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sexta-feira, agosto 28, 2026

Netos devoradores de sushi, e outras breves à mistura

 

Hoje fomos almoçar com três dos rapazes. O outro rapaz e a mana estão num campo de férias. Com estes três resolvemos ir a um conhecido japonês, na modalidade all you can eat, que é a possível com aqueles três esfomeados, sempre com um apetite extraordinário tanto mais agora que já andam com ginásiios e treinos, o que só lhes potencia ainda mais o apetite devorador. Dois deles, aliás, confessaram que nem tinham tomado o pequeno almoço. Imagine-se, pois.

3 rapazes a devorarem sushi
num cenário que, humildemente, pretende homenagear a maravilhosa Yayoi Kusama,
recentemente falecida  
[by ChatGPT]

Confesso que perante a dinâmicia que ali se gerou, fiquei meia apardalada, sem saber o que já tinha pedido e o que era suposto comer. Dois tablets em cima da mesa, um em cada ponta, com o menu para se ir pedindo. Eles sempre a aviar, pumba, pumba, pumba. Vinham travessas e travessas, enormes, carregadas de sushi, sashimi, nigiri e tudo o que se possa imaginar e eu e o meu marido sem sabermos se aqulo seria alguma coisa do que nós tínhamos pedido. Os empregados riam-se e diziam que não, que era tudo do lado deles. Frequentemente, quando eu e o meu marido pedíamos as nossas coisinhas, tínhamos que esperar. A empregada ria e dizia que tinha que haver algum intervalo entre pedidos, que os meninos tinham pedido muitas coisas, várias vezes. O que eles comeram não tem explicação. Não sei se não levámos o restaurante à falência.

Por fim, eu e o meu marido já olhávamos um para o outro sem fazermos a mínima ideia de se o que tínhamos pedido para nós já tinha vindo ou não. Mas a verdade é que, sem ser capaz de dizer o que comi ou deixei de comer, vim de lá cheia. E ele também. 

Mas o engraçado não é só a quantidade de comida que comem, é que não param de conversar. Sobre tudo e mais alguma coisa. Acho que não houve um minuto de silêncio. Entre encomendarem mais peças, comerem-nas e conversarem acho que aquelas bocas não tiveram descanso. Meninos lindos. Sempre uma animação.

O mais crescido está a poucos dias de ter a sua primeira aula universitária, e vai começar também novo desporto. Está mais responsável e não se assusta com a perspectiva de ter aulas às oito da manhã e ter que se levantar às seis e meia. Gosto de senti-lo já com uma atitude de rapaz crescido, inclusivamente a pensar em quando começar a trabalhar, em ter casa, família, etc. Dos dois outros, futebolistas a sério, com os seus treinos intensíssimos, a ver se começam a levar as aulas um pouco mas a sério. Têm notas altas mas a verdade é que pouco estudam. Mas, em especial o que vai para o décimo funciona muito na base da insustentável leveza do ser, easy going. No futebol é focadíssimo e, quando está a conversar, sai-se frequentemente com argumentos fora da caixa, mas acho que se fia na virgem, acredita que não vale a pena esforçar-se muito nos estudos porque, mesmo nesse regime, a coisa se dá. Mas no décimo e com matemática e física e química, se deixa acumular matéria e não pratica bastante, em especial a matemática, a coisa pode complicar-se. Ainda por cima gostava de tirar um curso cuja média mais baixa de entrada é dezoito e tal. Vamos ver.

Depois de os termos distribuído, fomos eu e o meu marido ao Leroy. O meu marido meteu na cabeça tirar a banheira da nossa casa de banho. Diz que já não se usa, que não vamos para novos e que é melhor um daqueles duches que praticamente nem base têm. Eu acho que duche já temos na casa de banho do corredor, para quê outro? Mas se calhar ele tem razão, na casa de banho que está afecta ao nosso quarto se calhar faz sentido uma coisa assim. Por isso, fomos lá ver o que há, perceber quais as medidas, etc. Tirei algumas fotografias. 

Há pouco, estava a escolher uma fotografia que tinha feito durante a caminhada nocturna para partilhar no instagram e apareceu-me antes uma fotografia de um homem a olhar muito admirado na minha direcção. Fiquei desconfortável. De repente, parecia que aquela fotografia não era minha, que algum hacker tinha injectado uma foto alheia no meu telemóvel. Depois é que percebi que por trás aquilo estava uma cabine de duche e que, ao fotografá-la, nem reparei que estava lá um senhor, por sinal com ar de espantado por eu estar a fotografá-lo. Enfim. Nestas ocasiões é que percebo que sou mesmo despassarada. Como é que lá não vi o homem?

Aproveitámos e trouxémos outras coisas. Espanto-me sempre com isto: como conseguíamos encontrar aquilo de que necessitávamos quando não havia lojas como o Leroy?  Ainda me lembro de ir com a minha mãe a uma drogaria. Era uma loja que vendia produtos estranhos. E havia uma de ferragens, com muitas caixinhas. E havia, ao pé do mercado, uma que vendia sementes, plantinhas para plantar, vasos, coisas assim. Tudo em ponto pequeno. Mesmo já casada e com filhos era assim. E chegava. Agora há mega lojas como o Leroy, sempre cheias, com milhares de artigos, e parece que já nem passamos sem elas. 

Cá em casa, tirámos o funil ao cãoplicado. Atirou-se logo à cauda, a lamber, a lamber. Por mais que disséssemos que não o fizesse e nos zangássemos, não parava. O meu marido pôs-lhe outra vez aquela porcaria. Rosnou, protestou e o meu marido diz que até tentou virar-se. Mas lá lho pôs. Amanhã vamos à veterinária para percebermos o que fazer. Que chatice esta. 

Falei também com a minha menina que está no campo de férias. Animada, no meio de grande confusão, voz e pressa de quem está feliz e sem tempo a perder. Com o mais novo não falo pois ainda não tem telemóvel, apenas mando beijinhos através da mana. 

E é isto. Nem leituras, quase nada de televisão, e pouco mais a dizer.

Obrigada pelos vossos comentários. A ver se amanhã à noite estou mais fresca para me debruçar sobre temas mais interessantes.

E agora vou dormir porque amanhã entre caminhadas, ginásio, veterinária e outros compromissos não me vai sobrar muito tempo. Vida de dondoca é assim: parece que todos os afazeres transbordam da agenda.

sábado, agosto 22, 2026

Biblioteca Humana

 

Pronto, vá, condescedo: nem tudo ali é mau. Nas redes sociais, quero eu dizer. Na realidade, se tenho sido exposta a toda a espécie de parvoíces e de gente sem substância, a verdade é que também tenho feito algumas descobertas interessantes. É verdade, tenho que reconhecer.

Procuro avidamente boas notícias, descobertas de curas, projectos inovadores, novos artistas, coisas e pessoas que, de facto, sejam diferentes para melhor. E tenho sido agradavelmente surpreendida. Parece que as coisas boas da vida deixaram de ser notícia, temos que garimpar para dar com elas. Mas, depois, o algoritmo, sabendo das nossas preferências, vai-nos bafejando com notícias daquilo que sabe que nos interessa. Nem tudo é mau, no meio da maldita engrenagem dos algoritmos que fazem girar a caixa registadora das redes sociais

Ao escrever isto, estava a lembrar-me de uma coisa que republiquei (ou partilhei?, não sei o nome corrente do acto) no Instagram: geradores de energia quer eólica, quer fotovoltaica em 'árvores' urbanas em que as 'folhas' oscilam com o vento e que, na base têm mini-painéis. Ficam bonitas, integram-se nos espaços urbanos, são quase silenciosas e aproveitam cada bocadinho de sol e de vento. Coisas assim, parecem-me interessantes. Neste caso, isto parece-me um gostoso ovinho de colombo.

Daqui

Mas é só um exemplo. Se estivermos atentos, por entre a lixeira a céu aberto em que toda a gente diz e mostra coisas e faz propaganda a marcas e difunde aldrabices ou exibe a sua futilidade e vacuidade, vão-se encontrando alguns oásis. 

Há pouco, por exemplo, apareceu-me uma coisa de que nunca tinha ouvido falar e que me parece verdadeiramente fantástica. Nasceu na Dinamarca. As pessoas vão lá não para escolher um livro mas uma história. Só que a história não está escrita, será dita, cara a cara, através de respostas a perguntas. O conceito é simples: algumas pessoas disponibilizam-se para falar sobre a sua vida ou sobre acontecimentos em particular ou sobre algumas circunstâncias ou sobre a sua própria condição. E os 'leitores' vão até lá, presumo que se inscrevam, sentam-se ao pé da pessoa e conversam. Há condições: não deve haver preconceitos, não devem ser feitos julgamentos.

Acho a ideia fascinante. O hábito de se conversar -- com tempo, sem querer iludir ninguém, sem receio de se ser mal interpretada, dando espaço para pensar, para olhar nos olhos -- tem-se vindo a perder e é pena pois é tão bom, tão, tão bom.

Gostaria de poder participar em coisas assim, quer num papel quer no outro. Estar sentada e aparecer alguém com a mesma disposição que eu: conversar, ouvir, partilhar ideias ou experiências. Pode ser numa sala, pode ser num jardim. A organização da Biblioteca Humana escolhe os locais. 

Do que me informei o conceito já se expandiu, já está noutros países. Da pesquisa que fiz sobre Portugal, vi que tem havido eventos pontuais. 

  • Torres Vedras teve uma Biblioteca Humana em 2026, na Biblioteca Municipal, com pessoas como “livros” e conversas sobre experiências de vida.
  • Coimbra teve uma Biblioteca Humana em março de 2026, no Jardim Botânico, com investigadores como “livros humanos”.
  • Porto teve em março de 2026 uma Biblioteca Humana no Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, integrada no projeto Somos Livros e Livres.
  • A Rede de Bibliotecas Escolares também apresenta o conceito e há escolas portuguesas que o utilizam.

Tomara que se generalizasse. Tomara que em vez de as pessoas estarem isoladas a deslizar o dedo no telemóvel estivessem em jardins ou salas a conversar umas com as outras, com desconhecidos, sobre os mais variados temas. Não é uma ideia incrível?

