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terça-feira, maio 12, 2026

O que faremos quando formos velhos?

 

Tenho estado a estudar o tema da terceira idade em Portugal, tentando perceber como compara com países de referência. Ainda estou a analisar informação, a tentar obter mais dados sobre algumas vertentes desta realidade. Como habitualmente acontece, já vou na n-ésima versão do documento pois há sempre muitas perspectivas para olhar para um assunto complexo e, se omitimos alguma que seja determinante, podemos subverter toda análise.  Talvez amanhã o publique.

Estando a pirâmide demográfica deformada pelo progressivo envelhecimento da população, seria de esperar que esse fosse um dos eixos de acção de qualquer governo e que uma abordagem integrada, bem estruturada, para acompanhar e apoiar os que vão vendo deteriorar-se a sua autonomia, estivesse bem delineada e fosse do conhecimento geral.

E, no entanto, não há. Ideias vagas, talvez. Uma linha de acção concreta, projectos em desenvolvimento e do conhecimento geral não há. 

Quem tem ou teve familiares idosos, em especial em situação de vulnerabilidade, sabe as dificuldades pelos quais todos passamos. É não apenas muito doloroso, em especial para os mais frágeis, como muito desgastante (e dispendioso) para todos.

Não me esqueço como, num dia em que estava a chegar ao norte para um encontro entre empresas do Grupoe e em que, para incentivarem o convívio, tinham contratado um autocarro -- e, portanto, eu não tinha meio de locomoção própria -- recebi uma chamada do hospital em que a minha sogra estava internada. Diziam que ia ter alta nesse dia, ao meio-dia, que a fossemos buscar. O meu pânico foi total. Tinha estado com ela na véspera e não via como poderia ir ela para casa. De maneira nenhuma. Do que víamos, imaginávamos que lá estivesse ainda mais um mês, imaginávamos que não sairia sem ter sessões de fisioterapia, imaginávamos que seríamos informados com antecedência. Ao telefone disse que ela não estava minimamente em condições de ir para casa, não tínhamos condições, não tínhamos quem ficasse a acompanhá-la ou a tratar da sua higiene. Não serviu de nada. Desatei a telefonar ao meu marido, aos meus cunhados. Todos desorientados, todos a perguntarem-me se eu não tinha dito que era impossível, se não seria melhor ligar outra vez para lá a pedir para a reabilitarem minimamente antes de a mandarem para casa. 

Mas foi mesmo para casa nesse dia. E o drama que foi daí em diante ninguém queira saber. Mais tarde, com ela ainda dependente, adoeceu o meu sogro e tudo ainda se complicou mais.

A opção foi sempre a de ficarem em casa e arranjar-se uma empregada interna. Mas a tragédia que foi. Eles não aceitavam bem ter uma estranha a viver lá em casa, não gostavam. Creio que passaram por lá umas doze ou treze mulheres, e, de cada vez que uma se ia embora, era outra vez o mesmo drama para arranjar outra. Por fim, recorríamos a uma agência a quem tinha que se pagar um mês a mais, pelo agenciamento. Saiu muito caro e só correu bem com a última. Mas o correr bem foi muito relativo. Ao fim de semana, logicamente a senhora não trabalhava e era preciso arranjar solução para isso. Depois a senhora também adoeceu, esteve internada e em tratamento durante meses, e foi preciso contratar uma outra, pagando ao mesmo tempo à primeira. E depois era a fisioterapia, e era a trabalheira louca quando era preciso ir ao médico ou fazer exames. Tudo muito complicado, para qualquer coisa eram horas, dias, e tudo muito dispendioso.

Mas, apesar de tudo, creio que foi melhor estarem casa do que irem para um lar.

Com o pai aconteceu praticamente o mesmo, a nível de alta hospitalar. Quando ainda andávamos a dar voltas à cabeça e a deitarmos contas à vida a pensarmos o que faríamos quando ele tivesse alta, julgando-a não imediata, eis que dizem que o podemos ir buscar. A casa ainda não estava adaptada a ter um acamado que não se podia locomover e ainda não sabíamos como lidar com a situação. A minha mãe estava boa, forte e vigorosa, mas à primeira tentativa percebemos que nem com a ajuda uma da outra conseguíamos pô-lo sentado na cama para lhe dar de comer. Não é só uma questão de força, é também de jeito, de prática. Para o meu pai era também terrível, uma ferida aberta na sua dignidade. Via que eu e a minha mãe nem conseguíamos levantá-lo para ajeitarmos a almofada e ele, coitado, mesmo que quisesse ajudar, não conseguia, era um corpo morto. Felizmente, conhecia-se uma senhora que não morava longe e que, justamente, trabalhava num lar. Estava pois muito habituada e era possante, pegava-lhe pelo cós das calças, virava-o, puxava-o. Coitado do meu pai. Quando penso no que ele sofreu... Então, antes de ir trabalhar, a senhora ia tratar da higiene do meu pai, quando saía do trabalho passava por lá e, à noite, voltava para o preparar para a noite. Entretanto, eu e a minha mãe andávamos a ver se arranjávamos uma solução mais permanente. Batemos à porta da Misericórdia e dos Socorros Mútuos e de mais não sei quê. Já não me lembro se não tinham disponibilidade ou o quê. Por sorte, lembrámo-nos de contratar uma fisioterapeuta que ia lá a casa todos os dias, perto da hora do almoço, fazia exercícios e deixava-o na posição de tomar a refeição. Só que, pouco depois, o meu pai piorou e voltou para o hospital, praticamente em coma, com o sódio e o potássio completamente descompensados. Esse internamento deu tempo a modificarmos a casa de banho, a arranjar uma cama articulada e uma cadeira de rodas. E, pouco depois, a senhora reformou-se do lar e passou a estar disponível para dar assistência mais assídua ao meu pai e foi isso que nos valeu. 

O meu pai esteve em casa até ao dia em que morreu, mas os sobressaltos por que passámos, nomeadamente com a sonda gástrica que ele, sem querer, puxava e que só podia ser posta por um enfermeiro -- e onde é que arranjávamos enfermeiros em tempo útil? -- ou com tantos outros problemas foram do mais desgastante que se pode imaginar. E, claro, o que se gasta nestas situações não está ao alcance de muita gente.

Por isso, interrogo-me: o que acontece a quem não pode pagar a uma empregada, a um fisioterapeuta, a enfermeiros e médicos particulares? É certo que a médica de família e os enfermeiros do centro iam lá de vez em quando mas não com a assiduidade requerida e, sobretudo, nunca em situações críticas ou de de urgência.

Com a minha mãe foi diferente. Quando teve o cancro no cólon e teve que ser operada, foi recuperar-se (e descansar da situação de cuidadora) para uma residência assistida, talvez a mais luxuosa e dispendiosa do país. Ao princípio ainda gostou mas, pouco depois, já estava farta. Para ela aquilo eram só velhos de boca aberta, que já não diziam coisa com coisa ou muito dependentes, e ela ainda estava boa. 

Queixava-se que não tinha companhia e que não tinha nada que fazer. No entanto, fazia lá ginástica, tinham actividades diversas, ia ao cabeleireiro, etc. Mas achava tudo aquilo deprimente e, sobretudo, acho eu, ali sentia que não tinha um propósito. Portanto, pouco depois, regressou. Estava bem era em sua casa, com a sua autonomia, a sua ida às compras, o seu jardim, durante uma fase a ida à universidade sénior ou a ida a passeios com as amigas. Por prudência, mantivemos o contrato com a senhora que acompanhou o meu pai: continuou a ir lá a casa de manhã e à noite para garantir que estava tudo bem, fazia-lhe as compras, levava o lixo, de certa forma vigiava a sua condição. E ia uma empregada de vez em quando, fazer as limpezas maiores (porque, as do dia a dia, a minha mãe fazia questão de ser ela a fazer tudo). No último ano, por não fazer a medicação, piorou e esteve internada uns dias e, do hospital, resolveu seguir para a mesma residência onde tinha estado anos antes, uma vez que têm enfermagem em permanência e médico todos os dias, e isso dava-lhe segurança. Aí foram só problemas. Já não estava bem e punha defeitos em tudo, só descansou quando voltou para casa. Só na recta final, quando se sentiu muito fraca, quis ir para uma residência, para uma onde estavam amigas. Mas acho que nem um mês lá esteve, foi internada a seguir. Mas, uma vez mais, não apenas o ambiente não era o que ela gostava, estava desenraizada, fora do seu ambiente, como o valor que pagava não está ao alcance de grande parte dos reformados, a menos que recorram às poupanças. 

