Quando se pensa na falta de abertura que o mundo reservava às mulheres há cem anos pensamos, e bem, que que tomara que isso tivesse acabado. E, no entanto, por racionalmente estranho que possa parecer, ainda não acabou. Não apenas há países retrógrados como, mesmo nas sociedades mais avançadas, ainda há resquícios dessa mentalidade.
E, como se fossem os únicos, não vale a pena pensarmos de imediato em países árabes ou africanos em que a cultura assenta em regimes pouco ou nada democráticos, regimes misóginos, trogloditas. Não é preciso ir tão longe. Claro que por lá é a regra e por cá felizmente já serão ilhas -- mas basta passearmos pelas terras do interior para vermos como é frequente os cafés estarem cheios de homens e como as mulheres ainda têm medo de ser faladas se ousarem sair sozinhas, ir para uma esplanada, andarem a fumar em público ou se concorrerem a trabalhos tipicamente masculinos.
Contudo, foi no século passado, daqui a nada há cem anos, que a bela Lee Miller passou de modelo da Vogue e musa de fotógrafos a fotógrafa de moda e, depois, a corajosa fotógrafa de guerra. A sua vida é extraordinária.
Afortunadamente, no meio das ortodoxias há sempre quem não se aquiete, quem queira ser o dono do seu destino, do seu corpo -- digam o que disserem.
Lee Miller era linda mas era sobretudo uma inspiração pela sua força, pelo seu querer, pela sua entrega ao prazer do que fazia por gosto.
Capturing Lee Miller (2020) I Official Clip I MetFilm Sales
Vogue model, artist’s muse, fearless war photographer: Lee Miller had many lives. Built on images of Lee and by Lee, CAPTURING LEE MILLER explores a pioneering female artist who broke taboos and defied expectations.
E está prestes a estrear o filme produzido e interpretado por Kate Winslet (a talentosa actriz que recusa o papel de estrela, de diva, de eternamente jovem): Lee.
É das melhores actrizes da actualidade e, apesar disso, a sua simplicidade é fantástica.
A entrevista que concede à Vogue e que abaixo partilho mostra bem quem é Kate Winslet.
[Nota: Quem não se entenda com a língua inglesa, poderá colocar na opção da autotradução de inglês -> português. Não será um português escorreito mas sempre poderá ser uma ajuda.]
Kate Winslet Talks Ice Baths, Raising Chickens, and Her New Film | Vogue
Lee Miller’s photographs “are amongst some of the most significant historical images ever taken, and people don’t really know that,” says Kate Winslet of the inspiring subject of her forthcoming film, “Lee.” The October Vogue cover star also discusses ice baths, antique tables, and acting in some of the toughest scenes she's ever filmed.
Tenho saudades de algumas coisas e de algumas pessoas. Não posso dizer que seja saudosista e talvez que o que sinto nem seja exactamente saudades, talvez seja mais a falta que sinto. Há coisas ou pessoas que ganham espaço dentro de nós e, quando nos faltam, deixam um vazio. Claro que o tempo vai empurrando outras coisas e outras pessoas para esse espaço mas, não nos enganemos, há faltas que não se ultrapassam.
De vez em quando, do nada, sinto uma vaga de tristeza e saudade que cresce dentro de mim. Sem que tenha tempo para controlar, dou por mim com lágrimas nos olhos. Felizmente é à noite que isto me dá e, portanto, não há quem o veja nem me peça explicações. Não teria como dá-las. Não é nada de muito definido. É, sobretudo, aquele sentimento de saudade. Por sorte, não é frequente. Mas, até pela raridade, maior a estranheza e intensidade.
Quando o 2020 chegou, pensei que um número tão redondo viesse carregado de coisas especiais. E assim foi mas, infelizmente, quase todas especiais no mau sentido. Perdas, sustos, preocupações. Também coisas boas, claro, mudanças. Mas as perdas e os abalos têm sido violentos.
Nem falo nas perdas pessoais que essas são dolorosas demais para poderem estar aqui mas, depois, há todas as outras.
Lembro-me do dia em que saímos do escritório, despedindo-nos uns dos outros, preocupados, um pouco tristes, sem sabermos quando voltaríamos a ver-nos, sem sabermos o que viria aí.
As reuniões por teams ou zoom ou hangout atenuaram as distâncias a nível profissional mas há muitas pessoas com quem não tenho relações profissionais directas que não vejo há meses. Todos os dias havia um bom-dia dado por quem estava na recepção, um bom dia, conversas e sorrisos trocados na copa. E havia aquelas pessoas com quem se trocavam ideias, inofensivas fofocas, sugestões. Temos falado mas muito menos, nada que se compare.
E, pelos anos, juntava-se mais família e parentes e, este ano, foi tudo minimalista ou, mesmo, nulo. Pessoas que este ano nem sequer vou ver. Quando chegava o natal eu tinha fotografias para oferecer a toda a gente, feitas nas vezes em que tínhamos estado juntos. Este ano não devemos encontrar-nos pelo natal e, a muitas pessoas, não terei fotografias para distribuir.
Penso que gostava de convidar algumas pessoas a virem conhecer a nossa casa nova. Gostava de organizar um almoço ou um jantar, todos à volta de uma mesa grande. Agora não podemos.
No outro dia, no escritório, tive uma reunião com um colega com quem sempre muito conversei. Contei-lhe da casa. Ficou admiradíssimo. Sabia como nós gostávamos tanto da outra casa. Achou uma aventura. Percebi que, ao ver o meu entusiasmo, achou engraçado, deu-me os parabéns, desejou-me as maiores felicidades. E ria, achando divertido esta nossa decisão. E fez muitas perguntas, mostrei-lhe fotografias, percebi que gostaria de vir conhecer. Em situação normal, talvez eu organizasse também uma vinda dele cá, talvez dele e de outros que asseguram sempre um ambiente animado. Agora, não pode ser.
Mas sinto também falta do gosto que tinha em andar pelas livrarias. Toda eu mudei. Sinto agora como que uma certa repulsa pelo acto de consumir. A desabituação está a marcar-me. Vejo as minhas estantes, agora tão bem organizadas, tantos livros por ler -- e não consigo ter vontade de voltar a uma livraria. Quando penso nisto sinto um aperto. Se muito mais pessoas houver como eu é toda a cadeia ligada ao livro que se afunda: escritores, editores, livreiros. Mas a mesma coisa com vestuário. Não faço a mínima ideia de como estão as modas. Tenho roupa que chega e sobra para os próximos anos. Desinteressa-me o consumo. Ir a lojas, provar roupa? Nem pensar. Para quê? Para acumular roupa? Não. E os perfumes? Sinto pena de já não ter a vontade e a oportunidade que antes tinha de me perfumar. Pouco me perfumo. Só quando vou ao escritório. Se me perfumo fora disso já me parece escusado. Recebo mensagens das lojas de perfumes: oferecem pontos, vales, vouchers. Nada me tenta.