[Interrompi, entretanto, para ver as notas dos últimos colocados e, se aquilo se confirmar, o meu mais velho entrou onde queria, coisa com a qual contava com razoável à vontade pois tem uma média bastante confortável; mas eu sou de ver para crer. A ser mesmo assim, e há de ser, está, pois, a poucos dias de se tornar um estudante universitário e ir percorrer as mesmas escadarias e corredores que um dos avôs e um dos tios pisaram. Um orgulho. Estou mesmo contente. No entanto, só vou mesmo atirar foguetes quando ele receber o mail com a colocação ou vir no recibo (não me perguntem a que recibo me refiro, só sei que é um recibo de inscrição a que se acede no portal em que se fez a candidatura) que entou mesmo naquele curso, naquele estabelecimento de ensino. E já estive a trocar mensagens com ele, diz que também já tinha visto, só não tinha mandado mensagem geral porque julgava que a esta hora a família estava toda a dormir; esqueceu-se que tem uma vovó coruja...]

 E já é tarde, de facto. Vou pregar para outra freguesia.

Mas, entretanto, partilho uns vídeos sobre as Bibliotecas Humanas.

Na Biblioteca Humana da Dinamarca, pode ler as pessoas como se fossem um livro e 'desjulgá-las'...

Conheça a biblioteca humana, onde ao invés de livros, uma pessoa conta a vida dela para você


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Desejo-vos um sábado feliz

sexta-feira, julho 24, 2026

Ela não dava respostas, ela ficava na pergunta

 

Não sei bem qual o primeiro livro dela que eu li. Sei, isso sim, que me agarrou pelas vísceras. É daquelas coisas que, se eu quiser explicar, não sei bem o que dizer. A ideia que tenho é que ela não contava propriamente uma história, contava o que alguém, ou ela mesma, sentia. Mas sentia a um nível muito elementar. Em geral os escritores falam de eventos especiais, marcantes. Quando muito, numa crónica ou num registo mais diarístico, acontece o autor permitir-se falar de pequenos nadas da sua vidinha, insignificantes impressões. Mas abrir-se um livro, romance ou novela, e uma pessoa sentir aquela sensação estranha de que entrou na cabeça ou no corpo de alguém e que experimenta aquelas dúvidas miúdas que geralmente nunca veem a luz do dia ou aqueles medos ou aflições que nunca se verbalizam, aquela maldade de que se sente vergonha apesar de ser inofensiva, isso é muito estranho. Lembro-me de de avançar de página em página e depois recuar, querer ter a certeza de que tinha lido bem, que aquela escrita existia mesmo da forma como eu estava a assimilar. Uma sensação que era de estranheza, sim, mas, ao mesmo tempo, de grande admiração, uma admiração por algo novo, e, também, de vontade de a ter descoberto há mais tempo. E, reconheço agora, uma vontade de também ser capaz de escavar assim, tão impiedosamente, dentro de mim.

Fui comprando os seus livros. 

Quando o mundo deixou de ser analógico e as pessoas, mesmo as desaparecidas, continuavam vivas nos nossos computadores, comecei a ver como ela era, como era a sua voz, como demonstrava tão cruamente o desinteresse pelas aparências, como não disfarçava o seu cansaço. 

Também morreu cedo de mais.

Alguns dos seus livros, para mim não ser para ler de seguida. Não costumo ler missais mas imagino que abra-se em que página se abrir, está sempre certo, faz sempre sentido. E, se não vier a calhar, abre-se ao acaso noutra página e já vai estar bater certo com o que estamos disponíveis para ler. Assim com algumas das suas coisas. É a escrita pela escrita. Mas isto não significa que seja desprovido de sentido. Significa apenas que é uma escrita que não se encaixa nas escalas a que estamos habituados: é uma escrita multidimensional em que as derivadas e os vectores secindários são tão determinantes quanto os eixos principais e os pontos que por entre eles se deslocam.

Há muitos documentários sobre ela e, às tantas, já não há nada de novo a acrescentar. Mas vou sempre ver. Gosto de ver o seu desapego. Era também assim que escrevia, sem querer saber.

Já aqui o referi antes: nestes tempos de mil solicitações, em que a sua atenção fica cativa dos youtubes, dos influencers, das redes sociais, da omnipresença do futebol, não sei como se instila nos jovens o prazer da leitura. A realidade deles já é quase exclusivamente a das notícias que se descrevem em meia dúzia de palavras, dos vídeos cheios de palavrões, dos jogos e das interacções através das muitas plataformas de partilha de toda a espécie de coisas, sobretudo de lixo. 

Como conseguir que um jovem, mesmo um jovem adulto, pegue num livro dela, tão diferente de tudo, e não desista antes de chegar ao fim da primeira página?

Não sei.

Vou dizer o que disse no outro dia: um dos meus netos fez o 12º. Creio que não leu um único dos livros obrigatórios. Sei que gostou dos Lusíadas, mas não sei se o leu todo. Da maioria dos livros que poderiam sair no exame sei que não leu. Disse que não tinha tempo nem paciência, que precisava do tempo para se concentrar na matemática. E, no entanto, nos testes lectivos teve sempre boas notas. Não lhe disse nada para não o enervar, mas temi pelo exame. Mas ainda bem que não disse pois no exame teve uma nota igualmente alta, nem sei se até um pouco superior à lectiva. Como o conseguiu? Youtube, provavelmente trabalhando em conjunto com a IA na caracterização de personagens ou na descrção do enredo. Não sei ao certo. O que sei é que resultou com o tipo de ensino que temos que, como se vê, não consegue estimular o gosto pela leitura. Em casa cresceu entre livros, sempre testemunhou hábitos de leitura, sempre foi incentivado a ler. E lia. Até que cresceu e começou a ter menos tempo livre e até que foi confrontado com a necessidade de ler livros que não lhe dizem nada. Como é inteligente e facilmente apanha do ar, desenvolveu formas de atingir os objectivos escolares. Mas temo que o prazer de desbravar o infinito mundo da literatura se tenha dissipado, pelo menos para já.

Mas, enfim, o inteligente ministro da educação (letras deliberadamente pequenininhas) há-de também te solução para isto.

O enigma de Clarice

Clarice Lispector não escrevia apenas histórias. Neste vídeo, mergulhamos na vida e na mente de uma das figuras mais enigmáticas da literatura mundial. De sua origem Ucraniana ao auge no Brasil, entenda como Clarice transformou a literatura. Se você já se sentiu um "estrangeiro" no próprio mundo, este vídeo é para você.

E já estamos outra vez numa sexta-feira

Que ela seja feliz

sábado, julho 18, 2026

[Em actualização] Sem rede... mas com muita competência*

 

Finalmente, às onze da noite, saíram as notas na escola de um dos meus netos. Recebi fotografias dos carros e do monte de alunos à porta da escola. Já as sabe, já está aliviado. Pelo menos não foi um dos 'suspensos' cujas notas não puderam ser publicadas porque as provas ou parte das provas desapareceram ou coisa que o valha. Teve as notas que esperava e, portanto, até ver, está tranquilo. 

O do 9º ano, ao contrário do que o ministro anunciou, vai continuar a aguardar, mas, enfim, sendo aborrecido e frustrante, não é determinante para a sua vida futura. 

E, como era previsível, aquela ideia anunciada pelo ministro de que iam disponibilizar a todos os alunos, sem ser necessário pedir, a cópia do exame e a correcção, por mail, não vai acontecer. Só vai ser facultada, caso a caso, a quem a pedir. Como ontem disse, enviar massivamente não seria nada de mais desde que a aplicação tivesse bem desenhada e testada. Agora, anunciado da forma que foi, que pareceu mero improviso, dificilmente correria bem às primeiras. Seria como todo este processo: erros, omissões, dúvidas, atrasos e mais atrasos, e, até ao último momento, o ministro sem perceber o que se passava. E, como parece apanágio deste governo, meteram-lhes na cabeça que a melhor forma de defesa é o ataque e, portanto, no meio da maior confusão de que há memória, teve a lata de aparecer a disparar em todas as direcções: contra os partidos que o criticaram, contra os professores, contra as escolas e, até, contra as famílias que foram imprudentes em acreditar nos calendários. A forma como as escolas e os professores, então, têm sido tratados, ameaçados e desrespeitados é insana, cobarde e revoltante. Ocorre-me, até, a palavra abjecta, mas reservo-a para mais tarde.

De qualquer maneira, parece que para a grande maioria dos alunos*, embora às quinhentas da noite, as notas já estão visíveis e já conseguirão ajuizar se devem pedir revisão ou se podem avançar para as candidaturas à próxima etapa da sua vida académica. 

Como balanço provisório, o que posso dizer é que isto não é uma transformação, não é uma modernização, nem nada do que aconteceu é normal em processos desta natureza: é, isso sim, um processo miserável, toda a gente mais aos papéis do que antes da dita 'digitalização', um verdadeiro atraso de vida, a gastarem pipas de massa, vamos ver se não houve falhas em termos de RGPD, e criando em toda a sociedade a sensação de amadorismo, de incompetência, de falta de rigor. E conduzido por um ministro arrogante, irresponsável, e, cobardemente, a sacudir a água do capote para todo o lado.

* E, tal como eu antecipava, não conseguiram concluir o processo. Não apenas deixaram para trás os alunos do 9º ano como, tal como era mais do que previsível, não conseguiram que todos os ficheiros do 12º estivessem incorruptos, sem registos com problemas (por exemplo, alunos sem classificação, alunos com classificação superior a 20, classificações com items negativos, alunos sem items classificados). Então, fizeram uma coisa que eu nem pensei que fosse legal fazer: avançaram com a divulgação das notas, deixando para trás milhares de alunos (segundo se lê nas notícias, são milhares e não centenas). Alunos sem nota nas pautas. Este governo é assim: passa por cima de toda a folha. Mesmo que a folha sejam alunos e as respectivas famílias que a esta hora devem esar bem ansiosos sem saber o que lhes vai acontecer.

E uma coisa me parece: não apenas a legalidade desta discriminação deveria ser averiguada como a forma como as correcções estão, a posteriori e à pressa, a ser feitas deveria ser muito seriamente auditada. Quem garante que, para ultrapassar o que, em alguns casos, pode ser inultrapassável de forma limpa, não substituem os erros por valores para lá postos à martelada? Marteladas em informática é a tentação óbvia para quem não sabe corrigir as coisas de forma correcta. Ainda por cima, na fase em que se está, de preparação de ficheiros, já não há professores envolvidos que possam denunciar alguma manobra pouco canónica. 

