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domingo, agosto 21, 2022

Um susto recheado de guinchos ao dealbar d'aurora e uma açorda algarvia de galinha e grão para o jantar
(receita incluída)

 


A noite passada tinha acordado por volta das quatro e meia da manhã e estava a custar-me a adormecer. Como dormimos com os vidros abertos e persianas com as frinchas abertas, mal o sol começa a raiar já o quarto se ilumina. Não me afecta. Aliás, até gosto. Mas, então, lá fora mas junto à porta, um chinfrim danado, barulho como se de corridas, perseguições, encontrões, e logo uma guincharia terrível, uns estrondos. Claro que o dog de guarda acordou sobressaltado e correu a ladrar que nem um possesso. Ladrou, ladrou, correu de um lado para o outro numa agitação, enervado, um vozeirão, saltos ao pé da porta. Lá fora, o silêncio. 

Eu também intrigada com aquele aparato. O meu marido disse que devia ter sido uma cena qualquer com um gato. Tentei acalmá-lo mas foi impossível (refiro-me ao cão -- não ao meu marido que esse estava calmo, embora chateado por nem ao sábado conseguir dormir).

Contudo, perante o desassossego da fera, não teve outro remédio: foram lá fora, um escoltando o outro. 

No regresso, o relatório: de gato nem sinal mas um ratinho jazia no jardim. O gato com o ladrar da fera deve ter fugido e abandonou o seu troféu. O meu marido distraiu a atenção do urso, não fosse ele querer banquetear-se logo de manhã, ainda por cima com manjar alheio. Quando lá voltou já não viu o rato. Participou-me, a seguir: 'O gato já veio buscar o rato'. 

Contudo, quando, algum tempo depois, eu dei uma volta por outro lado, já o pobre ratinho tinha sido transladado para lá. Pequenino, cinzento muito clarinho, um rabo comprido quase rosado. Um inocente.

Por respeito, não captei a situação. Aliás, nessa altura mal tive tempo para uma fotografia à pressa a uma das belas flores amarelas que sempre me encantam e para aquele ser pré-histórico, uma osga moura que mais parece albina, que agora por lá se passeia, quase se confundindo com a parede 

O meu marido já estava no carro à minha espera com o urso cabeludo no banco de trás. Não dava para um enterro condigno da pobre vítima rabuda. Lá ficou, à mercê. Entretanto, imagino eu, o gato deve ter conseguido, finalmente, resgatar o produto da sua caçada.

É aquela velha história da cadeia alimentar. Que ninguém tenha peneiras: todos somos pasto de algum qualquer outro bicho. Muita prosápia, muito instagram, muita cagança para acabarmos todos da mesma maneira. 

Adiante. Os fins de semana não se querem para altas filosofias.

Passemos, pois, ao que importa. 

Fui ao supermercado que tem carne boa. De todos os que conheço, não encontrei ainda um outro assim. Tem é um inconveniente: ali ninguém tem pressa. Por isso, venho de lá sempre com as narinas a fumegar e a bater com os cascos, tanta a impaciência. Mas hoje nada disso: felizmente hoje não havia daqueles avantajados que enchem o carrinho com quilos e quilos de carne, carne certamente para a arca e para dar para um mês inteiro, tudo cortado a feitio, cada peça escolhida com rigor, um empregado mais de meia hora com cada cliente. Nem apanhei clientes amigos dos empregados, daqueles que conversam nas calmas, perguntam pela família e pelos vizinhos, sem quererem saber das pressas dos outros. Slow living por estas bandas. Mas este sábado a coisa esteve bem. Trouxe um mega frango do campo e meia galinha também campestre. Era para só trazer galinha. Mas galinha, galinha que se visse, em tamanho giga e ar de galinha feita, só havia aquela metade. Portanto, completei com o giga frango, animal a parecer capão natalício. Trouxe também uma farinheira e um chouriço de carne extra. Gosto de enchidos de boa qualidade, especialmente quando há crianças envolvidas do repasto

Sendo bichos do campo, musculados, e daquele tamanhão (refiro-me aos galináceos e não aos clientes), comecei a empreitada logo por volta das quatro da tarde. Slow food, pois.

Fiz assim:

  • Num panelão, coloquei água, um pouco de sal, duas cebolonas novas, muito grandes, cortadas aos bocados, um ramo de salsa, três cenouras de bom tamanho (sim, nas cenouras, digam o que disserem, size matters). Juntei os bichos já devidamente esquartejados (e desculpem-me a violência da descrição) e um pouco de sal. Depois de levantar fervura, baixei e assim ficou a cozinhar, o panelão devidamente tapado.
  • Quando a carne dava mostras de querer soltar-se ligeiramente dos ossos (e, uma vez mais, desculpem se a descrição vos parece gráfica demais), juntei a farinheira e o chouriço. Passado um bocado, o caldo da cozedura tinha adquirido as belas cores dos enchidos e estava na hora de juntar os ovos. Levantando o lume ao máximo, parti lá para dentro -- mas com cuidado para o mergulho ser suave -- seis ovos. Quando voltou a levantar fervura, voltei a baixar e a tapar. Cozeu mais um bocado. Finalmente juntei uma embalagem de grão cozido. Desliguei.
  • Aqui entrou em cena o meu marido. Pedi-lhe que forrasse o fundo de duas travessas com fatias generosas de baguette de pão rústico. 
  • Enquanto isso, preparei o tempero para o piso. Para uma tigela piquei finamente uma meia dúzia de grandes dentes de alho, um ramo de coentros, juntei azeite e envolvi tudo muito bem, pisando um pouco com um garfo. Se tivesse um almofariz teria esmagado mas não faço ideia onde foi parar o dito cujo. Nada de grave. Com uma concha fui retirando caldo da canja e mexendo. 
  • Depois, com uma colher, despejei esse caldo a cheirar a açorda algarvia (ou alentejana) sobre as fatias de pão. Quando estavam ensopadinhas, coloquei os pedaços de galinha e frango e depois o grão, a cenoura, os ovos escalfados e mais caldo. No fim, enfeitei com hortelã. 

