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sexta-feira, março 10, 2023

Depois de um ínfimo e muito cansativo passeio, entretenho-me a ver lugares extraordinários sem ter que sair da gruta em que estou a hibernar

 


Tenho, pois, estado nesta fase de hibernação. Eu sei que há uns abençoados a quem o corona deu de mansinho. A mim, pancada forte, com febre, dores e congestionamento foi coisa de curta duração. Mas o cansaço e o sono têm sido dose. E o que prova que isto tem a ver com a raça do corona e não com a vítima é que, apesar de o meu marido ser muito diferente de mim a todos os níveis, eu e ele temos os mesmos sintomas, sem tirar nem pôr. O cansaço e a falta de olfacto e de sabor são iguais.

Hoje calhou ele ter um assunto a tratar no Boulevard de Alvalade. Como também havia um assunto a tratar num banco e porque já estou que nem posso só de pensar que estou hibernada há dias, resolvi ir com ele. 

Pensei que, se ele se demorasse e eu não aguentasse, iria para o carro, ficaria lá à espera.

Quando me vi ao espelho no carro achei-me estranhamente branca. O meu marido também me estranhou, tão branca e olheirenta. Como ele é muito moreno, nunca está branco e olheirento. Eu estou com aspecto de desenterrada.

Bom. Ele lá foi à sua vida.

Ao ver-me sozinha na rua, senti-me meio zonza, o ar muito branco, parado. E eu a levitar. A pairar. 

Vi um supermercado e resolvi ir comprar bananas. Consumimos duas por dia (uma cada um) pelo que dava jeito reaprovisionar. Quando me vi na rua com um saco de plástico transparente com quilo e pouco de bananas não apenas achei que era pouco estético andar a laurear com um saco de bananas na mão como senti que me cansavam.

Voltei atrás, ao carro, para as depositar. Cheguei lá já cansada. Avaliei se teria energia para voltar ao passeio. Resolvi que sim. Devagar, devagarinho.

Entretanto, comecei a sentir-me com sede. À medida que andava  mais cansada e mais sedenta me sentia. Comecei a ver como resolver. Pensei que se fosse comprar uma garrafa de água se calhar depois ficava cansada por transportá-la.

Resolvi entrar antes numa livraria e comprar dois livros de poesia que tinha em atraso.

Em situações normais, deslizaria pelas estantes, tentada por dúzias de livros. Hoje não. Peguei nos dois pequenos livros, paguei-os e saí, cansada e desidratada. 

Depois vi uma loja de roupa e, na montra, uma blusinha clara em tons róseos e rebuçados. Resolvi entrar. Mas estava com calor, sem energia, abúlica. Pensei que nem pensar em prová-la. Queria era sentar-me e beber um litro de água.

Felizmente ligou-me o meu marido e senti-me como se estivesse a ser salva. Lá regressei ao carro.

Viemos para casa, cansados, cheios de sono. Os dois.

Quando chegámos, nem me mexi. O meu marido entrou em casa para buscar o urso felpudo.

E lá me convenci a fazer um esforço adicional. Fomos os dois dar um pequeno passeio higiénico com o fofo dog de guarda. Coisa pouca, em câmara lenta.

Claro que, antes, tínhamos parado na Frutalmeidas para trazer os incontornáveis pastéis de massa tenra.

Em casa fizemos uma salada e comemo-la com pastéis. Mas estávamos de tal maneira que apenas comemos um, cada um.

E já mal abríamos os olhos. Cansados, perdidos de sono. Uma coisa inexplicável. Não é falta de fôlego, não é falta de ar. É apenas falta de energia. Total falta de energia. 

Há bocado estava aqui a querer ler uma coisa. E outra vez só a deixar-me dormir. É de loucos. 

Resolvi, então, virar-me para o YouTube. O mesmo castigo. Dou por mim de olhos fechados. 

Pareço eu que fiz uma maratona e, portanto, que tenho razão para estar nisto. Mas qual quê...? Qual maratona? Isto deve é ser alguma variante do corona que nos come as pilhas todas. Só pode.

Não conseguindo, pois, fazer passeios por mim, passeio antes por aqui. Lugares fantásticos. A arte e a técnica humanas podem ser quase mágicas. No meio, um lugar português, a incrível Casa do Penedo. A boa arquitectura, mesmo quando popular, mesmo quando ancestral, e, em especial quando é ousada e desafiadora, é do melhor que há. 

