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segunda-feira, agosto 05, 2024

Nancy e a Arte do Poder

 

Nancy Pelosi on Harris, Trump, and "The Art of Power"

There is no denying the impact that Speaker Emerita Nancy Pelosi, the 19-term Democrat from California, has had on Congress and the country, as she details in her new book, "The Art of Power." Pelosi talks with "60 Minutes" correspondent Lesley Stahl about her role in President Joe Biden's decision to drop out of the presidential race; the near-fatal attack on her husband by an assailant at their San Francisco home (she was the intended target); the violence of the January 6 Insurrection at the Capitol; her advice for Vice President Kamala Harris as she runs against former President Donald Trump; and how she considers Trump's pick for running mate, Ohio Senator JD Vance.

segunda-feira, julho 22, 2024

Jago, magnífico

 

Se eu fosse muito rica, excentricamente rica, tentaria que algumas autarquias aceitassem instalar nas ruas esculturas que eu oferecesse. Penso que todas as autarquias deveriam proporcionar a todos os cidadãos o usufruto da arte, de preferência arte de rua (todas as formas de arte).

Tenho uma amiga escultora. Desde pequena que ela se destaca nas artes. Lembro-me das pinturas que ela fazia quando tinha doze, treze ou catorze ou quinze anos: figuras com movimento, vestuário com transparências. Enquanto todos os outros da mesma idade se esforçavam por fazer figuras minimamente credíveis, ela esforçava-se por fazer figuras com vida. Eu ficava espantada com o que saía das suas mãos. Seguiu artes, claro. 

O processo criativo de alguém que imagina transformar materiais e dar-lhes um sentido ou uma forma ou um movimento ou uma emoção é qualquer coisa de mágico. Claro que o mesmo se aplica a quem pinta, a quem escreve, a quem compõe. 

Gostando eu sobretudo de pintura ou escultura abstracta, fico, contudo, rendida perante quem consegue criar figuras que, podendo ser realistas, são mais que isso, são intemporais, existem para além de geografias ou eras.

A obra de Yago é assim: um assombro.

Rock star: Sculptor Jago on unveiling humankind in marble

Thirty-seven-year-old sculptor Jacopo Cardillo, better known in his native Italy as Jago, has earned a following with his contemporary approach to this classical art form, exposing on social media his process of shaping marble. When he embraced a group of teens who'd defaced one of his works, Jago won a new fan touched by his humanity: Whoopi Goldberg. Correspondent Seth Doane talked with the artist about his most ambitious project yet: creating what will be a 6-ton sculpture more than 16 feet tall.


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Quanto a Biden, pois. Não foi só o discurso que foi um acto falhado. Nem são as gaffes, os tropeços. É mais que isso. É que alguém com as responsabilidades e as exigências de cargo de Presidente dos Estados Unidos deve ter uma capacidade física e mental que dificilmente é compatível com ter 81 anos, acabando o mandato aos 86. Ser velho é respeitável, é uma coisa boa, mas a natureza é o que é. Não reconhecer isto é negar a mais elementar das evidências. É preciso saber reconhecer quando é chegada a hora de nos levantarmos da mesa. Biden não soube. E tenho pena por ele.

domingo, julho 14, 2024

A orelha como amuleto de sorte para Trump

 

Ao mesmo tempo que a maltinha do quarto dos rapazes fazia toda a espécie de tropelias contra a maltinha do quarto das meninas (sendo que hoje, por escassez de camas nos quartos usuais, o mais novo dormiu no quarto das 'meninas' -- mas, obviamente hoje não chamámos ao quarto o quarto das meninas senão ainda ele se recusava a dormir lá), no meio de risotas, barulhos indistintos e até de puns (dos quais, como sempre, ninguém se acusou), e enquanto eu tentava pôr ordem nas camaratas, estava Trump a ser bafejado pela sorte de ter levado um raspão na orelha, dando-lhe a oportunidade de se mostrar como um valentão.

Quando reentrei na sala, estava o meu marido a apontar para a televisão para eu ver o tratante de punho erguido, parece que a dizer Fight! Fight! enquanto o sangue lhe sujava a cara e enquanto os apoiantes se levantavam a aplaudi-lo.

Parece que, no meio disto, mataram uma pessoa, creio que a polícia terá atingido o suposto atirador. Só espero que não tenham tirado a vida a algum inocente. E agora li que talvez tenham morto duas pessoas. 

E, assim, enquanto Trump recebe este impulso que vai granjear-lhe muito mais intenções de votos, Biden vai-se arrastando, sem dar mostras de compreensão de que está mais do que na hora de se retirar. Só espero que os democratas consigam reagir de forma assertiva para contrariar a vontade de Biden se manter na corrida e para encontrarem um candidato forte, capaz de desmontar a palhacice de Trump.

Que mundo mais estúpido, este.

[Entretanto, por aqui, num dos quartos já se dorme. Espero que os restantes 'hóspedes' também estejam quase pois parou a bagunçaria e a risota e já só ouço bocejos. É que, na sequência de um dia preenchido e bem animado, já são mais do que horas de descansarem...]

sexta-feira, julho 12, 2024

Enquanto Putin discursa com o mundo inteiro a ver se ele se aguenta...
Sorry.... mistake... Queria dizer Biden...

 

Cheguei há pouco e, ao ligar a televisão, constato que meio mundo está em bicos de pés à espreita, a ver se Biden consegue chegar até ao fim sem voltar a chamar Putin a Zelensky ou se consegue manter o rumo da conversa, sem se enfiar por algum beco sem saída. 

