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segunda-feira, abril 27, 2026

Cartas de amor

 

Provavelmente só as pessoas até à minha geração conhecem a experiência de receber cartas de amor. Ou escrevê-las. Em papel, enviadas pelo correio.

Como sempre adorei escrever, onde eu ia arranjava alguém com quem me corresponder. 

Ia acampar com miúdos de outros liceus, e era uma festa, dias longe de casa, numa quinta. E, vinha de lá, com um monte de nomes e moradas e, depois, escrevia cartas e cartas e ficava numa expectativa à espera que o carteiro trouxesse envelopes gordos, cheios de novidades, de pensamentos, de dúvidas. 

Conheci uma inglesa na praia, mergulhámos, sorri para ela, começámos a conversar, o meu pai ensinou-a a nadar e, durante anos, através de uma muito assídua correspondência, conheci  realidade de uma adolescente que vivia uma vida diametralmente oposta à minha. A liberdade inglesa contrastava com o moralismo da fechada e cinzenta sociedade portuguesa. Espantava-me com tudo o que ela me contava. E trocávamos fotografias. Era uma realidade que me chegava de um outro mundo.

Depois conheci um rapaz de um liceu do Porto. Uma inteligência incomum. Correspondemo-nos durante muito tempo, creio que já andava na universidade. Tão diferente de todos os demais. Hoje, um ilustre catedrático. 

Em Angola, um amigo especial, inseparáveis durante um mês. Vivências muito diferentes, eu com dezassete acabados de fazer, ele já com dezanove, a meus olhos, um homem feito. Uma história que me marcou. E, depois, as cartas dele, cheias de ironia e de provocação. Tentava desinstalar-me, coisa que eu sempre apreciei. Uma só a descobri quando estava a esvaziar a escrivaninha da sala da minha mãe.

E depois um outro rapaz irlandês. Pelas fotografias via que era gigante, cabelos compridos. Um outro mundo, tempos de grandes conflitos, ele com uma consciência política muito à frente da minha, uma revelação. Abriu-me horizontes.

E um rapaz africano que muitas vezes não sabia se as suas cartas conseguiriam chegar até mim, que tinha que percorrer uma longa distância para receber as minhas. Aí a vivência não era apenas muito diferente, nem era por ser um outro continente, era, mesmo, como se fosse outro planeta. As dificuldades pelas quais passava eram imensas e, sobretudo, havia conflitos e tinha muito medo que o matassem. Eu recebia as suas cartas com inquietação mas ainda maior inquietação sentia quando passava muito tempo e não chegava carta dele. Depois lá chegava e eu ficava toda feliz. Até que, por fim, as cartas dele deixaram de chegar.

E, depois, as cartas de amor. Tenho um saco cheio delas. Deixei-as ficar em casa dos meus pais. Também as recuperei quando há cerca de dois anos as encontrei na mesma gaveta em que as deixei. Não fui capaz de as reler. Eram dirigidas a uma que já não sou. Contudo, sei que eram cartas bonitas, muito bem escritas. Tinham sempre várias folhas, e eu, sobretudo, gostava de ler. Não era tanto o amor, era mais o prazer de ler, em especial por serem bem escritas. E eu retribuía e sei, honestamente falando, que mais do que o sentimento, era o prazer da escrita, o prazer de desbravar caminhos através das palavras.

Encontrei também as cartas que o meu pai enviou à minha mãe enquanto fez a tropa, em Abrantes.

E encontrei a carta que o meu avô materno dirigiu à minha avó, para se declarar.

São palavras que sobrevivem e que são testemunhos não apenas de sentimentos mas, também, de uma época.

Mensagens escritas no telemóvel esvaem-se, não ficam para o futuro. Cartas são cartas, são eternas. Não sou saudosista, não há muitas coisas das quais tenha saudades mas das cartas tenho. 

Talvez por isso, goste tanto de ouvir ler cartas, em especial cartas de amor. E, se forem ditas por quem tem uma voz feita para dizer palavras, ainda melhor.

Benedict Cumberbatch lê uma bela carta de amor

Gerald Durrell e Lee McGeorge conheceram-se em 1977, quando Durrell — já naturalista e escritor de renome — dava uma palestra na Universidade de Duke, onde ela estudava comportamento animal. Tornaram-se amigos íntimos rapidamente e, em dois anos, casaram. Em 1978, pouco depois de se terem conhecido, Durrell escreveu-lhe uma carta.

Benedict Cumberbatch leu esta bonita carta para terminar o nosso espetáculo especial do Dia da Terra no Royal Albert Hall, em abril de 2026.

O espetáculo foi realizado em parceria com a Vivobarefoot e em apoio à Greenpeace.


Desejo-vos uma boa semana

terça-feira, setembro 14, 2021

Quando um estranho confessa o seu amor através de uma carta...

 


De vez em quando o algoritmo do YouTube sugere-me os vídeos de Thoraya Maronesy, uma jovem simpática que consegue a proeza de arrancar os mais sentidos e secretos testemunhos a estranhos que se cruzam com ela nos jardins em que monta arraiais com o seu equipamento.

Já algumas vezes aqui tive Thoraya. Esta coisa de alguém, quando instado a isso, ser capaz de contar os segredos mais intensos ao mundo, surpreende-me. E o facto de parecer que toda a gente guarda um segredo pronto a ser divulgado parece-me extraordinário.

No outro dia contei como, por vezes, pessoas desconhecidas se acercavam de mim e, sem preâmbulos ou justificação, me contavam assuntos muito seus, íntimos, aflições. A mim nunca me aconteceu isso: ter vontade de desabafar junto de estranhos. Pode parecer que não mas a verdade é que sou demasiada reservada para isso. 

Em contrapartida, perante os que me são mais próximos não guardo segredos. Falo abertamente e, se calhar, até um bocado desabridamente, do que penso. 

Em momentos em que alguns rodeios ou meias palavras seriam aconselháveis eu falho: digo o que penso sem delongas. Nisso como em tudo na vida acho que é um disparate perder tempo ou persistir em caminhos errados -- e não consigo dizê-lo de outra maneira. Se alguma coisa me preocupa, não está na minha natureza escondê-lo. Verbalizo-o abertamente. Por isso, intriga-me a capacidade que algumas pessoas têm para esconder o que pensam, o que sentem, o que querem. Pensarão que têm duas vidas? Esta para ser desperdiçada e outra, então, para compensar o tempo perdido na primeira? Não percebo. 

