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sexta-feira, fevereiro 11, 2022

O que Kamila faz ao som do Bolero

 


Sei que sou lida por gente nova. Há pouco, para escrever isto, fui confirmar. Segundo as estatísticas do Blogger, 75% dos meus Leitores terão menos de 44 anos. Já agora, a maioria (cerca de 55%) são homens.

Mas, para o efeito do que vou dizer, o sexo tanto faz. A idade é que sim, faz a difereça. É que imagino que estes meus Leitores não façam nem ideia de quem é a Bo nem do sururu que por aí houve aquando do afamado 10, muito menos da cena do Bolero e de mais não sei o quê.

Para dizer a verdade nunca vi o dito filme. Sou visceralmente avessa a tudo o que é falado por toda a gente. Falava-se com ar de coisa tal como se falava da cena da manteiga do Último Tango ou da cadeira da Sylvia Kristel. Estava-se naturalmente no dealbar dos novos tempos e havia muito boa gente que se escandalizava com pouco.

Mas, imaginando que nada de transcendente teve lugar, pelo menos de forma explícita, o certo é que ficou a ideia de que algo de especial aconteceu ali ao som do Bolero. 

A propósito disso, do que pode acontecer ao som do Bolero, tenho que aqui abrir um parêntesis para inserir aquela expressão que, sabe-se lá porquê, viralizou: quem nunca...?

Mas isso agora não interessa para nada. O que interessa é que o Bolero é, na realidade, desafiador para a imaginação (de quem a tem), apela aos movimentos cadenciados e tem um timing muito ajustado a quem goste de se esmerar.

Não admira pois que inspire bailados que nos envolvem e nos transportam para momentos de sedução e intimidade. 

Sylvie Guillem, por exemplo, é extraordinária na interpretação do Bolero. Rodeada de admiradores, ela seduz um por um, cativando-os, prendendo-os aos seus movimentos sensuais.

Em tempos, eu gostava de ver a patinagem artística no gelo, especialmente nos Jogos Olímpicos ou campeonatos mundiais. Agora nunca sei quando e onde dá pelo que perco tudo. Mas soube que uma jovem de 15 anos, Kamila Valieva, talentosa, virtuosa, certamente inocente em relação a malícias e subentendidos, dançou primorosamente o Bolero, fez um salto quadruplo nunca antes visto e encantou todos quantos a viram.

Fui ver e, na realidade, ela desafia as leis da física. Não se percebe como consegue girar a tal velocidade, elevando-se no ar, rodopiando, girando e caindo de pé para continuar a deslizar. E sempre com uma leveza e graciosidade encantadoras. 

Numa das vezes cai mas, de imediato, se levanta e prossegue como se nada tivesse acontecido. E prossegue magistralmente. Contudo, no fim, faz beicinho, está triste, sente que não foi perfeita. Uma menina.

O pior são agora as suspeitas. Dizem que testou positivo a uma certa substância. Li que se trata de um medicamento que previne os ataques de angina (se bem percebo, a chamada angina de peito). Não me perguntem porque é que ela, a serem verdadeiras as suspeitas, tomará isso nem como é que um medicamento para uma questão cardíaca pode funcionar como um estimulante ou coisa que o valha. Nem sei quem é que, no caso de uma criança de 15 anos, decide o que ela toma ou deixa de tomar. Diria que seriam os pais. Mas os pais autorizariam uma filha, uma criança, a tomar medicamentos que a podem prejudicar quer a nível desportivo quer, sobretudo, a nível físico? E já nem falo no aspecto psicológico. 

E, pensando bem -- se isto do simbolismo vale alguma coisa --, se a minha filha, aos 15 anos, participasse nos Jogos Olímpicos, a mim não me agradaria que dançasse o Bolero. Com tantos milhares de hipóteses de músicas por que raio de carga de água logo haveria de dançar o Bolero...? Claro que o Bolero é o Bolero é o Bolero e é independente do que se pode fazer ao ouvi-lo mas, sabendo que a coreografia teria forçosamente alguma conotação sexual, eu acharia que se poderia muito bem esperar pelos 18 anos da miúda.

Mas, enfim, isto é uma idosa a falar. Acho que estou assim, a modos que mal disposta, por pensar que uma jovem tão fantástica -- com umas pernas esguias desta boa maneira, com uns braços que giram em volta do corpo, com uma capacidade de elevação e uma elegância tão superlativas, com uma vida tão promissora pela frente -- pode ver manchada a sua reputação e comprometida a sua carreira por lhe darem a tomar medicamentos proibidos.

Desejo que tudo não passe de um equívoco. 

Isto no dia em que soubemos que, por cá, um puto de 18 anos se preparava para causar um desgraça na escola. Soube na rádio, quando estava no carro à vinda para casa, à noite, e nem queria acreditar.

Nestas ocasiões as televisões são inundadas de espertos. Ainda não se sabe de nada e já eles sabem de tudo. Ouvi que se tratará de um puto tímido, introvertido e que consumia muitos videojogos de violência. Não vale a pena tecer considerações antes de haver certezas. O que sei, independentemente deste caso, é que deixar os putos entregues às PlayStations, a brincarem às guerras, aos ataques e a essas cenas virtuais que parecem verdadeiras e em que o seu cérebro, dúctil, se habitua às mortes e às múltiplas vidas que se podem comprar e em que as mortes não causam dor é daqueles erros que mais cedo ou mais tarde se pagam caros.

Mas, enfim, não me apetece escrever mais. Más notícias que envolvem crianças ou adolescentes deixam-me sem vontade de escrever.

