Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, novembro 25, 2019

Podia ficar-me pelo meu encantamento in heaven ou pela maravilhosa decadência do Ginjal.
Mas prefiro chamar a vossa atenção para aquilo que sabem.





Fim de semana tranquilo. Mas não estive na melhor forma, estive um pouco adoentada. Resfriei-me na sexta-feira e mais do que pensava. 

No sábado estive no campo. De tarde, pensei que estava melhor, pus-me a passear por entre as árvores, andei nas minhas deambulações, nem dei pelo frio. 

Voltaram a aparecer as pegadas de bicho grande, a terra escavada. Eu estava longe mas pareceu-me o meu nome chamado pelo meu marido. Era ele mesmo: tinha visto aquelas marcas, quis alertar-me não fosse haver javalis por ali. Mas não. Provavelmente só por ali andam à noite. Pelo menos, assim o espero.


O que é curioso é que aparentemente andam a lavrar a terra com o focinho ou com as patas exactamente nos mesmos sítios onde andaram antes. A minha mãe no outro dia, quando lhe mostrei fotografias de tantos cogumelos, disse: 'Se calhar, também por lá tens trufas'. Não sei, não faço ideia. Mas, ao ver como a terra está, fico com a ideia de que há animais por ali a quererem encontrar alguma coisa. Será mesmo trufas? Nem sei como descobri-las. Sei que se parecem com torrões de terra pelo que não faço ideia de como procurá-las. E há também muitos cogumelos arrancados, meio comidos.


O campo está verde, lindo. Tudo se cobre de musgos, de líquenes. Não consigo olhar para os campos e ver ali o ocaso de nada. Pelo contrário, o próprio processo de transformação das folhas rubras em nada, misturando-se e preparando-se para a a dissolução final, tudo me parece um fenómeno maravilhoso, de uma beleza difícil de reproduzir ou descrever, como se tudo estivesse a nascer, a acontecer.


As cores e os perfumes e as aragens enchem o espaço bem como o canto dos pássaros que parecem andar mais felizes e livres do que nunca. 

Fotografo, fotografo. Parece que nunca vi tamanha beleza, parece que é um milagre que estou a testemunhar pela primeira e única vez, parece que é uma bênção de que me é dado fazer parte.


O sentimento de pertença que ali sinto envolve-me toda, todas as células do meu corpo. Uma paz, uma felicidade, uma harmonia tão absoluta, uma total fusão com a terra, com o ar que transporta cheiros e cantos, com a magia da luz cuja cor muda os cenários em minha volta. Um estado de encantamento, de puro e agradecido encantamento. Não sei dizer de outra forma.


Convencida de que já estava bem, fui à noite a casa dos meus pais. Por precaução, levei a echarpe em volta do pescoço, a tapar-me a boca. Embora um resfriado não seja contagioso, não quero que haja o risco de lhes passar alguma coisa.

Mas talvez tenha voltado a apanhar frio. Este domingo de manhã estava outra vez um pouco congestionada mas, como não tenho paciência para estar fechada e me apetecia ir a um sítio onde não ia há algum tempo, fomos ao Ginjal.


E, de novo, aquela sensação de alegria pela descoberta. A cada vez que lá volto as paredes estão diferentes. Como um ser vivo que se transmuta, assim aquelas velhas e decadentes paredes: sempre novas, cada vez mais belas. 


Fotografei, fotografei. Como é possível um lugar assim?

Lisboa vista dali é bela, magnífica. Tão bonito tudo. E tão bom andar por ali. A maré muito cheia, as águas muito perto, aquela frescura boa, molhada, aquele cheiro a beira do rio, aquela vastidão, aquela perfeição que as paredes grafitadas, tingidas, devastadas pelo tempo apenas complementam. E o rio, largo, imenso. E os barcos e as gaivotas e as pessoas. Tudo tão bom, tão bonito.


E, de novo, devo ter apanhado algum frio pois voltei a sentir-me pior. Felizmente a mim o chá quente e uma sesta fazem milagres e voltei a sentir-me boa. 

Estive a ler. Cercada de livros, no conforto desta minha sala tão acolhedora, com um chá quente, com uma luz a incidir nas páginas e pouco mais, eu estou nas minhas sete quintas.

O meu marido antecipou-se-me e está ele com o Augustus do Stoner. Não faz mal, leio-o a seguir. Estive com aqueles livros em que os arquitectos falam das suas casas, mostrando como é o lugar onde vivem. Gosto do que dizem os arquitectos (alguns arquitectos). Casas, objectos, memórias, o espaço, a luz, o interior e o exterior, o conforto, a simplicidade, a história das suas vidas, a partilha -- uma maneira interessante de falar das coisas.

E agora que aqui estou, depois de há bocado ter escrito sobre a Joacine e o Livre, estou a ouvir a chuva, a ouvir música, sons bons que se misturam, feliz e tranquila, sentindo o conforto bom da minha casa.

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Antes de começar a escrever vinha com a ideia de falar um pouco mais sobre como é impossível romper com o sistema (seja lá o que isso, na realidade, significa) estando dentro do sistema como, por vezes, ingenuamente parecem acreditar os que se deixam encantar por falas aparentemente rebeldes como as do Livre (e digo isto simpatizando com o Rui Tavares a quem acho um homem genuinamente bem intencionado).

E tinha a ideia de mostrar um vídeo que me impressiona bastante. E impressiona-me não apenas pelo vídeo em si mas porque fico a pensar que o mundo poderia ser um lugar menos perigoso se mais pessoas, em lugares de decisão e poder, pensassem e agissem como parece que o protagonista deste vídeo, Feike Sijbesma, CEO da DSM, pensa. Mas não sou ingénua. As disparidades são tão abissais, o mal feito ao planeta é tamanho, a estupidez intrínseca dos humanos é tão destruidora que não é a visão solidária e inclusiva de uma pessoa, ou de cem pessoas que sejam, mesmo de mil pessoas, mesmo de cem mil pessoas que vão fazer a diferença.

Ou talvez seja. Talvez.

Talvez se muitas vozes se levantarem, talvez se, em vez de se propagarem mentiras, intrigas, futilidades e disparates nas redes sociais e na comunicação social, se difundirem bons exemplos, gritos de alerta, passos no caminho certo, talvez progressivamente haja uma leve inflexão no sentido da destruição, talvez nos desviemos da rota para o abismo que temos vindo a trilhar. Talvez. 

You know


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Sergei Polunin está lá em cima no lugar das bandas sonoras mas, obviamente, é mais, muito, muito mais que isso. Não deixem, por favor, de ver como ele voa.

