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sexta-feira, julho 24, 2026

Ela não dava respostas, ela ficava na pergunta

 

Não sei bem qual o primeiro livro dela que eu li. Sei, isso sim, que me agarrou pelas vísceras. É daquelas coisas que, se eu quiser explicar, não sei bem o que dizer. A ideia que tenho é que ela não contava propriamente uma história, contava o que alguém, ou ela mesma, sentia. Mas sentia a um nível muito elementar. Em geral os escritores falam de eventos especiais, marcantes. Quando muito, numa crónica ou num registo mais diarístico, acontece o autor permitir-se falar de pequenos nadas da sua vidinha, insignificantes impressões. Mas abrir-se um livro, romance ou novela, e uma pessoa sentir aquela sensação estranha de que entrou na cabeça ou no corpo de alguém e que experimenta aquelas dúvidas miúdas que geralmente nunca veem a luz do dia ou aqueles medos ou aflições que nunca se verbalizam, aquela maldade de que se sente vergonha apesar de ser inofensiva, isso é muito estranho. Lembro-me de de avançar de página em página e depois recuar, querer ter a certeza de que tinha lido bem, que aquela escrita existia mesmo da forma como eu estava a assimilar. Uma sensação que era de estranheza, sim, mas, ao mesmo tempo, de grande admiração, uma admiração por algo novo, e, também, de vontade de a ter descoberto há mais tempo. E, reconheço agora, uma vontade de também ser capaz de escavar assim, tão impiedosamente, dentro de mim.

Fui comprando os seus livros. 

Quando o mundo deixou de ser analógico e as pessoas, mesmo as desaparecidas, continuavam vivas nos nossos computadores, comecei a ver como ela era, como era a sua voz, como demonstrava tão cruamente o desinteresse pelas aparências, como não disfarçava o seu cansaço. 

Também morreu cedo de mais.

Alguns dos seus livros, para mim não ser para ler de seguida. Não costumo ler missais mas imagino que abra-se em que página se abrir, está sempre certo, faz sempre sentido. E, se não vier a calhar, abre-se ao acaso noutra página e já vai estar bater certo com o que estamos disponíveis para ler. Assim com algumas das suas coisas. É a escrita pela escrita. Mas isto não significa que seja desprovido de sentido. Significa apenas que é uma escrita que não se encaixa nas escalas a que estamos habituados: é uma escrita multidimensional em que as derivadas e os vectores secindários são tão determinantes quanto os eixos principais e os pontos que por entre eles se deslocam.

Há muitos documentários sobre ela e, às tantas, já não há nada de novo a acrescentar. Mas vou sempre ver. Gosto de ver o seu desapego. Era também assim que escrevia, sem querer saber.

Já aqui o referi antes: nestes tempos de mil solicitações, em que a sua atenção fica cativa dos youtubes, dos influencers, das redes sociais, da omnipresença do futebol, não sei como se instila nos jovens o prazer da leitura. A realidade deles já é quase exclusivamente a das notícias que se descrevem em meia dúzia de palavras, dos vídeos cheios de palavrões, dos jogos e das interacções através das muitas plataformas de partilha de toda a espécie de coisas, sobretudo de lixo. 

Como conseguir que um jovem, mesmo um jovem adulto, pegue num livro dela, tão diferente de tudo, e não desista antes de chegar ao fim da primeira página?

Não sei.

Vou dizer o que disse no outro dia: um dos meus netos fez o 12º. Creio que não leu um único dos livros obrigatórios. Sei que gostou dos Lusíadas, mas não sei se o leu todo. Da maioria dos livros que poderiam sair no exame sei que não leu. Disse que não tinha tempo nem paciência, que precisava do tempo para se concentrar na matemática. E, no entanto, nos testes lectivos teve sempre boas notas. Não lhe disse nada para não o enervar, mas temi pelo exame. Mas ainda bem que não disse pois no exame teve uma nota igualmente alta, nem sei se até um pouco superior à lectiva. Como o conseguiu? Youtube, provavelmente trabalhando em conjunto com a IA na caracterização de personagens ou na descrção do enredo. Não sei ao certo. O que sei é que resultou com o tipo de ensino que temos que, como se vê, não consegue estimular o gosto pela leitura. Em casa cresceu entre livros, sempre testemunhou hábitos de leitura, sempre foi incentivado a ler. E lia. Até que cresceu e começou a ter menos tempo livre e até que foi confrontado com a necessidade de ler livros que não lhe dizem nada. Como é inteligente e facilmente apanha do ar, desenvolveu formas de atingir os objectivos escolares. Mas temo que o prazer de desbravar o infinito mundo da literatura se tenha dissipado, pelo menos para já.

Mas, enfim, o inteligente ministro da educação (letras deliberadamente pequenininhas) há-de também te solução para isto.

O enigma de Clarice

Clarice Lispector não escrevia apenas histórias. Neste vídeo, mergulhamos na vida e na mente de uma das figuras mais enigmáticas da literatura mundial. De sua origem Ucraniana ao auge no Brasil, entenda como Clarice transformou a literatura. Se você já se sentiu um "estrangeiro" no próprio mundo, este vídeo é para você.

E já estamos outra vez numa sexta-feira

Que ela seja feliz

sábado, março 08, 2025

Se eu fosse eu

 

Há um texto muito conhecido de Clarice Lispector que explora essa possibilidade. Reza assim:

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir. 

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Neste caso paradoxal em que Montenegro, para não se desenredar a ele próprio, enredou todo o País, se eu fosse eu -- e se eu tivesse poderes mágicos para conseguir que se fizesse o que eu queria -- haveria algumas coisas que eu faria de imediato:

1ª - Corria com o Montenegro do PSD. O quanto antes.

O caciquismo laranja no seu pior, vestígios daquele cavaquismo que, em seu tempo, alastrou por todo o País, o amiguismo feito de esquemas, e aquele espírito videirinho em que se fala por meias palavras ou, de preferência, nem se fala para que possa sempre dizer-se que não foi isso que disse, em que uma mão lava a outra, em que há sempre quem contrate alguém para que um dia que seja necessário e etc. -- tudo isso vejo em Montenegro. Das pessoas mais incompetentes que conheci até hoje, um que era cavaquista, que estava administrador de uma empresa, tendo já passado por outras administrações, sem saber fazer nada de nada de nada (nem se esforçar por isso). Amigo de um amigo. Falava muito do Marques Mendes e do outro de que já nem me lembro o nome, um ministro com bigode que também andou metido em trabalhos. Este artista de que falo tinha uma bela casa, tinha uma outra bela casa, tinha um belo carro, a empresa pagava-lhe motorista, exigência dele, frequentava todos os convívios em que os amigos dos amigos estavam, gostava de ostentar o seu poder. Mas, fazia género, dá ideia que se considerava mesmo um bom trabalhador. 