Começou agora e parece que vai bem lançado. E fico contente pois custar-me-ia bastante vê-lo passar pela humilhação de se ver perdido em palco ou com o olhar parado sem saber onde está.

Seja como for, faz muita confusão que os democratas não tenham resolvido a tempo e horas este embaraço de ter um candidato de 81 anos, necessariamente a precisar de descansar mais e, de vez em quando, já com alguns bugs, a fazer frente a um trafulha encartado.

Os investidores começam a tirar-lhe o tapete mas a mulher anda a fazer comícios atrás de comícios para convencer a malta que o marido ainda está vivinho da silva. E eu não percebo. Se eu chegar à idade deles, alguma vez eu quereria que o meu marido andasse a sujeitar-se a canseiras, a esgotamentos, a confusões...? Não. Haveria de querer que ele gozasse os seus últimos anos sossegado, em serenidade, longe de situações embaraçosas. Ou, se fosse eu a presidente, alguma vez eu andaria a impor a minha presença mesmo quando todos os anteriores apoiantes mostrassem reservas sobre a minha integridade mental? Não. Só se já estivesse senil.

Entretanto, Biden acabou a sua intervenção e está a responder a questões. E vai bem, está seguro e com a cabeça no sítio. Até ver não se espalhou. Mas, caraças, como estará daqui por um ano, daqui por dois...? Se, quando está cansado fica em estado de estupor catatónico, ficarão os States (e o mundo) seguros? E os eleitores, receando isso, não se encolherão e não abrirão o caminho a Trump?

Faz sentido um homem de 81 anos com o prestígio que ele tem estar a sujeitar-se a mil perguntas sobre a sua capacidade mental...? Todas as perguntas andam à volta da sua forma física e mental, todas. E ele, coitado, ali está a tentar demonstrar que está rijo como um pero e que, por natureza, é um sempre-em-pé.

Até pode estar bem, razoável, mas... caraças... com um patife populista, mentiroso e perigoso como Trum pela frente, é esta a melhor muralha que os democratas têm para erguer?

Não sei.

O mundo anda um lugar muito bizarro, parece que dia após dia nos deparamos com coisas ilógicas. 

Enfim.

A ver se amanhã mostro umas coisas bonitas. Hoje não pois ficariam aqui desenquadradas.

sábado, julho 06, 2024

Biden, CR7

 

Não deveriam desbaratar o capital de mérito justamente adquirido ao longo de uma meritória carreira nem deveriam deixar que a sua performance, já inferior devido ao desgaste (nomeadamente o que deriva da idade), prejudique o todo no qual estão envolvidos.

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President Joe Biden sits down with ABC News for first TV interview since debate


domingo, junho 30, 2024

É uma tristeza quando as pessoas não percebem que está na hora de sair... e não saem pelo seu próprio pé...
Pela parte que me toca gostava que o próximo Presidente dos Estados Unidos fosse mulher e fosse negra.

 

Nem é só o estado frágil em que já se apresenta: é a gente pensar como é que Biden estará doravante... daqui por quatro ou cinco anos... Como? E nem tem a ver com a agilidade mental, que já parece muito condicionada, para fazer face ao trapalhão e idiota Trump: é pensar como, neste estado, poderá fazer face aos Putins, aos Netanyahu, aos Kim Jong Un deste mundo ou, internamente, ao obscurantismo, à negação da ciência, à influência de religiões perigosíssimas, ás guerras com os republicanos.

Pode ser tarde, pode parecer que é um risco, que pode não haver tempo. Mas, a bem do mundo, seria bom que os democratas fossem ágeis, criativos, corajosos -- e que alguém de força se chegasse à frente. Trump não pode ganhar. Seria um risco demasiado grande para o mundo.

Tenho ouvido falar em dois nomes e qualquer dos dois me parece um bom nome. Kamala Harris ou Michele Obama. Hilary Clinton já não deve estar para isso e é pena.

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Jon Stewart's Debate Analysis: Trump's Blatant Lies and Biden's Senior Moments | The Daily Show


sábado, outubro 21, 2023

O horror de se ver crianças estropiadas e assassinadas como conteúdo privilegiado nas fake news

 

Informação e contra-informação, notícias verdadeiras e fake news, empolamento de número de mortes, obscenas encenações, manipulações de emoções, terrorismo de toda a espécie e feitio, vontade de vingança, loucura, radicalização. E tantas vezes com base em mentiras.

No meio disto, uma coisa me faz confusão (e me causa profunda repulsa): a posição do PCP, sempre colado a todos os criminosos, terroristas, ditadores, psicopatas, matem eles quem matarem, torturem, destruam, chacinem, violem, mintam, espezinhem... desde que sejam contra os Estados Unidos e o Ocidente em geral. Os Estados Unidos e o Ocidente em geral, apesar de falhas ou erros, estão do lado da democracia, da liberdade, do humanismo -- valores que não têm preço. Como se pode estar contra isso e a favor dos que se opõem a estes valores e se comportam como imperialistas tirânicos, como terroristas, como psicopatas tarados?

[Com isto não quero dizer que considere que a postura de Israel em relação à Palestina, em especial nos últimos anos, seja exemplar. Não considero. Pelo contrário. Nem gosto de saber que há sede de vingança (de ambos os lados). Ou que se sacrifica população inocente, seja de que nacionalidade ou religião for. Não.  Nunca. Mas isso não me cega, não me leva a pôr do lado dos acima referidos]. 

Sugiro que vejam a intervenção de Rodrigo Moita de Deus, na RTP3, no programa 'O último apaga a luz', em que ele desmonta a evolução da notícia sobre a farsa do falso ataque de Israel ao hospital que afinal não foi de Israel mas, muito provavelmente, um rocket falhado da Jihad Islâmica, que afinal também não caiu no hospital mas no parque de estacionamento ao lado, em que afinal não morreram 500 pessoas mas se calhar menos do que 100. 