Imagino-me a ir um dia num parque e a ser abordada por uma qualquer Thoraya desta vida. Não gosto de virar as costas a um desafio, muito menos a um tão engraçado e, ainda por cima, conduzido por uma pessoa tão simpática. Mas, mesmo que quisesse corresponder, de que segredo poderia eu falar? 

Mas o desafio desta vez é outro e é ainda mais tentador: escrever uma carta a alguém que se ame ou amou. E a este desafio eu não viraria costas. 

Gosto de cartas de amor. Já o disse: prefiro recebê-las. Mas, se tiver que escrever uma, escrevo. 

Aliás, aqui, vendo bem, quantas vezes já as escrevi? Se me desse ao trabalho de reuni-las, obteria um livro inteiro de declarações de amor. 

Aquilo de que não tenho experiência é de escrever cartas de amor, ou melhor, declarações de amor, a quem não me ame. Não me lembro de alguma vez ter gostado de alguém que não gostava de mim. Acho que não é mérito: é pragmatismo. Lá está: aversão a perder tempo. Também não me lembro de esconder o meu amor, mesmo no início. Sou mais de seduzir, desafiar, agir à descarada. 

Vita brevis. Esse é o meu lema, esse é o fio condutor dos meus actos. Vita brevis. Ou seja, bola para a frente e força nisso.

Não me imagino a consumir tempo de vida a esconder um amor. Claro que poderia acontecer estar apaixonada por quem não gostasse de mim. Mas aí acho que via a coisa com realismo: santa paciência, não dava, não dava. Partia para outra. O que não falta são homens e, no meio de tantos, algum haveria de ser a meu gosto e sensível aos meus encantos. Agora estar a querer alguém e, em vez de ir à luta, às claras, deixar-me estar a queimar tempo com platonices, fosquices, suspiros pelos cantos, tristezas eternas, isso não. Não faz o meu género. Pode ser muito poético mas não é para mim. Eu, nisto dos amores, sou mais prosa. Poesia sim mas como preliminar, como acompanhamento ou como sobremesa. A substância, para mim, está na prosa. E prosa em versão hands on. 

Carta de amor? Sim, até poderia aqui escrever uma a um amor imaginário, ficção da pura a fingir de verdadeira. 

Meu amor, por onde andas? Espero por ti e nada me dizes. Saberás a dor em que a minha alma fica? Saberás o vazio que cresce no meu coração? Espero que me procures, todos os dias o espero, todos, e não vens. Como negar, amor meu, que sinto a falta das tuas doces palavras e das tuas tórridas tentações? Sinto tanto a tua falta. Por onde andas? Os anos passam e as nossas mãos não se tocam e os nossos corpos não se encontram. Porquê? Que sentido faz isso? O que andamos a fazer? Não queres experimentar o azul dos mais longos abraços ou o branco da luz do êxtase? Não fujas de mim. Não fujas. Estou à tua espera. Vem.

Poderia continuar, escrever uma carta de amor a preceito. Gosto de derramar palavras de amor. Mas não escrevo. E não o faço por respeito para com os pinga-amores que suspiram, suspiram mas não passam disso, ou que sonham, sonham e não acordam para a vida. Também têm direito a achar-se especiais. Por isso, não escrevo. Fico-me por aqui na companhia dos bem dispostos amantes impossíveis que Thoraya tão bem sabe apanhar.

Strangers Confess Their Love Through Love Letters
Um projecto de Thoraya Maronesy


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E, já agora, a propósito de cartas de amor, com vossa licença, uma vez mais:

“My dearest one" Benedict Cumberbatch reads Chris Barker’s letter to Bessie Moore



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Haley Reinhart interpreta Can’t Help Falling in Love 
Pinturas e escultura representando Diana, essa grande dissimulada, essa grande maluca.
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Nota:
Não tenho conseguido responder aos comentários pois o tempo não me chegado ou, se me chega, o sono tira-me o tapete. Adormeço mesmo sem dar por isso. As minhas desculpas. A ver se consigo pôr o sono em dia para ver se isto entra os eixos. Aceitem as minhas desculpas.

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Desejo-vos uma terça-feira muito boa
Saúde. Motivação. Força.

quinta-feira, julho 15, 2021

Um clube de leitura moderado por aquela de quem já disseram ser uma open leg e que, com um bocado de sorte, não tem um broken heart

 




Estava a sonhar um sonho bom quando, de manhã, o telefone tocou. Estava a sonhar que uma amiga, que, no sonho, era igual à Linda Vater, estava a combinar comigo irmos a um clube de leitura. Dizia-me que era numa casa elegante, onde se conhecem sempre pessoas interessantes. Eu queria saber onde era e ela estava a explicar-me que era na Avenida da Liberdade, uma casa remodelada, com muita pinta. 'E eles não vão'?, queria eu saber sobre os nossos maridos. E ela dizia que, se o meu gostasse de clubes de leitura, que fosse, que o dela não apreciava, não ia. E eu estava na dúvida se um clube de leitura não seria uma valente seca também para mim. Mas, ao mesmo tempo, estava curiosa.

Então tocou o telefone, interrompeu o sonho, acordou-me.


Fiquei o dia todo a pensar nisto. Tenho pensado: e se eu convidasse amigos para virem aqui a casa falarem sobre livros? Não agora mas quando acabar esta cegada da pandemia. Cada amigo poderia trazer outro amigo, um de cada vez para não haver enchentes. Não seria engraçado?
Tenho duas amigas que frequentam essas coisas dos encontros de leitura. Não sei se lêem em voz alta ou se discutem livros. Convidaram-me várias vezes. Agora que escrevo, tenho ideia que combinam ler um livro e vão para lá mostrar serviço. Nunca fui e nem consegui dizer-lhes a verdadeira razão. Digo aqui: acho que a maior parte das pessoas que falam sobre livros só dizem vulgaridades. Um bom livro não tem muito que se diga sobre ele, pelo menos não assim, em público, sem pudor.
Mas, ao mesmo tempo, se eu convidasse amigos que não têm a mania de se armar ao pingarelho, talvez a gente se juntasse aqui e talvez algum, em meia dúzia de palavras, dissesse o que jamais eu esquecesse  umas palavras tão insólitas que me ficassem gravadas na memória. Talvez até ficasse com vontade de ir ler ou reler o livro.


Ou, então, juntávamo-nos uns seis ou sete para falar, por exemplo, do Murphy do Beckett. E o tempo passava e ninguém dizia palavra que fosse sobre o livro. E, de repente, um desatava a rir e todos desatavam a rir, uma gargalhada pegada. E estaríamos a rir das maluquices do Murphy.

A seguir, eu servia sumo de abacaxi com lima, pedras de gelo e umas folhas de manjericão. E não se falava mais no assunto.