Quem não dispõe de boas reformas ou não tem confortáveis poupanças e não pode ficar em casa, por não estar bem ou por já não ter total autonomia, como faz?

Daí haver tantos lares clandestinos. Devem ser os que as pessoas com menos posses conseguem pagar.

Por isso, perante esta situação, de que é que os Governos estão à espera para traçar um caminho que dê segurança e conforto à população mais velha ou a caminho disso?

E isto não é um problema dos outros. Não: é de todos. De uma maneira ou de outra, é assunto que tarde ou cedo toca a todos.

Se amanhã já conseguir dar por concluído o trabalho que tenho em mãos, partilhá-lo-ei. 

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Desejo-vos dias felizes

quinta-feira, março 26, 2026

Bora lá dar uma curva...?

 

Há pouco tempo fomos desafiados para irmos, em grupo, numa viagem muito bonita, a uma cidade gigante que não conheço e gostava de conhecer. Ficámos balançados. Um bocado longe, uma viagem longa. O meu marido não adora andar de avião mas, dado o lugar que era e que a companhia não podia ser melhor, estava tentado a aderir. Por essas alturas andava o Trump com a conversa das negociações com o Irão e com ameaças pouco veladas. Como sempre, eram os seus pontas de lança para a facturação em terras estrangeiras, o genro, o sinistro Jared Kushner, e o pato bravo Steve Witkoff, que lá andavam a fazer de conta. Por um lado, à luz da lógica e do direito internacional, os Estados Unidos não cairiam na tentação de se meterem numa aventura suicida. Mas, por outro lado, com um doido varrido sentado na Casa Branca nunca se sabia. Ao conversar com a minha filha, lembro-me de comentar: 'vamos lá ver se o maluco do Trump não se mete numa grande confusão e não dá cabo da viagem'. 

Com a hesitação, não demos o passo em frente. E, nos dias seguintes, foi o que se sabe, a deriva, o desvario de Trump. Arrastado por Netanyahu e sem avaliar o que ia fazer ao mundo, o maluco avançou de peito feito, julgando que era a mesma coisa que tirar o Maduro da cama.

Ao contrário de quem nos desafiou, que compraram as viagens todas, para cá e para lá e para os percursos intermédios, não chegámos a avançar e, por isso, não ficámos com os bilhetes na mão. Os aeroportos em causa não estão fechados pelo que não há lugar ao reembolso mas, estando toda a região e redondezas sob uma instabilidade total e perigosa, não é seguro ir para aquelas bandas.

Durante os últimos anos, desde que o meu pai teve o AVC, ou seja, talvez há uns 17 ou 18 anos, deixámos de fazer passeios grandes. Creio que o último foi a Amesterdão e a Paris, em que estando o meu pai já doente, nos pareceu que eram destinos relativamente perto e que, numa emergência, facilmente arranjaríamos voos de volta. Tirando isso, que me lembre, só por Espanha e isso fomos várias vezes, sobretudo adoro San Sebastian, ou, a França, só quase de raspão. Começámos a gostar de descobrir Portugal. Ah, não. Ainda fomos até ao sul de França e até Itália, já nem me lembrava. Mas o facto é que não me sentia bem, indo para longe. Nesse período também os pais do meu marido estiveram mal, internados, em tratamentos complicados, a ter que ir a consultas. E o meu pai tinha o seu estado a deteriorar-se inexoravelmente. Depois foi a minha mãe que foi operada ao cólon, também com um cancro. Tudo me tolhia. De vez em quando, algum ia para as urgências, ficava na corda bamba, e custava-me pensar que não conseguiria andar descansada a passear longe do país, quando a todo o momento a coisa poderia descambar. Quando todos se foram e ficou só a minha mãe, que eu julgava que era saudável, pensei que finalmente poderíamos sentir-nos livres para fazermos o que quiséssemos. Mas aí foi ela que derrapou, todos os dias tinha qualquer coisa, sempre como se estivesse muito mal mas sem dar pistas que dessem para perceber o que tinha. De médico em médico mas, segundo ela, nenhum acertava. E era sempre uma urgência, uma crise grave. Nessa altura obviamente não era possível irmos para longe. Aliás, até irmos para o campo era uma crise. Chegava a não lhe dizer nada pois parecia-me que já era psicológico, se sabia que eu ia, mostrava-se ainda mais ansiosa, temia que eu não chegasse a tempo para a levar para as Urgências. Uma vez tivemos que regressar à pressa, eu num sufoco, pois ela achava que estava muito mal, tinha que ir para o hospital, e, naquelas suas decisões, recusou-se a chamar uma ambulância, quis que eu fosse buscá-la a casa e eu a pensar que poderia não chegar a tempo. 

Agora que já não há ninguém que nos prenda, há outra coisa: mudámos. Já não somos os mesmos. E há o cão. O pobre coitado sofre imenso quando está longe de nós. Custa-nos deixá-lo durante muito tempo. Mas nem é o cão. Somos nós. Talvez nos tivéssemos tornado comodistas. Talvez nos custe afastar-nos muito de casa. E depois também parece que já não há aquele interesse em ir ver o que nunca se viu. Dantes, quando fazíamos uma viagem, tínhamos os guias Michelin, tínhamos os livros de viagens, planeávamos o que iríamos ver recorrendo a isso. Íamos de facto descobrir o que não conhecíamos, Agora é diferente. Se tenho curiosidade em saber como é alguma coisa, pesquiso, está tudo disponível. 

É como quando eu ia a Madrid: adorava. As exposições, as ruas, os parques, as lojas. Tudo me parecia novidade, diferente. Agora já tudo me parece déjà vu. Mesmo aquele estímulo que eu tinha, de andar produzida, de descobrir lojas boas com modelos que não encontrava cá, agora já não tenho. Não só não preciso de mais roupa como já há cá praticamente todas as lojas que há lá.

Contudo, admito que seja uma fase. Talvez esteja a curtir o momento, aquela fase boa em que posso estar em casa, em que posso não ter horários, em que posso existir ouvindo os pássaros, olhando o jardim, lendo um livro, indo passear até à beira-mar, olha as ondas. Talvez que dentro de algum tempo pense: 'pronto, agora também já chega, bora lá passear.'. Pode ser. A vida é feita de mudança.

Mas, até lá, aqui estão quarenta lugares considerados belos de mais para não serem conhecidos. Bora lá vê-los...?

40 Patrimónios Mundiais da UNESCO que tem de visitar antes de morrer 
- Vídeo de Viagem em 4K

Descubra as maravilhas mais deslumbrantes do mundo no nosso vídeo: “40 Patrimónios Mundiais da UNESCO que Precisa de Visitar Antes de Morrer”. Estes marcos icónicos e tesouros escondidos representam a cultura, a história e a natureza na sua melhor forma. De cidades antigas a paisagens naturais de cortar a respiração, esta lista vai inspirar a sua próxima aventura!

Quer seja um viajante, um amante de história ou alguém que procura riscar itens da sua lista de desejos, estes destinos são imperdíveis. 

 

Caso queiram ir direitinho a algum destino, aqui ficam os links para o ponto do vídeo (directamente no youtube):

00:00  – Introdução
01:09 – Calçada dos Gigantes, Irlanda do Norte
02:10 – Alhambra, Espanha
03:27 – Baía de Ha Long, Vietname
04:37 – Capadócia, Turquia
05:48 – Mont-Saint-Michel, França
06:54 – Chichen Itza, México
08:02  – Parque Nacional do Serengeti, Tanzânia
09:13 – Machu Picchu, Peru
10:23 – Grande Muralha da China, China
11:29 – Petra, Jordânia
12:34 – Parque Nacional de Yellowstone, EUA
13:38  – Taj Mahal, Índia
14:40 – Templos de Quioto, Japão
15:48 – Cataratas do Iguaçu, Argentina/Brasil
16:54 – Angkor Wat, Cambodja
18:00  – Terraços de Arroz de Banaue, Filipinas
19:07 – Costa Amalfitana, Itália
20:36 – Ilhas Galápagos, Equador
22:01 – Grande Barreira de Coral, Austrália
23:13 – Veneza, Itália
24:14 – Meteora, Grécia
25:49 – Bagan, Myanmar
27:04 – Lagos de Plitvice, Croácia
28:35 – Ilha da Páscoa, Chile
29:38 – Santorini, Grécia
31:01 – Parque Nacional de Banff, Canadá
32:07  – Cidade Velha de Dubrovnik, Croácia
33:30  – Parque Nacional de Yosemite, EUA
35:02 – Pirâmides de Gizé, Egito
36:03 – Stonehenge, Inglaterra
37:07 – Great Smoky Mountains, EUA
38:14 – Mesquita Azul, Turquia
40:01 – Cataratas Vitória, Zâmbia/Zimbabwe
41:02 – Bora Bora, Polinésia Francesa
44:18 – Louvre e Paris Histórica, França
45:55 – Floresta Amazónica, África do Sul América
47:39 – Alpes Suíços, Suíça
53:34 – Antártida
55:40 – Aurora Boreal (Luzes do Norte)
57:13  – Pamukkale, Turquia
01:00:07 Considerações Finais

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Desejo-vos um belo dia

segunda-feira, novembro 24, 2025

AVC

 

Claro que o tema me deixa sempre um pouco perturbada. Posso não demonstrá-lo, aliás tento não demonstrar nada, mas claro que fico perturbada. 