Seja como for, coitados dos que morreram. Mas a verdade é que meio mundo se atiçou contra Israel quando Israel não teve, muito provavelmente, nada a ver com o assunto. E que vergonha, que vergonha obscena, os que jogam com as emoções das pessoas para propagarem mentiras e apelarem ao ódio.

No meio disto quero crer que ainda se pode confiar na BBC.

Two American hostages freed by Hamas - BBC News

Hamas has released two US hostages who were abducted during the Palestinian group's deadly raid on Israel.

Israel confirmed that mother and daughter Judith and Natalie Raanan had been handed over to them from Hamas at the Gaza border.

It follows a visit to Israel by the US President Joe Biden.

Hamas said the pair were freed for "humanitarian reasons".

They were the first captives released since the gunmen raided Israel on 7 October, killing 1,400 people and taking around 200 hostages.

More than 4,000 people have since been killed in Israeli air and artillery strikes in Gaza, according to Palestinian officials.

Clive Myrie presents BBC News at Ten reporting by Jeremy Bowen in Jerusalem and Sarah Smith in Washington.


segunda-feira, outubro 16, 2023

O que éramos, o que somos. Os que deixaram de ser.
E o mundo que não compreendo.

 


A minha mãe encontrou uma carteirinha de fotografias pequenas daquelas a que, há milénios, se chamava 'tipo passe' com algumas fotografias de colegas de liceu. Nem todas têm o nome atrás. Naquela altura devíamos pensar que não fazia falta escrevê-lo. Agora olho para algumas dessas, lembro-me das pessoas que elas representam mas não tenho ideia do nome.

Partilhei com outros colegas dessa altura. Duas dessas foram identificadas. Outras não. Desapareceram nos meandros da memória de toda a gente.

De uma disseram que não está bem da cabeça, ausente, desinteressada do mundo. Fez-me muita impressão, isso.

Claro que, de tudo, o que me faz impressão são os vários que já morreram. Parece-me uma coisa muito contra natura. Já falei disso e estou a repetir-me. Mas a sério que isso me incomoda muito.

Não sei se também falei no seguinte: dou por mim a olhar para as fotografias em que estão os que já morreram. Tento perceber se, neles, naquela altura, já alguma coisa poderia fazer prenunciar o que iria acontecer. De uma delas já não me recordava. Ao ver as fotografias, reparo que estava sempre um pouco isolada, parecia um pouco distante. Ou triste. Um outro era muito divertido, gordinho, muito simpático. Vejo-o nas fotografias. Qualquer coisa nele me parece agora assimétrico. Uma outra era muito carismática quer na maneira de ser quer na maneira de se vestir. Vejo-o nas fotografias. Parecia quase nossa mãe, muito mais desenvolvida, rosto já um bocado marcado. Uma outra, médica, disse-me agora que foi terrível, que era a médica dela. Como me viu muito perturbada, disse-me que naquela família todos têm morrido de cancro. Ela disse-me isso como para me dizer que eu não estivesse impressionada pois ela já estaria 'fadada' à morte por aquela doença. Mas eu fiquei a pensar que os filhos e netos dessa que morreu devem estar bem apreensivos com essa triste sina.

De uma outra de quem fui muito próxima e a quem depois perdi completamente o rasto, disse-me a minha mãe que, tendo ela engravidado ainda miúda, foi afastada, levada para uma quinta que tinham no campo.

Mas agora soube que está bem, que se reformou agora, que também tem uma mão cheia de netos. Vejo a fotografia dela. Tão bonita e alegre que era. Já aqui falei delas algumas vezes. Gostava de voltar a vê-la. 

Uma coisa que, olhando para aquelas fotografias, também reparo é que antes, alguns de nós, quando éramos pequenos parecíamos mais velhos. Por exemplo, uma que, deveria ter uns catorze ou quinze anos, já parecia ter uns vinte e tal ou trinta. Não dá para perceber. Mas mesmo as que tinham ar de miúdas, frequentemente se mostravam circunspectas. 

Poder-se-ia pensar que o mundo hoje é mais leve para as crianças.

E, contudo, sabemos como isso pode não ser verdade em algumas partes do mundo. A televisão mostra crianças a sofrerem horrores pelos quais nem os adultos deveriam passar. Vejo-as a falarem, cheias de medo, a chorarem e o meu coração quase me dói. Não falo por falar, não é uma metáfora. É mesmo dor. E é sobretudo uma grande incompreensão.

Por vezes penso que se um dia um grande meteorito ou uma qualquer outra coisa chocar com a Terra e der cabo de grande parte dela, se calhar até fará algum sentido já que parece que grande parte dos humanos têm uma pulsão brutal pela autodestruição, não só de si próprios e dos outros, como do seu habitat. 

Tirando isso, vou falar de quê?

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Só se, por exemplo, partilhar um vídeo. Um qualquer. Talvez este aqui abaixo.

President Joe Biden: The 2023 60 Minutes Interview

President Biden answers questions on Israel, efforts to locate American hostages in Gaza, the state of the war in Ukraine and more during a wide-ranging conversation with Scott Pelley.

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Lá em cima, Jakub Józef Orliński interpreta "Amarilli, mia bella" (Giulio Caccini)

A fotografia lá em cima é da autoria de Ali Jadallah/Anadolu Agency/Getty Images e outras poderão ser vistas no Guardian

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Desejo, a todos, uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Força. Paz.

Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. 

sábado, setembro 24, 2022

Joe Biden 'perdido no palco'. Caso para chacota?

[E memória do meu pai].

 

Um vídeo com Biden supostamente perdido no palco, aparentemente sem saber bem para onde ir, tornou-se viral. E não houve gente medíocre e com reservas mentais quanto aos democratas dos Estados Unidos que não saísse à cena  a dizer que estamos bem entregues ou que Biden não bate bem da bola.

Biden Completely Lost on Stage During Global Fund Speech

Claro que não conheço o boletim clínico de Joe Biden nem as circunstâncias em que aquilo aconteceu.

O que sei é que olho para aquelas imagens e não apenas não consigo tirar conclusões como, sobretudo, não consigo gozar.

Por uns momentos, vendo aquele excerto, descontextualizado, lembrei-me do meu pai.

Quem por aqui me tem acompanhado lembrar-se-á que o meu pai, que entretanto morreu há pouco mais de dois anos, teve cerca de doze anos antes um AVC extenso e grave que o deixou muito debilitado. Depois de muita fisioterapia recuperou o andar e esteve durante muitos anos autónomo a nível da movimentação (embora com algum acompanhamento), a nível de se alimentar e de tratar da própria higiene. Falava, estava lúcido, tinha boa memória. Para o fim, talvez dois anos antes de morrer, depois de ter partido uma perna e de ter sido operado, aí, sim, entrou em declínio acentuado e tornou-se quase totalmente dependente.

Mas, antes desse terrível AVC, teve pelo menos quatro AITs. Eram coisa ligeira, em especial dois deles, nem ninguém percebeu que eram um aviso para levar muito a sério. Apenas depois, pelos exames que fez noutras alturas, se percebeu, pelas pequenas marcas que deixaram no cérebro, que tinham ocorrido. Os outros dois últimos já foram mais evidentes mas, em qualquer dos casos, eram coisas momentâneas e das quais recuperava completamente, fazendo uma vida normal. Mas, de vez em quando, percebíamos, por pequenos sinais, que havia ali qualquer coisa que não estava absolutamente bem. Contudo, só as valorizámos depois do AVC.

O meu pai sempre teve uma saúde robusta, era muito activo, fazia caminhadas, praticou desporto até tarde, tinha orgulho nos seus hábitos saudáveis e na sua vida tão cheia de energia. Não era hipertenso, não tinha colesterol alto, não era gordo e, fisicamente, parecia mais novo que era.

Contudo, era um bocado stressado, tendia a dormir mal e de vez em quando tinha arritmias. Como fazia uma alimentação saudável e achava que tinha controlo sobre o seu corpo e, além disso, era avesso a medicamentos, geralmente não seguia a medicação devida. 

E foi isso que o tramou. Mas só o percebemos tarde demais, quando teve o AVC.

O primeiro AIT foi assim: estava em casa e, ao ir no corredor, fraquejou momentaneamente, como se lhe tivesse faltado a força nas pernas. Agarrou-se ao fecho de uma porta, equilibrou-se. Durou uma fracção de segundo. Mas ele achou estranho, a minha mãe achou estranho. Mas ficou bom, continuou a sua vida activa, normal. Não pensou mais nisso.

Outra vez, no verão, estavam a passar férias in heaven com os meus filhos. Quando lá estavam, ele fartava-se de trabalhar: aplicava verniz protector nas portadas de madeira, montava rede protectora para as janelas com armação de madeira para não entrarem bichos, regava, etc. Um dia, ao almoço, por uma ou duas vezes, ao levar a comida à boca, parecia que não acertava bem com o garfo. Nem ele percebeu o que se passava nem a minha mãe o percebeu. Pensou que estava com os braços e as mãos cansadas, ou que tinha estado tempo demais ao sol. Ficou bom, não ligou. Mas, quando lhes liguei, a minha mãe referiu isso. Mas aquilo tinha durado uma fracção de segundo, tinha ficado logo bem. 

Entre uma e outra coisa, podiam passar anos de vida normal. Iam de férias para o Algarve, iam de férias para as Beiras, passeavam, iam ao cinema, tudo tranquilo. 

Até que uma vez foi pior. De manhã, ao acordar parecia que as palavras não lhe saíam bem. Mas tinha dormido mal, pensou que precisava era de dormir. Mas, em vez disso, foi andar para a rua, a ver se espertava. Um vizinho disse à minha mãe que achava que ele não estava muito equilibrado, que parecia hesitante no andar. A minha mãe estava a estranhar aquilo e disse-lhe que era melhor irem ao hospital. Zangou-se, estava bem. Mas a minha mãe não achou que ele estivesse absolutamente normal. Falou com o meu tio, irmão dele. Ele foi vê-lo e também achou que alguma coisa não estava completamente bem. Ligou à minha prima, que é médica, e ela disse que era melhor levá-lo ao hospital. Aí foi detectado o AIT e foi nessa altura que se percebeu que já lá havia umas marcas de pequenos AITs anteriores. Passou a noite lá, por precaução. Fui buscá-lo do dia seguinte. Saiu pelo seu pé, vinha normalíssimo, a achar que tínhamos exagerado nos cuidados. 

Nos tempos seguintes esteve óptimo e ninguém pensava mais em tal coisa. Supostamente estaria medicado embora houvesse sempre divergências entre ele e a minha mãe, ela que achava que ele deveria seguir a medicação à risca e ele que achava que ele é que sabia e que ela não tinha nada que andar com aquelas conversas.