Quando estávamos a começar a servir-nos, recebi uma chamada com imagem da turma que anda em turismo por fora, por terras onde o calor ainda aperta com mais força. Mostrámos-lhes as travessas (pois o prato era uma tentativa de reprodução da açorda algarvia de galinha e grão que eles tinham comido a semana passada quando ainda andavam por terras de Portugal). Mas a confusão era grande de um e do outro lado, eles mostravam cocktails, elas falavam de tatuagens, todos a falarem ao mesmo tempo. Portanto, a seguir uma chamada apenas de voz, coisa mais um a um, e fui atender para outro lado. Demorei um pouco. Quando regressei à sala de jantar, os comensais começaram a bater palmas: que a açorda estava mesmo boa, que era das melhores coisas que eu já tinha feito.

E porque é tão simples, tão agradável e creio eu, tão razoavelmente saudável, disso aqui vos quis deixar nota. 

Não usei a linda taça das folhas de couve que está lá em cima e que hoje recebi de presente porque era pequena demais para tanta comida. Fica muito bem como peça decorativa sobre a mesa da cozinha. Podia usá-la como fruteira mas acho que prefiro que fique sem nada pois assim rapidamente a uso como saladeira ou travessa de ir à mesa.

Também recebi um pequeno presépio pois gosto bastante da composição familiar pouco ortodoxa, até une chose a modos que avant la lettre: uma jovem mãe solteira, um homem generoso que lhe deu guarida (e que não sei se seria o pai da criança o qual, para disfarçar a diferença de idades, deu uma de protector), um bebé nascido numa gruta, um burro, uma vaca. Sabendo deste meu gosto, também recebi, pois, o delicado presepinho. Esqueci-me de fotografar (e, acho eu, ... esqueci-me, até, de agradecer...) e agora não dá, senão ainda ia acordar o pessoal todo. Amanhã a ver se duplamente trato disso.

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Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Bom apetite. Paz

segunda-feira, dezembro 06, 2021

Desta vez foi a Pfizer. No braço esquerdo. A da gripe no braço direito.
Fui à black friday das vacinas

 



No sábado madrugámos para irmos até a um espaço grande onde há vacinas à discrição e onde não era suposto haver muita gente. Fica numa das cidades perto da nossa casa de campo. Uma vez, estávamos a passar uns dias in heaven e o meu marido auto agendou-se para lá. E aquele lugar ficou-lhe associado pois agora recebeu um sms para ir levar lá a 3ª dose. 

Como na outra vez lhe correu bem, despachou-se rapidamente, resolvi ligar a saber se eu, mesmo sem marcação, poderia ir à boleia. Expliquei que levei a Janssenn. Perguntaram-me a idade. Disseram, então, que estavam com casa aberta para os que levaram Janssenn e têm mais de cinquenta. Encaixo. Então, lá fomos.

Muita gente. Muita gente de idade, muita gente com 'ar de campo'. Todos entusiasmados por estarem a levar a 3ª dose e vários como eu, que antes também tinham sido contemplados com a água pé das vacinas. Uma coisa que quase parecia a black friday das vacinas. Chega a ser quase tocante ver como toda a gente adere tão bem a uma coisa ainda tão cheia de incógnitas. Uns mais racionalmente, outros por medo, outros numa de maria vai com as outras. Não interessa. Toca a reunir e as pessoas reúnem-se.

O meu marido, como era com marcação, ficou despachado por volta das dez e eu perto do meio-dia. 

Pfizer no braço esquerdo e a da gripe no direito. Vim de lá aviada e espero que protegida.

Disseram para tomar ben-u-ron à noite e ben-u-ron de manhã. E para pôr gelo no braço. Como não sou obediente e não me parecia necessário, não tomei o ben-u-ron nem pus gelo. Mas dormi mal com o braço a doer-me bastante.

E passei o domingo cansada, com o braço dorido, com dores musculares, com frio, a sentir-me murcha. Éramos para ir ao campo e não fomos. Nem fui a casa da minha mãe. Só me apetecia estar agasalhada e sossegada. 

O meu marido, que também estava com o braço dorido, atalhou logo de manhã com o dito ben-u-ron mas eu resisti até depois de almoço. Mas depois teve que ser. 

Melhorei mas, ainda assim, não me sinto propriamente em grande forma.

Quando foi da outra, dessa coisa esperta que dá pelo nome de Janssenn e que pelos vistos não é carne nem é peixe e que só dá um bocadinho de imunidade durante menos de três meses, não me doeu braço nem corpo nem fiquei cansada. Mas tive, nesse dia, um acidente isquémico relativamente ao qual não está descartado que não tenha sido provocado pela vacina. 

Mas, pronto, o que lá vai, lá vai. E das sequelas que ficaram trato-me -- e bola para a frente. 

E, supostamente, agora, com este reforço, já estarei mais protegida. Não sei é se o estou da Ómicron mas, enfim, parece que o dito rafeiro de corona não é tão coisa ruim como os manos que o antecederam. 

Mas sabe-se lá. 

O que temos como certo em tudo isto é que temos que ser humildes e ir aceitando que estamos a atravessar um processo de aprendizagem que está em curso, no qual não há muitas certezas e em que o que há para saber á mais do que o que se sabe.