Só espero que os sindicatos dos professores, as associações de directores escolares ou de pais ou os próprios deputados exijam uma auditoria muito séria à forma como os milhares de registos errados, incompletos ou (informaticamente) corrompidos vão ser corrigidos. Read my lips: ponham-se em cima disto.

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Mas já é sábado e, muito francamente, estou sem saco para me ocupar do Fanã-alex (que anda com um cabelo que só me dá vontade chegar-lhe uma máquina de tosquiar cães) e afins. Por exemplo, ao ocorrer-me aquela coisa bizarra do atrelado que estava parqueado num recinto da PJ e foi 'dispensado' ou 'emprestado' (não faço ideia) a um empreiteiro (parece que sem alvará) que fez as obras na casa do Luís Neves, fico a pensar que talvez pudesse aqui dar um lamiré sobre o assunto. Mas, por um lado, nem sei o que dizer, não percebo nada daquilo e, por outro, não me apetece.

Andei a regar. De fato de banho, descalça, de mangueira em punho, aí, sim, aí estou na minha praia. E devia ter varrido mas estava muito calor e o calor derrete-me a energia. Felizmente parece que este sábado a temperatura vai dar alguma trégua e pode ser que consiga sentir aquela pica que me leva a varrer sem parar, a encher carrinhos de caruma e folhas secas e levá-los para os despejar na terra.

Até lá, fico com imagens fantásticas como as desta jovem que, com uma força e uma perícia extraordinárias, se eleva e se contorce e tudo a uma altura perigosíssima. 

(* Perigosíssima, arriscadíssima... e sem rede. Mas isto de fazer coisas arriscadas sem rede é para quem sabe o que faz).

Golden Buzzer: Pólo Aéreo de Veronika Goroshkova atordoa Sofia Vergara | Audições | America's Got Talent 2026


Desejo-vos um belo dia

domingo, junho 28, 2026

Quem é a loura que deixa bilhetinhos de amor a Trump e que é conhecida por 'impressora humana'?
E outras coisas minhas, sem relevância nacional... :)

 

O meu dia foi complicado, com um contratempo muito grande, um transtorno inesperado, implicando total mudança de planos. Mas, se é verdade que fiquei bastante aborrecida, a verdade é que, no meio das chatices, me ocorreram, várias vezes, pensamentos do tipo: 'ainda foi sorte ter acontecido ali', ou 'poderia ter sido pior'. Provavelmente isto confirma mesmo que sou uma pessoa optimista. Tenho ideia que, perante uma chatice das grandes, dantes havia quem dissesse: 'se tivesses partido uma perna teria sido pior'. Se calhar sou dessas. 

E apesar de ainda não conseguir ter o panorama completo das consequências, o que me apraz dizer é que, apesar de tudo, ou melhor, descontando o que de chato aconteceu, o dia acabou bem, estive bem acompanhada, o saldo foi positivo. E, no fim de contas, não é isso que interessa?

Posso ainda contar que, quando estava, em carro alheio, de volta a casa, ouvi que estavam a chegar várias mensagens. Espreitei o telemóvel e era o mais velho a enviar um vídeo para a família, mostrando que tinha cumprido a promessa resultante da aposta. Quando foi a Taça e o Sporting ia jogar com o Torreense (acho que foi o Torreense, não foi?), um dos primos benfiquistas lançou o desafio aos primos sportinguistas: se confiavam que o Sporting ia ganhar, podiam apostar rapar o cabelo, caso perdesse. E apostaram. Têm ambos belos caracóis que, segundo eles, as meninas adoram. E eles, que fizeram cortes elaborados com nomes fantásticos (cortes creio que inspirados nos jogadores de futebol), têm também grande orgulho no efeito que causam no sector feminino. Pois bem, no vídeo, mostrava-se rapado, rapado, rapado. Lindo. Parece outro. Um homem.

Noutro vídeo o primo benfiquista elogiava-o, dizia-lhe que ele tinha sido um homem, tinha cumprido a promessa. Num outro vídeo, já dizia que também ele raparia o seu. E a tia e a mãe diziam que o garboso 'rapado' estava muito bonito.  E está. 

Vamos ver se o mano mais novo também rapa o seu. Fez quinze anos e faz um sucesso entre as meninas que nos surpreende e dá vontade de rir. A minha filha conta peripécias que nos deixam divertidas e desconcertadas. E eu já testemunhei. Estávamos com ele numa loja e vimos uns rapazes e raparigas a olharem para ele, as miúdas com ar embevecido. Diziam o nome dele e falavam que ele jogava no clube onde joga. O meu marido até disse que pareciam que lhe iam pedir autógrafo. A semana passada, ao ver uma fotografia de grupo, os rapazes de fato e gravata, as meninas de vestido comprido, e ao perguntar qual o par dele no baile de finalistas (do 9º ano...), fartei-me de rir com as observações dele. Fiquei a perceber que há várias que gostam dele. Meio desconjuntado, de poucas palavras, todo mais para a acção do que para a conversa, parece, no entanto, que tem mel. No outro dia vi-o a ensinar o primo como é que se fazia para proporcionar a ocasião para beijar uma rapariga. Fartei-me de rir. De facto, leva jeito. Tem o seu quê de descarado. Como é bem educado e muito divertido, fica ali um mix interessante, cai no goto delas. Mas, no que se refere à aposta, diz que elas gostam de lhe mexer nos caracóis e, portanto, não os quer cortar.

Enfim.

Adiante que se faz tarde. 

Enquanto escrevo, Portugal ainda não conseguiu marcar nenhum golo e isso deve deixar decepcionados os milhares de adeptos que se juntaram um pouco por todo o lado. Não consigo prestar atenção, distraio-me. Mais para a frente, aqui estarei a torcer. Agora é apenas música de fundo.

E, entretanto, estive a ver o vídeo que abaixo partilho que é todo ele um desfiar de tesourinhos deprimentes. O mundo de Trump é um mundo doido, tresloucado, distópico, habitado por personagens que nem sei se são sinistras, se são de comédia, se é tudo um ninho de malucos, se é isso tudo ao mesmo tempo.

Os casos, as peripécias, as contradições, os disparates, os escândalos -- tudo se sucede a um ritmo desvairado. 

Desta vez, no meio de mil maluquices, fiquei a saber exactamente porque se fala tanto de uma tal Natalie Harp. E é do além. Nem sei que diga, nem sei que pense. É de loucos. 

Uma fulana, ex apresentadora da Fox, uma loura quase igual a todas as outras louras que por ali andam, com um poder incrível, que lhe leva notícias (só as boas), que lhe prepara informação (favorável), que lhe imprime as coisas porque ele gosta de ler em papel (o pouco que lê, claro, porque, na verdade, não lê nada), que lhe deixa bilhetinhos de amor, que mostra uma adoração patológica por ele, que frequenta os seus espaços mais privados, que tem acesso a informação confidencial, que vai com ele para todo o lado. Diz Michael Wolff que tudo o que ela lhe deixa escrito é para lhe mostrar que quer ir com ele para a cama. E isto diz muito da saúde mental dela. 

Ah, é verdade, suspeita-se que terá sido Natalie Harp que fez o vídeo dos Obamas como macacos ou o de Trump como Jesus. E, volto a dizer, se foi, o que dizer da sua saúde mental...?

Poderia ser uma série televisiva, cheia de personagens exageradas demais, destrambelhadas demais. Mas é a realidade. A que ponto o mundo chegou. Não dá para acreditar.

No outro dia vi um vídeo em que a neta de Trump, uma adolescente, andava pela Casa Branca com uma amiga, a filmar as salas, a sentar-se na cadeira do avô, a mostrar os telefones e os botões encarnados, a rir, toda eufórica de por ali andar, como se andasse na sua própria casa.

Tudo doido.

Mas nada como Joanna Coles e Michael Wolff para passarem a pente fino as mais recentes maluquices de Trump.

Porque é que o círculo íntimo de Trump teme a sua companheira loira de 34 anos | Dentro da cabeça de Trump

Michael Wolff e Joanna Coles analisam mais uma semana extraordinária na presidência de Donald Trump, desde uma importante vitória no Supremo Tribunal que pode expandir drasticamente o poder presidencial até à linha cada vez mais ténue entre a Igreja e o Estado, as consequências políticas do frágil cessar-fogo com o Irão e porque é que Trump pode, mais uma vez, escapar às consequências de um revés na política externa. Investigam também o mistério em torno de Natalie Harp, a dedicada "impressora humana" de Trump, à medida que novas reportagens corroboram as revelações inicialmente exploradas por Wolff; examinam por que razão o New York Times só agora está a aceitar a ideia de que Trump governa por obsessão em vez de estratégia; debatem a mais recente fixação de Trump com o espelho de água do Lincoln Memorial; e revelam os estranhos cálculos políticos por detrás das comparações de J.D. Vance com Nixon.

Desejo-vos um belo dia de domingo

quarta-feira, junho 10, 2026

Camões

 

A falta de produtividade dos portugueses tem muitas explicações e, se calhar, a mais razoável terá a ver com a genética. Muito tempo gasto em coisas que não interessam, muita conversa gasta a remoer à toa, muita burocracia, muito enrolamento. Provavelmente tem também a vem com aquilo de que fraco rei faz fraca a forte gente: maus gestores que orientam mal quem deveria ser encaminhado para fazer coisas úteis e, em vez disso, está a perder tempo em renhonhós. E a malta aceita. Genética. Brandos costumes. Delicadeza. Por delicadeza deixamo-nos morrer, dizia o outro. Nós também. Não procriamos, envelhecemos, velhos no meio de velhos.  Deixamo-nos ir.

Não nos valorizamos.

Por exemplo, em qualquer outro lugar em que a malta esteja virada para valorizar a língua, as grandes histórias e as grandes figuras da história, já haveria filmes, séries, telenovelas. E mil documentários. E banda desenhada. E desenhos animados. E tudo e mais um par de botas a falar de Camões. Numa altura em que há tanto camelo a perorar contra os imigrantes, esses pobres que vêm de longe para tentar a sua sorte no nosso país, não seria interessante mostrar como foi quando fomos nós, também metidos em barquinhos, atravessámos mares em busca de um mais promissor futuro? Não se poderia usar a nossa literatura para retratar, de forma apelativa, inteligente, tantos personagens marcantes da nossa história, da nossa literatura?

