca em que nos tínhamos tornado peritos. O meu pai deve ter ficado de cara à banda. Nem me lembro do que ele me disse no carro - se é que disse alguma coisa.

Sei que disse à minha mãe que o tipo não parece boa peça, cabelo comprido, barbas, e deve ser um descarado, a beijá-la daquela maneira ali à minha frente, sem me conhecer. Mas, uma vez mais, acho que até fui eu que comecei por beijá-lo assim, esquecida de que o meu pai estava ali. Ou seja, assim de chofre, sem ter tido para assimilar a coisa por partes, o meu pai apanhou logo um susto dos valentes.

A partir daí, a coisa complicou-se para o meu lado: os dois, ele e a minha mãe, de pé atrás com ele.

Uns dias depois, eu quis ir ao cinema à noite com ele e o meu pai não deixou. Tentei que a minha mãe intercedesse - mas nada. A minha mãe também estava céptica. Ele, sabendo que eu namorava com outro tinha-se andado a fazer a mim, não devia ter princípios, que sabe-se lá quem é, que gente é essa,... Por mais que eu explicasse que eu tinha vontade própria, que tanto se tinha atirado ele a mim quanto eu a ele, que tanta falta de princípios tinha tido ele quanto eu, aliás eu, pior eu ainda que ele, nada a fazer: ele era o mau da fita, um perigoso marau que tinha seduzido a ingénua donzela.

Furiosa, disse: eu já combinei com ele ir ao cinema, não vou agora dizer que os meus pais não me deixam, até teria vergonha, isso eu não digo. Mas venham connosco, venham fazer de paus de cabeleira para impedir que a gente esteja no cinema de mão dada.

A minha mãe não queria, o meu pai ainda menos, mas lá devem ter pesado os prós e os contras e aceitaram.

Perguntaram-me que filme é que era e eu não sabia. Sabia apenas que tinha lido vagamente qualquer coisa a ver com o Andy Warhol, pensei que deveria ser uma coisa pop, artística, nem sei. O filme era o que menos interessava.

Lá fomos, os meus pais muito secos, a minha mãe um bocado nervosa, estava a ver o meu namorado pela primeira vez, e tão diferente que era do outro. Eu e ele na boa, embora eu estivesse curiosa por saber o que achava ela dele. Presumia que o ia achar um borracho mas sabia lá se não ia embirrar com alguma coisa.

Até que o filme começou e, aí, eu comecei a ficar atrapalhada. E o meu namorado também. Quanto mais o filme avançava mais eu ficava nervosa. Só me apetecia meter-me debaixo da cadeira. A mão do meu namorado começou a ficar gelada e transpirada. Ou então era a minha que estava assim. Eu só dizia, ai valha-me deus, ai, que horror. Ele, incomodado também, dizia, Não olhes. Para ele também era uma situação terrível.

Eu já mal conseguia olhar para o écrã, nunca tinha visto uma coisa assim. Aliás, nem percebia o que estava a acontecer. Palavra de honra. Vocês nem imaginam. Eu só pensava no que os meus pais estariam a pensar. Imaginava que no intervalo me iam dar uma valente bofetada, talvez até o meu pai desse um murro mesmo em cheio na cara do meu namorado. Apavorada. Eu estava apavorada.

O meu namorado disse: no intervalo pedimos desculpa aos teus pais, explicamos que não fazíamos ideia, e vamo-nos embora. Mas eu só queria fugir, não ter que encarar os meus pais.

Aquilo nem era pornografia. Era uma outra coisa. Pior, acho eu. Ele era sexo oral explícito, grandes planos, homens com homens, sodomizações para todos os gostos, sei lá. Uma coisa sem explicação. Nem sei. Eu já me encolhia, fechava os olhos, uma vergonha sem tamanho.


Se querem que vos diga nem sei qual dos filmes foi, se foi o Flesh, se foi oTrash. Era do Paul Morrisey, o que era assistente do Andy Warhol. Depois vi que era cinema underground, uma coisa assim. Fui agora ver os trailers e penso que deve ter sido o Flesh pois, embora não encontre o do Trash, vi algumas cenas e parece-me que esse seria passado mais no mundo da droga enquanto o primeiro seria no mundo da prostituição masculina.





Até que foi o intervalo. Pensei, É o meu fim. E preparei-me para o pior.

Mas não. Estranhamente, os meus pais estavam como se não fosse nada com eles, não se deram por achados, aguentaram firmes, com superioridade. E eu, tão aflita estava, nem tive coragem para dizer para nos irmos embora, estava verdadeiramente sem acção. Se calhar o mesmo se passava com eles. Voltámos para a sala depois do intervalo. Encolhi-me e tentei não ver nada para não morrer de vergonha.

Nunca mais falámos no assunto. Uma pedra em cima.

E uma coisa é certa: nunca mais se colaram a nós. Acho que puseram as barbas de molho, coração ao largo. Não sei. Se calhar acharam que foi de propósito, que fomos nós que os quisemos praxar e nunca mais se arriscaram a outra. Não faço ideia.

Mas vocês querem crer que ainda hoje sinto vergonha...? Que vergonha... Que cena do caraças, que horror.

***

Bem. Já escrevi outra vez que me fartei, credo. Vocês desculpem lá estes lençóis. Não vou reler pelo que, por favor, relevem as gralhas, está bem? (Mas se derem com alguma de arrepelar os cabelos, por favor avisem-me, ok?)

Relembro: para verem a criação de gatos que é o PCP, desçam, por favor, até ao post seguinte. É um consolo para a vista.

***

E por aqui me fico. Desejo-vos, meus Caros leitores, uma belíssima quarta feira!