Bom passeio!


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Fotografias macro de flores, daqui
Khatia Buniatishvili interpreta, de Rachmaninov, Variation 18 de "Rhapsody on a Theme of Paganini"
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Uma boa sexta-feira
Saúde. Energia. Paz.

quinta-feira, julho 14, 2022

A desmontagem da história da carochinha (ie, da nato e dos nazis) e a explicação de como chegámos até aqui, se calhar ao início de uma diferente maneira de vermos as coisas

 


Na verdade, a canalhice de Putin foi um separar de águas. É pena que tantos mortos, tanta destruição, tanta expatriação, tantas vidas destroçadas tivessem que acontecer para que olhássemos o mundo e uns aos outros de uma outra maneira.

Alguns, avessos à clareza, virão falar das muitas sombras, para as diferentes tonalidades de cinzento. Há quem não queira ver o branco e o preto, apenas os cinzentos.

E depois há os outros, nos quais me incluo, que vêem os cinzentos mas também, e muito claramente, o branco e o preto. Há coisas que são inequívocas. Quem começou a guerra. Quem invadiu outro país. Quem, tendo invadido outro país, o está a destruir. Inequívoco. 

Virão os que gostam de se pôr do lado dos agressores, dos violadores. Dizem que os ucranianos se puseram a jeito: não quiseram ceder território à Rússia, quiseram ter a protecção da Nato, querem ser europeus de pleno direito.

Como se essas razões:

1 - não fossem legítimas (... e são!)

2  - fossem o motivo para que Putin levasse a cabo os crimes (... e não foram)

Pois bem. Todas as evoluções recentes desmontaram essa torpe e cobarde narrativa. A Rússia já veio dizer que não está nem aí para que a a Suécia e a Finlândia entrem para a Nato tal como há muito que deixou cair a história da carochinha nazi. Desde há muito que a Rússia o diz com todas as letras: quer alargar o seu território à Ucrânia, quer refazer-se da desonra da quebra da União Soviética. Desde há muito que Putin o diz à boca cheia: o que a move são os seus ímpetos imperialistas.

E é este ditador, protector de oligarcas, imperialista e criminoso que ainda tem quem o defenda. Podem sentir algum rebuço e, então, disfarçam-se de pacifistas. Mas, ainda assim mostram-se como pacifistas tendenciosos pois, para que haja paz, não defendem que Putin pare a guerra que começou. Não, querem que o povo ucraniano se renda, capitule, aceite ser russo. 

Contudo, no meio da desgraça podem vislumbrar-se alguns aspectos positivos. 

Fica mais claro quem defende a liberdade, a democracia, o respeito pelo direito internacional e quem, pelo contrário, defende tiranos, ditadores, corruptos, dementes, mentirosos, atrasos de vida.

Fica mais claro quem defende a paz. A paz baseada no respeito pela liberdade, pela democracia. Fica mais claro como a Europa é um conceito e um lugar de liberdade, de democracia.

A Europa tem defeitos? Tem. E tem, por isso, um longo caminho de melhorias a conquistar. 

A Europa fica fortalecida com a barbárie de Putin.

Fica também claro que é importante que os estados livres e democráticos tenham meios efectivos para se defenderem de intuitos criminosos e, claro, não apenas de intuitos mas, sobretudo, de actos criminosos.

Há a China, há a Índia? Claro que sim e de que maneira. Alguém ignora a relevância destes pesos pesados? Claro que não. Mas a forma como as peças agora se jogam no grande tabuleiro da geopolítica agora é outra. E cada vez o será mais.

O vídeo que aqui partilho é, em minha opinião, bastante bem feito, muito claro. Ian Bremmer fala sobre o assunto em mais um vídeo da Big Thing. 

How Russia’s war in Ukraine is birthing a new global order | Ian Bremmer

“This is much deeper than just ‘let’s figure out how we can get both sides to get along.’”


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As pinturas não têm nada a ver com nada. Escolhi-as apenas porque sim. São da autoria de Lee Jung Seob.

