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segunda-feira, novembro 30, 2020

Gente odienta que dorme sobre os próprios joelhos e existem como cães, encolhendo-se na chuva, quase se cumprimentando como os cães!

 



Gente odienta que dorme sobre os próprios joelhos e existem como cães, encolhendo-se na chuva, quase se cumprimentando como os cães!

E que mulheres! Azuis, verdes, amarelas, com cabelos encaixados como perucas -- Deus lhes perdoe, Em que mundo vivemos, que mundo nós fazemos! Há alguma coisa de deteriorado dentro desse mundo para que tais narizes, rugas, peles, dedos, surjam à luz do dia. Oxalá eu saiba sempre pensar com asas para que a minha auréola continue. Oxalá eu saiba ter sempre olhar de lince, mesmo quando descaia no espírito do macaco.  O olhar de lince é coisa importante, mais do que a razão.

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Penso constantemente em que devo ganhar uma fortuna para não ter que me preocupar com a proximidade de ninguém. O maior luxo do mundo é estar só; ricos são os que não têm amigos solícitos e boas intenções à sua volta.

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Não faço outra coisa senão escrever, e faço-o com a gana de destruir e escavacar todos os obstáculos. Não há ninguém vivo neste mundo. É um rebanho podre de macacos a rapar as próprias chagas com um caco, como aquele Job, que tanto se lhe dava como se lhe deu. Não percebo o que fazem cá na terra, nem eles percebem.

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Raramente consigo essa solidão absoluta, esse desprendimento de pensamento e de razões práticas e que constitui a mais grata das felicidades. Às vezes apetecia-me envelhecer depressa, para depressa adquirir uma serenidade, e indiferença pelo actual, que não tenho ainda. 

Transcrição de algumas [Cartas à Mãe] de Agustina in 'Sapatos de Corda' de Mónica Baldaque

Fotografias aqui de casa ao som de Casta Diva na interpretação de Montserrat Caballé

domingo, novembro 25, 2018

A casa de Blanche




Hoje, quando aqui chegámos, a casa estava gelada. Chovia que deus a dava. Ainda chove. Tanto que não consegui ir dar o meu passeio. Estivémos todo o dia dentro de casa. Aqui nesta salinha, temos a lenha a crepitar na salamandra e, ainda, o aquecedor a óleo. Amanhã a casa já estará agradável. Mas  quando a invernia aperta, no primeiro dia, quando chegamos, a casa mostra-se triste, ressentida por não lhe abrirmos as janelas para que a luz possa aquecê-la um pouco. Uma casa é um organismo vivo, sei isso muito bem.

Estou a fazer a passadeira em arraiolos. O prazer por bordar voltou em força. É uma sensação boa, é uma fonte de motivação. E tenho visto televisão e lido as cartas de Manuel Laranjeira. E falado ao telefone. Acho que também dormitei durante um bocado. Está-se bem aqui. Estive a fotografar a rua, a chuva nas árvores, as folhas outonais cheias de água, e, depois, andei a fotografar galos e galinhas. Não tenho afeição especial por galinhas ao vivo mas acho os galos um bicho garboso, cheio de pose. Acho graça à sua representação: havendo imaginação, saem galos e galinhas estilizados, coloridos, divertidos. Tenho-os de lata, de madeira, de louça, pintados por mim. De tudo um pouco.


(Perguntei ao meu marido o que achava ele de termos galinhas à solta. Li ou vi na televisão, não me lembro, que são boas para os terrenos, que reciclam o que encontram e tornam as terras férteis. E depois tinhamos os ovos. O meu marido disse que nem pensar, que me deixasse eu de ideias destas. Não insisti) 

Gosto de cirandar pela minha casa observando os meus objectos, alguns herdados de avós ou tias. Tenho muito carinho por eles. Outros oferecidos. Tenho algumas coisas oferecidas ou restauradas pelos meus pais. Tenho também carinho especial por eles. E tenho outros que tenho comprado ou feito.

Podia pôr-me aqui a escrever sobre cada uma das coisas que me rodeia. Quase tudo tem uma história. Este móvel aqui à minha frente, o que tem a televisão em cima, por exemplo: era de uma tia do meu marido. Já falei algumas vezes dela. Tinha uma casa muito bonita, de onde se via o casario de Lisboa e o Tejo. Dentro deste móvel havia louças: o serviço de chá, nomeadamente. Havia não: há. Trouxe as louças.


Nenhum dos outros sobrinhos as queria. O meu marido, então, por ele não queria nada. Mas tive pena de desprezar tudo o que ela tanto tinha estimado. Na parte de baixo das prateleiras há camarões com chávenas suspensas. Estão todas aqui. E pequenas terrinhinhas que parecem folhas, louça das Caldas. E tantas outras peças bonitas que não uso com medo que se partam. Mas, de vez em quando, abro as portas do móvel e espreito. Lembro-me dela, dessa tia, da sua bela sala, dos belos sofás, dos quadros, dos belos candeeiros. Não sei qual dos sobrinhos ficou com os sofás, com os candeeiros. Tomara que não tenham ido para o lixo. Tudo gente desapegada. Vi alguns abrirem aqueles sacos grandes de lixo, pretos, e despejarem o conteúdo de gavetas lá para dentro. Se ela soubesse que os seus pertences iam ser tratados assim... Ela tinha carteiras e malinhas muito bonitas. Ia tudo para o lixo. Isso interceptei. O meu marido aborrceu-se: para que precisava eu daquilo?, ia encher a casa ainda com mais tretas do que já cá havia. Não quis saber. Objectos tão pessoais, tão bonitos, não podia deixar que fossem parar ao lixo.

Memórias. Reviver momentos é voltar a vivê-los, é bom. E o tempo adoça as histórias, a memória suaviza o que a realidade tinha de aspereza.


Vi há pouco a casa de Blanche Marvin. Casa maravilhosa. Objectos maravilhosos. Memórias que a mantêm bem viva, bem cheia de histórias para contar. Vai ao teatro, escreve sobre as peças, sobre os actores. E as fotografias mostram-na moderna, maquilhada, bijuteria vistosa, tudo a condizer com o seu sorriso gaiato e com as cores quentes das paredes, das luzes, das flores, das louças, de tudo o que se rodeia.

Blanche tem 93 anos e não se queixa da vida. Diz que em casa nunca se sente sozinha pois a casa está cheia de vida.


