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quarta-feira, maio 28, 2025

Tudo conspira, e muito, contra a inocência

 

Imagino a invejinha que quem ainda trabalha sente quando me lê a relatar o meu dolce fare niente. Espero é que seja daquela invejinha boa, inocente, não daquela que vem sob a forma de olho gordo. 

Lembro-me bem daquela ex-colega de quem toda a gente dizia que apenas se realizava através do trabalho e que um dia, uns meses depois de ter saído da empresa, apareceu lá a visitar-nos. Vinha remoçada, muito bem vestida e penteada. Quando lhe perguntámos como estava a adaptar-se à condição de 'desocupada', riu de gosto e disse: 'Penso muitas vezes que se as pessoas soubessem como não trabalhar é tão bom, ninguém queria trabalhar...'

E é mesmo. Não percebo como é que há tanta gente que faz de tudo para se manter a trabalhar até estar quase a cair da tripeça. Mas, enfim, cada um é como cada qual.

E o que eu ia dizer é que estava numa espreguiçadeira, à semi-sombra, completamente em paz comigo e com o mundo, a ler e a ouvir os passarinhos, e pensando que devia ter ali um lápis para ir assinalando algumas frases com piada. Nisto, reparei que o cãobeludo estava freneticamente a espreitar para uns vasos que estão num nível abaixo e que estão separados daquela zona por uma pequena rede. Entre a rede e os vasos costuma juntar-se farta caruma. E era para ali que ele olhava, saltava, agitado como se tivesse descoberto coisa. Tremo quando isso acontece pois antecipo que o passo seguinte seja o cometimento de um crime.

Chamei o meu marido. 

Nessa altura já ele (ele, o cão) tinha ido para essa zona rebaixada e já andava agitadamente em volta dos vasos. O meu marido pegou numa cadeira dobrada e colocou, na parte de baixo, junto aos vasos, tentando impedir que ele lá chegasse.

Em sobressalto, fui buscar a mangueira e abri a água para tentar evitar que o predador se atirasse ao que quer que fosse que ali estava. Então, do monte de caruma que ali estava, monte que mais parece um ninho, saiu um pássaro espavorido, a correr. Parecia um pássaro ainda criança, que ainda não sabia voar, mas de um porte grande, digamos que do tamanho de uma palma de mão aberta. Desatei a chamar o meu marido para impedir que houvesse um desastre e, ao mesmo tempo, a dar mangueiradas de água para afastar o cãomaluco. 

O aflito passarito foi a correr, ladeira abaixo, indo encostar-se a um canto do portão da garagem. 

O meu marido foi então com uma pá para tentar que ele se pusesse lá em cima para o pôr a salvo. Mas foi o bom e o bonito pois, apesar de estar a levar mangueiradas de água, o cão queria, à viva força, ir atirar-se ao frágil serzinho. E o meu marido gritava com ele para ele se ir embora. Só que, com tal reboliço, o passarito abalou a correr ladeira acima, atravessou o jardim e foi refugiar-se junto à sebe. Só que o cão foi mais rápido que o meu marido e que eu com a mangueira. Em menos de um segundo saltou, implacável. 

Quando o meu marido lá chegou, já o passarinho estava deitado de lado, sem se mexer. O meu marido deu um grito ao cão e eu apontei-lhe a mangueira. Mas, aí, ele deve ter percebido que tinha feito um mal irreparável pois afastou-se e ficou como se paralisado, sentado, a olhar para o pobre defunto. 

O meu marido foi resgatar a vítima. O cão-marado afastou-se, pesaroso.

Fiquei atordoada com tudo aquilo. E francamente arreliada por não termos conseguido evitar tão infeliz desfecho. 

Mas a vida na natureza tem destas coisas. 

Depois fui apanhar nêsperas e, como sempre, foram quase tantas as que comi, in loco, como as que coloquei na taça. É congénito: não desfazendo... mas estou mais para Rubens do que para Giacometti.

E agora estou aqui sossegadamente a ganhar coragem para ir à procura de algumas frases de que gostei.

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E, depois de ter feito uma rápida pesca à linha, aqui estão algumas frases transcritas do gostoso 'Uma última pergunta - Entrevistas com Mário Cesariny'

- Tudo conspira, e muito, contra a inocência, contra a linguagem verdadeira.

- O que eu sinto é que a partir dos 50, por exemplo, uma pessoa sabe demais, não era preciso saber tanto. E muito do que se aprende é triste.

Como define a poesia?  - A técnica mais proibida da mágica mais procurada 

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Imagens geradas pelo Sora (IA)

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Dias felizes

segunda-feira, novembro 30, 2020

Tudo é verdade e caminho

 


Estava de pé, no terraço, e olhava a chuva que caía copiosamente. Um silêncio só quebrado pelo som da chuva. Fui seguindo o seu cair, os regatos de água que se foram formando. Um pássaro grande saiu de dentro da copa de uma árvore e, numa corrida, foi abrigar-se numa outra. Caíram duas laranjas. A laranjeira está muito pesada. Apanhei uma das laranjas do chão e comi-a logo ali. Estava fria, sumarenta, quase doce. Emocionei-me. Esta é agora a minha casa e já tem frutos para me oferecer. 

Mais à frente, quase aparentando um pedaço de raiz à vista, um grande cogumelo, solto, tombado -- certamente pelo peso da chuva. Virei-o com o pé. Desfez-se. Rendilhado, delicado. Os cogumelos intrigam-me.

Reparei que um dos vasos que tinha uma qualquer verdura junto à terra, tem agora essa verdura toda florida. Mas são umas florzinhas que nunca antes tinha visto. Persicaria capitata. Surpreendo-me e encanto-me. Uma dádiva. Presentes que recebo quando menos espero.

Fui a casa buscar a máquina fotográfica e, quando parou de chover, fui fotografar os pingos de água escorrendo das flores. Debruço-me para cheirá-las. A água leva o seu perfume. Lava o seu perfume. Encanto-me, encanto-me. Depois fui buscar o telemóvel e fotografei flores e árvores para enviar as fotografias à minha mãe. Respondeu que é uma maravilha.

Entretanto, chegaram dois cães à casa do lado. De tarde vi o que deve ser o meu novo vizinho, sentado na varanda a fazer festas a um dos cães. Quando morava num andar não via os vizinhos. No campo também não. Para mim isto é uma novidade, parece que estou a voltar a quando era pequena, na rua todos a conhecerem-se uns aos outros.

Reparei, de novo, na iluminação de natal que puseram na varanda no primeiro dia em que para cá vieram. Nós ainda não fizemos nada. Não sou muito dada a enfeites, só tenho vontade de ter a casa com luzinhas quando vêm os meninos. Tenho umas árvores pequeninas com luzinhas amarelas que piscam-piscam e que dão uma luz acolhedora. A ver se amanhã as vou buscar à cave, pode ser que faça sentido. De qualquer forma são bonitas. Temos no sótão um baú com grandes bolas de Natal. Não sei se deveremos tentar pô-las nas árvores ou arbustos do jardim, na cameleira, por exemplo. Ou na cerejeira do japão. 

Não faço ideia de como será o natal. Por vezes tenho vontade de pensar: que se lixe o corona, quero é estar com o meu pessoalzinho, com todos, abraçá-los, ouvi-los, rir com eles. Mas depois contenho-me: não sou só eu, não é coisa apenas minha, não podemos dar-nos ao luxo de nos arriscarmos a ser mais um ou fomentarmos o contágio. Qualquer um de nós, se precisar de ser hospitalizado, pode ocupar uma cama que faça falta a outra pessoa. Há uma consciência cívica que não podemos deixar que abrande.