Bem.


O dia foi cheio, a começar cedo. Tinha a agenda aliviada. Numa de me poupar, agendo muito menos reuniões. Recebi mais um dos relatórios médicos. Estava nervosa quando abri. Já vou com medo. Parece que tenho medo de descobrir que me aconteceu mais alguma. Mas parece que não é mau de todo. Confirma-se a sequela no coração, pois claro, e li umas frases que me assustaram. Fui ao google e vi que aquilo aparece em quem teve enfartes ou que está sujeito a stress. Pensei logo que tenho que evitar a todo o custo sujeitar-me a reuniões em contínuo. Mas é raro o dia em que não me pedem uma ou duas ou três reuniões.

Claro que poderia dizer que não dá, que tenho outros compromissos. Mas não consigo. 

Tive um colega, um bom amigo, inteligente e divertido, que uma vez me disse que eu tinha um grande problema. E acrescentou que não podia dizer qual era porque ia soar deselegante. Eu insisti e ele disse que teria que usar o inglês para não soar tão vulgar: 'Você é uma open-leg'. Desatei a rir. Quando alguém me pedia ajuda ou me pedia que resolvesse problemas alheios eu não conseguia dizer que não. Ora, como é sabido, os homens são muito tribais. Se o pedido vinha dos supostos adversários, o meu amigo achava que eu devia marcar posição, mandá-los à fava. E eu, pelo contrário, arranjava sempre maneira de acorrer.

Daí em diante, se estávamos em reuniões em que havia contenda, se eu tentava resolver os problemas de toda a gente, discretamente ele mostrava-me, meio às escondidas, o indicador e o médio afastados ao mesmo tempo que abanava a cabeça em sinal de reprovação, como que a fazer o sinal de vitória mas ao mesmo tempo sob censura. Mas não era sinal de vitória coisa nenhuma. Significava apenas que ele achava que eu estava, uma vez mais, a 'abrir as pernas' -- e tinha que me esforçar para não me desatar a rir.

É mais um dos meus problemas congénitos. Nada a fazer.


A meio da manhã veio um telefonema diferente. Estava a ouvir com alguma desatenção pois pensava que que a intenção era pedir-me conselho sobre quem deveria participar num evento que, enquanto ouvia, me estava a parecer interessante. Afinal a conversa deu uma volta e o intuito era convidar-me para ser eu a oradora especialista no tema. Achei graça, disse que sim. Que não era preciso preparar-me, só ser eu, disse-me ele. Fiquei admirada. Claro que não vou preparar-me. Nem saberia como. Espero sair-me bem.  Espero não dizer banalidades. Mais tarde haverei de contar.

A tarde esteve especialmente amena. Depois do trabalho vim cá para fora. A minha filha e os meninos estavam cá. Estão de férias. Depois da praia vieram cá ter. Estava-se muito bem. Uma tranquilidade imensa, uma luz dourada, os pássaros cantando na maior alegria. Fico sem fazer nada, apenas olhando, ouvindo, conversando, respirando. O meu marido chegou, entretanto, e nem dei por ele. Depois veio para o jardim fazer uma coisa e pediu ajuda a um dos meninos.

Esse menino depois pediu-me uma massagem. Sentei-me numa cadeira e ele numa cadeira à minha frente, abraçado às costas da sua cadeira. Depois até foi buscar uma almofada, para ficar mais confortável. Estava em tronco nu. Tamborilo os dedos nas suas costas, na cabeça. Fica zen, tempos sem fim. Até pensámos que tinha adormecido. Mas não, está apenas tranquilo, feliz da vida.


Quando estavam quase a ir-se embora, esse menino, em cima da árvore grande, chamou-nos a atenção para um ovinho caído no chão. 

Quando íamos ver de perto, ele avisou-nos que não fossemos por ali. Olhei e as folhas que estavam caídas no chão pareciam-me lustrosas. Ele voltou a avisar que não pisássemos as folhas. 'Fiz chichi aqui'. Não estavam lustrosas, estavam eram molhadas. 

Às vezes, à noite, ocorre-me que devem fazer pouco chichi pois raramente os vejo virem à casa de banho. Afinal é isto: vão atrás de uma árvore e lá vai disto. Boys being boys.

Cheguei muito tarde à sala. Hoje não vimos Netflix. Ainda assim, fui espreitar as coreanas. Não sei. Não engraço com séries ou filmes cuja língua não percebo. Parece-me tudo muito distante da minha matriz cultural. Não sei... não quero dizer que não só por ter dado uma espreitadela. Mas vou já dizendo que não me senti atraída. E eu sou de coup de foudre. Se a coisa não se dá, nem vale a pena ter esperança. Mas, enfim, as pessoas mudam e eu, apesar de ser mais bicho do que pessoa, na volta também mudo. E, de resto, consta que estou mais velha e, por isso, pode ser que me deixe de coisas.

E acho que é isto.


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Pinturas de Paul Gauguin que obviamente não têm nada a ver com o texto 
e, claro está, muito menos com Comfortably Numb com David Gilmour e Benedict Cumberbatch 

E o título do post é o que é
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Dancemos


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Desejo-vos uma boa quinta-feira 

sábado, junho 20, 2020

Nem perfumes, nem relógio. Brincos e vai lá, vai.





Quando aqui chegamos a primeira impressão quando a porta se abre é o cheiro. Melhor: o perfume. Não sei definir que perfume é. Sei que a sensação que desperta é boa. Tudo me acolhe. A casa fechada, silenciosa, em paz, na penumbra, perfumada. Muito agradável. Do lado da sala, a janela, virada a oeste, deixa entrar uma luz dourada que a atravessa e chega até ao hall. Umas boas vindas douradas e perfumadas. Digo que cheira bem e o meu marido diz que é bom regressar aqui. E é mesmo. Quando chego ao quarto da minha filha, e que agora é o meu quarto de vestir, o perfume é mais evidente, um mix de perfumes suaves, bons. Desde o dia 13 de Março que não me perfumo. É das coisas que, de vez em quando, tenho saudades. Brincos ainda ponho. Não consigo estar numa vc (videoconferência) sem me arranjar. No outro dia, o bebé ficou espantado: porque é que estás assim? 'Assim' era com um tonzinho nos lábios, um framboesa natural com um leve brilho, um tonzinho nas pálpebras superiores para ficar um smoky ligeiro. Expliquei: vou ter uma reunião. Ele ripostou, como que a corrigir-me: uma call. Pensei que, para ele. talvez não fizesse grande sentido mas tenho para mim que, em contexto profissional, o dress code não deve ser exactamente o 'trazer por casa'. E, portanto, visto-me, penteio-me, ponho uns brinquinhos, passo um brilhozinho nos lábios, uma sombra, quase nude, nos olhos. Talvez seja quase como uma barreira. Esta não sou eu tal e qual, esta sou eu com alguma distância. Talvez um dia destes passe a pôr um esguinchinho de cheirinho bom.