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E uma boa semana a todos a começar já por esta segunda-feira.

quinta-feira, outubro 24, 2019

O meu avô. A vida simples.
[E Li Ziqi que mostra como se comem as castanhas chinesas, como se fazem candeeiros e cestos, etc.]





O meu avô, que viveu uma vida longa, teve uma infância difícil. Contudo, isto sou eu a dizer porque a ele nunca ouvi um queixume nem o meu pai ou a minha avó alguma vez o referiram. Já o contei. De família abastada, o meu bisavô cedo se perdeu em mulheres e jogo, perdendo casas, terras, animais e, quando nada mais restava que a casa onde vivia com a mulher e três filhos pequenos, creio que para escapar a dívidas e vexames, fugiu para longe e, esqueci-me e ainda não me lembrei de perguntar á minha mãe, foi para a Argentina ou para a Venezuela. Não faço ideia o que aconteceu a seguir. Só sei que, ainda adolescente, o meu avô se fez à estrada e começou a trabalhar onde calhava. Presumo que se deslocasse a pé. Ou, então, de bicicleta. Andou de bicicleta até aos oitenta e muitos anos. O meu pai e o meu tio tinham medo, diziam que ele já não ouvia bem, que já não tinha idade para andar de bicicleta. Ele fingia que não ouvia, e continuava a fazer o que queria. Lembro-me dele com a cana de pesca em diagonal nas costas e a cesta para o peixe presa atrás.


Trabalhou em França e eu gostava imenso de o ouvir a falar em francês. Depois, não sei como, foi parar onde se fixou. Ali trabalhou até se reformar, vivendo perto. A casa tinha um terreno ao lado, onde tinha árvores de fruto e uma horta. Depois o terreno subia em socalcos onde ele, em pequenos talhões, plantava alhos, cebolas, favas, batatas. O terreno ia até lá muito acima. Acedia-se aos níveis superiores por caminhos, degraus, caminhos, degraus. Cá em baixo, tinha ainda uma capoeira grande; mas isso era pelouro da minha avó.

Lembro-me do meu avô sempre ocupado. Sempre que possível, ia à pesca e vinha carregado de peixes que eu pedia sempre para arranjar, as mãos mergulhadas nas vísceras, os dedos nas guelras puxando as tripas que vinham agarradas, ensanguentadas. E a minha avó sempre com medo que tivesse ficado um anzol na goela e eu ficasse presa. 


Ou, então, tratava da horta ou apanhava fruta. E a minha avó sempre a zangar-se por ele não limpar bem os pés no tapete que havia à porta da cozinha e levar terra agarrada aos sapatos. E ele a fingir que não ouvia. Mas nas mãos dele tudo passava por cuidados que me maravilhavam. Ele apanhava as cebolas e os alhos com a rama e entrançava-as, fazendo réstias que pendurava naquilo a que chamávamos 'a casinha'. Também o tomate. Havia tomate maduro todo o ano pois não se estragavam. A casinha tinha pouca luz. Talvez fosse por isso. Não sei. Quando alguma galinha ficava choca, era também nessa casinha, não tão pequena quanto isso, que se deitava a galinha, numa cama que lhe faziam, onde estavam os ovos. Por isso, era aí que nasciam os pintainhos. 

No quintal, havia ainda a casinha das ferramentas e a bancada onde estava um torno. Contudo, penso que o que ele aí fazia tinha sempre a ver ou com fazer um portão de madeira, ou uma escada para ir à fruta, ou um banco de madeira para a capoeira. Coisas assim, simples.


E tinha uma arte. E essa arte fascinava-me. Dos seus tempos de criança tinha-lhe ficado a lembrança da cestaria. Devia evocar a lembrança das pessoas da terra e, aos poucos, foi tentando reproduzir os movimentos e cada vez fazia melhor. Creio que ele falava em palma. Creio. Eram folhas estreitas e finas que ele abria ou dobrava. Tenho ideia que umas vezes fazia com as folhas secas e outras com elas ainda frescas. Fazia cestos para guardar os ovos, cestos para a fruta. Não eram muito perfeitas e, portanto, não se usavam como objecto decorativo. Mas eu gostava tanto. Gostava em especial quando ele os fazia com asas de lado ou uma única, ao alto, grande, a meio. Tenho ideia que uma vez pensei que queria ficar com uma recordação e quis uma dessas cestinhas. Mas com as mudanças de casa, com o tempo a passar, às tantas, perdi o rasto a uma que tinha. Não sei como foi possível. Ficou apenas a terna recordação.


Eu olhava para aquele avô com um grande fascínio. Como viveu até tarde, lembro-me especialmente dele quando reformado. Depois de almoço, sentava-se no cadeirão de madeira que agora tenho lá em casa, in heaven, ligava a televisão ou o rádio, pegava num jornal ou num livro, lia, e, por vezes, dormitava. Tirando isso, andava sempre ocupado. Nunca se zangava, nunca protestava. Por ele estava sempre tudo bem. A minha avó queixava-se do reumático ou das artroses, queixava-se dos filhos, queixava-se da outra nora que a afastava do filho, queixava-se de uma ou outra vizinha, queixava-se de ele trazer muito peixe e de ela já não ter paciência para o arranjar, queixava-se de ele ser pouco cuidadoso com o quintal, com o jardim e com as flores. Ele fazia de conta que não ouvia e, à socapa, sorria para mim. 


Sempre tive uma grande cumplicidade com ele. Quando deixei um namorado, ela preocupou-se e, quando apareci logo com outro, preocupou-se ainda mais. E quando aos vinte lhe disse que ia casar ainda mais preocupada ela ficou. Ele não. Ele não dizia nada, apenas sorria, deixava-a fazer os dramas. Não era bem dramas, era mais como se fosse uma agonia que ela tentasse disfarçar sem o conseguir. Nesse dia em que, em casa dos meus pais, eu lhes disse que dentro de um mês ia estar casada e que ela ficou arrasada ele ficou como se nada se passasse. Apenas veio ao pé de nós, de mim e do meu namorado, e disse: ela casou-se aos dezoito e ao fim de pouco tempo, já o teu pai tinha nascido e, pouco depois, o teu tio. Eu tinha vinte e cinco mas ela tinha dezoito. Por isso, aos vinte parece-me uma boa idade. 