Também me faz impressão a minha mãe, sozinha. Agora faz todos os dias uma caminhada com uma amiga. Há dias em que tem aulas da universidade sénior. E está a fazer um casaco de tricot para a minha filha. Está entretida. E diz-me que evita sair e que não se importa de estar sozinha em casa, diz que receia expor-se ao contágio. Não quero forçá-la a nada até porque uma coisa é o verão em que podemos estar na rua e outra é agora, em que estando em casa, os riscos são maiores, especialmente estando sem máscara; e, em casa, quem é que vai estar de máscara durante todo o santo dia?

De vez em quando sinto saudades sem saber dizer, ao certo, de que é que tenho saudades. Talvez tenha saudades de algumas pessoas. Sim, tenho. Sei bem de quem. Talvez também de uma liberdade que agora não tenho. Ou dos hábitos que tinha e que abandonei. Há hábitos que não precisava de ter abandonado mas que abandonei. Por exemplo, passear à noite junto à praia. Íamos jantar e passeávamos antes ou depois. Como agora não vamos a restaurantes, deixámos de ir, à noite, passear mas isso é por comodismo, por não termos ainda conseguido crivar os hábitos possíveis dos que deixámos para trás. 

Tenho vontade de continuar a fazer reset na minha vida. Adquirir novos hábitos, retomar antigos, ir descobrir mais coisas mas não tenho disponibilidade. O trabalho prende-me e condiciona-me, Dantes, não sei como, o tempo dava-me para tudo e agora parece que não. 

Agora que falo nisto, vi no outro dia uma coisa de crochet que não me sai da cabeça, um trabalho em linha fina. Gosto de fazer crochet. Teria que ver onde aplicar mas acho que ficaria muito bonito. Mas quando terei eu tempo para fazer trabalhos de crochet em linha fina? Mas, de qualquer maneira, quando falava em adquirir novos hábitos nem era nisto que estava a pensar, era em mudança mais radical. 

Estive a ler um artigo sobre como será a vida pós pandemia. Há coisas óbvias. O coisinho-19 revirou o sistema. Por exemplo, ser piloto de avião era uma grande profissão, tinham grande poder reivindicativo, não chegavam para as encomendas. Agora é a reviravolta total: a TAP anunciou que vai despedir quinhentos. Todas as companhias aéreas enfrentam a mesma hecatombe. Aviões e aviões em terra. Não vai voltar a ser o que era. Os pilotos, assistentes de bordo, etc, são apenas algumas das profissões que estão em acentuado declínio. Há aquele exemplo das máquinas kodak, das máquinas de película. Não perceberam a tempo que a fotografia estava a tornar-se digital. Com o corona, parte do mundo parou e repensou-se, só que parece que ainda não fomos capazes de perceber como se vai sair desta. Quando houver vacina e tratamento, dificilmente se retomarão todos os hábitos do passado pois, entretanto, teremos adquirido outros. Sofrem os que dificilmente se vêem a fazer outra coisa mas a sociedade, no seu todo, irá reorganizar-se e reequilibrar-se. Surgirão novas profissões ou haverá escassez de outras. Sairão melhor deste pesadelo as pessoas que saibam fazer a leitura correcta dos factos e das necessidades que se criarão.

Mas, enfim, é tarde, nem digo que horas são da manhã. Portanto, melhor fora que dissesse que é cedo. 

Se há seres de outros planetas ou outras formas de vida que desconhecemos e que nos andam a estudar, se me localizarem, talvez fiquem sem perceber que ser é este que, no meio de um casario adormecido, se mantém acordado, sozinho, apenas uma pequena luz sobre as suas mãos, dando mostras de gostar de estar aqui, noite adentro, noite após noite, escrevendo como se não houvesse amanhã. 

E será que há amanhã? Quem o sabe?

(E que interessa isso, se há ou se não há amanhã? Que diferença faz isso para quem parte, depois de ter partido? E para quê perder tempo a tentar adivinhar sobre que face cai o dado que um qualquer deus atira só por desfastio? É viver e fazer o que nos faz feliz enquanto se pode. Convém é, já agora, saber o que nos faz feliz para não andar a deixar passar a felicidade ao lado, só porque não a soubemos identificar) 

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Fernando Pessoa :: A morte é a curva da estrada / Por Natália Luiza

(de onde extraí o título deste post)

[De novo, pela mão do Cine Povero]

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Fotografias cá de casa na companhia de Agnes Obel com "Mary"

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E queiram continuar a descer caso vos apeteça ler cartas de Agustina à mãe

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Desejo-vos uma boa segunda-feira com saúde, amor e beleza nas vossas vidas.

domingo, novembro 29, 2020

Acidentes, regressos e manuscritos de Felipa
[Ah...se eu pudesse trincar a terra toda]

 



Não há muito a dizer. O jardim está verde e florido e a chuva torna-o ainda mais viçoso. Mas a partir do princípio da tarde começou a chover, choveu, choveu, e escureceu de tal maneira que, para ler, só de luz acesa. 

Tenho um hábito: quando me levanto, dou a volta à casa, levanto os estores e vou pondo as janelas na posição basculante. Gosto que entre ar fresco. E, geralmente, gosto que fiquem assim todo o dia. O meu marido agora não concorda, diz que está frio demais para tanto ar fresco, diz que arrefece a casa. Por isso, geralmente, quando me apanha distraída, vai fechar as janelas. Se acordo a meio da noite vou, sorrateiramente, abrir a janela do quarto, gosto de sentir o ar fresco da noite. Se ele dá por isso, passa-se, diz que sou maluca. Mas gosto tanto.

De manhã não choveu. Fomos fazer uma caminhada. Mais de uma hora a bom passo. Uma caminhada bem mais longa do que o costume. Vamos conversando. Às tantas disse ao meu marido que ele sobretudo ouve e responde ao que pergunto. Ele respondeu: 'e não é preciso mais'. Ri-me. Sempre assim foi. Raramente é ele que puxa assunto. Ou tem assuntos de trabalho que o preocupam ou ouviu alguma notícia que achou relevante ou, então, alinha na minha conversa. E assim, nesta conversa solta, nem se dá pelo tempo a passar. 

Este domingo, que parece que vai chover todo o dia, não sei como vamos fazer. Já andámos muitas vezes com chapéu de chuva mas é uma maçada, em especial quando a chuva é forte ou faz vento. Mas ficar sem caminhar é que não.

Tinha ideia de ir fazer umas arrumações mas deu-me uma total preguiça. Estive a ler. Fui fazer a monda aos livros que trouxe no outro dia a ver os que tinham vindo para mim. E estive a ler parte de cada um. Enquanto lia, ia tentando descortinar quais as partículas elementares que ali se encontravam e que não encontro noutros autores. 

Mas não foi pacífico, devo confessar. Pensei que ia ficar rendida mas estou vacilante. Por exemplo, estranhei a linguagem deste Acidentes. Parece que lhe falta ali o sopro de deus. 

E, lá está, quem sou eu para falar em deus? A última pessoa a poder fazê-lo. Mas é o que penso: nos poemas que me parece conterem verdadeira poesia eu acredito que há ali mais do que apenas a inspiração ou a técnica do poeta, há uma qualquer transcendência, a mesma que encontro numa flor perfeita, numa música improvavelmente bela, numa pintura que sobrepõe sentimentos e luzes e sombras e inexistências. Penso: é um sopro divino. Um deus que reina sobre os acasos e se diverte a deixar que uns afoguem algumas coisas e outros elevem as coisas a um patamar tal que quem se apercebe deles tem vontade de se ajoelhar. Mais do que um patamar, um altar. 