Aconteceu uma coisa, esta tarde. E vou confessar porque isto é anónimo. Tive uma vc bem chata. Mais do que chata, estúpida. Inútil. De faz-de-conta. Sendo o assunto importantíssimo, por não o saberem agarrar, optaram pelo do costume: consultoria e dinheiro para cima. A acompanhar, pessoas que não pescam boi do assunto. Portanto, tudo aquilo é uma fantasia. O tipo de coisa que me tira do sério, que me encanita, que me dá brotoeja, que faz com que eu fique à espera que alguém 'make my day'. Mas desta vez deu-me para outra coisa: para não me chatear. É uma premiêre mas acho que está na altura de começar a dar descanso à consciência. Reunião com magna participação. Não sei quantos mas, no mínimo, uma dúzia. Por não saberem o que dizer, puseram o pobre do consultor a fazer toda a despesa. Aos poucos, todos foram retirando a imagem. Nem som nem imagem de vivalma excepto do pobre coitado que, com voz monocórdica e sem qualquer interrupção dos demais participantes,ia desfiando os slides. Enquanto isso, eu ia trocando mensagens divertidas com um outro que também estava a (não) participar e que decidiu, meanwhile, tratar de assuntos mais concretos. O meu marido foi-se sentar ao meu lado, na mesa, a trabalhar. Volta e meia eu ia conversando com ele. Ninguém na reunião me via, ninguém me ouvia. Às tantas a reunião acabou sem que se tivesse percebido o que é que ali se tinha passado. Acabou quase meia hora mais cedo. Só abri o microfone para dizer adeus. E disse ao meu marido. Para a próxima, sento o bebé no meu lugar e, no fim, abro a câmara e aparece ele. O meu marido disse: ou eu. Fartei-me de rir. Havia de ter piada, no fim da reunião, em vez de mim, aparecia ali um ilustre desconhecido. A seguir ele sugeriu outra coisa mas essa já eu não posso dizer aqui, só posso dizer que haveria de deixar toda a gente de boca aberta, sem reacção. Imagino eu.


Bem. Voltando aos perfumes. Sempre que aqui estou, olho os meus perfumes com alguma saudade. Também nunca mais pus relógio. Nunca saía de casa sem relógio. Contudo, ele não funciona bem. Está sempre com horas de atraso. Em tempos, longínquos tempos, um colega dizia-me: 'Usa-o como uma jóia, não é?'. Sim, uma jóia. Não é apenas a estética, é também o peso, a habituação àquela presença elegante e silenciosa ali no meu braço. 

Nas vcs verifico que a grande maioria dos meus colegas ou das pessoas com quem me encontro por esta via estão em casa. Alguns voltaram ao escritório mas rapidamente retornaram a casa. Não encontram grande vantagem em deslocar-se até ao escritório. Claro que os operacionais estão no terreno, sempre estiveram. Mas a malta que pode estar em casa -- a trabalhar, a consumir mais água, mais electricidade, etc, e a proporcionar ganhos às empresas (ouviu senhor comentador que acha que se devem cortar os ordenados aos trabalhadores em teletrabalho?) -- opta por estar em casa.


Mas há excepções: dois colegas, ambos com várias crianças pequenas em casa e ambos quase doidos com isso, optaram por fazer meio-dia no escritório. Ambos dizem que precisam de desanuviar. Acredito.

E eu estou para aqui a escrever mas, como deve dar para perceber pois notoriamente não estou a dizer coisa que avance a direito, estou francamente cansada. Tirando aquele bocado daquela reunião super-importante em que descansei a mente, tive várias outras reuniões e vários telefonemas e muita outra coisa e tudo junto tornou-se demais. Cheguei ao fim do dia exausta. Agora tenho os dedos em roda livre, vão-se esticando e encolhendo, saltando e dançando e eles lá sabem por onde anda. Escolhem as teclas e, por sorte, o que sai são palavras que existem. Não tenho ascendente sobre os meus dedos, nem quero. Estou out.

Fui.
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Christiane Karg interpreta Felicissima quest’alma de Handel
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Um bom sábado

quinta-feira, junho 18, 2020

Contra os chatos e os convencidos
marchar, marchar





Porcaria da internet. Isto hoje está naqueles dias impossíveis. Carrego numa qualquer opção e o ecrã põe-se branco, atordoado dos pensamentos, em total estado de estupor catatónico. Há bocado, estava eu a tentar descortinar uma complicação no meu computador, ouço o bebé: 'Pocaria da internet!'. Perguntei: 'Então, que se passa?'. E diz ele, apontando para o computador que estava a usar: 'Isto não anda!'. De facto. Todo o dia tem sido este desespero. Não mexe. Impossível escrever aqui com isto neste estado, em aberto e acintoso contravapor. Apetece-me desistir.


Enquanto não desisto, conto uma coisa. Quando estavam a sair, digo ao bebé: 'Olha, meu amor, gostei muito que cá tivessem estado' e responde-me ele: 'Nós ainda cá estamos...'. O meu filho disse: 'O tempo verbal que usaste não lhe pareceu correcto'. E fiquei a pensar que a nossa pressa em viver leva-nos a cometer estes erros, a transformar em passado o que ainda é presente. menino mais fofésimo.

Os manos estiveram com aulas e avaliações, tiveram boas notas, brincaram, zaragatearam um com o outro, brincaram com o maninho mais novo e, como sempre, encheram-me o coração. Os pais trabalharam, nós trabalhámos. E o tempo avança.

Entretanto, para além dos números assustadores de países em que a pobreza intelectual ou económica impera, vamos sabendo de novos surtos do corona na China e que, por cá, os números não descem tanto quanto deviam. Na volta, ainda nos arriscamos a ter mesmo a tal segunda onda que nos impedirá de voltarmos tão cedo a uma vida descontraída. Estou bem como estou mas, ao mesmo tempo, penso que qualquer dia vou mesmo ter que voltar a trabalhar em torres de vidro, sem janelas, e isso traz-me uma certa ansiedade. O bebé, quando se fala em escola, muda de conversa, levanta-se. Não lhe agrada. Está bem assim. Eu também estou.


Bem. Hoje vinha para falar de outra coisa. Aliás de duas coisas.