Um fulano como Montenegro está a ser muito mau para o País mas também para o PSD. Não sei se, neste momento, há alguém de jeito no PSD para suceder a Montenegro mas, mondando bem, talvez descubram alguém que seja um bocadinho melhor que ele.

2ª - Arranjava maneira de seguir uma sugestão que Leitor bem pensante aqui teve a amabilidade de deixar: avançava com José Luís Carneiro como candidato a Primeiro-Ministro

Pedro Nuno Santos é um bom rapaz, é boa pessoa, é bem intencionado, é voluntarista, parece genuinamente honesto -- mas, em minha opinião, falta-lhe uma qualquer quelque chose. Parece que ainda não está sólido, parece que lhe falta pulso, punch, mão firme. 

Contudo, que não se faça confusão: entre Montenegro e Pedro Nuno Santos, claro que Pedro Nuno Santos. Estão em planos diferentes. O plano de Montenegro é o dos chicos-espertos, que usam a política para engrossar (ou, pelo menos, manter) a sua carteira de clientes. O plano de Pedro Nuno Santos é um plano em que há ainda utopia, desejo de uma vida ao serviço do País, há alguma nobreza na forma como se entrega de corpo e alma. Mas ainda não está no ponto. 

3ª - Arranjava maneira de ter uma direita decente, liberal, democrática. Havendo uma direita moderna, arejada, talvez esvaziasse a direita civilizada que se bandeou para o Chega

4ª - Tentava ter uma esquerda moderna, inteligente, lúcida, com compreensão para o que são os reais problemas das pessoas, uma esquerda despretensiosa, não ortodoxa, aberta. Talvez se conseguisse esvaziar o que resta do PCP, o que resta do BE, do PAN e do Livre, e criar uma força política nova, com os pés assentes da realidade actual (não no passado, não noutra qualquer geografia). Talvez assim a esquerda ganhasse força e talvez conseguisse cativar os que só encontraram 'amparo' junto do Chega.

Com um panorama político assim, acredito que o País seria outra coisa, seria governável, inteligente e eficazmente governável.

De qualquer forma, mesmo que a reorganização da esquerda e da direita não fossem para já, parece-me que seria saudável para o País que a 1ª e a 2ª medida fossem, desde já, seguidas. A 1ª seria não apenas saudável como higiénica.

Tirando isso, claro que havia ainda outra coisa:

5ª - Também gostava que tivéssemos um Presidente da República em acção e agindo de acordo com a Constituição e com o bom senso, e com uma visão rigorosa e ponderada cobre o País e sobre o Mundo. Mas, no actual contexto, acho que esta já seria talvez pedir de mais.

segunda-feira, agosto 05, 2024

A Bruna...

 

Conhecia mal a Bruna Lombardi. Aparecia nas novelas da Globo e era linda, uns olhos transparentes. Depois, fiquei a conhecê-la melhor, e era de nome, nos programas da Globo com o professor Aquiles Arquelau que babava por ela.

Aquela Bruna Lombardi

Mas depois ela foi aparecendo noutros cenários. Não era apenas uma cara bonita, não era apenas actriz da Globo. Afinal escrevia. Afinal tinha uma voz.

Gostei de ouvi-la aqui.

Bruna Lombardi revela conselho de Clarice Lispector, relação com Chico Buarque e livros afetivos

Charles Bukowski, James Joyce, Clarice Lispector, Gabriel García Márquez, Mia Couto, Virginia Woolf, James Baldwin, Manuel Bandeira - diga o nome e é provável que Bruna Lombardi já tenha lido. Isso fica claro diante das pilhas de livros que se espalham pelo chão do que já foi um dia a biblioteca da família. 

É ali, em uma ampla sala de dois andares, uma construção anexa à sua casa em São Paulo, em pleno jardim, que a atriz e escritora recebeu a reportagem do Estadão numa tarde de fim de outono para falar de seus livros.

Pelas paredes de vidro, vemos a natureza lá fora. Dentro, um acolhedor espaço com decoração moderna, esculturas, sofás. E os livros - ainda em fase de organização porque a tal biblioteca, que abrigava os exemplares que ela colecionava desde menina e que foram se juntando ao longo da vida aos do marido, o ator Carlos Alberto Riccelli, e, mais tarde, aos do filho, Kim Lombardi Riccelli, está sendo reformulada.


domingo, fevereiro 18, 2024

Ele teve medo de enlouquecer e ela teve que se explicar de uma vez por todas

 

Não vi os debates. Não estava em casa. Estava a tomar conta dos meus meninos enquanto os pais foram jantar fora. Quando me lembrei e eles sintonizaram no canal, estava a pombinha Raimunda a fugir com as penas do rabo à seringa. O tema da Rússia é mortífero para o PCP. Disfarçam a sua incapacidade em demarcarem-se dos crimes de Putin com uma conversa pífia; e com o Raimundo, dadas as limitações que tem exibido, a coisa fica ainda mais confrangedora.

O debate seguinte nem o cheirei.

E, de resto, apetece-me descansar a cabeça. 

Quando Bethânia e Caetano convergem com o espírito livre de Clarice Lispector o resultado só pode ser sublime. E é o que me apetece ouvir.




Desejo-vos um belo dia de domingo

Saúde. Elevação. Paz.

quarta-feira, setembro 06, 2023

Ginástica em suspensão aquática, seguros de saúde marados, horóscopo de Setembro. E, imaginse-se, ainda um excerto da última entrevista de Clarice Lispector

 

E, portanto, estando-se já neste período que se apresenta equipado de rentrée, todo neblinas em grey, todo temperaturas mais baixas, achei que era tempo de voltar às aulas. Ou seja, retomei as aulas de hidroginástica. Não é bem hidroginástica, é mais puxado que isso e tem, até, outro nome mas agora não me lembro de qual é. Mas vi que têm lá uma coisa ainda mais hard, uma coisa toda feita em suspensão, que não só trabalha o que a outra trabalha mas puxa mais pelos abdominais, coisa de que estou precisada. Vou tentar. É preciso fazer testes para verem se os pretensos praticantes têm preparação física para isso mas fá-los-ei e tenho esperança de que cumprirei com os mínimos.

Tirando isso, trabalhei qb e, ao fim do dia, fomos passear à beira mar, no meio de um fog muito british. Para complementar o ramalhete, trouxemos sushi e escolhi daquele que tem algas e limos e ovas em cima do belo peixe cru e macio. Antes comi alface e, depois, uvas.

Poderei ainda dizer que, estando fora das regalias da empresa em que trabalhava, tive que tratar de um seguro de saúde. E este 'tive' deveria vir enfeitado de muitas aspas pois, claro, não é forçoso. Mas temos sempre aquele receio de necessitarmos de alguns cuidados relativamente aos quais as filas de espera no SNS sejam gravosas. Fiz o seguro. Mas, logo depois, a seguradora, unilateral e prepotentemente, alterou, uma a uma, todas as condições acordadas. Um comportamento inaceitável. Tive que me arreliar. Espero que as coisas se resolvam a bem para não ter que avançar com queixas para o Regulador, para o Portal da Queixa e para a Deco.