Sheku Kanneh-Mason interpreta Elégie, Rachmaninov

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Abertura de espírito. Paz.

segunda-feira, setembro 21, 2020

Uma mulher poderosa encanta-me no dobrar de mais um dia em que tentei (mas não consegui) esfolar um rabo que está pendente e que não se compadece com as minhas beautiful flowers

 




Tenho cada vez mais para mim que se todos nós, colectivamente, fizermos um esforço para não perdermos tempo com tretas como as lágrimas do populista-achegado ou com outros pseudo-eventos ou com outras pseudo-pessoas-importantes mais depressa essa gentinha perderia protagonismo e melhor saúde mental todos teríamos. 

Cheguei aqui, agora, e todas as notícias internas me parecem treta. Pura treta. Não estou nem aí.

Mas, reconheço, também pode ser porque dias como o de hoje me deixam a deitar por fora.


Apesar de não ser nada de novo ou interessante, conto porque é que o meu dia me foi tão sobrecarregado: as idas à outra casa (eu para separar roupas para dar, outras para o lixo, outras para trazer, o meu marido com selecção de papeladas, projectos de arquitectura transactos, dossiers e dossiers de trabalhos em versões anteriores à definitiva, coisas assim) esgotam-me. Horas. Sacos e sacos e sacos. O meu marido também exausto. Tudo o que é trabalho pesado sobra para ele: carrega com sacalhões pesadíssimos, uns para os contentores da rua, outros para o carro. 

Mas, enfim, pelo menos já trouxe os meus casacos de malha, os meus blasers, as minhas calças. É que a prioridade tinham sido louças, coisas de cozinha, livros, bibelots, candeeiros, móveis essenciais. De roupa tinha trazido sobretudo a de verão, que era o que fazia falta. Mas o outono já aí está e eu já andava sem saber bem o que vestir. Mesmo aqui em casa, quando anoitece e esfria, eu olhava para o guarda-roupa sem saber bem a que deitar mão. E esta semana tenho compromissos presenciais que me exigem que as minhas toilettes anteriores saiam à cena. 

E depois há alguns fatos completos de que, embora já me estejam à justa, não quero desistir assim tão facilmente. Aquele elegantésimo e superlativo fato Armani que foi presente do meu marido, que conseguiu acertar com o meu tamanho e que, ousando à grande, sem que eu tivesse minimamente suspeitado de tal ousadia, conseguiu que me assentasse como uma luva -- esse tive que trazer, claro. Ou aqueloutro que comprei em Madrid depois de ter percorrido os costureiros da Serrano e de me ter posto nas mãos de uma bicha fantastique que adivinhava todos os meus gostos -- que conjunto mais lindo, aquele - quando fui a um casamento de sonho em Seteais, esse também teve que vir. Peças assim, intemporais. Não gosto de coisas tchanan...!, gaiteiras, espaventosas, datadas. Prefiro peças que não passam de moda. Ou seja, dessas, apesar de já me caberem à justa, não ia desfazer-me. E quem sabe, um dia destes, alguma das meninas da família não precisa de alguma destas fatiotas para uma ocasião especial?

No fim, quando já não aguentávamos mais -- cansados, desidratados, saturados -- e enquanto o meu marido andava abaixo e acima, ainda varri, passei com a esfregona, garanti que as casas de banho estavam impecáveis, que as luzes estavam apagadas. Fechei a porta e vim. Aquela casa, que era a minha casa de sonho até há pouco tempo, agora já pouco me diz. Quando viro as costas e fecho a porta, o que fica para trás é passado. Apesar de gostar de visitar as minhas memórias, a verdade é que parece que sou toda feita de futuro.

Como já era tarde, encomendámos uma pizza e, a caminho da casa nova, fomos buscá-la, a pizzaria já a fechar. 

Depois foi aquela frustração: o hall e o corredor da casa nova uma vez mais atafulhados de sacos, mais coisas para arrumar, eu já sem saber como distribuir as coisas. Na cozinha, algumas peças sem caberem onde faria mais sentido e, claro, a impaciência a ir ganhando terreno. Cansaço e fome à mistura é do pior que há.

Enquanto a pizza foi apanhar um aperto no forno, nós fomos tomar banho. E, com isto tudo, acabámos a almoçar às cinco da tarde. 