Mas há coisas que são iguais. Enquanto estava à espera, ao meu lado uma senhora falava comigo. Tenho quase a certeza que não abri a boca. Estava com máscara e com óculos escuros. Não estava a fazer-me de diva mas, como receava que chamassem, preferi estar com óculos graduados para ver melhor ao longe. E são escuros. Como estava com franja, pouco ou nada da minha cara estava à vista. E, no entanto, a senhora confiou em mim. Contou-me tudo, o que faz, onde trabalha, a Covid que teve no princípio, os sintomas, como foi de ambulância, como lhe custou cara a ambulância, o que a filha lhe disse, como as senhoras para quem trabalha reagiram. Falou constantemente. Depois da triagem e de ter preenchido o documento, fomos para outra sala. Aí fiquei ao lado de uma outra que me contou o que tinha acontecido ao carteiro de cinquenta anos que não tinha querido levar a vacina, agora o pai que já é tão velho ainda está vivo e o filho, que ainda era novo e saudável, já se foi. Eu ouvia-a e pensava, intrigada, o que se passará comigo que faz com que as pessoas comecem a conversar e a contar-me tudo e mais alguma coisa. Creio que também não abri a boca para falar com a segunda. Sabia que não haveria tempo e não quereria depois interromper uma conversa mais pessoal.

Contei ao meu marido. Ele desvalorizou. Disse: 'O tipo que estava à minha frente também falou comigo'. Fiquei admirada. Não apenas ele é de poucas palavras como parece que as pessoas adivinham pois parece que quase nunca ninguém mete conversa com ele. 

Perguntei o que o senhor lhe tinha dito. Disse-me: 'Pediu que quando chamassem Joaquim Sebastião eu o avisasse porque ele era surdo'. Perguntei: 'Só isso?' E ele: 'Sim'. Esclareci: 'Mas não tem nada a ver. Ele fez-te um pedido, a mim contam-me a vida'. Já não disse mais nada. Acho que não está muito interessado na vida dos outros nem percebe porque ma contam.

A mim o que me intrigou mais foi eu estar de cara praticamente toda tapada. E, mesmo assim, foi o que foi. 

Tenho a certeza que, se eu tivesse feito algumas observações ou perguntas, a conversa resvalaria para o patamar das confidências.

É certo que tenho uma curiosidade infinita e provavelmente isso manifesta-se através da atenção que presto. E sinto também uma profunda simpatia pelas pessoas que, de forma tão espontânea, me dão a conhecer os seus problemas ou as suas vivências. Penso sempre que, se não andasse sempre com o tempo contado, faria verdadeiras entrevistas às pessoas, deixá-las-ia falar de si, dos seus, dos seus assuntos. Mas eu pensava que a confiança que as pessoas depositavam em mim vinha da atenção que me percebiam, do meu olhar, das minhas expressões. Agora com a cara tapada...

Mas não interessa. As coisas são como são, nós podemos é não as compreender. E isso é um problema nosso, não das coisas.

[Na volta isto de me estar a dar para filosofar é outro dos efeitos secundários da vacina... não...?]


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E agora, antes de me despedir, partilho mais um daqueles vídeos bonitos da Green Renaissance..

What Makes You Happy

Most of us have been taught to believe that happiness is linked to our accomplishments. We think that we’ll be happy when we get married, or we’ll be satisfied when we get a promotion at work. We are convinced that we’ll find joy when we finally buy that luxury car.

But happiness is better linked to contentment. It’s about being content with what we have - not hunting for anything more than what we need. The abundance of the present is enough to lead a happy and healthy life.

Of course, this doesn’t mean that we should settle for things as they are. We should continue to dream, set goals, and work towards them. We just need to remember to enjoy the journey and not rush to make it happen.

Being grateful for everything we do have instead of spending most of our time thinking about what we don’t have, makes life a lot more beautiful. So take that first step toward happiness. 

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Pinturas de Evelyn Malgil na companhia de Carminho e Chico Buarque com Falando de Amor 

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.
Tudo de bom para todos quantos por aqui me acompanham.

quarta-feira, setembro 01, 2021

Antes paneleiro que populista, diz o António Guerreiro


 

Dia de férias. Sem canseiras, sem stress. Finalmente. Ainda assim, foram compradas e depois postas prateleiras na despensa para arrumar melhor os sapatos, cabides para bonés, cabides para panos do pó em uso, um cabide com uma coisa com compartimentos que o meu marido diz que é para pôr sapatos mas que eu não sei se é e usei para acondicionar produtos de limpeza (de madeiras, de vidros, de fornos, de tapetes). E acho que ainda temos que adquirir caixas de arrumação para ter numa as pilhas, noutra as lâmpadas, noutra as extensões, etc. 

De manhã, quando fomos ao Leroy, à cidade mais próxima, quis logo trazê-las mas ele não quis. Aquele é o seu território  e não me quer a arrumar as suas coisas. Diz que a minha lógica não é a dele e teme nunca mais encontrar o que hoje tem à mão de semear. Só que eu olho para aquilo e vejo um caos. Ele espanta-se, diz que durante vinte anos eu não quis saber de nada daquilo e agora quero organizar tudo. Explico que é uma questão de prioridades. Agora já estamos no fundo dos fundos, na despensa.