Isto do lado desse meu avô.
Esqueci-me de referir um aspecto que talvez explique muitas coisas. Ele tinha umas feições levemente orientais que o filho mais novo herdou e de que uma das minhas primas ainda é portadora. Penso que talvez por isso tivesse aquela paciência de chinês.
Do lado da minha avó do lado da minha mãe era também sempre uma actividade mas aí uma coisa mais restrita: era renda. Fazia rendas lindas. Colchas, toalhas de mesa, rendas para lençóis, entremeios de mesa. Nunca estava sem nada que fazer e era altamente produtiva. Tenho várias coisas feitas por ela. 'Tirava' por amostras, 'tirava' por revistas, 'tirava' por onde calhasse. Eu adorava ver a destreza daquelas mãos.


Talvez por isso, quer a minha mãe, quer o meu pai sempre foram muito activos, sempre ocupados, muito habilidosos. Com o que calhasse. Contudo, lembro-me especialmente dessa actividade e criatividade depois de reformados pois antes a vida profissional ocupava-os bastante. 

E, talvez também por isso, eu seja como sou, incapaz de estar sem nada que fazer. Contudo, vejo-me limitada. Limitada, desde logo, em tempo. E, talvez tão importante como a falta de tempo, é o sentir-me limitada pelo preconceito de recear não saber fazer. O receio contraria a confiança e para se fazer o que se quer é preciso ser-se afoito. E para se ser afoito é precisa ignorância. Ora, se a gente se põe a pensar muito, estraga a ignorância, perde a afoiteza e lá se vão os sonhos.

Mas, senhores, que vontade sempre tenho de fazer coisas. Pintar, fazer tapetes, fotografar (como estas fotografias que fiz no outro dia in heaven), cozinhar, varrer, escrever. E outras coisas. Tantas outras coisas.


. . .   &   . . .

Já aqui mostrei muitas vezes aqueles vídeos que, para mim, são uma fonte de tranquilidade. Os movimentos serenos da jovem Li Ziqi, os seus passeios pelos bosques, a forma harmoniosa como se move, os gestos ancestrais no manuseio de frutos, de flores, o fogo, os preparados que faz, a comida que confecciona, as peças que talha. Tudo me faz ficar presa a olhar. Mesmo que não perceba o que faz, mesmo que não saiba que produtos usa. Mesmo assim eu fico a olhar. Penso que era uma vida assim que eu gostava de ter. Uma vida simples, sem tempo, sem pressa, sem ruído, embalada pelo canto dos pássaros. 

Fazer coisas bonitas para a casa.

(E foi por vê-la a fazer cestas que me lembrei tanto do meu avô)



Os frutos secos do Outono



Mas quem é Li Ziqui que tem milhões de seguidores?


Desejo-vos uma quinta-feira tranquila e boa

segunda-feira, outubro 21, 2019

"A realidade é aquela coisa que não se vai embora quando se deixa de acreditar nela." *





Se vos contasse o que me apetecia poder sentir a liberdade de cortar amarras, de partir à descoberta, começar uma nova vida. 
Bem, não todas. Há amarras que não são amarras, são laços, laços indestrutíveis. Desses jamais me poderei separar. Mas há outros que sim. Facilmente seria capaz de desfazer os nós e sair sem voltar para trás.
Sinto, por vezes, que me poderia abeirar de uma estrada nova onde me sentiria como me gosto de me sentir: sem saber o que vou encontrar.


Lembro-me quando fui a uma entrevista há muitos anos, sem saber nada, nem qual a empresa, nem o que ia fazer. Fui. Quase como se fosse de olhos vendados. Lembro-me de quando comecei a trabalhar nesse sítio depois de passar por entrevistas, algumas bem desafiantes. Mandaram-me apresentar num sítio onde antes nunca tinha ido. Não fazia ideia. Fui à aventura. Quando fui ao departamento de recursos humanos fiz algumas perguntas que deixaram a pessoa que estava a acolher-me muito espantada: mas não se informou antes? Aceitou o emprego sem se informar? De facto, não. E estar a ocorrer-me ali fazer aquelas perguntas até a mim me surpreendeu.

Ao contrário de outras pessoas que se informam, que estudam tudo antes de para irem a algum lado, eu gosto assim. Blind date. É como quando vou visitar outra terra. Conheço quem estude os locais, os restaurantes, estabeleça percursos, e vá conhecer a terra como se fosse apenas confirmar na prática aquilo que já conhece na teoria. Eu não. Quero descobrir, quero surpreender-me.

E é o que me apetece: iniciar uma nova ocupação, conhecer outras gentes, outro mindset. Encalhei no mindset e tive que ir ver a tradução. Mentalidade. É isso: outra mentalidade, outro comprimento de onda, outro ambiente, outras palavras. 


Uma das vezes em que uma das empresas passou por uma fusão foi, para mim, um entusiasmo. Disseram-me, tal como disseram a outros colegas: agora vai ser responsável também por aquilo. E aquilo era algo que eu desconhecia em absoluto: o local onde trabalhavam, o que faziam, quem eram. Enquanto os meus outros colegas ficaram a processar, a avaliar como fariam a abordagem à pista, a estudar processos e os perfis das novas pessoas eu, para surpresa geral, no dia seguinte meti-me no carro e, sem aviso e às cegas, apareci lá. A surpresa de todos, incluindo a minha: foi uma coisa boa, uma daquelas emoções que nos enovela o estômago e nos põe um frémito no corpo todo. Falem-me de vocês, digam-me quem são, contem-me o que fazem. E assim foi: estivemos um dia à conversa. Saí de lá com ideias novas, parecia que tinha entrado num mundo novo. 

Mas agora nem era isso que me apetecia, isso já me parece pouco. Agora era mesmo um outro rumo, uma profissão diferente, hábitos culturais distintos, gente desformatada. 

Interrompi para jogar no euromilhões porque pensei que há o lado prático e isso, na realidade, poderia ser uma ajuda.

E ando com umas ideias. Muitas ideias. 


Por exemplo, acho que isto do clima é coisa muito séria e que medidas de fundo têm que ser tomadas e que há paradigmas que vão ter que ser radicalmente alterados a curto prazo e acho que a ciência e a tecnologia têm que se focar nas prioridades: travar a desertificação, garantir o abastecimento de água potável, conseguir reduzir o aquecimento. E acho que uma destas questões vai passar por encontrar tecnologia acessível. Já entreguei documentação sobre um caminho possível para que se estude o investimento mas quem o recebeu achou a ideia tão à frente que não lhe deu a devida atenção. E eu acho que não estão a ver bem. E acho que é coisa para o Governo, as empresas e as universidades trabalharem em conjunto. Estou a querer puxar pelo lado empresarial mas, às tantas, se calhar deveria puxar por outro. Ou insistir. 

Mas isso eu só gostava de lançar e de acompanhar até garantir que ia mesmo avante. Porque, no mais fundo de mim, o que eu gostava mesmo era de ter tempo para me dedicar a outra actividade, uma coisa muito diferente, um mundo muito novo. Outra gente, outros ambientes, outro mundo. 