Para terminar, posso ainda acrescentar que, vá lá saber porquê, sinto uma impaciência miudinha, aquela vontade de mudança, de coisas novas, de virar a mesa, de desbravar. Se estivesse a trabalhar, a malta que trabalhava comigo devia estar a suar as estopinhas com as minhas ideias avançadas, os meus desafios, o meu gosto em saltar sem rede. Assim, a la maison, tenho que ver em que é que isso de pode traduzir.

Lembrei-me até de ir ver uma coisa de que já nem me lembrava: o horóscopo -- imagine-se.

Fui ver o que me reserva o mês de Setembro.

Aqui está (traduzido -- às 3 pancadas -- via google):

Forma

As suas articulações estão muito estressadas, assim como as suas costas. Tenha cuidado para não superestimar a sua força carregando cargas muito pesadas. Preste atenção também na sua postura, proteja-se. Não hesite em pedir ajuda às pessoas ao seu redor para cuidar de si mesmo. Qualquer ajuda será bem vinda. Mantenha-se positivo, essas dores são apenas temporárias e seu corpo está enviando sinais para você descansar. Ouça-os e tudo deverá voltar gradualmente ao normal. Vá com calma, mesmo que isso realmente te irrite.

Trabalhar

Este mês está colocado sob o signo da evolução e da avaliação. Antes de pensar num futuro diferente, você terá que demonstrar as suas habilidades. Aproxima-se um período exigente, em que você tem grandes esperanças, com vista a poder negociar. Transferência, reciclagem, oportunidades estarão presentes e você as observa com atenção. Concentre-se nas questões: mostre o seu know-how e as suas qualidades antes de perguntar qualquer coisa.

Ora bem.

E não vale a pena estarem para aí a ranger os dentes ou a arfar de desdém. Não sou só eu, está bem?

Ora confiram aqui este pedacinho da última entrevista da Clarice Lispector. Quando lhe perguntaram de onde tinha vindo a ideia para a história que, na altura, estava a escrever:

Onde você foi buscar a inspiração, dentro de si mesma?

Eu morei no Recife, me criei no Nordeste. E depois, no Rio de Janeiro tem uma feira de nordestinos no Campo de São Cristóvão e uma vez eu fui lá. E peguei o ar meio perdido do nordestino no Rio de Janeiro. Daí começou a nascer a ideia. Depois eu fui a uma cartomante e ela disse várias coisas boas que iam acontecer e imaginei, quando tomei o táxi de volta, que seria muito engraçado se um táxi me atropelasse e eu morresse depois de ter ouvido todas aquelas coisas boas. Então a partir daí foi nascendo também a trama da história.

Não sou tão fatalista quanto a Clarice Lispector, nem tão inspirada, nem tão coisa assim -- nada. Mas ainda assim. Portanto, não vou a cartomantes mas, de vez em quando (e a última vez já deve ter sido há mais de um ou dois ou três anos), espreito o horóscopo. Este, desta fonte. Tem palpite quente. 

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Nota: Não tenho respondido aos comentários pois continuo com o hábito de apenas pegar no blog às quinhentas da noite, depois de puxadas empreitadas, e canalizo toda a energia para o que escrevo aqui. Leio e aprecio-os (e sobre o orgasmo, os comentários são talentosos -- e recomendo-os) -- mas já vai para tarde, estou a caminho de cair KO e ainda quero ir fazer uma coisa. Não levem a mal. 

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Boa sorte. Paz. 

quarta-feira, março 29, 2023

Clarice, a difícil que sabia escrever fácil
[Uma luz a iluminar a minha noite]

 

Mais um dia cheio de atipicidade. Assim têm sido os meus dias desta minha nova era.

Ainda na parte da manhã tantos os telefonemas, tantas as mensagens, tanta a logística a ser improvisada, tanto tudo a ter que ser preparado às pressas que o meu marido, que gosta das coisas mais calmas e mais planeadas, se ia enervando. Queria falar comigo e eu não conseguia deixar de estar ao telefone ou a ler ou a responder a mensagens.

Nada a fazer, as coisas são o que são. Há alturas em que não dá para fazer o que se quer, como se quer, quando se quer, pois a urgência dos factos fala mais alto.

Portanto foi mais um dia em grande parte fora de casa, parte do qual a ter que conviver e fazer conversa com quem não estou nem aí, e a estar de boa cara pois as pessoas genuinamente fazem por bem e há que corresponder.

E esta quarta-feira vai ser outro dia atípico, em grande parte fora de casa. 

E o corpo a pedir descanso, pesado, os olhos a quererem que os feche. Pior é que a noite passada foi noite mal dormida. 

O sono chegou quase de manhã e logo depois chegaram os pesadelos. Não é a primeira vez, um assim. 
Estou num hotel onde decorre um encontro do Grupo e dou por mim e as peças de roupa que trago vestidas e que tinha vestido à pressa e com pouca luz não condizem entre si. É tudo em verde mas tons díspares, um é verde dourado, o que prefiro, outro é verde quase garrafa, as meias ou os sapatos, não me lembro, num tom quase alface. Vejo-me ridícula e decido que tenho que me trocar. Mas as malas já não estão no quarto. Ando aflita a correr sala após sala e não as descubro. Passo pela sala onde se serve o pequeno almoço, e eu cheia de fome e sem tempo para comer. Quando finalmente as descubro, mal consigo abrir a mala de tão ceia que está. Depois consigo tirar a roupa lá de dentro mas o resto vem atrás, depois a mala não fecha. Vejo as horas e vejo que o autocarro está quase a partir. Resolvo mudar-me ali mesmo, em frente às pessoas, e sinto imensa vergonha mas tem que ser. Depois a roupa que visto está húmida ou então sou eu que mão me limpei bem e a roupa não escorrega na minha pele, fica presa. Eu puxo, puxo, o tempo passa e eu naquela aflição.
Acordei. Tentei interiorizar que era um sonho. Ao adormecer, o mesmo sonho, mais refinado, o tempo a esvair-se e eu sem conseguir despachar-me.

Parecia eu que adivinhava o que estava para vir.

Mas, pensando bem, as coisas estão melhores do que estavam faz esta quarta-feira uma semana. Por isso, bola para a frente.

Tenho muitas coisas para fazer e muita vontade de fazê-las. E sou optimista e tenho esperança que as coisas acalmem e normalizem.

Até lá é aquilo que já se sabe: keep calm and carry on

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E, creio que pressentindo que tenho esta vontade de ter tempo para conseguir rever o meu 'livro', mas rever com olhos de ver, com sentido crítico e distanciamento, o meu amigo algoritmo apareceu-me com um vídeos de uma escritora que muito aprecio: a nascida na Ucrânia Clarice Lispector. Não será estreia aqui no pedaço mas é sempre um prazer.