Mas não fazemos nada disso. Modestos. Ou desfocados. Se passo o comando pelos canais, nos programas generalistas, se é ficção, é só porcaria: intrigas, traições, agressões, chantagens, mas tudo uma coisa rasca, personagens sem substância, tudo inventado por gente sem mundo, sem cultura. Uma patetice pegada.

O meu neto que está a acabar o 12º e que tem que ler os 'obrigatórios', passa-se com o que acha uma coisa sem ponta de interesse. Não sei se foi o Antero de Quental que o tirou do sério, já não me lembro, estava irritado, não percebia como é que um 'gajo' daqueles conseguia gastar tanto tempo a escrever coisas que não interessavam para nada, dizia que o 'gajo' devia ser um parasita para, em vez de trabalhar, estar só a escrever coisas a dizer mal, a carpir. Quando o ouço fico meio desconcertada pois quero argumentar mas, ao mesmo tempo, conheço-o bem: o mundo dele é outro. Se eu, quando estudei ou li estes autores já me cansei, imagine-se o que é, nos tempos de hoje, com as mil solicitações de hoje, continuar com um programa em que os alunos nem percebem porque é que estão a perder tempo com aquilo. Não sei qual a alternativa, estou a falar sem ter uma solução para apresentar. Mas estou em crer que se os alunos tivessem pequenos vídeos bem feitos, biográficos, filmados como ficção, ou alguém a ler, com voz bem posicionada, alguns trechos, talvez se sentissem mais cativados. Ou se os pusessem a eles a ler outros poetas ou prosadores, mais actuais, talvez se sentissem atraídos. Não sei. Não sou entendida na matéria.

Ainda me lembro do desespero do meu filho, provavelmente no seu 12º, deitado no sofá da sala, passado, enervado, a atirar Os Maias para o chão, a achar que não ia conseguir ultrapassar o que lhe parecia uma monstruosidade intransponível. Dizia: 'Já li não sei quantas páginas e não passa da decoração da sala, dos cortinados, e sei lá mais o quê! Não consigo!'. E, tanto o desespero, já nem assimilava o que lia. No outro dia o meu cão levou uma injecção e a veterinária dizia: 'Esta dói muito, o líquido é muito espesso'. Era o caso de Os Mais, assim, na base da injecção.

Curiosamente, este meu neto surpreendeu-me ao dizer que, por acaso, a Os Lusíadas até tinha achado piada. Disse assim. Achou piada. E eu achei piada a ele ter achado piada a Os Lusíadas que sempre foi aquele calvário que os estudantes tiveram que percorrer. Não sei se ainda se dividem orações de estrofe em estrofe, um absurdo quebra-cabeças que nem sei como não me fez odiar a língua portuguesa. Mas deve ter um bom professor pois achou piada a Os Lusíadas.

Esse meu neto teve 19 em interpretação de um livro que não leu. Já tinha tido, salvo erro, um 18 num trabalho ou numa apresentação sobre Os Maias, que identicamente não leu. Mas preparou-se. Quem o ouça, jurará que domina aquilo de trás para a frente. Sabe caracterizar os personagens, disserta sobre o enredo, tudo na mouche. E sem ler os livros. No outro dia, telefonou-me a perguntar-me coisas sobre O Ano da Morte de Ricardo Reis. Não me lembro o suficiente para esclarecer um aluno que vai fazer exame nacional de 12º, pelo que lhe perguntei porque não lia o livro. Respondeu que nem pensar, não tinha tempo, tem muita coisa para estudar, tem que se preparar bem a Matemática e também a Português. Acabei a sugerir que 'trabalhasse' em conjunto com o Claude. De resto, a minha filha diz que o ouve a falar, julga ela que com o Gemini, tu cá, tu lá, ele faz-lhe perguntas, inclusivé de Matemática, e 'ele' responde-lhe. E é assim que ele se prepara. Assim e vendo vídeos. 

Bem lhe falo na maravilha que é ler. Diz que não tem tempo. E não tem: é a escola, é o futebol que pratica, é o ginásio, é a namorada, são os amigos, são as festas, é o futebol a que assiste, são as contratações e as equipas de futebol que conhece ao pormenor, são os concertos, no outro dia foram todos para uma coisa qualquer de wrestling, há de ser a praia quando começarem as férias. Não há tempo para ficar em casa sossegado a ler um romance ou a ler poesia. E não vale a pena estarmos a idealizar que era importante que conhecessem, e bem, o Alexandre Herculano, o Antero de Quental, o João de Deus, o Eça de Queirós, o Saramago, o Pessoa,  pois o mundo perfeito é coisa que não existe. Era importante... era... se eles vivessem num outro mundo ou se esses autores lhes fossem apresentados de uma maneira que encaixasse na vida deles.

No outro dia li uma reitora não me lembro de que escola a dizer que estamos a preparar os jovens para um mundo que já não existe. Concordo. 

Não sei quem é que faz os programas escolares mas, no tempo da Inteligência Artificial, das redes sociais e da informação toda, a toda a hora, em todo o lugar, todo o método e o currículo escolar deveria ser repensado. O saber já não está só nos livros: o saber está em todo o lado e está misturado com toda a espécie de coisas -- com diversão, com manipulação, com 'toca e foge', com invenção, com tudo o que se possa imaginar.

Ainda assim, porque hoje o dia é de Camões e da nossa maravilhosa língua e do nosso querido País, partilho um vídeo. Antigo. Antiguinho. O género de coisa em que os meus netos não pousam os olhos nem por um minuto. Eu gosto de ver, tenho tempo, tenho paciência. Mas porque não se fazem documentários interessantes, com o género de filmagens que prendem os jovens, uma coisa mais picada, repicada, com cor, com alguma provocação, com movimento, mais curtos?

Quem és tu Luís Vaz de Camões?


Desejo-vos um belo dia

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Para fechar um dia de festejo aquariano, Jen conversa com Joanna e é um gosto ouvi-las a comentar a petite histoire que se esconde por detrás da História
(no caso, a História em tempo real)

 

Cheguei aqui com vontade de falar da canção incrível que um dos meninos compôs para surpreender o avô, e que até me comoveu. O destinatário, que não é de grandes arroubos, também ficou sensibilizado, Claro que quando digo que o menino compôs é uma forma de expressão. Uma forma de expressão um pouco assustadora, confesso. Ele fez a letra, uma letra certeira, divertida, amorosa. Mas, depois, recorreu à Inteligência Artificial para a música e a para a interpretação. A minha filha sugeriu que apelasse ao género Zeca Afonso. Ficou perfeito. Se não tivessem dito, julgaríamos que alguém tinha composto a música e alguém, pessoas de verdade, tinham tocado a música e cantado. Incrível.

[Qual o impacto que isto terá no futuro nem sei avaliar. Quando alguém quiser uma banda sonora para um filme ou para uma novela ou para o que for, imagine-se a diferença, a nível de orçamento...]

O restaurante tinha uma televisão gigante que os meninos pediram para pôr creio que na Sport TV. Por superstição (tema, aliás, abordado na letra da canção), o avô não viu. Mas sofreu, quando a ala benfiquista festejou, e animou-se quando a ala sportinguista festejou, em especial, no final do jogo em que um deles, justamente o autor da canção, soltou um grito digno de um verdadeiro leão.

Escuso de dizer que o jantar foi a animação e a festa de sempre. 

Depois de chegarmos a casa, recebemos uma outra canção, um dos outros meninos enviou uma outra canção, um verdadeiro hino benfiquista sobre o jogo do outro dia e sobre o golo do Turbin. E francamente é a mesma sensação: está incrível, parece que uma banda interpreta a sério uma canção feita de propósito para festejar o jogo do outro dia, jogo que ele e o pai viram, ao vivo, no Estádio da Luz. Claro que a letra é obra do inspirado menino mas o resto é obra da AI. Se ouvissem, podem crer que ficariam admirados.

Mas, se vinha para aqui conversar sobre isto, a verdade é que ao ligar o computador, a realidade impôs-se. E nem falo das consequências da Kristin e do que se teme com a subida das águas e com a chuva que não para. Falo agora das trumpalhadas que têm andado a infernizar a vida a meio mundo.

...   ...   ...   ...   ...

Não tenho dúvida que estamos a viver tempos que ficarão para a História. Tal como Mark Carney frisou no seu memorável discurso de Davos, este não é um momento de transição mas sim um momento de ruptura. Como uma falha tectónica que se acentua, de dia para dia, levando ao afastamento de umas placas e à aproximação de outras, assim as fissuras políticas que afastam os que antes eram aliados e que agora se comportam como adversários levando a inesperadas aproximações. E o que tomávamos por adquirido revela-se, de súbito, inexplicavelmente frágil. Os paradigmas caem ao mesmo ritmo a que se assiste a insólitas ameaças, a perigosos atentados à liberdade e à integridade dos cidadãos.

Se tudo isto se deve a uma demencial avalancha de decisões aleatórias, destinadas a desviar as atenções de crimes ainda mais graves, ou se isto tem por origem um caso extremo de narcisismo maligno e cruel ou se é apenas o caso de um velho demente que está a ser manipulado por forças 'poderosas', umas ideológicas outras meramente corruptas, não sei. Talvez seja uma mistura de tudo. Mas tudo vem em catadupa, uma permanente avalanche difícil de acompanhar. As televisões, os jornais, os podcasts chamam analistas políticos, historiadoras, comentadores de economia, finanças, geo-estratégia, psicólogos, médicos -- de tudo um pouco. As justificações dividem-se, multiplicam-se... mas conclusão que a todos convença isso nem pensar.

Se Joanna Coles é uma daquelas conversadoras que dá gosto acompanhar pois ri com espontaneidade, tem apartes oportunos ou divertidos, mostra uma curiosidade muito pessoal, não deixa escapar uma deixa, Jennifer Welch é uma das podcasters a quem meio mundo presta cada vez mais atenção. Sabe escolher os convidados, tem um sentido crítico apurado e uma acutilância que, em minha opinião, condiz com o seu fácies.