Quando estávamos a ir de carro para o Leroy ele deu-me uma novidade: 'as gavetas do móvel da despensa estão vazias'. Fiquei sem perceber: 'Quais gavetas?'. Nunca dei por gavetas nenhumas. Ele respondeu: 'Como queres que te responda? As gavetas do móvel'. Não estava a ver. 'Mas onde estão as gavetas?, nunca as vi'. Ele disse: 'Não me admira que não tenhas visto, nunca vês esse tipo de coisas. Como queres que te explique?'. E eu, admirada: 'Mas é que nunca vi mesmo. Parece que aquilo tem só portas e portinhas, umas de madeira, outras de vidro, prateleiras, prateleirinhas e nichos. Explica: estão em cima ou em baixo, entre o quê? Entre portas?'. E ele: 'Sim, isso, em baixo, entre portas'

Aquele móvel imenso, atafulhado de coisas e mais coisas, sempre foi, para mim, território a ignorar. Mal cheguei a casa fui logo conferir. Três grandes gavetas. Como é possível que nunca tenha reparado nelas? Há com cada mistério... E, de facto, vazias. Um desperdício. Portanto, vou dar-lhes um destino. Se calhar, uma vai ser para panos do pó, panos de limpeza e coisas afins. Hoje tenho uma gaveta da cozinha com isso. Outra se calhar vai ser para individuais e/ou toalhas de exterior. A terceira ainda não sei. O meu marido diz que se calhar para papéis que hoje estão em caixas num móvel da cozinha. E na cozinha posso pôr toalhas de mesa que estão num móvel que, às tantas, pode ficar para outra coisa.

Ou seja, a so called despensa que, na prática, é uma arrecadação, está a ficar um lugar bem aproveitado, e, além do mais, civilizado e transitável. 

Tirando isso, os novos habitantes. Estive na espreguiçadeira, à sombra, a ler. Às tantas, levantei-me para ir buscar água e tive uma visão. 

Temos um portão alto que separa a zona das traseiras (se é que, numa casa como esta, faz sentido falar em traseiras). Antes de termos parte da propriedade vedada, pusemos aquele portão para tentarmos que não acontecesse uma coisa que uma vez aconteceu e que nos incomodou bastante. Estávamos na sala, de janela aberta, descontraidamente em família, e, às tantas, ouvimos vozes mesmo ali. Olhámos pela janela e estavam umas pessoas a passear mesmo junto à casa, dá ideia que, inclusivamente, a olharem para dentro. Quando nos viram, disseram com a maior descontração: 'Parabéns, está tudo muito bonito'. Habituados à total privacidade citadina, aquilo pareceu-nos uma tremenda invasão da nossa privacidade. Não me passaria pela cabeça que um dia estivesse a sair da casa de banho, nua, e algum curioso estivesse ali a passar e a observar. Portanto, pusemos um portão para ver se, ao menos, quem passasse na rua se sentisse inibido e sem à vontade para circular por ali, junto à parte mais privada da casa. Mais tarde, quando os caçadores andavam por todo o lado, deixando-nos com medo por causa dos miúdos, vedámos parte do terreno, a parte mais ou menos circundante da casa. O portão intermédio perdeu o seu propósito mas não o tirámos pois gostamos dele. Está, contudo, quase sempre aberto. 

E, então, deitado no chão, no recanto formado pelo portão aberto e pela parede, estava o cão. De vez em quando, damos por ele cá dentro. Parece que está em sua casa. Olhou para mim com interesse. Quando passei lá perto, levantou-se e foi deitar-se num banco de pedra que há colado àquele lado da casa. Mostra conhecer os cantos à casa.

Também vi o gatinho malhado de branco e dourado. Também por aí anda, como se este fosse o seu território.

Tenho estado a ler o livro do António Guerreiro 'Zonas de baixa pressão'. Gosto das suas crónicas. É daquelas pessoas que atravessa o seu caminho sem desvios ou concessões. Diz o que pensa e tenho ideia que, como a malta o respeita, não se vê metido em alhadas ou confusões verbais. É como o Vice-Almirante Gouveia e Melo que soube impor respeito. Aquela maralha do comentário a metro ou os jornalistas de meia-tigela batem a bola baixinho quando falam com ele ou de algum tema que o envolva. E tenho ideia que com António Guerreiro passa-se o mesmo. E nem tem que andar de camuflado.

É daquelas vozes lúcidas, que não vai em modas e que, aparentemente, não tem grande medo de represálias. E é inteligente. E isso, parecendo que não, faz muita diferença. 

Leio uma crónica, fecho o livro e volto a abrir ao acaso. Como se fosse um baralho de cartas que se abre e se distribui a partir de onde calhar. Assim eu a ler este livro de crónicas. Os temas são variados, alguns absolutamente actuais, outros intemporais, e não há cedência ao facilitismo. Pelo menos, assim me parece. 

Leio e penso que deveria ter um lápis para ir sublinhando algumas passagens, talvez para reler, talvez para partilhar convosco. Mas a preguiça tem-me impedido de me levantar para ir procurar um lápis. Portanto, agora, népias.

Aliás, agora que peguei nele reparei numa página a que, à laia de marcação, tinha ao de leve dobrado um cantinho. Transcrevo parte de uma frase:

A natureza gosta de se esconder, tanto quanto a ignorância gosta de se mostrar

Mas é a excepção. Não assinalei mais nada. Aliás, só mais uma. A crónica à qual pertence o título deste post chama-se: 'Se eu fosse...' e numa nota, no seu final, António Guerreiro explica:

No título, a palavra 'paneleiro' é substituída por três pontos. Não por motivos de censura ou auto-censura mas porque seria um foco de atracção dos clicks  Antes paneleiro que populista.

E eu, que sou uma descarada, apesar de também não suportar o populismo, puxei este statement para o título pois acho um daqueles sound bites de estalão. 