Kamila Valieva Lands Historic Quadruple Jump At Only 15 Years Old | 2022 Winter Olympics



Já agora: Sylvie Guillem - Bolero


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Desejo-vos uma bela e happy friday
Alegria. Saúde. Ar puro e paz de espírito.

segunda-feira, agosto 30, 2021

Ménage à deux

 



Estamos tão formatados para ter coisas para fazer e para dar no duro que parece que não sabemos fazer outra coisa. Este domingo estivemos sozinhos in heaven. Dir-se-ia que seria normal que aproveitássemos para estar de perna estendida. Mas qual quê? 

Esta casa, já o contei, sendo grande, tem, contudo, falta de espaço para arrumação. Arquitectonicamente é interessante mas com poucas paredes onde se encostem móveis. Para arrumações temos uma casinha, lá fora, onde se guardam máquinas (a roçadora, a serra eléctrica, etc) e tintas e tabuleiros e trinchas e rolos, escadote, etc. Na casa há o que seria uma despensa mas que, na prática, funciona como arrecadação. Como a cozinha é ampla, é nos seus armários que guardo os produtos de alimentação. Só tem móveis baixos mas neles cabe o que é preciso. Portanto, na suposta despensa, numa parede tenho o tal móvel gigante, um multi-usos que os anteriores proprietários tinham na sala, e, na parede em frente, há uma estante de arrumação embutida. Nesta estão as caixas de ferramentas, produtos de limpeza, caixas com cenas, etc. Na parte de baixo, estão os sapatos e num outro separador também em baixo, vários garrafões de água para um just in case. 

No móvel havia de tudo: brinquedos, coisas da escola, sacos com indefinidos, vinhos, livros, roupas, bibelots, candeeiros, whatever. 

A divisão é estreita. Ao fundo, na parede onde está a janela (que raramente abrimos), está o aspirador, a tábua de passar a ferro e o ferro de engomar, algumas cadeiras de tipo realizador e outras de exterior e almofadas das espreguiçadeiras. Na parede oposta, a da porta, está um cabide de parede onde estão impermeáveis, sacos, chapéus de chuva. E, num canto, estão as vassouras, os baldes e as esfregonas. A babel da bagunça. Tão cheia estava que já tínhamos perdido o fio à meada.

Então, hoje o meu marido tirou praticamente tudo cá para fora. Apenas a zona das ferramentas lhe escapou. Diz que está bem assim, que encontra sempre o que quer. Eu acho que está a maior confusão. Nunca consigo encontrar o que quer que seja. Penso que deveria ter umas caixas grandes com compartimentos para poder ter as coisas organizadas por tipo e não, como está, tudo ao molho e fé em deus. Mas ele diz que não me meta no assunto e que não chateie. 

Mas, então, foi tirando coisas de todos aqueles compartimentos do móvel grande e de cima (porque estava até ao tecto). E eu, cá fora, ia triando. A quantidade e diversidade de coisas que saiu à cena é indescritível. Coisas que há muito julgava que se tinham perdido para sempre ali estavam. As coisas mais inenarráveis. Até um par de barbatanas e uma prancha de skimming. Não percebo. Vai-se encafuando e perde-se o rumo às coisas.

E tralha, tralha. Felizmente tínhamos cá um rolo de sacos pretos para o lixo. Fui enchendo. 

Apareceram mais uma porção de livros infantis e juvenis que eu não sabia onde andavam. Até livros meus, incluindo os da Berthe Bernage de que tanto gostei quando era miúda.

Os brinquedos e jogos estão agora todos na salinha de baixo da zona antiga da casa. Assim, é possível ver tudo e escolher o que se quer.

Temos ao fundo do corredor uma estante estreita de tamanho intermédio. Supostamente todos os livros infanto-juvenois estavam lá embora eu desde sempre me intrigasse por achar que deveriam faltar outros tantos. Mas como nunca os tinha contado e não fazia ideia de onde estavam os que achava que faltavam acabei por desistir de alimentar a dúvida. Apareceram. Como sobrava espaço nessa estante, tinha-se completado com livros de viagem e alguns de arquitectura que já não cabiam na zona deles. Agora estamos a pensar reorganizar algumas estantes, deixando esta apenas para livros para a maltinha jovem. Teremos é que arranjar sítio para os que de lá se tirarem.

E separámos alguns testes escolares ou trabalhos dos meus filhos que me pareceram com potencial interesse estimativo para que eles vejam se querem aproveitar alguma coisa. E brinquedos da minha filha para que ela decida se ficam, se vão fora.

E lavei alguns cortinados ou peças de vestuário que cheiravam a coisa guardada. E um vestido estampado de verão de que gostava muito e que acho que talvez sirva e fique bem à minha filha. É certo que o vestido era o 36 e que ela varia entre o 38 e o 40 mas pode ser que o 36 de antes seja o 38 de agora. Ela fica sempre surpreendida ao ver como eu cabia em roupinhas tão delgadinhas. Mas a vida é assim mesmo: as mulheres são como as árvores, o seu tronco vai ganhando espessura. 

Quanto ao resto -> lixo.

Sacos e sacos. Roupa para dar. Sacos com livros e cadernos para reciclar. E coisas para o lixo-lixo. O meu marido viu-se aflito para conseguir enfiar tudo no carro. E nunca mais aparecia de volta. Diz que esteve o tempo todo a separar os sacos pelos respectivos contentores.

Almoçámos às quatro da tarde.