Nesta conversa (relembro que poderão escolher a opção da legendagem e, aí, na autotradução, escolher a língua portuguesa), elas conversam sobre grande parte dos temas da actualidade mas fazem-no de forma livre, com observações que não é por serem engraçadas que são menos relevantes.

Why Thin-Skinned Trump Is Just Like a Teenage Girl: Welch | The Daily Beast Podcast

Trump, tão sensível, é como uma adolescente

Jennifer Welch, do podcast de sucesso "I've Had It", junta-se a Joanna Coles enquanto as notícias se descontrolam completamente — da detenção de Don Lemon e do que Welch chama um caso de teste assustador para silenciar jornalistas independentes, à súbita enxurrada de arquivos de Epstein, às manobras jurídicas do Departamento de Justiça e à profunda vingança de Trump contra a imprensa, que dura há décadas. Welch disseca o mito da masculinidade no cerne do movimento MAGA, a adoração submissa ao homem forte que o sustenta e a cultura evangélica que ignora o abuso enquanto prega a autoridade moral. Ao longo do caminho, Welch liga a exploração, o ressentimento e a repressão num único sistema operativo que alimenta o trumpismo — e levanta a questão que paira sobre tudo isto: se esta é a fase de teste autoritário de Trump, o que virá a seguir quando as proteções finalmente cederem?


Desejo-vos uma boa semana

segunda-feira, julho 28, 2025

Um domingo feliz

 

Festejámos, em família, o último aniversário de Julho, o terceiro. Daqui por poucos dias iniciam-se os de Agosto, mais três. Bem quero manter-me na linha, mas as tentações são sempre mais que muitas. Claro que eu poderia manter-me de boca fechada, em especial quando chega a hora dos bolos. Mas com a falta de açúcar que entra na minha dieta rotineira, quando me apanho com um doce à frente nem tento controlar-me. Pelo contrário, sobe em mim uma insana vontade de me desforrar, vontade essa que não contrario.

De cada vez que nos encontramos pasmo com o que está a acontecer-me. Estou, de dia para dia, relativamente mais pequena. Uma coisa que me deixa diminuída, digamos assim. E, contudo, fora deste contexto há quem me ache alta. Alta eu sei que não sou mas, caraças, também não sou uma anãzinha. Mas é assim que me sinto quando estou ao pé dos mais altos. E repare-se que a meio da semana almoçámos com dois dos meninos e no domingo anterior tinha estado com todos. Portanto, não passou um mês desde que os tinha visto. E, no entanto, juraria que este domingo estavam todos mais altos. Já ao fim do dia, fiz questão de me fazer fotografar entre os dois rapazes mais altos. Grandões, peludos, cabeludos, com o braço sobre os meus ombros, tenho que virar a cabeça para cima para lhes ver a cara. A impressão que me faz o ritmo a que isto se processa. 

A minha menina também já está uma mulher. No outro dia, andando em passeio, estava a apanhar banhos de sol sobre uma rocha e a fotografia que o meu filho enviou tinha sido tirada de um ângulo em que eu não via muito bem a cara. Parecia-me ela mas achei que pelo corpo não podia ser, devia ser a mãe dela. Virei o telemóvel para ver se a via de frente mas o telemóvel rodava a imagem. Só então reparei na minha nora, de pé, na água, junto à rocha. Só visto. Também já me ultrapassou. Com os seus olhos claros, toda ela grande, faz-me lembrar as jovens do norte da Europa. O mano seguinte também está mais alto, claro, quase a apanhar-me. Mas ainda não entrou naquela fase da adolescência em que, quais feijões mágicos, deitam corpo diariamente. O mais novo, ainda na primária, evidentemente ainda se mantém um menino (apesar de um espertalhão e de um reguila de primeira, o que não é de admirar face à 'escola' que tem de todos os lados - para além dos dois irmãos, pelo lado do pai tem dois primos e, pelo lado da mãe, tem mais quatro; isto já para não falar dos primos em segundo grau e dos inúmeros filhos dos amigos dos pais).

Enfim, é a vida a florescer, uma primavera radiosa.

Os telemóveis têm vida própria e o meu volta e meia, geralmente à noite, dá um toque que me parece o de uma mensagem a chegar. Vou ver e é para me dizer e mostrar que tem uma nova história. . Há dois dias era uma história de há 3 anos. Por sua alta recriação, junta fotografias, passa-as de carreirinha como um vídeo e junta-lhe uma música. Quando fui ver até estremeci. A primeira era da minha mãe, toda sorridente, jovem, bem encarada, elegante. Estávamos no Algarve. Um dos meninos já estava espigado mas o que hoje está já da altura do mais alto ainda era um menininho, bem mais pequeno, nem se compara, carinha de menino. O que eles cresceram nestes três anos nem dá para acreditar.

Fiquei a pensar que a minha mãe, naquela altura em que respirava saúde, em que andava pela praia sem se cansar, sempre na boa, em que, a caminho dos noventa, nos deixava pasmados com a sua vitalidade, mais do que certamente já tinha o mal a crescer dentro dela. Aliás, creio que foi pouco depois disso que fez um exame que alertava para a probabilidade de haver ali um problema, recomendando exames complementares, exame esse que ela escondeu de toda a gente bem como escondeu o facto de a médica lhe ter telefonado duas ou três vezes a insistir para ir fazer o exame e a informá-la do que poderia vir por aí. Mas, na altura das fotografias no Algarve, por tudo o que me recordo e pelo seu ar tranquilo e bem disposto das fotografias, tenho quase a certeza de que ela pensava que estava tudo bem. E como não, se não tinha qualquer sintoma? Sabia, isso sim, que tinha insuficiência cardíaca, mas não era nada de especial e os médicos diziam que, na idade dela, era normalíssimo. Estava medicada e eu estava descansada. Nunca a vi a tomar um único comprimido que fosse, mas, se eu lhe perguntava, dizia que já tinha tomado e que depois voltava a tomar à noite, antes de se deitar. Porque haveria eu de desconfiar? No entanto, poucos meses depois vim a descobrir que a insuficiência cardíaca se tinha agravado e que, se eu sabia que um dos comprimidos ela se recusava a tomar por achar descabido e com muitos possíveis efeitos colaterais (julgando eu que a médica estava ao corrente dessa sua decisão e a relevava), muito provavelmente também não tomava o outro que eu julgava que, para ela, era pacífico. Mas, naquela altura, ela estava tão bem que eu não tinha razão para duvidar de coisa alguma. Isto há três anos. E ela já morreu há ano e meio. Ou seja, tudo o que se passou, passou-se muito rapidamente e de uma forma muito incompreensível para mim pois a gestão que a minha mãe fez do seu quadro clínico deixava-me muito confusa. Com o que vim a descobrir aos poucos, estou em crer que o que a arrasou mais e motivou as suas decisões foi o seu pânico em tomar medicamentos e, com certeza, muito mais, em fazer quimio ou radioterapia. Preferiu fazer de conta que tomava os medicamentos e, sobretudo, preferiu fazer de conta que não sabia o mal que tinha.

Mas, enfim, não vale a pena estar a pensar nisto. Tenho que pensar que, com a idade que tinha, provavelmente não poderia mesmo fazer tratamentos agressivos e viveríamos todos na angústia de saber que não viveria muito. Assim, pensávamos que não tinha nada e ela não se viu forçada a ser tratada como uma doente terminal. E, se calhar, acreditou naquilo que em que falávamos muitas vezes: nestes casos, a idade joga a favor, as células já não se multiplicam rapidamente. Aparentemente tinha esperança de viver muitos mais anos e isso também foi bom.

Hoje os meninos lembraram-se dos belos crepes que ela fazia. O mais novo disse que nunca mais tinham comido daqueles crepes. Não sei quem disse que, sim, já tinham comido, sim. Ele esclareceu: 'Feitos pela avó não'. Apeteceu-me comentar que ficava contente por se lembrarem dela. Mas não quis parecer que estava a querer puxar ao sentimento, pensei que isso poderia deixar os miúdos constrangidos, poderiam pensar que me estavam a entristecer ao falarem nela. As coisas devem ser naturais. É bom que percebam que a vida continua, que a alegria deve viver entre nós, juntamente com as memórias que cada um guarde.

Quando chego ao fim do post, penso como hei-de resumir tudo num título. Agora vacilo. Ia escrever 'Um domingo feliz com saudades dentro' mas vou deixar ficar só o 'um domingo feliz' porque as memórias e as saudades não têm que macular a felicidade. Não maculam. Integram-na.

ººººººººººº       ººººººººººº      ººººººººººº       ººººººººººº

E ia escrever sobre mais uns vídeos que, agora à noite, vi com declarações de várias mulheres que foram vítimas de assédio e abuso por parte do Trump, mas, vejam só, derivei para esta conversa. Acontece, não é?

ººººººººººº ººººººººººº ººººººººººº ººººººººººº ººººººººººº ººººººººººº

Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

quarta-feira, junho 18, 2025

Uma aventura no IKEA


No fim de semana, estávamos aqui à mesa, diz um dos meninos: 'O que eu gostava era de ir ao Ikea comer almôndegas.'. Ficámos estupefactos. Ao Ikea?! Almôndegas do Ikea?!?!?!

Toda a gente o contestou. Quem é que quer ir ao Ikea? E quem é que, ainda por cima, quer ir comer almôndegas? Dahhhh....

Mas o menino dizia que gostava mesmo de ir. Perguntei à minha filha porque é que não satisfazia o filho, se era coisa que ele queria assim tanto. Respondeu que pagava para não ir ao Ikea. E muito menos iria lá comer almôndegas.

E a conversa ficou por ali.

No dia seguinte, intrigada, perguntei à minha filha de onde conhecia ele as almôndegas do Ikea. Disse que, dantes, a sogra costumava ter em casa almôndegas congeladas e, quando apareciam os netos para almoçar, descongelava-as. Se calhar não era sempre, se calhar aconteceu algumas vezes. Mas as suficientes para o menino sentir saudades.

Acresce que está de férias e, tirando os treinos de futebol, pouco tem que fazer. Um dos primos do menino também está de férias.