Quando ouvi que o Markl tinha tido um AVC senti um baque. 

Só pensei: caraças, como é possível? 

Quando li que tinha sido um AVC hemorrágico retrocedi uns anos. Não vou repetir com pormenor o que já aqui contei algumas vezes. O que se passou, os antecedentes, as consequências. A minha avó, mãe do meu pai, também teve um AVC. E o irmão dela também. E creio que antes deles a minha bisavó também. Mas o meu incómodo não vem só do receio que esse seja também o meu destino. O meu incómodo vem de não ter estado devidamente informada quando o meu pai teve os AIT que precederam o AVC e não ter sido informada das causas e dos riscos de que coisa maior pudesse estar para vir. O meu incómodo vem de não ter percebido que o meu pai devia seguir, à risca, uma medicação nem ter sabido que, por achar que estava tudo bem e controlado, de vez em quando não a tomava. E vem de não ter sabido que ele andava com arritmias acentuadas (ou taquicardias?) e que não foi ao médico. E vem de pensar que, na noite em que ele teve o grande AVC, ele e a minha mãe demoraram tempo de mais para chamar a ambulância sem perceberem o que estava a passar-se e que, por isso, as consequências foram tão devastadoras. Ainda me lembro de um médico, ao ver os exames, o felicitar e dizer que quem tem um assim, tão extenso, tão profundo, geralmente não fica cá para contar. Devíamos ter ficado contentes por ele ser a excepção à estatística mas as suas limitações eram tantas, tão arrasadoras, que naquela altura não havia notícias que nos animassem. E, por isso, o meu incómodo vem também de me lembrar de todos os horrores pelos quais passou: a perda de tantas faculdades, a perda da autonomia, a perda da dignidade.

Felizmente parece que o filho do Markl estava por perto e se apercebeu e ligou para o 112 e tudo decorreu dentro da janela temporal em que os danos são limitados e, espero, reversíveis. 

Mas há efectivamente que estar atento até porque estamos sempre tão alheados das nossas fragilidades que, quando a coisa nos bate à porta, nem nos ocorre que uma coisa assim pode estar a acontecer. 

E digo isto porque, há anos, passei por isso. Creio que também já o contei. Num certo dia, um dia de trabalho normal, o meu marido acordou a sentir-se estranho. Dizia que estava um pouco tonto. Não liguei muito e ele também não. De manhã tínhamos os minutos contados, despachávamo-nos apressadamente para não chegarmos tarde. Ele dizia que parecia que estava  tonto e eu pensei que talvez estivesse com a tensão baixa. Sugeri que esperasse pelas nove horas para ir à farmácia ver a tensão. Ainda não tínhamos medidor em casa, estávamos tão longe dessas preocupações. Mas depois dizia que lhe doía já não me lembro se era o pescoço ou o ombro. Perguntei se teria dormido sobre aquele lado, se teria dado algum mau jeito na cama. Não me ocorreu, nem a ele, que esse sintoma estivesse relacionado com as tonturas. Ainda me lembro de ele se ter encostado à parede e isso não era nada normal nele. Estávamos ambos prontos para sair de casa. Mas depois ele disse que parecia que estava com um bocado de falta de ar. E eu, espantada, perguntei o que é que a falta de ar tinha a ver com o resto. Pareciam sintomas desencontrados, que nada tinham a ver uns com os outros. Felizmente calhou estarmos à porta do quarto do meu filho e por sorte ele ainda estava em casa e por sorte, apesar de estarmos a falar baixo, ele ouviu e, por sorte, foi mais inteligente que nós e, de um salto, vestiu-se e disse que ia com o pai ao hospital e nem sei como voou e levou o pai às urgências. E chegou a tempo. Não chegou a ser grave, foi medicado, interceptado a tempo, ficou em observação, e só então caímos na real e nos assustámos. E desde essa altura está medicado.  

Ora como é que nós, pessoas informadas, não percebemos o que estava a passar-se? Custa a crer. Estávamos tão longe de que uma coisa assim nos poderia acontecer, a nós, ainda jovens, saudáveis, que não conseguimos ver uma coisa tão óbvia.

O testemunho que abaixo partilho é uma experiência diferente. No caso dela foram os médicos que desvalorizaram o que estava a passar-se. Poderia já cá não estar para contar. Impressiona. 

A nossa vida é, tantas vezes, um milagre, uma questão de sorte por estarmos ao pé de quem nos acuda, por darmos com um médico que se interesse, que acerte no diagnóstico, por conseguirmos chegar a tempo e horas.

“Estava numa situação de bomba-relógio” | Quando a Minha Vida Mudou | Observador

Celmira Macedo tinha sintomas que ninguém valorizou. Sobreviveu a dois AVC até ter um diagnóstico e um tratamento adequado. Hoje vive com sintomas difíceis, mas invisíveis aos olhos dos outros.

Arterial é uma parceria do Observador com a Novartis. Tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. 


Desejo-vos uma boa semana
Saúde
E que a boa sorte sempre vos acompanhe

terça-feira, abril 22, 2025

Jorge Bergoglio aka Francisco

 

Se nunca estive ligada à Igreja a verdade é que, cada vez mais -- à medida que vou assistindo a histórias continuadas de abusos, encobrimentos e meias palavras --, me incomodam demais todos os luxos, rituais, ortodoxias, hipocrisias, manipulações a partir da psicologia de massas, alienação de consciências que todos os agentes da igreja perpetuam.

Não obstante, e apesar de também tenha achado que Francisco, o Papa, vacilou quando deveria ter sido firme ou compactuou quando nada tinha a perder e podia ter cortado a direito ou usou palavras elíticas quando se exigiam palavras inequívocas, a verdade é que simpatizava com Jorge Bergoglio e reconheço que foi melhor que os antecessores.

Mas, neste momento de comoção quase colectiva -- em que parece que não se fala de outra coisa senão nas memórias pessoais que cada um tem com ele ou das suas virtudes ou do que ele disse ou fez --, o que penso é no homem idoso, doente, de saúde débil, certamente muito limitado na sua autonomia, tendo que ser lavado, com fraldas, medicado até mais não poder, com dificuldades respiratórias, que, apesar de tudo, conseguiu arranjar forças para ir desejar boa Páscoa à multidão.

Quando o vi, ainda antes de ser internado com a pneumonia bilaterial, pensei: está tão inchado, provavelmente já a fazer retenção de líquidos, se calhar os rins já a começarem a falhar. Depois achei que não devia ser tão pessimista e pensei que talvez fosse apenas cortisona para tratar a bronquite. Pode parecer parvoíce mas depois de ter acompanhado a situação do meu pai e, mais recentemente, a da minha mãe, eu ainda não consegui desligar-me deste hábito de vigiar sintomas, de intuir (ou temer?) o significado do que vejo.

Quando o meu pai morreu, já está quase a fazer 5 anos, estávamos confinados, impossibilitados de circular, eu no campo, a trabalhar de manhã à noite em teletrabalho e sem poder meter-me à autoestrada para ir lá a casa (e, com receio de que, se fosse, pudesse contagiá-los, pois, aparentemente, isso tinha acontecido com o pai de uma pessoa que me era próxima). E, em simultâneo, eu inquietava-me diariamente, e não era pouco, com a situação do meu pai. Primeiro foi a minha mãe que, em pleno pico de covid, para não ferir a susceptibilidade de fisioterapeuta, continuou a recebê-la apesar de ser totalmente desaconselhado. Depois, tendo mesmo que receber a senhora que ia fazer a higiene ao meu pai e dar-lhe a comida através da sonda nasogástrica, não lhe pedia que se descalçasse e, até muito tarde, tinha vergonha de lhe pedir que usasse máscara. Eu passava-me com a minha mãe por continuar a achar que só acontecia aos outros e parecia preferir correr riscos para não melindrar as duas, não fossem elas levar a mal se ela e suspendesse os serviços de uma e pedisse à outra para andar de máscara e calçasse outra coisa quando entrasse lá em casa. Isto, no início, quando não se sabia como é que o vírus se propagava e as notícias nos traziam diariamente um número crescente de mortos e de ventilados.