Não vejo a hora de esvaziar os armários todos, de trazer tudo e deixar a outra casa finalmente vazia para poder usufruir de tempos livres sem ter a necessidade de os anular, sempre a tratar de tudo o que há sempre para tratar. Até porque, quando for vendida, não pode lá ficar nada. O meu filho que, quando saíu de casa, não tece paciência para levar nada nem escolher o que era de guardar ou deitar fora, continua sem paciência para se atirar a isso. Dossiers da faculdade, livros, coisas de computador, sei lá o que para lá ainda há. Hoje, ao abrir gavetas do quarto da minha filha, dei com roupa interior dela. Não a deitou fora e eu não gosto de deitar fora coisas que não são minhas. Hoje aproveitei algumas peças. O resto, que estava ainda em bom estado, pus num saco também para dar. 

Na verdade a casa parece quase vazia mas, na verdade também, ainda com coisas que não acabam.

Bem.

Ah, e fiz o jantar em dose XL para dar para o almoço também de amanhã. 

E, finalmente, quando o sol estava de fugida, ainda fui para a espreguiçadeira ler mais um pouco. Uma bênção. Uma meia hora de descanso e bem-aventurança. 

Depois fiz telefonemas enquanto passeava para trás e para a frente no jardim, fotografando as flores que me trazem apaixonada. Tão lindas, tão perfeitas. Divindades silenciosas.

Mas tudo o que é bom não pode ser em grandes doses pelo que, de seguida, tive que entrar em casa para passar a ferro e sei lá mais o quê.

Portanto, como é óbvio, com este programa de festas, não quero cá saber de minudências e banalidades. E, assim sendo, para aqui tenho estado a ouvir música. Música poderosa, intérpretes poderosos. Em especial uma mulher poderosa. Poderosa em todos os sentidos. A destemida Yuja Wang mostra como se atira a tudo com uma energia que contagia. Mulheres poderosas e, ainda por elegantes e femininas, são uma graça. E um perigo.


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E nada mais a declarar. 

Quando voltei ao jardim já a noite vinha descendo. Lá em cima, entre o piar discreto das aves nocturnas, uma nesga de lua. Fotografei-a. Ainda não tinha reparado na lua desde que aqui vivo. Gostei. É uma boa companhia, boa como todas as companhias que são cheias de subtilezas.


Desejo-vos uma boa semana, com muitos momentos bons, com boas notícias. 
E que a saúde e a boa sorte vos acompanhem.

segunda-feira, janeiro 21, 2019

In heaven a natureza começa a florescer. E eu com ela.




Dividida entre fazer o tapete ou falar do meu mundo, opto por voltar a entrar no meu heaven. Estou a rever o que já antes tinha visto, o documentário que mostra a paixão de Judi Dench por árvores. Uma coisa fascinante. 

Cheguei no sábado já era noite. Tínhamos estado a passear à beira rio enquanto os miúdos estavam no Pavilhão do Conhecimento. Depois fomos lanchar com eles, demorámo-nos, conversámos, matei saudades e, de lá, seguimos para o campo.

Tinha estado a chover.  Estava frio, uma noite de inverno.


Enquanto o meu marido andou a levar pedaços de madeira para a salamandra, andei a fotografar as laranjas lavadas pela chuva, as flores do vaso que está à porta despontando, um rosa viçoso no escuro da noite, um escuro iluminado por um intenso luar branco.


Depois, já ele tinha acabado, chamou-me, estava frio, não eram horas de andar  ali na rua, às escuras. Não gosta de chegar de noite. E eu, lembrando-me, do bicho misterioso que por lá tinha andado, concordei que era melhor recolher-me.

Este domingo acordei tarde. Não há lugar no mundo onde durma tão bem. Parece que o meu corpo percebe que aqui, em dias assim, não tenho horários nem compromissos, estou por minha conta.

Quando estava a tomar o meu frutado pequeno almoço, chegou o meu marido. Madruga, ele. Anda pelos caminhos silenciosos da manhã, vê o levantar do dia, vê o orvalho, vê as cores lindas da natureza. Diz sempre que não sei o que perco.  Não sei mas acho que sou capaz de adivinhar. Desta vez, como era bem tarde, depois do seu passeio, já tinha andado de volta das árvores com aquelas ferramentas que o meu filho lhe ofereceu pelo Natal e que o traz viciado. É ele que diz: esta coisa é viciante. Vinha com um serrote telescópico. pode serrar troncos que estão nas alturas.