Então, ocorreu-me o seguinte: 'E se fossemos buscar um e outro e fossemos com os dois  ao Ikea comer almôndegas?'

O meu marido foi categórico: não, não e não. Nem Ikea nem almôndegas. Segundo ele, um disparate sem sentido. Nem pensar em ir enfiar-se no Ikea, nem pensar ir para o restaurante do Ikea, nem pensar em almôndegas. Não e não e não. Assunto encerrado.

Fui ver o menu do restaurante e vi que há outras iguarias. Li-lhe.

E falei-lhe no prazer que daríamos ao menino que estava com saudades das almôndegas. E o primo, certamente, ficaria feliz por ir também.

Auscultei os respectivos pais. Por eles, sim. 

Mas o mano do primeiro também quis ir. E a menina, que eu pensava que estava com aulas, afinal esta terça-feira não as tinha, pelo que também estava livre e também quis ir. 

(O mais novo se calhar nem chegou a saber desta aventura... Está ainda na escola.)

Pôs-se, pois, o tema logístico. O carro só dá para cinco... 

Então fomos buscar dois, depois eu e a menina ficámos no Ikea e o meu marido e o outro menino foram buscar os primos.

Foi, pois, dia de festa. A alegria de estarem juntos num programa tão fora da caixa...

Todos contentes, com carrinhos, lá fomos buscar a comida. Comeram wraps de salmão para entrada, os rapazes comeram almôndegas, dose maxi, 12 almôndegas cada, com puré de batata, bolo, água (o mais crescido bebeu coca-cola, já se sente um rapaz crescido...). Quis que levassem salada mas disseram que não, que a alface do wrap era suficiente... Dois dos meninos levaram uma peça de fruta, os outros não quiseram. Ficaram a deitar por fora, todos contentes com o pitéu... Eu comi lombo de salmão, o meu marido e a menina comeram pernil estufado. 

Depois, surpreendentemente, na saída, entusiasmaram-se com os peluches. 

Já crescidos... mas parece que lhes deu a nostalgia dos peluches. Ela trouxe um alien, o mais crescido um pinguim que diz que é para oferecer à namorada pois estão quase a fazer 6 meses de namoro, outro trouxe um macaco e disse que era para o irmão e o menino que teve a ideia inicial das almôndegas trouxe uma bola de futebol mas ficou com pena de não ter trazido também um macaco (ficou prometido para a próxima). 

Os pais, quando viram as fotografias que lhes tirei a andarem com os peluches nem queriam acreditar. Mas eles estavam radiante. Um dos meninos disse que aquilo deveria passar a ser uma tradição, nas férias irmos todos almoçar ao Ikea (não sei se sempre almôndegas ou se a tradição admitirá variantes).

Depois um dos meninos pediu para ficar em casa dos primos, os três sozinhos em casa. Obtidas as devidas autorizações, assim foi, lá ficou. A menina ficou um pouco tristonha mas tem exames, tem que estudar, e logicamente não tinha levado os livros, tinha mesmo que ir para casa. 

Para o lanche, ainda lhes comprámos lá, ao lado do snack, umas panquecas congeladas e bolachas. Os anfitriões não queriam, que há muita comida em casa, que não, que não. Mas depois, na perspectiva das panquecas e daquelas belas bolachas, aceitaram. Disseram que poriam as panquecas no microondas e as comeriam com mel.

Soube depois que, enquanto o mais crescido estava a estudar para o exame, o menino que está de férias foi com o primo, os dois sozinhos, ao supermercado comprar nutela com o seu próprio dinheiro.

Claro que o pior foi o trânsito que depois apanhámos, uma seca das valentes. Fomos pôr a menina a casa que, imagino eu, não deveria estar com grande vontade de ir estudar... Os exames deveriam acontecer no outono ou no inverno ou no início da primavera. Agora exames no verão é um sacrifício para os jovens...

E ainda fomos comprar tinta para pintar o resto do muro e mais ácido muriático e mais uma série de coisas. Um calor dos diabos. 

Mas foi um dia muito bom. Gostei muito. E o meu marido também estava contente. Não é preciso muito para as pessoas se sentirem felizes.

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Uma boa quarta-feira

Be happy

sábado, maio 10, 2025

Em dia de cenas variadas e de animada conversa política com dois sportinguistas de gema

 

Andamos às voltas com equipamentos de aquecimento que faziam (e fazem) parte da casa. O filho dos ex-donos é um engenheiro que não é daqueles teóricos, é todo do tipo engenhocas. E, do que percebi, quando jovem (e ainda é jovem) terá pensado formar uma empresa e, talvez para se treinar (ou para facturar, não sei), foi montando coisas em casa dos pais. Tudo do bom e do melhor, verdade seja dito, mas nada standard, nada documentado, tudo de uma redundância e complexidade tais que ainda não desencantámos quem aqui chegue e perceba o que vê.

Tudo estaria bem se o jovem, por sinal super prestável e simpático, se tivesse mantido no 'ramo' e pudesse dar assistência. Mas não, já não está nessa. E também já não se lembra. Já comprámos a casa há quase 5 anos e a montagem de toda esta incrível traquitana deve ter acontecido bastante antes. Portanto, é natural que não se lembre.

E o que acontece é que vem um e vem outro e olham para isto tudo, equipamentos, bombas, manómetros, termómetros, tubos em todas as direcções, e ficam sem saber onde mexer. Pior, com medo de mexerem. 

No outro dia, já esta semana, veio um senhor simpaticíssimo, aumentou a pressão, purgou, injectou um líquido, fez lá o que entendeu... e o problema principal manteve-se. Hoje regressou e, depois de andar às aranhas durante não sei quanto tempo, resolveu mexer numa válvula que está num outro local e que, aparentemente, nem tem a ver com este filme... e, como por magia, o problema resolveu-se. Mas nem ele soube explicar nem eu consegui perceber. E fico com a sensação que foi uma solução um bocado às três pancadas pois resolveu-se agora mas, no inverno, quando ligarmos outro equipamento, ficaremos com outro problema. Mas, pronto, agora parece que está e só posso dar-me por contente.

O meu filho sempre disse que uma coisa tão extraordinária e tão complexa em vez de um activo, de uma mais-valia, pode tornar-se num passivo, uma dor de cabeça. Vários técnicos que cá têm vindo têm dito que, por eles, acabavam com tudo e montavam uma coisa simples. Mas quando se fala na possibilidade de o fazerem, fazem marcha atrás pois o desmontar tudo o que para ali está parece ser, em si, também bastante complexo.

Como sou curiosa, para tentar descortinar o funcionamento daquela parafernália, já recorri ao chatgpt, mostrando fotografias. Elogiou bastante o sistema e fez uma série de recomendações que igualmente não compreendi.

Tirando este tema que esta sexta-feira de manhã nos obrigou a andar de um lado para o outro, a abrir portões para passar equipamento, depois ir buscar uma escada para ir ao telhado, depois uma mangueira para juntar água ao produto, depois desligar uma coisa no sótão, depois ir ver outra coisa não sei onde -- isto dividido entre mim e o meu marido depois de termos o cão devidamente isolado, o cujo ladra freneticamente  -- hoje fomos almoçar com dois dos meninos. 

Depois fomos ver se comprávamos um corta-sebes telescópico mas que, afinal, só por encomenda. Aproveitámos ainda para ir a outra loja pois o meu marido queria comprar uma daquelas mantas térmicas de emergência. Claro que aproveitei para trazer umas coisitas para mim. Antes comprava roupa que desse para o trabalho e para situações equivalentes a nível de exigência. E o que agora verifico é que me faltam peças simples, nomeadamente para usar no ginásio. Por isso, trouxe duas blusinhas daquele tecido muito fininho e com buraquinhos que deve ser para arejar. E uns calções também de tecido maleável, meio curtos mas não shortinhos. Vim de lá bem contente com os materiais -- imagino que se lavem bem e sequem ainda melhor, obviamente sem precisarem de ser engomados -- e com as cores e os feitios.

Devo também dizer que já há caracóis (cozinhados) à venda. Por isso, ao jantar, para além da sopinha, comi caracóis. Não me pareceram excepcionais mas creio que o problema estava na cozedura, parece que estavam um bocado mal cozidos. Mas, ainda assim, bastante razoáveis.

Claro que tudo isto, dito assim, parece que nada vale muito. Mas vale. Ao almoço, estivemos a conversar sobre profissões e sobre política, incluindo a questão dos impostos e das contribuições sociais. E gostei imenso. Os manos são muito diferentes: um mais liberal, mais puxando ao pai, outro com uma consciência social apurada, mais na linha da mãe. Ouvi-los a argumentar, a forma como se rebatiam, se chamavam mutuamente a atenção para alguns aspetos, foi uma agradável surpresa. Um tem dezasseis anos, outro catorze recém feitos, e a forma ponderada, abrangente, como o mais novo, ainda tão novinho, falou sobre estes temas, deixou-me com vontade de o encher de beijinhos. E ao mais velho, tão impulsivo, com uma tal verve argumentativa, também. Meus ricos meninos. Dois futebolistas, além disso. Sportinguistas, claro -- em stress pelo jogo, já a fazerem figas para irem festejar para o Marquês.

E agora não vem muito a propósito mas vi este vídeo e gostei imenso, imenso. E, portanto, aqui está.

Teenager Forced To KILL Friend: Shocking Story from Stranger's Past


Um bom sábado

segunda-feira, setembro 30, 2024

Profissão: plantador de árvores

 

Um dia de outono perfeito. Ou, se quiserem, um dia perfeito de outono. Ou um perfeito dia de outono. 

Um dia com tudo de bom. 

Claro que poderia ter sido ainda melhor, ainda mais perfeito, se o menino mais crescido também cá tivesse estado. Mas está a ficar um homem, já quer ter o seu espaço para confraternizar com amigos e amigas. É natural. Mas parece que já prometeu que, para a semana, vem. E eu ficarei feliz.  

O menino mais novo, enquanto estava a andar de bicicleta, disse ao pai que quando se sente mais livre é quando anda de bicicleta e quando joga futebol à chuva. Não é surpreendente que uma criança de sete anos diga uma coisa assim?

São todos incríveis, surpreendo-me com todos, fico feliz por todos eles, sejam eles as crianças ou os pais deles. Só tenho razão, mil razões, para me sentir feliz e, sobretudo, agradecida.