Entrevista com Clarice Lispector 

(feita alguns meses antes de morrer)


Um dia bom
Saúde. Serenidade e esperança. Paz

terça-feira, maio 24, 2022

Jaime Vilaseca diz que foi ela que mudou a sua vida.
[Por acaso, ela nasceu na Ucrânia e, por acaso, diz-se que a mãe foi violada por soldados russos. Mas isso agora não vem ao caso]

 

Não poderei dizer que ela também mudou a minha vida pois, para falar a verdade (se é que sei qual a verdade, não é, K.?) acho que nunca nada mudou a minha vida. Olho para mim e vejo-me, agora e desde sempre, no mesmo trilho. Não mudei por nada nem por ninguém. E não por obstinação, orgulho ou sina, apenas porque todos os caminhos que percorri foram sempre o mesmo e é o caminho que me traz e não eu que o escolho.

Mas que ela me impressionou fortemente lá isso é um facto. Quando a conheci, quase parava de respirar para tentar perceber que sentimentos eram aqueles, os dela que assim se me dava a conhecer, os meus que assim me conhecia e que assim a conhecia. 

Não sei qual o primeiro livro que li dela. Nunca tinha lido coisa assim. A gente sente e pensa mas, por vezes são coisas tão cá dentro, tão viscerais, que nem faz sentido tentar encontrar palavras para as traduzir. São coisas que se formam dentro da respiração, que circulam dentro do nosso sangue. Mas ela fazia-o, encontrava as palavras para isso e era tudo tão íntimo e, ao mesmo tempo, tão transcendental que, de repente, as coisas mais etéreas e as mais terrenas se encontravam cerzidas com a perfeição das coisas raras e belas demais.

Não se percebem pessoas assim. 

Não sei se foi a história da sua família que ficou inscrita nos seus genes, se foram as dores que a mãe sofreu, se é coisa que sempre teria existido mesmo que o percurso de vida fosse outro, mesmo que tivesse ficado na Ucrânia, mesmo que a mãe não tivesse sofrido às mãos dos russos. 

Não se sabe. Eu, pelo menos, não sei. 

[E ainda bem que não sei pois a vida seria insuportável se soubéssemos tudo o que há para saber]

Uma moldura para Clarice

Um encontro com Clarice Lispector mudou sua vida, na década de 1960. O espanhol Jaime Vilaseca era marceneiro no Rio de Janeiro. 

A escritora encomendara a ele uma estante de livros, que foi feita e montada em seu apartamento, no bairro do Leme. Durante aqueles dias, silenciosamente, observara-o trabalhando e, terminado o móvel, olhou para ele e disse: “Você vai ser moldureiro. Não vai escapar ao seu destino!”.


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quinta-feira, setembro 23, 2021

Na maior impunidade

 


Hoje é que é mesmo zero. De manhã até ao fim do dia em reunião. Sobra pouco mais do que uma empty head -- e digo em inglês para ver se soa um pouco melhor. 

Tínhamos combinado que eu não deveria estar despachada antes das seis mas que, logo que ele chegasse, poderíamos sair. Mas qual quê. A ver o tempo a passar e a coisa a dar para mais. Uma impaciência. Avisei que teria um limite. Mas como ele também não chegava, pensei que, na volta, o tema se extinguiria a tempo.

Mas ele chegou perto das sete e ainda eu estava no meio. 

Então comecei a acelerar, já deserta de que tudo se resolvesse a tempo para não ter que sair à papo-seco. Foi à tangente. Melhor: mais do que à tangente. Quiçá uma secante. 

Saímos às sete e picos. Voltámos a uma secção a que não íamos faz tempo.

Sorry por isto estar encriptado. Não é que seja supersticiosa mas não vou contar para não atrair.

Ultimamente, tudo o que damos como certo sai ao lado. Mesmo o que estava dado como garantido, furou. Por isso, agora bato a bola baixo.

Já sabem que, quando estou dentro delas, quando elas são de monta, eu fico de bico calado. Não gosto de falar da história quando não sei como é que ela acaba. Mas, logo que eu saiba como vai ser, eu conto. Conto e tenho muito que contar. Que contar e que dar pontapé e virar a mesa. Ai não que não.

Mas, então, lá fomos à secção a que há muito não íamos. 

Pelo caminho, para cá e para lá, fui fazendo os meus telefonemas. Pelo meio, algumas dúvidas. Receio de má decisão. Consultamos site e cada um diz a sua. Conhecimento feito na base do google é conhecimento da treta. Mas é o que há e vamos tentando fazer a bissectriz. E fiar-nos no que parece mais reliable. Hoje está a dar-me para os anglicanismos. 

E, sem jantar feito, encomendámos piza. Metade de presunto, metade de salmão. Passámos por lá a apanhar. No cu de judas. Fomos pela mão do gps: na rotunda sai na segunda saída, a quatrocentos metros vira à direita, na rotunda sai pela primeira, logo à esquerda, a duzentos metros vira novamente à esquerda. Não faço ideia de por onde andámos. Era de noite, íamos na conversa e, em piloto automático, obedecendo. Lá demos com a pizaria. Na volta, cheirava bem no carro que só visto. E nós cheios de fome.

Depois do jantar havia um mail. A Lurdes escreveu. Era ela mesmo que, no outro dia, aqui comentou. Mail bom, daquelas cartas longas que gosto de receber. Quando as recebia na caixa de correio avaliava pela grossura do envelope se tinha muitas folhas. E, quando abria, mais contente ficava se viessem escritas na frente e no verso. A Lurdes é parecida comigo, acho eu. Talvez leve as coisas mais a sério que eu. Mas parecida não significa igual. Tive vontade de responder de seguida. Respondi.

Depois era para ter vindo logo para o blog mas, sem aviso prévio, adormeci. Agora acordei. Doeu-me um pouco o alto da cabeça. Ao passar a mão por ela, senti um alto, dorido. Presumo que esteja até um pouco ferido. Lembrei-me que, de manhã, ao ir apanhar uma coisa debaixo da romãzeira, bati com toda a força com a cabeça num ramo tombado pelo peso das romãs. Ainda não estão outonais, graúdas e rubras. Ainda estão em crescimento e verdes. A ver se desta vez não são comidas, não sei se pelos pássaros se pelos ratos. No outro dia, disse à minha mãe que se calhar tinham sido os ratos que trepavam aos ramos e comiam os bagos das romãs. A minha mãe olhou para mim como se eu não fosse boa da cabeça, como se fosse impossível que os ratos andassem sobre aqueles ramos finos e vergados. Não sei quem foi. O que sei é que elas apareciam forjadamente boas mas ocas, devoradas.

