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sábado, junho 01, 2019

Com a cabeça nas lonjuras e os pés rentes ao mar





Nesta minha semi-hibernação, semi-adormecida a semi-ver semi-cenas, no outro dia vi parte de um programa em que uma jovem família trabalhava na preparação de bacalhau. Mas o que fez tocar várias campainhas foi quando vi que punham o bacalhau num grande camião e que, ao fim de cinco dias, estava em Portugal. Nunca me tinha ocorrido que, para fazer tal distância, usassem o transporte terrestre. E, a partir daí, comecei a pensar que era um bom passeio para fazer de carro, parando, vendo. 

Mas hoje, ao falar nisso, percebi que, para não ser uma estopada, sempre a despachar, levaríamos muitos dias a ir e vir. E tenho sempre esta coisa de não me sentir muito confiante em afastar-me durante muito tempo. Antes, quando os meus filhos eram pequenos, ou ia com eles ou não queria estar longe durante mais do que dois ou três dias. Agora que são grandes e que já têm os seus próprios filhos, é deles todos que não quero afastar-me durante muito tempo mas, também e sobretudo, dos meus pais. Houve um período, quando os meus filhos se autonomizaram e os meus pais ainda eram 'novos' e ainda o AVC não tinha surgido na vida do meu pai para, coitado (tão independente e orgulhoso da sua independência que ele era), condicionar a vida de todos em que nos sentíamos como dois jovens em início de casório. Ou como namorados. Livres, sem preocupações.


Mas, com isto, o meu marido lembrou-se daquela hipótese de que ambos tanto gostamos mas que, para falar verdade, apenas usámos duas vezes, por sinal, em duas vezes em que havia greve nos aviões: Lisboa-Paris de comboio, sendo que, em Wagon Lit, de Espanha para Paris. E fiz outra vez na Alemanha, salvo erro de Dortmund para Frankfurt, passando pelos castelos do Reno e pela Catedral de Colónia, só que dessa vez não foi com o meu marido, foi com um colega. Comboio.

E lembrei-me de uma frustração que alimentei durante anos. Sempre fui muito de não parar sossegada e, apesar de me dar muito em com os meus pais, de ter muita vontade de me libertar do controlo familiar. E de viajar. Por isso, a minha ambição era fazer o interrail. Cedo comecei a falar nisso. acontece que também sempre namorei e, portanto, logicamente iria viajar com ele. Alimentei a esperança de ir com qualquer dos três. Mas a perspectiva de verem a filha, alguém que sempre sentiram que não poderiam ter à rédea curta, a ir pelo mundo com o namorado, sabe-se lá com que ideias 'avançadas' (como diziam que eu tinha) e sujeita ao falatório das vizinhas, era coisa que não encaixava na cabeça deles. Por isso, sempre a fustigar-lhes a cabeça para me deixarem ir, sempre revoltada por não o deixarem, acabei por casar, começar a trabalhar, ter filhos e tudo isso que nos prende os pés ao chão -- e nunca fui.


E foi disso que esta noite me lembrei. Disse ao meu marido: e se fossemos, mochila às costas? Ele virou-se para mim, espantado. Diz que ele conseguiria, eu não. E isto porque diz que conseguiria meter numa mochila razoável aquilo de que precisaria. Mas que eu nem pensar. 

Não sei, tenho que pensar. Nem sei se os comboios são bons, confortáveis. quando viajei em wagon-lit era um luxo. Tinha um quarto maravilhoso. Jamais me esquecerei da experiência. Mas presumo que já não haja nada disso. 

A filha de uma prima minha estudou em Praga. Dali partiu para tudo o que era país à volta. Metia-se no comboio com o namorado e amigos e ia conhecer outros mundos. E eu ouvia isto como se fosse uma realidade distante. Mas, pensando bem, porque é que há-de ser distante?

Gostava de ir conhecer os fiordes mas também não será preciso numa única viagem ir até tão a norte. Se calhar, para experimentar, poderíamos tentar uma viagem mais modesta.


Mas isto sou eu a sonhar através da ponta dos dedos. O cansaço faz-me ter vontade de abrandar, de tirar um tempo para passear, sem pressas, sem compromissos, sem agendas a rebentar pelas costuras.

O meu marido ficou entusiasmado. Ao princípio, quando ainda estava na fase da viagem de carro, até me lembrei de alugarmos uma autocaravana e irmos por aí, estrada afora. Mas ele torceu o nariz. Na volta acha que já é tarde para virarmos hippies a dormir à beira do mar ou no sopé de uma montanha. 

No entanto, só o pensar nisto, parece que já me faz sair um pouco desta semi-letargia em que este hiper-calorão me deixa.


E talvez um dia também consiga ir conhecer a Australia, visitar a Deb Morris, talentosa fotógrafa do mar e das ondas, de quem um dia destes aqui falarei e a quem dedico estas minhas modestas fotografias tiradas esta sexta-feira ao fim do dia, quando fui respirar o ar fresco do mar que sempre tanto bem me faz. Ou talvez ela se convença a vir fotografar o belo mar de Portugal.

terça-feira, junho 26, 2012

Este calor africano levou-me de volta a Angola e depois, para me refrescar, fui até Paris e depois fui visitar os Castelos do Reno - de comboio, que é mais romântico


Música, por favor (e, já agora, atenção às imagens, lindas)

Duo Ouro Negro - Amanhã


*

Aqui a casa, chegam-me notícias do calor. Para o confirmar, desloco-me até à janela, abro o vidro e entra-me um calor africano. Há uma neblina quente sobre o rio que hoje esteve quase sempre em tons cinza, levemente verde patine, embora, à noite, um tom levemente rosado tenha aflorado às faces do céu, nas margens. A cidade parece parada, o rio parado, as cidades do outro lado são manchas envoltas numa nuvem de ar quente, imóvel.