E o jardim está muito agradável, a temperatura amena e o ambiente aconchegado, e a luz dourada torna tudo ainda mais amistoso, mais tranquilo. E eu adoro quando estamos em volta da mesa, parece que a serenidade nos envolve. Nestes momentos quero lá eu saber do limitado Montenegro, do desestabilizador Marcelo. A alienação é isto, não é? Pois. Mas de vez em quando sabe bem a gente alienar-se, afastar-se de gente tóxica que só baralha e confunde e cria problemas.

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Acho que este vídeo faz aqui sentido. Uma pessoa ter a vontade e a coragem de ir para um espaço público plantar árvores, transformar um espaço baldio num pulmão verde de uma movimentada cidade, é louvável, é poesia, é uma maravilha, um encantamento, uma beleza, um sinal de esperança.

Conheça seu Hélio, o plantador de 33 mil árvores em São Paulo

Na região da Penha, gerente comercial transformou área abandonada no 1º parque linear da cidade

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Desejo-vos uma boa semana 

quinta-feira, julho 11, 2024

O bonequinho das Finanças diz que está a contar com o ovo no cu da galinha e tudo, segundo ele, consequência do "pacotão".
Uma espécie de segunda derivada na lógica do dito bonequinho

 

São onze e tal (da noite) e, ao tentar perceber se o planeta Terra ainda existe e, em particular, se o nosso mini e fofo rectângulo ainda está a salvo da sanha dissolvente do super-comentador Marcelo, dei com a bizarra notícia de que o conhecido Mãozinhas, aka Sarmento, está a contar com um excedente orçamental neste e no próximo ano. Apesar de andar a dar massa a quem pede e a dar borlas fiscais a quem pode (com p), pensa ele que, face ao bodo aos ricos, estes soltarão a franga e desatarão a investir e a aumentar o pagode e que, qual milagre, o pão transformar-se-á em rosas e a água em vinho e, apuradas as contas, vai sobrar dinheiro que será um fartote.

Que o Marcelo se fia na Virgem já a gente sabe e também estamos todos carecas de saber no que a coisa tem dado. Agora o Montenegro fiar-se no bonequinho já me parece risco a mais.

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Provavelmente toda a gente sabe qual o novo significado da palavra bonequinho. Eu, até ontem, não sabia. E porque pode haver por aí, a ler-me, mais gente também desactualizada, eu explico.

Conversando com o meu neto mais velho, um galã que já teve várias namoradas e que tem agora a teoria de que com a dedicação ao futebol (é guarda-redes já na competição o que o obriga a treinos diários e jogos ao fim de semana) e com a necessidade de levantar notas (ah pois), dizia-me ele que, a partir de agora, não vai ter tempo para namoros. Enfim, raparigas isso vai continuar a haver, claro, agora namoros a sério não, não tem tempo e, para ser franco, elas cansam-no um bocado. Presumo que se refira às combinações de idas ao cinema, à praia, aos passeios, aos lanches, às mensagens. E que não percebe isto de alguns amigos, aos 15 anos, acharem que encontraram o amor da vida deles e já pensarem que aquela é a pessoa com quem vão casar. 

Achei muito pragmático. Ao contar à minha filha, disse-me ela que ele já lhe lhe tinha comunicado isso mas que, por acaso, neste momento supostamente namora uma. Mas, portanto, conclui-se que esta deve ser uma das 'raparigas', que isso continua a haver, mas em relação à qual não haverá compromisso.

Mas, continuando a conversar comigo, para ilustrar o excesso de romantismo de alguns colegas, contou que tinha um colega de escola e de futebol, um tipo todo bonequinho. E que se tinha apaixonado por uma miúda também toda bonequinha. Para ter tempo para namorar, o amigo largou o futebol. Imagine-se a maluquice. Vai a miúda, ao fim de três meses, largou-o por o gajo ser obcecado. Por isso, ficou sem namorada e sem futebol. Ganda burro.

Eu ouvi e estava intrigada por ele definir os outros como bonequinhos pois não costuma adjectivar na positiva, muito menos usar termos carinhosos. Perguntei se eram bonitos. Ele muito admirado: 'Não!' 

'Mas bonequinhos não significa serem bonitos?'

'Não. Não. São tipos assim... muito... como dizer...?, assim esquisitinhos... Não estou bem a encontrar a palavra...'

'Nerds?', sugeri eu.

'Não, não. O gajo não é nerd... Não, não é isso. Bonequinho, estás a ver...? Assim todo coisinho...'

'Cromo?', lembrei-me eu.

'Exacto. É isso. Tipos esquisitinhos. Cromos, é isso.'

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Portanto, sobre o Sarmento  tenho dito. O Montenegro que não ponha as barbas de molho que vai ver no que dão as fezadas do bonequinho que lá tem nas Finanças.

sábado, dezembro 23, 2023

Telefonemas, mensagens... e a vida a seguir num carril paralelo...

 

Estou muito cansada. Não foi a manhã nas compras com a minha menina linda, quase da minha altura, ligeira e apressada. Ela gosta de fazer compras e, por isso, o presente não será tanto o que compra mas o prazer de andar às compras. Decidida, objectiva, pragmática, ela já traz a lista das lojas onde quer ir. Chega, olha em volta, circula, vai direita àquilo que lhe agrada, pega no que lhe interessa e vai aos provadores. Isto se for roupa, claro. Como as medidas que levou são as dela, veste, fica-lhe bem e, sem hesitação, decide: 'Por mim, está feito'. 

Nos adereços ou nas agendinhas a mesma coisa. Depois ajudou na escolha de presente para os manos. 

Depois fomos almoçar e é também ela, sem pestanejar, que resolve o que vai comer. 

Um prazer andar às compras com ela. Sempre bem disposta, sempre conversadora, sempre com ideias.

O irmão mais novo andar às compras é coisa que não pratica. Para o do meio, se tem que ir, é uma tortura, fica furioso, impaciente. Os primos são igualmente despachados e resolutos. Nem vale a pena eu tentar sugerir alguma coisa pois a resposta é invariavelmente: 'Com todo o respeito, Tá, mas eu teria vergonha de usar isso'. 

Como a mãe do menino do meio tinha sugerido para esse filho uma camisola de malha, no outro dia aproveitei as compras com os primos para me ajudarem a escolher uma camisola à maneira. Ficaram estupefactos. Não acreditavam. Não podia ser, já ninguém usa camisolas de malha, diziam-me os dois. Por mais que eu lhes pedisse que se deixassem de preconceitos e me ajudassem a escolher, recusaram-se: 'Com todo o respeito, mas não vamos sujeitá-lo a isso. Uma camisola de malha? Vão gozar com ele.... Com todo o respeito mas já ninguém se veste assim...'. Liguei ao meu filho, passei-lhe o sobrinho mais velho, ele que ajudasse a esclarecer. Disse que esse era pelouro da mulher. Passou o telefone. Ouvi o mais velho a falar com a tia. Não estava nada confiante. Quando desligou, vencido mas não convencido, disse: 'Diz que é para ele vestir quando for almoçar a casa dos avós... Só mesmo se for para isso...'.

Lá arranjámos uma solução de compromisso. E só espero que não façam daqueles comentários junto do primo que vai receber a dita camisola....

Este ano as compras foram feitas sem grande (ou pequena) inspiração. Nem decorações natalícias ainda fizemos. Temos duas árvores estilizadas que se ligam e ficam com luzinhas e são as únicas que aqui temos.

Temos que arranjar mais qualquer coisa mas a verdade é que não nos tem sobrado tempo. 

A tarde inteira foi como as anteriores. Para agravar, um trânsito dos diabos. Depois, como é natural, muitos telefonemas, amigos de longa data a telefonar, a dar notícias. E depois quem sabe do que se passa a desejar bom natal e a querer saber da situação. E as mensagens. Várias, amigas, palavras de conforto e estima. Gosto, fico sensibilizada, aquece-me o coração. Mas estou a falar com uma pessoa e, ao mesmo tempo, várias outras chamadas a quererem entrar. Às tantas fico em stress. o meu marido enerva-se, diz que não sabe como consigo estar tantas horas ao telefone e trocar dezenas e dezenas de mensagens. Mas é natural: juntam-se os votos de boas festas aos votos de boas melhoras. 

Lá, no hospital, a minha mãe pediu para eu fazer chamadas em nome dela, a algumas amigas. Não me é fácil. Estava ao pé dela. Por isso, como é lógico, não entro em pormenores, relativizo, aligeiro. Mas há um esforço permanente para não usar nenhuma palavra a mais nem a menos, não mentir mas também não falar verdade, não desvalorizar mas não valorizar. 

Um dia, mais tarde, não sei quando, hei-de conseguir falar destes tempos tão complicados, tão difíceis. Nos primeiros dias ia-me completamente abaixo, não tinha mão em mim, não era sequer capaz de falar com os médicos, estava arrasada, incapaz de processar. A minha filha é que teve que se chegar à frente. Mas agora está constipadíssima tal como o meu filho. Ambos apanhadíssimos. Portanto, hoje fui sozinha. Não fazia sentido ir o meu marido. Não costuma ir. Se o visse, a minha mãe era capaz de estranhar e preocupar-se ainda mais. Portanto, enchi-me de coragem e fui sozinha. 

Dito assim pode parecer uma fragilidade ou cobardia excessivas da minha parte. Pode parecer e, se calhar, é. Quando eu for capaz de falar de forma explícita talvez compreendam a especificidade, o insólito e inesperado da complexa situação e o brutal impacto que está a ter em mim.

Mas começo a reagir. E, como sou extrovertida, falo sobre os assuntos e, por isso, a quem me pergunta como estão as coisas, a algumas das pessoas que sei que têm capacidade para compreender, conto e ouço o que me dizem -- tal como leio com muita atenção e carinho os comentários que aqui me deixam ou os mails que me enviam --- e, portanto, parece que o peso que me caiu em cima começa a pesar-me menos. Sinto-me mais conformada e resistente, talvez mais corajosa e, até, talvez comece a ganhar a capacidade de encarar as coisas com algum pragmatismo.

Mas a longa tarde lá e os longos telefonemas e as múltiplas mensagens deixaram-me muito exausta. 