Depois ainda pus uma cortina de casa de banho em lixívia, lavei uns tapetes, sei lá. E ele andou a desbastar a figueira e outros arbustos aqui em frente da janela da cozinha para que, ao estarmos aqui, tenhamos a sensação de que estamos em plena natureza. 
A janela é muito grande. Antes tinha umas cortinas de renda a meia altura. Agora achamos que preferimos a nudez do vidro que nos traz a visão integral do exterior. 
Sentámo-nos, entretanto, no sofá a descansar. Ele adormeceu logo. Eu não. Depois vimos dois episódios da Grace & Frankie.

Para o almoço limitámo-nos a restos (do peixe de ontem e de carne que trouxemos). Para o jantar, fiz ovos de tomatada que comi com pão pelo meio e que ele acompanhou com arroz.
E, com esta tomatada, acabei com os belos tomates do vizinho. Era bom que ele se lembrasse de cá voltar a pô-los à disposição. Mas, na volta, viu-me tão reticente em agarrá-los que agora se inibe. E isso será uma pena. Pode trazê-los à vontade que eu rapidamente lhes chamarei um figo.
Agora estive a fazer uma encomenda à ikea e, a seguir, adormeci. 

O meu marido há bocado perguntava: agora já está tudo ou ainda falta alguma coisa? Falta. Falta arrumar a parte de cima da escrivaninha. Está uma confusão desgraçada. Anos de crianças a mexerem e nós a fazer com que o tampo feche. Para encontrar alguma coisa é preciso muita destreza e equilibrismo. Uma coisa tipo mikado.

Se calhar, quando tivermos arrumado tudo, e ele desbastado mato e eu varrido tudo à volta da casa, vamos sentir-nos fatigados por já não termos nada que fazer. Mas, por enquanto, não descansamos enquanto não nos esfalfarmos a trabalhar.

Há explicação para isto? Estamos a ficar uns workaólicos da ménage? Ou what?

Será que não vou conseguir passar um dia de perna estendida...? Pergunto-me.

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Martha Argerich e o neto, David Chen, interpretam Laideronnette de Ravel. As maçãs são aqui mostradas por William Mullan

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.
Saúde. Alegria. E força nisso.

segunda-feira, setembro 21, 2020

Uma mulher poderosa encanta-me no dobrar de mais um dia em que tentei (mas não consegui) esfolar um rabo que está pendente e que não se compadece com as minhas beautiful flowers

 




Tenho cada vez mais para mim que se todos nós, colectivamente, fizermos um esforço para não perdermos tempo com tretas como as lágrimas do populista-achegado ou com outros pseudo-eventos ou com outras pseudo-pessoas-importantes mais depressa essa gentinha perderia protagonismo e melhor saúde mental todos teríamos. 

Cheguei aqui, agora, e todas as notícias internas me parecem treta. Pura treta. Não estou nem aí.

Mas, reconheço, também pode ser porque dias como o de hoje me deixam a deitar por fora.


Apesar de não ser nada de novo ou interessante, conto porque é que o meu dia me foi tão sobrecarregado: as idas à outra casa (eu para separar roupas para dar, outras para o lixo, outras para trazer, o meu marido com selecção de papeladas, projectos de arquitectura transactos, dossiers e dossiers de trabalhos em versões anteriores à definitiva, coisas assim) esgotam-me. Horas. Sacos e sacos e sacos. O meu marido também exausto. Tudo o que é trabalho pesado sobra para ele: carrega com sacalhões pesadíssimos, uns para os contentores da rua, outros para o carro. 

Mas, enfim, pelo menos já trouxe os meus casacos de malha, os meus blasers, as minhas calças. É que a prioridade tinham sido louças, coisas de cozinha, livros, bibelots, candeeiros, móveis essenciais. De roupa tinha trazido sobretudo a de verão, que era o que fazia falta. Mas o outono já aí está e eu já andava sem saber bem o que vestir. Mesmo aqui em casa, quando anoitece e esfria, eu olhava para o guarda-roupa sem saber bem a que deitar mão. E esta semana tenho compromissos presenciais que me exigem que as minhas toilettes anteriores saiam à cena. 

E depois há alguns fatos completos de que, embora já me estejam à justa, não quero desistir assim tão facilmente. Aquele elegantésimo e superlativo fato Armani que foi presente do meu marido, que conseguiu acertar com o meu tamanho e que, ousando à grande, sem que eu tivesse minimamente suspeitado de tal ousadia, conseguiu que me assentasse como uma luva -- esse tive que trazer, claro. Ou aqueloutro que comprei em Madrid depois de ter percorrido os costureiros da Serrano e de me ter posto nas mãos de uma bicha fantastique que adivinhava todos os meus gostos -- que conjunto mais lindo, aquele - quando fui a um casamento de sonho em Seteais, esse também teve que vir. Peças assim, intemporais. Não gosto de coisas tchanan...!, gaiteiras, espaventosas, datadas. Prefiro peças que não passam de moda. Ou seja, dessas, apesar de já me caberem à justa, não ia desfazer-me. E quem sabe, um dia destes, alguma das meninas da família não precisa de alguma destas fatiotas para uma ocasião especial?

No fim, quando já não aguentávamos mais -- cansados, desidratados, saturados -- e enquanto o meu marido andava abaixo e acima, ainda varri, passei com a esfregona, garanti que as casas de banho estavam impecáveis, que as luzes estavam apagadas. Fechei a porta e vim. Aquela casa, que era a minha casa de sonho até há pouco tempo, agora já pouco me diz. Quando viro as costas e fecho a porta, o que fica para trás é passado. Apesar de gostar de visitar as minhas memórias, a verdade é que parece que sou toda feita de futuro.