Sei também que fomos à horta para apanharmos ameixas e já não conseguimos trazer uma única. As duas que sobravam caíram ao chão, desfeitas, mal o ramo estremeceu. É uma dificuldade. Primeiro estão pouco doces, depois, mal começam a adoçar-se, os pássaros começam a comê-las e, mal estão doces de verdade, caem, amolecidas e tocadas, impróprias. O chão está pejado delas, desfeitas em sumo espesso. Há um cheiro doce no ar. É como, in heaven, o chão pejado de figos, um odor quente e húmido no ar. 

Penso muitas vezes que um dia que tenha tempo hei-de fazer compotas. Mas as compotas são feitas com açúcar e o açúcar não faz bem nenhum. Por isso, vou fazer coisas que depois ninguém quer comer porque engordam e porque fazem mal? Acho que não. Haverá compotas sem açúcar (e sem adoçantes)? Tenho que investigar.

Ah, é verdade. Mais uma novidade. Finalmente estou a ver se me adapto aos óculos. Não sei se já contei. Desisti dos progressivos. Perguntei à técnica porque é que não me adaptava. Disse-me que o feitio da lente não era recomendado para os progressivos. No exame fiquei também a saber que tenho um pouco de astigmatismo. Não sei como foi que isto apareceu. Deve ser mesmo da pdi. Sempre tive foi um bocado de miopia. Não era muita mas habituei-me a usar óculos para conduzir. No cinema também me sentia mais confortável com eles. Ultimamente juntou-se a vista cansada. Pensava que era só isso, coisa de velha. Afinal, diz-me a jovem oftalmologista: tem aqui um pouco de astigmatismo. Tão espantada fiquei que não perguntei se uma coisa tinha substituída a outra ou se agora se juntaram as três à esquina a tocar a concertina: miopia, vista cansada e astigmatismo. Whatever.

Optei por óculos por ver ao perto, simples. Mas, com eles, só vejo alguma coisa se for mesmo ao perto. Basta que a coisa esteja um pouco afastada para já ser uma baralhada. Mas como são de lente baixa, posso ensaiar ver por cima, coisa mesmo à anciã. Mas a isso ainda não cheguei até porque não os coloco na ponta do nariz. O que faço é, se tenho que ver mais ao longe, tiro-os. Resumindo: quase nunca os uso. Mas hoje a reunião foi daquelas em que estava a ser partilhada uma apresentação cheia de número miúdo Falava-se de milhões mas, para disfarçar, os numerozinhos eram bons para coca-bichinhos. Tive que os usar. E, caramba, fiquei surpreendida com a cara de toda a gente. Caras nítidas que só visto.

A vista é cheia de surpresas. A gente pensa que sabe e que vê e, afinal, basta uma pequena lâmina de vidro para a gente perceber que andou a ver tudo diferente do que é. E, se calhar, se um dia experimentar outra coisa qualquer, vou ver tudo virado do avesso. Nunca se sabe ao que se anda, essa é que é essa.

E, tirando isso, nada. Aliás, confirma-se o que avisei no início: hoje isto é mesmo zero. Escrevo por escrever, na maior impunidade.

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As imagens são recriações de pinturas em cenas protagonizadas por celebridades e a autoria da proeza é do instagramer Kyès

Sheku Kanneh-Mason, Isata Kanneh-Mason interpretam In the Bleak Midwinter de Holst

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Quando fui à procura de música para estar aqui a ouvir, o meu amigo algoritmo apareceu-me com coisa alusiva a Clarice Lispector. Por enquanto não fala, ele, o algoritmo, só vem de mansinho oferecer-me vídeos. Lá chegará o dia em que uma caixa de bombons belgas se materializa aqui nas minhas mãos enquanto a sugestão me é sussurrada aos ouvidos. Acho que já faltou mais.

Enquanto não, vai agindo assim, também na maior impunidade. Desta vez, todo prosa, trouxe-me este aqui abaixo. Partilho convosco. Quando receber bombons belgas também vos farei chegar alguns.

"Não se lê Clarice IMPUNEMENTE"


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Desejo-vos uma boa quinta.
Bora lá curti-la a valer, ok?

sábado, julho 31, 2021

Touch me.
Em silêncio, se faz favor.

 



A improvável indiferença pelo conhecimento de si. É o que eu sinto sobre mim e o que aprecio nos outros. 

Há pouco passei na rtp2. Não me toques. Touch me not. Mulheres falando de si, um homem que quis ser mulher, uma mulher dizendo que não saberia o que dizer do seu corpo, homens dizendo coisas que talvez façam sentido, mulheres confidenciando sobre medo, raiva. Ouvem-se com atenção. Há silêncios, hesitações. Adina Pintilie quer saber, presta atenção à intimidade descrita. Parece haver ansiedade entre os participantes. Outras vezes, indiferença. Não alegria.


Nada disso me interessa muito pois a racionalização sobre si-mesmo é matéria que me parece frívola. Bem sei que há quem a ache profunda e bem sei que em certas circunstâncias é fundamental para que algumas pessoas possam ultrapassar alguns demónios ocultos. Que seja. Não julgo. Apenas não me identifico. 

Não sei se é essencial uma pessoa conhecer-se. Acho que a pretensão do conhecimento de si é uma pretensão estulta. Ninguém poderá alguma vez conhecer-se. Nem que todas as suas células fossem desdobradas e mapeadas e estudadas à lupa, nem assim alguém ficaria com o conhecimento de si. Não somos células, somos bem mais que isso. Não somos memórias, somos muito para além disso. Mesmo que descodificássemos as nossas emoções ficaríamos na mesma: somos muito mais do que isso. Somos a mais pura abstração. E, para melhor nos identificarmos com abstrações, deveremos olhá-las de longe, sem as querer perceber ou interpretar. A interpretação de uma abstração não é apenas um exercício desnecessário: é, sobretuto, absurdo. Deveremos manter-nos desconhecidos, misteriosos, relativizar-nos, olhar-nos de longe, ignorarmo-nos.

Digo isto sem certezas, só com intuições. Há quem ache que o passado deve ser desenterrado, escalpelizado, interpretado. Mas eu tenho dúvidas. Não é preferível pensar, antes, no futuro? Não é preferível apostar antes na tolerância, na generosidade, na capacidade de ver o outro lado, na ousadia?

Não sei.

Se uma mulher não sabe sobre o seu corpo, em vez de tentar perceber as causas desse desconhecimento, não seria preferível incentivá-la a ousar, a arriscar, a perder o medo ou a vergonha e, sobretudo, a deixar de pensar tanto no assunto? 

As palavras são importantes mas devem ser como véus que se vão deixando cair. Quando, pelo contrário, as palavras são usadas como véus que se vão colocando sobre as emoções, sobre os sentimentos, então é como se fossem escolhos que se vão colocando no caminho.

Que interessa ter a pretensão de conhecer o corpo? Conhecer como? O corpo muda ao longo do tempo. Conhecer o que faz bem ao corpo? Como? A cada dia que passa vamos descobrindo novos benefícios de cuja existência antes nem suspeitávamos. 