O artigo do The Guardian é bom de ler: Blanche Marvin, 93: ‘I’m never lonely in this house, because I have my life with me’. São desse artigo e de casa de Blanche as fotografias que aqui vos mostrei.

sábado, maio 06, 2017

Rui Moreira, uma Casta Diva à moda do Porto


Não sei se o facto de gostar muito do Porto é condição suficiente para me pôr para aqui a opinar sobre candidatos e candidaturas autárquicas daquelas bandas.

Mas, se não for, os portuenses que me desculpem. Não pretendo saber interpretar a alma de quem por lá vive. Na volta são todos uns vidrinhos e, à mínima palavra escrita fora da linha ou dita sem consentimento prévio do rei do pedaço, dá logo azo a um chilique por parte do dito rei, a ameaças de rompimento e o escambau. Não sei. Pensei que era o oposto, que fosse tudo gente de nobr'alma, de superior inteligência, bem acima da carne seca.


Mas agora, porque Ana Catarina Mendes disse o óbvio -- que seria para o PS uma vitória se os seus militantes ou os independentes por si apoiados ganhassem as eleições autárquicas -- ouço dizer que Rui Moreira fez birra, que diz que a bola é só dele e, de bola debaixo do braço, diz que assim não brinca, não quer brincar mais com os meninos da equipa amiga, nem com aqueles que lhe passam a bola. E que não quer mais o apoio do PS.


Devo dizer que, por altura das últimas eleições, antes dele ganhar, estando eu a jantar num belo restaurante no Porto, um num larguinho com uma capela, creio que não muito longe do mar, tive um bate-papo com alguns autóctones e com um outro que, não tendo nascido lá, por lá viveu bastos anos. Gente alinhada à direita, não defendiam nem queriam que ganhasse o Rui Moreira. Eu dizia que ele ia ganhar nas calmas, que é pessoa com ar civilizado, boa onda, capaz, que sabia fazer pontes, que a coisa ia ser na base da canja de galinha. O que lá tinha morado dizia conhecê-lo bem de mais e contou-me umas quantas histórias. Fiquei com a sensação que eram rivalidades familiares antigas e, portanto, dei o devido desconto.

Contudo, agora, ao saber desta reacção chiliquenta, de menina virgem que não quer ser vista na companhia do vizinho não vão as outras vizinhas supor algum amancebamento clandestino -- ou melhor, mostrando ser um misto de virgem ofendida e de starlette peniquenta -- Rui Moreira desceu uns quantos pontos na minha consideração.

O que é que a Ana Catarina Mendes disse de especial ou de errado? Então se ela apostar num cavalo e o cavalo ganhar, ela não pode dizer que ganhou? Que a sua aposta foi ganhadora?... Homessa...!


Então o PS apoia o Rui Moreira, um apoio tão genuíno, e o Rui Moreira faz questão de fazer de conta que o apoio do PS é, para ele, um sacrifício...? Ou, se ele ganhar, o PS não pode mostrar contentamento...? E que passa bem sem o apoio do PS...? Ridículo!


Eu, se fosse ao PS chegava-me ao pé dele e dizia-lhe: olha lá, oh minha casta diva, ou bem que gostas de ser apoiada pelo PS e gostas que o PS te apoie às claras e convictamente ou, se é para fazeres o número da virgem sonsa ou da diva niquenta e petulante, então fica na tua que há mais quem goste e a gente vai mas é partir para outra. Xô.

Claro que, inteligente como ele é, há-de de cair na real mas, depois deste fricote, acho mesmo que a excelência está a pedir um abre olhos. Um sustozinho, por assim dizer. A kind of lição de humildade, por exemplo, para ver se a prima-dona aprende a não desdenhar de quem, de bom gosto, lhe tem dado a mão.

(Mas nada de dramalhões à Assis, for goodness' sake, mais uma afirmação da autonomia e competência socialista, nomeadamente na pessoa do íntegro e bacano Manuel Pizarro.)


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Seja como for, daqui vai um presentinho da Sta UJM para Rui Moreira -- e, em troca a santa UJM pede-lhe que se porte como um homem e não como uma casta diva.


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E até já que eu vou ver se acordo para vir conversar convosco sobre a Doris.

(Mas aviso que isto, esta noite, está do piorio, só adormeço, credo, acho que tenho que ir dormir a sério. Mas, se não esta noite ainda, amanhã durante o dia talvez seja. Ou a Doris ou a minha ida à nutricionista)

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quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Não quero saber o que pensam ou deixam de pensar sobre a eutanásia





Cá em casa, agora já estão todos a dormir. Os meninos deitaram-se mais tarde. Folguedo pegado. A mãe ainda veio um bocado aqui para a sala mas adormeceu pouco depois e acabou por ir logo deitar-se.

O outro ramo dos pimentinhas também cá esteve. Queridos, queridos, uns abracinhos mais bons, demorados, um consolinho mesmo bom. 

Felizmente hoje ligeiramente mais calmos do que no fim de semana. Como sempre, é a alegria potenciada. E, como sempre, houve cantoria. O mais pequeno é um verdadeiro artista. Não dá para acreditar.

Dia de festa a meio da semana. Nem todos na família são caranguejos. Também os há aquários.

Saí do trabalho um pouco antes das seis para poder ir ao supermercado e vir fazer o jantar a tempo. Um trânsito dos diabos mas deu. Tirei fotografias. Nunca fico nas fotografias e só me lembro disso quando as vejo.

Depois foi arrumar tudo. E preparar a roupa de amanhã. Quando aqui me pousei começou a dar-me o sono. Depois do post abaixo comecei a querer adormecer. Acho que adormeci mesmo.


Quando consegui espertar, a conversa da eutanásia na televisão. Sei que se anda a falar disso mas é tema que não me interessa. Não é tema para dele se falar como quem comenta casos da arbitragem.

Tenho lidado de perto com situações complicadas. Não vi vontade de morrer em quem muito sofria. Vi, sim, vontade de acreditar que as coisas pudessem melhorar.