Como já era tarde, encomendámos uma pizza e, a caminho da casa nova, fomos buscá-la, a pizzaria já a fechar. 

Depois foi aquela frustração: o hall e o corredor da casa nova uma vez mais atafulhados de sacos, mais coisas para arrumar, eu já sem saber como distribuir as coisas. Na cozinha, algumas peças sem caberem onde faria mais sentido e, claro, a impaciência a ir ganhando terreno. Cansaço e fome à mistura é do pior que há.

Enquanto a pizza foi apanhar um aperto no forno, nós fomos tomar banho. E, com isto tudo, acabámos a almoçar às cinco da tarde. 

Não vejo a hora de esvaziar os armários todos, de trazer tudo e deixar a outra casa finalmente vazia para poder usufruir de tempos livres sem ter a necessidade de os anular, sempre a tratar de tudo o que há sempre para tratar. Até porque, quando for vendida, não pode lá ficar nada. O meu filho que, quando saíu de casa, não tece paciência para levar nada nem escolher o que era de guardar ou deitar fora, continua sem paciência para se atirar a isso. Dossiers da faculdade, livros, coisas de computador, sei lá o que para lá ainda há. Hoje, ao abrir gavetas do quarto da minha filha, dei com roupa interior dela. Não a deitou fora e eu não gosto de deitar fora coisas que não são minhas. Hoje aproveitei algumas peças. O resto, que estava ainda em bom estado, pus num saco também para dar. 

Na verdade a casa parece quase vazia mas, na verdade também, ainda com coisas que não acabam.

Bem.

Ah, e fiz o jantar em dose XL para dar para o almoço também de amanhã. 

E, finalmente, quando o sol estava de fugida, ainda fui para a espreguiçadeira ler mais um pouco. Uma bênção. Uma meia hora de descanso e bem-aventurança. 

Depois fiz telefonemas enquanto passeava para trás e para a frente no jardim, fotografando as flores que me trazem apaixonada. Tão lindas, tão perfeitas. Divindades silenciosas.

Mas tudo o que é bom não pode ser em grandes doses pelo que, de seguida, tive que entrar em casa para passar a ferro e sei lá mais o quê.

Portanto, como é óbvio, com este programa de festas, não quero cá saber de minudências e banalidades. E, assim sendo, para aqui tenho estado a ouvir música. Música poderosa, intérpretes poderosos. Em especial uma mulher poderosa. Poderosa em todos os sentidos. A destemida Yuja Wang mostra como se atira a tudo com uma energia que contagia. Mulheres poderosas e, ainda por elegantes e femininas, são uma graça. E um perigo.


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E nada mais a declarar. 

Quando voltei ao jardim já a noite vinha descendo. Lá em cima, entre o piar discreto das aves nocturnas, uma nesga de lua. Fotografei-a. Ainda não tinha reparado na lua desde que aqui vivo. Gostei. É uma boa companhia, boa como todas as companhias que são cheias de subtilezas.


Desejo-vos uma boa semana, com muitos momentos bons, com boas notícias. 
E que a saúde e a boa sorte vos acompanhem.

segunda-feira, agosto 05, 2019

A oradora-surpresa





Foi a oradora surpresa. Quando o anfitrião a apresentou, disse o seu nome e disse que era uma conceituada especialista na matéria. Depois de vários oradores homens, a audência, também maioritrariamente composta por homens, foi surpreendida por uma mulher que, ainda por cima, era bonita, elegante, moderna.

Já antes tinham ficado surpreendidos ficaram quando, no coffee break, a viram surgir, no jardim. Olhavam uns para os outros, tentando perceber se alguém a conhecia. Ninguém. Seria a oradora surpresa? 

Depois, enquanto ela falava em tom jovial, cheia de ironia e muito descontraída, brincando com os jargões da área, com as ditas buzzwords, com os hábitos de todos quantos a olhavam, via-se como estavam agradados, divertidos. E ela foi intercalando pequenos vídeos que tinham tudo a ver com o lado mais lúdico do que ali se tratava e nada a ver com aquilo a que toda aquela gente estava habituada.

Com aquele jeito feminino de pôr o cabelo para trás das orelhas, ela deixava ver os brincos de pérola, modernos e grandes, quase um toque de irreverência numa toilette que não se podia dizer que fosse completamente clássica, uns jeans e blaser escuro, blusa branca, saltos altos.

Como a sua intervenção foi junto à hora de almoço, tinha sido, naturalmente, convidada para se juntar aos demais participantes. Escusado será dizer que, no fim, houve inúmeras questões e que, ao sair da sala, estava rodeada de cavalheiros que colocavam questões e ofereciam cartões de visita. Ela desculpou-se, tinha-se esquecido de trazer os seus cartões, E brincou, dizendo que era curioso que na era das relações virtuais ainda se usassem os cartões de papel para as pessoas se apresentarem. Os senhores sorriram com alguma atrapalhação, notoriamente sentindo-se antiquados perante aquela mulher moderna.

Ficou na mesa dos mais importantes, à direita do mais importante e rodeada por várias gradações de importantes. Disse que estava com calor, disse que não levassem a mal que tirasse o casaco. Os senhores precipitaram-se a dizer que ora essa, que estivesse à vontade, que iam fazer o mesmo. E logo todos tiraram o casaco. A blusa dela era branca, simples, discreta, e, quando se inclinava, o decote deixava antever um fio de ouro, muito fino, quase invisível, com um finíssimo coração em filigrana que se escondia quando ela, femininamente, ajeitava a blusa. 