O da Mónica Baldaque já cá estava em casa e o do Harari não é dos meus

Mas é isso: ainda não li tudo e talvez não com a devida concentração. Mas, do que li, sinto que há ali palavras destituídas de música ou de luz ou de não sei o quê. Tenho ideia que há palavras que não têm cabimento no reino dos céus que é o reino onde habita a poesia.

Da Adélia Prado parece que também não estou a encontrar nestas páginas a dose habitual de desalinho e a irreverência que nela tanto me cativam. Mas, de qualquer maneira, estou a gostar. Há sempre ali uma graça, um drible, um sorriso escondido por detrás da palavra. Para gostar de um livro tenho que sentir a inteligência mas sem exibicionismo, tenho que sentir o conhecimento profundo da natureza humana mas um conhecimento sem pergaminhos. Não sei explicar.

Do primo, ainda apenas espreitei. E ali encontrei a elegância do costume, a fluidez, o espírito. Lerei depois. Por enquanto, contento-me em folhear, apanhar fragmentos, deixar-me ir pela mão. Depois saltar, ler outro bocado. Há ali aquele saber escrever antigo, aquela prosa bem costurada, aquele saber contar. Não há futilidade, superficialismo. Há o prazer de escrever e partilhar ideias ou conhecimentos.

Ao início da noite fiz encomendas online e falei ao telefone. Antes fui para debaixo do telheiro ver a chuva e fotografar. Também fotografei os livros e algumas coisas em volta. E respondi aos comentários atrasados e descansei. Não é fácil ocupar o tempo quando se está habituado a não o ter. Inconscientemente parece que me sinto ociosa. Dou por mim a pensar se tenho alguma coisa atrasada para fazer, como se não me fosse concedido o direito a estar sem nada que fazer. Geralmente, ou tínhamos a família cá em casa ou íamos visitar a família, ou íamos encontrar-nos com alguém a algum lado ou íamos para o campo onde há sempre mil coisas para fazer ou íamos às compras ou qualquer outra coisa. Agora aqui em casa, num dia de chuva, sem se poder sair, parece que fica aquela sensação estranha de não saber bem o que fazer com o tempo. Mas foi bom, então não...?



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E, de repente, ocorreu-me que há muito tempo aqui não tinha o Cine Povero, bateu a saudade. 

E cá está: vem com Alberto Caeiro na voz de Pedro Lamares


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E desejo-lhe, a si muito em especial, um bom domingo.
Descubra o que lhe traria felicidade e procure-o. 
Geralmente não é nada de transcendente, está certamente ao seu alcance.
Be happy

quarta-feira, novembro 25, 2020

Ah... que pena Bosland não ser aqui perto...





Quando chego a uma qualquer terra -- ou melhor, quando chegava... -- mais do que ir logo enfiar-me nos museus, procuro os jardins ou parques públicos. Tenho para mim que a alma de uma terra está nos seus jardins.

Dantes, por cá, era muito amante do Jardim Botânico, lugar romântico e onde já fui muito feliz. Por vezes tinha que vir o seu guardião expulsar-nos, não dávamos pelo passar do tempo. Claro, também, dos Jardins da Gulbenkian, lugar sempre mágico e do qual sinto muito a falta. Até meados de Março, pelo menos à sexta-feira à hora de almoço, ia sempre passear por lá. Ou almoçava num dos restaurantes ou ia ao nepalês ali perto e depois ia para lá passear, quer nos jardins quer nas livrarias. Mal comecei a circular por minha conta e risco pela cidade, era para a Gulbenkian que os meus passos me levavam. As exposições atraíam-me muito, mesmo quando era confrontada com coisas que me deixavam doida de incompreensão. Era, então, demasiado jovem para saber que a maioríssima parte do conhecimento me seria estranha para o resto da vida. O riacho, o lago, os recantos onde poderíamos estar a bom recato, eram outras tentações. Por lá namorei, primeiro com o segundo, depois com o terceiro, por lá tenho andado com os meus filhos desde bebés até agora, e agora também já com os meus queridos pimentinhas que sobem às árvores a que os pais subiam, que vêem os netos dos patinhos que os seus pais viam. 

Havia a Estufa Fria mas coisa sempre organizada demais para o meu gosto. Nunca foi destino de predilecção. Não é bem jardim, muito menos é Parque, é Estufa. Lugar de descoberta mas, na realidade, para mim nunca lugar de espanto e rendição. Com os miúdos também o Jardim Tropical, adoravam as raízes daquelas árvores gigantes, subir e descer e saltar, descobrir, brincar. E ainda o do Palácio de Queluz, bonito mas muito civilizado, muito feito a régua e esquadro, muito estruturado para o meu gosto. Sou mais pela natureza a l'aise, sem coleira ou preceitos.

E ainda me lembro de um amigo me falar do Parque Urbano do Porto. Mora perto, ia contando sobre o andamento dos trabalhos, ia antecipando o lindo que ia ficar. E ficou muito bonito, começa na cidade, vai até ao mar. Não nisso de descer até às águas mas no resto é um parque com afinidade com o Parque da Paz, também uma maravilha. 

Numa altura em que ia várias vezes por ano a Madrid não podia deixar de andar pelo Retiro. Havia sempre alguns musts em Madrid: a loja de lingerie da Serrano que me tirava do sério, tal a elegância e ousadia das suas peças, e os passeios nas belas alamedas e recantos do Retiro. Claro que também as temporárias dos três museus do triângulo ou os petiscos ao início da noite ou aquelas belas zarzuelas de marisco que comia antes de confirmar, a duras custas, que sou alérgica a marisco de casca encarnada -- mas, enfim, isso agora não vem ao caso.

E agora estou a lembrar-me de Monserrate. Aquelas árvores... que maravilha...

Sintra é Sintra é Sintra mas, em Sintra, para além de uma certa casa de que aqui apenas falo quando a disfarço de fantasia, casa essa onde me ensinaram a gostar de vinho, para além dos travesseirinhos quentes que se compram ali perto, para além dos passeios pela serra ou pela lagoa, são os verdes e as grandes árvores de Monserrate que sempre ali me prenderam. 

E, numa de cerises a puxarem cerises, de muitos outros parques ou jardins poderia aqui dar conta. Como aquela primeira vez em Hyde Park em que, vinda de um país onde não era costume desfrutar a vida ao ar livre, fiquei muito surpreendida por ver concertos no meio do jardim, as pessoas a puxarem uma cadeira e a assistirem na boa, na maior informalidade, outras deitadas na relva, tudo na maior felicidade. 

E é verdade, já me esquecia, a esplanada do parque rente a um lago perto dum outro recanto com estátuas, lugar de romance e mil beijos, tantas e tantas tardes lá passei, tanto que por ali cirandei, no alto do Parque Eduardo VII, uma esplanada resguardada, tão, tão, agradável -- e, houve uma altura que agora também não vem ao caso, tão irresistivelmente clandestina. 

