No post abaixo falei da comédia com que Portas presenteou os assistentes da conferência Lisbon summit 2015 que, como o próprio nome indica, decorreu em Cascais. Não fora o aprumado fatinho, quase diria que ele se imaginou a encenar uma rejubilante padeira de aljubarrota, largando espadeiradas verbais nos gregos, afirmando-se orgulhosamente português, muito melhor do que qualquer zorba pé de chinelo. And pay attention!
Mas, enfim, esse número é já a seguir e até mete um senhor que tira um peixinho dourado da boca.
Aqui, agora, a conversa é outra. Muito outra. Com vossa licença.
Ainda não vos contei. Uns dias estava cansada, noutros meteram-se assuntos de que me apeteceu falar, depois parecia que já não vinha a propósito. Foi passando. Mas ando com esta atravessada e acho que vou mesmo contar. Como aqui vos disse, estive de férias. Férias chamo-lhes eu mas incluiram o fim-de-semana e o feriado e pouco mais sobrou; mas tudo o que vá para além dos dois dias de fim-de-semana para mim já é uma festa.
Estávamos a precisar de descansar. De véspera ainda fomos para o campo, estar a ler à beira do calor aconchegante da salamandra é um daqueles suplementos de alma por que anseio quando estou com os pés na cidade e a cabeça in heaven. Depois, seguimos de lá para o Porto. Gosto de hotéis no inverno. Penso sempre que talvez fosse bom estar uns dias, talvez um mês inteiro num hotel junto ao mar, só a ler, a escrevinhar e a nadar na piscina aquecida.
Será que as pessoas que se dedicam à escrita conseguem ter tempo para ler ou, se o fizerem, depois não conseguem agarrar o seu fio de escrita? Tenho essa dúvida.
Talvez eu, se pudesse ter essas férias de sonho, fizesse o seguinte horário: acordava lá para as 9 e meia, pequeno almoço até às 10, caminhada na praia até às 11, leitura até às 13. Depois almoço e sesta com leitura pelo meio até às 16. Depois lanche na varanda e mais leitura. A seguir, então, tentativa de escrita. Provavelmente não me apeteceria e iria dar um passeio até às 19. Arranjava-me para o jantar. Chegava ao quarto lá para as 22. Começaria então a escrever e escreveria até à 1 da manhã. Ou seja, mesmo estando de férias, dificilmente conseguiria disciplinar-me para escrever de dia e dormir de noite.
Adiante. Quando eu começo a divergir e a enfiar outros assuntos na conversa é porque estou a enrolar. Hesito em prosseguir, é o que é.
Mas vá lá.
Na tarde do primeiro dia passeámos - mostrei-vos as fotografias. Era carnaval mas praticamente nenhuns sinais na rua. Uma ou outra criança fantasiada e pouco mais. A excepção foi um casal de mascarados venezianos que acenavam na montra de uma ourivesaria.
Estávamos a pensar jantar no hotel mas havia jantar temático, concurso de máscaras, e esse não é bem o nosso registo. Resolvemos então ir jantar no centro, uma coisa ligeira. Ainda passeámos a pé e depois regressámos ao hotel. Confettis, serpentinas na entrada, a festa já tinha começado. Cruzámo-nos com um casal, ele acho que sem nada, não me lembro, ela com uma mascarilha e qualquer coisa na cabeça, um penacho, talvez. Fui espreitar de longe o restaurante, vinha de lá música, risos. Seguimos para o quarto. Já tarde lembrei-me, e se fossemos até à piscina? O meu marido que não, que já devia estar fechada e que não sabia se já teríamos feito a digestão. Mas claro que sim, o jantar tinha sido leve, depois tínhamos andado a pé, e já tinha passado tempo mais que suficiente.
Vestimos o fato de banho, uma roupa confortável por cima e lá fomos. Adoro nadar. A piscina sem ninguém, as luzes quase apagadas. Melhor seria difícil. Mergulhei na água escura, deixei-me flutuar, deslizei, a água morna, suave.
Estávamos a pensar jantar no hotel mas havia jantar temático, concurso de máscaras, e esse não é bem o nosso registo. Resolvemos então ir jantar no centro, uma coisa ligeira. Ainda passeámos a pé e depois regressámos ao hotel. Confettis, serpentinas na entrada, a festa já tinha começado. Cruzámo-nos com um casal, ele acho que sem nada, não me lembro, ela com uma mascarilha e qualquer coisa na cabeça, um penacho, talvez. Fui espreitar de longe o restaurante, vinha de lá música, risos. Seguimos para o quarto. Já tarde lembrei-me, e se fossemos até à piscina? O meu marido que não, que já devia estar fechada e que não sabia se já teríamos feito a digestão. Mas claro que sim, o jantar tinha sido leve, depois tínhamos andado a pé, e já tinha passado tempo mais que suficiente.
Vestimos o fato de banho, uma roupa confortável por cima e lá fomos. Adoro nadar. A piscina sem ninguém, as luzes quase apagadas. Melhor seria difícil. Mergulhei na água escura, deixei-me flutuar, deslizei, a água morna, suave.
Depois fomos até ao jaccuzzi. Pusemo-lo em baixa pressão, apenas para se sentir a água borbulhante na pele, uma quente carícia. Encostei a cabeça pata trás, fechei os olhos. O meu marido chamou-me, vê lá se te deixas dormir.Mas, então, eis que ouvimos risos abafados vindos da porta. Para nosso espanto, três vultos requintadamente mascarados entravam no recinto da piscina. Devem ter-se escapado do concurso de máscaras mas a verdade é que pareciam saídos de um palácio veneziano. Não nos viram, estava escuro, o jacuzzi estava afastado e nós estávamos lá dentro.