Logo de seguida fui eu que fui passear. Devia dizer caminhar pois devia ter caminhado, andado apressadamente, compenetrada no acto de caminhar. Mas sou uma diletante. Parece que não consigo concentrar-me nos deveres quando tenho tentações a chamar por mim. E tudo aqui me tenta.


Um ninho aconchegado entre dois ramos. Há coisa mais bonita do que um ninho? Quanto trabalho ali está. Tão perfeito. Gostava de um dia conseguir ter tempo para ficar sentada num canto, imóvel, a observar estes pequenos seres que aqui habitam e que tanto se atarefam nas suas obrigações. Fazer uma casinha para porem os seus ovinhos, para nascerem os seus filhotinhos.

Continuo nas minhas observações vagarosas, atentas, à procura de mais casotinhas, de mais grutas, de novidades.

Não encontrei dois buracos na rocha, penso que já estão tapados pois a vegetação cresce vigorosamente. Até que descobri um. Intrigam-me. Um dia ainda arranjo uma câmara pequenina e enfio-a lá para dentro.


No outro dia os meninos levaram os troncos que resultaram do pinheiro grande que tombou e que eu tinha em volta da  árvore que dá flores amarelas e de que agora não recordo o nome para junto do murinho verde. O ano passado já se tinha enchido de folhos vaporosos. Este ano está outra vez assim, engalanado, vistoso. O meu pinheiro reinventa-se, vivo, metamorfoseado.

Se calhar estas asas macias e quase douradas estão a querer decompor a madeira. Não faz mal. A transformação é, em si, uma forma de viver.


Mais à frente, umas coisinhas nunca antes vista. Ando mil vezes por aqui e mil vezes estas coisinhas por aqui devem ter estado e nunca antes tinha visto. Cega ao que desconheço, cega em relação ao que não procuro.

Agora como ando à espreita, baixo-me, aproximo-me, quase um gata vagarosa. Penso que sejam cogumelos. O que ainda resta deles. Quando digo que numa semana estáo lá, na semana seguinte desapareceram, se calhar se olhar melhor verei sempre isto. Mas nunca antes tinha visto. E isto encanta-me muito, esta permanente sucessão de surpresas. Esta terra é uma caixinha de surpresas. Uma arca do tesouro, de mil jóias, mil mil mil, muitas mil maravilhosas jóias.


E depois, mais à frente, uma borboleta dourada pousada entre a caruma. Aproximei-me. Talvez não uma borboleta, talvez uma folha caída, uma sobrevivente do outono.

Mas não. Um belo cogumelo alado, pequeno, ali isolado, tão frágil, tão bonito, um pé fininho, tão desprotegido. Mas talvez aqui tudo se proteja entre si. Que sei eu do que aqui se passa?


Entretanto, outra novidade. À saída gruta grande, pegadas fundas. Deve fazer força nas patas para subir. E agora estão por todo o lado, até cá em cima, até no largo da capela. No musgo fofo, muito visíveis. Pegas grandes, fundas. A terra revolvida. Procura raízes, procura o quê? 

De que tamanho é, onde vive? De noite está na gruta? Vive sozinho? Como foi lá para dentro?

Hoje reparei como uma reentrância de uma rocha havia água, ainda bastante água. Se calhar é ali que bebe água. Não assustará os coelhinhos? Os gatinhos? Só andará por ali de noite? 

Tantas pegadas intrigam-me. 


Entretanto, o alecrim, o rosmaninho, o alfazema estão a despontar. As florzinhas cheirosas e perfeitas começam a aparecer. Adoro-as como outros adoram santos, anjos, deuses. Adoro-as porque são simples, pacíficas, belas. incrivelmente perfeitas na sua inexplicável espontaneidade. Adoro-as porque me sinto feliz quando estou perto, quando as olho, quando as cheiro, quando as toco.

Tenho vontade de as apanhar para as ter comigo durante a semana, quando não há natureza perto de mim, apenas a memória de quando por aqui ando. Mas não. Deixo-as ficar, intactas, intactas na sua inocência.


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A todos quantos por aqui me acompanham desejo uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

Be happy.

segunda-feira, outubro 22, 2018

Cenas da vida, a minha e a de toda a gente, casamentos à primeira vista e à vista de todos e, com vossa licença, um novo passeio in heaven com direito a reportagem vídeo.