Mas o pior foi quando começou a achar que o meu pai estava inchado. Nessa altura, já tinha passado para o polo oposto, já tinha terror de tudo. Telefona-me cheia de medos de tudo, chorava. Muito a medo ligou para o INEM, pois recava que eles próprios fossem fonte de contágio. Mas lá o fez e eles lá foram a casa. Disseram que o meu pai estava a fazer retenção de líquidos e teria que ir para o hospital. Mas como estava a oxigénio, teria que ir para a ala covid. E aí a minha mãe não quis. E então ligou-me outra vez, a chorar, aflita, a dizer que não queria, senão ele apanhava covid. Depois pôs-me a falar com os do INEM. Coitados, que poderiam dizer? Não poderiam isolá-lo pois o hospital, na ala covid, estava cheio. Faltavam os meios. E não poderiam levá-lo para o hospital contra a vontade da família. E a minha mãe chorava, não queria que ele fosse. Recomendaram, então, que se chamasse médico a casa pois certamente receitaria Lasix. Assim se fez. E o médico, mostrando que a situação o preocupava, foi o que receitou. E o meu pai melhorou.

Mas, ao fim de algum tempo, a minha mãe voltou a dizer que ia voltar a chamar o INEM pois o meu pai estava outra vez inchado. Chorava, chorava. Insisti para que confiasse que ele não ia apanhar covid e o deixasse ir para o hospital pois a situação poderia ser grave. Tive um mau pressentimento. Morreu poucas horas depois.

Com a minha mãe, que foi aquela situação de que aqui falei, uma situação rápida, complicada, em que tudo se agravou abuptamente, senti um aperto no peito quando vi como tinha um braço todo inchado, a mão toda inchada. A médica e as enfermeiras diziam que era do cateter, do soro, da mão imobilizada, sei lá. Mas aquele inchaço assustou-me como se fosse mais uma confirmação da sentença de morte. 

Até ao fim, a minha mãe parecia preocupar-se com pequenas coisas, como se quisesse ignorar o que era verdadeiramente preocupante. Por exemplo, queixava-se que tinha as unhas daquela mão grandes. Dizia-me que, antes de ter sido internada, tinha conseguido cortar as da outra mão mas não tinha conseguido cortar as da mão direita. Como aquilo parecesse afligi-la sobremaneira, pedi à enfermeira se poderiam fazer isso, mas disseram-me que não tinham serviço de manicura. No dia seguinte, levei corta-unhas. E foi para mim um momento muito angustiante. Por um lado, era a situação de diminuição da minha mãe, até tão pouco tempo antes tão autónoma e, naquele momento, a já não ser capaz de cortar as próprias unhas e a querer que eu lhas cortasse. Por outro, a situação anacrónica de estar em situação terminal e, no entanto, tão preocupada com as unhas. Mas, o pior de tudo foi que mal se conseguiam cortar pois a mão quase parecia um balão e não havia espaço entre a unha e a pele do dedo para eu poder encaixar o corta-unhas. Tentei que ela não percebesse a minha angústia. Fingi que estava a cortar sem dificuldade, disse-lhe que já estavam bem. Mas o meu coração estava apertado, apertado.

E depois já não era só aquele braço inchado. Era apenas o mais inchado. Eu vigiava, tentando fazer de conta que não via, mas o ânimo fugia. Um dia, estava ela no cadeirão, com as pernas sobre o sofá. Vi que as pernas também estavam inchadas. Senti um tremendo pavor. O coração dela quase não funcionava, a taxa de ejecção estava reduzida a quase nada, os rins também já não conseguiam funcionar bem. Isto já para não falar que, no peito, o tumor lhe crescia todos os dias. A morte a avançar diariamente, a invadir o seu corpo.

Jorge Bergoglio felizmente não tinha nenhum tumor a devorá-lo mas tinha também insuficiência cardíaca e respiratória. Chega a uma altura em que o corpo atinge o seu limite. Por mais que se tente, que se trate, por mais que se faça de tudo, o corpo já não consegue assegurar o seu cabal funcionamento. Nessas alturas, o sacrifício que o corpo faz para se manter vivo é inglório, já é apenas sofrimento.

Jorge Bergoglio morreu. O seu corpo humano não conseguiu mais mantê-lo vivo. 

Apesar de tudo, recordá-lo-ei com simpatia.

E só espero que o próximo Papa seja bondoso, corajoso, simpático, humanista, inclusivo, justo, aberto, valente. 

domingo, fevereiro 23, 2025

As pneumonias nas pessoas de idade e com saúde débil

 

O meu pai viveu cerca de doze anos depois de ter tido o grande AVC que não o levou mas que o deixou muito incapacitado. Já aqui falei disso: foi um processo lento e doloroso, em especial para ele. Antes era um homem em excelente forma física, que se sentia orgulhoso pelo seu bom estado de saúde, pela sua resistência física e, creio, pelo seu bom aspecto. Quase não tinha cabelos brancos. Sempre teve o cabelo preto e muito liso. Tinha praticado desporto até tarde, até ter partido uma perna a jogar futebol e ter feito uma cirurgia onde lhe puseram uma placa metálica e um parafuso. Mas continuou a fazer caminhadas e a manter-se em forma. Nunca fumou, não tinha hipertensão nem colesterol alto. 

Ver-se sem se poder mexer, sem orientação geográfica de proximidade e sem metade do campo visual foi, para ele, um rude, rude golpe.

Mas, com a fisioterapia persistente, voltou a andar. Mas a andar com muitas limitações, sempre apoiado.

E não percebíamos se as flutuações de humor ou a agressividade ou as fixações em temas inexistentes se deviam à medicação ou ao próprio estado. Foram anos complexos.

A fase final foi pior: depois de, em casa, ter caído e ter partido o colo do fémur, tendo sido operado, não voltou a andar. Todos os dias era levantado, cada vez com maior esforço. Mas não queria estar sentado. Implorava que o deixassem ficar na cama.

Creio que foi por essa altura, quando começou a estar permanentemente acamado, que teve a primeira pneumonia. Não sei quantas teve. Talvez três ou quatro. A última foi uma pneumonia por aspiração. Foi a partir daí que passou a ser alimentado através de sonda naso-gástrica.

De cada vez que teve pneumonias preparavam-nos para a gravidade do seu estado, em especial dada a debilidade do estado geral. Numa dessas vezes chamaram-me para me ir despedir dele pois dificilmente estaria vivo à hora da visita. Nesses internamentos também 'apanhou' bactérias multi-resistentes, uma das vezes no coração. Tínhamos que nos cobrir de alto a baixo para chegar perto dele, que, nessas alturas, estava completamente isolado.

Houve uma tarde em que nem sei como não tive eu um colapso nervoso. O monitor cardíaco apitava quase em contínuo: os batimentos ora iam abaixo das 30, ora iam acima do patamar crítico (já não me lembro bem mas creio que 150). Quando começavam a descer, a descer, e o apito era contínuo, a enfermeira dizia para eu chamar por ele e apertar-lhe os pés. Passei a tarde numa aflição, 'Pai! Pai!', e a abaná-lo, a apertar-lhe os pés, as mãos. Estava medicado mas, às tantas, suspenderam parte da medicação pois o cardiologista entendeu que alguma dela estava a conflituar com outra. Os médicos diziam-nos que poderia morrer de um momento para o outro, que já não havia muito que se pudesse fazer.

Contudo, sempre sobreviveu às pneumonias, às bactérias multirresistentes, às instabilidades gerais, ao quadro de falência geral que parecia irreversível.

Para o fim, já tinha que estar permanentemente com oxigénio, mas não foi de problemas respiratórios que morreu.

Recentemente, há menos de um mês, morreu um outro familiar meu: também infecção respiratória, também sobre um quadro clínico de debilidade. Neste caso, infelizmente, não se conseguiu reverter o quadro.

Mas cada caso é um caso.