The Harbinger of Autumn - Paul Klee

E, por ora, nada mais. Não tenho conseguido dormir a sesta nem, de manhã, dormir até mais tarde. Não sei porquê pois bem precisada ando. Por isso, ainda não pus o sono em dia. Uma chatice. Parece que ainda não fiz o desmame do estado de habituação (ou dependência?) a elevados volumes de trabalho. Nos pequenos momentos de descanso, sinto-me entediada como se a ausência de ocupação útil quase me pusesse doente. Mas pior ainda que isso: sinto-me como que a desleixar-me com as minhas obrigações se, em horário de trabalho, me puser estendida ao sol, a ler. Que coisa esta.

E o tempo que tem estado tão afável, tão a abrir a porta ao outono, tão bom para uma pessoa se sentir serenada... Só me falta mesmo é reaprender a não fazer nada e a gostar disso.

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Pinturas de Paul Klee ao som da Estrela da Carminho

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Desejo-me uma boa quarta-feira
Saúde. Esperança. Ânimo.

domingo, janeiro 20, 2019

Lisboa tem livros, objectos, fotografias e memórias, muitas memórias
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 1 de 8]






É o que digo: parece que só prestamos atenção ao que já conhecemos. Ou que não reparamos naquilo para que não estamos previamente despertos. 

Tinha para mim que a Sá da Costa ia fechar. Depois, tinha para mim que tinha fechado. Quantas vezes já ali passei depois disso? Nem sei. 

Só sei que, desta vez, a montra me chamou a atenção. Aproximei-me. Olha, afinal não fechou!, admirada. Mas não tinha fechado? Os dois espantados. Se calhar, não. Pensei: será que, afinal, se salvou? Entrei. Intrigada. Assim de repente até me pareceu maior, aberta até lá mais atrás. Se calhar, confusão minha. 


Admiradíssima, fui andando. O meu marido deu uma vista de olhos panorâmica e disse: São usados. Livros antigos. Ainda pensei: Restos? Fundos? Olhei em volta, a ver onde estavam os livros novos. Não. Comecei a ver melhor. Se calhar. Livros e outros objectos, todos antigos.

Perguntei: Mas, então, agora é um alfarrabista? A resposta óbvia: Mas não estás a ver que sim?

Curiosa, fui folheando. Primeiras edições. Livros com dedicatória. Primeira edição dedicada a. vários de Urbano. Seria a sua biblioteca? Mas muitos, diversos. Salas e salinhas lá dentro. Recantos. Vitrines com livros ainda mais antigos, peças especiais.


Eu estava sem conseguir perceber o que é que tinha acontecido. Googlei logo ali e obtive o esclarecimento: de facto, a Sá da Costa tinha estado insolvente mas felizmente houve um aproveitamento do espaço, uma nova vida. Agora, ali, apenas o local e o nome são Sá da Costa. Pertence agora à Livraria Castro e Silva e dedica-se, como se estava a ver, ao alfarrabismo. 

Um fascínio. Tanta coisa, tão bem exposto. Coisa para se estar ali durante horas. Como é possível ter passado tantas vezes ali e, convencida que tinha fechado, nem ter reparado que estava aberta com tais tesouros lá dentro?


É que não são apenas livros: há restos de livros, sebentas, cadernos, restinhos de azulejos, molduras, quadrinhos, objectos decorativos, coisas que não sei o que são ou para que servem. Um mundo.

Fiz muitas fotografias. Não as ponho aqui todas pois talvez fosse fastidioso. Mas, acreditem, é daqueles lugares onde se pode estar uma tarde. Ou um dia. Ou muitos dias ao longo de semanas. Ou de meses. Vai fazer parte do meu roteiro. 

O meu marido que é muito sensível a pós e cheiros, foi lá para fora. Mas foi mais porque não é de estar a observar detalhadamente ou mexer nestas coisas pois o espaço não tem aquele cheiro empoeirado e abafado que muitas vezes torna quase irrespirável o ar dos alfarrabistas escusos, escuros, encafuados. Não, este espaço é arejado, luminoso. Muito agradável.


Gostei de tudo. Mas onde me perdi mesmo foi nos caixotinhos que, à direita de quem sai, se perfilam ao lado uns dos outros com folhas soltas, postais, fotografias.

Uma coisa fascinante mas, ao mesmo tempo, um bocado triste. Objectos pessoais, recordações de família ali à venda.

Mas sobra-me algum pragmatismo: quando alguém herda uma casa cheia de objectos, gavetas cheias de cartas, papelinhos, retratos de amigos e familiares e não tem onde guardar toda esses restos de uma vida -- de facto, montes de tralha -- mais vale que o entregue para que se encontre quem os estime.

Também eu tenho um leque maravilhoso com mais de cem anos, com dedicatórias, uma caixinha de cartas, um espelho de toucador, uma cadeira, um candeeiro, tudo comprado num antiquário. E também eu passei pela situação, já aqui referida algumas vezes, de, ao fim de vários fins de semana a 'desmanchar' uma casa, acabar por assistir passivamente a ver despejar gavetas cheias para sacos grandes do lixo. Já não havia disponibilidade mental e emocional para continuar a ver coisa a coisa, para resover para quem ia isto, aquilo e aqueloutro, para ali estarmos confinados durante o fim de semana a ver coisas velhas. Trouxe muitas coisas, algumas nem sei para quê. Daqui por uns anos alguém andará a pegar em tudo isto que aqui tenho também sem saber bem o que fazer a cada coisa.


Tirei algumas fotografias das caixas. Vi as dedicatórias. Por exemplo, esta que aqui vos mostro. Há cerca de sessenta anos, alguém ofereceu a fotografia desta menina aos seus padrinhos. Se calhar, a menina, hoje uma mulher talvez já com netos, não saiba que a sua fotografia está a venda, muito menos aqui no meu blog, atravessando o vasto espaço que liga o mundo. Talvez alguém se enterneça como eu me enterneci, talvez alguém sem família venha a comprar a fotografia, talvez a emoldure e reconstrua uma memória que não é sua. Sabe-se lá.


