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quinta-feira, janeiro 24, 2013

Eu e alguns dos escritores que vi pessoalmente (três homens de que não digo o nome mas que são muito conhecidos e uma mulher, Hélia Correia). E ainda 'Um dia na vida de Maria Teresa Horta'. E, com isto, consegui evitar falar muito da hiperbólica ida aos mercados.


Estou aqui danadinha para me atirar outra vez aos ignorantes que para aí andam delirantes com a ida aos mercados, como se ir pedir dinheiro emprestado (... e a dívida já ultrapassou uns inimagináveis e impossíveis de pagar 120%) a uns juros que também não temos como pagar e que, portanto, se irão somar à dívida, fosse coisa boa, boa, tão boa que nos levasse ao êxtase.

Os nossos rendimentos todos a serem cativados para pagar juros impossíveis e uma dívida incomensurável, uma dívida que não pára de aumentar... e toda a gente a deitar foguetes...?

Houve muitos investidores interessados...? Claro. Não havia de haver? Numa altura em que as taxas de juro na UE estão tão baixas, em que para ficarem com dívida alemã os investidores até têm que pagar (com juros na linha do zero ou abaixo disso na Alemanha, por exemplo), não haveriam todos de nos querer emprestar dinheiro quase a 5%? Agora que o BCE já mostrou que está de chapéu de chuva aberto para acolher os que estiverem debaixo de chuva, qual o risco? Nenhum. Então porque não haveriam de comprar esta dívida ou o dobro desta se os juros são tão apetitosos...? 

Mas, enfim, como também percebo que, no meio do pantanal que atravessamos, até uma má notícia nos parece boa, e como este país parece estar todo de patas para o ar, já não digo nada. As pessoas andam deprimidas, precisam de boas notícias e de sinais de esperança e, por isso, se querem todos desatar a fazer uma big party com uma coisa destas (que em, situações normais, seria de lamentar), pois que a façam. 

O problema é que estou com isto na cabeça e não me consigo concentrar para escrever sobre outra coisa.

*

Depois de puxar pela cabeça durante uns longo trinta segundos (que eu não sou dada a longas meditações), ocorre-me aqui falar de escritores.



Um cadeirão/estante assim é que eu havia de arranjar para mim,que maravilha


Gosto muito de ler e de tudo o que rodeia o acto de ler. Por exemplo, já vos dei conta disso muitas vezes, gosto muito de livros, de livros aqui espalhados na minha mesa, de livros nas estantes à minha volta, de livros no chão ao lado da minha cadeira, de livros nos escaparates das livrarias. Livros. Gosto de passar as mãos nas capas dos livros quando deslizo como uma gata pelos escaparates. Gosto do cheiro dos livros. Gosto de sentir o papel dos livros. Fétiches, se calhar.



Gosto desta estante, tem um ar caótico que me agrada


Gosto também de ver fotografias do habitat dos escritores. Há uns livros que ando para aqui cheia de vontade de comprar mas custam 47 euros cada e acho caro. Tenho conseguido resistir. Casa de escritores no Alentejo. Casa de escritores no Douro. Mas ali ando a folhear, ando e ando e lá vou eu vê-los uma e outra vez, cheia de vontade de perder a cabeça. Já tenho um livro do género e o que eu gosto desse livro, Casas d'Escritas. Lindo, lindo. 



Casa de Escritores no Alentejo


Mas também gosto de ver os escritores em pessoa.

Claro que não ando atrás deles e, se os vejo, consigo disfarçar a curiosidade. Mas, por minha vontade, punha-me a olhar descaradamente para ver se são pessoas com gostos normais, para ver como se comportam, para tentar perceber se, à vista desarmada, são seres diferentes dos vulgares mortais.

Mas a chatice é quando a gente olha e parece que não joga a bota com a perdigota.