Vejo que as televisões já começam a apresentar retrospectivas sobre a vida do Papa Francisco. Ultimamente já estava muito inchado. Provavelmente já estava a tratar-se com cortisona. É natural que o seu estado seja crítico pois com oitenta e muitos anos, uma saúde que já andava débil e uma pneumonia bilateral em cima, e a ter necessidade de levar transfusões, se calhar com o coração e os rins já não muito funcionais, as perspectivas não podem ser animadoras. É, pois, natural que o seu estado geral seja reservado.

Mas vejo os jornalistas, quais abutres, já a rondarem, já por lá, vejo os programas de televisão que já parecem louvores póstumos, obituários, e penso que pode acontecer que o Papa Francisco lhes troque as voltas. Quantas vezes estive eu numa aflição, com receio que o telefone tocasse de noite ou ao início da manhã... e, depois, como se por obra e graça, tudo parecia recompor-se...

No entanto, seja como for, a verdade é que somos perecíveis. Todos. Ninguém cá fica.

Quando o quadro clínico é complexo e as hipóteses de sobrevivência (em bom estado, em estado de independência e de lucidez) são diminutas, quando se sabe que, se a pessoa sobreviver, é apenas para sofrer ainda mais, nunca sei bem o que se deve desejar.

Sinceramente, o que desejo é que, se Jorge Bergoglio sobreviver, fique bem. Mais do que isto não sei o que dizer.

segunda-feira, dezembro 09, 2024

Revisitar o passado

 

No outro dia, aqui nesta vossa humilde chafarica, verifiquei um número anómalo de visitantes a reler um post já antigo. Fiquei muito admirada. Quando vi o título, percebi. 

Éramos felizes e não o sabíamos...? Voltaremos a sê-lo e ainda não o sabemos...?

Muita gente foi aos motores de busca escrever "éramos felizes e não o sabíamos", expressão que, como sabem, foi usada pelo desbocado Marcelo a propósito dos 8 anos em que trabalhou com António Costa. (Anda a ver se se limpa... mas não se limpa porque não somos desmemoriados nem mentecaptos). Mas, então, os algoritmos mandaram essas pessoas aqui para o Um Jeito Manso.

Nesse post, escrito no fim de Março, eu questionava-me sobre o que estava para vir. A crise Covid era recente, ainda se sabia muito pouco, estávamos todos confinados. Por sorte, temos possibilidade de nos refugiarmos num dos lugares do mundo em que nos sentimos melhor. Estávamos, pois, no campo. Mas trabalhávamos desde manhã muito cedo até às tantas da noite, passávamos os dias inteiros ao telefone ou em frente ao computador e os problemas choviam-nos em cima, em catadupa. Mal tínhamos tempo para almoçar e via-me aflita para conseguir preparar as refeições.

Acresce que nessa altura a minha mãe ainda resistia e dispensar a fisioterapeuta que ia lá a casa e não queria correr o risco de melindrar a senhora que lá ia ajudar com o meu pai pelo que não lhe dizia para se descalçar ou para usar máscara. Achava que era tudo um bocado exagero ou que só acontecia aos outros. Isto enquanto eu acompanhava a aflição de um colega com o pai com uma dor nas costas, depois sem respirar e, por fim, em meia dúzia de dias, a morrer de covid. Contava à minha mãe e ela achava que eram pessoas sem cuidado. Tive que dizer que ia eu telefonar à fisioterapeuta e à outra senhora para ela se encher de coragem e passar a seguir as indicações da DGS. 

Os noticiários abriam e fechavam com os números crescentes de casos e de mortes.

Por isso, naquele post eu relembrava os tempos tranquilos pré Covid e interrogava-me sobre o que estaria para vir.

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Entretanto, ontem, de novo, um número grande de visitantes a lerem um outro post antigo, este de 2019.

Com incansável inteligência e alguma ocasional petulância

E, também aqui, reli com prazer. Lembrava os tempos em que um grupo de directores, praticamente todos da mesma idade, todos muito irreverentes e bem dispostos, todos amigos uns dos outros, curtiam à grande. Curtíamos no sentido de nos divertirmos à séria. Também trabalhávamos (e, sempre tive essa ideia, trabalhávamos articuladamente e bem) mas era um prazer, uma alegria. 

Ao escrever, relembrei alguns episódios que me fazem sempre sorrir. Ainda ontem o meu marido relembrou um episódio, dos mais picantes e salgados a que assisti, e assisti no meu gabinete (que era um ponto de encontro), que me faz rir à grande sempre que dele me lembro. Como o meu marido conhecia bem os dois envolvidos, na altura contei-lhe. E também achou o máximo. Passou para os nossos anais da truculência, da malícia, da malandrice. (Não faz parte do que contei no post referido).

Depois mudei para uma empresa em que eram todos muito betos, na realidade, supé-betos, daqueles que não se acham betos porque acham que os betos são uma classe inferior, nouveau riches, pois eles, pelo contrári,o são sobretudo old money. Mas que, na verdade, são betada da maior, até à medula. Tudo boa gente, educadíssimos, simpatiquíssimos... mas incapazes de uma brejeirice, de um palavrão. Senti-me desterrada. Era só trabalho, trabalho, trabalho... e, caraças, uma seca...

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Convido-vos, pois, a clicar nos links acima. Por vezes, sabe bem revisitar o passado.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Esperança. Alegria

quinta-feira, outubro 24, 2024

Ah que bom poder estar em casa, descansada...

 

Já aqui falei nisso muitas vezes: casei-me com vinte anos. Estudava (ia às aulas, fazia trabalhos, tinha exames) em metade do dia e, na outra metade, dava aulas. 

Depois fui trabalhar para uma empresa. Usava diversos transportes públicos e, numa parte do percurso, uma carrinha da empresa. Saía de casa às sete e picos da manhã e chegava às sete e tal da tarde e, como coincidiu com o inverno, já era de noite. Entretanto engravidei. E ali andava eu. E até aproveitava um dos transportes para fazer rosetas de lã em crochet para fazer mantinhas para o berço. 

Depois nasceu a minha filha. Mudei de local de trabalho mas continuei a usar diversos transportes, aliás ainda mais, pois, antes de ir trabalhar, ia deixar a bebé a casa da minha sogra. E ao fim do dia a mesma coisa. Com ela ao colo, com sacos, em eléctricos, em autocarros. O meu marido estava na altura na Marinha e não conseguia andar ele a levar a nossa filha. Além do mais, eu amamentei-a até tarde. Ou seja, dava-lhe de mamar antes de ir trabalhar e, à tarde, mal chegava a casa da minha sogra, dava-lhe outra vez de mamar.

E logo a seguir engravidei do meu filho e aí levava-o a ele, levava-a a ela ao colégio. Felizmente (felizmente, neste sentido), entretanto o meu marido já estava a trabalhar numa empresa e já conseguia participar nesta logística, aliviando-me um pouco.

Nessa altura comecei a ter muito mais trabalho, com muitas reuniões, indo de vez em quando para fora de Lisboa e, por vezes, para fora do País.

Ou seja, não conseguia ter tempo de qualidade em casa.

Nessa altura os nossos filhos ainda não namoravam nem tinham os seus próprios compromissos, salvo algumas festas de anos ou práticas desportivas. Por isso, tínhamos margem para, ao fim de semana, combinar almoçaradas, picnics e passeios com amigos. E tínhamos também que visitar a família. Nessa altura ainda estavam todos vivos. Por isso, nem ao fim de semana eu conseguia estar calmamente em casa.

Quando vinham as férias, e geralmente nunca conseguíamos ter mais que três semanas, íamos sempre pelo menos uma semana para o Algarve, outra semana íamos passear e lá conseguíamos estar cerca de uma semana em casa para ir à praia por cá. Quando eu pensava o que queria fazer nas férias, o que eu gostaria mesmo era de ficar em casa, Mas, claro, em especial com crianças pequenas ou adolescentes, fazer praia era fundamental. Além disso, também gostava de passear.

E depois arranjámos a casa no campo e, por isso, os fins de semana passaram a ser lá mas era uma logística complicada, carregados de comida e toda a espécie de tralha. E havia obras, andávamos a plantar arvores, a família também ia muito lá.

Depois veio o tempo da velhice e das doenças dos pais de ambos, o que nos exigia visitas, trabalhos, fazer compras e ir lá levar, etc. 

Até ao fim (salvo os tempos do confinamento e do teletrabalho) diariamente saía cedo de casa e chegava ao fim do dia. Horas e horas de trabalho, rematadas e iniciadas com horas de trânsito. 