E sinto saudades de ir ao cinema. Ah, isso sinto mesmo. O escurinho do cinema. Não se compara a ver filmes em casa, nada a ver. Tenho muitas saudades de ir ver um filme numa sala de cinema -- de preferência sem pipocas por perto. Há uma emoção, uma envolvência que é especial, para a qual não há sucedâneo.
Vejo os filmes que estão a ver a luz do dia, não sei quando virão para Portugal mas, ainda que venham, não consigo pensar em enfiar-me numa sala fechada, com ar condicionado cuja qualidade desconheço. Mas como gostaria que a pandemia acabasse e eu pudesse voltar a ir ao cinema. Será que, com o tempo, se isto se prolongar, acabarei por me esquecer do bom que era?
Quando estava em Março ou Abril pensei que, com o confinamento, as pernas da curva haveriam de ser partidas e que, até ao verão, a coisa iria ficando controlada e que, no verão, ao ar livre, a coisa seria suave e, quando o verão acabasse, já deveria haver tratamento eficaz. Não acreditei que houvesse vacina mas acreditei que tratamento haveria. Acreditei mesmo. Ou seja, acreditei que, chegando ao outono, com tanta ciência focada na causa, apesar de uma segunda vaga, a covid já haveria de ser virose da treta. Não imaginei nem que a curva viesse com toda esta força nem que se estivesse ainda tanto na infância da arte. Ainda não se sabe porque ataca tanto uns e nada outros, ainda não se sabe como impedir a progressão fatal em alguns casos, ainda não se sabe a extensão dos danos, ainda não se sabe em que condições reincide. Pouco se sabe. E disto eu não estava à espera.
Estamos ainda no início do Outono, com o Inverno pela frente, tempo de frio e chuva em que não dá para conviver na rua, tempo em que nos locais de trabalho e escolas não dá para estar com as janelas abertas, espaços confinados, propícios ao contágio, tempo, ainda por cima, de gripes e resfriados. E os números a crescerem a partir de uma base que já é alta demais. Não é bom.
Em Março eu pensei: põe-se a malta toda em casa e isto quebra. E quebrou. Mas agora em Outubro todos sabemos o mal que o confinamento geral faz e, por isso, não defendo isso. Mas tem que haver outras medidas. Isso tem que haver. Tem que haver medidas para impedir a disseminação descontrolada do vírus na sociedade, sob pena de nos descobrirmos dentro do pior pesadelo. De notar que, em alguns hospitais, já há equipas clínicas em quarentena, equipas de manutenção de equipamento médico em quarentena, e isso, como é óbvio, reduz a capacidade de resposta. A partir de agora, nada ajuda.
O lema de todos sempre foi 'esperarmos o melhor, prepararmo-nos para o pior' e, neste momento, temo que que não esteja a ser feito tudo o que há para fazer para nos prepararmos para o pior. Ou melhor: para impedirmos o pior.
E eu não gostaria nada de, daqui por uns meses, estar ainda mais pessimista do que já estou e com mais saudades do que já estou.
Na minha terra, quando eu era jovem adolescente -- e digo jovem adolescente porque, como me casei aos vinte, na minha cabeça, para aí a partir dos dezoito ou dezanove, já me via num outro patamar, já era pós-teenager -- na principal sala de cinema era normal a sessão englobar dois filmes. Não me lembro se isto acontecia em todas as sessões ou só nas matinées. E, agora que escrevo isto, fico baralhada. Habituei-me ao nome sem questionar. É que as matinées, tanto quanto me lembro, não eram de manhã: iam para aí das 15 ou 15:30 até às 19:30 ou 20:00. Havia, pois, um primeiro filme, tenho ideia que mais popularucho e, a seguir ao intervalo, o filme mais a sério.
Sempre adorei ir ao cinema mas, a partir da altura em que passei a ir com amigos e, sobretudo, com namorado, o cinema tinha outros encantos e, por vezes, nem era tanto o filme em si o motivo de interesse mas, sim, o convívio, a descoberta, as pequenas ousadias. Nesses primeiros anos de liberdade, todas as sessões tinham, pois, uma graça suplementar: as mãos que se tocavam sem querer, o braço que vinha cautelosamente pelas minhas costas até se instalar sobre os meus ombros, um beijinho silencioso e ingénuo que acontecia como que por acaso.
Mas, independentemente disso, lembro grandes filmes. Tenho ideia que os rapazes, frequentemente, gostavam mais do primeiro filme. Eu via-os como hoje vejo tretas que passam na televisão e às quais não presto a mínima, entretendo-me com pequenos apontamentos completamente laterais. Saía de lá sem saber dizer o que tinha visto. Era normal os 007 aparecerem nessas primeiras partes. Carros que voavam, perseguições, cenas de pancadaria com acrobacias pelo meio, mulheres plastificadas, amores estapafúrdios. Nada daquilo me dizia alguma coisa, tudo de uma surrealidade que, a mim, me parecia pirosa. Tenho ideia que o único 007 que vi inteiro, e isto em toda a minha vida, foi o 007 e o Casino Royale. Mas não tenho a certeza que tenha sido este. Sei, sim, que foi o primeiro com o Daniel Craig. Gostei mas não guardo ideia nenhuma do que lá se passou. Acho que gostei, sobretudo, dele, em especial quando estava fragilizado. Agora porque é que estava fragilizado não faço a mínima.
E, no entanto, cá em casa, quando dava ou dá o 007, não há zapping. E mesmo a nível de DVD, tenho ideia que temos uns quantos. Mas não faz o meu género. Nada a fazer. Sou mais Dangerous Liaisons ou Lady Chatterley's lover ou, mais recentemente, o Samba. Por exemplo. Nessa altura lembro-me, acho, Les uns et les autres ou Mourir d'aimer ou coisa por aí.
E lembro-me de uma cena macaca de que já aqui falei, acho. Pelos cartazes pareceu-me que um certo filme haveria de ser bom, alternativo talvez, mas interessante. Sempre as coisas disruptivas me atraíram. Mas o namorado era muito recente e era à noite e os meus pais embirraram. Decidida que estava a ir, na maior bravata, disse-lhes que fossem também. Aceitaram. Pois. Passei pela maior saia justa de toda a minha vida e, ainda hoje, quando me lembro, me encolho. Um horror.