Nessa altura, a nossa boxer ficava lá durante a semana e ele ia passear com ela para o campo ou para a praia, fazia móveis em madeira, ia às compras, era activo e estava saudável. Nem mais nos lembrámos do AIT. Até ao seguinte.

O último poderia ter tido consequências graves. Tinha ido ao shopping com a minha mãe e, no parque de estacionamento, tinha ficado com o pé na embraiagem e não o conseguia levantar. Apanharam um susto. Se o carro estivesse em movimento, o que poderia acontecer... Aí perceberam nitidamente que a perna tinha ficado momentaneamente sem acção. Foi também apenas uma fracção de segundo. Dali seguiram, com ele a conduzir, para o hospital. Outro AIT, claro. 

Dessa vez, houve uma sequela, por sinal muito bizarra: esqueceu-se dos números. Não os reconhecia e, claro, não sabia fazer contas. No dia seguinte foi para casa, fresco, a andar e falar normalmente. Mas aquilo dos números era muito estranho. A minha mãe ensinou-o e ele rapidamente recuperou o conhecimento. Nessa semana, na sexta à tarde, quando lá fui buscar a cadela, já ele estava a resolver raízes quadradas à mão, números imensos cujas raízes quadradas resolvia na maior das calmas. Ficou bom de novo. 

E mais uns anos passaram até que veio aquele terrível AVC.

Esteve muito tempo no hospital e voltou para casa com meio lado do corpo morto, com meio campo visual perdido, com dificuldade na fala. 

Veio a recuperar a mobilidade e a fala. O campo visual perdido é que não teve volta. Mas uma outra coisa apareceu comprometida: a orientação espacial de proximidade. E isso era muito estranho. Se lhe perguntássemos como se ia de casa até um sítio qualquer na cidade ou noutra, ele descrevia as ruas, o percurso todo, ao pormenor, sabia onde se poderia estacionar na proximidade, tudo. Mas quando saía da sala, por exemplo para ir à casa de banho, parecia ficar perdido, não sabia se era para a esquerda ou para a direita, hesitava. Mesmo quando se levantava da cama, via a porta do roupeiro e ficava na dúvida se a porta do quarto era ali ou se era noutro sítio. Era muito estranho. Vacilava, ficava perdido (e muito infeliz).

Nessa altura, descia as escadas sozinho, andava no jardim, ia à rua, tudo bem, e arranjou truques para se orientar. Mas uma vez, vinha da rua, talvez encandeado ou talvez simplesmente desorientado, entrou na sala cuja porta é perto da entrada e deu uma volta à chave, tirando-a da porta e colocando-a numa estante. Pensava que estava a fechar a porta da rua e a pôr a chave num móvel chaveiro que há parede. Quando a minha mãe percebeu o que se tinha passado, começou a dizer-lhe para abrir a porta. Mas, como não percebeu o que tinha acontecido, pensou que, inadvertidamente, se tinha fechado em casa deixando a minha mãe na rua. Então, dizia à minha mãe para dar a volta à casa e tentar entrar pela outra porta. A minha mãe, aflita, dizia que ele se tinha fechado na sala. Como via mal, como a sala estava com a janela fechada e às escuras e como ele estava completamente desorientado, foi o cabo dos trabalhos. Teve que se chamar uma pessoa que, não sei como, conseguiu entrar pela janela. Ele estava muito nervoso pois, nestes momentos, sentia-se diminuído e até envergonhado por dar trabalho e pela situação a que tinha chegado.

Não faço ideia do que se passou com Joe Biden no dia que o vídeo mostra. Pode ter sido apenas cansaço, exaustão. Não sei.

O que sei é que acho que não devemos gozar com quem passa por situações assim. As pessoas podem estar bem, fazer a sua vida normal, estar lúcidas, na plena posse das suas capacidades e, no entanto, momentaneamente, passaram por um qualquer estado de perturbação. Pode acontecer com os nossos pais, pode acontecer connosco. Somos todos feitos de matéria frágil. 

quinta-feira, janeiro 21, 2021

Morning in America

 

Esta quarta-feira foi um dia grande. A larva narcisista e cor de laranja foi corrida e saiu, pela porta pequena, na companhia da sua esfíngica e vazia viúva que, na hora da despedida, se mascarou a preceito, de negro mas com umas festivas solas em rouge Louboutin. Dizem que se exprime através das toilettes e, se a de hoje diz alguma coisa, é conversa para a qual me estou nas tintas. 

O psicopata Donald saiu não apenas com a viúva mas também com a sua corte de filhos, noras, filhas, genro e amigos, todos uns parvalhões de primeira. Saiu dizendo as alarvidades do costume. 

Agora aqui chegada é com gosto que vejo vídeos sobre o tema, resumindo, com números, o que foram estes quatro anos de vergonha mundial. Aqui fica pro memoria.


Interessante também este vídeo que ilustra bem o que foi a absurda era Trump, uma era desconcertante e ridícula em que valeu tudo.

Jared & Ivanka: No Credentials Necessary 

The Daily Social Distancing Show


Tantos vídeos de The Lincoln Project aqui partilhei que hoje não posso deixar de partilhar um segundo, o da celebração, da esperança, tão contrário aos da série Mourning in America que em tempos também partilhei:

Morning in America


Donald Trump is out. President Joe Biden is in. It's morning in America, again.