Todos a queriam servir. Todos lhe contavam coisas. Ela sorria e ouvia. De vez em quando fazia uma observação que os deixava surpreendidos ou contava algum episódio que os fazia ficarem parados a escutá-la com surpresa e interesse. De vez em quando, o inusitado das suas palavras, fazia soltar gargalhadas entre os restantes comensais. 

A meio do almoço, o interesse dela parecia estar sobretudo focado no senhor importante que estava ao meu lado. Fez uma ou outra pergunta de circunstância a que ele respondeu, encantado com o interesse dela. Mas logo os outros solicitavam o seu interesse e, para todos, ela tinha uma palavra, uma graça, um sorriso.

O que estava ao meu lado tentava, então, captar de novo a atenção dela. Numa das vezes ela fez uma observação sobre uns negócios em que ele andava envolvido, e de que tinha falado antes, que o fez ficar ainda mais agradado: 'Ah... quer-me cá parecer que sabe mais desse assunto do que quer dar a perceber... Conte lá o que é que sabe...' e ela, sorrindo, coquette, 'Ora, apenas o que se vai sabendo por aí, nada de mais...'. E ele, contente por ela saber e se interessar por esses assuntos, logo ali contou alguns aspectos mais picarescos. Mas foi sol de pouca dura pois todos queriam disputar a atenção dela.

No fim do almoço, ela despediu-se agradecendo a simpatia do convite, o bom almoço e a boa companhia. O senhor mais importante tinha um presente que ela agradeceu.

Quando se afastou para ir para o carro, os senhores que se preparavam para ir para a sala onde decorreriam as apresentações da parte da tarde, ficaram a olhá-la. Apanhou o cabelo, pôs uns óculos escuros (e só eu devo ter reparado que não eram os mesmos que trazia à chegada). E, sorridente, caminhou com segurança e elegância apesar do piso ser de calçada e de estar de saltos bem altos. 


Ao reentrarmos para a sala, só se lhe ouviam elogios. Alguns senhores, como quem não quer a coisa, perguntaram-me se eu lhes poderia ceder o contacto dela. Disse que lhe pediria autorização e que, consoante a resposta dela, logo daria ou não. Apenas abri uma excepção com o senhor que, ao almoço, estava sentado ao meu lado. A esse dei logo. Sobre os outros, não a macei.

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(Talvez continue)

sexta-feira, agosto 03, 2018

Bibliotecas onde se sente a pátria portuguesa





Por algum motivo de que agora não me lembro bem -- mas que tenho ideia que tem a ver com a longa noite fascista -- a palavra pátria não tem conotações lá muito boas. Ou, então, isso é fruto da minha imaginação. Pode ser.

Mas eu gosto do conceito pátria. Gosta da minha pátria. Em especial, identifico-me com aquela coisa de a minha pátria ser a língua portuguesa. Essa ideia é daquelas bem paridas: ouvindo isso a gente quase sente vontade de jurar a pés juntos que, pela língua portuguesa, morrerria.

E depois há aqueloutro território: o dos livros. Podia fazer uma casa só com livros: as paredes feitas de livros, uma cama, um banco, uma mesa. Livros. Um caminho feito de livros. Podia viver no meio de livros.

Não sei se uma pessoa se revela através dos livros que possui. Admito que sim.


Já vos contei que, de vez em quando, não tendo especial má impressão de uma pessoa, quase fico a desprezá-la quando me conta, deliciada, a porcaria de livro que anda a ler? A sério. Disfarço, claro. Mas vem uma tal onda de rejeição cá de dentro...

Ou música. Por exemplo, não tinha muito má ideia de uma certa criatura. No outro dia fiz uma viagem com ele. Às tantas, resolve pôr a sua play list. Fogo... Lá uma ou outra que se aproveitava mas, a maioria, uma basbaquice, uma pimbice... E o tipo todo contente. E eu, por dentro, 'és cá um belo basbaque...'

Bem. Falava eu de livros.

A ver se nas férias de verão convenço o meu marido a ir ao Ikea comprar uma estante alta e a levar a estante pequena para o hall dos quartos. Ando nesta luta há séculos... e ele recusa-se. Quer o hall desatranvacado e não quer ir ao Ikea. Mas já não tenho onde pôr os livros. Por exemplo, agora tive cá, até há pouco, três meninos. Os pais foram comprar bicicletas e deixaram-nos cá. As crianças queriam sentar-se no cadeiraozinho pequeno e tiveram que estar a tirar-lhe os livros de cima. Felizmente não quiseram ir para um sofá para onde gostavam de ir e que agora está soterrado por livros. Acho que tantos os livros que nem perceberam que, por debaixo, estava o sofá que era de estimação.


Claro que, se vier a conquistar a estante nova, já sei que vou ter a mesma tentação de sempre: repovoar de novo toda a biblioteca. Enfim, repovoar mais ou menos. Tirar tudo, tudo, para fora e voltar a reordenar, redefinir critérios, arrumar direitinho, à larga, deixar ficar espaço livre para acomodar novos.

Uma coisa que, um dia que tenha tempo para mim, hei-de fazer é andar a conhecer bibliotecas, ver qual a organização, espiar os critérios, deleitar-me com obrasfantásticas, respirar o cheiro bom dos livros.