Há um poeta de que gosto muito, muito. Os seus poemas são maravilhosos. Tenho todos os seus livros e só não coloco mais poemas seus no Ginjal porque geralmente são grandes e levam muito tempo a transcrever. Escreve sobre o amor com uma sensibilidade e uma mestria como poucos, vê-se que é homem que sabe como amar uma mulher.

Aqui há uns meses estava numa mesa ao lado da minha num conhecido restaurante de Lisboa. Disfarcei, claro. Mas, discretamente, ia deitando um olho pela lateral não fosse ele perceber e ficar incomodado (e também não fosse o meu marido reparar pois odeia que eu faça figurinhas deprimentes pondo-me a olhar, feita saloia, para figuras conhecidas). 

Mas a questão é que o dito poeta, ao vivo, é pequenino, uma figura magra, ar apagado, a cabeça um bocado desproporcionada face ao tamanhinho do corpo. E todo ele se apagava. Na mesa, uma mulher agia histrionicamente, um outro casal estava animado, e ele, coitadinho, encolhia-se na cadeira, meio ausente. E todo o tempo eu estava a pensar que ele, para estar à altura da poesia que escreve, deveria ter, no mínimo, um palmo a mais e todo ele deveria ter mais corpo, mais largura, mais volume. No outro dia cruzei-me, outra vez, com ele. Ele subia umas escadas que eu descia. Passou ao meu lado, uma esquiva sombra, mal se dava por tão apagada figura. Não sei... Claro que ao escrever isto me estou a recriminar, outra vez a ser fútil!, mas agora dá-me ideia que, se voltar a ler aqueles belos poemas de amor, é bem capaz de me ocorrer um pensamentozinho rasteiro do tipo... garganta...!

Depois há um outro que eu sempre achei um gato, mas um senhor gato. Um escritor que, do que o via nas fotografias e na televisão, é alto, encorpado, belo rosto, um charme. Fui agora ver à wikiedia e, tal como eu pensava, é mais novo que eu, seis anos menos mas isso da idade não conta e ele é mesmo bonito.

Pois bem. No outro dia, quando fui ao Ikea comprar as estantes, lá andava ele. Sozinho, o carrinho cheio de coisas, a arrastar os pés, meio trôpego, cansado, estafado. Dava pena. Parecia ter mais uns vinte anos do que tem, uma coisa...! Acabado, acabado, dava ideia de precisar de fisioterapia, de mudar de vida, de deixar de fumar e de beber, de fazer dieta, de comer canja, de comer saladas, sei lá. O escritor que eu imaginava um dom juan ali estava, a precisar de alguém que o recolhesse e tratasse dele.

Há ainda um outro de que gosto muito e que costuma ter uma escrita autobiográfica. A gente lê o que ele escreve e tenta perceber o que o terá levado a passar por aquelas situações, ou a imaginar as injustiças da vida a que estará sujeito, ou temos vontade de o aconselhar.

Vi-o por duas vezes e fiquei admirada. Parecia bem mais velho do que a idade real, todo ele, e vestia-se também como se tivesse mais idade, como se fosse um vencido da vida, todo ele com pouca energia, uma ausência de vitalidade. E pensei, cá para mim, que, com aquela atitude, como poderia ele ter mais sorte na vida. Deu-me vontade de pegar nele e fazer um daqueles programas em que viram as pessoas do avesso: cortava-lhe o cabelo à escovinha, levava-o a comprar roupas completamente diferentes, submetia-o a um regime de alimentação e caminhadas. Dava a ideia de que se lhe tirasse de cima a carga pesada que parece transportar, poderia ser uma pessoa mais feliz. 

Agora quando leio o que escreve, penso sempre que, para que a vida dele melhorasse consideravelmente, devia sujeitar-se a um revamping que eu lhe traçaria. Mas, enfim, talvez depois a escrita deixasse de ser como é - e entre uma vida feliz ou uma escrita interessante, acho que eu, como leitora, o deixaria infeliz mas a escrever bem.

Claro que, face ao que disse, não vou revelar de quem se trata. Nos três casos são escritores muito conhecidos. Mas fico na dúvida se, face a isto, não será preferível que os leitores não conheçam os escritores cuja escrita apreciam.