E a palavra ao novo presidente dos Estados Unidos

This is democracy's day': Joe Biden urges unity in inaugural address


Que novos dias voltem a trazer alguma esperança

domingo, novembro 15, 2020

Agora, como o Biden é grisalho, o parvalhão também apareceu grisalho.
[E como seria se Trump e Biden fossem como são mas ainda meninos pequenos...? É ver, é ver... 😜]

 

Quando ontem estava a ver as notícias, vi a tartaruga obesa não loura como sempre o conhecemos, com aquelas barbas de milho coladas à cabeça, mas, sim, de melena grisalha... fiquei beige. Narcisista extremado como é, agora deve pensar que os americanos que votaram no Biden o fizeram por gostarem de homens com cabelo quase branco e, rápido como é a tomar decisões estúpidas, num verdadeiro passe de mágica, apresentou-se com aquele seu ar de mau perder e, para surpresa geral, com o cabelo devidamente grisalho. Nunca se viu parvo mais parvo. Toda a gente ficou de queixo caído. Mas é que nem estava louro nem cor-de-laranja. É certo que ele, mal disse as parvoíces que tinha para dizer, deu de frosques, senão todas as perguntas deveriam andar à volta disso. Qualquer dia, começa também a aproximar-se dos microfones a dar uma corridinha... Ou com dois primeiros-cães pela trela. Daquele doente mental tudo se pode esperar.

Contudo, há quem avente que pode ter sido outra coisa: que a colorista que, dia-sim, dia-sim, lhe dava banho de louro platinado se fartou dele e bye bye pato cor-de-laranja de melena platinada. Como a Melania não deve estar nem aí para as macacadas do marido, não o salvou e, para não ir ele mesmo ao Lidl comprar tinta para o cabelo e auto-bronzeador, não lhe restou outra solução senão mostrar que o louro e o bronzeado já eram. Qualquer ainda aparece de pijama por já não haver quem lhe lave e passe a ferro a roupa. Ganda nóia.

Agora também com piada é o debate entre Trump e Biden mas com filtro infantil. O Biden, então, fica o máximo. Já me fartei de rir.


😀   😂

segunda-feira, novembro 09, 2020

Kamala Harris. Nome do meio: Hope

 

Vestida de branco, sorridente, Kamala Harris afirmou-se, perante os americanos e perante o mundo, como aquela que será leal ao seu presidente, servindo as causas pelas quais se bateram, como aquela que herdou o sacrifício e a luta de todas as mulheres que a precederam, aquela em quem a sua mãe teria orgulho. 

Kamala Harris, filha de Shyamala Gopalan e de Donald J. Harris, é uma mulher com presença. Inspira confiança. Uma pessoa que fala de frente, que sabe tocar os pontos chave da cultura do seu país, que revela empatia, que promete honrar a memória dos que acreditaram no sonho americano, dos e das que são a coluna dorsal do país. Ouvem-se as suas palavras, vê-se a sua atitude e acredita-se que é uma lutadora, uma guerreira, uma mulher inteira.

Com o mundo a deslizar para um destino incerto, travando batalhas dificílimas com vírus desconhecidos, com o planeta a dar mostras de saturação e a prenunciar alterações que, a prazo, podem fazer perigar a sustentabilidade de algumas espécies, talvez até a humana, todos os esforços devem ser unidos.

Trump dividiu, desuniu. Trump ignorou a ciência, ignorou o sentir e a dignidade dos outros, ignorou o pulsar do mundo, fez tudo mal. Mike Pence foi o seu sleeping partner, a perfeita nulidade, o morto-vivo que a tudo se sujeitou, tanto que até atraiu, sobre a sua cabeça, uma mosca onde e quando menos se esperaria. 

Biden e Kamala Harris são, em tudo, o seu oposto. É gente que se sabe ser gente de bem. É gente que parece ser gente honrada, informada, bem preparada. E, com isso, é gente que inspira o sentimento de esperança.

Por isso, não apenas nos Estados Unidos mas em todo o mundo, toda a gente esteve em suspenso até ao último momento, até se ter a certeza do resultado, e, ao saber-se que Trump tinha sido despachado, a explosão de alegria foi total.

Até os meus pimentinhas, ao acordarem, perguntavam se já se sabia se o Trump tinha perdido.

Portanto, penso que o mundo pode voltar a ter alguma esperança. Hope. Ao ouvir o discurso de Joe Biden e o de Kamala Harris o que me ocorre é que devemos dar-nos o direito de sentir esperança. 

Partilho parte do discurso de vitória de Kamala Harris e digam-me lá: esta mulher vestida de branco, sorriso nos olhos e nos lábios, esta mulher que sabe escolher as palavras não inspira esperança?


Boa sorte!

domingo, novembro 08, 2020

Biden, presidente dos Estados Unidos da América.
[Com Trump out, chega ao fim um dos mais vergonhosos e incompreensíveis períodos da História]

 

Esta é a madrugada que nós esperávamos*
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

É com um imenso alívio que vi confirmada a vitória de Biden. Digo aquilo que disse no outro dia: Trump doía-me como se fosse presidente do meu país. Ter que suportar um escroque daqueles como presidente dos Estados Unidos era uma humilhação que me custava a suportar. A liberdade e a democracia estavam a ser vilipendiadas. Claro que o que não faltam são estupores. Veja-se Bolsonaro e outros. Mas os Estados Unidos são uma bandeira da democracia para o mundo. Pode ser uma miragem, uma ilusão. Talvez. Nódoas não faltam naquela bandeira. Mas temos, todos, que querer o melhor e não encontrar justificações ou atenuantes para aceitarmos o pior.

Portanto, que bom que Biden tenha vencido estas tão renhidas e tumultuadas eleições. Que bom que Joe Biden seja o novo presidente dos Estados Unidos.

E se estou tão aliviada e contente nem é tanto por Biden -- embora também o seja. Acho-o um tipo decente e acredito que vai sair-se honrosamente. De resto, será bem apoiado e em sua volta congregar-se-ão todas as forças positivas da gente de bem. Kamala, sua vice, não tenho dúvida, será uma presença de modernidade e inclusão que trará força e luz ao seu mandato.