Penso muito na minha tia. Era uma alegre jovem casadoira quando eu nasci. Desde pequena, gostei dela. Namorava um qualquer e eu achava graça ao casalinho. Divertida, brincalhona. Eu adorava-a. Depois começou a namorar um dos meus tios solteiros. Quando se casaram fui a menina das alianças. Quando a minha prima nasceu, era eu uma miúda, quis ser a madrinha e a minha tia achou muito bem. Quando me casei foi a ela e ao meu tio que escolhi para padrinhos. Toda a minha vida senti um afecto imaculado por ela e ela por mim. Quando lhe foi diagnisticado um cancro, tive um desgosto enorme pois, ao contrário do que, poucos anos depois, teve a minha mãe, o dela era grande e já estava relativamente espalhado. Depois de operada pensou que estava melhor, andava toda bem disposta. Depois voltou a ser operada. Piorou. Entretanto, o meu tio morreu, também um cancro. Um desgosto imenso o dela. Fraca, doente. Por fim com dores, cansada, sem forças. Mas sempre na esperança de melhorar, de que algum medicamento ou tratamento a pusesse melhor. Nunca a ouvi dizer: quero morrer. Nunca.

Quando foi o meu tio, no pulmão, eu andava a ver se conseguia que ele fosse a Cuba, havia lá um tratamento promissor, achava que se devia tentar tudo por tudo. Falei para a Embaixada, informei-me, falaram com o médico assistente. Eu a querer, a querer. A minha tia contava-me: O teu tio diz que tu estás a acreditar mas ele não, não quer, a viagem muito longa. O meu tio dizia que não queria ir e deixar a minha tia, também doente. Eu dizia: Mas vão os dois. Ele não queria, que não valia a pena. A minha tia dizia que achava que o cancro já lhe estava na cabeça, que ele tinha esquecimentos e ausências que não pareciam dele. E ela dizia-me: Sabes? Se calhar já não vale a pena. Mas eu insistia: Ó tia, vale, vale, vamos tentar. Morreu, à entrada do hospital, no dia em que o meu primo ia, com ele, falar com o médico sobre se ainda se ia a tempo. Mas foi isto assim. Não foi querer abreviar a morte.


Ao meu pai sim. Pergunto-lhe: então, pai, como vai isso? Responde: mal, muito mal, quero morrer. Digo: Outra vez essa conversa, pai. Está bom, não tem nenhuma doença, que conversa é essa...? Diz-me: Ó pá, estou farto disto. Mudo de conversa. Agora, no fim do ano, teve uma gripe complicada e depois uma hemorragia gástrica e teve que ir ao hospital para fazer exames. Lá, na maca, eu perguntava-lhe: Então, pai, como se sente? Respondia: Ó pá, mal, mas mal por me terem trazido para o hospital, não quero, não vale a pena tratarem-me, se fosse a mãe que é nova...agora eu...? ó pá, quero é que me deixem ficar em casa, deixem-me morrer, pá...

Mas depois, a caminho de casa, na ambulância, eu lá dentro com ele: Olha lá, então deixas o carro no hospital? Depois como é que vens cá buscá-lo? Expliquei que o meu marido estava comigo, que ia ele no carro. Ficou contente: Ah sim? Ah ele tem estado contigo? Ainda bem. Depois: Olha lá, já é tarde, não vale a pena ires à farmácia, amanhã de manhã logo se trata disso. Ou seja, já outra vez ao comando.

Verdadeira força da natureza, poucos dias depois, estava de novo bem e a rabujar e a dar ordens a torto e a direito, esquecido da vontade de morrer. 

Enérgico, independente e orgulhoso, é para ele, quando está completamente lúcido, um infinito desgosto ver-se dependente e incapaz de gerir a sua própria vida. Nessas alturas, acredito que lhe passe, genuinamente, pela cabeça que, cansado desta situação, preferia morrer. Mas logo muda de ideia e pede leite e bolo porque está é com fome.


Verdadeira prisioneira está a minha mãe. Incapaz de se separar dele, deixou de frequentar o seu círculo de amigas, ex-professsoras, que saíam, iam lanchar juntas, conversar e rir, deixou de ir ao cinema ou de ir fazer férias como antes fazia, quando o meu pai estava bem. Nos dias em que o meu pai, por dormir de dia, não a deixa dormir de noite, está ela desgastada, saturada, exausta. Diz-me então que não sabe se aguenta muito mais tempo isto, que ainda morre antes do meu pai. Digo-lhe que tire um mês de férias, que vão os dois para uma residência assistida, ou que deixe o meu pai em casa que a senhora que trata da higiene dele fica a tomar conta e que eu dou toda a assistência. Põe dificuldades. Não quer. Parece, nessas alturas, envolta numa fatalidade a que não consegue fugir. Acredito que, nesses dias de exaustão, pense que ficaria melhor se o meu pai morresse. Mas, no dia seguinte, o meu pai dorme bem, não a chama de minuto a minuto, ela dorme bem, acorda fresca e nem se lembra de queixumes ou desalentos. Conta-me coisas, ri. Hoje, quando liguei de tarde, vinha eu no carro a caminho de casa, estava o meu pai no cadeirão ortopédico (para onde vai na cadeira de rodas, uma ginástica tramada para o içar da cadeira de rodas e passar para o cadeirão e vice-versa) e ela no sofá ao lado a fazer tricot para os bisnetos. Perguntei se estava tudo bem, tranquilo. Disse que sim: Na boa, tranquilos. Perguntei se o meu pai estava bem já que odeia estar ali, quer é estar na cama, arma fitas, diz que o querem matar. Disse que sim, tranquilo, a conversar. Ou seja, completamente distantes de conversas mórbidas.

Portanto, em que momento é que se sabe, de certeza absoluta que a vontade de morrer é a sério, definitiva, irreversível?

Eu não sei. Mais: não sei se, em relação a mim ou a um dos meus mais próximos, teria eu coragem de dizer que sim, que se avançasse para esse momento sem retorno. Não sei mesmo.

Agora uma coisa eu sei: incomoda-me ver falar disto com se fosse bandeira partidária ou tema mediático.

E só espero que nunca isto seja referendado. O tema é sério e íntimo demais para ser menorizado em debates pouco elevados em que quem não tem saber ou vida se arvora a veleidade de ter certezas absolutas ou o mau gosto de fazer cartazes para enfeitar as estradas.


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Renata Tebaldi interpreta a Casta Diva

As fotografias provêm da National Geographic

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A quem possa interessar: no post abaixo há um homem com uma super-longa gravata e um animal morto na cabeça.