E mais. 


Pode soar a loucura e se calhar é e, se calhar, sou meio louca. Ou completamente. Mas não faz mal.

Quando, no meu dia a dia, tenho que aturar gente medíocre que se acha a maior, gente que se agarra  aos seus pequenos poderes, gente que não consegue ver ao longe ou dar espaço a que outros despontem e se afirmem, só me apetece levantar-me e dizer que se vão catar, que já dei demais para tão infértil peditório, que tenho mais que fazer. Debato-me pois com o sentir que tenho que engolir sapos, porque faz parte, ou ser inconveniente, levantar-me, dizer que, se é para ficar, é com gente de confiança, gente capaz. 

E nem sei porque estou com esta conversa quando sei que a vida é assim mesmo. 


Tirando isso, só tenho a dizer que, talvez devido ao adiantado da hora,  tudo me parece possível, quer a capacidade para ir aguentando o lado pior da realidade quer a capacidade de manter em suspenso os sonhos, sonhando um dia poder abraçá-los.

E depois há a natureza, minha sempre presente mestra: ensina-me, maravilha-me, encanta-me, mostra-me o que é a vida, o perecimento, a queda, mas também a reinvenção, o renascimento. 

Por exemplo (e, na verdade, não sei bem o que pretendo exemplificar). Ia a passar e sentia o perfume. Perfume fresco e limpo. Parei. Vi o que me parecia um resto de flores secas, como que um cacho de pequenas flores. Aproximei-me. Cheirei. Era dali que vinha o perfume. Ao pegar para melhor aspirar o perfume, senti que não estavam secas, estavam frescas e macias. E depois reparei que havia mais. Muitas. Muito perfumadas. Nunca as tinha visto. E, no entanto, que lindas e gráceis e perfumadas florzinhas. Que maravilhosa surpresa. Que bom auspício.


As fotografias foram feitas in heaven (e repararam que os cogumelos já começaram a aparecer? e não são lindos, uma perfeição?). Lá em cima Kenny Wheeler & John Taylor interpretam Fordor justamente de Where do we go from here.

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* Com os meus agradecimentos e o devido crédito ao ninghem que escreveu o que coloquei no título e me deixou mais dois presentes num comentário num post mais abaixo.

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E os meus votos de um dia feliz a todos vós

terça-feira, outubro 08, 2019

E, no fim, um milagre







Há pouco os meninos ligaram-me. O bebé informou-me: 'Comi arroz dôche'. Confirmei: 'Arroz doce? Comeste?' E ele: 'Todo!'. Ouvi a mãe a rir. Depois as vozes dos irmãos sobrepuseram-se e já não ouvi bem mas pareceu-me perceber que foi a avó que levou. Deve ter sido. Faz um arroz doce delicioso. Quando há festa, acho que toda a gente já vai a lamber-se só de pensar naquele tabuleiro de arroz-doce. Depois continuou, querendo saber: 'Onde 'tás?'. Respondi: 'Na sala'. Quis saber mais: 'Onde...?'. Esclareci: 'Na sala da televisão, aquela onde estão as mesinhas com que costumas brincar'. Ligeira pausa. E depois: 'Não tás no tânjito?'. Foi a minha vez de processar e, depois, confirmar que tinha percebido bem. 'No trânsito?' e ele 'Xim, não tás no tânjito?'. Desatei a rir. 'Não, hoje não, hoje já estou em casa, estou na sala'. Presumo que tenha sido porque na sexta-feira, quando nos disseram para jantarmos com eles, eu disse que estava no trânsito, presa, sem fazer ideia de quando poderia lá chegar. Não sei se ele sabe o que é o tânjito. Na volta, sabe. Pergunta tudo, sabe tudo.

Mas esta do trânsito por acaso é daquelas que me consome. Sempre no trânsito, todos os dias no trânsito. Os anos de vida que tenho perdido presa no trânsito...

Mas hoje o dia até não foi dos piores mas, de qualquer maneira, é sempre um somatório de momentos por vezes paradoxais, por vezes incómodos. Outras vezes simpáticos.


De tarde, estava um sol bom, a cidade dourada, um céu protector, limpo de sombras. Ponho de lado a apreensão pelo calor deslocado no tempo, pela ausência de chuva, tento pensar que sou mera espectadora de um filme que me é distante. Olhando de dentro, a rua parecia o cenário de um filme tranquilo. E eu pensei que poderia desligar das minhas preocupações -- que, na maioria, seriam escusadas já que são causadas por quem rema em sentido contrário -- e usar o computador para me pôr a inventar histórias ou, simplesmente, a escrever coisas de nada. Mas não, tenho que desviar o olhar e esquecer o apelo que me chega da rua.


Por um momento ainda pensei que talvez pudesse conciliar: ver a apresentação que me enviaram, responder a mails, atender chamadas, despachar umas autorizações e, ao mesmo tempo, ter um documento de word aberto onde, nos intervalos, fosse escrever coisas minhas. Mas, mal pensei nisso, entrou um e sentou-se à minha mesa de reuniões e, sem mais nem ontem, começou a falar e, mal saíu, veio outro perguntar se podia entrar pois tinha um problema para partilhar comigo. E sei lá que mais. Só sei que cheguei ao fim do dia com a folha em branco. Mas também não daria. Não consigo escrever com algum desprendimento de mim se souber que posso ser solicitada no minuto seguinte. Penso que é por isso que me habituei a escrever apenas quando não há movimento de monta à minha volta. Preciso de me sentir alheada.


Agora estou aqui na minha sala e também não estou desligada pois dói-me um joelho. Neste domingo, antes de irmos votar, fomos ter com os outros meninos ao parque. Um lugar idílico onde sabe muito bem estar. Enquanto vou caminhando devagar e conversando com a minha filha, os meninos vão fazendo exercícios nas barras e noutros aparelhos que estão ao longo do caminho. E até aí tudo bem. Só que também me apeteceu fazer exercícios. Não apenas andei a fazer equilibrismo em barras paralelas, várias barras cada uma mais alta que a anterior, como pedalei nas máquinas de pedalar, fiz ginástica às pernas, daquelas em que se faz muita força para as conseguir abrir e fechar, fiz aos braços e aos ombros, baixando e levantando umas alavancas e outra parecida mas com as pernas. Tenho ideia que ouvi a minha filha a dizer ao pai: 'Ai... Amanhã não vai conseguir mexer-se...'. Como é óbvio, não liguei. Tudo o que fiz, fiz sem esforço. Muito menos dor. Nada. Até acelerei nos movimentos. Gosto de fazer exercício e, se ao ar livre, ainda melhor. E tudo tranquilo. Só que, vinte a quatro horas depois, comecei a sentir um certo incómodo num dos joelhos. E agora dói-me mesmo. Já estive a pôr pomada e pode ser que passe mas, quando o joelho dá sinal, eu fico sempre com medo pois já passei por aflições, com ele inchado e eu toda coxa. Isto é o que dá uma pessoa passar os dias no escritório ou no carro e, de exercício, apenas fazer uma simples caminhada diária de uma escassa meia hora. 


