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domingo, fevereiro 02, 2025

O jogo dos pombos -- o retrato de um certo Portugal (e de uma Lisboa desconhecida)

 

Num dia que para mim é triste, limito-me a transcrevo um artigo de Nowness (porque é importante documentar práticas que parecem em extinção num mundo em que o passado parece esvair-se sem deixar rasto):

​Portrait of a Place: O Jogo Dos Pombos

Em Lisboa, o columbófilo Senhor Jorge Cunha continua a antiga prática de treinar e competir com pombos, reflectindo sobre uma rotina inalterada numa cidade em evolução

Como janela para a vida do Senhor Jorge Cunha, um columbófilo de Lisboa, o realizador George Daniell capta uma rotina inalterada pelo tempo para a curta-metragem O Jogo dos Pombos. Na capital portuguesa – uma cidade que está a ser rapidamente engolida pela gentrificação e pelo turismo – Jorge continua uma ocupação histórica que está a desaparecer na modernidade, seguindo diariamente a mesma prática por dedicação ao treino e cuidado dos seus pombos.

Trabalhando num estúdio em Lisboa, junto à casa que Jorge partilha com a sua mulher e ao pombal que alberga os seus pombos, Daniell testemunhou a rotina de Jorge a desenrolar-se como um relógio, acordando cedo para limpar o pombal e voar com os pombos. Fascinados por aprender mais sobre o seu ofício, formaram uma amizade e conectaram-se através da antiga prática da Columbofilia – ou corrida de pombos – que logo se desenvolveu na base do filme.

“Observava o Jorge e os pombos quase todos os dias, cativado pela sua dedicação à rotina. Passado algum tempo, tentei fazer perguntas ao Jorge sobre os pombos no meu português macarrónico. Lisboa é uma cidade que está a ser rapidamente engolida pela gentrificação – ver Jorge a cuidar dos seus pombos é um pouco como voltar atrás no tempo, por isso pareceu-me algo que queria documentar.”

Aprimorando a prática manual que realiza repetidamente, Daniell e o diretor de fotografia Duarte Domingos espelharam o processo analógico de Jorge ao filmarem inteiramente em película de 35 mm e 16 mm. Através das reflexões do Senhor Jorge e da poesia visual dos pássaros em voo, O Jogo Dos Pombos observa um modo de vida tradicional numa cidade em rápida mudança, como um fragmento duradouro do passado de Lisboa que continua no seu presente.

In Lisbon, pigeon fancier Senhor Jorge Cunha continues an ancient practice in a fast-evolving city

quarta-feira, agosto 23, 2023

Trabalhos esforçados, terra tristemente seca.
E, para lavar a vista, uma casa numa terra junto ao rio.

 

Desde que me lembro, mal dou por mim e, nem sei bem como, estou cheia de trabalho. Caia-me em cima, atraía, pediam-me, via-me compelida a, não tinha como dizer que não. Agora a conversa é outra. Agora é trabalho engendrado por mim. Meti na cabeça fazer uma coisa e não dou mãos a medir. Tem sido o dia todo, dia após dia, noite adentro. Intervalo para o essencial e para os compromissos e obrigações familiares e domésticas mas, mal consigo, aí estou eu atirada à minha empreitada.

Não sei no que vai dar, e seria, para mim, muito decepcionante se não desse em nada. Conhecendo-me como me conheço, vou lutar. Vou lutar tentando encontrar uma porta aberta nem que para isso tenha que percorrer mil estradas, subir mil degraus, voltar atrás mil vezes para encontrar outros caminhos, bater mil vezes a mil portas. . Vou lutar e, se o faço, é porque tenho esperança de conseguir chegar a bom porto. 

Talvez houvesse formas mais fáceis de lá chegar mas quero ir pela via complicada. E não é por ser masoquista, é por ser a via que me agrada, a via que me faz sentido. 

E, nos trabalhos esforçados em que ando, tenho descoberto coisas de que me tinha esquecido, tenho tido muitas surpresas. Tem sido muito interessante. Gostava de um dia poder partilhar convosco tudo o que ando a fazer e tenho esperança que um dia isso venha a acontecer. 