Hardcore puro e duro. Já não me lembro se era o Trash ou o Flesh do Andy Warhol. Um deles. Sexo de toda a maneira possível e imaginária. Comportamentos desviantes também de toda a espécie e feitio. Coisas com que eu nunca tinha sonhado. E eu ali com um namorado novo e com os meus pais ao meu lado. Só pensava em pedir para nos irmos embora, em pedir desculpa, em enfiar-me pelo chão abaixo. Enterrada no cadeirão, eu dizia ao meu namorado: 'Que horror, que vergonha... No intervalo vamos embora...'. Ele não estava menos encabulado que eu. No intervalo, levantámo-nos e eu a pensar como é que, depois daquelas cenas escabrosas, eu ia ser capaz de encarar os meus pais, pronta para ir para casa e, quiçá, receptiva a uma valente desanda. Acho que até uma bofetada eu era capaz de aceitar de bico calado, como se fosse a coisa mais justa que me poderia acontecer. No entanto, para nosso espanto, os meus pais estavam como se nada de estranho se tivesse passado, impávidos e serenos. Ficámos sem acção para propor que desandássemos. Vi a segunda parte em estado de negação, mentalmente indisponível para assimilar aquela galdeirice, aquela desbunda, aquela pouca vergonha que para ali ia. Com os meus pais, nem uma palara depois disso. Como se nunca tivesse acontecido. Sabedoria em estado puro.
Mas nem sei a que propósito veio isto agora porque queria era falar do próximo 007.
Não prestando, pois, atenção aos enredos e àquela palhaçada toda, o único a que prestei minimamente atenção, pelo charme, foi ao Sean Connery e, como disse, não desgostei do Daniel Craig. Ao Roger Moore nunca achei ponta de graça. Já em novo se antecipava o canastrão em que cedo se tornou. Homens com feições muito perfeitinhas, todos muito bem acabadinhos são, a meus olhos, homens desengraçados.
Portanto, quando hoje ouvi que se fala em Idris Elba para digno sucessor de Daniel Craig na longa galeria de actores que, desde o início dos tempos, vêm protagonizando o agente James Bond, todos os meus sinos tocaram. O meu marido franziu o semblante, diz que não faz sentido mas, cá para mim, é ciúmes. Pelo Idris Elba eu torno-me fã do 007. Pelo Idris Elba eu passo a ficar ao lado dele, quietinha, a papar os 007 de cabo a raso. Ai não que não fico.
Mal posso esperar. Nunca terá havido outro James Bond como ele.
De manhã, fiz fotografias que me agradaram fazer mas que ainda não vi. O prazer está em captar o momento, não em revê-lo. A praia muito bonita, o sol banhando de luz a superfície do mar, as pessoas passeando, os vultos em contra-luz ao longe, a alegria do pescador a descer as rochas para ir resgatar o peixe tão grande, as crianças brincando. Podia ir buscá-las à máquina para as passar para o computador, mas não me apetece.
Também fiz muitas fotografias cá em casa, a alegria e confusão do costume. O bebé tão bonito e feliz, os outros rapazes já tão crescidos e sempre tão cheios de vitalidade, a menina sempre linda, muito feminina e coquette, os crescidos todos na boa, bem dispostos, tranquilos. Mas essas fotografias eu não mostro aqui, ficam para mim e para a família.
Depois de todos saírem, saímos também.
Andava com vontade de ir ao cinema mas sem encontrar filmes que me seduzissem. Mas hoje um chamou-me a atenção e lá consegui arrastar o meu marido para fora de casa quando lhe apetecia era ir estender-se no sofá. Eu própria tive que vencer o apelo do corpo que, ao fim de um dia bem preenchido, pedia também algum descanso. Mas lá fomos.
Na bilheteira, toda a gente com baldes de pipocas e bebidas. Depois, a escada rolante parada, com os degraus pejados de pipocas.
Entrámos. A sala cheia. Quando ia sentar-se, o meu marido viu que o braço da sua cadeira e o chão por debaixo estavam cheios de coca-cola (ou pepsi, sei lá). Ficou furioso. Saíu e regressou com uma jovem de balde, esfregona e pano. Limpezas feitas, lá se sentou. Furioso. 'Nem ao menos fazem a limpeza da sala, entre sessões'.
Ao lado dele um casal de gordos -- mas ponham gordura em cima deles. Gordos e gigantes. Nem conseguiam sentar-se bem. O gordo segurava num balde de pipocas e comiam-nas freneticamente. Felizmente o casal ao meu lado era silencioso. À nossa frente uma fiada de gordas, gordas, gordas, cada qual com seu balde pipocas. Riam-se e falavam umas com as outras. O meu marido continuava furioso e dizia que não aguentava estar no meio de mandibulantes desenfreados. Eu também estava incomodada mas não dei muita corda não fosse ele resolver levantar-se e desistir do filme. É menino para reacções dessas.
O cinema é da NOS. Antes do filme começar, publicidade com o som numa intensidade insuportável. Um chinfrim que, diria eu, nem deve ser saudável.
Finalmente lá começou o filme.
Um bom filme. Um daqueles filmes bom de ver, uma história de sobrevivência e de amor.
Para mim, ir ao cinema é também a magia da sala escura, um certo culto que talvez seja já apenas ficção mas que, para mim, teima em persistir -- como se, num ambiente quase mágico, um grupo de pessoas ali estivesse a partilhar emoções. Contudo, ali isso é impossível. As gordas da frente riam alto, em momentos de maior emoção saíam-se com apartes completamente absurdos, descarados ou ridículos. O gordo do lado, saía-se com piadas brejeiras e inconvenientes. A sua parceira gorda partia-se a rir. Mas não eram os únicos. 'Bocas', risos, brejeirices. E o barulho das pipocas. Sempre o barulho das pipocas. E o enjoativo cheiro das pipocas.
No intervalo, reparei que o corredor central do cinema estava sujo, bocados de pipocas polvilhavam a alcatifa. Cá fora, o chão também sujo e mais gente a abastecer-se de pipocas e de bebidas. Perguntei ao meu marido: 'Mas isto é tudo gente porca e estúpida?'. O meu marido já estava mais tolerante: 'Para estes gajos[referia-se à NOS], o negócio principal parece que é vender pipocas. E enchem os baldes daquela maneira. Transbordam, caem no chão, nas escadas, por todo o lado [referia-se às pipocas]'. E eu: 'E reparaste que quanto mais gordos, maiores os baldes?' E ele: 'Não deve ser por acaso'
Um nojo.
Acho que tão cedo não voltaremos a um cinema NOS.
Se quisermos imaginar o que seria o mundo se fosse governado por porcos, acho que poderemos visualizar uma sala de cinema NOS.