Ah, sim, claro, é verdade, outro que também me maravilha: Serralves. Tão bonito. Sempre alguma coisa a descobrir. Lindo, lindo. Há tanto tempo que não vou ao Porto, que saudades.
Aliás, há tanto tempo que não vou a lado nenhum. Como estarão os parques das cidades? São os últimos refúgios dos seres humanos?
Agora me lembro, nunca conheci parques que adoraria conhecer: os etéreos do Japão. Não serão luxuriantes como os que costumam fazer-me cair de paixão mas, sim, elaboradamente requintados, a beleza reduzida à sua mais íntima essência. Como me sentiria lá? Depurada? Sereníssima como nunca antes? Nem conheci aqueles outros, igualmente longínquos, em que as árvores e as suas raízes rebentam em verde por entre ruínas, uma simbiose perfeita entre a exuberância da natureza e a decadência mágica de antigas esculturas ou edificações. Gostava muito de ainda vir a conhecer essa realidade que apenas conheço remotamente. Penso que choraria de emoção, as minhas raízes entrelaçando-se com as das árvores mais antigas.

Vem-me este gosto desde a minha meninice vivida à larga, perto do campo, casas com jardins e hortas tudo sempre de porta aberta, vida de largueza de movimentos, à rédea solta, de admirar os rapazes subindo às árvores, de meninas sentadas à sombra, da menina que fui andando a apanhar pinhões que depois comia depois de os partir com uma pedra. Ou virá de qualquer outra coisa. Talvez noutra encarnação tenha sido árvore. Ou pássaro ou outro bicho que tenha vivido no mato, em florestas. Sei lá.


Por tudo isto, o que eu gostaria que estes caminhos entre as árvores que aqui se vêem no vídeo abaixo estivessem perto de mim. Não é arborismo mas é quase. Andar entre as árvores, mesmo quando andamos com os pés nos chão, é bom. Revivo, revigoro-me, desligo-me do resto do mundo quando caminho entre árvores. Imagine-se como será bom ir subindo, subindo, e ficar bem perto do céu em que as copas se encontram, ser irmã dos pássaros, ser folha, ser luz entre as folhas, ser pouco mais que uma aragem.



E aqui fica a sugestão: que os nossos autarcas, todos, invistam em projectos deste género em que o contacto próximo com a natureza seja estimulado. 

Boa?

terça-feira, novembro 17, 2020

Reparar danos, ficando a coisa melhor do que era.
Kintsugi. Dourar memórias.
Uma dança do início e do fim dos tempos

 



Hoje não consegui ler. Tenho o livro ao meu lado mas ponho-me a ver televisão e o tempo vai passando. Primeiro vi a entrevista de Fátima Campos Ferreira a Lídia Jorge. Superei a aversão que tenho à forma como a Fátima Campos Ferreira fala -- quase como se estivesse a falar com crianças ou com atrasados mentais, a fazer perguntas parvas, frequentemente a apelar à lamechice -- só para ver e ouvir Lídia Jorge. Não é escritora de minha especial afeição mas acho uma certa graça à forma como ela fala do Algarve rural. Há ali raízes que mergulham num chão que também sinto como um pouco meu. Toda a minha família foi, até certa altura, algarvia. Todos os meus quatro avós são algarvios. Contudo, saíram de lá ainda muito jovens. Para os meus pais, o Algarve era apenas a terra dos seus pais, tios e avós. Para mim, o Algarve ainda é uma realidade familiar ainda mais distante. Contudo, quando ouço falar do Algarve penso sempre no que são os caminhos do acaso.

Já aqui o falei: se ainda não o ocuparam, ainda deve lá estar um terreno que era do meu bisavô e que, em herança, passou para o meu avô paterno. As irmãs ficaram com a casa grande, ele com aquele terreno. Mas nunca ninguém tratou de nada. Milagrosamente, o terreno e as casas grandes, que cheguei a conhecer, tinham escapado aos pagamentos de dívidas do pai dele. Fugiu do país para fugir às dívidas de jogo e às avultadas despesas com mulheres, depois de ter perdido outras casas e outras terras. Como não havia certidão de óbito do meu bisavô para fazer a habilitação de herdeiros, não se passou para o nome do meu avô. Depois foi o meu avô que morreu e também ninguém mexeu uma palha. O meu pai também já cá não está e tudo continua na mesma. Nem eu nem a minha prima estamos para isso. Trabalhos para quê? 

Do lado da minha avó paterna, foi o mesmo desinteresse: tinha herdado terrenos e casas. Desfez-se de tudo. Conheci apenas uma propriedade contígua a uma que tinha sido sua: era a casa de uma sua sobrinha, uma casa grande, um terreno imenso com alfarrobeiras, figueiras, amendoeiras, uma ribeira, animais. Eu gostava daquilo. Muito sol, muita liberdade. Campo, campo. O meu pai ficava doido com o que a mãe fazia, vendendo tudo por tuta e meia, grande parte das coisas a essa sobrinha de quem ela gostava muito. O meu pai achava a prima uma oportunista e a minha avó não gostava que ele falasse assim da prima. Essa prima tinha nome francês. Tinha nascido em França. Não sei que voltas deram os meus antepessados. Como o meu pai e o meu tio não queriam saber de contratar pessoal para apanhar e secar as alfarrobas, os figos ou para fazer azeite, a minha avó, sem os consultar, achava que não valia apena ter tudo aquilo. Com os terrenos a valorizarem-se exponencialmente, ela não queria saber disso. 

E o meu pai tinha vários primos e quase todos debandaram, para França, para o Canadá. A filha mais velha de um dos primos, um pouco mais nova que eu, ainda apareceu uma vez, parisiense de gema. Elegante, bonita. Não a vi, contou-me a minha mãe. Sei que tem uma irmã, também parisiense, também muito bonita. Até nunca mais. Não sei como poderia saber deles. Perderam-se no mundo, sem quererem saber de laços familiares. Nem eles nem eu.

Do lado dos meus avós maternos, era outra coisa, gente mais citadina. Do lado da minha avó, só sei que era gente dada à política, um irmão que vivia na clandestinidade, primos da minha bisavó que eram gente de cultura e da política, feitos e factos conhecidos, um deles faz parte da história política e cultural do país. Muito primo e prima. A minha mãe e o meu tio ainda mantiveram laços com os primos mas pouco entusiasticamente. Eu nada sei deles. Soube quando era pequena. Íamos a Faro visitar as primas da minha mãe. Uma casa grande na cidade. Tenho ideia que as portadas estavam quase fechadas, a casa sombria, móveis altos e escuros. 

Do lado do meu avô materno nada sei. Todo ele era diferente: muito alto, muito louro, de olhos claros. Não sei se tinha família, nunca ouvi falar. Tenho ideia que a minha mãe dizia que era de Alte. Mas não garanto. Não sei se tinha irmãos, não sei se a minha mãe teria primos desse lado. Não sei se a minha mãe conheceu avós do lado do pai. Também nunca me lembrei de lhe perguntar. 

No entanto, curiosamente, os meus avós maternos guardaram até ao fim da sua vida muitos hábitos da sua infância e adolescência algarvia. E falavam nesses tempos, uma ancestralidade que lhes ficou colada à pele. 

Havia também na rua dos meus pais, a rua da casa em que cresci e onde a minha mãe vive, uma vizinha algarvia. Conhecia parentes dos meus avós. Falava sempre desses tempos, desses hábitos. Ouvido de fora, tudo aquilo era muito irreal, antigo, as coisas descritas com explicações que pouco tinham de racional. O meu pai aborrecia-se: ignorância. Não conseguia aguentar um minuto daquelas histórias ou recordações. Impacientava-se por achar que era ignorância a mais. A minha mãe não, a minha mãe achava graça, gostava daquelas conversas. A vizinha dizia mal os tempos dos verbos. Em vez de 'fomos' dizia 'foramos'. A minha avó, quando relatava o que os familiares e conhecidos diziam, usava os verbos da mesma maneira. O meu pai irritava-se, dizia-lhe que parecia que não sabia falar. Ela dizia que estava a imitá-los. O meu avô ouvia aquilo e não dizia nada, não se metia em discussões. 