Uma é um mistério: estando aqui sossegada em casa, por que estranha razão não me dá para ler? Volta e meia pego num livro mas, confesso, ao fim de pouco tempo, pouso-o. Não sei porquê. Parece que não quero trazer para dentro desta insólita liberdade que agora vivo nenhum dos meus anteriores hábitos. É absurdo dizer isto a propósito dos livros e, na volta, nem tem nada a ver mas, se não é por isso, por alguma razão é.

A outra é esta: não tendo aqui senão a televisão corrente, quase não a vejo. Não suporto ver gente que se leva muito a sério, gente que se acha, gente que sabe tudo e não se ensaia nada de tecer juízos morais sobre os outros. Parece que toda a gente que ali vai se acha importante, sabedora, superior. Um tédio, uma seca, um saco. Desligo. Mudo-me para a netflix ou vou descobrir vídeos.



E penso: à distância, em reuniões remotas, consigo evitar muitos maçadores. A hipótese de voltar a frequentar a cidade, os corredores, os salões e demais antros de gente parva é daquelas que também me assusta.

Por exemplo, o vídeo abaixo. Uma graça.


Ou este:


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Fotografias de  Fee-Gloria Groenemeyer

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Saúde e alegria para todos

domingo, abril 19, 2020

Cartas (e concertos) em tempos de corona






Não poderia ser médica ou enfermeira. Assusto-me demais, impressiono-me como se a dor dos outros fosse minha, mas mil vezes superior ao que poderia suportar. Lembro-me de uma das minhas primas, um pouco mais nova que eu. Brincávamos na escada da minha casa. Eu era mãe das bonecas, mãe dela, toda eu ternura e instinto maternal, ou era cabeleireira e fazia tranças ou outros penteados ou fazia de conta que lhes cortava o cabelo ou lhes lavava a cabeça, ou era vendedora numa mercearia e tinha uma balança e uma caixa registadora e vendia coisas a peso e dava o troco. Mas ela era médica. E ou eu ou as bonecas éramos as doentes. Quando, uma vez, a nossa avó se queimou numa perna e ficou em muito mau estado, de cama, a perna envolta em ligaduras, eu fiquei assustada, com medo pela dor da minha avó, imaginando e temendo a gravidade das chagas. Mas a minha prima não, a minha prima quis ver as feridas, quis perceber o tratamento que tinha sido feito. Não sei se a minha avó lhe mostrou pois eu, a prima mais crescida, fugi com medo de ver.

É uma questão de vocação.


Numa altura em que nos resguardamos com medo do contágio, ela e outros médicos e enfermeiros e auxiliares e técnicos continuam a sair de casa para irem cumprir a sua missão. Não se sentem heróis. Sentem apenas que fazem o que devem fazer. E depois vai a casa dos meus tios. Descalça-se, despe-se, usa máscara -- e vai a casa dos pais. Eu não. Tenho medo de lhes levar algum contágio. Já basta ter que ir lá a senhora que ajuda no tratamento do meu pai. Acho que quanto mais resguardados estiverem melhor. Telefono duas vezes por dia, faço os pagamentos, tratei do irs, os netos também telefonam, fazem as encomendas online, garantimos que nada lhes falta, mas mantemo-nos fora da sua casa. Mas a minha prima é destemida, mesmo frequentando hospitais, não deixa de ir ver os pais. É corajosa.

Enquanto escrevo, artistas entram a partir de casa para o concerto One World: together at home. Toda a gente agradece aos profissionais de saúde. Mas agradece também a todos os profissionais de outras áreas que não tendo actividades que possam funcionar em teletrabalho continuam a ir todos os dias enfrentar os riscos que aí estão.

E tinha acabado de ouvir o convite de Benedict Cumberbatch a que, quem quiser, grave a leitura de uma carta e a envie, uma carta alusiva a estes tempos de distanciamento, distanciamento que, por vezes, é sinónimo de isolamento.


Fiquei com vontade de escrever uma carta e gravar a minha voz mas sei que, se a tenho naturalmente ciciada, muito mais frágil ela fica quando estou emocionada.

Por isso não escrevi nem li. Limito-me a estar para aqui a escrever coisas de nada e a esconder que me apetece receber também uma carta -- apesar de não ser técnica de saúde e apesar de ser uma sortuda e não ser devedora nem de gratidão nem de nada que se pareça com nada disso. Só porque gosto de receber cartas.


Seja como for, se, a si que está a ler-me, este isolamento está ser-lhe pesado, se gostava de receber uma palavra de atenção, se gostava de sentir que é em si que estou a pensar enquanto escrevo, se gostava de receber um abraço em forma de palavras, então saiba que sim, que são para si estas palavras, é para si que vai o meu pensamento. Tenho recebido tanto desde que aqui escrevo, tenho conhecido pessoas tão especiais, tenho-me sentido tocada pelo afecto que não sinto como distante mas, sim, genuíno, generoso, tão próximo. Não tenho como agradecê-lo. Sempre estarei em dívida.

[Mas, ainda assim, gosto de receber cartas. Ou poemas. Ou, simplesmente, palavras simpáticas.]


E sei que isto que estou a dizer é um absurdo pois o concerto a que assisto ou as cartas que devem ser escritas e lidas são para quem verdadeiramente as merece e eu deveria ter tino e não estar para aqui, em total despropósito, a confessar que também gostava de receber umas palavras para mim.

Mas adiante que tudo tem que ter limites, até a parvoíce.

O tema é: querem ouvir uma de que gostei de ouvir? Esta aqui abaixo. Quanta dignidade a de Joss Ackland, 92 anos.



E esta de Ana Frappell, tão comovente. 


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As flores foram pintadas por Van Gogh mais para lembrar que, como é bom de ver, ele não pintou apenas girassóis e, também como é bom de ver, não faço ideia de porque é que disse isto.

E antes de vos convidar a descer para verem a malta da Porta a parodiar as cenas da videocoisa, deixem que vos deseje um bom dia de domingo.

Saúde e boa disposição, pessoal.

E agora, se estiverem para aí virados, deixem-se deslizar até ao teletrabalho que vem já aí a seguir.

segunda-feira, abril 01, 2019

Memórias à beira mar





Uma pequena enseada. Quase não havia, nem há, areia. Seixos, conchas, restinhos da faina pesqueira, pequenhos brilhos. Do lado esquerdo de quem olha o mar umas rochas marcam a divisão. Não são muito altas. Sobem-se bem. São rochas cobertas de pedrinhas. Nas zonas mais escondidas, estavam, e estão ainda, cobertas de limos verdes. Há reentrâncias onde se junta a água. Lá dentro há ínfimos seres que se agitam. Eu subia e andava por lá a explorar aqueles mistérios com denso perfume a maresia. Se passássemos para o lado de lá íamos ter a um pequeno recanto, uma praia minúscula invísivel de qualquer outro lado, excepto de frente, uma zona inacessível e onde antes nunca havia ninguém.