Pensando que estavam sozinhos, falavam e riam com à vontade.
Não conseguimos perceber qual a sua nacionalidade, pareciam falar uma língua que nos era estranha (mas talvez fosse o som que não chegasse bem até nós). Eram duas mulheres, cortesãs, e um homem com cabeça de leão. Calados, assistíamos àquilo sem saber o que fazer: ou mantermo-nos calados e o mais possível enfiados na água ou falarmos alto para que percebessem a nossa presença. A verdade é que, talvez por termos sido apanhados de surpresa, talvez por estarmos expectantes, deixámo-nos ficar em silêncio.
Uma das mulheres começou a correr em redor do homem e ele, brincalhão, ameaçava atirá-la à água. Ela ria, fingia que o queria empurrar a ele, ele puxava-a e ameaçava pegá-la ao colo, ela dava gritinhos e corria. O meu marido disse: ainda vão os dois à água. A outra, mais alta, limitava-se a olhar.
Às tantas, essa que estava sossegada sentou-se numa espreguiçadeira e logo a outra, afoita, gaiata, lhe saltou para o colo, sentando-se sobre ela, de pernas abertas. Depois abraçou a outra, pareceu que a ia beijar mas acho que não, apenas se deixaram ficar rosto contra rosto. E logo a primeira se atirou para trás, deitando-se na espreguiçadeira e puxando para si e abraçando a que antes andava a brincar e que agora ali estava tão sossegada.
O homem, com ar de provocadora brincadeira, fez de conta que também se ia deitar por cima delas mas, pelo tom, percebemos que elas o rejeitavam. Lamentei ser míope. Não queria pôr-me de cabeça espetada e olhos franzidos tentando focar a cena mas, assim, vendo de raspão, não conseguia perceber os pormenores. O meu marido sorria com ar malicioso. Isto ainda vai dar molho, sussurrou.
O homem, com ar de provocadora brincadeira, fez de conta que também se ia deitar por cima delas mas, pelo tom, percebemos que elas o rejeitavam. Lamentei ser míope. Não queria pôr-me de cabeça espetada e olhos franzidos tentando focar a cena mas, assim, vendo de raspão, não conseguia perceber os pormenores. O meu marido sorria com ar malicioso. Isto ainda vai dar molho, sussurrou.
Para nosso espanto, a mais alta, que estava por baixo, deu meia volta agarrando a outra e, quase caindo ambas da espreguiçadeira, no meio de gargalhadas da mais baixa, rodou e pôs-se por cima desta. O homem ria e, aos poucos, foi-se aproximando, até que se baixou e enfiou uma das mãos por baixo das saias da que estava por cima. E ela deixou.
Então o homem pôs um joelho em terra e esticou um braço para levantar a saia dessa grandona (a pequena estava por baixo, mal se via sob a saia rodada da que estava por cima) e aí eu e o meu marido começámos a ficar atrapalhados, a brincadeira parecia estar a evoluir mais rapidamente do que teria sido suposto e o ficarmos ali começava a tornar-se comprometedor. Deslizei dentro do jaccuzzi e pus-me de costas para eles e assim fez o meu marido.
Os sons que vinham do lado deles foram-se progressivamente tornando abafados, um ou outro riso entrecortado e cavo, depois já não se riam, apenas se ouvia arfar, suspiros. Passado um bocado voltámos a ouvir vozes e o ruído das saias e percebemos que se estavam a levantar para sair. Virei-me ao de leve. Estavam sem máscaras. Para meu espanto, a mais alta era, afinal, um homem. Eram, de facto, dois homens e uma mulher. Levavam as máscaras na mão.
Acredito que eu estivesse de boca aberta, admirada, a tentar perceber o que se teria passado. O meu marido continuava de costas e disse-me em voz baixa: Vira-te. Não olhes.
Assim o quis fazer mas o estado de atordoamento não me permitiu a rapidez necessária. Então, para meu sobressalto, quando estavam perto da porta, o homem que estava vestido de mulher virou-se, pareceu que me piscava o olho e depois, rindo-se, fez-me adeus.
Acho que ainda não me refiz completamente. Mas, antes de vos contar isto, e apesar da hesitação, estive a procurar máscaras para mim e para o meu marido, para o ano que vem. Quando formos para a piscina, talvez possamos ir mascarados. Nunca se sabe.
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Acho que ainda não me refiz completamente. Mas, antes de vos contar isto, e apesar da hesitação, estive a procurar máscaras para mim e para o meu marido, para o ano que vem. Quando formos para a piscina, talvez possamos ir mascarados. Nunca se sabe.
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A canção é "The Last Waltz" dos A JIGSAW, a fantástica banda blues-folk portuguesa, sobre uma montagem de Filipe Lopes.
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Interrogação: o que acabei de escrever não é um conteúdo sexualmente explícito, pois não? É que se os malucos do blogger acharem que é corro o risco de, a partir de 23 de Março, o vedarem ao público conforme anúncio pespegado em todos os blogues. Isto está a ficar lindo.
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Relembro que isto não é nada quando comparado com a orgia palavrosa (e em inglês do mais aristocrático que há) de Paulo Portas. Sobre esse belo momento de comédia poderão ler o post já a seguir.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.
E divirtam-se à brava, é o que vos sugiro.
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