Gostava de fazer cestos. Já o contei. Sei que me repito mas gosto de recordar esses gestos vagarosos em tardes que me pareciam eternas. Apanhava folhas que punha a secar e, depois, sentado num banco baixo, punha-se a entrançar aquelas folhas resistentes: baracinha. Penso tantas vezes: porque não consegui conservar nenhum desses cestos se gostava tanto deles? Ali ele punha a fruta ou os ovos que a minha avó ia buscar à capoeira. O meu pai não ligava nada àquilo, acho que nem olhava. A minha mãe também achava que aquelas cestinhas tinham algumas imperfeições. Eu não, eu adorava.

Não sei se por tudo isso, gosto de ouvir a Lídia Jorge a falar do seu Algarve, das suas histórias de antes, daquele Algarve rural, antigo, as raízes bem fundas em tempos de outros tempos.

A Lídia Jorge não falou nisto mas falou em coisas que me fizeram lembrar isto.

E, a seguir à Lídia Jorge, virei para o Master Chef Australia. Pura magia. Ver criar obras de arte daquela forma é para mim um prazer. A forma arrojada e inteligente como combinam ingredientes e a perfeição dos gestos deixam-me presa. Gosto mesmo. E mais gostaria se pudesse provar...

E, nesta mansidão, o tempo vai passando e eu aqui preguiçando.

Tirando isto, posso apenas acrescentar que ontem ao fim do dia colei aquela grande taça de cerâmica onde estava o aloé vera, que se partiu. Depois de muito procurar, descobri um tubo com alguma cola-tudo. Temi não ter trazido nenhum tubo da outra casa mas, surpreendentemente, encontrei um. Colei e depois atámos um arame fininho em volta do rebordo para ajudar a manter a coesão entre as partes. O meu marido acha isto uma coisa do além. Por ele, partiu-se, vai fora. Eu não. Acho aquele grande vaso uma peça mesmo bonita. Falei-lhe no kintsugi. Ele não sabia o que era e também não quis saber. Eu é que não tenho nenhuma tinta dourada, senão haveria de tornar o vaso ainda mais bonito.

Sempre me custou deitar fora coisas de que gosto. Se estão danificadas, penso que devo tentar recuperá-las e não desfazer-me delas. No fundo, tenho este meu lado zen. O meu avô paterno tinha traços orientais. Traços e atitude. Pescava nas horas vagas, cuidava da horta, fazia cestos, lia. Era uma pessoa calma, silenciosa. Nunca o vi gritar, nunca o vi exaltar-se. Entretinha-se com coisas simples. Eu gostava muito dele. De pequena até ele ser bem velhinho sempre tivemos um amor muito grande um pelo outro. Custou-me muito quando ele cegou. Sentia-se muito diminuído por não poder fazer nada do que gostava. Ninguém merece.


Hoje à hora do almoço, fomos buscar terra lá abaixo, enchemos a taça, transplantei uma planta que tinha trazido do supermercado e da qual não me lembro do nome. Coloquei umas pequenas estacas de outras plantas para compor. Se me lembrar, amanhã mostro. Na entrada de lado há um pequeno terraço para que se sobe por um lance de meia dúzia de degraus. Já lá coloquei umas quatro plantas. A ver se se dão ali. Acho que está a ficar bonito. 

Pelo meio, trabalho, essencialmente reuniões, confecciono as refeições, faço uma caminhada, vejo as laranjas a crescerem nas árvores. O tempo precioso que antes gastava no trânsito agora uso desta forma. Podia usá-lo para conseguir deitar-me mais cedo... mas esqueçam, isto é genético: sou noctívaga, nada a fazer. E estou bem assim, obrigada.

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Despeço-me com um vídeo comovente que invadiu a comunicação social depois de ter invadido as redes sociais. Tocante. Marta Cinta, bailarina, doente com Alzheimer, recorda a dança ao ouvir o Lago dos Cisnes. Tão extraordinário, tão comovente. Que seres vulneráveis e indefesos somos.


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Desçam, por favor, pois a entrevista da enfermeira  Alisyn Camerota é digna de ser vista e revista

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E uma terça-feira feliz. 
Saúde. Força. Ânimo.

domingo, fevereiro 23, 2020

Sábado de verão, em fevereiro, na praia.
Com reportagem fotográfica.





Na sexta ao fim do dia fomos passear no paredão ao longo da praia. Para terminar uma semana bem preenchida nada como a maresia para lavar a alma. Estava-se muito bem. Um prenúncio de névoa começava a pousar no areal mas essa frescura suave apenas trazia mais beleza e apaziguamento ao lugar. Passear junto à praia à noite é uma felicidade.

Este sábado, calorzinho primaveril, a conversa foi outra. Depois de termos ido aos meus pais, fomos a casa para eu mudar de roupa, noblesse oblige, e para preparar um lanchinho. Iogurtes, biscoitos de Safara, bananas.

Juntámo-nos na praia e não éramos só nós mas também outros amigos. Crianças pequenas eram sete. O meu filho perguntou com ar de censura: 'Mas para que é que vêm com comida? Tem algum jeito isso?'. Mas só as bananas é que não quiseram. Dos dez iogurtes sobrou um e do saco de biscoitos sobraram uns escassos restinhos, umas asas quebradas. 

Estava-se que era uma maravilha. Os rapazes -- de todas as idades -- jogaram futebol. 


Só os dois pequeninos, por sinal homónimos e da mesma idade, três anos, é que não jogaram. Brincaram com carrinhos, fizeram buracos e bolos e atiraram areia para onde não deviam. As duas meninas também não. Entretiveram-se de outra maneira, uma com a outra, também construções, conchinhas, penteados, coisas assim. As três mais crescidas conversaram. Eu, como habitualmente, observei, fiz a reportagem, tentei assimilar a beleza de tudo. O mar muito bonito, a luz perfeita, todos felizes uns com os outros.

Fizemos fotografias de grupo mas não ficámos todos ao mesmo tempo nem todos a olharem para a frente. Uma sucessão de fotografias com uns a fazerem gestos, outros a ajoelharem, futebolista style, um a beijar a camisola, pose quiçá à Ronaldo, outros a fugirem, outros a olharem para trás. Mas, verdade seja dita, fotografias preciosas, todos dourados sob a luz do pôr do sol, todos bem dispostos. Desta vez fiquei em algumas fotografias. A minha filha protestou, lembrou as fotografias do baptizado do mais novo que ficaram a cargo do pai e que as desfocou a todas. Sem óculos e sem tempo para focar a visão senão fogem de cena, dispara sem grandes preciosismos e a coisa tende a não ficar perfeita. Mas desta vez correu bem. 


Depois foi a separação do resto do grupo, o regresso, sempre aquela confusão que resulta da ruidosa geometria variável que ali se desencadeia: ela quer ir com a tia, outros querem ir com os primos, outros querem não sei o quê e por fim já ninguém percebe quem vai com quem nem se há banquinhos nos carros onde são precisos.

Tudo cá para casa, embora uns não directamente. Os meninos, sim, vieram logo todos.

Atirei-me aos tachos enquanto a miudagem se atirava aos banhos. Abstraio-me da confusão e penso que deve ser o que fazem os professores para não darem em malucos com o barulho. Desta vez, o mais crescido armou-se em paparazzi e andou a filmar os outros à socapa que, furiosos, gritavam, fugiam, fechavam-lhe a porta, corriam. 