Entrar no mar, mergulhar. Nadar. Apanhar sol na pele nua. Sentir umas mãos sobre o nosso corpo. Ouvir um poema. Beber um sumo fresco num quente fim de tarde. Ouvir contar histórias cheias de mistério. Entrar numa montanha. 

Tudo melhor do que falar sobre o próprio corpo, sobre si.

Na rtp 2 vejo agora um encontro de excessos. Corpos nus como que exorcizando fantasmas. Também não me interessam. Há alheamento, alienação nisso. Ou exploração e condescendência face à diferença. Não me identifico. Prefiro os momentos simples, animais que se procuram. O corpo prefere o silêncio. Quanto muito, um poema dito, quase num murmúrio, ao ouvido. Ou, quase em silêncio, rente à pele. As palavras, quando são demais ou quando acontecem em momentos inoportunos, são mera poluição.

Mas, lá está, posso estar enganada. Se calhar não percebi nada.

No fim, a mulher, nua, dança. Os pesados seios dançam também. A mulher ri, os seios também. Disso eu gostei.

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As pinturas são, respectivamente,:

  • Red nude, Marino Mazzacurati, ~1936 circa
  • Lily and the Sparrows, Philip Evergood, 1939
  • Portrait of Madame Tallien, Jean-Bernard Duvivier,1806
  • Portrait of the Dancer Aleksandr Sakharov, Alexej von Jawlensky, 1909
  • Saint Sebastian, Bronzino, ~1533
  • Sleeping Woman, Alexej von Jawlensky, 1910
na companhia de Hildegard von Bingen que compôs De virginibus

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Desejo-vos um sábado feliz

sábado, abril 24, 2021

Por vezes ela tinha a alma distraída e feliz de moça que passeia com o noivo
mas, quando se irritava com os entendidos,
ia para casa comer o frango assado que tinha sobrado do almoço

 

“O poeta e os olhos da moça”, escrita por Rubem Braga a partir do relato que Manuel Bandeira lhe fez dessa história.

Publicada pela primeira vez em 1952, a crônica de Rubem Braga conta a história de Maria, uma moça de olhos de piscina que encantou um poeta. Só muitos anos depois, após a morte de Clarice Lispector e Manuel Bandeira, é que Rubem Braga revelou que os personagens da crônica eram os dois grandes autores da literatura brasileira e reescreveu o final do texto, acrescentando-lhe: “Foi há muito tempo que escrevi essa história, há quase 30 anos. Na ocasião eu não quis dizer o nome dos personagens. Hoje ambos estão mortos. O poeta era Manuel Bandeira, a moça noiva (Maria) era Clarice Lispector”.
Através de Rubem Braga ficamos sabendo que, ao sair do Praia Bar, no Flamengo, Manuel Bandeira encontra Clarice Lispector passeando com seu noivo Maury Gurgel Valente. Diante dos olhos de Clarice, assim afirma o poeta: “eu só via aqueles olhos verdes – e me recebeu como se fosse uma piscina”. Mas a moça passou com “alma distraída e feliz de moça que passeia com o noivo”.
 

Essa história deu origem a uma bela crônica escrita por Rubem Braga, na qual ele narra esse encontro e o encantamento produzido pelo olhar de Clarice em Bandeira, despertando-lhe o desejo de escrever um poema capaz de retratar aquele momento. O olhar marcante de Clarice Lispector cruzou com Manuel Bandeira justamente em um momento em que ele era consumido por uma tristeza provocada por outra mulher e foi poeticamente registrado na crônica de Rubem Braga, o qual relatou mais tarde ter contado a história à Clarice, ela, porém, não se lembrava do encontro e ficou olhando admirada para o cronista “com seus olhos de piscina”.

Caio Fernando de Abreu também relata em uma carta a Hilda Hilst a força do olhar de Clarice, definindo seus olhos como “hipnóticos, quase diabólicos”. A própria autora afirma em um de seus textos: “O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber”.

[Retirado daqui]

Mas engraçado é também o que a sua grande amiga Nélida Piñon conta de um dia em que foi assistir a uma palestra com Clarice.


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sexta-feira, abril 23, 2021

Clarice

 


Não sei quando li Clarice Lispector pela primeira vez nem como foi que soube dela. Se calhar, descobri-a acidentalmente numa livraria. Mas já foi há muito tempo.

Foi um choque.

Era uma escrita visceral. Alguém escrevia como a gente pensa e sente mas não diz. Lia aquelas palavras  sem conseguir compreender como era possível uma escrita assim. Era tudo muito íntimo, muito drástico, muito cru e, ao mesmo tempo, muito vital. E muito espiritual.

Não sei o que diz dela quem sabe o que diz quando se fala de um escritor como Clarice. Não sei, pois, sei se estou a ser correcta no que digo. Posso estar a ser parcial, imprecisa, a ver apenas uma ínfima parte do que há para ver, posso estar a exprimir-me mal. Mas, sinceramente, não sei como melhor dizer o que acho da escrita desta escritora que situo acima do comum dos mortais. Dá ideia que levita, que a banalidade do mundo não a interessa, que ignora a superficialidade, que paira num outro mundo, tão ausente depois de morta do que era quando viva.

Para se gostar dela tem que se ter o coração e a mente disponíveis. Tem que se ter vivido. Tem que se ter conhecido qualquer coisa do mundo. Tem que se ter tempo para a acolher.

Gostava de a ter conhecido. Gostava de ter podido estar na sua presença, conversar com ela. Gostava tanto.

Por isso, gosto de ler e ouvir sobre ela. A palavra a quem a conheceu: alguns que encontrei. Espero que gostem. E, para quem ainda não leu nada dela, espero que fiquem com vontade de ler.











E, uma vez mais, este vídeo que acho delicioso



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Respectivamente:

  • Entrevista rara de Clarice Lispector | Museu da imagem e do som em 1976
  • Alunos de Letras da USP 1970 entrevistam Clarice Lispector
  • Clarice Lispector | Poesia e prosa com Maria Bethânia e Caetano Veloso 
  • O grande amor de Clarice Lispector | Lúcio Cardoso
  • Conselhos de Clarice Lispector para escritora Lygia Fagundes
  • Chico Buarque relata noite de jantar com Clarice Lispector
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Uma happy thanks-god-it's-friday

terça-feira, fevereiro 09, 2021

Ele todo na levezinha e ela nas profundidades. E eu aqui.

 



Devo dizer que o dia de hoje foi mais simpático. 