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quarta-feira, maio 11, 2016

A mulher que gosta que lhe falem de árvores


Se lhe perguntassem no que estava a pensar quando entrou naquela casa, diria que não fazia ideia. Muito menos saberia responder à pergunta óbvia.

Simplesmente estava a entrar na casa onde alguém lhe sugerira que fosse naquele dia.

Quando bateu à porta ainda pensou, por breves instantes, o que responderia se lhe perguntassem o que pretendia. Mas não teve tempo de tentar encontrar a resposta.



A grande porta abriu-se automaticamente e ela entrou. Estava num pátio interior. À esquerda e à direita duas portas abertas, cada uma delas dando para um corredor que, de certa forma pareciam fazer parte de dois estreitos braços que circundavam o pátio. Em frente, uma escada de pedra. Ao fundo, por detrás da escadaria, uma parede coberta por heras e de onde, do que pareciam ser aberturas, pendiam enormes fetos.

Começou a chover ao de leve e ela olhou em volta, sem saber bem onde se dirigir. Reparou então que, num recanto, havia um telheiro sob o qual havia um largo e comprido banco de pedra. À frente um outro canteiro de fetos quase encobria aquele espaço. Sentou-se. Sentia-se abrigada, tranquila, sem qualquer sombra de inquietação ou, sequer, curiosidade. Não fazia a mínima ideia de que casa era aquela nem quem é que lá estaria. Em casa não tinha dito nada até porque de véspera ou de manhã ainda não tinha resolvido ir. No emprego, antes de sair para almoço disse que precisava de tirar a tarde de férias. Portanto, não dissera a ninguém onde vinha. Noutras circunstâncias ter-se-ia precavido, arranjado maneira de ir com companhia ou, pelo menos, avisado para o caso de, se alguma coisa corresse mal, saberem onde procurá-la. Mas não tomou quaisquer cuidados.

Foi olhando em volta. Havia uma laranjeira florida, o perfume era intenso. Por trás da casa, e não percebeu se fazia parte do terreno, havia uma árvores muito altas que não reconheceu.

Havia, no pátio, junto às paredes laterais, uns vasos de pedra muito grandes com árvores de pequeno porte floridas. Os pássaros cantavam muito alto mas não viu nenhum.

Encostou a cabeça à parede, fechou os olhos e deixou-se ficar a aspirar os aromas, a sentir a frescura do ar molhado, o canto dos pássaros. Talvez tenha adormecido.

Não sabe quanto tempo depois, ouviu um som que não reconheceu, umas pancadas, mas, logo depois, ouviu o barulho da porta a ranger, a abrir-se. Manteve-se serena, sem qualquer expectativa.

Viu que entrava um homem que igualmente se detinha, olhando em volta. Ficou um bocado no meio do pátio. A chuva tinha parado. Olhava as escadas, depois olhou o telemóvel, depois deu alguns passos em volta. Depois, devagar, começou a subir as escadas, hesitante.

Ela não fazia a mínima ideia de quem ele era mas não sentiu curiosidade.

Ouviu que o telefone lhe tocava na carteira mas não atendeu. Pouco depois, de novo. Nem sequer viu quem era. 

Algum tempo depois, ocorreu-lhe que não deveria ficar ali até tarde demais. Por coincidência, nessa altura, começou a ouvir um canto. A Norma? Tentou perceber mas os seus conhecimentos musicais não eram famosos. Então, sem pensar, levantou-se e dirigiu-se às escadas. Depois das escadas, um varandim de pedra. Olhou em volta. Não se via para fora da casa, os muros e as árvores envolviam-na. Viu, lá em baixo, o abrigo onde tinha estado sentada.

Ao fundo, uma grande porta de madeira. Experimentou empurrar. Estava fechada. Deu a volta à argola que servia de puxador. Abriu. A música mais audível. Foi entrando.

Um corredor, uma grande sala, jarrões de porcelana, grandes sofás de veludo, tapeçarias, grandes quadros, talvez retratos de família, um relógio de pé, um piano, outro corredor, outra sala, uma enorme lareira, uma mesa de jogo, cadeiras em volta, mais sofás. Cortinados de veludo e renda. Outra sala. Olhou em volta, pensou que queria ver de onde vinha a música.

Estava mais próxima. Foi andando. 

Quando chegou à sala de onde vinha a música, uma sala com as paredes forrada de papel claro, com uns curiosos panejamentos no tecto e tapetes sobre tapetes, dirigiu-se a um cadeirão para se sentar.

Quando se sentou, reparou que, em frente, num sofá, estava o homem: deitado, a cabeça sobre uma almofada, os óculos em cima do peito, de meias, os sapatos tombados no chão. Quando a viu, ele, sobressaltado, deu um salto. Embaraçado, colocou os óculos, tentou calçar-se sem olhar para os pés. Ela permaneceu sentada, sorrindo, olhando para aquela atrapalhação.

Já calçado, ele disse: ‘Não sei quem é’.

Ela, com ar levemente irónico, disse: ‘Eu também não sei quem você é’.

Ele, então, disse em tom de desafio: ‘Mas eu talvez seja capaz de adivinhar’.

Ela sorriu: ‘Adivinhar quem eu sou...? Será…?’.

E ele, ‘Acho que sim’.

E ela ‘Não sei. Para isso, teria eu que me deixar adivinhar e não sei se quero’.

Ele sorriu. ‘Está certo’. Depois de uma pausa, disse: ‘Já pensava que não vinha’.

Ela: ‘Já cá estou quase desde a hora de almoço. Estive a dormir a sesta lá em baixo’.

Ele arqueou as sobrancelhas, admirado: ‘Desculpe…? Como…?’

Ela disse: ‘Daqui a nada já lhe mostro o que elegi como boudoir para o meu sono de beleza’.

Ele sorriu, ar intrigado: ‘Ah sim…? Está certo. A senhora manda. Olhe, permita: toma alguma coisa?’. Ela riu de novo. Ele perguntou: ‘O que foi?’

Ela riu, abanou a cabeça, ‘Nada’, mas o sorriso era malicioso. Respondeu antes: ‘Chá. Pode ser?’

Ele disse: ‘Já lhe disse: a senhora manda.’. Chegou junto a uma parede e, aproximando-se de uma grelha, puxou um fio e disse: ‘Um chá e uma imperial, se faz favor’. Ela riu-se. Da parede saíu um fio de voz. Ele perguntou-lhe então: ‘Perguntam-me que chá prefere’.