Depois vieram aqui para a sala. Quando aqui vim espreitar, andavam feitos detectives. Mal me viram, disfarçaram. Percebi o que se passava. Andavam a ver se descobriam o tal livro de fotografia que um dia deixou o menino do meio completamente desorbitado. Saindo ao pai na pancada por «maminhas», nunca mais desistiu de o voltar a ver. E já falou nisso aos primos que ficaram igualmente curiosos. E a mana alinha na demanda. Mas, claro, tudo às escondidas. Zanguei-me. Não têm nada que andar a mexer e a desarrumar os livros e que desistam porque não vão encontrá-lo.  'Ai-ai-ai, ai-ai', zango-me eu, e eles já me imitam. Voltei à cozinha.

Quando aqui regressei, estava tudo ao rubro. Tinham descoberto um dos meus Pipis, não reparei se era o Diário ou o dos Sermões. Já nem me lembro se foi a minha filha que disse que não deveríamos deixar aqueles livros ali. Mas não apenas não estavam à vista como vai lá uma pessoa lembrar-se que hoje lhes ia dar para andarem a revirar os livros mais recentes. O mais velho, onze anos, rebolava-se a rir. O primo, sete anos,  tinha estado a ler e, dizia ele, 'ele leu em voz alta e eles não percebem a maior parte das palavras mas eu percebo tudo... e é tudo muito impróprio...'. E ria a bom rir. Depois perguntava: 'Mas para que é que tens aquele livro...?'. Expliquei que era um livro de humor, muito bem escrito mas não para crianças. E peguei no livro e fui escondê-lo. A ver é se agora não lhe perco o rasto.

E voltei para a cozinha. Quando cá voltei, estavam os quatro mais crescidos atrás de uma estante. Largaram precipitadamente o que tinham na mão. Fui ver. Era outro livro de fotografia e uma grande lupa. Perguntei: 'Mas de onde apareceu esta lupa?'. Juro que não fazia ideia. Ela contou que a tinha ido buscar a outra estante. Já nem de tal me lembrava. De novo, o mais crescido a rebolar-se a rir: 'Estávamos numa pesquisa perfeitamente paralela e, sem querer, descobrimos este livro'. E dobrava-se a rir. E eu disfarço mas a verdade é que acho imensa graça à forma como se expressa e ao sentido de humor que revela em tudo o que diz.

Quando eram mais bebés, tinha que tirar tudo o que era peça que se pudesse partir do seu alcance. Estou a ver que tenho que ter cuidado agora com os livros. O apelo do interdito faz-se sentir em todas as idades e a união entre eles tem muita força, descobrirão sempre qualquer coisa que os deixará ufanos e ainda mais curiosos.


Devo esclarecer que, entretanto, o meu marido e o meu filho estavam a apanhar os vidros da porta da rua que o meu filho, ao tentar desencravar a porta, fez tanta força que o partiu, e os demais crescidos estavam ou a pôr a mesa ou ao telefone noutro sítio ou na casa de banho ou não sei bem onde. Portanto, eles andavam à aventura em liberdade. Esta sala é, para eles, uma arca do tesouro e eu, se me recordar de quando tinha a idade deles, imagino a tentação que deve ser saber que há aqui um mundo fascinante por descobrir. E eles são um verdadeiro bando dos cinco.

Depois foi o jantar, a mesa cheia, e uma vez mais aconteceu o que sempre temo. Penso que estou a fazer o dobro da comida necessária mas, afinal, pouco sobrou. As doses de tudo são crescentes. Crescem e felizmente alimentam-se na devida proporção e os adultos felizmente também não se queixam de fastio. O apetite de todos enche-me de alegria. Sentam-se à mesa e comem de gosto. Quase todos se levantaram para repetir a dose. Nessas alturas a minha alegria tende para a preocupação não vá algum querer voltar a repetir e já não haver. 

E isto apesar do meu filho ter trazido uma sopa óptima, gostosa e consistente, de couves, feijão e carne. Tinham lá tido amigos ao almoço e como agora vão uns dias para fora, trouxe a sopa que sobrou.

Depois da cozinha arrumada, brincadeira na sala, todos na maior animação. Às escondidas, lutas, cantorias, imitações.


Agora a casa está silenciosa. O meu marido já dorme há um bom bocado. Disse que estava partido, que mal se podia mexer. Pudera. Como não? Jogou à bola durante mais de uma hora e vi-o a cair várias vezes, a atirar-se para evitar que a bola entrasse na baliza imaginária. Como sempre, estava de guarda-redes. Deve ser de quando jogava andebol. Ficou-lhe isso, gosta sempre de jogar à baliza. Curiosamente, dois dos meninos, na escola de futebol onde andam, também jogam à baliza. E têm jeito. A genética tem muita força, dizem.

E eu agora, enquanto escrevo, vejo a televisão e apercebo-me como o coronavírus está não apenas a arrefecer a economia como a transformar algumas cidades em cenários daqueles filmes de terror que nunca vejo. Quem diria que uma coisa destas poderia acontecer...? O mundo ameaçado por uma porcaria de um vírus. Nem na mais desvairada ficção isto poderia ser imaginado.

Bem. Vou descansar que daqui a nada o domingo já é dia e, por muito que eu goste de habitar os mistérios e os silêncios da noite, não posso depois ficar a dormir até a manhã ir alta. Portanto, fui.


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As fotografias foram feitas este sábado na praia e às duas últimas dei-lhes um banho de cor. 

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Desejo-lhe, a si que está aí desse lado, um belo dia de domingo

terça-feira, novembro 26, 2019

O que é boa arte?




Fiz uma pergunta no título mas não tenho resposta para ela. Gosta-se porque se gosta e não me parece que seja fácil explicar porquê. Na arte, como na literatura ou no amor deve seguir-se aquele princípio que o Mr. X nos ensinou: Julio Ramón 'Ribeyro propôs ter em mente que um bom trabalho não tem explicação, um mau trabalho não tem desculpa e um trabalho medíocre não tem qualquer interesse.'. Tal e qual. 


Se desde pequena convivi com livros, já o mesmo não posso dizer da arte. Até certa altura tenho ideia de apenas ter conhecimento de pintura 'clássica'. Havia em casa dos meus pais alguns quadros mas daquele género que considero trivial. Nem sei se era bonito ou bem feitinho, se calhar até era. Lembro-me apenas de que nada me diziam. Teria eu uns onze ou doze anos, a sala da televisão foi redecorada e lembro-me de ter ido com a minha mãe escolher um quadro. Provavelmente o meu pai também terá ido até porque o quadro era grande e só pode ter ido de carro para casa. Era um óleo que, do que me lembro, já tendia para o impressionista, senão para o quase abstracto. Era uma tela muito comprida e tinha um barco e todo ele continha cores solares, luminosas. Pela primeira vez eu via uma pintura de que gostava. Uma vez, foi parar lá a casa um livro de pintura e eu descobri um mundo novo. Apaixonei-me de tal forma por um do Paul Klee que convenci a minha mãe a deixar-me arrancar aquela folha e emoldurá-la. O que eu gostava daquela cara colorida, abstracta, circunspecta, o que eu gostava. Lembro-me de as minhas avós terem ficado admiradas com aquele quadrinho no fundo do corredor, não percebendo a graça que eu achava a tal desconformidade. 