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Estas três que aqui partilho convosco são três das mais belas bibliotecas do mundo. Conheço as duas situadas em Portugal e confirmo que são especiais, belíssimas. Poderão ver outras em The world's most beautiful libraries – in pictures, artigo do The Guardian -- baseado em In a new Taschen book, the Italian photographer Massimo Listri travels around the world to some of the oldest libraries, revealing a treasure trove of unique and imaginative architecture

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E porque de palavras se fazem os livros e de livros as bibliotecas, aqui vos deixo algumas belas palavras ditas por quem as tão bem sabe dizer e escritas por quem as sabia arrancar da terra e de dentro do corpo


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A 1ª fotografia é da Biblioteca do Covento de Mafra

A 2ª fotografia é o Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro

A 3ª é a Biblioteca Joanina de Coimbra

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Desejo-vos um belo dia

segunda-feira, maio 16, 2016

Escrever




Ando a escrever uma história e isso é coisa que temo. Já não é a primeira vez. Já aqui escrevi umas quatro ou cinco histórias, nem sei.

Têm sempre mulheres. Depois de acabar, eu continuo com algumas elas ao meu lado (Lídia, Eva, Ana). Claro que também há homens mas parece que nunca são tão fortes como elas (Afonso, Duarte ou Tomás, por exemplo; deste último lembro-me tanto como se fosse uma pessoa de verdade).

Outras vezes comecei a escrever uma mas, a pressão do dia a dia -- nomeadamente alguma revolta a propósito de desmandos laparianos ou coisas quejandas -- fez-me preferir comentar a actualidade; e a descontinuidade introduzida na história fez-me perder a embalagem: fiquei pelo caminho.

De resto, confesso que, quando começo uma história, logo me indisponho comigo mesma.
Não gosto de obrigações para além das que garantem a minha subsistência e o facto de pensar que devo dar continuidade ao que escrevi já me contraria. 
Sento-me aqui a pensar que, para não me deitar de madrugada, mais valia deitar mãos à obra mas a aversão aos deveres auto-impostos logo me leva para descaminhos: ponho-me a ver vídeos, a ler poemas, a ver outros blogues, a olhar para a televisão -- se eu gostasse da palavra, diria que procrastino; assim não digo, palavra mais difícil de dizer. 

Mas o pior nem é isso: é que, fosse eu prudente, só me aventurava nisto quando tivesse já escritos pelo menos um ou dois capítulos para a frente. Mas a prudência é virtude de que nasci desapossada. Portanto, a cada dia em que me dá para escrever, nunca sei o que vai sair. Quando acabo, acho que talvez aquilo que escrevi tenha feito algum sentido. Mas não sei, quando acabo já estou quase a dormir. O que sei é que o espírito dos personagens parece que toma conta de mim e calha acabar de escrever em lágrimas ou tomada pela inquietação. Mas, no dia seguinte, em background, arrasta-se em mim uma inquietação: e agora como dar seguimento à coisa? porque me fui meter por ali sem saber como sair de lá? Não quero que seja absolutamente óbvio, não quero que seja lamechas nem que que seja inverosímil. A cada dia penso, então, atalhar: se calhar podia acabar já assim e cada um que fique a imaginar o que poderia acontecer a seguir. Mas se me aborrece sair de um filme em que parece que a coisa acaba antes do desfecho, que jeito teria eu fazer o mesmo?

Por isso, venço a minha disparatada rebeldia, obrigo-me a entregar os dedos ao teclado e... seja o que for.

Hoje, por exemplo, sinto como que um fervilhar em brando, como que uma aragem a soprar num campo de espigas e papoilas, ou seja (metáforas bucólicas à parte), vontade de ir descobrir o que vai acontecer a seguir à Clara e ao Pedro. Mas, porque publiquei o último episódio apenas este domingo de tarde, não me parece fazer sentido avançar já com outro. 

Por isso, se calhar hoje não vai ser. Logo vejo. Mas acho melhor não. E, para além disso, depois de uma noite de amor como a que eles acabaram de viver, o que fazer para não lhes estragar o clima de romance?

Bem. Já vejo.
(Estão a ver como isto é chato? Estes dilemas? Não era melhor eu não me meter nestas cavalgadas? Limitar-me a estar sossegada a ver os Globos de Ouro?)
Sei muito bem que não sou escritora. Por vezes, alimento o sonho de que um dia terei tempo para o tentar.
Gostava de ter uma sala grande, quase vazia, com uma mesa de madeira, uma mesa comprida, enorme. Teria livros nas pontas para me deixar um espaço amplo para eu escrever. Talvez tivesse, junto a mim, uma pequena jarra redonda, baixa, com flores frescas. Teria uma aparelhagem pequenina, ao pé dos livros, para poder ir ouvindo música. Teria uma janela grande ou portadas de vidro a dar para um bosque. Se calhar, então, seria uma cabana num bosque. Tenho esta atracção pelos bosques. As árvores, o canto dos pássaros, os cheiros da terra, os seres silenciosos que os habitam. 
Quando penso em ter condições para escrever, aquilo em que penso logo é no lugar onde a coisa teria lugar. 
Mas, embora nessa sala eu pudesse estar sozinha, não é forçoso que o estivesse. Aliás, na casa não poderia estar sozinha. Não gosto de estar sozinha. 
Parece que só depois de ter um ambiente assim é que eu conseguiria que o pensamento e a emoção se alinhassem com as mãos para que as palavras tivessem alguma coisa a dizer. Soa disparatado, eu sei. E soa porque, com certeza, é. Os escritores não devem padecer destes pensamentos absurdos.
Mas não sou escritora. Nem sei se sou escrevinhadora. Sei apenas que gosto de escrever palavras que saem sabe-se lá de onde.