Para ajudar à festa, no intervalo vi uma troca de mails profissionais em que fui posta em conhecimento e que acentuou ainda mais a sensação de estar a viver num mundo em que falta de qualificações de toda a ordem começa a imperar. Que mails mais miseráveis. Ideias mal apresentadas, frases mal construídas, pontuação errática e erros ortográficos insuportáveis. Fiquei, uma vez mais, petrificada. A minha vontade foi enviar um mail a pedir que regressem à escola primária, que aprendam a escrever, que arrumem as ideias e que me poupem a lástimas como as que me tinham dado a ler.
Contudo, não fiz nada. Mas fiquei agastada.
Por delicadeza, deixamo-nos morrer. Neste caso, talvez não morrer mas vencer. Vamo-nos calando e aceitando tudo. Lemos textos que são autênticas alarvidades, estamos em salas de cinema que são pocilgas e em que ao nosso lado se sentam porcos que nem tentam comportar-se como gente civilizada. E tudo aceitamos.
Não deveria também eu ter-me levantado e pedido, alto e bom som, que parassem de mastigar, de fazer barulho, de ser inconvenientes? Que soubessem respeitar o filme e as pessoas que ali estavam a assistir? Que soubessem portar-se de forma civilizada?
E não deveria eu escrever uma reclamação dirigida à NOS a dizer que me incomoda que não respeitem a arte do cinema e que não garantam o asseio das suas instalações?
Claro que deveria.
Já passa das duas da manhã e estou com sono e já sei que, mal entre o dia, vou à minha luta e vai faltar-me a paciência e o tempo para me insurgir de forma mais consequente mas, de qualquer forma, aqui fica lavrado o meu protesto.
Estamos na silly season e eu, ou é disso ou é porque silly season é sempre que uma mulher quiser ou é da falta que as férias me estão a fazer, ando tomada de assalto pela preguiça e pela incapacidade de me interessar por qualquer coisa que seja séria e importante. Volta e meia sou despertada para problemas do caraças, coisas de arrepiar as almas mais empedernidas. Mas, aqui chegada, só tenho vontade de falar de coisas que não valem um caracol.
Mas, depois, penso que também não é bem assim. Isto que li num site da especialidade e que, à primeira vista é do mais frioleiro que existe, é afinal o motor do afecto e do calorzinho bom que invade as pessoas e lhes traz sentido à vida -- e, portanto, também porquê isto de se desvalorizar uma coisa destas só porque não tem grande profundidade? Ora.
Pois bem, passemos aos factos. A revista Marie Claire divulga quais os aspectos femininos que mais atraem um homem e eu acredito no que ali se diz: primeiro porque, sendo a revista que é, não se iam deitar a adivinhar à toa e, segundo, ao longo da minha vida, tenho constatado que, mais coisa menos coisa, assim é.
Sem delongas, passo a enunciar:
1. O sorriso
Pois é. O sorriso é o primeiro factor. Os homens afirmam que uma mulher não precisa de ser bonita pois quando o seu rosto se abre para um sorriso é como se irradiasse luz. Dizem que, ao sorrir, uma mulher banal pode tornar-se sublime. Dizem ainda eles que o sorriso é o esboço de um beijo. E gostam, em especial, quando há doçura no sorriso.
2. Os saltos altos
Pois é. Com esta fiquei muito admirada. Dão, pois, assim tanta importância aos saltos...? Que tornam as mulheres mais elegantes, pois isso é verdade. Mas, caramba, é factor assim tão decisivo...? Bolas. Os homens são mesmo umas cabecinhas vadias.
3. Maquilhagem... sim, mas apenas se for comedida.
Os homens gostam de ver que uma mulher se esforçou por se tornar mais bonita: um baton sexy mas não excessivo, olhos esfumados mas não com um risco preto à Amy Winehouse, ar saudável mas nada de quilos de corante facial.
4. A idade...? Sim. Mas os homens preferem as mais novas...? Falso. Preferem as mais velhas.
Não me espantou. Entre uma nova e uma mulher com experiência de vida, os homens preferem as segundas. As rugas não os incomodam. Dizem que as mulheres mais maduras (digamos assim) têm uma doçura e uma vivência que os atrai.
5. O poder e dinheiro? Ná. Pode ter alguma graça mas não é relevante.
Parece que os homens, afinal, preferem mesmo é a genuidade e espontaneidade das mulheres, não o que factores externos e adquiridos podem acrescentar.
6. Ser loura...? Não especialmente.
Pelo menos a maioria dos inquiridos não dá grande relevância à cor do cabelo ou até prefere as morenas. Mais relevante é o comprimento: adoram ver cabelos esvoaçando ao vento.
7. O estilo. Importantíssimo.
Mais do que um corpo escultural ou a roupa 'à moda', o que os atrai é o estilo, o olharem e sentirem que a mulher está bem na sua pele, com aquela roupa, com aquele look. O estilo é mesmo muito importante.
8. A maternidade. Quem diria?
Os homens acham atraentes as mulheres grávidas. Acham-nas felizes, luminosas, doces.
9. O humor e o espírito. Fundamentais.
Os homens acham as mulheres sisudas, ensimesmadas e ansiosas uma seca. Dizem que uma mulher bem disposta, com inteligência, com espírito de humor e leveza é uma graça.
10. As formas. Querem-se generosas, arredondadas
Mais do que a elegância formal o que os homens mais apreciam a este respeito é que haja harmonia no conjunto, formas curvas em que apeteça pousar o olhar ou a mão.
11. E eles adoram...
Um defeito que as torne únicas. A aparência, a pose, o andar. Os tornozelos. A postura da cabeça. A forma como deixam ver que estão apaixonadas. a forma como deixam transparecer o desejo que sentem por eles.
.......
A mulher que fui buscar para aqui dar corpo ao exemplo do que os homens gostam é Kate Winslet. A música é Chinawoman em I'll Be Your Woman.
.......
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.
Quando quis transformar um terreno de pedras e mato rasteiro num pequeno bosque - no outro dia o meu filho falou aqui disto - imaginei ter lá todas as árvores de que mais gosto: pinheiros mansos, pinheiros de flandres, cedros, ciprestes, tuias, eucaliptos, grevilleas, robinias pseudoacacias, e sei lá que mais. E arbustos. E preservar as azinheiras e aroeiras que mal medravam no meio das pedras. Como o terreno é quase impossível de cavar, as árvores novas tinham que ser árvores pequenas para as podermos pôr em buracos relativamente pequenos. Por essa altura, conheci inúmeros viveiros. Morriam muito em pequenas e, por isso, porque queria muitas, porque a taxa de insucesso era grande, as árvores tinham que ser baratas. Falaram-me, então, nos viveiros do Ministério da Agricultura ou da Câmara, que vendem (ou vendiam) aquilo de que não precisavam a preços baixos. Passei, então, a ser cliente regular deles. E é das belas, belas recordações que guardo na minha vida: as minhas idas lá, andar com as jardineiras, elas de botas (porque os terrenos estão muitas vezes molhados, senão enlameados) e eu, tantas vezes, de saltos altos (ia de manhã muito cedo, antes de ir trabalhar), outras vezes metíamos um dia de férias quando o carregamento era maior ou íamos os dois à hora de almoço, e eu a conversar com elas e elas orgulhosas do seu trabalho a mostrarem-me as suas crias, a passarem a mão pelas plantinhas, a aconselharem-me, e eu encantada, tantas vezes a pensar que eu seria feliz se fosse jardineira, paixão das maiores, ver a vida permanentemente a renascer, fazer acontecer.