No entanto, já aqui falei e falo outra vez de Hélia Correia. Com ela, deu-se o contrário do que acima descrevi.




Aqui há tempos, via-a de vez em quando, almoçava às vezes no mesmo sítio que eu. E o que eu tive que me conter para não a ir maçar e pedir um autógrafo ou outra pepineira do género. Parecia que vogava no ar, que não andava com os pés nos chão, meia distraída, uma das vezes com um chapéuzinho na cabeça, com uma mochilinha, meio perdida. Ia pelo braço de um homem, talvez o marido ou companheiro, não sei, alguém que, com cuidado, a guiava. Mas depois, à mesa, já tinha um ar prático, normal. Gostei muito de a ver e só tenho pena de não a ter podido fotografar.

Claro que vi muitos outros na feira do livro ou em sítios assim mas isso é diferente, aí estão em exposição, perdem a naturalidade.

Também encontrei há muitos anos, na Sá da Costa, o Fernando Namora, estive a observá-lo e, depois, ganhei coragem para me dirigir a ele e pedir que me autografasse um livro que, estupidamente, ofereci ao namorado que tinha na altura. Como não casei com ele, fiquei sem o livro. Também conheci Antonio Tabucchi no dia do lançamento de um livro seu no Palácio Fronteira, um fim de tarde encantador onde circulava muita gente das artes e letras. Tenho esse livro autografado por ambos. Disso falei aqui no dia da morte do escritor. Mas nestes dois casos, por acaso, a pessoa não diferia do escritor tal como imaginava a partir de fotografias. De qualquer forma, por já não estarem entre nós, mesmo que a impressão não tivesse sido fantástica (o que não foi o caso) não o diria aqui.

Gosto também muito de ver entrevistas ou documentários com escritores, de preferência onde se veja a casa deles. No outro dia vi um documentário sobre um dia na vida de Maria Teresa Horta, uma grande mulher, uma mulher de convicções. Deixo-o aqui e espero que gostem também. 

(Vi agora no youtube que ainda só tinha tido 6 visualizações. Se fosse um palerma qualquer a esbracejar e a abanar o capacete  ou a cair da cadeira abaixo já teria uns milhões de visualizações. Assim, como é apenas uma mulher inteligente a conversar, ninguém liga a mínima. Raios partam este mundo que andamos a criar.)





*

Convido-vos ainda a virem daí até ao meu Ginjal e Lisboa (que ainda está a votos no Aventar, não se esqueçam).... No Ginjal, hoje falo-vos de uns certos cavaleiros que, em dias de temporal, saem do fundo do mar espalhando o terror e o amor por onde passam. Depois, quando regressam ao fundo do mar, deixam atrás de si um rasto de luz. São palavras em volta das claras suspeitas de luz de Frederico Lourenço. A música é um outro momento feliz que junta uma criatura luminosa, Bernardo Sassetti, e Carlos do Carmo.

*

E, antes de me ir embora, quero ainda desejar-vos, meus Caros leitores, um dia muito feliz.


quinta-feira, maio 24, 2012

O encantamento das palavras. A última miséria, a solidão mais absoluta. A nossa vida sexual coincide com o melhor do que somos. O médico de palavras. As nalgas e o osso da rabadilha. E, para acompanhar, o redondo vocábulo de Zeca Afonso e a louca inocência de Paul Klee


Música, por favor

José Afonso - Era um redondo vocábulo


.1.




Doutor, pode ser a qualquer hora, onde quer que esteja, com quem quer que seja. Olho para uma coisa e, sem  querer, começo a retirar-lhe uma a uma todas as ligações que ela tem com as outras coisas até ela acabar por se sumir. Uma pessoa está a falar comigo e, de repente, deixo de a entender porque fico encantado pelas palavras, sem cuidar do que dizem. Ou então estou a pensar numa coisa e começo a pensar no que será isso de pensar numa coisa e esqueço-me do que estava pensar. Coisas assim.