Quando estava a aproximar-se o tempo de nos reformarmos, o meu maior sonho era poder ficar em casa sossegada. 

Contudo, mal me reformei, tive um problema num joelho que me obrigou a exames e tratamentos, depois veio a Covid e o sono que nos trouxe, depois vieram as crises da minha mãe, estando duas vezes internada, depois veio aquele período em que eu julgava que ela andava constantemente com crises de hipocondria e várias vezes fui com ela para o hospital passando lá a noite inteira à espera. O desfecho foi o que eu não esperava, ao descobrir que, afinal, estava mesmo doente e de forma terminal. 

A seguir veio o calvário de esvaziar a sua casa.

Portanto, só recentemente me vi com disponibilidade para ficar em casa sem encargos, sem afazeres, sem preocupações. De vez em quando sinto que o meu corpo e a minha mente ainda não aprenderam esta nova realidade pois parece que ainda receio que venha alguma má notícia, parece que ainda receio afastar-me muito pois 'pode acontecer alguma coisa'. Mas, finalmente, começo a usar os meus dias para fazer aquilo de que gosto.

Por exemplo, hoje, depois do pequeno almoço, pus-me 'à verão' e fui sentar-me ao sol. Levei um chapéu e um livro. Ouvia os passarinhos enquanto lia. Uma maravilha. Entretanto, o meu marido foi desbastar um bocado de uma sebe para podermos ter mais sol no sítio onde eu estava. 

Depois fomos ao supermercado, ele foi comprar uns jeans e trouxemos o almoço de lá.

Aqui já em casa, almoçámos e fui outra vez sentar-me ao sol a ler. Depois vim para casa, estive a fazer coisas que devia. Mas tudo tranquilamente, na boa, sem pressas, sem stresses. 

Ao fim da tarde, a temperatura amena, a luz muito dourada, os passarinhos a esvoaçarem junto a mim, o cão sentado ao meu lado, pensei que finalmente, ao fim de tanto e tanto tempo, posso usar descansadamente a minha casa.

E é tão bom, tão, tão bom. Sinto-me feliz, agradecida.


terça-feira, setembro 10, 2024

Time out

 

Tive um dia bastante complicado. Nem me apetece falar no assunto pois, sobre ele, pode falar-se de muitas maneiras mas a que mais me convoca remete para o sentido da vida. Mas como não serei a pessoa mais indicada para conversas que visitam o fundo da noite, acho que mais vale abster-me. 

Prefiro descansar, física e emocionalmente, deixar assentar, distrair-me e, então, com algum distanciamento, falar. De qualquer forma, primária como sou, se calhar bastará um par de dias para me sentir mais estável, mas tranquila.

Além disso, mesmo no meio de cansaços, tormentas e desgastes, tendo a ser optimista e, nessa perspectiva, quero convencer-me que hoje dobrei um cabo das tormentas. Não está totalmente dobrado, e com que esforço o dobrei, talvez até esteja ainda um bocado longe disso, não sei, mas quero acreditar que o pior desta fase foi hoje ultrapassado e que o que falta será menos difícil. Quero acreditar nisso. Conforta-me pensar nisso.

Mas tenho sono, praticamente não dormi, durante a noite não tinha sono, e tive que me levantar muito cedo, e todo o dia me esgotou. Por isso, agora não consigo disfarçar, fingir que estou noutra, esparvoar. Preciso é de descansar, de descontrair, de relativizar, de pôr para trás das costas. Sou boa nisso. Por isso, amanhã talvez até já pareça estar fresca.

Portanto, assim sendo, contando com a vossa compreensão, por hoje fico-me por aqui.

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The Parting Glass - Loreena McKennitt

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Dias felizes

terça-feira, agosto 27, 2024

Caro Leitor, não se assuste. Não fuja. Isto não tem que meter medo.
Vou falar, mas muito ao de leve, em Ser mortal

 

Sempre tive pavor da morte. Nunca consegui ver, ao vivo (passe o disparate da expressão neste contexto), nenhum morto.

Há pouco tempo uma amiga contava que, quando a mãe tinha morrido, tinha resolvido que ela iria (ora aqui está outro verbo desajustado neste contexto pois nenhum morto 'vai', quando muito 'levam-no') vestida com uma camisa de dormir branquinha com rendinhas. Depois resolveu mandar fazer uma bandelete com florzinhas para a mãe levar no cabelo. Diz que o pai, quando viu a mãe, disse que ela estava mesmo bonita assim. Perguntei se ela tinha conseguido ver a mãe, Disse que sim, claro. Corajosa.

Também nunca gostei de conversas sobre a morte. 'Ai que mórbido', sempre disse quando o tema deslizava para esse buraco (desculpem o mau gosto da expressão). Fugia a sete pés de conversas sobre doenças terminais, sofrimentos atrozes, estados de quase morte. Parece que tinha medo de ter medo, tinha medo de ficar a pensar no assunto e ficar aterrorizada.

Por isso, morreram-me pai e mãe sem que nunca nenhum de nós tivesse falado em vontades relacionadas com o seu fim. Quer dizer, o meu pai pedia muitas vezes para o deixarmos morrer. Mas ficávamos chocadas, não queríamos que ele dissesse isso, parecia quase coisa de mau gosto (olha que coisa mais estúpida de eu agora dizer). Mas quando ele, coitado, infeliz até à última das suas células, queria que o deixássemos desistir, eu era parva até dizer chega, dizia para ele não dizer isso, dizia que ele estava confortável na sua cama, não tinha dores. Burra, mil vezes burra. Como se estar numa cama (embora sem dores) fosse motivo suficiente para se querer viver.

Mas eu não estava preparada nem fui formatada nem aconselhada nem nada para lidar com uma situação assim. Apegamo-nos à vida daqueles que amamos e não os queremos deixar desistir. Nem paramos para pensar que, com isso, estamos apenas a querer que sofram mais.

Nunca me passou pela cabeça ter uma conversa assim: 'A sua vida vai disto para pior. Por isso, vamos falar francamente. Como gostaria de viver daqui até morrer?'. Nunca. Nunca. Nem teria coragem. Parece que estaria a assumir que admitia que ele fosse morrer. E, assumindo, poderia parecer que estava a desistir. 

Fui muito cobarde. Fingi até ao fim que ele teria razões para estar bem, que não deveria querer desistir. Se calhar, por isso, por me saber frágil, nem ele, nos seus momentos mais lúcidos e deprimidos, foi capaz de me dizer para deixar de ser parva, para cair na real, para assumir de vez que ele era mortal e que merecia poder ter uma palavra sobre como queria viver os seus últimos tempos.

Sobre a minha mãe, ainda foi mais traumático. Estando obviamente moribunda, nunca consegui deixar transparecer que sabia que ela estava por dias, nunca fui capaz de ajudá-la a enfrentar a sua mortalidade. Ela não queria morrer. As enfermeiras diziam que ela chorava e pedia para não a deixarem morrer. Eu ficava transida de medo que ela me pedisse isso a mim pois não saberia o que dizer, seria um sofrimento insuportável para mim pois, deixando que ela percebesse o meu sofrimento, provavelmente fá-la-ia sofrer ainda mais.

Quando a psicóloga da ala dos Cuidados Paliativos me chamou para falarmos, nunca cheguei a perguntar como, perante uma pessoa moribunda, devemos comportar-nos. Eu gostava de ter tido coragem de dizer: 'Vai morrer em breve, mãe. Toda a gente morre. Não é uma fatalidade morrer. Estamos a fazer de tudo para que sofra o menos possível. Não tenha medo, mãe. Não vai custar. Pode ir em paz que eu cá me arranjarei, não se preocupe comigo.' Claro que não tive coragem. Nem de longe nem de perto. O meu comportamento foi o mais oposto disto. Dizia: 'Está com melhor aspecto hoje. Não chore. Já esteve pior, está a melhorar. Tenha esperança'. 

Saía de lá arrasada. Não apenas me era doloroso até ao limite por vê-la assim como vinha atordoada por intuir que a minha cobarde atitude não seria a mais indicada. Ficaria ela mais tranquila se soubesse que eu iria aceitar bem a sua morte? Não sei, não faço ideia.

Já lá vão sete meses que a minha mãe morreu e quatro anos o meu pai. E continuo a achar que a forma como lidei com a sua finitude e com os momentos que precederam a sua morte foi pouco racional, muito dolorosa e que, para eles, não sei se foi a mais adequada ou se queriam também ter agido de outra forma e não o fizeram para me poupar ou porque não venceram os seus próprios medos.