No entanto, acordei cedo demais. O meu marido, que é madrugador, acordou antes de tempo e, desta vez, sem querer (acho eu que foi sem querer...) acordou-me. Tentei adormecer mas comecei a pensar no que tinha que fazer durante o dia. Fui ficando mais desperta. Depois ouvi uma chuvada das valentes. Era de tal ordem que tive dúvidas de que fosse mesmo chuva. Nessa altura já o meu marido tinha saído para a sua caminhada pré-matinal. Quando estava a tentar adormecer, uma mensagem. Não é normal receber mensagens tão cedo. Era uma mensagem de voz no whatsapp. Uma voz simpática, num tom saltitante, dava-me conta de que tinha o trabalho quase feito e que contava enviar-me entre hoje e amanhã. Fiquei estupefacta. Pela cabeça de quem é que passa acordar uma pessoa àquela hora para dizer uma coisa que poderia ser dita uma ou duas horas depois? Voltei-me para o lado a pensar que há gente que parece que vive noutro fuso horário. Mas, pronto, a voz simpática atenuou a contrariedade. Penso que até devo ter sorrido.

Com isto, decidi levantar-me. Mas pensei que ia andar o dia todo cheia de sono. Afinal, por acaso, não. Estive na boa. O tempo levantou um pouco. Quando fomos fazer a nossa caminhada da hora de almoço até o sol espreitava. E ver o sol traz-me ânimo novo. Despi o casaco e subi as mangas da blusa. Gostei, parece que tinha avistado um mundo novo.

Ao fim da tarde, antes que ficasse noite, convenci-o a vir dar uma volta pelo lado de lá, por fora, pela orla das hortas. Não queria, que era tarde, que não tinha grande jeito andar por ali àquela hora, que esta mania minha de me meter pela penumbra adentro.... Claro que não disse assim, penumbra adentro. É muito pão-pão, queijo-queijo, ele. Linguagem a atirar para o poético não é com ele. Mas estava mesmo a apetecer-me apanhar ar, respirar o tempo que está para chegar. 

Como é óbvio, a grande maioria dos vizinhos não tem horta coisa nenhuma. Mas, surpreendentemente, surpreendentemente mesmo, vimos uma capoeira. Galinhas, galos. Parecia que estava no campo. Uma coisa do além... Chamei o meu marido. Não se empolgou. Eu sim. Quase não estava a acreditar no que estava a ver. Parece que ainda nem estou bem em mim. Qualquer dia, ainda acordo com um galo a cantar. Seria a maravilha das maravilhas.

Entretanto, recebi uma chamada. E, enquanto estava concentrada ao telefone, ouvi um sonoro, 'Boa tarde!'. Espantada, olhei. Era uma vizinha na sua varanda, lá ao longe, acenando com o braço. O meu marido retribuiu também sonoramente. Quando acabei a chamada perguntei quem era, se conhecia. Que não, claro, que aqui é isto, se ainda não aprendi que aqui as pessoas cumprimentam-se sempre. E é. Volta e meia, distraída como sou, quando me cruzo com alguém e ouço um bom dia, olho admirada pensando ser alguém conhecido. Mas não, desconhecido. Também há uma coisa: como sou míope, nunca vejo bem as pessoas. Não vejo ou não presto atenção, não sei. No outro dia, ao passarmos por uma casa, o meu marido disse que era ali que morava aquele casal com que às vezes nos cruzamos. Não sei de quem fala. Ele diz que não se admira, que ando sempre noutra. 

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Tenho ainda a dizer que, entretanto, enquanto estava aqui a escrever, recebi um mail de uma pessoa que me dizia que tinha urgência em falar comigo. Obviamente, atendi a urgência. E foi um longo telefonema do qual se pode dizer que de um arco emocional se tratou. Começou por me falar de uma pessoa que morreu, meia idade, saudável, em duas semanas foi-se. O abalo, a tristeza, o espanto. Como foi possível? Estava positivo mas pensava que estava bem, uma febre apenas, nada de mais. Afinal estava sem oxigénio e sem dar por nada. Ou seja, afinal estava quase a morrer. Daí, do desconcerto do que é esta maldita covid, passou para as hostilidades com um colega, a ponto de quase terem andado à pancada. Descreveu as zangas, as deslealdades, a arrogância do outro. Essa a verdadeira razão da urgência. Depois passou para a sua vida, para as suas dúvidas, para as suas convicções. Depois, nem sei como, para a risota. Por fim, acabámos combinando uma estratégia. 

Quando acabei, escrevi um mail como tínhamos combinado pois o desenrolar da estratégia requer mais um a bordo.

Agora cá estou, de novo. 

E só para verem como eu sou, uma maria desmiolada, ouçam agora esta. Tinha visto dois vídeos e tinha pensado partilhá-los convosco. Gosto de entrevistas, ao vivo, em vídeo ou por escrito. Desta vez, duas pessoas tão diferentes uma da outra. Tom Jobim, boa onda, leve, leveza, alegria e suavidade. E Clarice Lispector, toda coisa de dentro, insondável, espanto, intensidade contida, uma vida para além do compreensível. Estou em crer que o da Clarice Lispector já aqui o partilhei uma vez. Mas acho-o tão fantástico que me apetece aqui tê-lo de novo. É bom escutar o que pessoas assim têm para dizer mesmo que não seja nada de mais, mesmo que seja apenas o que, naquele instante, lhes ocorreu ou apeteceu dizer.

E a minha ideia era falar sobre o que eles dizem e ir intercalando com as fotografias que fiz enquanto olhava a lareira que me aqueceu a tarde. Mas agora já não faz sentido. Fico-me por aqui mas vocês podem ficar com eles. Está bem?


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Fotografias de Paolo Roversi da série Birds na companhia de Yo-Yo Ma e James Taylor

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E tenham, V.Exas, um dia feliz

segunda-feira, janeiro 11, 2021

O jantar que não houve -- Chico e Clarice

 

Chico, coisa mailinda, sorriso tímido a iluminar os seus belos olhos d'água, conta o medo que sentia perante Clarice, mulher bela, cheia de mistério, alheia às aflições alheias. E conta sobre o jantar onde foi, a convite de Clarice, e, para o qual, para se sentir mais apoiado, levou dois amigos, ambos igualmente intimidados. Mulher bonita intimida. Mulher bonita e inteligente intimida ainda mais. 

Historinha mais deliciosa.


quarta-feira, abril 24, 2019

Pecar em grande no Dia do Livro




Saí tarde à hora de almoço e, portanto, atrasada face à hora combinada. Ainda por cima, tinham-me chamado para o que seria suposto ser uma simples rapidinha pelo que nem tive pretexto para ir buscar o telemóvel. Só que, afinal, os preliminares nunca mais acabavam e o que se seguiu foi mais do que tântrico. Ou seja, não tive como avisar que ia chegar atrasada.

Ao fim de todo este tempo, ainda não ultrapassei isto: fico enervada quando estou atrasada. Detesto chegar atrasada. Das poucas coisas que verdadeiramente me enervam em profundidade é isto: estar agarrada numa reunião sabendo que vou chegar atrasada à seguinte ou estar agarrada, e sem escapatória, no trânsito sabendo que não vou conseguir chegar a horas. 