Ela respondeu: ‘Qualquer. Ou chá ou infusão, qualquer coisa. Jasmim, cidreira, lúcia-lima’.

Ele riu ‘Não é esquisita’.

Ela disse: ‘Sou, sou. Muito. Mas não com o chá’.

Ele, sorrindo, disse para o intercomunicador. ‘De flor de laranjeira’.

Ela deu uma leve gargalhada ‘Perfeito. Condiz comigo.’

Ele maliciou: ‘Isso ainda havemos de ver’. 

Quando chegou uma empregada, fardada a preceito, com avental plissado em branco, estavam eles de pé, à janela, ele a falar-lhe das árvores, ela a ouvir atentamente. Sempre tinha gostado que lhe falassem de árvores.

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Lá em cima Renée Fleming interpreta (no Palácio dos Czares em Saint Petersburg) a Casta Diva da ópera Norma de Bellini. 

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E caso vos apeteça conhecer um pouco do livro que tão descaradamente me tentou esta terça-feira queiram, por favor, descer até ao post que se segue. Um livro surpreendente que muito vivamente recomendo.


segunda-feira, março 28, 2016

Um imenso mar de gente que gosta de partilhar




Agora que já partilhei convosco as receitas dos acepipes deste meu domingo pascal e depois de ter estado a escolher fotografias e a enviá-las para os meninos, e que também já dei uma circulada pela net (fechando os olhos aos atentados e às corrupções), venho aqui dizer-vos que gostava mesmo que, como por magia, isto da Páscoa fosse um tempo de mudança, tudo do melhor para toda a gente, uma espécie de euromilhões a todos os níveis. Toda a gente apaixonada, toda a gente motivada, com projectos novos, toda a gente com vontade de ir para a rua passear e conversar, de estar na esplanada ao sol, a olhar quem passa, toda a gente com vontade de ler e de contar aos outros sobre os livros bons que leu, e toda a gente a gostar de ir trabalhar ou, não gostando, a ser capaz de encontrar outro trabalho, ou não o tendo, a encontrar um mesmo bom, e toda a gente a ter com quem falar, e toda a gente a ter a quem abraçar. E toda a gente com vontade de sorrir, de rir, de ir ter com aqueles que se afastaram e recomeçar a conversa como se não se tivesse passado tempo nenhum, ou, se alguém disse alguma coisa que magoou outra pessoa, a ser capaz de pedir desculpa e dizer, vamos recomeçar, vamos ver se desta vez a gente se entende.

Dito assim parece desejo infantil, uma utopia ingénua, completamente desligada da realidade e injustificável numa pessoa da minha idade. Mas é o que eu desejo e acho que, se o disser, pode ser que aconteça.


Ponho-me aqui, sem ter qualquer objectivo, apenas pelo gosto de escrever, mesmo que escreva não mais do palavras soltas, palavras que irão perder-se no infinito espaço. Mas, mesmo sabendo que as minhas tocarão outras e se trocarão entre si, uma e outra vez, e que, um dia nem eu as reconhecerei ou saberei explicar porque as escrevi, mesmo assim escrevo.

E, enquanto escrevo, aqui na minha sala quase às escuras, apenas um pequeno candeeiro sobre o computador, gosto de escolher músicas, poemas, toadas, embalos luminosos que, depois, gosto de partilhar convosco. Alguém as colocou no mundo para que outros, como eu, as ouvíssemos. É um imenso mar de gente que, por exemplo, partilha pensamentos, opiniões, sorrisos, gostos musicais e mundos encantados, emoções, silêncios e divinas toadas, perplexidades, memórias e reflexões, disparos certeiros, patadas e bacoradas, que nos leva pelos seus caminhos da floresta, que nos traz leituras dos caminhos do mar, da terra e do céu, que nos convida para o lado caliente do mundo, que nos mostra o que os seus olhos vêem em lugares onde dificilmente iremos. Um mar de gente, um imenso e maravilhoso mar de gente que gosta de palavras. É como se todos nós deixássemos oferendas nas portas uns dos outros, todos nós, pessoas generosas, espalhando dádivas, sorrisos. Como se estendêssemos as nossas mãos para que outros as tocassem.

Por vezes pasmo com os milhares de blogues de toda a espécie que há. É verdade, há tantas pessoas que escrevem, tantas, tantas que ao longe, invisíveis, se unem pelo gosto das palavras. É verdade: poderia ser um diário, um caderno de notas, bilhetes postais, epístolas em papel perfumado, bilhetinhos em garrafas deitadas ao mar. Mas é assim, as mãos deslizando pelo teclado, as palavras nascendo na tela branca, quase a perderem-se de nós, quase mais vossas do que de nossas, desprendendo-se de nós.

Estas agora voando de dentro de mim. Já não minhas. Entrando pelas vossas janelas, chegando-se aos vossos corações.

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(...)
The warm bodies
shine together
in the darkness,
the hand moves
to the center
of the flesh,
the skin trembles
in happiness
and the soul comes
joyful to the eye
(...)
Song de Allen Ginsberg (lido por Tom O'Bedlam)

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As fotografias foram feitas neste domingo, ao fim da tarde. 
Lá em cima Anna Netrebko interpreta Casta Diva de Bellini.
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Relembro: caso queiram saber o que foi o meu menu de Páscoa e conhecer as receitas, é fazerem o favor de descer até ao post seguinte.

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segunda-feira, julho 07, 2014

Como salvar o capitalismo dos capitalistas? Responde Paul De Grauwe, no Expresso Economia: seguindo a recomendação do novo Marx que por aí anda, um tal Piketty, que analisa o Capital no Século XXI


No post abaixo já avancei com duas sugestões relacionadas com futebol. Não que seja muito entendida no assunto mas, desculpar-me-ão, há coisas que saltam à vista do mais ignorante (como é o meu caso). Não quero inventar a roda, quero apenas contribuir para ver se resolvemos a problemática vigente com a nossa selecção nacional que, fraca, fraquinha, teve uma participação tão pífia nesta Copa 2014. Ali deixo a sugestão para a entrada de sangue novo: alguém que irá desestabilizar a equipa adversária e um novo treinador e... verão: remédio santo.

Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra. É conversa séria. A sério.