Ora bem. O dia foi talvez um pouco atípico e com uma componente inicial de tristeza. Vão partindo aqueles que amamos e que, de alguma forma e, pelo menos em alguns momentos, foram uma presença importante na sua vida. Mas vão chegando novos seres e a nossa família é cada vez mais os que viverão muito para além de nós do que os que chegaram antes de nós. E isto significa que estamos a aproximar-nos da linha da frente. Quando a última das minhas avós morreu, uma amiga da minha mãe abraçou-a e disse isso: 'Agora já somos nós que estamos na linha da frente'. Fez-me impressão isso. No outro dia a minha mãe contou-me que essa sua amiga tinha morrido. Diz-se nestas circunstâncias: é a lei da vida. E é. As gerações vão dando a vez às gerações mais novas.

E eu, talvez porque essa consciência está sempre presente, dou, cada vez mais, mais valor à vida.

Enfim.

Mas a tarde foi descansada. Até dormi um pouco. (Era bom que todos os dias pudesse dormir um bocadinho à tarde. Penso que seria o regime mais adequado ao meu biorritmo).


Agora, depois de afazeres diversos, arrumações, montagem de uma mini-estante para arrumação de brinquedos dos meninos e outras coisas, elas sim, muito típicas na vida doméstica, eis que estou aqui na sala enquanto na televisão passa o primeiro programa do Casados à Primeira Vista.

A minha mãe tinha-me já falado deste programa que se passa noutro país qualquer e que ela costuma ver não sei em que canal, talvez na Sic Mulher. Como não costuma ser de gostos fáceis mas acha graça a este, deixou-me, a mim, curiosa. E, de facto, o programa tem graça. Comecei a pensar que era uma parvoíce e que tinha tudo para ser uma foleirada, cheia de gente esquisita para, ao fim de algum tempo, estar a achar que é preciso coragem para uma pessoa se meter nisto, assumindo publicamente que precisa de ajuda para encontrar um parceiro (que precisa ou que, vá, não rejeita). Faz-me um bocado impressão as pessoas exporem a sua vida a ponto de se casarem perante as câmaras de televisão (e, do que vi no final -- porque, entretanto, já acabou -- também a lua de mel) mas, do que percebi por esta amostra, a coisa passa-se com decoro e sem grandes apelos ao choradinho, pelo que vou dar um bocadinho de benefício da dúvida. Acho que isto já é fruto de tantos anos de reality shows: mesmo que a gente não veja e rejeite liminarmente este tipo de exposição, acaba por já não se escandalizar perante um programa destes.

Mas achei graça à forma como as famílias e os amigos aceitam tão bem uma decisão tão arrojada como esta de alguém se atirar nos braços de um perfeito/a desconhecido/a. E achei graça à forma como aparentemente os pares deste primeiro programa parecem acasalar tão bem. Assim como acho que é preciso nem sei bem o quê -- também coragem? -- para uma pessoa acreditar assim na presciência alheia a ponto de deixar que decidam o seu destino. 


O casal de cinquentões do Porto, então, pareceu-me, a todos os títulos, perfeito. De tal maneira que até os respectivos amigos parecem também feitos uns para os outros. E as famílias também. Tudo parece feito de propósito para se completar -- ou seja, tudo muito inteligentemente escolhido.

Mas os outros casais, do que se viu, também. O surfista e a sua noiva sonhadora e emotiva, o camionista e a sua poderosa instrutora de ginástica. Tudo ali parece encaixar às mil maravilhas. Tem graça, isso.

Até comuniquei ao meu marido que se calhar vou também candidatar-me a ver se arranjo algum melhor que ele. Parece-me uma boa ideia, na volta com resultados inacreditáveis. Não reagiu. 

Mas vou aqui cometer uma indiscrição: ele odeia este género de programas, não condescende, não facilita, aborrece-o até que eu tenha curiosidade. Pois bem, esteve aqui calmamente, sem tentar mudar de canal e, em especial quando o antiquário do Porto chegou à sala e se submeteu ao divertido exame das extraordinárias amigas da noiva, até se riu (em particular quando uma delas, entusiasmada com o charme do noivo, se esqueceu da situação e lhe perguntou se era casado).

Bem.