Tantos cuidados eu tinha com as minhas pequenas árvores, fazendo abrigos à sua volta para não sucumbirem ao vento ou para os coelhos não as roerem, ou a ver se tinham água, e por vezes algumas que não vingavam mesmo, ainda agora há locais onde planto, replanto e replanto e morrem sempre. E o que eu gosto quando ando de podão e serrote a podar árvores, a serrar ramos, e enfio-me pelo meio do mato, e desbasto, desbasto. Não consigo andar de luvas, gosto de sentir a madeira, as folhas, a seiva. Depois fico arranhada e penso sempre que deveria ter cuidado. Mas é mais forte que eu.
Nasceram caminhos, recantos, sombras, as árvores estão grandes. E corto pernadas de arbustos e enterro-os e eles rebentam e há flores, perfumes, e já nascem pequenos pinheirinhos a partir dos pinhões que caem dos primeiros pinheiros, e os pássaros vieram e há ninhos e nascem novos passarinhos e eu sinto-me tão feliz, tão feliz.
Por isso, quando vi que estava em exibição o filme Nos Jardins do Rei (no original, com um nome bem mais atraente: A Little Chaos) sobre Le Nôtre, o jardineiro do rei, paisagista e autor dos jardins de Versailles e outros, fiquei imediatamente decidida a ir ver.
Mas o filme foca sobretudo o que creio ser um personagem totalmente ficcional, Sabine de Barras, jardineira que, sob a supervisão geral do mestre Le Nôtre, introduziu um pouco de caos na mentalidade ordenada do mestre. E, introduzindo esse caos, iluminou a vida do solitário jardineiro real, e levou alguma modernidade e perturbação a uma corte habituada a muita coisa mas não ao inesperado. E levou o prazer genuíno da natureza e da surpresa ao que poderia ser uma perfeição previsível e monótona*.
[*- Ou seja, de facto, todo o mérito da maravilha dos jardins terá residido em Le Nôtre]
Kate Winslet, de cara lavada, rugas à vista, formas generosas (de facto, estava no início da gravidez), é uma mulher tomada pela paixão da vida (apesar da angústia que carrega), que anda na lama, que se entrega à fúria de plantar, desbastar, fazer nascer. É inteligente, decidida, tem sentido de humor, é generosa, uma mulher muito mulher num mundo de homens. E Matthias Schoenaerts é o jardineiro contido, brilhante, que arrisca ao apostar naquela mulher corajosa e com uma visão desordenada do mundo e que, claro está, se apaixona por ela - tal como ela, claro está, se apaixona por ele. E, portanto, para além de tudo, esta é também aquela história que a gente gosta de ver: ele apaixona-se por ela e ela apaixona-se por ele e juntos vencem as dificuldades e, no fim, o baile a decorrer no ball room ao ar livre desenhado no centro do maravilhoso jardim de pedras e cascatas que é inaugurado pelo rei, afastam-se de mãos dadas. Entre árvores. E sabemos que serão felizes para sempre.
As cenas da corte, a conversa com o rei, tudo aquilo é delicioso. Alan Rickman é o rei Louis XIV (e também o realizador) e Stanley Tucci é o divertido Philippe d'Orleans.
Transcrevo a sinopse do Público mas, para mim, transmite uma ideia que fica aquém do que o filme é (ou então, sou eu, que, por gostar tanto do tema, me empolguei e emocionei para além do razoável).
França, século XVII. Luís XIV, o Rei Sol, contrata o famoso arquitecto paisagista André Le Nôtre para criar um projecto para um novo espaço nos jardins do Palácio de Versalhes.
Para o ajudar, Le Nôtre emprega Sabine de Barra, uma mulher à frente do seu tempo, reconhecida pela visão fora do comum. Com ideias muito diferentes sobre estética de jardinagem, a relação entre ambos revela-se algo difícil e conflituosa. Contudo, à medida que se conhecem melhor, as desavenças iniciais convertem-se em admiração mútua e a relação profissional entre ambos altera-se para algo mais íntimo. Mas tudo ameaça ruir quando boatos sobre uma relação secreta entre eles chegam aos ouvidos da vingativa mulher de Le Nôtre…
Com realização do actor Alan Rickman (que também é co-autor do argumento e dá vida à personagem de Luís XIV), um filme de época que conta ainda com a participação dos actores Matthias Schoenaerts, Kate Winslet, Stanley Tucci ou Helen McCrory, entre outros.
Kate Winslet fala da sua actuação em A Little Chaos
____
E, já agora, também:
Château de Versailles - Bosquets et fontaines à Versailles
....
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado, muito feliz.
Muda a hora, muda o visual do Um Jeito Manso. Quem por aqui costuma passar sabe bem que sou avessa à monotonia, a pasmaceira fatiga-me. Se não posso mudar o mundo, mudo a minha janela para o mundo. E mudarei tantas vezes quantas me ocorra um pretexto ou até por pretexto nenhum. Nem sei quantas vezes já terei mudado. Comecei com a menina má de Balthus e muitos outros caminhos já percorri. Para mim, bom é caminhar, não tanto o lugar onde chego. Posso até nunca chegar mas vou andando, procurando, descobrindo, desfrutando com prazer a caminhada (e estou a lembrar-me das palavras de José Tolentino Mendonça no outro dia).
Em cima, junto ao título do blogue, aparecerá sempre uma mulher e tem que ser uma mulher com cuja atitude me identifique. E pode ser uma pintura ou uma fotografia.
Hoje tenho Edita Vilkevičiūtė fotografada por Alexi Lubomirski e só porque é tarde e a mudança de hora já me roubou um bocado de noite é que não falo dele, do fotógrafo. Um dia destes falarei, terá mesmo que ser.
No post abaixo, falei-vos de um filme de amor, um filme especial baseado numa novela muito pouco convencional e, mais abaixo ainda, mostro-vos como ficam belos os homens envoltos em azul e mistério.
Aqui, agora, a coisa é diferente. Um Leitor, a quem muito agradeço, enviou-me, por mail, um vídeo cheio de 'espero não ter sido indelicado' e de cuidados não fosse eu ficar chocada.