Nas casas dos meus amigos ou dos amigos dos meus pais eu não via nada que me despertasse atenção. E quando íamos visitar museus, só me lembro de ver arte sacra, arte muito realista, muito naturalista, tudo coisas que nada me diziam. Uma reprodução da realidade, tal e qual o pintor a viu, a mim não me desperta interesse. Não quero saber tal e qual o que ele viu. Porque haveria de me interessar isso? Quanto muito interessa-me a impressão que a coisa lhe causou ou o ângulo diferente e imprevisto que torna a visão especial. Agora anjinhos suspensos em nuvens, cristos escanzelados, camponeses muito factuais, naturezas mortas completamente maçadoras, nada disso me parecia estimulante.

Por isso, quando me vi por minha conta, aos dezassete anos, sozinha em Lisboa, um dos lugares que, desde logo, mais me atraíu foi a Gulbenkian e não tanto o museu que já conhecia razoavelmente mas com as exposições temporárias, artistas modernos que traziam o ilógico, o inexplicável, a graça inocente, as cores e os traços quase infantis, as cores abertas, desprendidas do seu contexto.  A partir daí passei a procurar galerias, livros, exposições e quanto maior a abstracção, quanto mais surpreendente e provocador, mais eu queria ver.

Em algumas peças não encontrava 'arte' e não gostava mas, ao longo do tempo, o meu conceito de arte foi adquirindo matizes, foi sofrendo transmutações. Ainda não gosto de muita coisa, coisas que me parecem de mau gosto ou chachada pura, mas há outras que agora me agradam e que antes achava autênticos disparates.


De Lisboa passei para Madrid e para a grande curiosidade de tudo o que era novo, incluindo os pintores de rua. E também para Paris. Não o Louvre que sempre achei fora da minha escala, grande demais, gente a mais, demasiadas obras demasiado clássicas. Nem tanto o Pompidou, muito experimental, muito neutro. Em Paris, sim, o Jeu de Paume e, depois, o maravilhoso museu do Quai d'Orsay, lugar mágico, lugar de eterno retorno, lugar onde, por muitas vezes que o visite, sempre me emocionará, por vezes quase até às lágrimas. 

E daí para todos os outros. E a inexplicável sedução que Rothko exerce em mim? Ou Chagall? 

E, uma vez a mente bem aberta a todas as diferenças a todas as surpresas, o deslumbramento com as grandes telas de Caravaggio. Deus meu. Que carnalidade, que vida ali condensada, que materialidade. Que tormento não poder estar em silêncio, sozinha, diante daquelas telas, horas, horas a fio.

Ou a luz de Vermeer. Olhar e tentar perceber como é possível uma coisa assim, tentar perceber se foi um homem normal que fez aquilo. Ah, os grandes mistérios.


Um dia, há muitos anos, uma prima minha dada às artes perguntou se eu já tinha ido ver a exposição da Paula Rêgo. Fui taxativa: não, nem iria porque me parecia tudo muito disforme, forçadamente repelente. Ela sorriu, disse: 'Olha que não, olha que não. Vai ver e vai com a mente aberta. Sei que vais gostar'. Hesitei. Ao fim de algum tempo, fui. E rendi-me. De repente nem percebia como tinha sido possível não gostar. De facto, gostava, gostava muito. Olhava para aquela outra que não gostava sem a identificar comigo, como se tivesse sido outra pessoa, uma estranha, uma rude criatura. E Graça Morais. A Graça Morais no casa-musei da Vieira da Silva. Que maravilha. E Pomar.  E tantos outros. 

Porque gosto de uns e não gosto de outros? Se calhar pela mesma razão que me leva a gostar de uns escritores e não de outros, a gostar de umas pessoas e não de outras. 


E ocorreu-me pensar nisto pois, há bocado, ao abrir o YouTube, o meu amigo algoritmo tinha um vídeo que, segundo ele, era recomendado para mim. Marc Jacobs: between collections. Fui ver. E gostei. Caraças, gostei mesmo. Estupor do algoritmo que sabe levar-me na boazinha, que me conhece mesmo, que adivinha os meus gostos. A casa e as obras de arte de Marc Jacobs. Nem comento a graça que é ouvir conversar uma bicha dada às artes. E que não me venham com tretas de preconceitos: não sou homofóbica. Nem pouco mais ou menos. Convivo assiduamente com uma e, lá está, se a minha filha me diz que não percebe como tenho paciência para me dar com a bicha eu nem tento explicar. Sim porque sim. Mas, à parte esse suplemento de graça, as obras que ele ali tem. Que casa bonita a dele. Como eu gostaria de visitá-lo. O que eu gostaria de ser aquela ali, a conversar com ele sobre obras de arte, sobre moda, sobre modelos, sobre fofocas, sobre costura, sobre o seu processo criativo, sobre as cidades onde tem lojas.


E ocorreu-me também o vídeo abaixo (Why is modern art so bad?) que Leitor, a quem agradeço, me enviou e que me levou a dizer-lhe que o que Robert Florczak ali diz são banalidades sobre extremos, sobre caricaturas, obras que não representam o que globalmente se pode designar por arte moderna. E ele já me respondeu dizendo que não tenho razão, que o pintor o professor Robert Florczak é objectivo e que há arte e arte. Seja. Cada um pensa conforme sabe ou pode. Eu gosto de várias obras que Marc Jacobs tem em casa e, se calhar, não gostaria de ter nenhuma das pintadas por Florczak (e digo isto por dizer pois, na verdade, ainda não pesquisei para ver como é a arte que ele produz).

Mas fazer o quê? São os nossos genes, as nossas circunstâncias, o ar que respiramos, a nossa pele, o nosso olhar, afinidades que jamais saberemos explicar. Gosta-se porque se gosta. E é bom gostar.

Mas, então, cá está o anti-vídeo de Florczak, um genuíno anti-Jacobs.


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As fotografias que usei para ilustrar o post foram feitas este domingo no Ginjal e eu olho aquelas paredes como uma galeria de boa arte a céu aberto. Quando falo no Ginjal invariavelmente as pessoas dizem que não se percebe como é que nunca mais aquilo é arranjado, que aquilo é uma decadência de dar dó. E eu penso que tomara que qualquer obra nova ou de reabilitação que ali façam saiba preservar a beleza extrema e fatal daquelas paredes sobre as quais todos os dias alguém escreve ou pinta uma coisa diferente. Mas, lá está, gostos não se discutem.

A primeira fotografia, a dos ramos da árvore, e a última, a da gaivota, levaram um banho de cor -- e ainda bem que vocês não são curiosos e não me perguntam porque as tingi daquela maneira porque não saberia responder. Ou melhor, talvez pudesse tentar mas, tenho a certeza, soar-vos-ia a conversa de maluca.


Desejo-lhe a si, a si em especial, uma boa terça-feira.

domingo, outubro 20, 2019

Uma vida inteira





Pois eu não é tanto se é de língua portuguesa nativa, se é isto, aquilo ou o outro. O feeling, em mim, começa pelo outside. Sou de amores à primeira vista. A intuição em mim é mesmo um shortcut. Se vejo uma capa discreta, se o bom gosto me parece suave, se folheio e me parece que a paginação é equilibrada, se me parece que a prosa flui sem atrapalhação nem floreado, se o tema tem a ver com coisas simples, se, em rápida amostragem, não encontro palavras que me desagradem, pois logo sinto aquela atração pela qual me perco.

E talvez nem tenha usado as melhores palavras pois agora reli o que escrevi e parecem-me motivos fúteis. O que são palavras que não me desagradam? Dito dessa forma nem eu sei responder. Sim, de facto, pensando bem, o que são palavras que não me agradam? Talvez sejam palavras deselegantes, quer pela leviandade da utilização quer pelo exibicionismo dispensável. Talvez. Também não saberia explicar o que são coisas simples pois sei que ao explicar complicaria a ideia.