É esta a magia dos alfarrabistas, dos antiquários. Um mundo que se desdobra desde o passado até ao presente, transportando memórias, vestígios de outras vidas, vislumbres de outros tempos. 

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E aqui termina a reportagem fotográfica pela Lisboa bela e eterna. Por aí abaixo há mais sete posts que contêm apontamentos colhidos no domingo passado. O último foi o que fiz dedicado a montras. dele poderão ir saltando para os anteriores.

E porque Chiado e livros nos fazem evocar o nosso Eça, despeço-me com ele.


Até já

sábado, setembro 09, 2017

Até que a morte os separe.
[3º de 6 posts]



Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz


Na luz dourada da tarde, passeavam pela beira do mar, abraçados. Passaram para lá, conversando, abraçados. Fotografei-os. A felicidade de ter, ao longo da vida, alguém que nos acompanhe, que nos ouça, que nos fale das suas ideias, que nos abrace, que seja nosso amigo não cabe em meia dúzia de palavras. 

Depois voltaram a passar, agora em sentido contrário. Mantinham-se abraçados, continuavam a conversar. Belíssimos no seu amor, na luz que os envolvia, na passada certa e alinhada, na certeza de enfrentarem juntos ventos e marés.


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O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

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Há cerca de sete anos, de manhã, -- e já tantas vezes o contei -- tínhamos ido no carro a ouvir a Bethânia. 'O meu amor', que já conhecíamos cantada pelo Chico, ficou presa à língua do meu marido que todo o santo dia a cantou. E eu com ele. De vez em quando. os dois ao mesmo tempo. Nessa noite, depois dele se ter ido deitar, resolvi fazer um blog e, ao ter que lhe dar um nome, o que me ocorreu foi 'um jeito manso' dado que, lá por casa, outra coisa não se tinha cantado ao longo do dia. E cantámo-la não apenas porque a música e a interpretação nos agradavam mas também porque a letra da canção é qualquer coisa. 
Hoje, enquanto nos deslocávamos de carro durante uma curta viagem (já que, por estes abençoados dias, felizmente só temos andado a pé), de novo 'o meu amor', desta vez na interpretação da Carminho e do António Zambujo. O meu marido de novo a cantou. E eu fechei os olhos, pensando em todos estes anos, juntos, ouvindo esta mesma canção, cantando-a como se fosse feita para nós.

Fica aqui bem, junto do casal da fotografia. Quanta ternura e companheirismo naquele andar enlaçado.

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quarta-feira, março 01, 2017

O ruedo e a escadinharia de Alfama
[1º de 8 Postais ilustrados de Lisboa, a bela]


Terça feira de Carnaval, dia feriado, dia bom para turistar. Destino: Alfama. 


Pelas ruelas acima, pelas escadinhas abaixo, pelas ruelas abaixo, pelas escadinhas acima, sob arcadas e varandas, por miradouros e igrejas, por largos e larguinhos, pelas ruas carnavalescas da Baixa. Horas. Nem sei quantas. Talvez cinco ou seis, nem sei bem. Almoço numa tasca, comidinha bem portuguesa.

E duzentas fotografias. Um encantamento como se fosse a primeira vez. Um espanto perante a estreiteza dos caminhos, uma admiração alegre ao ver as pessoas a falarem à janela, de casa para casa, e à despedida, 'Ó Helena, já cá venho dar à língua. Agora tenho que ir ali!', outras de pijama e robe a arranjar as unhas à porta de casa, na maior indiferença face aos estranhos que passam quase a perturbar a intimidade doméstica, a boa disposição ao ouvir o palavrear jocoso, vernáculo, uns com os outros, um vizinhar animado.

Difícil é, chegando a casa, vendo tantas fotografias, fazer uma monda e escolher algumas para aqui compor um ramalhete. 

Não fora isto já ir tão longo e faria ainda mais dois postais, um com os azulejos de Lisboa e outro com poesia nas paredes. Mas sei que isto já passou da conta e que a vossa paciência tem limites e, por isso, este que aqui vêem em primeiro lugar, será o meu último post de hoje, o oitavo.

Espero que gostem e, sobretudo, espero que, se puderem, venham visitar Lisboa. Toda ela é liiiinda.










Querendo apenas descfocar os rostos ao casal, tirei-lhes a cabeça.
Melhor disfarce não pode haver.
Mas, como é Carnaval, ninguém há-de levar a mal.



E depois, uma rua mais larga e menos íngreme.


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Carminho - Marcha de Alfama



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Descendo, encontrarão os outros sete Postais Ilustrados de Lisboa.

Já a seguir, o que mostra a Sé de Lisboa.

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quinta-feira, setembro 26, 2013

O estranho desfecho do percurso de uma menina rica que se tornou uma advogada de sucesso e uma mãe orgulhosa. Infelicidade ou crime? Quem é Charo? Uma mulher abandonada pela sorte ou uma perigosa assassina? A história que está a deixar em choque a comunidade de Santiago: Rosario Porto e Asunta Basterra, os nomes que enchem os jornais da Galiza, que assustam a comunidade que tão bem as julgava conhecer.





*

Não sabemos de nada. Como podem alguns fazer juízos precipitados quando é tão difícil saber alguma coisa? 

De que somos feitos? De que incógnita matéria? De que estranheza? De que ténues fios que tão facilmente se quebram?