Não percebo como funciono. Não consigo descrever o que se passa comigo quando escrevo. Provavelmente passa-se o mesmo que se passa com toda a gente que escreve. Mas, agora que o escrevi, acho que não: não há 'uma' (única) maneira de escrever. Deve haver quem se ponha a magicar, quem arquitecte o texto todo antes de escrever, quem escreva em papel e depois o passe para computador, quem faça um apanhado de tópicos e os estude para ter a certeza que não comete erros de palmatória. Eu não. Nada. Parece que a minha cabeça só se liga aos meus dedos no preciso instante em que os dedos começam a passear pelo teclado. 
Gosto de ler as entrevistas do Paris Review. Claro que não se tira nenhuma conclusão nem é suposto tirá-las. Uns escrevem de pé, outros sentados, uns sofrem, outros gozam, uns lapidam a escrita até luzir como um diamante, outros é como se fizessem pão, vai ao forno e logo se vê como sai. 
Eu, se um dia me meter a tentar escrever, não vai ser para sofrer, para mim é bom o que se faz com prazer -- senão não vale a pena. 
Tenho este meu lado epicurista: flanar pela vida, olhando a beleza que está por todo o lado, aprendendo com aqueles que me abrem portas para novos mundos, deixar-me emocionar com os afectos, com a superação que vejo noutros, entusiasmar-me com a procura e as  conquistas de quem não se aquieta perante a vida. Coisas assim. Por isso, se um dia me der para escrever, terá de ser de maneira a que não me prive do que gosto nem me retire o prazer de, a cada momento, sentir a alegria de continuar a aventurar-me por novos caminhos.
Mas, para concluir, se percebo pouco do que se passa à minha volta, menos ainda percebo o que se passa dentro de mim. Por isso, quando às vezes me sento aqui a escrever e, do nada, me aparecem palavras que falam de gente que não conheço, eu fico sem perceber o que se está a passar nem porque é que, aos poucos, começo a afeiçoar-me às pessoas que invento. E, então, por tudo isto, eu fico sem saber se germina em mim a semente da escrita ou a da loucura.

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No entanto, a bem da verdade vos digo que, para mim, o melhor mesmo é não pensar muito nestas coisas, deixar acontecer. Como camadas que a vida nos vai revelando, deixar que se aproximem de nós as palavras, as ondas de luz e de música, as emoções, os afectos, os inesperados instantes que para nós estão guardados. Vivamos a maravilhosa e surpreendente dança que é a vida. É isso. E chega.

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As fotografias foram feitas este domingo de manhã e, é verdade, a câmara fotográfica também parece ser uma extensão de mim.

Nina Simone, lá em cima, interpreta Mr. Bojangles (e o vídeo mostra uns Whirling Dervishes).

Sylvie Guillem, cá em baixo, dança o Bolero de Ravel.

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Caso não tenham lido a A primeira noite de amor -- e estejam numa de saber de intimidades alheias - é só descer.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. 
Sejam felizes.


segunda-feira, agosto 31, 2015

Miró à beira-mar


De manhã fui caminhar na praia. Para mim, cada vez mais, estar na praia é sinónimo de caminhar junto à orla do mar. Excepto quando em grupo, que aí é certo que terei que pousar, a praia para mim é lonjura, andar na areia molhada, sentir o espraiar das ondas, andar, andar.

Ao longo da caminhada vou reparando nas pessoas, vou reparando no que fazem, vou lamentando não poder fotografá-las, tantas tatuagens, os corpos todos pintados, e corpos ginasticados, o corpo como um instrumento passivo da vaidade, ou corpos vencidos pela vida, ou corpos nus, lisos, sem pêlos, quase estranhos, ou corpos torrados pelo sol, ou gente solitária, caminhando também ou simplesmente olhando o mar, ou casais, ou encontros clandestinos esgueirando-se pelas dunas. Disfarço, finjo que não reparo. E, assim, vou deixando que o olhar vá ao longo do horizonte, para longe, longe, o areal só uma linha clara ao longe, perdido entre a neblina do mar, ao longe.

Depois, à vinda, já mais cansada, venho mais devagar, e vou atentando nos despojos do mar - conchas, penas, limos, cores suaves, lavadas - e, então, começo a fotografar estas pequenas composições que as águas aleatoriamente desenham no areal.


Há muitos, muitos anos, vi uma exposição de Miró. Por essa altura ainda eu sentia alguma estranheza perante o que não me era evidente. Olhava as telas pintadas com pontos de cor, sinais inocentes, incompreensíveis signos, pequenos nadas, e interrogava-me sobre o sentido de tanto inusitado. Não sabia ainda que o que eu via reflectia o desconhecimento que eu, então, tinha sobre o não-explicado de que a vida é feita.

Com o tempo, fui sentindo que era do estranho e inesperado que o meu gosto se ia aproximando. Aos poucos, o não-explícito passou a ser o que o meu olhar e a minha mente melhor reconhecia.

Depois dessa vez, várias outras vi Miró.

Uma estrela azul, um sol branco, uma lua laranja, uma bailarina, uma nuvem com coração, um sonho a voar, uma chama, uma sombra, um olhar aberto, um avião perdido, um pássaro nunca visto.

Deixei de estranhar porque há muito percebi que o melhor da vida é o que não tem explicação. Há muito que aprendi que o maior prazer vem daquilo que o pensamento não tenta domesticar.

O efémero, o aleatório, o imprevisto, o inexplicável - é daí que hoje vem o que verdadeiramente me emociona.



Assim as pequenas composições que o mar deixou na orla da água e que eu fotografei para vos mostrar.









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Jeux d'eau


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E, aceitem o meu convite e desçam, por favor, até ao Tejo.