E fiquei. Tanto quanto a Kate Winslet. Chocadas, eu e ela. Credo: que coisa.
Nunca fui numa de blind dates e receio bem que nunca vá. Primeiro porque não à ando à pesca; segundo, acho que não me arriscaria a que me aparecesse um homem com um metro e vinte ou um homem com capachinho (a propósito: então não é que no outro dia me cruzei com um conhecido poeta e vi que tem um capachinho...? Como é que agora vou conseguir continuar a ler os poemas dele?).
É um risco.
O filme abaixo mostra a Kate Winslet a ir encontrar-se com um homem, Hugh Jackman, justamente num encontro às cegas. Ela ousada, até comprava coisas pela internet, tudo na boa, etc e tal, até que ele tira o cachecol. Aí ela fica para morrer. E eu também.
Advirto de novo:
quem queira continuar a imaginar-me muito bem comportada, não deve ver o vídeo.
quem tenha sensibilidade gástrica a testículos (especialmente aos que estão excessivamente visíveis) não deve ver o vídeo.
Ao Leitor que o enviou, digo: fico chocada, bolas, quem é que não fica...?, que impressão me fez o raio do homem - mas o que me diverti... Obrigada! E até me apetece escrever: LOL, porque soltei mesmo umas gargalhadas.
Movie 43 - O homem dos testículos
* * *
Relembro: por aí abaixo há filmes muito bons, um regalo para os sentidos.
Nem pareceria que já estamos em época natalícia se não se fizesse sentir este friozinho agudo, este sol que não consegue esconder a humidade das folhas caídas.
Por ali, então, a névoa matinal, o frio que se entranha, a neblina que envolve o entardecer, as noites gélidas são a regra. Faz parte da mística do lugar, dizem.
O grupo está, uma vez mais, reunido na grande casa que se esconde entre altas árvores, muralhas, escadarias e muros cobertos de hera. Lá dentro a grande lareira está acesa como sempre mas agora há também aquecedores a gás espalhados pela casa. O frio parece emanar das paredes de pedra e, sem um suplemento de aquecimento, o lugar em vez de acolhedor seria inóspito. A sala brilha agora com os dourados envelhecidos de uma grande árvore de natal decorada com objectos antigos, raros. E existem mais velas acesas do que é costume, o que transmite um ar de ainda maior aconchego e, num recanto, está o presépio que a mulher de Manuel arranja em conjunto com a cozinheira e restantes empregadas da casa.
Por esta altura reúne-se aqui o grupo do costume mas agora com os respectivos cônjuges. É o jantar de natal. Leonor é a única mulher da equipa de gestão e não traz companhia. Aliás, os colegas, por vezes, na brincadeira, insinuam estranhas preferências como justificação para o facto de não ter companheiro que se lhe conheça.
Estão, portanto, as mulheres dos colegas; já se conhecem umas às outras e é costume, mal se encontram, retomarem, com animação, a conversa que tiveram na ocasião anterior em que se estiveram juntas. Falam quase ininterruptamente, reportando os acontecimentos familiares desde a última vez ou comentando as notícias que preenchem os tempos que correm: filhos que estão a estudar ou a trabalhar fora, as conversas via skype, as saudades, o receio de que por lá fiquem, e espantam-se com a imbecilidade destes ministros, riem-se da imaturidade e cretinice de alguns secretários de estado, e mostram preocupação pela devastação que o governo está a levar a cabo e que empobrece toda a gente e o país no seu conjunto.
Leonor enturma-se com elas. Nota-se nas senhoras uma certa curiosidade em relação a esta colega dos maridos. Leonor fala também de assuntos correntes, desliga-se de assuntos profissionais quando conversa com elas. De resto, se há várias que não trabalham nem sabem o que isso é, outras há que são médicas, professoras ou reformadas e que, portanto, têm uma visão muito concreta do que é a vida.
Está também a mulher de Duarte embora ele não esteja. Foi ela a atracção principal no início da conversa. Toda a gente se lhe dirigiu para saber como está ele. Maria João explicou que está bem mas que não o tem visto, que não recebe visitas, que está a fazer uma cura de sono, que teve um esgotamento e dos sérios, que os médicos recomendaram um internamento para poder dormir, descansar, desligar-se de tudo. As outras mostram preocupação, querem saber pormenores. O que sentia? Como estava? Não tinha percebido? Como foi?
Maria João explica que foi progressivo. Que o marido chegava tarde a casa, que andava cansado, irritadiço, que tinha insónias, que andava desconcentrado, que os comprimidos que tomava parece que já não faziam efeito, tomava mais e nada resultava e que estava a emagrecer a olhos vistos. Que, a dada altura, chegou a desconfiar que ele tivesse outra mas que afinal ele estava mesmo era arrasado. E que parecia que não conseguia relativizar os problemas, que tudo era motivo para o deixar ainda mais em baixo. E que, depois, outras vezes andava eufórico, que até custava a aturar de tão doido que ficava. Que chegou a temer que ele se tivesse tornado bipolar.
Enquanto Maria João falava, Leonor temia que ela, na sua inocência, voltasse a falar em cortes de ordenados ou coisas do género que levassem as outras a perceber que a história estava mal contada. Mas ela não falou no assunto e Leonor descansou. Mas receava também que alguém, ao ouvi-la, através de um sorriso ou palavra em falso, cometesse um deslize e ela percebesse que, sim, que ele tinha mesmo outra, sempre, já muitas, ou que alguém piedosamente lhe explicasse que ele namorava como se tivesse necessidade de se sobre-ocupar a todos os níveis, e até a nível amoroso. Mas não ocorreu nenhuma inconveniência e Maria João, com naturalidade, foi prosseguindo a sua conversa. Aliás, num aparte, Maria João tinha-se chegado a ela e, num tom de voz muito baixo para que ninguém ouvisse, tinha-lhe pedido desculpa por aquele telefonema de dias antes, que naquela noite estava assustada, tão preocupada, sabe lá o que aquilo foi.
Leonor disse-lhe que ela não tinha que pedir desculpa, que percebia perfeitamente, que a vida no mundo doss negócios, especialmente agora, é muito stressante e que, às vezes, as pessoas se vão abaixo, mas que tudo ia ficar bem, que ele, repousando, estando uns tempos afastado do stress do dia a dia, iria ficar bom.
Duarte tinha aceitado tratar-se com a condição de ninguém, nem no trabalho nem na família, saber qual a verdadeira causa do problema. Leonor tratou de tudo, falou com médicos, acompanhou, aconselhou e apoiou Duarte. Para todos os efeitos, diriam que ele ia tratar-se de um esgotamento nervoso, que iria ficar internado para fazer cura de sono. Depois teria um período de baixa para continuar a ser seguido.