Podemos ser normais, felizes, sorridentes, ter uma vida perfeita e depois, sem que se perceba bem porquê, tudo se começa a desfazer, tudo. Talvez ninguém dê por nada, talvez nem se lembrem de nós, se calhar a erosão da nossa felicidade começa sem que ninguém o perceba.

Talvez nem nós percebamos que o caminho que estamos a percorrer é o que nos conduz ao abismo. Não sei.

Talvez, por vezes, nos olhemos ao espelho ou olhemos o que fomos, sorrisos presos dentro de fotografias emolduradas, nós que já não somos o que éramos naquele outro tempo. Talvez pensemos: onde está a pessoa que um dia fui? Mas pode também acontecer que não pensemos nada. Pode acontecer que por dentro de nós haja apenas um imenso vazio.




Uma mulher sorridente, olhar franco, o marido reservado, a filha. Passeando nas ruas da cidade, bem sucedidos, exemplares.

Ou não?

É tão difícil perceber. Será uma parte do cérebro que escurece? A sombra que invade as ruas esgueirando-se, também, para dentro de nós, uma parte de nós a viver na sombra, uma sombra espessa, silenciosa, devorando a nossa felicidade. Será?

Quem os conhecia bem não percebe, pois, o que possa ter acontecido. Lembram-se agora que nos últimos tempos a felicidade já não se passeava a três pela rua mas quem dá pela falta de três pessoas numa cidade?

Os mais velhos olham-se uns aos outros tentando encontrar, algures no passado, uma ponte que leve ao local onde se esconde o segredo. Mas o passado não tem respostas. Só estranheza, uma estranheza fria, misturada com medo.

A menina era um caso à parte, exemplar.




Estava um ano avançada nos estudos em relação à sua idade. Exímia em música, em dança. Esguia, quase a fazer treze anos. 

A mulher, mãe da menina, advogada, 44 anos, filha única, bonita, pertence a uma abastada família, o pai também advogado, a mãe professora universitária.





Toda a gente conhece a família, têm pertences, propriedades, têm história. O pai foi cônsul de França. Depois passou o cargo à filha. Tudo sem uma mácula, tudo muito bem. Numa sociedade católica, tradicional, está é o exemplo de uma família típica, com raízes sólidas na comunidade.

Ligada aos meios mais progressistas, casada com um jornalista, tinha uma vida profissional intensa, bem sucedida. As imagens mostram-na segura e sorridente. Talvez não tivessem conseguido ter filhos. Não se sabe agora se houve um processo traumático de sucessivas tentativas mal sucedidas. Aquilo de que as pessoas se lembram é que há cerca de doze anos foram buscar esta menina, então apenas com meses, à China, uma menina que adoptaram.

Depois deram entrevistas, disso as pessoas lembram-se. A adopção tinha corrido muito bem porque ambos queriam mesmo uma filha, porque a rodearam de afecto. Sorriam, felizes com a sua menina tão afectuosa, tão talentosa, tão inteligente.

Mas as sombras talvez estivessem já a fazer o seu caminho. Não sabemos. Talvez só uma pessoa o saiba, se é que o sabe. Ela.




O que também se sabe é que há algum tempo a sua vida começou a mudar. Fechou o escritório de advocacia, deu baixa da carteira profissional. Começou a representar interesses comerciais em Marrocos, a viajar muito para lá. Dizem que era vista frequentemente na companhia de um marroquino, seu amigo.

Depois, aconteceu uma coisa que deixou a comunidade em choque. Um dia, ao chegar a casa, o velho advogado encontrou a sua mulher morta. Uma morte súbita, inesperada, o senhor devastado. Ela também. Todos.

Mas a desgraça quando começa a rondar, nem sempre se contenta assim tão facilmente. Uns meses depois foi a vez do pai também aparecer morto. Também na sua casa, também sem que nada o fizesse esperar. No espaço de poucos meses, a bela advogada perdeu os pais, ambos de morte súbita.

É sabido: acontece muitas vezes que, quando a pressão é muita, os relacionamentos não resistem. Foi o que aconteceu. Depois da morte dos pais, a que antes era uma sorridente mulher e o jornalista separaram-se.

De repente quase sozinha, sem pais, sem marido, era apenas ela e a filha. Dizem que estaria a receber tratamento psicológico.

As sombras não são boas companheiras, parece que sugam a vida. Aos poucos, a vida, destituída de luz, vai procurando mais e mais sombra, a matéria vai ficando rarefeita, apenas o silêncio já parece suportável. E depois já não são apenas sombras, já é um negrume que avança como irreversível gangrena.

No domingo passado foi a vez da menina aparecer morta. Foi encontrada num campo perto da casa dos avós, umas cordas cor de laranja por perto.

Por essa altura, já a mãe e o pai tinham participado à polícia o seu desaparecimento.

Na tarde de sábado, teria ficado em casa a fazer os trabalhos escolares. A mãe teria ido fazer umas compras, teria ido depois a casa da família, àquela em que os pais apareceram mortos. Quando regressou a casa não encontrou a menina. Pensou que estivesse com o pai, era normal, ele mora a cem metros, davam-se bem, dizem que adorava a filha, que estavam juntos sempre que podiam. Mas não estava. Esperaram. Depois participaram o desaparecimento.

Quando o corpo apareceu, os pais foram ouvidos, a polícia queria perceber o que poderia ter motivado o hediondo crime, ver se detectava algumas pistas.

Mas as contradições da mãe foram muitas. As câmaras de vigilância mostram que a menina, afinal, na tarde deste sábado, saíu no carro com a mãe. Em casa dos avós, onde a mãe diz ter estado, a polícia encontrou restos de cordas cor de laranja.