[E porque o capitalismo, o grande capitalismo da actualidade, é alimentado por gente de gostos sofisticados, que gosta de repousar de olhos fechados enquanto ouve a Bartoli ou a Netrebko e que, enquanto ouve a Casta Diva ou outras músicas maiores, pensa em como fazer 'o bem', pondo as suas empresas a dar dinheiro a fundações e etc. (coisa que dá benefícios fiscais, claro, mas isso é pormenor - 'o que importa mesmo é pôr em prática a velha máxima de give back to society') aqui deixo a dita Cecilia Bartoli interpretando a Norma de Bellini. E, se os meus Caros Leitores fecharem os olhos enquanto a ouvem e se puderem reclinar-se na penumbra e esquecer os pequenos problemas que não interessam para nada, talvez consigam experimentar as epifanias vividas por Bill Gates, Warren Buffett ou outros grandes beneméritos enquanto pensam nos seus múltiplos milhões ao som da Bartoli).





Leitor atento, a quem agradeço, já há tempos me tinha enviado referência a um autor que andava a dar que falar por todo o lado: Thomas Piketty. Nunca tinha ouvido falar mas fiquei atenta. Desde aí tenho tentado informar-me e, se a concordância com Piketty a nível de diagnóstico me parecia natural, já a resolução para o problema me parecia mais dúbia.

No outro dia o meu filho enviou-me o link para o artigo do Sérgio Aníbal no Público Anda por aí um novo Marx? e sugeriu-me que falasse nisto aqui. Mas outras coisas se meteram e, como tantos outros assuntos que me interessam e que acabam por ir ficando esquecidos, este ficou também em stand by.


Mas hoje, ao ler Paul de Grauwe, professor da Universidade de Lovaina que assina a coluna Torre De Marfim e que escreveu 'Como salvar o capitalismo dos capitalistas?' pensei que teria mesmo que falar no assunto.


Transcrevo da Wikipedia: Thomas Piketty (born May 7, 1971) is a French economist who works on wealth and income inequality. He is the director of studies at the École des hautes études en sciences sociales (EHESS) and professor at the Paris School of Economics.[1] He is the author of the best selling book Capital in the Twenty-First Century (2013),[2] which emphasizes the themes of his work on wealth concentrations and distribution over the past 250 years. The book argues that the rate of capital return in developed countries is persistently greater than the rate of economic growth, and that this will cause wealth inequality to increase in the future. To address this problem, he proposes redistribution through a global tax on wealth.

O artigo de Sérgio Aníbal, um belo artigo que vivamente recomendo, começava assim:

Anunciado por uns como o “novo Marx”, mas acusado por outros de ter renegado o trabalho do autor de O Capital, Thomas Piketty agitou o debate político e económico nos Estados Unidos e na Europa com um alerta: a actual sociedade capitalista está cada vez mais parecida com o mundo desigual do século XIX descrito por Jane Austen e Honoré de Balzac.


E, às linhas tantas, Sérgio Aníbal explica o raciocínio e a principal conclusão de Piketty:

No entanto, desde os anos 1980 até agora, assiste-se a um regresso em força da desigualdade. Nos Estados Unidos, o país onde esta tendência foi mais evidente, a parte do rendimento total que é detida pelos 1% mais ricos mais do que duplicou entre 1981 e 2012, quase chegando aos 20%. Essa pequena parte da população ganha tanto como a metade mais pobre. Este resultado é muito semelhante àquele que se registava na Europa antes da I Grande Guerra, no auge da desigualdade. Nas economias europeias, o agravamento da desigualdade não foi tão acentuado, mas também é notório nas últimas décadas.

Com estes dados na mão, Thomas Piketty sentiu-se pronto para arriscar uma nova teoria para a evolução da desigualdade. Pode-se mesmo dizer uma nova teoria do capitalismo. Uma teoria que não partilha o optimismo de Kuznets de que, com o desenvolvimento económico, a distribuição de rendimentos tende a corrigir-se. “Não há qualquer processo natural e espontâneo que previna que forças desestabilizadoras e promotoras de desigualdades possam prevalecer permanentemente”, afirma.

Pelo contrário, o que o livro de Piketty diz é que aquilo que normalmente acontece é a taxa de retorno do capital (o que se consegue obter de lucro em percentagem do capital investido) ser mais alta do que a taxa de crescimento económico. E que quando isso acontece, não havendo qualquer intervenção exterior, o que temos é um aumento da desigualdade na distribuição de rendimentos.


A fórmula, a mais discutida no debate económico dos últimos meses, escreve-se como r>g, em que r é a taxa de retorno do capital e g é a taxa de crescimento da economia. A tendência de longo prazo, diz Piketty, é a de que r supera g. Durante os séculos XVIII e XIX, r manteve-se persistentemente entre 4% e 5% (as 10 mil libras garantidas anualmente por Mr. Darcy com as terras que herdou), enquanto g registou uma média próxima de zero.

Entre a I e a II Grande Guerra, r diminuiu fortemente, e, nos anos 50 e 60 do século XX, g subiu de forma excepcional, reduzindo a desigualdade. Mas nas últimas três décadas, apesar de o crescimento da economia não ser zero, o retorno obtido pelo capital voltou a ser sistematicamente mais alto, diz o livro. E o que isto significa é que aquilo que torna algumas pessoas mais ricas tem tendência a crescer mais rápido do que aquilo que torna a maior parte das pessoas mais ricas.


E está certo: é um facto. Os rendimentos de capital acumulam-se ao capital já detido a uma velocidade maior do que os ganhos resultantes da economia. Basta pensar nas taxas de juro dos depósitos que são sempre superiores aos do crescimento do PIB. 

Onde eu fico com mixed feelings é com a solução: impostos agravados sobre as grandes fortunas. 

Volto ao artigo do Público:

O livro sugere a aplicação de uma taxa de imposto de 80% sobre os rendimentos anuais acima de 500 mil dólares (cerca de 365 mil euros) e uma taxa de 10% sobre a riqueza, que torne mais difícil a perpetuação e aprofundamento das desigualdades. Para evitar fugas de capital de uns países para os outros, Piketty diz que a solução tinha de ser implementada à escala mundial.


Escrito assim parece fácil e justo. No entanto, fico em dúvida. Parece-me uma utopia. De facto, quem tem fortuna de muitos milhões tem forma de repartir o risco e pôr em prática eficientes optimizações fiscais. Ilhas obscuras, offshores, triangulações em cima de triangulações até que se perca o rasto do dinheiro: e, num instante, fortunas de muitos milhões desaparecem da alçada da máquina fiscal. Teria todo o mundo que se pôr de acordo. Mas como é isso possível...?