Entretanto, temos estado, in heaven, a limpar o terreno. Sempre muito a contragosto, sempre com pena de cortar um pé de alecrim que seja, sempre a achar que estou a fazer atentados contra a natureza... mas, tanta a secura da terra, tanta a míngua de água e a tristeza de ressecamento em que está tudo que me rendi. Claro que agora tivemos que interromper pois com tanto calor não se podem usar máquinas. Mas a terra está outra, irreconhecível. Todos me dizem para não estar tão desgostosa pois em vindo a primavera tudo há-de rebentar e tudo há-de ficar outra vez verdinho. Tomara. Tenho imenso medo que os orégãos, o rosmaninho, o alecrim, a sálvia, o tomilho e tudo o mais desista de ressuscitar. Mas reconheço que um campo cheio de vegetação tão tristemente ressecada era um perigo. Tínhamos cortado o máximo mas o meu máximo não é o que os entendidos consideram seguro. 

Não chove, não há humidade. As próprias árvores se ressentem. Um cedro gigante morreu. Outro mais pequeno também. Vejo os outros com as pontas secas. Dói-me o coração olhar para eles e não poder fazer nada. 

A falta de chuva e estes calores extremos são um perigo e eu só espero que estejam na forja projectos a sério, ousados, marcantes, para contrariar minimamente o desastre que avança a passos largos sobre nós.

Estive a ver o vídeo abaixo e ver aquela água, aquela vegetação verdejante, encanta-me. Quem tem a sorte de viver em lugares mágicos assim, saberá a sorte que tem?

In Residence: Mattia Bonetti

Paris-based artist and designer Mattia Bonetti's waterfront retreat by Lake Lugano in southern Switzerland.

Bonetti’s furniture, lighting and objects can be found in the collections of the Centre Pompidou in Paris, the Cooper-Hewitt National Design Museum in New York, and the Victoria & Albert Museum in London, among others. Most recently, Bonetti presented a selection of new works in London through his gallery of more than thirty years, David Gill. 


Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Bons ares. Tranquilidade. Paz. 

domingo, março 28, 2021

Sobre a monogamia (mas de tipo sequencial), sobre comer com o prato em cima dos seios, etc.
Mas, primeiro, coisas mais banais.

 



Dia de sol velado e calor discreto. Caminhámos e, como agora acontece ao fim de semana, encontrámos jovens casais a passear com crianças pequenas em triciclos ou famílias a andar de bicicleta. Hoje também nos cruzámos com quatro rapazes igualmente de bicicleta. Iam a conversar, sorridentes e, ao passarem por nós, desejaram-nos um sonoro bom-dia. Engraçado este hábito. Até os jovens adolescentes que vão entretidos a pedalar e a conversar nos desejam bom-dia. Retribuímos a boa disposição.

A seguir fomos ao supermercado. Voltei a constatar que agora já ninguém se afasta de ninguém. Todos de máscara, claro, mas, ainda assim, ninguém se ensaia nem um instante para se pôr quase em cima de outra qualquer pessoa. Para tirar o pão, então, é um ver se te avias. Todos ao encostados para tirar o pão das prateleiras. Também não me afastei. Fazer o quê: pôr-me ao largo e esperar que desandassem...? Quem me garantiria que não vinham outros? Aquela história do servo que viu a morte em Bagdad e fugiu para Samarra, sabem...? Ná, mais vale ficar onde estamos e esperar que não seja nada.

Depois de almoço fui sentar-me ao sol, no jardim. Levei um livro. Como o sol estava de frente não consegui ler. Fechei os olhos enquanto um pássaro enviava chamamentos do alto de uma árvore. Fui adormecendo. Depois arrefeci. Vim para dentro, tapei-me com uma daquelas mantinhas finas e aveludadas. Estive a fazer pesquisas, a ler. 

Por volta das seis voltei ao jardim. Estivemos a equacionar alternativas, a fazer medições. As árvores têm raízes grandes, não lhes devemos mexer. Como tenho um absoluto respeito pelas árvores, a margem de manobra para fazer alterações são escassas. 

As árvores de fruto na horta estão em flor. Há ali um microclima que não sei explicar. Parece que o ar é ali mais morno e húmido. Agrada-me muito. 

O fim de tarde estava ameno, sabe bem estar cá fora. Mas começou a esfriar. Vim para dentro.

Quando falei com a minha filha e com a minha mãe já era praticamente de noite. Ainda tentei voltar para o jardim mas a lua estava exuberante a guardar o frio. Recuei.

Estou contente por já ter mudado a hora. Vai ser um dia mais curto mas um dia não são dias.

Angustia-me um bocado isto de trabalhar até ser de noite, sem que sobre um bocadinho de dia para mim. Assim, com os dias maiores, talvez possa usufruir da luz do dia. Durante a semana tenho que aprender a usar a luz do dia em meu benefício. 

É verdade: tenho andado a vigiar o ninho das andorinas e ainda não as vi. Será que não vêm? Ficarei com pena. Só espero que, se este ano não vierem, venham para o ano. Custar-me-ia saber que o ninho vai ficar ali, sem vida.

Será que faria sentido ter um porquinho da Índia à solta no jardim? Gostava de ter um animalzinho por aqui. Dizem-me que comem a relva, um descanso: nem é preciso cortá-la. Contaram-me que, às vezes, à noite se vêm ouriços cacheiros a atravessar a estrada. Quem me contou não falava daqui mas de outro lugar assim, em que há campo em volta. Uma pessoa conhecida, contou-me que o filho apanhou um e o levou para o jardim. Penso que os jardins são mais felizes se forem habitados por animais. Ocorre-me sempre aquela ideia de ter patos. Mas será que teria que ter um lago? Ou será que os patos não voariam? Mas depois penso que certamente um dia terei um cão. Será que o cão depois não dará cabo dos ouriços ou dos patos?

Tenho também uma coisa para contar: da altura das orelhas e até à altura das sobrancelhas, digamos que na primeira linha de costa, os meus cabelos estão a aparecer brancos. Tal como o meu pai que conservou os cabelos da cor natural até muito tarde e que apenas os tinha grisalhos ali dos lados, aparentemente é também é esse o padrão de branqueamento que o meu cabelo está a seguir. Para os cobrir usei uma coloração que manteve o meu tom. Coloquei a tinta apenas ali na raiz e, apenas antes de o lavar, a espalhei pelo cabelo todo. Ficou bem. Mas neste supermercado aqui mais perto não têm essa marca, têm aliás pouquíssima variedade e quantidade. Comprei de uma outra marca e de outra cor. Agora estou com receio de a aplicar, com medo de ficar muito diferente do que sou. Não sei o que faça. Devia coincidir com umas férias grandes para o caso de ficar absurdamente diferente haver tempo a corrigir. Assim, hesito em arriscar. O que me vale é que, como tenho muito cabelo, vai disfarçando. Mas um dia destes tenho que me encher de coragem.

Também li que o Zoom está a preparar (ou já o tem disponível, não me lembro) um filtro para adoçar as feições quando estamos em videoconferência. Li que milagrosamente tira rugas, papos, olheiras, manchas. Li que as mulheres que têm muitas reuniões por esta via estão a passar-se de tanto verem as suas imperfeições no ecrã. Só espero que o Teams também apareça com isso. O pior é quando voltarmos a estar ao vivo e sem máscara (seja lá quando isso for), sem apelo nem agravo todas as misérias bem à vista. Sou adepta de não disfarçar nada para evitar decepções futuras. Mas digo isto e, na volta, se me aparecer o filtro mágico, não vou resistir. Não se pode dizer que não seja de me deixar sucumbir perante tentações convincentes.

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E é isto. Nada mais a contar. Só me causa espécie que agora ninguém acuse o Costa ou a Marta Temido por sermos o país com os mais baixos números de Covid da UE. Tanto que se babaram todos a acusá-lo de sermos os piores, tanto foguetório atiraram para festejar a crucificação pública de que o Governo foi alvo e agora que vários países estão a braços com a desgraça que começou por bater-nos à porta antes de lá chegar ninguém se lembra de o elogiar e agradecer? Gentinha...

Mas contar, contar, que me lembre não tenho mais nada. A vida corre mansa. O tempo, pelo contrário, corre veloz. E eu estou parada a tentar perceber como melhor me encaixar neste filme.

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As pinturas de Julian Onderdonk vêm ao som de Surrender na interpretação de Birdy

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E agora vou partilhar dois vídeos que prenderam a minha atenção: um muito bonito, um belíssimo pas de deux, e o outro com uma condessa simpatiquíssima e divertidamente depravada (como provavelmente são todas as condessas).

Second Piano Concerto (Shostakovich) – Second movement pas de deux 

(Marianela Nuñez, Rupert Pennefather, The Royal Ballet)

A summer spent poolside with a retired countess

Victoria Hely-Hutchinson takes us around her eccentric “bohemian expat retiree” grandparents retreat in the South of France. Known for documenting British lives for publications including New York Magazine and Vanity Fair, Hely-Hutchinson’s short is a relaxingly slow-paced portrait of the “respite for relatives in search of a tan”. 


Desejo-vos um belo dia de domingo

sexta-feira, setembro 29, 2017

Teresa Leal ao Coelho deu-lhe hoje o tiro de misericórdia.
Tentou colar o Marcelo à extrema unção mas o Presidente logo a mandou ir dar banho ao cão.
Ora, como é bom de ver, não vou juntar-me ao cortejo fúnebre.
Por isso, com vossa licença: Great Gardens: Glin Castle


Ao fim do dia, íamos para a praia quando ouvimos, na rádio, a surpreendente notícia: Marcelo tinha ido ter com a tiazona do PSD para lhe dar uma palavra de apoio. Ficámos estupefactos. Ambos: 'Passou-se?! O Marcelo foi apoiar a Teresa Leal Coelho?! Como é que é possível?!?!'. Mas, acto contínuo, caímos em nós: 'O Marcelo não é parvo, não ia cair nesta'. Os jornalistas continuavam a noticiar e nós: 'Não, o Marcelo não ia espalhar-se ao comprido desta boa maneira... A história está mal contada.'


Chegados a casa e eu ao meu sofá de estimação, ligo o computador e cá estava o desmentido de Belém, um valente tabefe na Leal ao Coelho: Qual apoio? Estava Marcelo no trânsito, passa a Tia Leal ao Coelho que vendo-o, atravessou a rua para ir cumprimentá-lo. Apoio isso? Qual apoio? Zero apoio.


E pimbas. Como se o caldo não estivesse já entornado, eis que a pouco inteligente criatura, julgando que a malta tem um QI alinhado pelo do láparo, se sai com uma esperteza saloia. Como a malta não é assim tão burra, o que aconteceu é que olhou para ela e o que viu foi a fina criatura a dar mais um tiro no pé. Só que, com a falta de discernimento que tão bem se lhe conhece, o resultado foi que a madama falhou a pontaria e acertou, de vez, no já defunto político que por aí anda exibindo a sua proverbial burrice e o seu igualmente famoso ressabiamento. 'O tiro foi bem na testa, não matará mais criancinhas nos caminhos da floresta', consta que logo concluíram os caciques laranjas, satisfeitos por o enterro do seu fraco líder estar próximo.

No domingo todos encomendarão a sua alma ao seu amigo diabo e o aparelho haverá de se preparar para saltar a pés juntos em cima da tumba (metaforicamente falando, claro está).

E eu, que não faço nem nunca fiz parte da família nem gosto de nada que tenha que ver com cenas mórbidas, com vossa licença não vou participar no velório do láparo.

Assim, tenho andado por aqui a passarinhar, flanado sobre danças e artes, e, nessa divagação, dei com um vídeo supimpa. Partilho-o convosco. Maravilha.

Great Gardens: Glin Castle



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Até já.

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