Penso hoje, e penso cada vez mais, que a forma como toda a vida fugi do tema da morte e como fui poupada a isso, não faz sentido. Eu deveria ter estado melhor preparada.

No mês em que a minha esteve internada, às portas da morte, eu vi dezenas de vídeos em que médicos, enfermeiros ou doentes falavam da pré-morte. A minha família achava que eu, ao querer saber mais e mais e mais, estava a auto deprimir-me, corria o risco de ficar passada. Mas não. Estava apenas a querer adquirir algum conhecimento sobre algo para mim totalmente desconhecido. Mas não me serviu de nada. Continuei assustada, sem saber se devia assumir perante a minha mãe que sabia o que se passava ou se devia manter aquela atitude palerma de parecer optimista.

Uma outra coisa em que tenho pensado muito é na fobia e na aversão que a minha mãe tinha a medicamentos. Temia os efeitos secundários, achava que lhe faziam pior do que a doença em si. Por não tomá-los esteve duas vezes internada, o que, curiosamente, ela aceitava bem. Era como se ganhasse uma vida adicional. Pelo contrário ficava deprimida, assustada, aterrada, infeliz quando era convencida a tomar os medicamentos (e não sei se os tomava pois arranjava maneira de nunca ninguém ver). Mas não deveria eu ter respeitado a sua vontade e aceitado pacificamente que a minha mãe não queria tomar medicamentos? Só fico na dúvida pois ela não queria tomá-los porque preferisse morrer. Não. Ela queria viver. Queria era viver sem tomar medicamentos. E isso, em meu entender (e dos médicos), não era possível. Só que nunca houve a coragem de ter uma conversa franca em que num dos pratos da balança estivesse uma decisão consciente de encurtar a vida, embora vivendo a seu gosto, sem medicamentos, e no outro prato a decisão de tomar medicamentos e viver aterrada com os efeitos secundários.

São questões complexas. Ter conversas deste tipo exige preparação, coragem.

De uma maneira ou de outra todos teremos um dia que passar por situações assim ou com pessoas que nos são queridas ou mesmo connosco. Um dia, esperemos que longínquo, seremos nós a estar nas últimas. E, pelo menos pela parte que me toca, gostaria de ter a coragem de falar abertamente nisso com os meus, gostava de poder ajudá-los a enfrentar a situação da melhor forma melhor possível. 

Por exemplo, custa-me pensar que um dia, estando eu ainda lúcida e com vontade de viver, alguém possa decidir por mim que já não posso viver em minha casa, que tenho que ir para um depósito em que os velhos e os incapacitados passam os dias em cadeiras de rodas, a dormir de boca aberta, sem um único propósito de vida. Ou que, perante um cenário complicado, alguém me force a estar acamada, de fraldas, entubada, sem voz activa para coisa alguma.

Ou seja, é um tema que é bom que seja falado, discutido, que deixemos cair os tabus, que sejamos capazes de enfrentar os nossos medos, que conversemos, que troquemos experiências e opiniões.

Finalmente acabei o 'Ser Mortal' de Atul Gawande, médico. É um livro que gostei muito de ler. Fala da sua experiência pessoal e do que tem pensado e estudado sobre o assunto. O livro tem uns anos e os vídeos que aqui partilho também. Contudo parece-me que a realidade é ainda a mesma do que tudo ali se diz.

Dr. Atul Gawande on what we should .be asking in end-of-life care

Dr. Atul Gawande helped transform the conversation about aging and death in his book, "Being Mortal: Medicine and What Matters in the End." The book spent 85 weeks on the New York Times Best Sellers list and is now available in paperback. Dr. Gawande, a surgeon at Brigham and Women's Hospital in Boston, joins "CBS This Morning" to discuss the importance of focusing on how someone wants to live at the end of their life -- not just how to keep them alive.


When Should Dying Patients Stop Treatment? | Being Mortal |

Why is it so hard for doctors to speak openly with their terminally ill patients about death as the end nears? Dr. Atul Gawande, Boston surgeon and author of the best selling book "Being Mortal" had a remarkably candid and intimate conversation with the widower of a deceased patient and apologizes for offering false hope in the end. 

It's the story of Sara Monopoli who was diagnosed with Stage 4 lung cancer during the 9th month of her pregnancy at the age of 34.

Desejo-vos um dia bom
uma vida longa e feliz

quinta-feira, julho 25, 2024

O segredo dos Tsimane

 

Quando tirei as coisas de casa dos meus pais trouxe vários livros de saúde oferecidos por mim. Como envelhecer melhor, como não morrer, como ter um cérebro jovem, como ter um intestino saudável, qual a dieta para chegar saudável aos 100, a importância do exercício físico para uma vida de qualidade. Não garanto que sejam exactamente estes os títulos mas não devem diferir muito.

Eu queria que eles envelhecessem lentamente e bem. Para além de presentes 'normais', nomeadamente livros de ficção ou de crónicas ou outros que eu pensasse de que eles gostariam, em especial a minha mãe que lia muito mais que o meu pai (o meu pai preferia livros de cariz técnico, mesmo que a nível de saúde), eu oferecia-lhes sempre livros com 'receitas' para que vivessem muitos e longos anos. 

Esses livros agora estão na estante da cave e ainda não me apeteceu ir lê-los. Talvez um dia.

Os meus pais eram muito cuidadosos com o que comiam, com o seu estilo de vida. E de facto a minha mãe viveu bem, ágil, até jovial, e aparentemente saudável praticamente até aos 90 anos. E o meu pai também viveu até mais ou menos à mesma idade, embora, no caso dele, tenha tido uns tristes últimos cerca de doze anos. 

Só depois de ele ter tido o AVC quase fatal é que eu soube que ele não tomava regularmente os comprimidos que devia. Julgava ele, segundo a minha mãe depois contou, que por ter uma vida saudável estaria imune a danos maiores. Aliás, nem ele nem a minha mãe alguma vez nos transmitiram que o meu pai corria sérios riscos e que era fundamental seguir a medicação à risca. Sendo responsáveis e conscientes da importância de um conjunto de cuidados, não fazia ideia que ignoravam a necessidade de seguirem a  medicação que os médicos prescreviam.

Isto porque, como tenho contado, com a minha mãe veio a suceder a mesma coisa. A minha mãe era assinante de uma revista médica, lia inúmeros livros sobre saúde e prevenção, ultimamente pesquisava imenso via google, lia todos os livros que tinha. A sua alimentação era cuidada, fazia ginástica, fazia caminhadas. Mas, também no caso dela, não quis saber de medicamentos que, para ela, eram fundamentais, nomeadamente para controlar a hipertensão. Apesar da vida saudável e de comer comida sem sal, tinha sempre tensão alta, devia ser coisa congénita. Não sei se era, se não. O que vim a saber, tarde demais, é que o facto de ter o coração sempre em esforço, provocou-lhe insuficiência cardíaca que depois também acreditou que não precisava de controlar com medicação rigorosa. Claro que, em paralelo, ter-lhe aparecido um cancro que teve um desfecho fulminante só agravou mais a grave situação dos dois últimos dois meses. Mas, no caso do cancro, provavelmente foi uma degeneração celular resultante da idade avançada.

Contudo, embora ainda não me tenha dado para andar a consultar literatura sobre doenças e como preveni-las, sou sensível à necessidade de não comer fritos ou comida puxada, à de não ingerir pouco açúcar, à de dormir bem (conquista recente pois enquanto trabalhei andei permanentemente em défice de sono), e à não ter uma vida muito sedentária. 

Mas por vezes sinto curiosidade em ver vídeos ou ler alguns artigos sobre o que se sabe sobre os hábitos que talvez justifiquem a longevidade de algumas pessoas ou algumas comunidades. De tudo o que tenho lido ou visto penso que há um denominador comum: felizes são as pessoas que se mantêm activas, sentindo-se úteis, autónomas, que têm um propósito (mesmo que o propósito seja cuidar do jardim ou cozinhar), que sentem a vida não como um fardo que carregam mas como uma bênção, que se riem de gosto com elas próprias e com as suas circunstâncias.

O vídeo abaixo é mais um desses vídeos. Não que nos traga grandes novidades mas é interessante. Temos sempre qualquer coisa a aprender com pessoas assim.

Los tsimane, la comunidad de Bolivia donde las personas envejecen más lento | BBC Mundo

BBC Mundo viajó hasta el corazón de la selva amazónica de Bolivia para conocer a los tsimane, uno de los pueblos originarios más remotos del continente que destaca por una particularidad. Las personas acá envejecen más lento que otras poblaciones y sus ancianos gozan de una vitalidad excepcional, según han demostrado varios estudios científicos. ¿Cuál es el secreto de los tsimane? 