Portanto, cheguei atrasada. Quem por mim esperava, sem ter sido avisado, já se impacientava quando, chegada ao carro, avisei o óbvio: a hora combinada já era.

Tivémos, pois, que almoçar sem muitas delongas. Ele tinha horas para se ir embora. E eu também mas com uma pequena folga, coisa de uns dez minutos. Acontece que, quando ia no carro, tinha ouvido dizer que era Dia do Livro. 

Não ligo a esta coisa dos Dias de. Mas não ligo quando não me convém ou quando não estou nem aí. No caso vertente, pressenti logo que teria que abrir mais uma excepção. E pensei: deviam era fazer também o Dia dos Perfumes. Ou o Dia dos Brincos. Ou o Dia dos Gelados. A ver se não ligava a todos os Dias de, ai não que não.

E, assim sendo, quando ele se despediu a correr, perguntando-me se eu também não ia, respondi que, sendo Dia do Livro, teria que ir fazer as honras.


E é destas coisas que nem vale a pena tentar iludir: a gente sabe quando tem a predisposição no corpo. A gente quer, genuinamente, não ceder à tentação mas a gente sente, nessas alturas, que não é genuinamente coisa nenhuma, que a gente só está é à espera do pretexto e que, a bem dizer, nem é preciso pretexto nenhum, é mesmo só surgir a oportunidade.

Logo à entrada, a estante corrida, verso e reverso, de livros cheios de descontos, e descontos upa-upa. Pensei: cuidado, não vá já os teres. É que se é para pecar pois que o pecado venha com travo a coisa nova, a aventura e descoberta. Nada de coisa datada, coisa já por aí muito batida, coisa que talvez já tenha passado pelas minhas mãos. Não, se é para pecar pois que seja com coisinha a cheirar a novo, fora da zona de conforto, desconhecido, blind date.

Portanto, passei a zona dos déjà-vu e avancei resoluta para as novidades.


E aí foi a emoção inversa do stress-mau, aí foi aquele fremitozinho bom, tremurinha com cheirinho a desafio, com apelo irrecusável: pega-me, espreita-me, toma-me para ti.

Em situações assim nada a fazer, não me faço rogada, entrego-me ao prazer do desfrute. Peguei no primeiro, virei-o e revirei-o, abri-o e sondei as suas entranhas. Agradou-me. Teve que ser.

E assim foi, uma e outra e outra vez. Pensei: se é para pecar, se é para ceder à tentação, pois que a festa seja rija, sem pudor, sem arrependimento. Não com um que só um, em dias assim, é pouco. Dois. E que venha mais um que só dois é pouco.

Foram seis. 

Depois, quando vinha a sair, tive um rebate de consciência e, para me consolar, pensei: não são todos para mim. Um é para ele. O magala. Salvo seja, claro -- porque não é magala, é oficial do exército. O autor, bem entendido. Mas não é o autor que é presente meu para ele, é a obra. 


Mas os outros cinco são para mim -- embora, não sendo eu egoísta, tenha todo o prazer em partilhá-los. Um luxo. Depois, no carro, ia a pensar: não foi só por ser Dia do Livro, foi mas foi já coisa do 25 de Abril, para festejar a liberdade. E venham mais cinco. Venham mais cinco/ Duma assentada.

Quando cheguei aqui à sala com eles todos pelo braço, o meu marido olhou e riu-se: Deste-lhe! E eu já querendo ser perdoada mas, ainda, sem qualquer pudor pelo mal feito: Um é para ti. 

Depois peguei na máquina fotográfica e ele voltou a rir-se: Não me digas que vais fotografá-los... Claro que fui, orgia que é orgia tem que ficar registada. 


Com ínfimos excertos escolhidos completamente à toa (e ansiando pelo dia em que vou ter tempo para lê-los todos, de lisinho, na boazinha)

Presente para ele:

  • Que fazer contigo, pá? -- Carlos Vale Ferraz 

Longe das vistas e das censuras da família católica e dos colegas da Opus Dei, Maria del Tosario cortara os medos dos pecados e das más-línguas; benzia-se antes de abrir as pernas -- que se joda Rosario! -- e adradecia o prazer no final -- gracias, Jesús!

Presentes para mim:

  • Carne crua -- Rubem Fonseca
Um dia entrou no armazém uma moça muito linda, perfeita, seios pequenos, bunda durinha, pernas grossas, mas não muito. Seu Manoel a atendeu e u fiquei olhando, excitado; foi uma espécie de paixão à primeira vista. 
  • Dicionário sentimental do adultério -- Filipa Melo
Pense como um jogador de xadrez: com duas a três jogadas de avanço. Há quem diga que o adultério é uma forma de treinar não só o corpo mas também a existência.
  • Pedra de afiar livros e outras histórias de um livreiro -- Jaime Bulhosa
Vamos organizar no próximo mês uma grande festa de caridade. Contamos com as senhoras para nos levarem todos os objectos inúteis que tenham em casa: livros, vestuário, bugigangas e também, naturalmente, os maridos.
  • No impudor do olhar -- Octave Lothar
Assim a pele feminina, tapete mágico inesgotável, será acariciada, beliscada, mordida, fustigada, por forma a que se erga em voo pelo céu do desejo e nesse voo arraste quem quer que a ponha à prova, libertando os excessos e os prodígios nela represados.
  • Correio para mulheres -- Clarice Lispector
No entanto, quantos maridos poderiam evitar situações embaraçosas e desagradáveis se ouvissem mais os conselhos das esposas?Conselho é aquilo que não aceitamos porque desejamos experiência; e experiência é o que nos resta, depois de perdermos tudo o mais.

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Nota de culpa

Dadas as presentes circunstâncias -- o post foi longo e o anterior também um bocadinho e madruguei e a alvorada vai voltar a ser prematura e a noite de 24 vai ser longa -- não consigo manter-me acordada pelo tempo de que necessitaria para responder aos comentários. Por isso, aceitem as minhas desculpas. Mas saibam que os li e que gostei e que... (não posso dizer...) e que apenas não tenho bateria para mais conversa.

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E porque sim, apesar do calendário ainda estar em Abril: Maio maduro Maio. E que viva a Liberdade. Sempre e para sempre.


25 de Abril, forever in our hearts. 

(E não me perguntem porque é que escrevi isto desta maneira e, ainda por cima, em inglês, porque não faço a mínima)

quarta-feira, março 22, 2017

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
[Não é poesia mas tem muita filosofia]



Confesso:

Gosto de bobos. Gosto de ser boba. Gosto de dizer bobagens. Gosto que me digam bobagens.

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Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.


[Clarice Lispector]

Das vantagens de ser bobo



Vídeo de Cine Povero sobre imagens de obras de Marc Chagall (1887-1985)

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E desçam que quiserem encontrar a vossa serenididade.

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