Neste momento estou a ver na RTP 2 uma bela pianada. Distraí-me e não vi que peça está Elisabeth Leonskaja a tocar. Tão bom. Vou pô-la aqui a tocar para nós.

Agora com esta conversa e a verdade é que estou aqui a pensar que deveria era ir rever a apresentação que amanhã vou fazer e deveria também preparar-me para uma investida que pretendo fazer; mas estou sem disposição porque há situações que prefiro que aconteçam sem preparação, em que preciso da adrenalina da espontaneidade e do acaso. Tenho isto: no que é relevante para mim não deixo que a perfeição de uma performance bem ensaiada diminua o nervosismo de que preciso para sentir que estou a atirar-me às cegas para o meu destino. (Não sei se já vos tinha confessado que não sou boa da cabeça)

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Entretanto, no pouco tempo que ontem tive para estar descansada da vida, in heaven, andei por lá cirandando, respirando o ar cheiroso, ouvindo a música da aragem e dos pássaros e, imagine-se o dispautério, outra vez a filmar. Esforcei-me por, desta vez, não fazer o pino com a máquina para mostrar a altura das árvores, tentei não deslizar rapidamente demais as imagens para não causar tontura e tentei falar mais alto para não parecer que estou a dizer segredinhos ao vosso ouvido. Contudo, como poderão comprovar, não fui lá muito bem sucedida.

Fiz este que aqui partilho e fiz mais uns quantos mas só mais um é que tem um mínimo de préstimo pois em dois ouve-se a roçadora de um vizinho do lado de lá e que, apesar de relativamente longe, naquele silêncio, parece que é ao lado e noutros não sei como manejei a máquina que apareço reflectida nos azulejos, perfeitamente identificável. Portanto, a menos que amanhã ou depois consiga mesmo repescar o outro, a faena não foi famosa.

Bom, chega de desculpa. Bora lá a uma caminhadazinha.

Terceiro passeio in heaven com a Sta UJM


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Conselho: nada de descer até ao fake post que se segue, Rui Rio contrata Cristina Ferreira para Ministra da Cultura do seu Governo sombra. Aquilo ali é tudo mentira.

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Um fim de semana simples, recheado de pequenos prazeres




Dias bons, quase tranquilos. Campo, família, descanso, concerto à noite, passeio, algumas obrigações, alguns tpc a contragosto ainda por fazer e, imagine-se, até o Expresso. Saber que tinha que ir no carro sem livro para ler deu-me vontade de transgredir. Na estação de serviço lá aconteceu. Pequei. 

Foi mais pelo Lobo Antunes. Mas, como seria expectável, nada de novo. Anda há mil anos a dar entrevistas e a dizer a mesma coisa. As vezes que eu já li que um esquizofrénico, lá no hospital, foi ter com ele e lhe disse que o mundo começou a ser feito por trás. E narcisista que só ele. Para além disso, continua numa de ciumeira do Saramago que já não faz qualquer sentido. Engraçado e novidade foi saber que há um outro, tão maluco como ele, um americano, que está a estudá-lo e que, para tal, passa os dias a olhar para ele. Não falam. Depois vão almoçar juntos. E lê as folhinhas maradas que ele escreve. Um filme. Também novidade (pelo menos para mim), mas esta desagradável, ele ter tido mais dois cancros nos pulmões nos últimos três anos. Ainda por cima, continua a fumar.


Depois, o campo. Húmido, quase a sentir-se o vapor a sair da terra. Musgos, folhagens, cogumelos. O alecrim florido, delicado, tão bonito. Algumas árvores a começarem a querer despontar. A natureza, fêmea fértil. Sempre uma pena não poder estar aqui, acolhida, junto às árvores e aos bichos. Estou tão pouco tempo aqui. Tanto tempo perdido no trânsito e noutras coisas em que nem vale a pena falar e tão pouco num lugar onde me sinto sempre tão bem. 