Um pouco mais à frente havia, e se calhar há ainda, uma escada na pedra que vai dar à estrada.

Das rochas que fazem a separação eu via o irmão mais novo do meu pai a nadar. Nadava para muito longe, nadava muito bem. Eu ficava a olhá-lo, admirada, um pouco preocupada. Disfarçadamente, chamava a atenção ao meu pai. Queria que ele visse como o irmão se afastava. O meu pai olhava-o, sem preocupação, apenas alguma admiração, e dizia: 'Nada bem'. Depois regressava à praia, o cabelo preto e liso escorrendo. Não me lembro de o ver limpar-se. Se calhar ia assim mesmo. Talvez fosse de bicicleta para casa. Afinal os meus avós não moravam muito longe.

Lembro-me tão bem.


O cheiro da maresia é igual, as pocinhas de água são as mesmas, o mar limpo e tranquilo é o mesmo, os reflexos e a luz feliz sobre as águas são também os mesmos. 

Mas se calhar só eu me lembro desses tempos de total liberdade e inocência. O meu tio tem agora as costas um pouco curvadas, a pele do rosto já enrugada. O cabelo é ainda liso mas já é grisalho. Duvido que se lembre. O meu pai já pouco comunica e, embora saibamos que guarda memórias muito antigas, tem cada vez mais dificuldade em falar. A minha mãe não se lembra mas é natural pois, ali, ela pouco ia connosco. Ali íamos apanhar amêijoas, isco para a pesca, coisa que era só do meu pai e que eu ia porque lhe pedia para me levar.


Agora a menina ali já não sou eu, eu sou a que tem memórias de tempos que parecem tão próximos. Agora a minha filha terá a mesma idade que a minha mãe teria naquela altura, talvez até um pouco mais. Agora há outros meninos que andam nas rochas, que espreitam os mistérios das rochas e do fundo do mar.


A minha mãe olha-nos a todos, vê como de si partiram as gerações que à sua volta se juntam e, feliz da vida, conta-nos histórias, fala-nos de memórias da sua infância.

[Este domingo disse-me que tinha dormido profunda e descansadamente, que adormeceu no sofá, que à uma da manhã acordou e nem percebeu bem o que lhe tinha acontecido, que lá foi para a cama e que foi até de manhã, que o ar do mar a deixou assim. Tão bom.]

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quinta-feira, novembro 15, 2018

Um conselho muito útil para o dia de Natal



Somos do contra ou, se não somos, parece que parecemos. As ruas, as lojas, tudo reluz -- e nós nem aí. Explico: em notória contra-corrente, ainda não começámos com os enfeites nem com as compras de Natal. É certo que tenho que ter atenção pois, se nos atrasamos muito, daqui a nada já estaremos nos saldos pós-Natal e eu ainda a sentir-me com um pé no pós-verão. Não sei bem quando serão os saldos do pós Ano Novo mas tenho para mim que serão lá para meados de Dezembro. E isto desincentiva-me. Sou a modos que muito tradicional, muito conservadora: gosto do natal no natal e do ano novo no ano novo, e coiso. 

Como agora deixei de ser consumista, faço de um tudo para não entrar em qualquer loja. Passo por elas como se não me interessasse por nada, como se nada daquilo tivesse alguma coisa a ver comigo. E não custa nada porque só vejo árvores de natal, bolas de natal, renas e sininhos. E, ao abrir o YouTube, também ceninhas de Natal. Jingle bells, jingle bells. Bolas.


Mas acontece que, como estou num processo transformacional, depois das citações inspiracionais do post abaixo, e enquanto não me torno vegan e não me apresento nas reuniões em tronco nu com dizeres escritos nos seios, vou fazendo os beus baby esforços. E isso passa por muita coisa. Por exemplo, por prestar atenção a bons conselhos. Por exemplo: como reagir quando a gente dá um belo presente a uma pessoa, tudo a ver com essa pessoa, esforçámo-nos a valer por encontrar aquela coisa mesmo a condizer e, de volta, recebemos uma coisa que não tem nem um bocadinho a ver? Não quero aqui fazer fofoca mas uma certa pessoa da minha família costuma fazer assim: vai a um sítio e vê uma coisa que, pelo preço e pelo aspecto, lhe parece uma boa compra. Então, a coisa resolve-se logo ali, está feito e não mexe mais. Compra uma dúzia e dá uma a cada mulher da família. Isto se for coisa mais para mulheres. E para mulheres digo eu porque, a bem dizer, nunca percebi qual o critério. Uma vez foi uma girafa dourada. Grande. Não em tamanho natural mas quase. Bem uns quarenta centímetros de altura. Se calhar mais, talvez meio metro. Durante anos andei com a girafa às voltas sem saber onde pô-la a pastar. Mas a sacana da girafa, como tinha perna fina, desequilibrava-se muito. Capaz de nos partir um pé se caísse da prateleira ou da mesa abaixo. Que aquilo lá era bem toda pesada, só chicha, metal maciço. Até que a encafuei não sei onde e agora não faço ideia onde esteja. Mas isso ainda é o menos. O pior é a gente abrir o presente, ver uma coisa de que não percebe bem o nexo e depois ver que toda a gente está a receber a mesma maravilha. Como reagir? Fazer de conta que toda a vida tínhamos desejado ter uma girafa dourada? Dar um agradecido e sentido abraço? Mesmo percebendo que aquilo foi a primeira coisa que lhe apareceu à frente?


Outra vez foi uma caixa. Grande para ser bibelot, pequena para poder ter serventia de arrumação. Nem feia, nem bonita. Simplesmente neutra. Lembro-me bem. Pensei que o presente estaria dentro da caixa, que a caixa era embalagem. Curiosa, abri. Estava vazia. E toda a gente estava na mesma. A espreitar para dentro das caixas. E ela toda lampeira: queriam o quê? não vos chega a caixa? Digam-me, qual a maneira certa de reagir? Ah, que bom, estava mesmo a precisar...?

E eu, chegando a casa com aqueles tesourinhos e preocupada em dar uso ou deixar à vista para que, quando ela cá vem, veja que apreciei, e o meu marido: caga nisso. 