Desejo-vos dias felizes

domingo, julho 21, 2024

Paz de espírito

 

Hoje era para ser outra vez dia de festejo mas, porque a covid voltou a atacar a família, a comemoração foi adiada. 

Quer o meu filho quer a minha filha, ao ligarem ao fim do dia, perguntaram o que tínhamos feito. Aparentemente nada e, dito assim, 'nada', temo que dê a ideia de vazio. Ora não. Foi um dia bom, muito agradável, preenchido de bons momentos.

Ao pôr-do-sol, sentada num banco de jardim que pouco tenho usado, a ler um livro de que estou a gostar bastante ('O meu pai voava' da Tânia Ganho), pensei que parece que só agora estou verdadeiramente a desfrutar o prazer de habitar esta casa.

Continuamos com os trabalhos de jardim. Dá ideia que agora que o jardim está, na íntegra, por nossa conta, é que o sentimos como verdadeiramente nosso. Olhamos em volta e há sempre o que fazer. Por exemplo, quando fui abrir a janela do quarto dito 'das meninas' vi um pássaro grande a andar ali em baixo e fiquei feliz, observando-o, mas reparei também que há, por baixo da janela, um arbusto que corta um pouco a luz. Amanhã iremos ajeitá-lo. Reparei também que há guias da glicínia que se estenderam até à armação do balouço e achei isso encantador.

Mas, ao sentir que parece que só agora estou a descobrir o grande prazer de andar aqui pelo jardim, fiquei intrigada pois a verdade é que está a fazer quatro anos que aqui moramos.

Fiz, então, o exercício de descobrir a que se devia isso. 

Não foi difícil. 

O primeiro ano foi o da mudança. Comprámos a casa no início de Agosto e logo de seguida, antes de nos mudarmos, a casa entrou em pinturas. Depois gastámos todas as férias com a mudança. Foi um verão estafante, estafante, estafante. Trabalhava, na altura, em duas empresas, não tinha tempo livre, não conseguia tempo para desfrutar a casa e havia sempre coisas para arrumar.

No ano seguinte, continuava afogada em trabalho, tanto mais que a pessoa com quem dividia a responsabilidade numa das empresas adoeceu, foi operada, depois fez uma bateria de tratamentos. E continuou a trabalhar salvo os dias de internamento ou os dias em que tinha exames médicos ou em que os tratamentos o deitavam abaixo. E, por sua opção, não quis que na empresa se soubesse. Por isso, desdobrei-me até mais não poder para que todos os assuntos dele mais os que eram dos dois continuassem a ser geridos sem que ninguém percebesse o que se passava. Não me sobrava disponibilidade mental para estar em paz a gozar a casa.

No ano seguinte, eu estava com responsabilidades acrescidas numa empresa que estava a atravessar um processo profundo de reestruturação e, no verão, esse meu colega, ao fazer novos exames, recebeu a notícia que mais temia: a doença tinha-se espalhado. Teve que fazer muitos exames, foi-se um bocado abaixo, e, finalmente, teve que se submeter a tratamentos muito agressivos. E continuou a não querer que se soubesse. Eu, que já tinha ideia de deixar de trabalhar, por solidariedade e amizade para com ele adiei os meus planos e desdobrei-me ainda mais, passando por períodos muito complexos, de quase exaustão (e sem querer que ele percebesse pois problemas de mais já ele tinha). 

A acrescer a isso, a minha mãe, por não tomar os medicamentos que devia (sem que eu o soubesse), foi internada pela segunda vez. A seguir, ao ter alta, quis ir para uma residência assistida. Mas foi ainda pior. Regularmente eu ia buscá-la e ia acompanhá-la às consultas de cardiologia e depois levava-a de volta. Foram quatro meses terríveis pois, como não queria tomar os medicamentos, todos os dias ia ao médico da residência com toda a espécie de sintomas na esperança que os médicos suprimissem a medicação a que ela atribuía todos os seus males e, nas consultas de cardiologia, descrevia como andava a passar mal por estar a tomar aqueles medicamentos. Como eu estava com ela, ouvia o que ela dizia, o que as enfermeiras e médicos diziam, desmontava as suas intenções para que se tratasse e percebesse que, se não tomasse os medicamentos, correria risco de vida. Era para ela (e para mim) um pesadelo. 

Todos os dias ela estava como estivesse em estado de emergência. Por fim, só queria voltar para casa. Falava da residência, que era um verdadeiro hotel de luxo, como uma espelunca. Queria ir para casa para não ter quem a controlasse. E voltou mesmo. Mas quase todos os dias tinha sintomas de qualquer coisa em que eu não sabia se era caso de chamar médico a  casa ou levá-la ao hospital. De início eu ia buscá-la e trazia-a para minha casa mas ultimamente já não queria, arranjava mil desculpas. Por vezes lá assumia que tinha medo que os miúdos a contagiassem. Nessa altura, ela já sabia o que estava a miná-la por dentro mas nós não. Pensávamos, na família, que sofria de ansiedade e de hipocondria (em relação a doenças e a efeitos secundários dos medicamentos) e convencemo-la a ter sessões com uma psicóloga mas não descansou enquanto não deixou de ir.

Por isso, esses tempos foram para mim tempos de permanente intranquilidade. Em momento algum eu sentia paz de espírito. No final do ano passado, o seu estado de saúde agravou-se e o desfecho acabou por ser tristemente rápido (se calhar, felizmente rápido) mas, pelas razões de que aqui falei algumas vezes, foi, para mim, um processo traumatizante, angustiante. 

Depois de tantos anos a sofrer o lento declínio da saúde do meu pai e sempre a recear o desfecho que esteve tantas vezes iminente e depois destes tempos de ansiedade e angústia pelo estado da minha mãe, não foi imediatamente que consegui tirar de dentro de mim o estado de ansiedade e medo que vivia permanentemente dentro de mim. Ainda agora, se me falam em ir a algum lado, involuntariamente acontece-me pensar que é melhor não, para não estar longe, não vá acontecer alguma emergência. Só depois me ocorre que esses meus medos já não têm razão de ser. E muitas vezes me vem à cabeça a preocupação em que eu sempre andava sem saber se alguma evolução nos sintomas aconselhava a cuidados médicos imediatos. Só depois penso que já não faz sentido sentir essa preocupação. Nessas alturas, sinto uma grande tristeza ao pensar que é tão estranho que a minha mãe, que tanto gostava de viver, já não exista.

Mas, enfim, aos poucos estou a conseguir assimilar que os meus pais, em especial a minha mãe que era uma presença constante na minha vida (por ser a cuidadora do meu pai e por ultimamente ter sofrido uma alteração tão abrupta na sua maneira de estar que tantas preocupações me trouxe), já cá não estão, já não estão doentes, e que, por isso, já posso viver mais tranquila.

E talvez por isso agora dê por mim a sentir-me admirada por sentir uma paz de espírito tão boa. Estou no jardim, olho para a copa das árvores, olho para o céu, ouço os pássaros, e sabe-me tão bem, tão, tão bem, estar aqui sossegada, a ler, a desfrutar o prazer deste jardim tão bonito, tão tranquilo.

Parece que, finalmente, estou a aproveitar a minha reforma, estes belos dias de ausência de turbulência profissional e em que os meus pais, libertos do seu corpo humano, também estão em paz. 

E isso é muito bom.

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E porque do prazer de estar em casa falo, penso que pode fazer sentido partilhar o vídeo abaixo sobre uma casa muito bonita em Melides, em que se sente que por ali paira uma grande serenidade. A casa tem uma decoração simples e, ao mesmo tempo, requintada, recorrendo a artigos de artesanato, alguns dos quais portugueses.

Inside Carolina Irving’s Coastal Retreat Secluded on Portugal’s West Coast | Design Notes

Carolina Irving welcomes us into her romantic retreat in an unspoilt coastal region of Portugal. When Carolina purchased the property nearly 15 years ago, there was barely one wall left standing from the previous structure. She accepted the challenge, undaunted, and has created a home that is perfectly compact, where nothing is unaccounted for. 

Not simply a weekend pied-à-terre, Carolina’s house had to function as a year-round escape from her home in Paris — for herself, her partner, French documentary producer Bertrand Devaud. Watch the full episode of ‘Design Notes’ as we tour Carolina Irving’s Portuguese home from home.


Desejo-vos um belo dia de domingo