E é assim que, vindo eu hoje para casa a ouvir uma bela música na Antena 2, a ver um céu limpo e uma luz dourada sobre o belo casario de Lisboa, desejando chegar a esta minha sala e estar sossegada, longe dos problemas do dia, a ler outros blogs, a escrever palavras também serenas, estou é a falar do meu joelho burguês e sedentário.

E tudo isto, na volta, é mas é para não falar no que interessa. E isto de eu dizer que é o que interessa também é relativo. Aliás, sendo tudo relativo, algumas coisas são mais e outras menos relativas. E esta é daquelas que é coisa nenhuma, é rêverie, é loucura, é tudo.

Mas vou directa ao assunto: estava eu a passear in heaven, descobrindo cada coisa como se nascida no nada, tudo coisa nova, tudo razão para encantamento, tudo milagre. Os meus muros cheios de cor, as árvores que plantei e que estão gigantes como palácios, como castelos, como fortalezas, a glicínia dourada entrelaçada nas ramagens da azinheira que chega ao céu. Os cãezinhos pequeninos que vêm de lá do fundo, da casa do outro lado da rua, e se põem a olhar para mim, muito intrigados.

Fotografei tudo.

E então, neste estado de maravilhado apaziguamento, olhei para o céu e vi. Um milagre. Vi.


A pluma azul tinha derramado a cor sobre a página em branco e agora todo o fundo estava azul. E a pluma estava nua, em toda a sua alvura, em toda a sua pureza. E eu pensei que daquela pluma as palavras haverão de nascer ainda mais límpidas, plenas de luz, inocentes na sua infinita transparência. E eu pensei que só podia ser milagre.

E fotografei para que também possam testemunhar o que os meus olhos incrédulos viram.

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Desejo-lhe um dia feliz

domingo, outubro 06, 2019

Crónica de um dia de reflexão in heaven
[Sendo que reflecti sobre muita coisa excepto, que me lembre, no que desaprendi durante a campanha pouco alegre destas eleições]





No outro dia dei dois vestidos meus à minha filha. Ela olhou para os vestidos e espantou-se por eu ter cabido neles. Não foi há muito tempo. Tento localizar no tempo e diria que talvez uns seis anos, por aí. Usava o 38 que, em letra, equivale ao M. A minha mãe diz que com ela foi a mesma coisa, diz que, com a menopausa, a roupa deixou de lhe servir, diz que, nessa altura, parece que alargou e que ficou com mais peito. Agora não, agora está outra vez mais delgada, elegante mesmo.


Os vestidos que dei à minha filha são intemporais; se calhar, se daqui por uns anos voltar ao 38, ainda me ficariam bem. Mas acho que não faz sentido estar a guardá-los, ficam-lhe a ela muito bem. São ambos de tecidos muito fininhos, ambos em verde, um em verde mais colorido estampado em flores cinzentas e outro num mesclado mais pastel em diferentes tons de verdes secos e beige. O primeiro é forrado mas o segundo não, fica completamente transparente. A minha filha disse que deveria ter um interior mas não o encontrei. Lembrei-me depois que sim, tinha, em malhinha de seda muito fina, em verde seco. Mas perdi-lhe o rasto. Há coisas que, na minha casa, desaparecem. Nunca me preocupo pois sei que voltam a aparecer. Só que agora é que dava jeito, não é quando lhes apetecer ver a luz do dia. Por isso, ela não o tem conseguido vestir. Lembrei-me que a minha mãe devia ter combinações. Este sábado de manhã, lá em casa, lembrei-me disso. Foi a uma gaveta do roupeiro e estava cheia de combinações e camisas de dormir de alças, umas de seda muito fina, outras de algodão também muito fino, com rendinhas ou bordados. Nunca usei combinação, nunca me dei bem com muita coisa em cima do corpo. Mas acho bonito, assim, dobradas, perfumadas, macias. Trouxe uma em seda numa cor que não sei definir, talvez um beige-profundo, talvez um rosa-velho esbatido. Tem cortes e pinças para se colar ao corpo, tem um decote elegante, tem umas rendas bonitas. Não sei é se não lhe estará um pouco larga na cintura. A minha mãe diz que não faz mal, se ela gostar, aperta-a nos lados. Trouxe-a para ela experimentar.


Ontem a minha nora também estava com uma blusinha arrendada, às flores, num colorido suave, que era minha. Também me estava justa demais e a ela fica mesmo bem. No outro dia, quando chegou lá a casa, disse que não tinha era um casaco quentinho que ficasse bem com o vestido que vai levar a um casamento, daqui por uns dias. Fui à procura e encontrei um casaco curto, escuro, em veludo muito leve. Ela achou que ficaria a matar. Disse que à noite já está frio e que preferia ir prevenida. Perguntei-lhe se precisava de uma estola e fui buscar uma de pele para ela ver. Ela, que estava de saia de verão, tshirt e sandálias, vestiu o casaco de veludo e colocou a estola e apareceu assim ao pé do meu filho que não tinha acompanhado a conversa. Espantou-se: 'O que é isso?!'. Ela disse que era para o casamento. Ele respondeu: 'Não me parece bem que vás mascarada'. Ela explicou que não ia levar a estola mas o casaco sim. Entretanto, a bonequinha mais linda agarrou no casaco e na estola, aperaltou-se e desfilou, linda. A mãe disse: 'A ela tudo lhe fica bem' e o meu filho olhou para a filha e não disse nada, penso que também achou que estava linda. Depois, toda coquette, pôs uns óculos meio malucos, de carnaval, que por lá andam e ficou deliciosamente extravagante. Tentei fotografá-la mas fez-se rogada. Tem alma de sedutora, um caso sério. Penso que ela herdará muitas roupas minhas. Tem um gosto muito parecido com o meu. Não receia ousar.


Mas é isto, passamos a roupa de umas para as outras. Por exemplo, no verão, usei muito, aqui, in heaven, uma blusinha fininha que era da minha filha e que ela já não veste e gosto da forma como me cai. E uso cá, por vezes, um vestido comprido, de alças, de algodão indiano em vermelhos florais, que era da minha cunhada.

Com os miúdos, então, nem se fala. Tirando o que se estraga, herdam tudo, passa de uns para outros. Só o mais crescido é que as inaugura a todas. Ela, a bonequinha mais linda, herda da filha de uma prima da mãe. 

Hoje a minha mãe, quando abriu o roupeiro, olhando para a roupa do meu pai, disse: tanta roupa que já não vai voltar a vestir, só se houver um milagre. Pensei que há milagres que, mesmo sendo milagres, são inexequíveis. E mostrou uns blusões bons e disse que, se calhar, ficavam bem ao meu marido. Ainda nem lhe disse. Nessa altura já estava no carro à minha espera, já não ouviu a conversa. Aliás, já estava era a ligar-me. Nem atendi, já sabia que era para me despachar.


No carro continuei a leitura de A mulher do meio. Gosto mesmo muito da forma como a Ivone Mendes da Silva escreve. O que ela conta não é nada de extraordinário, é apenas o seu dia a dia. Vai ao café, escreve, evita as pessoas conhecidas para não ter que lhes falar, caminha, gosta de olhar para dentro das casas quando à noite têm as luzes acesas e alguma janela aberta, enrola-se num xaile, bebe chá, fala do barulho do vento, fala das molhas que apanha quando está a caminhar e desata a chover, fala de uma mulher que faz árvores genealógicas no café, fala de uma flor no parapeito, fala do silêncio e da distância de que precisa. Mas fala de uma maneira tão fractal, uma escrita tão perfeita, que é um prazer lê-la.


De tarde, depois de almoço, deixei-me dormir. Só aqui, quando estamos apenas os dois, é que eu ponho verdadeiramente o sono em dia. Não há barulho, não há compromissos. Há apenas quietude e sossego.  

Depois, quando acordei, andava ele a regar e eu fui caminhar um pouco. Foi enquanto caminhava que tentei ler o maravilhoso poema da flor e não consegui. Há pouco estive a lê-lo ao meu marido, consegui. Ele ficou em silêncio e, quando lhe perguntei, disse-me que sim, que era muito bonito, que tinha gostado. E percebi que também o tocou.

Enquanto andei a caminhar, o frio já se fazia sentir, tive que vestir um casaco.

Fotografei tudo. Estava com saudades, tudo me pareceu de uma beleza reconquistada.


Descobri na rocha, num lugar para onde não vou muito, outro daqueles buraquinhos redondos. Enfiei lá dentro um pau comprido e não lhe senti o fundo. Não sei até onde irão estas misteriosas aberturas na rocha, nem sei o que lá dentro se esconderá. 

Está tudo dourado, naqueles suaves tons outonais que fazem desejar que venha o frio e os tempos de aconchego. Há também tons de cobre ou rubro. As folhas das parreiras estão quase transparentes, num matizado muito bonito. As árvores desenham bordados nas paredes e nos muros e eu, encantada, ponho-me a fotografá-los.

O eucalipto gigante está lindo. Ao fim do dia, parecia conter fogo nas veias. Creio que seja um deus pois só um deus poderia ter tal grandiosidade, tal beleza, tal superior perfeição.


Depois de jantar estive a ver um documento enorme, uma contestação. Um colega pediu que eu esclarecesse alguns aspectos e desse a minha opinião. Fiquei furiosa, cada vez mais à medida que ia lendo. Como é que deixaram que um assunto de pouca importância escalasse daquela maneira, falando-se já em milhões de indemnização? Nos homens o gosto pela guerra é responsável pela maioria dos disparates que se cometem no mundo. E aqui quando digo homens digo mesmo homens, seres com testosterona, e não género humano. A minha resposta espelhou a minha opinião: todo o processo era escusado, nada fazia sentido, sentassem-se e resolvessem as coisas a bem. E espero que a minha fúria tenha perpassado ao longo do texto e que os três destinatários estejam agora a ver como descalçam a bota.


Agora estou a ouvir o vento a namorar a copa das árvores. Ouço as ramagens num animado bailado. A natureza é sobrenatural. E eu, insignificante, frágil e efémera, penso que testemunhar isto é felicidade à qual tenho que estar sempre muito agradecida.

E estou a beber um chá. Há pouco li um texto em que a Ivone falava num chá de frutos da floresta. Também o tenho. Tenho vários, sou maluquinha por chás e infusões. A minha filha deu-me uma vez uma caixa com compartimentos, cada um com seu chá. Tinha pena de os beber, pareciam-me jóias raras. Receando que o que me apetecia, o chá branco misturado com gengibre, tivesse alguma coisa que me tirasse o sono, não me arrisquei, joguei pelo seguro: erva-príncipe. Uma das minhas avós tinha erva-príncipe no jardim. Este cheirinho faz-me sempre lembrar esses tempos e eu gosto.

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E o texto já vai indecorosamente longo. Não aprendo a ser contida. Não aprendo a moderar esta torrente de palavras que deseducadamente brota das minhas mãos.

Se conseguiram chegar até aqui são uns valentes, é o que vos digo. Eu não tenho essa paciência razão pela qual nem vou rever o que escrevi, pedindo-vos duplamente desculpa, seja pelo excesso do texto seja pelo mais do que provável bando de gralhas.


Finalmente: se ainda não leram, por favor desçam e vejam com os vossos olhos o poema que a flor escreveu:  'das paredes rompem flores'.

E outra coisa: votem, por favor. Não arranjem desculpas para não votar. Não votar não tem desculpa. O meu pai não vai votar porque está acamado e porque o mundo exterior já é, para ele, uma realidade distante cuja existência presumo que até desconheça. Tem, pois, uma boa razão para não votar. Mas tirando casos assim, extremos, não há desculpa. Vão votar, está bem?

segunda-feira, junho 17, 2019

Sobre nada, como se estivesse de olhos fechados





Uma das crónicas do Gabo n'O Escândalo do Século' era sobre não ter nada sobre o que escrever e, claro, lê-se do princípio ao fim com o interesse que a sua escrita sempre desperta. Não tenho a sua arte, a sua graça, a sua mestria pelo que, não tendo também sobre que escrever, fico hesitante. Ninguém me obriga. Poderia, simplesmente, fechar o computador e ler o relatório sobre o qual vou ter uma reunião à primeira hora da manhã ou poderia ir ouvir alguns dos trechos de Wagner referidos por Shaw. Mas é aquilo de os dedos sentirem a impaciência da dança sobre o teclado, mesmo sem um propósito eles querem por aqui andar a saltitar de tecla em tecla.

Portanto, sem saber ao que venho, entregue ao improviso a que eles queiram dedicar-se, aqui estou. Pode a coisa soar-vos desalinhada, sem tema, voo sem rumo, que estarão certos: assim será, certamente.


Hesito em falar do Mário Nogueira que deu uma bicada ao Marcelo ou do Marcelo que parece que não gostou ou do Marques Mendes que apenas vi agora reaquecido, em excerto. Mas nada disso me interessa nem um pouco. Zero.

Bocejo tal o tédio que sinto por não ter assunto. Aliás, não é bem isso. Ter, talvez até tivesse, mas não quero. Há coisas que correm dentro de nós ou sob a terra que pisamos e que andam a tal profundidade que não são umas simples palavras que conseguem trazê-las à luz do dia. Que fiquem por lá onde delas apenas nos chega aquele subtil murmúrio que mais parece uma normal respiração.

Adiante, pois, até ao que não tem nem terá história.


No outro dia andei à procura de umas calças que me estavam justas demais para ver se estavam bem à minha filha. E estavam-lhe boas de perna e de anca mas largas na cintura. Levei-as para a minha mãe as apertar, umas brancas e umas azuis escuras. Estão como novas, ficar-lhe-ão bem. Duas blusinhas brancas que me estavam um pouco à tira também mudaram de mãos. Se pudesse andar sempre de branco, ela andava. Mas com isto de andar a revolver roupa para ver coisas que estão melhor a ela que a mim, hoje, quando aqui cheguei e entrei no quarto que era dela e que virou meu special closet, já nem me lembrava da desarrumação em que tinha deixado aquilo. 

Portanto, hoje, para além do assado no forno (a que juntei ameixas que trouxe lá da minha big ameixeira pela qual a parreira trepa alegremente) e da máquina de roupa e de uma roupa de lavar à mão e das arrumações habituais tive mais esta, andar a arrumar as roupas que ficaram de fora naquela experimentação, no outro dia antes de irmos para a festa de anos.


De cada vez que acontece uma destas, convenço-me que preciso mesmo de fazer uma reforma de fundo, desfazer-me de alguma roupa pela qual tenho alguma estima mas que, porque a moda mudou muito ou porque eu mudei muito ou porque as circunstâncias mudaram, será pouco provável que as volte a vestir. Mas eu, quando faço arrumações, preciso que sejam de fundo, tudo cá para fora, tudo reorganizado, tudo repensado do zero. E onde é que agora tenho tempo para isso? Nem pensar.

No outro dia, num desfile, quando foram os grandes desfiles em Paris, vi um casaquinho que me pareceu mesmo a minha cara. Como a minha mãe andava a dizer que andava sem o que fazer, mostrei-lhe o casaquinho e disse que me candidatava. A candidatura foi aceite. Pensei que, para ela, seria piece of cake e, ao princípio até parecia ser. Afinal foi uma dificuldade terrível. Matemática pura. Soubesse ela de trigonometria talvez se sentisse melhor guiada mas, assim, foi na base da tentativa e erro, tentativa e erro, tentativa e quase desepero. Na fase inicial, quando ela pensava que a dificuldade residia apenas na combinação de cores, eu alertei que a curva do decote devia ser um desafio. Afinal foi tudo um desafio, em especial as mangas. Todo em crochet, todo em rosetas às cores. Ia dando em doida para conseguir que tudo batesse certo mantendo um tamanho uniforme nas rosetas. Trouxe-o ontem e está espectacular. Ela diz que foi o trabalho mais difícil que alguma vez fez. E se já fez trabalhos complicadíssimos. Por alguma razão o casaquinho desfilou como haute couture numa das casas de moda mais prestigiadas. Claro que não é exactamente igual, seria impossível, mas é inspirado e ficou uma maravilha. Uma obra de arte. Estou orgulhosíssima deste trabalho da minha mãe.


E outra coisa que não vem nada, nadinha, a propósito mas, pronto, à falta de melhor assunto, refiro agora. Li no The Guardian que parece que as cenas de sexo estão a desaparecer de Hollywood e, admirada, estive a saber porquê. Aquilo do #MeToo, sobretudo. Fico com pena. Não que um filme para ser bom, mesmo se de amor, tenha que ter sexo explícito. Mas o sexo faz parte da vida e quando devidamente contextualizado e bem filmado, é sempre uma coisa que dá graça a um filme. Parece que estamos a caminhar para o politicamente correcto, asséptico, limpinho, sem sal nem pimenta, sem açúcar, sem beijo de língua, sem piropo, sem malandrice, sem subentendido. E, se isso vier mesmo a acontecer de vez, o mundo perderá a graça, será como o desaparecimento dos insectos que deixará o mundo sem polinização, como livros cegos, sem palavras, mãos que não sabem que devem procurar outras mãos, olhos que não sabem procurar outros olhos, um vazio absoluto. Podia agora colocar aqui algumas das cenas calientes que o artigo refere mas o tema merece uma cama vazia, não um post já cheio de confusão. Talvez outro dia. 

E se calhar agora é que não tenho mesmo mais nada para dizer, a não ser pedir desculpa por estar para aqui nisto, apenas a tomar o vosso tempo. 


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Espero que tenham gostado de ver a Maria João Pires a tocar quase de olhos fechados numa gravação recentíssima e, embora num nivelzinho cá bem mais abaixo, que tenham também gostado das minhas fotografias feitas este domingo in heaven. Numa delas, pode ler-se parte de um poema de David Mourão-Ferreira que se foi num outro, longínquo, 16 de Junho.

A vestir-te 
o corpo nu
ou a sede
que é minha
ou a seda
que és tu.

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E uma boa semana a todos, a começar já por esta segunda-feira.

domingo, junho 16, 2019

Uma pseudo-realizadora lê sobre escândalos e antecipa outros encantamentos aqui, in heaven





Hoje de manhã, o meu tio mal me via, estava a regar o jardim. Está mais encurvado e reparo nas rugas; mas o sorriso é sempre o mesmo. Fica contente por me ver, pousa a mangueira e vem logo ter comigo, sorridente. Sempre foi uma pessoa serena. Nunca se ouviu que levantasse a voz, nunca se soube que se tivesse zangado. Muito diferente do irmão, sempre apressado e stressado, este meu tio é a calma em pessoa. O meu pai sai à mãe que sempre conheci em estado de alerta, sempre ansiosa com alguma coisa. O irmão sai ao pai, o meu avô tranquilo. Tenho cá o cadeirão onde o meu avô se sentava a ouvir rádio ou a ouvir televisão ou a ler o jornal. E tenho o pequeno móvel onde estava o rádio que também ali tenho. A minha avó sempre com coisas, que ele não limpava bem os pés à entrada e trazia terra para dentro de casa ou que ia à pesca quando estava mau tempo ou coisas assim e ele sempre sorridente, como se nenhuma daquelas reprimendas o afectasse. Recostava-se no seu cadeirão e ela que reclamasse à vontade.


Perguntei ao meu tio pela minha tia. Esmoreceu-se-lhe o sorriso, que não está nada bem, as dores nas pernas, a pouca vontade de se levantar, parte do dia na cama. Nada lhe disse, encolhi apenas os ombros: sempre assim foi, pouco dada à acção, sempre com receio de estar doente.
Lembrando-me dela, digo muitas vezes que ter medo de estar doente é, em si, uma doença. Foi disso que, desde que me conheço, ela sempre sofreu. E sofreu mesmo, como se estivesse doente de verdade. 
A minha prima habituou-se aos sintomas de tudo que a mãe tem. Sendo médica, sabe bem o que valorizar  e aquilo de que mais vale é distrair a atenção. Perguntei por ela, pela minha prima. O meu tio sorriu de novo, diz que está para a Dinamarca, a passeio. Faz ela bem. Penso que quem me dera.


E depois penso no meu pai, cada vez mais ausente, preso à cama, tendo que ser virado de tanto em tanto tempo para não ficar com escaras, alimentado através de uma sonda, já sem conseguir falar de forma que se perceba, pouco ouvindo, nada vendo. Por isso, faz-me muita impressão ir para longe por muitos dias. E tanto que sempre gostei de passear, e tanta a falta que me faz ir por aí, à descoberta. É certo que dele, não fora o AVC, se poderia dizer que tem uma saúde de ferro. Não sei quantas pneumonias já teve, quantas bactérias hospitalares já apanhou, quantas vezes pensámos que estava por um fio e, afinal, a verdade é que continua vivo e, tirando o declínio que a falta de massa muscular acarreta, tudo o resto vai funcionando bem. Quando me lembro que, quando teve o AVC, toda a gente ficou consternada, como se fosse impossível um homem daqueles ter uma coisa destas, e, afinal, tantos desses, saudáveis na altura (ou que assim se julgava), afinal, já cá não estão. Tanto que, por exemplo, me lembro dos meus outros tios, que tanto ajudaram, tão cheios de saúde e de alegria, e que um após o outro já lá se foram. Por isso, digo para comigo que o meu pai está há tantos anos assim e sempre ultrapassando os problemas e sobrevivendo, que não tem grande lógica eu estar sempre com medo de me afastar por uns dias. Mas nestas coisas dos medos não há grande lógica, há apenas medos.


Estamos in heaven, descansadamente, sem nada que fazer. De tarde, dormi durante um bocado. Soube-me tão bem. Durante a semana o meu corpo aguarda por estes pequenos momentos de repouso.

O campo está de uma suavidade que dá gosto mas há festa na aldeia e tudo o que cantam ou anunciam ouve-se como se estivessem quase aqui à porta. Não posso dizer que não me incomoda um pouco. Não que esperasse ouvir a Callas. Isso não que o meu bebé não está de DJ à festa. Também já nem esperava genuína música portuguesa. Isso já nem se sabe bem o que seja, creio eu. Mas ouvir uma misturada de covers, barulheira pegada, anúncios de sorteios misturados com uma chinfrineira excessiva, isso é poluição sonora que fere a minha sensibilidade. De qualquer maneira, à tardinha fez-se silêncio e os pássaros saíram das árvores a cantar, esvoaçando baixo, pousando por perto.

Infelizmente, o ruído recomeçou mal anoiteceu e durou até há pouco.


Ao fim de tantos anos, estreei-me hoje num lugar bom para se estar ao fim do dia. Do lado da sala da televisão, a luz do ocaso dilui-se em ouro sobre as árvores, luminosidade que me encanta muito, e eu limitava-me a abrir as portadas de vidro para o ar e o sol entrarem pela casa ou, então, ia lá para fora, para o banco de madeira que está encostado à parede da rua, mas que não é especialmente confortável para se estar a ler. É que gosto de ler reclinada. 

Disse ao meu marido que havia era de ter uma daquelas cadeirinhas baixas, inclinadas, que se põem na areia. Ele disse que o que não faltam são cadeiras, na despensa. Lembrei-me que, de facto, ao fundo da despensa (que aqui é uma divisão razoavelmente grande, em especial comprida) há cadeiras mas não tinha nada ideia de haver muitas e, muito menos, dessas. Fui logo ver. Só duas cadeiras e um banquinho pequeno. As cadeiras são iguais, de tipo realizador. Peguei numa e pu-la junto à pedra grande.


Portanto, pude estar reclinada na cadeira de realizadora mas mais na base da pseudo: esticada, cabeça encostada atrás, pés em cima da pedra. Muito bem instalada, sob a copa de uma robinia também pseudo, pseudoacácia. Ouvindo os passarinhos, olhando a luz dourada, respirando o ar limpo e perfumado. E fotografando, fotografando tudo.


Tenho estado a ler o Escândalo do Século do Gabriel Garcia Márquez. Tenho também aqui o Wagneriano Perfeito que continuarei a ler amanhã e já antecipo a minha admiração pasmada pela inteligência e elegância da escrita. Estranhamente, quando me deixo encantar desta forma, acontece-me parecer nem prestar atenção à informação contida no texto, fico totalmente entregue à fruição da beleza que se desprende da inteligência das palavras. Gostava de um dia poder dizer que sou discípula de Shaw tal como Estela Canto mas não tenho disciplina para ser discípula de alguém. Pessoas como eu são puras diletantes, cultivadoras de indisciplinas e desconhecimentos. Além disso, não sei se seria prudente: as discípulas de Shaw produzem perigosos efeitos em quem também o admira. Ah, sim, como é poderosamente afrodisíaca a inteligência. Borges que o diga, não é...?


E, por agora, é isto.

Estou com vontade de pegar na máquina fotográfia e ir fotografar chávenas antigas ou copinhos de vidro que têm bem mais que a minha idade e que vieram de casas de quem há muito partiu. Se verá se o faço e depois se as fotografias ficam boas para vos mostrar. Conservo peças antigas que guardam memórias e que outra utilidade não têm senão essa. Felizmente aqui tenho espaço para isso mas lá chegará o dia em que alguém delas se desfará por não ter qualquer vínculo emocional que justifique o espaço que ocupam. Por isso, se puser aqui a sua imagem, talvez seja uma forma de se manterem junto à minha memória para todo o sempre. Se é que isso importa para alguma coisa.



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E um bom dia de domingo a todos