E isto para dizer que, sabendo destas minhas dificuldades e, simultaneamente, querendo transportar-me para a época natalícia, twinkle, twinkle, little star, o meu amigo YouTube me apareceu, o bobonezinho, com o vídeo que, de seguida e sem mais delongas, partilho convosco. Aprendamos, irmãos, que a coisa é didáctica. Santa Claus is coming to town. Bilas, bilas.

Benedict Cumberbatch  ensina


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sábado, julho 14, 2018

As sete idades



O mundo é um palco e os homens e as mulheres não passam de meros actores.

All the world’s a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages.

E as flores também. Belas, efémeras, cada uma representando o seu papel. Por vezes juntas nas suas diferentes idades: a que desponta, a que quase se abre, a adulta. Até que um dia, uma envelhece, a jovem resplandece, a que era bebé começa a despontar. E um dia virá em que a primeira desaparece e depois outra e depois outra. Mas, entretanto, já outras terão iniciado o seu ciclo mágico. 

Todas sempre de passagem. Todos nós de passagem.


Entretanto, a vida. Quase real, quase ficção, quase miragem. Nós como nos imaginamos, sempre tão diferentes do que os outros nos vêem. Tudo relativo, tudo como função da perspectiva. Reflexos, sonhos, memórias, representações.

Estou dentro de casa. Olho o chão do lado de fora. Vejo o reflexo do tapete e vejo outra coisa que não sei o que é. Estão misturados com as folhas secas que caíram do plátano. As folhas reais, os reflexos igualmente reais. E no entanto. 

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Começo a experimentar a minha nova máquina. A minha filha pergunta: é a 327ª máquina, não é? Não sei. Talvez não tanto mas quase. Uma vergonha. 

Ando com ela a medo, tenho vontade de a manter num saco com bolhinhas de ar e depois dentro do saco acolchoado. Deveria prendê-la a mim, sem hipótese de queda, sem hipótese de se riscar. Mas ando sempre tão cheia de coisas e as minhas mãos são tão pequenas. 

As fotografias não foram feitas hoje, foram num outro dia desta semana. Hoje madruguei, viajei e regressei muito tarde e cansada. Salvou-se a conversa solta e agradável durante a viagem para lá e para cá. 

E, cansada que estou, sem saber nada do que se passou no mundo, estou a preguiçar vendo as primeiras fotografias feitas com esta nova máquina. 

É leve, é rápida, é precisa e faz um barulhinho subtil quando disparo e, pelo que vejo, soube reproduzir o que os meus olhos viram.


Talvez até já --- se conseguir despertar

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

Precisamos de um S. Valentim para amar melhor?
[Reflexões de uma camponesa numa noite dita de Namorados]




Fomos almoçar a um restaurante numa pequena aldeia aqui perto. Chegámos bem já depois das duas. Os trabalhos no campo têm disto. Há uma sequência que deve ser cumprida. E banho antes de almoçar e fechar a casa e mais a viagem... e deu nisto. Nestas terras almoça-se cedo. Fomos os últimos a chegar, já o restaurante estava quase vazio e, naturalmente, também fomos os últimos a sair, passava das três da tarde. O dono da casa e os empregados estudavam a disposição das mesas e a mulher do cozinheiro compunha umas jarras na entrada. E tantos os cuidados que perguntei: 'Vai haver festa ao jantar, não?'. Com ar de quem estava a ceder a uma imposição com a qual não se identificava lá muito, respondeu-me ela, enquanto encolhia os ombros e arqueava as sobrancelhas: 'Vamos fazer a Noite dos Namorados... Vamos ter música ao vivo. Estamos a decorar para dar um arzinho assim mais... romântico'. Parecia tímida ao assumir a cedência aos ditames comerciais.

Nem nos tínhamos lembrado. Dia dos Namorados.

Depois do restaurante e antes de virmos para casa, fomos a um mini-mercado. Passámos pela florista. Uma lojinha pequenina com uns quantos vasinhos à porta. O meu marido leu o nome: Belinha Florista. Olhei. Reparei que, por dentro da pequena montra, tinham uns fios suspensos com uns quantos coraçãozinhos encarnados. A Belinha não se tinha esquecido do Dia dos Namorados. Pelo aspecto dos homens que costumo ver por ali, conversando no passeio junto ao café ou à loja que vende máquinas agrícolas, diria que a registadora da Belinha não notará grande incremento mas, que sei eu?, quem vê caras não vê corações.

Tirando isso, não dei conta de outras comemorações.

Já acertámos com o senhor da máquina a limpeza daquela nesga de terreno lá ao fundo, a seguir à serventia. Em tempos havia lá colmeias. Presumo que o senhor que nos pediu para lá as ter já não se dedique a isso. Nem sei se ainda vive. Naquela altura, quase há vinte anos, já não era nada novo. O senhor da máquina vem no sábado quase de madrugada. Por aqui a alvorada é sempre cedo. E quero acompanhar, não vá alinhar pelo meu marido e também ser do clube do 'vai tudo abaixo'.

Entretanto, dando continuidade à nossa labuta, já se cortaram mais um monte de ramos dos cedros que estão relativamente perto da casa para que a copa fique bem mais alta que os beirais. Já se cortou em troncos para a lareira tudo o que se conseguiu. Já se desbastou mais tojo, é uma praga o tojo. Já se fizeram grandes fogueiras, uma de manhã e outra de tarde. 

A quantidade de ramos e mato que já queimámos é brutal e, no entanto, olha-se e parece um bosque em estado virgem. Tínhamos que estar cá um ou dois meses de seguida, dedicados a isto. E tínhamos que estar fisicamente habituados a tanto esforço. Ao quarto dia estamos exaustos. 

Ao fim do dia, começou a cair uma humidade que era quase uma chuvinha tímida. Anoitecia, as árvores já eram apenas vultos, e vinha da terra um perfume bom, orgânico. A fogueira ainda estava viva e deixava no ar o cheiro bom do cedro a arder. O prazer de estar ali é difícil de descrever. E é curioso como os nossos olhos se habituam à luz a esvanecer-se. Ou porque os passos já conhecem os caminhos ou porque os olhos aprendem a desvendar os vultos que se escondem na escuridão, a verdade é que regressámos às escuras sem qualquer problema.

Quando chegámos ao pé da casa, o meu marido lembrou-se que tinha deixado a escada encostada a um dos cedros que está do lado de lá do estúdio. Fui buscar uma lanterna para o ajudar a encontrá-la e fiquei a apontar enquanto ele ia até lá. De repente, um barulho, um sobressalto, várias asas a baterem em uníssono, com força. Assustámo-nos. Mas os pássaros, de certeza, que se assustaram ainda mais tal o alarido do bater de asas.