.2.




Aqui, pensou o médico, desagua a última miséria, a solidão absoluta, o que em nós próprios não aguentamos suportar, os mais escondidos e vergonhosos dos nossos sentimentos, o que nos outros chamamos de loucura que é afinal a nossa e da qual nos protegemos a etiquetá-la, a comprimi-la de grades, a alimentá-la de pastilhas e de gotas para que continue existindo, a conceder-lhe licença de saída ao fim de semana e a encaminhá-la na direcção de uma 'normalidade' que provavelmente consiste apenas no empalhar em vida. 

(...) Os que os procuram para se procurarem e arrastam de consultório em consultório a ansiedade da sua tristeza, como um coxo transporta a perna manca de endireita em endireita, em busca de um milagre impossível. Vestir as pessoas de diagnósticos, ouvi-las sem as escutar, ficar de fora delas como à beira de um rio de que se desconhecem os as correntes, os peixes e o côncavo de rocha de que nasce.


.3.




Estar doente é descobrir a existência autónoma do corpo, essa nossa outra identidade esquecida que anda connosco. Não somos donos da nossa mente, tão-pouco o somos do resto. Sim, o corpo escapa-nos tanto ou mais do que a memória, que também envelhece à nossa revelia: o corpo, esses, aguenta, reage, resiste, ou não, ele lá sabe! E nós assistimos, espectadores meio contrafeitos, a esta realidade situada fora de nós, embora sempre ao nosso lado. Que de nós, afinal, é indissociável. Estranha coisa.

Porque o nosso corpo, terra incognita, somos nós e não o somos, mas se ele morrer, morremos com ele. Pertencemos-lhe pois, mesmo contra nossa vontade.

Estar doente é passar a coexistir com um intruso. Um intruso vingativo.

A nossa vida sexual coincide com o melhor do que somos. É a expressão de uma sempre antiga fidelidade, íntimo júbilo reencontrado. De uma presença, em suma.

Ao invés, a doença é o pior do que somos, reflexo de uma íntima traição. Pior do que uma ausência, um esvaizamento.


.4.




Qual a sua profissão? perguntou um escritor a um crítico. Eu, sou médico de palavras. Médico de palavras? Tinha ido cortar o cabelo e achava-se desprovido de argumentos.


.5.



E ali fiquei, humilde, embrutecido, perante a comadre escura que me vigiava. Os olhos dela, vorazes, eram mais temíveis do que esse ventre desgastado de esforços vãos, do que a bacia estreita que se opunha à vida. Esperei minutos, horas, para me dispor àquilo que desde logo me pareceu indicado: uma intervenção com os medonhos ferros que são o pesadelo das parturientes e das famílias aldeãs. Até que a comadre, não suportando já as minhas hesitações, levou à frente das palavras um dedo sujo, antes que eu pudesse simular uma reacção, e enfiou-o nesse abismo insondável. E disse sem meias-tintas:

- Se quer fazer alguma coisa, Sr. Doutor, saiba que a criança está nas nalgas. Está presa presa no osso da rabadilha.

Aquela frase ficou inteira nas minhas recordações, ainda hoje me assusta os ouvidos.



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A. Os autores dos textos são respectivamente:

1. Pedro Paixão

2. António Lobo Antunes

3. Marcello Duarte Mathias

4. Ana Hatherly

5. Fernando Namora


e são parte de textos maiores contidos no livro, já aqui referido,  'A caneta que escreve e a que prescreve' organizado por Clara Crabbé Rocha.


B. As imagens são pinturas de Paul Klee, pintor suiço naturalizado alemão (1879 - 1940) que é cá dos meus.

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Se estiverem para isso, gostaria de vos ver lá pelo meu outro canto, o Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras mergulham em volta de um poema de Casimiro de Brito. Acompanham com vozes maravilhosas que continuam a semana Verdi.

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E tenham meus Caros uma belíssima quinta feira!