De resto, bom, bom mesmo foi ter estado a ler ao pé do calorzinho bom da salamandra. Tão bom aquele calor tão orgânico, aquela luz quente e perfumada da madeira. Chá quente, lúcia-lima. Podia ter pegado num dos livros de lá mas estava mesmo para ler a revista do Expresso. Estava curiosa de rever a opinião de algumas vacas sagradas. E também a opinião a propósito de uma vaca sagrada. Refiro-me ao Paul Auster. Livro novo, 870 páginas. '4321'.
Por vezes -- já para não dizer muitas vezes -- sinto-me desalinhada dos bem pensantes. Confirmo, nessas alturas que não tenho vocação para intelectual e, nessas alturas, interrogo-me sobre que componente da inteligência me faltará. Inteligência lógica e racional, acho que tenho qb, inteligência emocional, também acredito que chega. Mas falho, certamente, em alguma que é determinante. Reportando-me ao artigo 'Veja aQI se é mesmo inteligente' de Isabel Leiria, e vendo a quantidade de inteligências identificadas, estou capaz de apostar que falho na existencial.

Toda a gente gosta de Paul Auster. De cada vez que sai um livro, é uma festa. A Luciana Leiderfarb diz maravilhas (o link é para uma entrevista, não para a referida recensão). E, no entanto, eu não apenas não vou comprar o livro como não vou sentir falta. E isto de certeza absoluta. Se nunca achei grande graça aos outros e raros foram os que consegui acabar dos mais pequenos, imagine-se se ia massacrar-me com um pesadelo daqueles nas mãos. Acho uma escrita banal, parece que não acrescenta nada, parece que não tem sentido estético na escrita. Não sei. Há ali uma falta de elegância ou falta de originalidade. Não sei dizer, não sou crítica literária. Antes eu ainda me dava para tentar ler os produtos das vacas sagradas. Agora já não. Tudo o que me cheire a seca, fica de lado.


Em contrapartida, uma boa notícia: livro de Raduan Nassar. Não é novo na raiz: é novo cá. Menina a caminho. Gosto da escrita dele. Há ali o prazer das palavras, a inteligência de quem sabe confeccionar uma história com pouco condimento. Gosto.


No jornal principal ainda não peguei, não tive tempo nem curiosidade. No da economia muito menos. A ver se folheio não vá saltar de lá alguma coisa que valha a pena. 

Às vezes penso que se eu fizesse um jornal não era nada disto. nada, nada, nada. Mas se calhar penso assim porque sou de outro tempo e tenho falhas na inteligência. 
Ao almoço, no restaurante, o meu marido viu-me a espreitar o telemóvel. Não me censurou apenas por pudor. Interrogou-me. Expliquei-lhe que a diferença nisto é que eu sou uma millennial e ele um baby boomer. Não tenho culpa mas é o que é. Mas, vá lá, riu-se e acho que, agora que sabe a explicação, vai passar a perceber melhor os meus hábitos. 
Adiante. Também bom, à noite, antes de ir para o concerto, passar pela gelataria na avenida de Roma e comer um belo gelado de chocolate fondant. Que bom estes pequenos prazeres. Um gelado numa noite fria e molhada é do melhor que há.

Depois o concerto da União das Tribos (ver post já abaixo). Uma energia fantástica, uma força contagiante. No fim todos a cantarem de pé, banda e público. Muito bom. Os senadores (Tim, António Manuel Ribeiro, etc) apadrinharam, no palco, esta nova banda que arranca com uma empatia com o público que só pode ser um excelente augúrio.


Este domingo fomos às compras com dois dos meninos. O mais pequenino claro que ficou em casa com os pais, come e dorme e, de vez em quando, olha o que o rodeia com algum espanto. Anda de colo em colo como um bonequinho fofo.

(Sobre esta ida às compras talvez escreva post autónomo. Logo vejo.)

Ainda tenho alguns compromissos e trabalhos para fazer (por exemplo, tenho que, em casa dos meus pais, conferir com a minha mãe as facturas deles no e-factura, e, de volta a casa, tenho que fazer um relatório e ainda uma apresentação) e, ainda, sopa e um estufado, e pôr a roupa a lavar e etc. E está tudo bem e em paz. E, cá para mim, a vida não tem que ter muito mais que isto para uma pessoa se sentir bem. Mas, lá está, capaz de ser aquela tal falta de algumas componentes da inteligência.


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E um filme que me agrada.


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Fotografias feitas in heaven.

A música lá em cima mostra Alisa Weilerstein and Barnatan interpretando Rachmaninov - Sonata for Cello and Piano in G Minor

O vídeo já aqui acima é Temptations de Mohammed Elnabarawy

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