Agora que cheguei à etapa lúdica da jornada computacional (ou seja, depois de responder a mails de trabalho e de autorizações e outras cenas), dei com uma selecção de músicas românticas.

Lá está, Dia de S. Valentim que se preze pede banda sonora.

Conheço umas, não conheço outras.

Se eu tivesse que escolher a 'nossa' música haveria de me ver grega. Se lhe perguntasse a ele, diria que me deixasse de perguntas sem sentido. Talvez a muito custo lhe arrancasse alguma coisa. E eu lembro-me de uma ou duas mas não que sejam especialmente românticas, apenas as associo a momentos que, de alguma forma ficaram gravados na minha memória de uma forma muito intensa.

Mas, sim, Leonard Cohen seria um dos que teria numa selecção que fizesse. Contudo, talvez não com a dele que é considerada uma das mais românticas de todos os tempos, a So long, Marianne, mas com outra. Talvez I'm your man. O meu amor é sempre mais erotizado do que puramente romântico. Outra que eu quereria incluir seria Nina Simone. Contudo, não tinha presente a canção que vejo na selecção do The Guardian. Mas ouvi-a e gostei. Claro que gostei. Gosto sempre de Nina Simone.

Bem. E mais não me ocorre, por ora. Se calhar é porque, enquanto escrevo estou com um olho no burro e outro no cigano, encantada com as jóias alimentares que o José Avillez está a descrever. O seu menu de degustação, no Belcanto, tem fama e diz quem já lá foi que é manjar dos deuses. Mas 165 euros por pessoa é obra. Será que ele também lá festejou o Dia dos Namorados?

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Mas, sendo eu romântica pura ou não, apetece-me fechar este post com uma carta de amor.

“My dearest one" -- Benedict Cumberbatch lê uma carta escrita por Chris Barker (em 1945) para  Bessie Moore


(Porque gosto muito de receber cartas, poemas ou bilhetinhos de amor)

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Fotografia da Magnum e, a do banco, de Steve McCurry.
Pinturas de Picasso e Chagall.
Escultura (The Kiss) de Rodin

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PS: E já vos contei que aqui a net é a pedal...? Escrevo várias palavras e fico a vê-las a apareceeeeeer... devagariiiiinho.... Ou clico numa coisa e o ecrã fica em suspenso, a rodinha a rodar, a rodar, a rodar... e, muitas vezes, pede-me que faça o reload da página. Ou faço um post com imagens e vídeos e o que me aprece são espaços em branco, não consegue carregar imagens ou vídeos. Um desatino. Por isso, por muito que me apteceça escrever mais, acabo por desistir. Ah, os malefícios de se estar longe da civilização...

PS2: E volto aqui para comentar uma cena: aqui não temos cabo, é mesmo a TDT ou lá como se chama. Portanto, enquanto me entretinha a dar uma volta por alguns blogs, fui tenntando descobrir coisa que se visse. Fui dar à TVI e às Não sei Quantas Sombras de Grey. Só vi a última parte. Está bom de ver que não li o livro e em boa hora não tinha visto o filme. Uma sensaboria sem pitada de glamour ou sensualidade. Uma estopada metida a besta. Não dá para perceber o sucesso. Li, em tempos, que o sucesso provinha de donas de casa ou mulheres casadas ou coisa do género. Presumo que das que são pobres de espírito ou carentes até à última casa, daquele tipo de trepar pelas paredes ou matar cachorro a grito. 

domingo, fevereiro 04, 2018

Sem título





Fui juntar um pedaço de madeira ao fogo que crepita na salamandra. A chuva cai espaçadamente lá fora. A sala está acolhedora mas, se o fogo abranda, sente-se logo como que uma aragem fresca.

Não presto atenção ao que passa na televisão. Nada que me interesse. Estive a ler. Depois entretive-me a mudar o aspecto do blog. Gosto de mudar. Em mais um dos vários assessments a que me sujeitei, sem surpresa, dei por mim a responder que o que me atrai é a mudança. Perguntam a mesma coisa de muitas maneiras diferentes mas não há volta a dar: 
Prefere o que conhece ou o que desconhece? O que desconheço. 
Prefere ambientes estáveis ou cenários de mudança? De mudança. 
Prefere trabalhar segundo regras conhecidas ou em situações em que as regras estão por definir? Por definir. 
[Muitas perguntas. Sempre respostas assim: construir, mudar, conhecer, ousar.
No fim, perguntaram-me: o que gostava de fazer? Disse: qualquer coisa de inesperado.
Como?, perguntaram-me. Respondi: qualquer coisa que me deixasse surpreendida, em que nunca tivesse pensado, que não soubesse se saberia fazer.
Construir caminhos. Desafira-me a mim própria.

Gosto muito de construir caminhos. Aqui in heaven todos os caminhos foram idealizados por mim.  Onde apenas havia mato rasteiro e pedras, eu dizia: por aqui, depois curva por aqui, depois segue, segue, segue, ali curva levemente, aqui bifurca e vai um para ali e outro para ali. Antes de eles existirem, eu imaginava-os. Agora parece que sempre ali estiveram e os meus passos seguem por eles como se eles não tivessem nascido na minha cabeça mas de dentro da terra.

Ou do velho fazer novo. Restaurar. De uma casa velha e sem graça fazer uma casa nova e luminosa. Quase todos os móveis que aqui estão têm uma idade indeterminada. Foram restaurados. Mas um não, o mais bonito de todos foi feito pelo meu pai. Imaginei-o, desenhei-o e ele deu-lhe corpo. Sobreviver-lhe-á. Sobreviver-me-á. 

O fruto dos meus sonho é menos efémero que eu. Mesmo estas palavras. Sobreviver-me-ão. As minhas fotografias também. Quase tudo me sobreviverá. Talvez alguém, um dia, vendo uma fotografia minha, diga: esta foi a minha trisavó; foi ela que imaginou estes caminhos, que plantou estas árvores, que aqui mandou fazer estes bancos. E escrevia muito, ela. Palavras soltas.

Somos efémeras e vulneráveis criaturas. E nem sempre nos lembramos disso. Se nos lembrássemos aspiraríamos com prazer o ar que respiramos, sorriríamos à passagem do vento, colheríamos com alegria todas as gotas de chuva, abençoaríamos os raios de sol. E viveríamos cada instante com o prazer de quem não sabe quantos mais terá. Sem pecado e com inocência. Os frutos, os amores, os sonhos, os reflexos de luz, os laços, os infinitos nadas.

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E queiram descer, para seguirem pelos meus caminhos aqui, in heaven

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