Entretanto, Duarte tinha começado a dizer que ia largar o emprego, que iria viver para o campo. Mas quer os médicos, quer Leonor o aconselharam a que deixasse os planos para depois.
Maria João não soube o que se estava a passar tal como não soube da intervenção de Leonor. Aliás, ninguém soube.
Por várias vezes Afonso tinha perguntado a Leonor se sabia o que se passava com Duarte e ela tinha mantido a mesma versão: parece que estava à beira de uma depressão ou de um esgotamento, seja lá o que isso for, e de tal forma devia ser, que os médicos o mandaram internar.
Neste jantar não está também a mulher de Afonso. De resto, foi uma surpresa para toda a gente. Quando não a viram, toda a gente lhe perguntou por ela. Com ar descontraído, informou que se estavam a separar. Os próprios colegas ficaram a saber naquela altura com excepção de Manel a quem ele tinha dito antes. Algumas senhoras ensaiaram um ar compungido mas alguns dos colegas levaram o caso para a brincadeira, Pois o que seria de esperar? Quem é que atura um tipo destes? E outro, mais malandreco acrescentou logo, Parece que a coisa correu tão, tão mal que ela até terá trocado de gostos: parece que o trocou por uma e não por um. Afonso riu-se, via-se que era assunto que não o incomodava.
Leonor ouvia e sorria, como se o assunto para ela fosse tão irrelevante como para cada um dos restantes.
O jantar foi requintado como sempre mas, desta vez, houve uma inovação: juntou-se à cozinheira um chef conceituadíssimo que preparou algumas iguarias de tipo cozinha de fusão e, em conjunto, serviram uma surpreendente ementa de degustação. A qualidade e criatividade das receitas animaram ainda mais o ambiente que, no entanto, se manteve no mesmo registo suave, adoçado pela luz das velas.
Mais para o fim do jantar Leonor sentiu um pé a subir pela sua perna. Afastou-o quase sem se mexer e continuou a conversar como se nada se passasse. Admitiu que fosse Afonso mas ele também conversava naturalmente com as pessoas do lado e nada no semblante o poderia denunciar.
No final, a cozinheira e o chef vieram saber se tinha estado tudo bem e toda a gente louvou e agradeceu a arte e a perícia que eles tinham demonstrado na confecção da refeição. Depois, na mesa da sala, havia uns saquinhos com umas lembranças.
Despediram-se com boa disposição e, em alguns casos, com verdadeira estima pessoal. Leonor lamentava que o seu amigo Dr. Lampião e a mulher, uma senhora muito querida, não estivessem, mas era sabido que, mal Dezembro começava, eles não descansavam enquanto não rumavam a norte. Por lá as temperaturas exteriores são frias mas o seu coração aquece-se com o calor do reencontro dos seus. Nem a ele, nos mails que trocam, Leonor tinha contado o que se estava a passar com Duarte. Dir-lhe-á mais tarde, e só a ele, pessoalmente.
Quando se estavam a despedir uns dos outros, Duarte que, como de costume, estava de moto, como quem não quer a coisa disse a Leonor, Hoje está para além de boazona. E esse vestido fica-lhe a matar… Posso ir conferir como estamos de underwear?
Leonor com o ar mais normal do mundo, os outros vendo-os a conversar daquela forma pensarão que estão a falar de trabalho, respondeu-lhe, Hoje quero serviço de massagem. Tem competência para isso? Se tiver, dispenso o massagista brasileiro que contratei e arrisco pôr-me nas suas mãos. Pelo caminho, noite fria e escura, estradas ladeadas por grandes árvores, Afonso foi a serpentear na estrada, ora ultrapassando o carro de Leonor ora deixando-se ultrapassar.
Leonor entrou na garagem, Afonso estacionou no passeio.
Quando Afonso tocou à campainha já Leonor o esperava. Afonso zangou-se, Mas o que vem a ser isto? Já despida? E toda despenteada? Querem ver que me atrasei...? Já aqui esteve o massagista brasileiro ou quê?
Leonor olhou-o e, em voz baixa, perguntou, Estou mal?
- Não... Mas é que estava tão boazona, queria tê-la assim só para mim. E queria ser eu a despi-la devagarinho.
Olha para ele, que abusador... Mas ainda não percebeu que está aqui só como massagista? Por isso, vá lá, profissionalismo, se faz favor.
- Então, vá, vamos tratar do ambiente. Vou escolher uma música apropriada. Vá-se pondo a jeito. Já sei, Agnes Obel. Vai gostar. Ouça. Deixe-se ir.
- Vá, não lhe disse para se pôr a jeito? Deite-se de barriga para baixo. E feche os olhos, não olhe assim para mim... senão não respondo por mim. Sinta as minhas mãos no seu corpo. E descontraia.
Leonor respondeu, Eu estou descontraída, você é que está desfocado. Concentre-se na massagem e pare você de olhar assim para mim.
- O que é que quer? Sou um simples amador. Se quer profissionalismo, se calhar é melhor chamar mesmo o brasileiro.
Leonor disse, toda ela malícia, Já é tarde para isso senão chamava-o e você ficava a ver... para aprender. Mas daqui a nada você tem que se ir embora, e ainda temos que dormir alguma coisa.
- Mas, ó Leonor..., nem hoje me vai deixar ficar cá a dormir...?
Nem pense. E vá, se não tem competência para me dar uma massagem, ao menos dispa-se e venha aqui para o meu lado.
Afonso despiu-se, pegou num papel e num lápis que estava na mesa de cabeceira, e provocou, Sim, doutora. Diga lá então o que é que quer que eu faça agora, mas diga tudo, step by step, dite que eu escrevo que é para não falhar nada.
Leonor olhou-o nos olhos, toda ela entrega, sedução, gozo, Largue o papel. Não vou dizer nada. Improvise. Faça o que quiser. No fim logo toma nota de algumas acções de melhoria. Agora não. Agora limite-se a provar do que é capaz.
E ele assim fez.
THE END
*****
As músicas são, respectivamente:
Have yourself a little Merry Christmas, por Melody Gardot e
Close Watch por Agnes Obel
Este é o último episódio desta história. Dei-lhe o nome de Leonor e Afonso e pode ser lida de seguida, (do primeiro ao último episódio, de baixo para cima, claro) se procurarem esse título nas etiquetas aí em baixo do lado direito. Se quiserem ler apenas o episódio de ontem, está aqui: Duarte - a queda do belo albatroz
*****
Sobre a morte de Madiba poderão descer um pouco mais que está já aqui a seguir.
*****
E, por hoje, é isto.
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira!