Fomos caminhar à noite, quando chegámos. Um gelo ártico. Mas soube-me bem. Tal como me soube bem o banho quente a seguir. Temos comprado comida pois nem há horários nem disposição para culinárias. Valha-nos isso pois, a seguir aos banhos, o jantar está só à espera de ser aquecido.

E agora está a começar a dar-me o sono. 

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Um dia feliz

Saúde. Coragem. Força. Paz.

quinta-feira, março 30, 2023

A Mona Lisa...? Uma aldrabice.
[Do Rodin salva-se o Thinker mas é por causa dumas coisas do TikTok]

 

Dia longo e, graças a ainda não nos termos visto livres dos efeitos pós-covid, um bocado cansativo.

Para já a noite foi muito em branco. A minha mãe tinha encostado a porta do quarto e o dog, que tem que ter sempre o que guardar, começou por deitar-se, no corredor, à porta do quarto dela. E até aí tudo bem. O pior é que, a partir de certo ponto, deu-lhe para ganir. Aliás, mais parecia que estava a chorar. Uma coisa impressionante. Pensei que, com aquela choradeira, não estava a deixar a minha mãe dormir.

A chatice é que, de noite, quando tentamos impedi-lo de fazer o que quer, não reage lá muito bem. 

O meu marido dormia a sono solto e eu equacionava ir eu tentar tirá-lo dali ou acordar o meu marido. Não queria acordá-lo mas não sabia como é que conseguiria tirar o urso felpudo dali. É teimoso como uma mula e, fixado como estava em estar de sentinela ao quarto da minha mãe, era certo e sabido que seria debalde.

Então, vendo que o tempo passava e ele não se calava, acordei mesmo o meu marido. Vestiu-se e lá foi. Só que, como por milagre, o guardador de rebanhos calou-se. E o meu marido, passado um bocado, apareceu e disse que ele se tinha calado e que não o tinha visto. Pensou que tivesse ido para junto da janela do primeiro andar, onde gosta de dormir.

Só a partir dessa altura consegui dormir.

De manhã, quando lhe perguntei sobre o safado que tinha feito aquela linda choradeira à sua porta, a minha mãe disse que não ouviu, que dormiu profundamente. Mas que, já de madrugada, ouviu empurrar a porta à força. Assustou-se. E ainda mais se assustou quando sentiu alguém a saltar-lhe para cima da cama. Claro que percebeu logo que era ele. A excelência, tendo conseguido o que queria, aconchegou-se e dormiu. Só que aí foi ela que espertou, não conseguindo dormir mais.

De tarde, eu e o meu marido fomos com os dois meninos, um dos quais está quase a fazer anos, comprar-lhe o presente de anos.

Basicamente agora o presente principal que querem (os rapazes) é chuteiras ou ténis de modelos ou marcas que eles lá sabem. Portanto, para ser ao gosto deles e para os provarem, temos que ir com eles. Não dá para arriscar.

O mais velho, recém chegado do passeio de Paris (onde parece que fez das dele) foi connosco, como conselheiro.

Eu ou o meu marido escusamos de opinar pois eles têm ideias muito bem definidas. 

Gostamos também de oferecer sempre roupa pois precisam sempre. Como a minha filha me tinha dito que ele precisava de tshirts e de um casaco aberto à frente, enquanto eles dois desataram a escolher por eles, eu fui escolher tshirts. Quando as viram, tshirts normais, discretas, com uns desenhos engraçados, disseram que nem pensar, que 'sem ofensa, Tá, já não estás bem ao corrente do que se usa...'. O mais velho disse que 'basicamente, Tá, se ele usasse isso seria vítima de bullying'. Fiquei a olhar para as tshirts a tentar descortinar a razão de tão dramáticas consequências. O mais novo elucidou-me: 'Basicamente, Tá, eu seria alvo de chacota'. Fiquei na mesma. Mas, pronto, ok.

Quanto aos casacos com fecho, não quiseram saber dos requisitos da mãe. Sweatshirts com capuz e mais nada. Casacos com fecho já não estão com nada. E lá escolheram. O mais velho escolheu tudo. Para já que o irmão precisava de umas calças beige. Depois tshirts lisas ou só com algum dizer, simples. Sweatshirts lisas, claras, simples. E um boné como deve ser. O irmão vestia e pedia para eu chamar o irmão, para o irmão se pronunciar. E o irmão opinava. Com bom gosto e ultra despachado. Gostei de ver.

Mas a perdição na loja dos ténis foi a secção das tshirts dos clubes, perdição sobretudo do mais velho, e a das chuteiras, perdição de ambos. Depois de escolhidos os ténis, dirigiram-se para lá. Qualquer deles já as tem, boas, mas, com o pé a crescer-lhes a ritmo acelerado, estão sempre a precisar de novas. 

Imagino que a vossa literacia sobre chuteiras seja equivalente à minha. Mas deixem que vos conte que é todo um mundo novo. 

Há um ou dois anos eu acharia aquilo uma bimbalhice. Agora já sei que é mesmo assim. E eles adoram. Dizem que umas são as do Ronaldo, outras as do Messi, outras as de não sei quem. Parecem umas sapatinhas de plástico ultra coloridas, com uns espigõezinhos que parecem uns saltinhos fofinhos. Mas consta que os jogadores de futebol acham o máximo. Os meus netos põem-mas na mão para eu lhes sentir a leveza, quase não pesam, e parece que são resistentes e confortáveis. E carérrimas.

Se bem percebi, saíram de lá já a saber quais as que o menino dos anos vai 'cravar' ao pai.

Depois, já atrasados para o treino do mais novo (um grande guarda-redes que já joga a sério), íamos no carro quando o mais velho se saiu com uma, certamente no seguimento da conversa anterior sobre as suas aventuras em Paris, 'Agora a Mona Lisa...? Uma aldrabice.'. Apanhados de surpresa, reagimos, o meu marido referindo o sorriso enigmático da dita, eu rindo e referindo também a intemporalidade da obra. Ele continuou: 'Filas enormes, depois temos que ficar a dez metros e, afinal, aquilo é uma coisinha de nada, com dois centímetros, e não passa daquilo'. Protestámos. Corrigiu, dois centímetros não, mas não mais que isto - e mostrou com as mãos a fraca dimensão da coisa. Continuou: 'Quadros maiores, melhores', como se não percebesse a fama da Mona Lisa quando comparada com coisa melhor. E concluiu: 'O Louvre, uma seca'.

Perguntei pelo Orsay. Disse que outra seca. Rebatemos. O mais novo veio em defesa do irmão: 'Tá tens que perceber, basicamente esses museus são uma seca para putos como nós'. Não me dei por vencida. Falei nos impressionistas, pinturas tão lindas. 

E falei no Rodin. 

Aí lembrou-se. 'Ah, Rodin, sim, o Thinker'. Tendo chegado de uma 'visita de estudo' a Paris, estranhei: 'O Thinker?'. O meu marido disse: 'Le Penseur'. Ele comentou que sabia mas preferia dizer em inglês, o Thinker, e era por causa dumas cenas do Tik Tok. Mas fiquei com a impressão que eram coisas de que ele, basicamente, não podia ou não queria ali falar.

Fomos a casa para deixar o mais velho e para o mais novo se trocar. Dali levámo-lo ao treino. E viemos para casa. De caminho apanhámos uma pizza. Ainda fomos fazer uma breve caminhada. Quando chegámos a casa já era de noite. E, adivinhem, basicamente perdidos de sono.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Boa disposição. Paz.

segunda-feira, março 20, 2023

Neste feliz Dia do Pai
[E técnicas simples para melhor enfiar a linha no buraco da agulha]

 

Dia de feliz primavera com a família reunida, cozinha a várias mãos, mesa cheia, algazarra, tempo belíssimo para almoçarmos no terraço, todos muito bem dispostos. Uma alegria.

A tarde continuou sereníssima, amena, sol ligeiro, uma temperatura amável. 

Pena é eu agora estar perdida de sono e não conseguir contar mais do que isto. Por exemplo, como o mais crescido está tão mais crescido que já me passa o braço pelo ombro e me diz que está preocupado comigo, eu cada vez mais pequena, qualquer dia uma criança. Ou as tropelias que uns fazem aos outros e que me fazem rir de gosto. 

Como é bom de ver, confirmou-se que amanheceu cedíssimo. Uns acordam os outros e já ninguém consegue dormir. Vêm logo ter comigo, conferir se estou a dormir. Ora, com eles cá, fico sempre com sono leve, acordo ao mínimo ruído. Por isso, antes de aparecerem ao pé de mim já eu estou a antecipar-lhes os movimentos.

Já estamos os dois, eu e o meu marido, bem melhor, quase normais (do pós-Covid, quero eu dizer). Mas a falta de energia ao fim do dia é que ainda não é lá muito normal. De tarde, enquanto uns jogavam ping-pong e os outros ficaram ao sol, o meu marido retirou-se para a sala e dormiu um bocado. Eu não. Por isso, agora, aqui à noite, já me deixei dormir. Diz ele que dormi horas. E agora estou aqui sem conseguir acordar capazmente. Horas não terei dormido, mas um bom bocado não digo que não. Já viram isto...?

Ontem já não consegui responder e agradecer os comentários e hoje estou na mesma. Não levem a mal.

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Há bocado, quando estive a espreitar as sugestões do Youtube, passei adiante das notícias bélicas russas ou das crises bancárias e desandei para as coisas inócuas e tranquilas. Nomeadamente, vi o vídeo que aqui partilho e que me pareceu particularmente útil. Dantes eu tinha umas agulhas que eram fáceis de se lhe enfiar a linha. Não sei o que lhes aconteceu. As que tenho agora são infernais. Acresce que longas temporadas de teletrabalho, maioritariamente frente ao computador, não me fizeram grande coisa à visão. Dantes eu não via muito bem ao longe mas ao pé era uma maravilha. Com o tempo, parece que a coisa funcionou como um sistema de vasos comunicantes: vejo melhor ao longe e pior ao perto. Enfiar a linha na agulha é um castigo.

Este vídeo é muito instrutivo. E é daqueles que é bom para a gente descansar a cabeça e preparar-se ainda melhor para dormir.


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Uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Boa disposição. Paz.