Dos primeiros exames, a polícia concluíu que a menina não morreu ali onde a encontraram, que o crime aconteceu num noutro local, e que foi, depois, levada para o campo. Chegaram agora os resultados que se esperavam: foi sedada, asfixiada, amarrada e, depois, transportada.


Depois da menina ter sido cremada, a polícia prendeu a mãe, Rosario Porto Ortega. É a principal suspeita da morte da filha, Asunta Basterra. Diz-se agora que Asunta era a principal beneficiária da herança da fortuna dos avós, o advogado Francisco Porto Mella e a professora María del Socorro Ortega Romero, uma das famílias mais estimadas de Santiago de Compostela. O pai, o jornalista, Alfonso Basterra, também foi constituído arguido mas, ao que parece, por razões processuais.


A Galiza, aqui tão perto, está em choque. Ninguém consegue compreender uma coisa destas. Dizem que tal não é possível, que Charo não poderia ter feito uma coisa assim - mas já não sabem de que coisa estão a falar, não conseguem sequer formular as medonhas ideias que lhes ocorrem. Atordoados, olham para trás, tentam encontrar, algures no passado, algum indício. Mas não encontram. 


Estranha é, pois, a matéria de que somos feitos.



*

A música é Perdóname de  Pablo Alboran com Carminho

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta feira muito boa. 
E que as sombras nunca invadam as vossas casas, as vossas almas.

domingo, agosto 04, 2013

O tempo passou na janela, só Carolina não viu. Mas há pessoas por quem o tempo passa muito bem.


A esta hora já não tenho cabeça para coisas que me façam puxar pelo intelecto. Por isso, depois de afazeres múltiplos sentei-me aqui a ouvir música. Escolhi a Carolina de Chico Buarque com a Carminho, uma maravilha. Quis colocá-la no Um Jeito Manso mas não é possível incorporá-la no blogue. Por isso, desisti.

Lembrei-me, então, que, no outro dia, no Público, vi como algumas figuras públicas ganhavam em beleza com a idade (essencialmente artistas de cinema, se bem me lembro). Hoje tentei rever isso mas não encontrei. Nabice minha, certamente. O sono tira-me a inteligência.

A inteligência e a paciência: também não tive paciência para andar à procura.

Resolvi, então, encontrar eu imagens de pessoas que mantivessem a beleza ou o carisma com o passar do tempo. Difícil é escolher mas a esta hora também não tenho pedalada para superar dificuldades. Por isso, vou aqui colocar apenas o que me vier à cabeça em primeiro lugar, três homens e três mulheres.

E é isso que vos vou mostrar e não me perguntem a que propósito vem isto hoje porque não faço ideia. Tenho é pena de não ser capaz de pôr as fotografias do antes e do agora, ao lado uma da outra. Se calhar, se me esforçasse, conseguiria. Mas a verdade é que também não tenho paciência para investigações nestas matérias.


Homens (especiais)





Chico Buarque, um senhor, um sedutor, um homem com uma grande pinta e a quem o tempo não retira uma pitada de charme. 


A voz parece que foi feita para nos prender. Um fiozinho de voz que nos enleia.


(Chico Buarque nasceu em 1944)



António Fagundes, encantou-me pela primeira vez como Cacá já lá vão uns mil anos. Gozão, folgazão, lindão.


E o tempo só tem feito maravilhas com ele. Tem um charme, uma voz e um corpo que até fazem impressão.


(António Fagundes nasceu em 1949)

  

José Mourinho é um desafiador, um insubmisso, um homem com uma enorme auto-confiança. Por vezes arrelia ver o que parece ser arrogância. Mas a verdade é que consegue bons resultados por onde passa (com uma ou outra excepçãozita que não vale a pena trazer para aqui). Mas, independentemente disso, tem charme, tem carisma e é bonito - e parece que cada vez mais.


(José Mourinho nasceu em 1963)

[Não faço ideia de como é que às vezes consigo pôr duas fotografias ao lado uma da outra, nem porque é que umas vezes consigo escrever o texto ao lado ou ao meio e outras vezes nem pouco mais ou menos. Calha. E já estou maçada com isto porque fica sem uma linha gráfica coerente mas, paciência, fica mesmo assim]


Mulheres (especiais)
























Jodie Foster (aliás, Alicia Foster) nasceu bonita e cresceu sob a luz dos holofotes. Muito talentosa, uma actriz ímpar, com uma personalidade extraordinária, continua bela e, por onde passa, irradia luz e carisma. A idade não a perturba nem lhe retira elegância e graça.



(Jodie Foster nasceu em 1962)





Carolina de Mónaco foi famosa desde que nasceu filha de pais famosos, príncipes de um prinicipado que mais parece de brincadeira. Um rochedo, um mar azul, barcos, casinos, beautiful people. tem tido uma vida de paixões, desamores, infelicidades. Tudo sob exposição pública. Nasceu muito bonita, uma princesa simpática. O tempo não lhe tem retirado a elegância, a dignidade, a beleza.


É mãe de filhos lindos, uma das quais, Charlotte, a faz lembrar quando jovem. Carolina já é avó (mas avozinha só se for para despertar maus instintos aos lobos maus que por aí andam...)


(Carolina Grimaldi nasceu em 1957)




Rita Blanco é uma das nossas maiores artistas. Não se leva a sério, é uma mulher livre, tem uma personalidade forte, tem um sentido de humor desconcertante. 


À primeira vista pode parecer que não liga muito à sua imagem mas a verdade é que é elegante, moderna e, na sua simplicidade, tem charme e carácter.


(Rita Blanco nasceu em 1963)


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Não é a Carminho com o Chico. Nem a Carolina. Esses só aqui.

É Chico Buarque com Bebel Gilberto: A mais bonita. 




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E tenham, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo!