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quinta-feira, maio 07, 2026

Quando amamentar não é uma coisa natural para a mãe

 

Para mim, amamentar sempre foi um acto natural. Mal acabados de nascer e já as enfermeiras, na maternidade, os estavam a pôr a mamar. Ainda adormeciam, tinha que estar a mexer-lhes nos pés para ver se os mantinha despertos, tinha que ajeitar o bico do peito na sua pequena boca para que percebessem que tinham que puxar o leite.

Devo dizer que, embora adorasse tê-los junto a mim, naquele momento tão íntimo e tão intrinsecamente natural, passava por momentos francamente dolorosos.

De início, quando o leite 'subia', eu ficava febril, tinha arrepios. E o peito ficava todo encaroçado, doloroso. E, também o início, os mamilos ficavam gretados. Chegavam a sangrar. As dores eram fortes mas eu aguentava-as estoicamente para não perturbar a paz que sempre achei que deveria envolver o momento.

Eu tinha pomadas mas queria que, em mim, tudo fosse bio, não queria correr o risco de o leite ser de alguma forma contaminado e, portanto, evitava pomadas ou produtos ou métodos que não me pareciam naturais. Sempre achei que deveria portar-me como os bichos se portam na natureza, sem medicamentos -- aliás, levado ao extremo de até evitar 'artifícios' como bombas de leite (que tanto me teriam aliviado...). Era muito fundamentalista, reconheço agora, ao ver que nada disso faz mal. Mas não queria correr qualquer risco e, portanto, fui, em todas as vertentes, muito ortodoxa. Segundo eles, fui-o até eles serem grandes. Se calhar, acham que ainda sou... 

Mas se para mim tudo isto era tão natural a verdade é que algum tempo depois fui confrontada com uma situação oposta. Para meu espanto, uma amiga, recém mamã, revelava a mais inacreditável falta de intuição para lidar com a criança. Não sabia pegar-lhe ao colo daquele jeito aninhado que é habitual numa mãe que pega num recém-nascido. E, para amamentar o bebé, em vez de a encostar ao seu corpo, colocava-o sobre a perna e virava-lhe a cabeça da criança para que, com a boca, ela alcançasse o bico do seu peito, o que, obviamente, não funcionava. Eu olhava aquele disparate e nem percebia que despropósito era aquele. Pegava na criança e exemplificava. Ela olhava com atenção. Quando passava a criança para os seus braços, para que replicasse os meus gestos, esticava-os e ficava outra vez com o bebé longe do seu corpo. Nunca consegui perceber aquela dificuldade. Ensinei-a não sei quantas vezes, ensinei-a apesar de achar que devia ser intuitivo -- mas não consegui ser bem sucedida. O bebé, quando se via ao meu colo, aninhava-se e procurava o meu peito -- coisa que espantava muito a minha amiga, que mais parecia achar que era a criança que me preferia a mim do que reconhecer que ela é que não tinha jeito nenhum.

Foi sempre de tal maneira que, quando vinham cá a casa, o bebé pedia-me sempre colo e, quando se iam embora, agarrava-se ao meu pescoço e, já com um ou dois anos, já a falar, chorava agarrada a mim a chamar-me mãe, coisa que me deixava sempre desconfortável pois imaginava o desgosto que eu teria se aquilo se passasse com algum dos meus filhos. Mas a minha amiga parecia não se importar, dizia simplesmente: 'Desde que nasceu, que sempre te preferiu.'. Mas não era. Era ela que não tinha pingo de instinto de maternidade. 

No entanto, nunca a julguei ou critiquei pois vi, constatei sem sombra de dúvida, que não era intencional, era mesmo uma questão intrínseca, não era capaz de ser de outra maneira. 

Lembrei-me disto ao ouvir o postal do dia do Luís Osório. A natureza é assim mesmo. Nem todos os seres são iguais.

A mãe que não sabia amamentar | Postal do Dia | RTP Antena 1

Uma história bonita com vários protagonistas. Uma mãe que não sabia amamentar, vinte mulheres que a ensinaram e um filho que nasceu de uma relação com o mítico chefe de um bando.


Não tenho imagens do caso que o Luís Osório fala mas tenho o de um caso levemente semelhante.

Orangotango aprende a amamentar observando uma tratadora a amamentar o seu filho

Depois de observar a tratadora de animais Whitlee Turner a amamentar o seu filho Caleb duas vezes, Zoe conseguiu amamentar o seu próprio bebé.

Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, março 24, 2026

Era uma vez um gorila chamado Pablo

 

Quando eu era pequena lia muito. A Menina Aguaceiro em diversas peripécias, A Princesa da Lua e tantos outros. Mas um conduzia-me a um mundo de sonho, o reino das mais que mil maravilhas: um sobre o fundo do mar. Seres extraordinários, coloridos, mutantes, algas e corais, rochas, tudo um fascínio. Mais tarde, bem mais tarde, veio A vida na Terra que, pela mão de David Attenborough, nos mostrava tudo o que de belo a terra tem e que, na maior parte das vezes, não está ao alcance do nosso olhar e, tantas vezes, do nosso conhecimento.

A inconfundível voz de Sir David Attenborough, que se enleava nas folhagens, sussurrava para não incomodar os espécimes que observava, que quase se toldava de emoção quando presenciava os milagres da natureza, passou a ser uma voz familiar na nossa casa, como, estou certa, em muitas casas. Não é apenas encantamento que percebemos nele, é também respeito. E prazer da partilha. 

Com 99 anos certamente muito bem vividos, ele é um exemplo de persistência, de gosto pela aventura, de disponibilidade e capacidade de devoção à natureza. 

Talvez por isso, a sua participação em documentários é um selo de qualidade.

Uma História de Gorilas: Contada por David Attenborough | Trailer Oficial | Netflix

Neste documentário intimista, David Attenborough conta a extraordinária história do seu primeiro encontro com a cria de gorila Pablo, como este gorila cresceu e se tornou um macho dominante da raça Silverback, e como estão os descendentes diretos de Pablo nos dias de hoje. Repleto de comportamentos extraordinários de gorilas nunca antes filmados, este é um relato de esperança e alegria.


quinta-feira, outubro 02, 2025

Oh... Jane...

 

Uma notícia triste. Quando comecei a ver, por todo o lado, a  fotografia com a data de nascimento de Jane Goodall e a data de hoje, entristeci-me. 

Jane Goodall at Budapest Zoo in 2004 with a newly adopted chimpanzee called Pola.
Photograph: Bela Szandelszky/Rex Features

No Guardian (Jane Goodall, world-renowned primatologist, dies aged 91)

É certo que ninguém cá fica e é também certo que, à medida que a vida se prolonga, mais curto fica o pavio. Mas ela era daquelas pessoas que eu admirava verdadeiramente. Gostaria muito de a ter conhecido pessoalmente. Sei que adoraria estar perto dela, ouvi-la, fazer-lhe perguntas, sentir a doçura do seu olhar e do seu sorriso. E não há muitas pessoas de quem eu consiga dizer isto.

Ainda não há muito, eu tinha partilhado, num outro fórum, um vídeo dela louvando a sua permanente abertura de espírito e a sua serenidade. Era daquelas pessoas que a gente se habitua à ideia de que são eternas.

Mas, enfim, tinha 91 anos e um dia haveria de ser.

Eu própria dou por mim a fazer contas de cabeça. Penso em quantos mais anos 'úteis' ainda me restarão, em que estarei independente, motivada, sem maleitas a travar-me a energia e a mobilidade, com vontade de fazer tachadas de comida e desejando ter a mesa cheia de gente. Faço a minha estimativa e, por vezes, penso que estou a ser optimista. É que não vale a pena pensar que só acontece aos outros. Neste caso, ninguém escapa. Ou seja, nem faz sentido desejar que a morte não nos leve. Claro que levará. O mais que faz sentido querer é que seja como a gente deseja que sejam os partos: uma hora pequenina. Que seja rápido e pouco doloroso. E que seja quando a gente pensar que já viveu tudo o que haveria para viver, que já está bem assim, que já chega.

de André Carrilho

Mas, no caso de Jane Goodall, sempre tão bem, sempre tão jovem, cabeça tão arejada, tão escorreita e bem disposta, sempre tão profundamente honesta, tão bondosa, penso que era legítimo pensar que seria daquelas que chegaria a velhinha, aos cem ou mais que isso, a ainda a sorrir e a mostrar ao mundo que a boa onda e o bom humor são verdadeiras pílulas da longevidade. Afinal, partiu antes do que eu imaginaria. Ainda não a via como 'velhinha'. Como pessoa de alguma idade, sim, mas não daquelas velhinhas que já não dão uma para a caixa.

Segundo leio, ainda a semana passada participou no evento Forbes Sustainability Leaders Summit (partilho o vídeo com a sua intervenção) e num podcast creio que do Washington Post, e ia falar em público depois de amanhã e, para a semana, participaria noutro evento. Ou seja, esteve activa até mesmo ao fim. Acho extraordinário. Provavelmente, algo dentro dela estaria já bastante frágil mas, num daqueles mistérios, talvez insondáveis, em que os mecanismos da vida e da morte são férteis, a sua cabeça, a sua vontade, o seu ânimo estavam ainda bem vivos. 

Não vou agora pôr-me para aqui a desejar que repouse em paz ou outras banalidades do género. Desejo, isso sim, que o seu exemplo perdure, que o amor e compreensão pelos animais seja cada vez mais forte, que o respeito e a veneração pela natureza estejam sempre presentes entre nós.

Li que, naquelas medidas estúpidas e cruéis de Trump, tinha sido cordado financiamento a projectos seus. Imagino como se deve ter sentido revoltada e impotente. Mas estou em crer que terá tentado dar a volta, sem derrotismos. E é o que todos temos que fazer quando a vida nos troca as voltas: resistir, encontrar alternativas, acreditar, seguir em frente.

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Jane Goodall Has Died At 91—Here Is Her Forbes Interview From Last Week

Legendary zoologist Jane Goodall has died at 91; last week, she spoke to Forbes' Maggie McGrath at the Forbes Sustainability Leaders Summit.

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Votos de um dia feliz

sábado, maio 20, 2023

Hoje não há CPIs.
Hoje o tema é a fofura do Koko e a graça e doçura de Robin.

 

Passa das duas da manhã e estive a trabalhar até agora. Tive um dia daqueles. Desde fazer máquinas de roupa e estendê-la ao sol e ao vento, limpar pó, varrer e sei lá mais o quê, até fazer a revisão (espero que final) a mais uma "obra". Um dia falarei sobre isso. 

Por isso, não vi televisão, não vi notícias. Nada.

Tinha ideia de aqui escrever uma ficção desenvolvida segundo a metodologia científica da validação de hipóteses. Primeiro enunciar as ditas hipóteses (por exemplo: suponhamos que o computador continha provas de que passava informação para um certo partido; suponhamos que continha provas de que passava informação para uns certos jornalistas; suponhamos que continha provas de que passava informações para umas certas empresas; etc). Depois identificar os meios de prova a usar na validação de cada hipótese. Depois tal e tal. 

Também tinha pensado ficcionar que eu própria já tive contactos com o SIS. Ou relatar, ficcionadamente claro, casos em que o SIS teve intervenção, e ainda bem, depois de algumas situações banais para uns, terem suscitado  atenção a outros.

Tudo ficcionado.

Mas, juro, já não consigo. É muito tarde.

Este sábado também vou entregar-me à faxina pelo que não sei se durante o dia consigo vir aqui quer agradecer os comentários quer desenvolver algumas ficções (que, obviamente, nada têm a ver com as mediatices e cavalices que por aí pululam).

Entretanto, à falta de melhor, viro-me para animais decentes e fofos. Vejam, por favor, porque é delicioso.

Koko's Tribute to Robin Williams

Robin Williams met Koko in 2001.   It was a very cheerful encounter for both, and Koko has treasured it to this day.  When Koko learned of Robin's passing (on Aug. 11, 2014) she became very sad.  We hope this video will lift her spirits and remind everyone of the profound gift of joy that Robin Williams brought to our world.


Bom sábado
Saúde. Bom trabalho ou bom descanso. Paz.

domingo, fevereiro 19, 2023

Continuo entre iguais

 

Penso que sou um bocado destemida. Não sou muito de antecipar problemas quando quero uma coisa pelo que o medo não me tolhe. Geralmente, se quero, vou atrás e confio que hei-de ser capaz de remover ou ultrapassar os obstáculos com que me depare.

Mas, dito isto, uma coisa reconheço: não sou aventureira nem procuro situações que apresentem riscos sem que a recompensa me seja cara.

Expedições na selva, escalar montanhas, mergulhar para explorar o fundo do mar -- tudo coisas que nunca fiz nem nunca senti qualquer interesse em fazer. 

Contento-me em ver o que outros, curiosos e intrépidos, fazem. E gosto de ver. Gosto de 'explorar' os mundos que, ao vivo, me são desconhecidos.

Devo dizer que, se um qualquer volte face do destino, alguém conseguisse levar-me para o meio de uma selva em que pudessem ocorrer encontros de primeiro grau com gorilas, iria morta de medo. E se me visse cercada por um grupo deles e começasse a sentir-me inspeccionada e tocada por eles ficaria transida, cheia de medo que me mordessem, me arrancassem o cabelo, me furassem os olhos.

Mas, vendo este vídeo, é um receio infundado pois parecem ser delicados, cautelosos, afáveis. E, quando a curiosidade está satisfeita, retiram-se. Ora saber retirar-se a tempo é uma virtude. Fantástico.

Extraordinary Encounter with Mountain Gorillas in Bwindi, Uganda

Desejo-vos um bom dia de domingo


sábado, fevereiro 18, 2023

Se é para macacadas, peço desculpa para prefiro a companhia dos de verdade

 


Na quinta-feira o dia foi mais longo que o habitual e, em vez de poder desforrar-me dormindo até mais tarde, não senhor. Esta sexta-feira estava a dormir no meu segundo sono, e quem diz segundo diz terceiro, a sonhar descansadamente, quando ouvi o som que durante tanto tempo me despertou. O meu sonho ainda fez por assimilar o ruído, como se fizesse parte do argumento, mas logo abri os olhos e percebi que era realidade.

O dia tinha que começar cedo. Não teria que ser tão cedo mas, como sou inflexivelmente pontual, gosto de antecipar possíveis contratempos. Além disso queria ter a certeza que, sendo das primeiras a chegar, teria o serviço cumprido de certeza a tempo e horas.

Afinal, não me serviu de nada. Não ficou pronto. Impediu-me de repor o sono e obrigou-me a telefonemas e manobras complicadas e... tudo para nada. Não sou de me stressar mas, mesmo assim, irrito-me.

Há uma coisa nesta deriva em que anda o mundo que me faz muita espécie. Há tecnologias para tudo e para mais algumas coisas, tudo em tempo real, tudo online, tudo à distância de um clique. E depois, vá lá a gente perceber porquê, grande parte das coisas que antes eram fáceis, nas calminhas, agora são uma medonha trabalheira. Há apps para tudo, cada vez mais tudo converge na realidade virtual, mas depois as apps pedem códigos e depois os códigos não funcionam e, quando depois de mil esforços, lá se consegue pôr a funcionar, são as instruções que não são claras, é a rede ali que não é boa. Há sempre qualquer coisa que atrapalha. Um mundo que se vai estreitando.

E depois, para o que tem que ser físico, horas para marcar qualquer porcaria, horas para ser atendido, horas no trânsito. E, para uma coisa de nada, tudo tem que vir da central e vem através de uma transportadora, e os da transportadora ficam presos no trânsito e as peças não chegam a tempo e horas e ninguém sabe quando chegam porque é tudo contratado, subcontratado, sub-subcontratado e ninguém é responsável pela totalidade do processo.

E uma pessoa fica pendurada, sem saber de nada, e ligamos e o telefona toca, toca, toca e ouvimos música, recomendações e o diabo a sete e, quando por fim aparece uma alma, essa alma também não sabe de nada e também lamenta e também compreende, mas também não pode fazer nada porque agora é assim.

Tudo isto me cansa de uma maneira... Nestas alturas só me apetece hibernar.

No interstício, num destes compassos de espera, resolvi ir ao supermercado. Quando fui pagar não percebi. Não tinha comprado nada que se visse e, no entanto, a conta era upa-upa. Olhei para o ticket. Os ovos, o arroz, o pão tudo a preços absurdos. Não há justificação económica razoável para aumentos que levam os preços nestes básicos para cerca do dobro.

E agora, enquanto escrevo, vejo o Expresso da Meia-Noite. 

Chego à conclusão que este pacote de medidas para a habitação foi feito em circuito fechado. sem envolver os representantes das partes envolvidas. 

[Pode acontecer que o Leitor Ccastanho e o Leitor Corvo Negro tenham razão, que tudo isto não passe de uma manobra de diversão ou uma forma de testar os agentes e de auscultar a sociedade. Pode ser. Mas, seja como for, foi um mau passo.] 

Continuo a achar que, se houver eleições, dificilmente haverá melhor candidato que o Costa e partido com melhor programa que o PS. Mas...

Mas isso não chega. Têm que se esmerar, têm que trabalhar mais e melhor, tem que arranjar maneira de ter gente sénior e experiente a trabalhar, a avaliar impactos, a medir consequências, a conseguir ver por outras perspectivas. Se continuar neste registo de maltinha trainee, só miudagem a dar tiros nos pés, não conseguirá ir longe.

Provavelmente este pacote agora foi obra da catraia promovida a Ministra da Habitação mais da catraia que aqui está na SIC Notícias, Maria Begonha de seu nome, a dizer generalidades e/ou infantilidades, se calhar também da outra catraia que andou a dizer que a Decathlon podia fornecer tendas para as pessoas acamparem em cima da ponte até se resolver os problemas da habitação. Só pode.

O PS esteve muito mal, muito, muito mal, no dossier da habitação. 

Penso que, para se limparem, deveriam entregar o assunto a um ministro capaz, com uma equipa capaz, gente experiente, inteligente, com mundo, com uma visão holística das coisas. Enquanto um tema tão relevante estiver entregue a miudagem sem noção do que é a confiança e do que é necessário para a obter e para a conservar, vamos estar mal.

E eu estou cansada. 

Hoje de tarde, vi que um dos mails que tinha recebido era de uma certa marca, anunciando os últimos descontos. Fui ver a roupa de mulher. Descontos de 70%. Coisas bem bonitas a preços bem bons. Comecei a seleccionar. O carrinho a compor-se. Depois pensei: Para quê? Apaguei tudo. Não vou comprar coisas de que não preciso. 

Toda a minha vida está em reset. Quero mudar tudo. Até o cabelo já foi. No outro dia voltei à cabeleireira a que não ia há cerca de três anos. Levei uma fotografia que a minha filha me tinha enviado, de alguém que tinha um corte compatível com a minha trunfa e com o que queria. Cheguei lá e disse: Qualquer coisa como isto. A meio, o chão já pejado de cabelo, olhei-me ao espelho e interceptei-a: ainda assim, não será que ainda poderia ir mais? Cortar é aquilo de que ela mais gosta. Mas vi que ela própria temia a ousadia do corte. Incentivei-a: Força

Saí de lá outra.

E muito mais teria a dizer. Tudo coisas assim, irrelevantes, coisas desta minha vidinha. Mas ando com tanto sono, tanto, tão improdutiva, tão a precisar de passar dias a dormir...

Depois do Expresso da Meia-Noite pus-me a espreitar vídeos. Descansa-me ver imagens boas, gente boa, animais bons, natureza, gente e animais em harmonia.

Este aqui abaixo é um doçura. A forma como o gorila recebe a mulher de Damian Aspinall é uma coisa extraordinária. Quanta ternura.


E aqui abaixo outras imagens incríveis: Attenborough observa de perto como uma mãe orangotango manipula instrumentos como um humano. Imagens que me impressionam. Imagens que penso que posso dizer que são belas. Como ela aí anda com o filho ao colo...


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Desejo-vos um bom sábado
Saúde. Bons pensamentos. Paz.

segunda-feira, janeiro 23, 2023

Criada por macacos

 

Vivo uma vida privilegiada e, tal como eu, a maioria das pessoas que conheço. Podemos queixar-nos de tudo mas não temos razão nenhuma para isso.

No outro dia a minha prima, olhando para a minha mãe, disse que ela estava bem. A minha mãe, em vez de dizer que sim, que felizmente está bem, fez logo um certo ar sofredor dizendo que nem por isso. Para sua frustração, quando se preparava para falar dos seus males, a minha prima atalhou, disse que coisinhas todos temos, eu mudei de assunto e perguntei pelos meus tios, e a conversa seguiu. Depois, já quando estava só com ela, perguntei porque tinha, outra vez, tentado dizer que não está boa quando está. Que não, que não está, que isto e aquilo, e tudo insignificâncias que têm a ver com não ter vinte anos, coisa que parece não querer aceitar. E voltei a dizer-lhe que não percebo porque é que, em vez de dar graças por estar tão bem, parece que anda sempre a ver se fica doente. Quase ofendida, reagiu: que não, que não quer nada ficar doente, que disparate, ora essa. E eu insisti: 'Então sinta-se agradecida, dê graças por estar tão bem'. Encolheu os ombros. Acha que não a compreendo.

De facto, para minha pena, não se sente agradecida, anda constantemente a ver se identifica sintomas que possam levar à descoberta de uma possível doença. E, desta forma, acaba por não aproveitar a boa vida que tem.

Nisso sou o oposto em relação à minha mãe. Sinto-me permanentemente agradecida. 

Agradecida pela saúde que tenho e pela saúde dos meus (e desvalorizo as pequenas coisas do dia a dia), agradecida por estarmos juntos, por vivermos perto uns dos outros, por gostarmos uns dos outros, por termos casas em que nos sentimos bem, por vivermos num país afável e bonito, por podermos conviver e passear em paz... por tantas razões.

Tendo uma pessoa próxima a atravessar um mau momento, um difícil momento de sofrimento físico e de medo, o que me traz naturalmente preocupada, penso ainda mais convictamente que devemos dar-nos por felizes pelo que temos enquanto estamos bem pois a verdade é que nunca sabemos se um dia deixaremos de estar. E também para não parecermos estúpidos e mal agradecidos aos olhos dos que estão realmente mal e precisam que saibamos encontrar as palavras solidárias e de conforto que os ajudem a ter esperança e a suportar melhor aquilo por que estão a passar. Lembremo-nos também das heroicas pessoas da Ucrânia e de todos os países em que há guerra, em que há fome, tragédias naturais, ditaduras, opressão, perseguições e maus tratos. Aí, sim, a vida é difícil, verdadeiramente difícil.

De forma geral temos, sim, razão para nos sentirmos agradecidos e razão para sabermos desfrutar tudo o que de bom nos rodeia.

O vídeo abaixo não tem legendas em português e é uma pena. Mas, a quem consiga entender o inglês, recomendo a sua audição. 

Marina Chapman foi raptada aos 4 anos de uma aldeia na Colômbia rural. E foi abandonada numa selva. Aí viveu durante cerca de 4 anos, sobrevivendo entre macacos. O que esta criança sofreu dificilmente se imagina. Mas sobreviveu. Até que um dia resolveu aparecer a uns humanos, acreditando que a mulher jovem era uma boa pessoa. O que sofreu depois disso foi talvez ainda pior. Mas um dia uma senhora resolveu ajudá-la e aí a sua vida mudou. Agora, com cabelos grisalhos, sente-se feliz. Sorri. Não fala com amargura, não fala com revolta. Gostaria de voltar à selva em que viveu e tentar encontrar os macacos com que viveu. Mas não sabe onde é. Do que ela diz, dir-se-ia que não acha que a sua vida tenha sido uma vida de sofrimento, dir-se-ia que pensa que foi um percurso que a trouxe até onde está hoje, feliz.

I Lived With Monkeys In The Jungle


Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Coragem. Reconhecimento. Paz.

domingo, novembro 27, 2022

Instinto maternal

 

Para uma carangueja como eu, maternal desde que nasci e provavelmente até morrer -- e que, se as circunstâncias não tivessem atrapalhado a minha natureza, em vez de dois filhos teria tido uma dúzia deles --, o instinto protector, alimentador e cuidador está sempre presente. Ter uma cria nos braços ou à minha guarda e sentir que está segura porque está comigo e porque darei a vida por ela se for preciso é daquelas coisas que deve estar inscrita no meu ADN.

Talvez por isso, percebo bem as fêmeas que agarram protectora e carinhosamente as suas crias, numa quase fusão de pele e sentidos, prontas a alimentar e dar de si o que for necessário para o saudável desenvolvimento dos seus filhos.

O vídeo abaixo, muito curtinho, comove-me. A reacção daquela mãe é tão intensa, tão feliz, tão tocante...

Mãe chimpanzé vê bebê pela 1ª vez depois de parto delicado

O zoológico do Condado de Sedgwick, no Estado de Kansas, nos Estados Unidos, foi palco de uma cena muito bonita: o momento em que uma chimpanzé conhece pela primeira vez o filho recém-nascido.

A primata gestante, conhecida como Mahale, precisou ser submetida a uma cesárea depois que os veterinários detectaram que o bebê não estava respirando bem. O procedimento foi um sucesso, mas o pequeno chimpanzé precisou ficar em observação no hospital por algum tempo. 

Quando ele finalmente foi liberado, o grande reencontro aconteceu. Mahale não reconheceu o filho de cara, mas sua reação na sequência foi emocionante. As profissionais de saúde que acompanharam o caso contam que todos choraram e ficaram bem orgulhosos da mais nova mamãe. 

O zoológico divulgou que Mahale e o bebê passam bem.


Desejo-vos um belo dia de domingo
Saúde. Carinho, afecto e bom humor. Paz.


quinta-feira, janeiro 20, 2022

Há algum partido chamado 'Maioria Absoluta' em que a malta possa pôr a cruz?
Não...?
Então por que raio anda isso no centro da discussão política?!
Santa paciência. Prefiro ver macacadas do que aturar gente parva.

 


Nas eleições, seja para a escolha de Deputados, de um Primeiro-Ministro (que, nas Legislativas, é um dos factores determinantes), de um Presidente da República, da Direcção da Associação de Estudantes ou do Delegado de Turma, só há uma regra válida: escolhe-se a que nos parece a melhor opção.

Podemos não nos identificar a 100% mas devemos escolher o que achamos mais competente, mais confiável, que tomará melhor conta do recado, que melhor nos representará, que mais provavelmente agirá de forma a merecer o nosso apoio.

Por isso, se gosto mais da Lista A ou da pessoa X, só se for muito burra é que vou votar na Lista B ou na pessoa Y.

Portanto, toda esta conversa da maioria absoluta que assola a comunicação social e a campanha eleitoral é puro nonsense, é conversa de gente desfocada ou desocupada, treta saída da cabeça de jornalistas, de comentadores e gente fútil dos partidos que gostam é de armar confusão e inventar caso. 

Obviamente não tenho pitada de perfil político para me meter em partidos ou a fazer qualquer tipo de campanha. Mas, se um dia sofresse uma valente pancada na cabeça e me metesse nisso e se me visse com um bando de jornalistas à perna a moer-me a paciência sobre se eu queria a maioria absoluta, acho que não me conteria: 'Não chateiem, pá. Desgrudem. Vão dar banho ao cão! Xô! Melgas...'

Se a maioria das pessoas votar na Lista A e a Lista A obtiver a maioria absoluta tudo bem, será o que a maioria das pessoas mostrou querer. O absurdo seria as pessoas quererem maioritariamente a Lista A e, ao votarem, votarem na B e, no fim, ainda haver o risco de ganhar a Lista B. Só se as pessoas forem parvas é que votam assim.

E depois há outra coisa: há algum problema em haver maioria absoluta? Não vejo. 

Com uma Assembleia da República a funcionar livremente, com um Presidente da República independente e com poderes para agir se a coisa derrapar, quem é o tolo que ainda tem medo da maioria absoluta como se fosse um bicho papão para assustar criancinhas? Pamordedeus.

Pois eu, pela parte que me toca, tanto se me dá. Gostava que ganhasse o PS e gostava que não fizesse acordo com as sonsas, hipócritas e desleais do Bloco nem com os fracos do PCP que, entre servirem o País e servirem a ala reaccionário do partido, optam por fazer o que os fundamentalistas da velha guarda querem.

Se o PS tiver que fazer algum acordo, que seja com gente de bem, gente confiável, democrata, madura, leal. Mas se conseguirem governar com o seu programa e sem terem que andar à babugem de agradar a uns e outros que usem isso para chantagear o Governo, também tudo bem.

Sei o que quero e acredito na democracia. Tirando isso, batatas. 

E por isso mesmo, porque não há pachorra para tanta parvoíce, não vi televisão. Não sei por onde andaram os candidatos, o que fizeram, o que disseram nem, muito menos, o que andou por aí a dizer essa praga dos comentadores.

Entre trabalhar, cozinhar, caminhar (debaixo de um frio de rachar), brincar com o urso felpudo, telefonar, ler e sei lá mais o quê não sobrou disponibilidade para me maçar. Só se fosse masoquista... -- e eu posso ser muita coisa, muita maluca, mas masoquista não sou. 

Ou melhor, geralmente não sou. É que, de vez em quando, para confirmar que as modas não saem do mesmo sítio, cedo à tentação de ver. Não me aguento muito mas, por pouco que seja, acabo sempre por confirmar que, se a maioria dos partidos parece andar à deriva sem saber a que porto aportar, pior ainda é o que a comunicação social faz deles. 

E, assim sendo, mal dormida e perdida de sono, ao sentar-me hoje aqui à noite, foi com agradável surpresa que vi que o meu amigo algoritmo me tinha presenteado com vídeos com macacos. Gente boa os macacos. Chimpanzés, orangotangos, tudo gente inteligente e com sentido de humor. Melhores que Catarinas, Rios, Venturas e por aí vai. Estes aqui são uma ternura, uma graça. Que bom vê-los.




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Pinturas de André Derain na companhia de Cat Power a interpretar These Days

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E, para si que está aqui ao pé de mim, um belo dia

Uma boa onda. Uma boa notícia. Uma boa saúde. 

sexta-feira, maio 03, 2019

O que escondem os pesadelos?
Não sei. Nem disso nem do Intagram.
Melhor que eu até o Sugriva, o inventor do Chimpstagram




Comecei a ler um artigo sobre o que dizem os nossos sonhos. O tema é velho e a maluquice em torno dele também. Aliás, nem era sobre sonhos mas, sim, em particular, sobre pesadelos. Mas tinha muita coisa e nada que me soasse a novidade, tudo muito déjà-vu. Claro que poderia seguir as pistas e ir aprofundar, nadar nas águas sábias da Nature ou da Science mas, a esta hora, estou capaz é de ir surfar os lençóis branquinhos da minha alegre caminha.

Portanto, fiquei-me com banalidades como, por exemplo, aquilo de que um pesadelo é um reprocessamento de um medo que temos, uma maneira que a cabeça arranja de tornar a realidade mais suportável. Coisas assim, um bocado óbvias, que não trazem grande luz ao escuro em que, de noite, navego.


O que eu queria ver era a explicaçãozinha bem dada -- e que eu gostasse de ler, ou seja, que me agradasse -- sobre o que é isto de passar a vida a sonhar com uma casa a que chego e que é enorme e na qual se passa de umas divisões para outras, e que tem mobílias que me deixam espantada e que dá para um jardim e que tem uma porta que dá para outra rua e que, na verdade, noutra rua, tem outra entrada, a outro nível, e que, entre-se por onde se entrar, a casa é imensa, parece que nunca dou com as mesmas divisões, e eu ando admiradíssima com o tamanho da casa, a pensar que funções dar a tanta sala e quarto e que destino dar a mobílias tão boas.
(Não sei explicar isto mas talvez tenha a ver com eu gostar tanto de casas, de as decorar, de lá estar, de me sentir bem em casa -- sei lá).

E há outro sonho: tenho horas para estar num sítio que é longe e para onde tenho que ir a conduzir só que não encontro o carro e ando de rua em rua e não o encontro, nem conheço bem aquela terra, nem faço já ideia de como era a rua onde o deixei. E o tempo passa e eu naquilo, já preocupada, à pressa, e, na verdade, a procurar à toa. Felizmente, nesta altura acordo, vou à casa de banho, bebo água e, quando me deito, já passou.
(Bem, na realidade, cenas deste género já passei por várias... e de cada vez apanho um susto...)

E outro que é parecido: estou numa cidade no estrangeiro, fui passear e fazer compras e tenho uma hora combinada para estar no hotel para, de seguida, ir para o aeroporto. E não dou com o hotel. Não me lembro do seu nome, não me lembro da rua, não faço ideia de se é para a esquerda, se é para a direita. E procuro na carteira e não encontro nada que me dê uma pista. E a aflição começa a tomar conta de mim. E penso que é capaz de ser para o outro lado e lá vou e, quando dou por mim, vou dar a lugares que desconheço completamente e tento voltar ao ponto de partida mas volto a enganar-me e já não tenho a mínima ideia de onde estou. Geralmente, nesta altura, acordo. Felizmente.

(Já vivi uma cena relativamente parecida em Londres, numa altura em que não havia telemóveis. Fui às compras sozinha e combinei ir pôr as coisas no hotel e, a seguir, ir ter com dois colegas a Westminster. E, quando saí do metro que me pareceu ser próximo e perguntei onde era, perguntaram-me se era a Abbey ou a Cathedral. E ia-me dando uma coisa pois apenas tínhamos combinado em Westminster. E o tempo estava mais do que contado pois eu tinha-me alargado nas compras, já era tarde para burro. E não tinha como contactá-los. Portanto, acredito que o susto que apanhei, com medo de não dar com eles, de fazer toda a gente perder o voo, deve ter deixado marcas.)

E um que volta e meia também tenho: vou a um congresso e passo por uma sala onde há um verdadeiro banquete e eu, vendo aquelas mesas, fico cheia de vontade de ir provar umas coisas. Mas ainda não são horas e, então, embora cheia de pena e de tentação, vou para onde decorre o congresso. Mas perco-me, aquilo é uma espécie de hotel labiríntico e, quando dou por mim, estou num salão onde há outro banquete, também cheio de petiscos, salmão arranjado de uma maneira que parece uma rosa, caviar de todas as cores, outras bolinhas coloridas e apetitosas, bolinhos nem se sabe de quê mas muito artísticos -- e eu não resisto e meto algumas coisas na boca, à socapa, na maior gula. 

Mas não está lá ninguém, ainda não são horas e, portanto, envergonhada, desando e parto em busca da sala do congresso. E as horas passam, daqui a nada acaba aquilo e eu não descubro onde é, só escadas e corredores e recantos vazios. E quando, finalmente, lá chego, vem toda a gente a sair e eu fico chateada porque não assisti a nada. E vou à casa de banho. E, quando saio, já não vejo ninguém, já foram todos. E eu vou ver se descubro para onde foram mas não consigo e volto a andar por corredores, elevadores, escadas. E quando, passado não sei quanto tempo e eu já deserta de fome, chego ao salão do banquete já desapareceu tudo, nem bolinhos, nem pastelinhos, nem petisquinhos -- só pratos vazios. E eu, infeliz, infeliz da vida,  cheia de fome.
(Isto presumo que aconteça nos dias em que, decidida a fazer dieta, vou para a cama com fome.)
E, para dizer a verdade também não sei se são pesadelos ou, simplesmente, sonhos malucos.

E antes sonhava muito que voava, sentia o ar na cara, sentia-me mesmo a voar e era tão bom que eu, em pleno sonho, tinha medo de acordar. Mas há algum tempo que não sonho isto -- e nem sei se é pesadelo ou uma maravilhosa rêverie.

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E, portanto, não encontrando eu explicação científica para nada disto e não tendo eu paciência para ir estudar coisa de gente séria (para além de que hoje estou mesmo cheia de sono), passo à frente e faço a agulha. 

Mas agora, neste tópico, vai ser na base da simples rapidinha (e eu a dar nos diminutivos). 

Como tenho apregoado aos sete ventos, não me arregimentei no Facebook, no Instagram, no Twitter, nem sequer no WhatsApp. 

Quem por aqui me acompanha sabe que o digo desde sempre, mesmo antes dos escândalos que, desgraçadamente, mostram que tenho razão: tudo aquilo me parece propício à devassa, mas a uma devassa descontrolada, desregulada, desprotegida, um monstro impossível de segurar (a menos que tudo aquilo seja fechado, tout court). 

Portanto, em termos dessas redes sociais, sou auto-infoexcluída. Tenho o blog mas isto, para mim, é um jornal numa parede, uns papéis que, com um prego, espeto numas árvores, palavras que solto na noite escura. Nada mais que isso. E no dia em que me aperceba que não é bem assim, adeusinho, bye bye por aqui me desbaldo. 

Mas se eu sou info, já o meu primo Sugriva é pro. Agarrou num smartphone com o Instagram e, na maior naturalidade, pôs-se por ali a navegar, na maior, scroll por ali abaixo, clic para ver algum vídeo em particular, limpinho. Todo lampeiro. 

Isto de os chimpanzés serem espertos e lidarem bem com informtáticas, com jogos, com puzzles e com ferramentas já era sabido. Mas ver o Sugriva com os seus dedinhos a fazer deslizar as imagens dá que pensar. Ah dá, dá. Dá muito. Mas, dado que o post vai longo e que já vou a meio do segundo sonho, fico-me pelas imagens.

Chimpstagram: video of ape browsing app goes viral – but what is going on?

The internet has been captivated by Sugriva and her use of Instagram, but some animal experts haven’t been so impressed.
Chimpanzees are known to use at least 22 types of tools in the wild but in captivity a less rudimentary device now appears to be within ape capabilities – Instagram.
Last week, a video showing a chimpanzee casually swiping through Instagram on a smartphone was posted on the photo-sharing application by Kody Antle, son of Mahamayavi Bhagavan “Doc” Antle, who is founder of Myrtle Beach Safari, a 50-acre wildlife reserve in South Carolina. (...)

domingo, abril 21, 2019

Para as selfies ficarem ainda mais compostas só lá falta mesmo o nosso Marcelo


Gorilas posam para selfie com guardas florestais


Duas das mais recentes estrelas do Facebook vivem no Parque Nacional de Virunga, património da UNESCO na República Democrática do Congo. Ndakasi and Matabishi são dois gorilas que estão a encantar a internet com os seus dotes para as selfies.

Na imagem partilhada no Facebook, os dois gorilas posam descontraidamente para a fotografia tirada por um guarda-florestal que protege os animais da caça furtiva. (...)




Há coisas extraordinárias. E eu a achar que isto de meio mundo gostar de se autofotografar é coisa de humanos deslumbrados consigo próprios quando, afinal, isto é é mas é coisa dos genes. E na volta eu descendo é de peixes ou de borboletas ou de espécies assim, indiferentes à sua própria imagem. Ou então ainda estou atrasada, ainda não descobri a maravilha de, em vez de fotografar a paisagem, me fotografar a mim com a paisagem em fundo -- e um dia lá chegarei. Ou whatever. 

domingo, fevereiro 03, 2019

E o que é um tomate roxo?
[E isto para não me alongar com a auditoria à CGD, com aquelas denúncias de cenas que se passam nas autarquias PCP, com a baderna que para ali vai na Venezuela, com a extraordinária Elizabeth Holmes, com a criminosa greve dos enfermeiros ou, mesmo, com as minhas andanças nocturnas in heaven, preferindo, com a vossa licença, deleitar-me com Jane Goodall]
-- E sim, um ponto verde no canto da sala é uma ervilha de castigo --




Claro que, na volta, eu devia era falar dos créditos e das imparidades da Cixa Geral de Depósitos. Mas, para falar disso, porque não falar tambem das do BPN, do BES, do Banif, do BCP, etc? Que disso, upa, upa, há por todo o lado e, de uma forma ou de outra, todos temos tido que lá meter dinheiro. E não que com isso esteja eu a querer branqear a coisa. Zero. Não. Mas há os créditos dados a ver se se salva uma fábrica, uma actividade que conjunturalmente está a passar um mau bocado e há os dados por vã ambição, ganância, mania das grandezas. Quem, ignorantemente, ponha tudo no mesmo saco vai por mau caminho. A avaliação técnica de um crédito tem mil e uma vertentes e não é num comentário apressado que se pode tecer opinião. 

Por isso, passo adiante.


Também podia falar da avalancha de notícias sobre os compadrios nas autarquias geridas pelo PCP. Não atiro pedras e não porque ache que o PCP não tem telhados de vidro mas porque prefiro ter a certeza da veracidade de tudo o que está a aparecer. É que há tal coincidência nas pedradas que a coisa parece orquestrada e eu de orquestrações prefiro as musicais. A ter havido abuso de confiança, uso e abuso de recursos autárquicos para fins partidários, dolo na gestão de dinheiros públicos ou infracção de regras claro que acharei mal e que defenderei que não estejam, como ninguém pode estar, acima da leia. Mas, até que para mim esteja claro o que se está a passar e se há fundamento nas denúncias, manter-me-ei expectante e de bico calado.

Sobre a Venezuela é diferente: não quero cá saber do nome que os próprios dão às coisas como se o nome fosse rótulo que garante imunitade. República bolivariana o escambau. Um atraso de vida é o que é. Há populistas, parvalhões e abusadores para todos os gostos e este Maduro é um deles. Que a Venezuela está entregue à bicharada é inegável e o PCP mostra que tem um cordel agarrado ao pé e às ideias quando não é capaz de se desdogmatizar para apreciar as coisas como elas são. Não faço ideia de qual é a do tal de Guaidó pelo que, às cegas e sem o conhecer, custa-me defendê-lo. Nem sei como ficará a Venezuela depois de correrem com aquele parvalhão, prepotente e atraso de vida que é o Maduro mas sei que alguma coisa tem que ser feita. Um país daqueles não pode estar naquela penúria, naquela regressão, naquela indigência a todos os níveis. Mas falta-me competência -- e disposição -- para me pôr para aqui agora a dissertar sobre tema tão sério.

E digo-vos uma coisa: não fora este meu mau hábito de apenas me dedicar ao blog quando a noite vai alta e a minha energia escasseia, aquilo de que eu falaria mesmo seria de Elizabeth Holmes, 35 anos, aquela a quem se augurou ser a próxima Steve Jobs, ex-CEO de uma brutalmente valiosa empresa. E se emprego o qualificativo brutalmente é porque tudo aquilo era uma fraude. Mais um caso em que o mundo ilustrou a célebre doença da cegueira injustificável. Uma história fantástica a que prestaremos atenção quando o filme que já está por aí a rebentar com Jennifer Lawrence aparecer. Agora que é apenas uma história real, não queremos saber. E, no entanto, apesar de não conhecer Elizabeth, juraria que consigo adivinhar como é que aqui se chegou. E adivinho não porque detenha dotes divinatórios mas porque já vi uma história assim. E é tudo tão inacreditável e a cegueira colectiva tão difícil de compreender que não me espanto ao ver como a fantástica e valiosa empresa Theranos se despenhou tão facilmente.


Mas não falo de Elizabeth, hoje não me apetece -- até para não fazer associações a coisas de que nem é bom falar.

E há a criminosa greve dita cirúrgica dos enfermeiros mas acho-a tão aviltante para quem trabalha na área da saúde que, só de pensar nisso, sinto vergonha alheia. Só espero que a justiça arranje maneira de pôr um ponto final na actuação degradante daquela gente que deveríamos respeitar mas que, com o que andam a fazer, só nos fazem sentir repulsa e medo de algum dia virmos a ser vítimas de gente tão perigosa. Passo adiante para não me sentir agoniada.

E, portanto, estando numa de passar ao largo de tudo o que é assunto, poderia limitar-me a contar como andámos até ser noite enfiados no meio das árvores a podá-las, a desramá-las, a dar fim a pés bastardos. Podia contar como os nossos olhos se vão habituando à visão nocturna, como, depois de pensarmos que não vamos conseguir ver nada e que o melhor é ir para casa, nos vai sabendo bem perceber que afinal nos orientamos, como o que sobra de luz  -- e que não sei se era algum vislumbre de luar, se uma réstea de luminosidade de alguma estrela longínqua ou de quê -- é suficiente para ali continuarmos a serrar, a cortar. Ou poderia, ainda, limitar-me a contar como o ar foi ficando cada vez mais frio, como há sons que esperam pela noite para aparecer. E o cheiro das árvores e da terra acentuado pela frialdade nocturna, como é bom.


Mas nem para isso me está a dar para falar. Enquanto escrevo, estou a ver e ouvir Jane Goodall, uma maravilhosa jovem de 84 anos que ama a natureza, que é indomável e que sorri enquanto fala.


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E, assim sendo, volto a perguntar: o que é um tomate roxo?

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[As imagens mostram a exposição Until de Nick Cave]