Biden terá pela sua frente uma tarefa hercúlea: conseguir fazer-se afirmar junta da imensa mole de broncos e grunhos que votaram em Trump. Isso e, não menos importante, conseguir vencer os coronavírus que, por lá, andam à solta como múltiplas varas de porcos assanhados. Isso e, também, a brutal crise que a covid está a cavar por lá (como em todo o mundo). Não vai ter a vida fácil, Biden.

Há gente que tenho por civilizada e que, estranhamente, ainda acredita que o problema de Trump é o que diz e a forma como o diz. Ingenuidade. O problema de Trump é ser Trump. Não há um narcisista à superfície da terra que valha um caracol. Nenhum. É tudo gente que pensa e age em função de si própria. Pode isso ser camuflado de mil disfarces, alguns nem deliberados, mas não há volta a dar. Os narcisistas desconhecem o que é a empatia, desconhecem o que é a abnegação, desconhecem o que é a visão intelectualmente honesta. Imagine-se agora um narcisista extremado e poderoso como Trump. É um perigo. Trump é uma pessoa que é tudo e o seu contrário conforme a conveniência de momento mas que tem como substracto o desprezo que, no fundo, sente pelos outros. Acha-se o maior, o melhor,  mais amado. Nem é bem desprezo, é, sobretudo, indiferença. Os outros interessam-lhe apenas na estrita medida em que lhe podem ser úteis. Se não lhes reconhece utilidade ou se percebe que são pessoas que não o veneram ou, simplesmente, que não gostam dele, sentem-se ameaçados, vitimizam-se, mostram-se injustiçados -- e partem para o ataque, para a injúria ou, quando a cobardia aperta, para a lamúria infantilizada. Gente assim é tóxica. Imagine-se um Presidente que é tóxico: é tóxico para os outros, só que, neste caso, os outros são a população do país. Mais: sendo o país os EUA, ele é, também, tóxico para o mundo. Um perigo.

O que Trump fez é inenarrável: rompeu acordos importantes, marimbou-se para as alterações climáticas, ignorou a ciência, mostrou desprezo pelos outros Estados, acicatou ódios, apoiou os mais ignorantes de entre os ignorantes, fomentou o obscurantismo ao mais alto e disseminado nível -- e essa sua herança vai ficar por lá.

Biden vai, pois, pisar terreno que, em larga medida não lhe vai ser favorável (isto para não dizer que é terreno minado). Ganhou, mas a percentagem de gente que votou em Trump é de susto. Contudo, optimista que sou, espero que esses broncos caiam na real e percebam que um país ter à frente um democrata, um homem decente, é meio caminho andado para os cidadãos se sentirem confiantes. Espero também que muita dessa gente seja tão bronca que, não tendo quem lhes dê corda, acabe também por se esquecer das posições trumpistas. Finalmente, apesar de não ser vingativa, por esta vez espero ainda que Trump acabe isolado e atolado no fel e na gosma que passou o mandato a espargir sobre quem não lhe prestava vassalagem.

Mas, enfim, agora é hora de olhar em frente. Trump já era. 

 by Chris Riddell

Biden é agora o Presidente dos Estados Unidos e isso é o que interessa festejar. 

E se há festa nas ruas...! E se há alegria**, desfile, salto, dança, riso, aplauso, alívio... e hope, hope, hope

Good luck, Biden, Mr. President!

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Para memória futura:

The path to Joe Biden’s victory: five days in five minutes

* No poema original de Sophia de Mello Breyner: que eu esperava

** E muita gente sem máscara... Tão felizes estão que até parece que se esquecem da covid. A ver no que tanta falta de cuidado vai dar.

quinta-feira, novembro 05, 2020

Surrealidades e encontros inesperados para salvar o dia

 



Esteve muito frio por aqui. Quando fiz a caminhada estava um gelo impensável. Estava a falar ao telefone enquanto andava e a minha mão ia enregelando enquanto o tempo ia avançando. Um frio de natal. Não sei de onde apareceu. 

Quando entrei em casa, senti-a acolhedora, uma temperatura boa. Quando vinha, estava a pensar que, um dia destes, havemos de experimentar a lareira. Mas, ao entrar, achei que ainda é cedo demais para isso.

Agora até me lembrei. Uma vez, in heaven, estava a ter uma reunião (remota, claro) em frente da lareira. Às tantas, virei-me para trás e apressadamente coloquei um tronco grande. Quando dei por ela, algum tempo depois, havia fumo na sala. Com o braço, peguei na pinça grande e empurrei o tronco porque, se bem me lembro, tinha ficado longe da chaminé. Não quis interromper a reunião mas os olhos já me estavam a chorar. De repente apareceu o meu marido a gesticular, entre o assustado e o irritado. Abriu a janela, passou atrás de mim a perguntar se eu não tinha percebido que a casa estava cheia de fumo e o ar irrespirável. Tive que pedir desculpa aos da reunião, tirar o som e a imagem. Ele conseguiu levar o tronco lá para fora para acabar com a fumarada e eu lá recomecei a reunião no meio da neblina e do frio que vinha da rua. São os percalços de quem está a fazer reuniões em casa, um olho no burro e outro no cigano. 

Hoje tive um dia excessivamente preenchido. Dias assim são aborrecidos. Passam a correr. Não consegui um tempinho para mim. De manhã, tinha dito ao meu marido que a ver se ligávamos a aparelhagem. Sozinha nem sei por que ponta hei-de pegar, aquilo liga-se tudo entre si, tem que se ver com que cabos e o quê a quê. Só depois poderemos arrumar os LP's e os CD's. O meu marido disse-me: 'podes ir andando'. Mas não fui a lado nenhum, claro. Não me entendo com cabos, sou avessa a liaisons de certos tipos, nomeadamente eléctricas. E, depois, só voltei a ter tempo para pensar nisso por volta das sete e tal da tarde. Mas depois tive telefonemas, demorados, e depois o jantar para fazer. Sei lá. Esgotou-se o tempo útil. Só sobrou o inútil, este, agora.

À hora de almoço, vi as notícias. Tudo em aberto. Uma tragédia, mesmo que Biden ganhe. Agora voltei a ver. Talvez a coisa se dê (tomara, tomara, tomara) e, apesar de achar que Biden é falho em carisma e que não faz grande sentido alguém iniciar um mandato destes com a provecta idade que ele tem, os resultados mostrarão que quase metade dos americanos votaram no traste mais traste de que há memória. E isso é assustador. Ao fim de quatro anos ninguém pode alegar que não sabe o que está ali. Trump mostrou à saciedade que é um psicopata, um perigoso narcisista, um mentiroso compulsivo, uma pessoa destituída de empatia, de sentido de estado, de honestidade intelectual. Quem votou nele sabia, forçosamente, no que estava a votar. E isso assusta-me. Melhor: deixa-me sem perceber nada. 

Quanto ao corona, às vezes sinto que é como se sentisse que o cerco está a apertar. Agora é uma colega com a casa cheia de gente com covid, todos infectados e doentes. Ela, que pensava que tinha escapado, afinal agora também com sintomas. No outro dia foi outra que também teve. Vale-nos as equipas andarem desfasadas e toda a gente que pode estar em casa. Senão estaria meio mundo infectado e inoperacional. Ao ritmo a que isto vai, a ver no que esta porcaria vai dar. No outro dia, quando se falava que, não tardaria, estaríamos acima dos 3.000 por dia, eu disse, tomara é que daqui por umas duas ou três semanas não estejamos nos dois dígitos. Espanto em quem me ouvia. Concretizei: acima dos dez mil.  Disseram: não, vão tomar medidas, não vai chegar aí. Ai não que não. Não tarda. Isto está perigoso. Em termos percentuais a coisa não amedronta mas, como a base de incidência é grande e crescente, o resultado será também expressivo, gente a sobrar face ao número de camas, os hospitais a deitarem por fora. Não poderemos deixar de andar com o credo na boca.

Aqui e por todo o lado. Aos poucos, a Europa está a fechar-se em casa. Um mundo virado para dentro de si próprio. Se não é doçura, só pode ser travessura. Travessura dos deuses, claro, fartos de aturar estes macacos burros armados em inteligentes que somos nós.

Mas passa das duas da manhã, adormeço a cada sílaba, não me apetece ir deitar-me ainda com o sarro do merdinhas colado aos dedos. Muito menos com o do palhaço cor-de-laranja (Orange clown. Orange stupid cow, orange coward)

Por isso, vou-me mas não sem antes partilhar um vídeo do caraças que o meu amigo algoritmo hoje tinha para me oferecer. Nada a ver com nada. Apenas encontros inesperados entre animais. Muito engraçado. Um oásis no meu dia, uma forma de escapar à tortura que têm sido as notícias deste dia.


As pinturas são de Mário Cesariny e acompanham Lost with you na interpretação de Patrick Watson

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E eu desejo-vos um bom dia. Saúde. Força. Boa disposição.

sexta-feira, outubro 16, 2020

Escolher entre um homem de carácter e um sem carácter
(e escuso de dizer que o último é o Commander In Chief)

 

Enquanto jantávamos, vimos na televisão o Trump completamente encharcado em esteróides, gritando como um tresloucado, implorando pelo voto mas implorando de uma forma doentiamente histriónica e descabelada. Pretende fazer-se passar por macho man, por macho alfa, por invencível, por super-homem, por semi-deus. Mas é tudo tão estupidamente caricato que só dá vontade que os americanos atinem e percebam que, para o mundo, melhor fora que nem um único voto a besta quadrada tivesse.

Não há pessoas perfeitas e, se houver quem quase o seja, é de fugir a sete pés pois devem ser uns chatos que não se aguenta. Ao que consta, Joe Biden não é perfeito, parece que tem alguns esqueletos no armário, coisa de plágios na universidade e em discursos em início de carreira onde terá usado citações sem dizer que estava a parafrasear. Pediu desculpa, renunciou. E recomeçou. 

A campanha e as reportagens mostram-no agora na sua sofrida dimensão humana. Não sabia. Apenas sabia da dependência de drogas do filho mais velho. Não sabia que já lhe tinham morrido outros dois, uma menina, no mesmo acidente em que morreu também a primeira mulher, tendo sido ele a criar sozinho os dois meninos sobreviventes do acidente, e, mais recente, um dos filhos. Pensar que tem estado sujeito a tentativas de humilhação por parte de Trump a propósito do único filho sobrevivente revela bem o pulha que Trump é. Nada de novo mas, ao saber o trajecto de sofrimento pessoal que Biden tem percorrido, ainda mais aquele anormal cor-de-laranja da boquinha de rosa me enoja.

Razão tem Demi Lovato para dizer o que diz no seu Commander In Chief. Alguma coisa na sua voz (bem como alguma coisa no seu actual look -- e sabemos bem também o caminho torturado que ela tem percorrido) torna tocante o seu manifesto contra o que se passa nas ruas do seu país.