Ao fim do dia Afonso enviou um mail a Leonor dizendo: 6º de temperatura no máximo. Persiste na maluquice de ir andar à noite para a beira do rio?
Leonor respondeu: Está dispensado (aliás só costuma ir porque quer). Hoje vou fazer compras de natal.
Afonso respondeu: Para isso ainda é preciso mais coragem. Até amanhã então, vou sair. Porte-se bem, olhe a austeridade, não gaste o que não tem. Mas para mim não se iniba, gaste à vontade.
Leonor não estava para graças. Respondeu apenas: :)
Mas não foi fazer compras. Pelo caminho foi ouvindo Riverside, recomendação do seu bom amigo. Dirigiu-se ao rio mas não saíu logo do carro, deixou-se ficar a ouvir uma e outra vez, olhos fechados, o pensamento em círculo, E agora? E agora faço o quê? E só pensava no problema que tinha em mãos e na agressividade de Duarte. Tomara ter alguém ali a seu lado.
Why do I go here all alone, dizia a canção
Depois foi andar sozinha, o ar muito frio, o coração apertado, as mãos nos bolsos. Tanto, tanto frio, uma maresia aguda, uma preocupação que não sabia com quem dividir.
Down by the river by the boats
Where everybody goes to be alone
As noites assim junto ao rio têm um mistério que encanta os apaixonados mas que assusta quem por ali anda desprotegido. Leonor sentia o frio tão frio, o ar húmido, a aragem cortante. E mantinha a passada certa, apressada, avançava contra os medos. Tantos os medos.
Down by the water the riverbed
Somebody calls you somebody says
swim with the current and float away
Depois, gelada, cansada, conduziu até casa e tomara que tivesse antes sido para bem longe, que tivesse flutuado nas frias águas do rio para outro continente, e foi ouvindo a mesma música uma e outra vez.
Quando estava a chegar a casa, desejando um duche bem quente e demorado, tocou o telemóvel. Não conhecia o número. Estranhou uma chamada de um número que não identificava àquela hora. Hesitou mas pensou que, se fosse algo de mau, não teria o número visível. Atendeu.
- Leonor?
Quem fala?
- É Maria João, mulher do Duarte.
Leonor atirou-se para o sofá, aterrada, como que um antecipado sentimento de culpa. O que seria? Àquela hora? Algum acidente?
Sim, sou eu. Diga. Aconteceu alguma coisa?
Um silêncio do outro lado e depois, em voz ansiosa, Não sei, acho que sim mas não sei. O meu marido não anda nada bem. Anda muito nervoso, anda estranho, não dorme, grita com os miúdos, hoje falou-me em demitir-se, em ir para fora. Diz que está com problemas na empresa, que discutiu consigo, por isso lhe estou a ligar, procurei o seu número no telemóvel dele. Desculpe-me mas é que não sei o que fazer, não sei o que se passa.
Leonor sentiu-se trémula. Cheia de frio. Cheia de medo. Medo também de estar a empolar uma coisa sem importância. O que dizer?
- Está?
Estou, sim. Estava a ouvi-la.
- Desculpe, é que não a ouvia. Desculpe estar a incomodá-la a esta hora mas é que ele saíu de casa agora, ia desnorteado, nervoso, discutimos, discutiu com os filhos, e eu sem saber a quem pedir ajuda, mas não estou a pedir ajuda, estou só a querer perceber, desculpe a esta hora.
Deixe, não tem mal. Mas não sei bem o que lhe dizer. Ele anda nervoso, sim, mas acho que é o normal, é a pressão normal, se calhar ele anda mais cansado, são fases, passam, se calhar não há razão para preocupação, talvez ele devesse descansar.
- Mas ele disse que teve uma discussão consigo, que nunca esperaria isso de si. Eu em condições normais nunca lhe telefonaria por causa de uma coisa destas mas, da maneira que o vejo, já nem sei o que hei-de fazer e se pergunto é porque se eu soubesse o que se passa talvez pudesse ajudá-lo, não sei.
Mas não foi nada de especial, coisas de trabalho, diferentes maneiras de ver as coisas, nada de mais.
- Mas a empresa está mal, não está? Não sei se é também isso que o está a deixar preocupado.
Mal? Não. Mal não. Passamos por uma fase muito difícil, a conjuntura é a que se sabe mas, enfim, dadas as circunstâncias até não nos podemos queixar.
- Ah, pensei... como deixaram de pagar prémios e como cortaram os ordenados, pensei...
Leonor fechou os olhos, pôs a mão na cara, apeteceu-lhe chorar. Ficou sem saber o que fazer. Meu Deus. Duarte, Duarte, o que se passa?, pensou.
- Está?
Estou. Estou muito cansada, sabe. Tinha acabado de chegar a casa. Não me leve a mal. Percebo a sua preocupação mas não sei bem o que lhe dizer. Talvez convencer o Duarte a ir ao médico, a tirar uns dias. Mas deixe estar que eu amanhã vou conversar com ele. Depois, se eu achar que devo falar consigo, descanse, eu falo.
- Obrigada. Agradeço. E desculpe a maçada. Obrigada.
Leonor desligou o telemóvel, pareceu-lhe que a mulher do colega estava a chorar ou a controlar-se para não chorar. Deitou-se no sofá, tapou-se toda com uma manta, cabeça e tudo, e desatou a chorar. Tanto o estranhamento, tanto o medo pelo que se poderia estar a passar, tanta a impotência. Em silêncio ouvia-se a perguntar, Duarte. Duarte o que se passa?
No dia seguinte tentaria falar com ele num outro registo e tomara que não se estivesse a passar nada de grave mas estava com um mau pressentimento. Adormeceu ali mesmo no sofá, a tremer.
*
A música linda, linda, é Riverside de Agnes Obel (e o vídeo merece também ser visto com atenção).
Para quem aqui chegou de novo: este episódio vem no seguimento do de ontem intitulado Duarte e Leonor (as coisas começam a complicar-se), episódio esse que já era continuação de outros, sempre referenciados em cada episódio.
...
Para um registo nos antípodas, para saberem a minha opinião sobre o grande feito da troca da dívida da troca-tintas-albuquerca e, a seguir, sobre as arrecuas da cobra-crata, é descerem, por favor, até aos dois post seguintes.
Num formato um pouco diferente do habitual, tenho hoje o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa onde tenho poesia dita por Eugénio de Andrade e as minhas palavras perdem o tino por causa de um certo Green God. Muito gostaria de vos ver por lá.
NB: Hoje, uma vez mais, não consigo reler o que escrevi, passa das 2 da manhã e o sono é mais que muito. Já sabem, qualquer coisinha relevem, está bem? Mas coisas graves, avisem-me, sim?
*
E resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira!