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quarta-feira, setembro 04, 2013

Ernesto Sampaio e Fernanda Alves - até que a morte os separou. Uma extraordinária e verídica história de amor entre o escritor, jornalista (e outras coisas) e a actriz e encenadora - que terminou numa tristeza tão insuportável que levou Ernesto a morrer de amor. Mourir d'aimer em português.


Abaixo poderão encontrar dois posts muito diferentes do que agora, aqui, vão ler. Lá mais abaixo falo do mediático lançamento do livro de Judite de Sousa sobre o Cunhal que foi invadido pelo PSD em peso, nomeadamente pelo Relvas agora em versão raçuda. E falo também da Constança Cunha e Sá, bronzeada e uma autêntica fera, uma pantera implacável agarrada à jugular de Passos Coelho.

Mas isso poderão ler nos posts a seguir a este, não aqui.

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Agora, aqui, a conversa é outra. Vou escrever sobre um tema que me é estranho. No outro dia a minha filha dizia-me que, quando eu aqui falo de relacionamentos amorosos, só falo de amores felizes. Como assim?, perguntei-lhe. Ela explicou: É que há amores impossíveis. Pedi para me exemplificar porque, voluntarista como sou, acho sempre que a gente, querendo, tudo consegue e, se não consegue, parte para outra. Ficar a remoer agarrado a uma ficção ou a uma ilusão é coisa que acho que não faz sentido.


Ela exemplificou. Um amigo dela que eu conheço muito bem, quando estava no fim do curso, foi estagiar para o outro lado do mundo, uma experiência engraçada. Como tantas vezes acontece, por lá foi ficando. Arranjou namorada. Teve uma filha. Agora o amor acabou mas há a filha. Entretanto reacendeu uma estima anterior, virou amor a sério. Mas esse amor está cá em Portugal. Por cá essa rapariga teve um filho. Se ele largar o emprego óptimo que lá tem (o que não faz sentido), afasta-se da filha, coisa que não quer. Se a namorada portuguesa for ter com ele, não pode levar o filho porque o ex-marido não o permite, e afastar-se do filho também não quer. Ou seja, cá está: segundo ela, um amor impossível.

Respondi-lhe: têm que esperar que as crianças cresçam. E não disse mas pensei que, até lá, muita coisa pode acontecer. É que nem esse eu acho que seja um amor impossível. Será complicado, será um amor que aconteceu no tempo e no sítio errado, ou tarde demais, ou cedo demais, não sei, mas impossível não é. A história desse amor pode estar ainda no início. Ou pode estar a ser empolada pela inviabilidade e a distância e o tempo podem vir a demonstrar que afinal não é tão forte como agora pensam. Ainda não o sabemos.

Mas há amores impossíveis. De facto, há.

Aquele de que aqui vou falar era, no fim, mesmo impossível. E tão devastadoramente impossível que devorou a vida de quem assim amava alguém que se tinha ausentado. 

Hesitei em falar aqui nisto. Não é tema de que se fale de qualquer maneira. Teria que falar quase em silêncio, com muito respeito, quase uma oração. Não sei se sei falar assim.

Mas vou tentar. Ou melhor: vou dar a palavra ao próprio e a outros que sobre eles falaram.


Mourir d'aimer, Charles Aznavour


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Último livro de Ernesto Sampaio: Fernanda


(sobre Fernanda Alves, a mulher que ele muito amou e a cuja ausência não conseguiu resistir)

Um dos livros mais tocantes que alguma vez li


(Fotografei-o de forma a que se visse a capa e uma página interior,
uma que contém justamente a fotografia de Fernanda Alves)


A Fernanda veio passar comigo a entrada no ano 2000. Vi-a viva pela última vez na noite de 3 de Janeiro. Um beijo morno de despedida: «Não te esqueças de cortar as unhas à cadela e de dar o 'program' aos gatos. Ah, e também não te esqueças de me ir esperar a Santa Apolónia no domingo, à hora do costume...» E lá seguiu para o Porto no carro do João Grosso. Retrospectivamente, a recordação mais impressiva que conservo da cena é a do olhar de tristeza da Rosa, a nossa galga, vendo a dona afastar-se. Havia entre as duas uma relação fortíssima. Aliás, sempre me surpreendeu o poder da Fernanda sobre os animais: a um olhar, a um gesto, sem levantar a voz, tranquilizavam-se, obedeciam-lhe cordatos. Eu, se mandar a Rosa ir numa direcção, é garantido que vai na direcção contrária...

Falei da relação fortíssima entre uma mulher e uma cadela, e bem sei que é abusivo atribuir a um animal algo de parecido com sentimentos humanos. Pois é... Mas cada vez que levo a cadela ao cemitério, e ela aproveita para se rebolar sobre as campas (a Fernanda está debaixo de um magnífico relvado, à inglesa, de campas rasas), sempre que chega ao sítio onde a dona está enterrada, pára e assim fica de focinho entre as patas, a escavar lentamente a terra.

Agora, dormimos todos na mesma cama: eu, a cadela, o gato (Artur) e as duas gatas (a Fina e a Nina). Numa destas noites, os quatro animais ergueram-se súbita e simultaneamente e ficaram sentados, hirtos, a seguir fixamente com o olhar um ponto, para mim invisível, que se deslocava no espaço, enquanto eu sentia o rosto batido por um sopro gelado.

Disse que vi a Fernanda viva pela última vez na noite de 3 de Janeiro. Dois dias depois vieram anunciar-me que tinha morrido. No avião para o Porto não me saía da cabeça que se tratava de um engano, e estava ansioso por chegar, vê-la, desfazer o equívoco. Depois... a morgue, as burocracias, a entrada naquele quarto de hotel, a cigarreira e o livro abertos na mesa de cabeceira, o colar em cima da cama...


(Ernesto Sampaio, pág.32 e 33, em 'Fernanda')

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(páginas 88 e 89, as últimas do livro)

"O amor não admite a menor restrição: tudo ou nada, sendo o tudo a vida e o nada a morte"

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Fernanda Alves - fotografias que constam do livro Fernanda

O tempo, finalmente, apanhou-me, e da pior das maneiras: sob a forma do remorso que nos torna prisioneiros do que fizemos e não fizemos, ou pior, do que através de nós foi feito por e na pessoa que foi a paixão da nossa vida

(Ernesto Sampaio na pag. 24 do livro 'Fernanda')


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Fernanda. Nome de uma actriz talentosa. Fundadora do teatro A Barraca, residente do D. Maria II, assídua no Teatro Experimental do Porto e no São João, onde se preparava para estrear uma peça quando a morte, súbita, a apanhou num quarto de hotel, em 1999. Um rosto intenso, de olhos grandes, negros, e boca larga, talhada para grandes sorrisos.


Fernanda era também – ou acima de tudo? – o amor de Ernesto Sampaio, jornalista, ensaísta e poeta, um teórico do surrealismo que se sentava à mesa do Café Gelo com Herberto Helder e Mário Cesariny.


Mais discreto e comedido do que os seus pares, parece ter guardado a inflamação para esse amor que viveu com Fernanda Alves.

Cesariny ilustrou assim a grandeza do homem e do sentimento que o matou, num texto para o jornal Público:  “Ernesto Sampaio tinha a grande rebeldia e a grande inteligência. Dentro do grupo surrealista, era dos mais lúcidos, dos que mais sabiam (…). Um sentido de humor formidável, uma agudeza de espírito extraordinária, amabilíssimo. Uma figura muito rara, de saber e dedicação (…) Desde a morte de Fernanda Alves, já não sabia viver. É a única pessoa que conheço que morreu de amor”.

Fernanda é o último livro de Ernesto Sampaio. Escreveu-o e a seguir morreu, um ano depois do seu amor sair sem se despedir – e sem querer.

Apesar da solidão e da mágoa de algumas passagens, é um remédio contra a descrença. Porque os que não têm a certeza de Deus, e não conhecem o melhor do amor, precisam das suas orações.  

“Apresentei Fernanda ao João Rodrigues (um suicida) e ele disse-me: ‘Sempre tiveste muita sorte’. O Tunhas (outro suicida) disparou-me um dia: ‘Ela é a sua mãe’. Sorte grande, mãe, companheira, a Fernanda foi a salvação da minha vida. O meu mar. O mar sempre mais forte com a sua voz de amante e a sua voz maternal traz-me palavras muito puras que dizíamos outrora”.

“Numa carta comovente, diz-me a Isabel de Castro que eu e a Fernanda éramos um. Penso que ainda somos. Mas a raiz, a alma e o corpo desse ‘um’ era ela. Eu podia entregar-me às minhas manias, não querer saber de nada nem de ninguém, afastar-me, isolar-me; tinha-a a ela, que era tudo, e agora não tenho nada. A Fernanda era a minha embaixatriz do mundo”.

“Quando a Fernanda estava viva, quase tudo era magia. O resto é utilitário e dá-me vontade de chorar. A magia é interior. A Fernanda era-me interior e exterior. Agora só me é interior. Não chega. Que fazer? Onde ir? Não posso deixar de amá-la. A recordação do seu rosto, da expressão do seu sorriso, ainda me enchem o coração de êxtase, de amor e de desespero. Desespero por não lho ter dito e por já não poder dizer-lho. Não posso imaginar-me sem ela. Sem ela não teria sido nada”. 

Encontrar alguém com quem se deseja partilhar a vida é um milagre. Partilhá-la, de facto, durante 40 anos é uma bênção. Numa história assim, só a morte podia pôr o ponto final. Apesar de tudo, é a menor de todas as injustiças.


Dulce Garcia (que também inclui no seu texto excertos do livro 'Fernanda')



Fernanda Alves, actriz - a mulher que Ernesto Sampaio tanto amou


... Sós, ambos, na estrada, nos confins mais remotos, tu já dentro da noite e eu à beira dela

Tinhas os olhos fechados e o mesmo sorriso - um pouco triste - de sempre. estavas bela, muito bela. Morta? adormecida? nunca tão bela...

O verdadeiro brasão de cada um é o rosto.

No rosto lê-se todo o corpo.


(Ernesto Sampaio na pag. 60 do livro 'Fernanda')


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"(...) Em Lisboa, sua terra natal. Sombria e solitária. Ernesto Sampaio, poeta, tradutor, pensador, bibliotecário, jornalista, morreu esta semana, junto dos seus livros e das suas memórias. Em sua casa. A casa que, para este poeta, passou a ser "lá longe onde nascem os lobos". (...)

A morte arrancou-o subitamente, assim como o fizera, no ano passado, à actriz Fernanda Alves, sua mulher. O seu último livro, "Fernanda" (Fenda, 2000) , a que ele chamava "o seu coração empalhado", é o testemunho dessa morte e de um amor decisivo que foi, do lado dos grandes afectos, o sustentáculo de uma vida: "Estar vivo é acordar todas as manhãs no inferno (...) A recordação de um só dia contigo torna inúteis o labor e o prazer de todos os dias que me restam viver". A morte dela não pode deixar de estar associada a este final de vida de Ernesto. (...)


Ernesto Sampaio foi um dos grandes teóricos do surrealismo, embora a sua obra seja curta e o seu temperamento tenha sido discreto. Disse ele, numa entrevista ao PÚBLICO (12-10-93): "Dá-me um certo prazer ser esquecido, assistir às coisas como se não existisse, como se não tivesse uma presença real, estar e não estar".

(...) O que disse Ernesto, de Fernanda, pode ser dito agora dele, pela suas próprias palavras: "É uma planta que continua a florescer depois de ter sido arrancada". [ Ernesto Sampaio: A morte solitária de um poeta - Texto de Rui Ferreira e Sousa,  in Público 07/12/2001]


IN  MEMORIAM Ernesto Sampaio (10/12/35 - 5/12/01)



Desliguei-me do resto do mundo para me ligar a um único ser que de repente me falta.
Já não tenho mais nada, não me resta nada.


(Ernesto Sampaio na pag. 69 do livro 'Fernanda')


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Como na vida, o amor continua a evoluir na morte. Jurei fidelidade à Fernanda sem jamais lho ter dito. Todas as noites estendo os braços para o seu lado do travesseiro e é como se a respirasse, como se ela estivesse presente, difusa nas claridades longínquas e nas trevas cada vez mais cerradas que me vão envolvendo.


(Ernesto Sampaio, pág.82, em 'Fernanda', editora Fenda)

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Arvo Pärt, Cantus in memoriam Benjamin Britten



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Há amores impossíveis, sim: os amores imensos, eternos, tornados impossíveis pela morte.


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E por aqui me fico. Recomendo vivamente a leitura dos livros de Ernesto Sampaio, nomeadamente este, Fernanda. 


Há livros que ficcionam as ausências. Este não é ficção, é um registo autêntico, muito sofrido. E, apesar do documento pungente que é, não é sentimentalista, não banaliza a fragilidade do autor. Há neste amor desmedido uma pureza e uma simplicidade magníficas. Uma grandeza incomum. 


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Isto saíu-me imenso. Peço desculpa pelos meus excessos. 

Recordo que abaixo há mais dois posts e, caso precisem de 'desopilar', não deixem de os espreitar.


De resto, nada mais. Tenham, meus Caros Leitores, uma quarta feira muito feliz. 
E não se esqueçam de aproveitar bem a vida, está bem?


terça-feira, setembro 03, 2013

Licencinha. Vou dar a voz a linhas trocadas, a vidas desencontradas. Jornalistas, políticos, duas escravas negras muito limpas e quatro amantes, pargos capatões, cornudos e putanas: falo-vos, pois, da inanidade da vida. [Falo e dou a voz a Ernesto Sampaio e a Adélia Prado]


A seguir a isto podem ler a minha resposta a uma questão de ordem prática que alguém hoje colocou num motor de busca tendo sido encaminhada até aqui: as camisas dos homens devem ter vinco nas mangas?

Mas isso é mais abaixo, a seguir a isto. Aqui, agora, a conversa é outra. É outra e muito diferente.

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Licencinha.

Hoje vou dizer umas coisas. Não levem a mal. Tenho um testemunho para dar. 

É certo que os meus amigos esperam, talvez, que eu diga coisas de outra natureza. Adivinho-vos. Esperam que eu me mostre indignada. Há casos para isso. Eu podia dizer que o nosso primeiro não sabe o que é a democracia, que não tem moral, que não tem amor à pátria. Podia e, se calhar, devia. 

Digo então umas palavrinhas simples. E breves, que a seguir quero passar a palavra.

Se ele, o nosso primeiro, pudesse, suspendia mesmo a democracia, seis meses chegavam-lhe - como a manelinha uma vez disse, mas ela, afinal, ao pé dele, não era má pessoa. Se ele pudesse não mudava a constituição: acabava com ela. Ele não gosta de leis, se não lhe servem diz que as muda, e diz isso porque ainda lhe resta um resto de decoro e intui que lhe ficava mal dizer que acabava com elas. Mas, de facto, onde ele se sentiria bem seria numa terra sem leis. Ele é o verdadeiro fora-de-lei. 

Agora que já todos lhe vimos os dentes, a forma raivosa como os range, sabemos que seis meses lhe chegavam para escaqueirar de vez o país, e, a seguir, vender os cacos a qualquer um. Os eleitores foram na conversa de barítono, na carinha sonsa com sorrisinho de pechisbeque. E ei-lo agora onde está. E de lá não sai. O pior é mesmo a rafeiragem, têm muitas defesas, resultam de muitos cruzamentos. Misture-se o ângelo com o miguel (o correia e o relvas, quero eu dizer), misture-se a mistura anterior com o zé luís e o dias (arnault e loureiro), e misture-se a pomada assim obtida com o marco e a rute (o antónio e a marlene), e a misturada anterior com a cristina e a maya (a ferreira e a do tarot), e, no fim, tudo com o tony e o jorge (o carreira e o jesus) e vai chegar-se a um híbrido que tem genes deles todos.  É isto que foi escolhido para primeiro. Dali só se pode esperar o pior. E, como todos os rafeiros, tem uma resistência que só vista. Resiliência, é capaz ele de dizer. 

Mas o País é o que é, basta a gente ver os cartazes destas eleições. Parece coisa do azerbeijão de há 50 anos. Gente que parece uma caricatura. Vestem-se como não dá para acreditar. Fazem poses para a fotografia como nem a fingir. Escolhem slogans que são de gargalhada. Fazem conferências de imprensa hilariantes. Em grande número não passam de anedotas. Supostamente isto será o que de melhor há em cada terriola, escolhidos para serem os representantes do povo.

É deste tipo de gente que nascem os nossos representantes. Nomeadamente, é gente assim que, de vez em quando, se junta para escolher o secretário geral dos partidos. E nós depois votamos nesses secretários gerais ou presidentes. O que é se poderá esperar? Porcaria. Só sai porcaria.

É este o povo que temos? Ou o povo é melhor e aqueles que aparecem nos cartazes são personagens de filmes cómicos?

Uma desgraça, de qualquer maneira.

Por isso, meus amigos, para não me estar sempre a repetir e a mostrar o desgostada que ando com tanta rafeirice, e enquanto não acontece por aí uma chuva ácida que derreta a porcaria que parece ter ungido os políticos deste país, passo a palavra a outros.

Um homem e uma mulher. Eles que digam qualquer coisa que não tenha nada a ver com isto. Um testemunho sobre coisa nenhuma.

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Licencinha, pois.

E desculpem qualquer bocadinho de prosa mais licenciosa. Não ando com paciência para me censurar a mim própria, quanto mais aos outros.

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O vasto mundo oferecia-lhe uma infinidade de destinos possíveis, mas ele sentia-se bem na sua pele de batoteiro, de tecelão de fumos. Com o presente negado e o futuro deserto, voltou a fechar os olhos e a recapitular a vida, todo entregue a um desses balanços que, segundo os psicólogos, precedem as metamorfoses ou os esticanços de pernil.

A prisão? Já conhecia. A guerra? Ia conhecê-la. O exílio? Também por lá tinha passado. Era, portanto, um homem. admirou-se largamente de si próprio e agradeceu, no seu foro íntimo, a ovação delirante de um público invisível.

Assaltou-o uma melancolia desconhecida, talvez fome, e pensou que - se a tivesse - não se importaria de trocar a pomba do Espírito Santo por uma galinha. Abandonada a pose de anjo, levantou-se e partiu.




Eu quero é o seio de Deus, quero encontrar Abraão e me insinuar junto dele, até ele perder o juízo e me fazer um filho que terá muitas terras e ovelhas.
Emancipada eu não quero ser, quero ser é amada, feminina, de lindas mãos e boca de fruta, quero um vestido longo, um vestido branco de rendas e um cabelo macio, quero um colchão de penas, duas escravas negras muito limpas e quatro amantes: um músico, um padre, um lavrador e um marido.







Pensavam que tinham um pequeno poder - os jornalistas -, e interpretando como sinais de deferência os restos de temor ainda inspirados pela sua função, a maioria deles não viam que já ninguém os respeitava. 

Pior: tratavam-nos como animais de circo - maus e agressivos na medida do necessário, mas sempre à espera de festas no fim. As dentadas, os golpes das suas garras, eram efeitos para a galeria: visavam apenas a conservação do antigo prestígio. Gritos e risadas acolhiam por vezes essas facécias, mas no fundo os espectadores não se deixavam iludir: sabiam bem que havia domadores e que os rugidos das feras apenas denotavam uma domesticação extremamente conseguida. No público, só pouquíssima gente ainda não tinha dado pelo enredo: a missão dos jornalistas era fazer valer o pessoal político; os políticos, em troca, faziam viver os jornalistas, não sem os chamar à ordem de tempos a tempos, exigindo-lhes o mais elementar dos reconhecimentos...



Quero comer o mundo e ficar grávida, virar giganta com o nome de Frederica, pra se cutucar na minha barriga eu fredericar coisas e filhos cor amarela e roxa, fredericar frutas, água fresca, as pernas abertas, parindo. Por dentro faço mel como colmeias, põe tua língua no meu favo hexágono.




Contudo, o 'métier' do Palha d'Aço proporcionava-lhe de vez em quando algumas pequenas satisfações, já que as grandes nada tinham a ver com as ruas e as suas intrigas, mas com o sol na pele, o correr dos rios, o murmúrio do vento nas árvores, quando o mundo toma de súbito uma dimensão inesperada.


Não tens voto nem vintém e ris de um certo modo repetido, até hoje, menos que poucas vezes. Tocas violão como ninguém toca mal como você, mas fremes. As asas de teu nariz ficam vibrando quando você faz música. Por aí começo quando quero entender minha paixão. As bordas do teu nariz, pulsando como um radar. Teu paletó de veludo cobre teu braço peludo. Me abaixo para pôr no ouvido o teu relógio de pulso, o que bate é teu coração. Me abraça, José, me abraso. Ai, com você me caso.


No que ele pensava, enquanto mais um dia sem outro objectivo que o seu próprio suor, era em como realidade e plenitude são uma e a mesma coisa; o resto é sombras e esquizofrenia, a horrível inanidade da vida. 

Naquela época, ainda não suspeitava que as coisas más haveriam de ser um dia coisas boas, nem que as matrizes chocas e os tomates podres da mocidade que via fornicar pelos cantos andavam a gerar uma raça de garotelhos desgraçados, de ridículos bonecos das Caldas mais feios e informes do que caracóis, de cornudos e putanas a quem um queijo da serra embasbacava! Atravessando o Rossio a caminho da Boa-Hora, não sonhava sequer que ainda teria de falar com lampreias ou que as enguias e os pargos capatões se tornariam pretensiosos ao ponto de o quererem abolir.




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A fala do homem, a itálico, sempre ao lado de fotografias (de modelos masculinos) de Mario Testino, é extraída de 'Feriados nacionais' de Ernesto Sampaio.




Sobre o escritor transcrevo da wikipedia: Ernesto Sampaio (Lisboa, 10 de Dezembro de 1935 – Lisboa, 5 de Dezembro de 2001), poeta, tradutor, bibliotecário, jornalista, actor e professor do ensino secundário, foi um dos grandes teóricos e exegetas do surrealismo.
Apesar de pouco conhecido dos leitores, é um nome indispensável para o conhecimento das margens da literatura portuguesa contemporânea, ao lado de Mário Cesariny, Herberto Helder ou António Maria Lisboa. Como jornalista trabalhou nas redacções do «Diário de Notícias» e, de 1980 até à sua extinção, no vespertino «Diário de Lisboa». Por altura da sua morte, colaborava no suplemento «Mil Folhas», do «Público», onde exercia a função de crítico teatral. Foi tradutor de Artaud, Éluard, Breton, Péret, Arrabal, Ionesco, Thomas Bernhard, Arthur Adamov, Walter Benjamin, Oscar Wilde, Eliot, etc.
Era marido da actriz Fernanda Alves, a quem sobreviveu apenas um ano e cuja morte lhe inspirou o seu último livro Fernanda.

A fala da mulher, sempre ao lado de fotografias (de modelos femininos) de Guy Bourdin, é extraída de 'Solte os cachorros' de Adélia Prado.



Sobre a escritora transcrevo um excerto da wikipedia: Adélia Luzia Prado Freitas (Divinópolis, 13 de dezembro de 19351 ) é uma escritora brasileira. Seus textos retratam o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único.
Professora por formação, exerceu o magistério durante 24 anos, até que a carreira de escritora tornou-se a atividade central.
Em termos de literatura brasileira, o surgimento da escritora representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante, tendo-se em conta que Adélia incorpora os papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona-de-casa.

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Alguns dos meus livros em curso de leitura ou a caminho disso

[entre eles os dois acima referidos]

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E, por hoje, por aqui me fico.

Desejo-vos, meus caros Leitores, uma terça feira muito boa.