Fez-me lembrar o mês que, há alguns anos, passei em Angola. 



A Baía de Luanda


Sem quaisquer laços familiares que me liguem a esse País e sem antes ter estado em África, foi com espanto e empatia que viajei por várias cidades, grande parte delas encostadas à água, por estradas imensas de terra no meio da qual árvores imensas, escultóricas, se elevavam no meio do pó e do calor. 



As belíssimas árvores de Angola - imagens que nunca vou esquecer


O tempo estava sempre quente, húmido, denso, o meu cabelo ficava empastado e, durante todo o dia, eu ansiava por me sentir debaixo de água. Quando finalmente o conseguia, nunca me parecia o suficiente, aquele calor parecia ter-se impregnado na minha pele, no meu cabelo que se colava às minhas costas.

Mas uma coisa também é certa: uma terra quente é uma terra cujo calor liberta os corpos. Via-se isso nas ruas, nas esplanadas, nas praias e senti-o eu própria. Qualquer roupa parece excessiva e os olhares tentam facilmente a aproximação.

Imagino a diferença tremenda que, em tempos, os chamados retornados sentiram quando, vindos de países imensos, quentes, de hábitos permissivos, chegaram a esta acanhada nesga, temperada, maioritariamente moralista.

Habituo-me facilmente a cada nova realidade mas, apesar de ter gostado imenso da minha curta estadia em Angola, devo dizer que tempo tão quente, tão húmido, tão pesadamente abafado, me causa algum desconforto.

*

Música, de novo, por favor

Carla Bruni - Quelqu'un m'a dit



E, ao pensar nisto, veio-me à memória um outro passeio, outros locais, outros meios de transporte, outras temperaturas.

Há algum tempo, por motivos profissionais, o meu marido tinha que ir frequentemente a Paris e, sempre que possível, eu acompanhava-o. 



Avenue des Champs Élysées - as noites iluminadas da altura do Natal



É cidade de que apenas não gosto muito nos meses de verão em que a cidade me parece algo estranha, parece que perde a graça, grande parte do que é a vida típica de Paris parece esvair-se, não se vêem parisienses, apenas imigrantes e turistas. De resto, seja nos meses de frio agudo e neve, seja no período iluminado e festivo que antecede o Natal, seja na primavera, Paris é uma cidade maravilhosa onde me sinto muito bem.

Uma das vezes em que íamos, defrontámo-nos com uma greve de controladores aéreos, não me lembro se de cá, se de lá. A viagem de carro estava fora de questão pois, pelos dias de que dispúnhamos, teria que ser feita de seguida, o que seria muito cansativo. O meu marido teve então a ideia de irmos de comboio, de Wagon Lit. 



O conhecido símbolo dos Wagons-Lits



De início, a ideia pareceu-me insólita mas, depois, comecei a achar uma ideia fantástica. E foi.

Para quem já tenha tido a experiência, saberá do que falo. É uma viagem confortável, tranquila, idílica. A ideia de romance pode ser associada, mesmo sem recurso a grandes imaginações literárias, a uma viagem a dois a bordo de um comboio que disponha de todas as condições de conforto.



Para os distraídos: claro que não somos nós,
claro que é Catherine Deneuce e Roger Van Hool, o casal apaixonado do filme La chamade



É um conforto em casinha de brincar, é o convite à intimidade em viagem, é a partilha das visões que se vão desenhando através da janela, a paisagem como um filme variado visto com a noção da velocidade, a beleza mais breve, mais efémera que nunca, e a beleza aparece-nos com as suas consecutivas mutações, o norte de Espanha, os túneis, os bosques frescos de cedros imponentes e o maravilhoso País Basco, França luminosa a descobrir-se a seguir. Lembro-me do meu encantamento à noite e lembro-me do meu marido me acordar para ver o nascer do sol no meio de um campo florido. 

Tínhamos a cama com janela, tínhamos casa de banho, tínhamos sofá (provavelmente era a cama, antes de estar montada como tal mas não estou certa), e ler um livro naquele cenário sabe tão bem. E havia um restaurante simpatiquíssimo, o serviço até com um certo requinte. Tudo mesmo muito bom.



Wagons-Lits - O restaurante 


Uma das viagens mais interessantes que já fiz. Mais tarde viríamos a repeti-la num percurso mais curto e o encantamento foi o mesmo. 

Uma outra vez fiz o percurso entre Düsseldorf e Frankfurt também de comboio. É uma viagem linda que abrange a zona dos Castelos do Reno, e todo o percurso nas margens do Reno é de um lirismo, de uma harmonia, com descobertas de mais imagens fascinantes a cada suave curva em que se entra... E depois passa-se por Colónia, vê-se a extraordinária catedral. Que beleza tudo aquilo, que bom é viajar calmamente de comboio por sítios assim. 

Penso que não é a primeira vez que aqui o refiro: as viagens de comboio proporcionam passeios maravilhosos. Avessa a cruzeiros, a excursões de qualquer tipo, desinteressada por praias paradisíacas ou destinos turísticos badalados, o meu ideal de férias perfeitas passa muito por coisas como estas que referi. Ou isso, ou simplesmente andar de carro, parando, passeando, sem pressa. 


*

Caso ainda tenham disposição para isso, gostaria muito de vos ter de visita lá ao meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras saem do rio para murmurarem junto a um belo poema do novo livro de Casimiro de Brito. Será bem melhor se for ao som da maravilhosa música de Heitor Villa-Lobos.


*

Apesar da canícula, tenham, meus Caros leitores, uma bela terça feira.