Pego agora no artigo de Paul De Grauwe. Diz ele: 

Os super-ricos podem, dada a sua grande riqueza, exercer muito mais influência política do que os cidadãos comuns, e obviamente muito mais do que o seu peso nas urnas de voto. Isto vem minar a credibilidade dos sistemas democráticos.

A grande desigualdade da riqueza devia portanto ser drasticamente reduzida. Isto é importante para a preservação da democracia. Também é importante para a sustentabilidade do capitalismo. Este é um sistema maravilhoso na medida em que gera dinâmicas de crescimento e inovação. Este sistema, contudo, está minado se não travarmos o crescimento da desigualdade. Isto pode ser alcançado com a introdução de uma taxa sobre a riqueza.

(...)

Um possível esquema: isentamos o primeiro milhão de euros da taxa sobre a riqueza. À medida que a riqueza cresce acima de um milhão aplicamos uma taxa crescente. Por exemplo, a taxa entre 1 e 5 milhões de euros é taxada a 0,5%; entre 5 e 10 milhões, a taxa sobre para 1%; acima de 10 milhões de euros, passa a 2%, etc. A dado ponto aplicamos uma taxa de 4%. Este é apenas um exemplo. Muitos outros esquemas são possíveis. A questão está em que querermos evitar que a riqueza ociosa cresça tanto que mine os próprios alicerces da democracia e do capitalismo.

Assim, uma taxa progressiva sobre a riqueza pode ser a melhor forma de salvar o capitalismo da garra dos capitalistas.


Reconsidero: uma taxa baixa, muito progressiva, e a começar em fortunas bastante altas talvez faça sentido.

0.5% num montante entre 1 e 5 milhões é muito para os cofres do Estado e nada para quem tem uma imensa fortuna e, por uma percentagem tão baixa, os super-ricos pensarão se compensa correr o risco de andar com o dinheiro em bolandas e a pagar dinheiro (vivo, provavelmente) para o esconder.

Este é certamente um assunto em que vale a pena pensar - desde que haja o bom senso de perceber o que é um super-rico para não se fazer o disparate que estes anormais de cá têm feito que é achar que ricos são os remediados, cortando ordenados e pensões a eito e aumentando os impostos à tripa-forra, espoliando a classe média e arrasando a economia.


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Entretanto, para quem gosta de se rir ao ouvir um francês a falar inglês ou, para os sisudos que passam por cima disso e conseguem prestar atenção ao que eles dizem, aqui deixo um vídeo interessante.


[Um à parte: há uns anos eu tinha reuniões regulares com um francês que vinha de Paris para se reunir comigo, que ficava num dos bons hotéis da capital, que media quase 2 metros de altura e que chegava ao meu gabinete a cheirar a transpiração. Sempre se ouviu dizer que os franceses têm um problema de higiene, coisa que me custa a repetir, mas a verdade é que com este, apesar de ser pessoa viajada e de certamente tomar banho no hotel, acontecia esta situação desagradável. Se a reunião era só comigo e no meu gabinete, mal ele saía do meu gabinete eu arranjava maneira de sair também, não fosse alguém entrar lá e sentir aquele desagradável odor, ainda pensando que podia vir de mim, credo. Mas adiante que não era disso que eu queria falar. A questão é que ele, se estivesse só comigo, falava em francês mas, se calhava estar mais alguém e que não percebesse bem a língua francesa, falava em inglês. E era uma coisa de ir às lágrimas. Eu quase rogava que ele falasse só em francês porque já sabia que, se avançasse para o inglês, a reunião ia ser um suplício, eu o tempo toda a esforçar-me para não me atirar para o chão a rebolar a rir à gargalhada. Assim é o Piketty aqui em baixo.]



The Huffington Post Live - Elizabeth Warren & Thomas Piketty Discuss Nature & Income Inequality.



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Recordo: para conhecerem as minhas recomendações relativas à Selecção desçam, por favor, até ao post seguinte. Um Leitor fez o favor de simpaticamente catalogar a minha conversa como 'converseta da treta' e, sabem que mais?, é capaz de ter razão. 

Mas qual seria a graça da vida se não a polvilhássemos, aqui e ali, com converseta da treta...? Alguém me diz...?

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domingo, abril 07, 2013

Clarice Lispector, a hora da Estrela - uma maravilhosa exposição de palavras na Gulbenkian, palavras de uma diva que muito amou a língua portuguesa







... escrever não é um ofício? ... aprendizagem então...?
- Clarice Lispector


Irei até onde o ar termina, irei até onde a grande ventania se solta uivando, irei até onde o vácuo faz uma curva, irei até onde meu fôlego me levar.



Ver a verdade seria diferente de inventar a verdade?
- Clarice Lispector


Sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, (...) faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava de morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus.



Você magnética
Dar paz ao rosto

(Lista de lembretes curiosos rabiscados pela escritora; Clarice nos anos 50 em Washington, fotografada por Erico Veríssimo)


Ali, enfim familiar, toda revelada para ele, o homem a examinou. Ela não seria bonita, se uma pessoa não a amasse. Mas tinha a beleza que se vê quando se ama o que se vê.



Olhar-se no espelho e dizer-se deslumbrada: como sou misteriosa - Clarice Lispector


Nos braços os pelos claros douravam a moça como se ela não pudesse ser trocada. Uma vez amada, ela era de rara delicadeza e beleza. Ele olhou-a curioso, simpático. Ela era capaz de fazer a felicidade de um homem; mas estranhamente tivera que enganá-lo com truques até fazê-lo feliz, e só então é que lhe mostrará que não o enganara e que a felicidade que lhe dava era real.



Aí está ele, o mar, a menos ininteligível das existências não-humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos - Clarice Lispector


'De profundis'. Joana esperou que a ideia se tornasse mais clara, que subisse das névoas aquela bola brilhante e leve que era o germe de um pensamento. 'De profundis'. Sentia-o vacilar, quase perder o equilíbrio e mergulhar para sempre em águas desconhecidas. Ou senão, a momentos, afastar as nuvens e crescer trémulo, quase emergir completamente... Depois o silêncio.