O que sei é que 'Uma vida inteira' de Robert Seethaler, autor de que nunca antes ouvira falar, me pareceu um livro bom. Capa em cores simples, fotografia antiga, o título numa outra cor, em relevo, bom ao tacto, a lombada na cor do título. Reparo nestas coisas. Ainda fui espreitar quem era o tradutor. Desejei que fosse o Pedro Tamen. Traduções dele garantem a qualidade do livro.
Tenho medo do que um mau tradutor possa fazer a uma boa obra. Tradutores muito tecnicistas que não intuam a musicalidade que o autor tinha na cabeça quando escreveu ou que não adivinhem o sentido implícito e o transponham de forma directa destruindo o rio de ideias que corria por debaixo do texto são como uma máquina de rasto: destroem a beleza e intenção de um autor. 
Por isso, não sendo o Pedro Tamen ou outro tradutor que eu conheça, tento sempre medir o pulso ao texto a ver se me soa bem. A tradutora deste livro é Tânia Ganho e, se na altura nada me incomodou, agora que li o livro, não sei se num ou noutro caso não poderia ter procurado palavra mais em harmonia com o espírito do texto -- mas, globalmente, está aprovada, bem aprovada.


E Robert Seethaler aprovadíssimo. Para que se perceba: comecei a ler o livro a meio da tarde e já o li todo.

E só a meio da tarde porque.

No carro, à vinda, estive a ler um compêndio, temas cá muito meus, preocupações minhas, matérias que quero conhecer melhor, coisas do trabalho. E até comentei: ao contrário deste tipo de cenas em que metade do que ali está é déjà-vu, lugares comuns, tentativas de fazer tendência, banalidades, inutilidades -- o que me permite despachar muitas páginas num ápice e chegar ao fim sem ter perdido nada -- aqui é o oposto. É um compacto de cento e tal páginas, páginas densas e grandes, provavelmente A4, em letra miúda e em que cada palavra importa. Tudo relevante, tudo novo, tudo útil. Por isso, cheguei a casa com o compêndio quase todo por ler porque não consegui diagonalizar nem apressar um bocadinho que fosse. Pelo contrário, de vez em quando, parava, lia em voz alta, relia parágrafos transactos. Tão raro. E que se me perdoe o pleonasmo mas a boa qualidade é uma coisa tão boa.


Depois, uma vez chegada, fui caminhar pelo campo, fotografar, encantar-me com a beleza de tudo, a luz através das folhas, as cores douradas e rubras, o musgo já a nascer, muito verdinho, muito macio, tudo muito bonito, a terra ainda molhada, os pássaros a saltitar e a voar de árvore em árvore, a cantarem. Falam na língua deles, não vão em modas, não há buzzwords, não há floreados, não há subentendidos desnecessários, não são precisos tradutores ou traidores pelo meio. São eles, a sua joie de vivre, as árvores, a chuva, o sol, o ar puro e a emoção de quem os ouve -- sem nada de permeio.

Fotografei, feliz. De cada vez que passam uns dias sem que aqui esteja regresso cheia de saudades, vejo tudo pela primeira vez, há esta descoberta inaugural que me comove, a vida sem disfarces, em toda a sua infinita e renovável pureza.


Depois, voltei a casa, peguei no compêndio e, claro, precisada de recarregar baterias como sempre acontece quando chega o fim da semana, adormeci. Poucos minutos tinham decorrido quando a minha filha me enviou uma mensagem. Os meninos estavam no museu e ela, que sabe como gosto de me sentir próxima, enviou-me várias fotografias deles por lá a experimentarem tudo o que podiam. Como a troca de mensagens se prolongou, percebi que não seria possível retomar a sesta. Por isso, fui buscar o livro.

Tirando um pequeno intervalo para um jantar ligeiro e os telefonemas à família, foi de penalti. Tal como quando li os livros do Paolo Gognetti, também aqui me deixei prender com o desenrolar das descrições de uma vida simples. 'A vida inteira' também fala das mudanças das estações, da primavera e da neve, das grandes árvores, de um homem que não precisa de muito, que se senta a contemplar os vales e as montanhas ao longe, que fala pouco, que se apaixonou uma única vez mas se apaixonou muito, uma paixão daquelas que acontecem uma vez na vida, e que vive sem pedir muito em troca.

Sendo um livro assim -- sem truques, sem suspense, sem traições, sem crimes ou cenas tórridas, sem nada nunca visto -- a verdade é que não consegui parar de ler. Sendo um livro assim, dei por mim a ter que desviar os olhos para parar de ler, com lágrimas nos olhos. E, no entanto, o que tinha acontecido para assim me emocionar foi dito numa pequena frase. E o que tinha acontecido não foi nada de especial. Uma pequena frase que apareceu de súbito. Sem adjectivação, sem aparato. Uma frase pequena e simples. E o texto prosseguiu como se nada fosse. Mas a dimensão da emoção que ali estava chegou até mim de uma forma intensa. Penso que seja a isto que se chama literatura.


Ou seja, li o livro todo e fiquei com pena que tivesse acabado. Uma escrita escorreita, sem artifícios, elegante na sua simplicidade, sensível apesar da rudeza da vida do personagem, apesar da sua introversão, apesar de não ser dado a pensamentos profundos. Não sei como se faz um livro assim mas sei que, cada vez mais, é de livros assim que eu mais gosto.

E a seguir apeteceu-me deixar-me ficar a ver televisão, a olhar para ontem, a curtir a sensação que me ficou, a deixar que a leitura assentasse. Só pensava: tão bom.

E agora aqui estou. Como sempre, mesmo quando o dia é tranquilo, arranjo maneira de ficar a escrever até às tantas da noite.


Ah, é verdade. Só mais uma coisa. Deixem que vos mostre.

Quando estava a andar no campo, aqui in heaven, uma aragem fria, a echarpe que me protegia o colo esvoaçou e eu achei o movimento gracioso e fotografei-a em plena ondulação.  Mas como a fotografia não ficou nítida, debrucei-me sobre o alecrim e pousei-a para a fotografar em sossego. A fotografia que aqui vêem acima.

Comprei esta echarpe aos vendedores de Lagos, terra que tenho junto ao coração, naquelas barraquinhas junto ao braço de mar que vai até à marina. Gostei da cor, do tecido, das florzinhas, da harmonia do conjunto. Distraída como sou não reparei nem nas flores em si, nem nos dizeres, só mesmo nessa harmonia. Já a usei alguns dias desta semana, ao fim do dia quando fui caminhar, e hoje todo o dia. Tinha-a hoje, de manhã, quando estive em casa da minha mãe e lembro-me que estive a brincar com ela, a enrolá-la em volta das mãos, a sentir a macieza do tecido. Mas só quando a fotografei reparei que tem as flores aqui do campo: alfazema, orégãos, rosmaninho, tomilho. E até tem esses nomes escritos.  E eu, com ela em volta do meu pescoço, e não tinha reparado.

Quantas mais coisas, junto a mim, eu não vejo? Devem ser quase todas. E, no entanto, que bom ter tantas coisas para descobrir. Que contente fiquei ao ver que a echarpe tem desenhadas as florzinhas do campo de que eu tanto gosto. Há tantas pequenas coisas que me deixam contente. Se calhar pode dizer-se que sou uma pessoa fácil de contentar. Ou, mais simplesmente, uma pessoa fácil. Ou simples. Uma pessoa simples.

Acho que sim, acho que é isso. E, se não for, olha, paciência.


Desejo-vos um belo dia de domingo. 
Be happy.