Bilhete da amiga Lygia fagundes Telles sobre um livro de Clarice Lispector 


E o primeiro verdadeiro silêncio começou a soprar. O que eu havia visto de tão tranquilo e vasto e estrangeiro nas minhas fotografias escuras e sorridentes - aquilo estava pela primeira vez fora de mim e ao meu inteiro alcance, incompreensível mas ao meu alcance.



Imagem de uma das salas da exposição. Dentro de algumas gavetas os fragmentos, as cartas, as fotografias, os apontamentos.


Estava muito bonita neste momento, tão elegante; integrada na sua época e na cidade onde nascera como se a tivesse escolhido. (...) Espiava as pessoas com insistência, procurando fixar naquelas figuras mutáveis seu prazer ainda húmido de lágrimas pela mãe.



A transcendência era em mim o único modo como eu podia alcançar a coisa? - Clarice Lispector?


Era o ponto de realidade resistente das duas naturezas que esperavas que nos entendessemos. Minha ferocidade e a tua não deveriam se trocar por doçura: era isso o que pouco a pouco me ensinavas, e era isto também que estava se tornando pesado. Não me pedindo nada, me pedias de mais.



Clarice Lispector fala sobre a sua vida (entrevista disponível no youtube); em primeiro plano a máquina de escrever



Pois olhando agora absorta ao redor de si, nem ela própria saberia de que modo tornar lógico e racional o facto de seu profundo amor estar espalhado, o facto do mistério estar guardado.




Cada vez eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever - Clarice Lispector

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Clarice Lispector, a hora da estrela

A exposição pode ser vista na Sala das Exposições Temporárias da Gulbenkian (cá em baixo, junto à Biblioteca, à Loja, ao Bar)

Começou no dia 5 deste mês e vai estar até 23 de Junho.



Sabendo-se da minha paixão pela obra desta escritora, foi com muito prazer que esta tarde me misturei com as suas palavras. 

Uma tarde maravilhosa. Um sol bom.

Mas, ao fim da tarde, já se fazia sentir um friozinho, gostoso mas friozinho.



Ao fim da tarde, os dois manos e a sua priminha, amigos, lindos, uns amorzinhos muito doces
(o bebé ficou em casa, adoentadinho, meu rico menino)

*

Os textos (até o filme de baixo) são excertos escolhidos ao acaso, aqui dispostos sem qualquer ordem premeditada, de 'Uma maçã no escuro', 'Laços de Família', 'A paixão segundo G.H.', 'Uma aprendiz ou o livro dos prazeres', 'Perto do coração selvagem' e 'A hora da estrela', todos, claro, de Clarice Lispector (Ucrânia, 1920 - Rio de Janeiro, 1977)


Lá em cima, é Renée Fleming interpretando Casta Diva. Achei que ficava aqui bem.


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E, depois disto, apenas vos quero desejar um domingo muito feliz. 

sábado, março 30, 2013

Maria Madalena




Maria Madalena é descrita no Novo Testamento como uma das discípulas mais dedicadas de Jesus Cristo. 

A Igreja romana, seguindo São Gregório Magno, além de a identificar com a "pecadora", também a confunde frequentemente com Maria de Betânia, irmã de Lázaro, e celebra as três Marias com uma única festa. 




Ela acreditava que Jesus Cristo realmente era o Messias. (Lucas 8:2; 11:26; Marcos 16:9). Madalena esteve presente na crucificação e no funeral de Cristo, juntamente com Maria de Nazaré e outras mulheres. (Mateus 27:56; Marcos 15:40; Lucas 23:49; João 19.25) (Mateus 27:61; Marcos 15.47; Lucas 23:55). 




No sábado após a crucificação, saiu do Calvário rumo a Jerusalém com outros crentes para poder comprar certos perfumes, a fim de preparar o corpo de Cristo da forma como era de costume funerário. 




Permaneceu na cidade durante todo o sábado, e no dia seguinte, de manhã muito cedo, "quando ainda estava escuro", foi ao sepulcro, achou-o vazio, e recebeu de um anjo a notícia de que Cristo havia ressuscitado e foi-lhe dito que devia informar tal fato aos apóstolos. (Mateus 28:1-10; Marcos 16:1-5,10,11; Lucas 24:1-10; João 20:1,2; compare com João 20:11-18). Nada mais se sabe sobre ela a partir da leitura dos Evangelhos Canónicos.




Em Lucas 8:2, faz-se menção, pela primeira vez, de "Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demónios". Não há qualquer fundamento bíblico para considerá-la como a prostituta arrependida dos pecados que pediu perdão a Cristo; também não há nenhuma menção de que tenha sido prostituta.Este episódio é frequentemente identificado com o relato de Lucas 7:36-50, ainda que não seja referido o nome da mulher em causa.


(in Wikipedia)




Perante toda a gente, no salão
sob os pés de Jesus
os cabelos no chão serão tapete e toalha.
Do Gólgota no cúmulo,
os cabelos no chão, aos pés da Cruz,
sonharão ser mortalha.
Maria! - diz Jesus
levantado do túmulo.
(Maria, que te diz o coração?)
E os cabelos no chão
são oiro, mirra e incenso em poalha...


['O Pólo Sumo - Em louvor de Santa Maria Madalena' de José Régio in Filho do Homem]


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Antonio Vivaldi  - Stabat mater


1. Stabat Mater
2. Cuius animam
3. O quam tristis
4. Quis est homo
5. Quis non posset
6. Pro peccatis
7. Eja Mater
8. Fac ut ardeat
9. Amen

Sytse Buwalda, alto
Netherlands Bach Collegium
Pieter van Leusink, conductor

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As obras apresentadas representam Maria Madalena e os seus autores são, respectivamente, Gheorghe Tattarescu, Guido Reni, Giovanni Bellini, Pietro Perugino, Peter Paul Rubens, Gregor Erhart.


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Muito gostaria também de vos ver no meu Ginjal e Lisboa. Hoje, por lá, continuo com a poesia dita, textos ditos. Eunice Muñoz diz Guerra Junqueiro e Marco D'Almeida diz o Cântico Negro, também de José Régio. Depois Divino Sospiro interpreta Madalena aos pés de Cristo.


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E, por  hoje, apenas isto. Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom sábado.

(E espero bem que o que se está a passar entre as Coreias lhes passe e que não venha por aí mais fogo para incendiar este mundo já tão castigado. Tanto que precisamos de paz...!)