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sábado, agosto 29, 2015

De que fogem estas hordas de imigrantes, de refugiados, de invasores esfaimados e aflitos que um dia poderemos ter à nossa porta?


Há dias em que tenho uma em mente mas que me custa tanto que faço de tudo para a evitar. Sei que não conseguirei o tom adequado, sei que posso parecer fútil, leviana, sei que há coisas para as quais não há palavras. Por isso, este é o quarto post de hoje e já andei pelo sex-appeal, pelo humor, pela poesia, pelo amor - tudo para resolver se fujo ao assunto ou se tento abordá-lo. E aqui estou a hesitar. Não sei como mostrar o que penso sem correr o risco de, emocionada que estou, me mostrar lamechas; também não quero parecer panfletária. Ou vulgar.

E, no entanto, já falei algumas vezes disto. Vou falando. Mas acho que me fico sempre pela rama.

Centenas de milhares de pessoas de todas as idades, condições sociais e raças e de ambos os sexos têm vindo a deixar as suas casas e, correndo todos os riscos e sofrendo todos os horrores possíveis e imaginários, põem-se a caminho, morrendo, deixando familiares mortos para trás, em busca de um mundo em que possam viver com dignidade e esperança. Para isso, entregando todas as suas economias e pertences, colocam-se nas mãos de contrabandistas e bandidos e, procurando a Europa - que julgam ser um bom destino - metem-se dentro de barcos ou camiões onde muitos nem respirar podem, ou põem-se a caminho, crianças e velhos ao colo. Imagens que não parecem deste mundo chegam-nos a casa dia após dia, uma sucessão infindável de horrores. O sofrimento daquela gente parece não ter fim. Todos os dias mais dezenas ou centenas de mortos. Afogados, asfixiados. E as estradas cheias, cheias de gente. E comboios pejados de gente assustada, suja, exausta. E acampamentos a deitar por fora. E muros que se erguem. E arame farpado que dilacera os corpos e as almas. 

Andou a civilização a fazer-se, o mundo a desenvolver-se, a ciência e a tecnologia a superarem-se para que tantas centenas de milhares de pessoas passem por isto, como animais fugindo do fogo, como cães esfomeados percorrendo as ruas.

A cambada que ajudou a desestabilizar os países de onde esta gente foge não é agora capaz de ir para lá garantir um mínimo de ordem de modo a que as pessoas não tenham que fugir espavoridas, deixando as raízes para trás, correndo riscos de vida, pondo a vida dos filhos em risco. Ficam-se pelas palavras balofas e de circunstância. Quando foi para decidir ou apoiar as guerras ou os movimentos que provocaram isto, souberam tomar decisões. Agora que o inferno está lá instalado, lavam as mãos e entretêm o mundo com pífias considerações. Um asco de gente.

Não é com conversa que alguma coisa se fará: é indo para lá. Já lá deveriam estar tropas, Capacetes Azuis, não sei - gente que ajude a pôr cobro ao desatino e à crueldade sem rei nem roque que por lá impera.

Não sou capaz de dizer mais que isto porque me faltam as palavras e porque o peito se me enche de angústia. Vou, pois, ficar-me apenas pelas imagens.


De que foge esta gente?



Un drama con rostro

En la imagen, una mujer mira cómo la policía bloquea a un grupo de refugiados que hacen la ruta Macedonia-Grecia. El primero de estos países declaró el Estado de Emergencia el 20 de agosto, abrumado por el número de inmigrantes que llegaban a su país, y movilizó a su Ejército para que vigilara la frontera.


(ROBERT ATANASOVSKI (AFP))


Jugarse la vida

En la imagen, un inmigrante escondido debajo de un tren intenta colarse en él para dirigirse a Serbia, en la estación de Gevgelija (Macedonia). En los últimos días, más de 120 cadáveres de inmigrantes han sido descubiertos en vehículos que se dirigían a Europa y en los que los refugiados viajaban escondidos.


(BORIS GRDANOSKI (AP))


Miles de niños entre los refugiados

Inmigrantes sirios duermen en un parque de Belgrado, Serbia. Son más de 10.000 los refugiados que han cruzado con sus bebés y niños pequeños la frontera de Serbia en los últimos días.


(MARKO DROBNJAKOVIC (AP))

Estado de emergencia

La policía macedonia trata de bloquear a los inmigrantes que intentan entrar en su país. Alrededor de 39.000 personas, la mayoría de origen sirio, han sido registradas a su paso por Macedonia en el último mes. La cantidad abrumó al Gobierno macedonio, que declaró el Estado de emergencia.


(VLATKO PERKOVSKI (AP))


El miedo como compañero de viaje

Reacción de un inmigrante que sostiene a un niño mientras es detenido por las autoridades de Macedonia. Alemania espera este año la llegada de 800.000 refugiados a Europa, “el mayor reto al que se enfrenta nuestro país desde la unificación”, advirtió Sigmar Gabriel, líder socialdemócrata, partido en coalición con los conservadores de Ángela Merkel.


(DARKO VOJINOVIC (AP))


Un hogar en cualquier lugar

Rashina viene de Kobani, Siria. Tiene cuatro años y ha bajado por medio mundo para llegar hasta Europa. En la imagen, descansa en una cama improvisada mientras espera un tren en la frontera macedonia que les lleve a otros puntos de Europa en busca de un lugar donde establecerse.


(OGNEN TEOFILOVSKI (REUTERS))



Fogem de situações como estas, na Síria 




Uma criança síria (Hudea, 4 anos) teria levantado as mãos ao confundir uma câmara fotográfica com uma arma.

(Foto: Osman Sargili)


Homem sírio chora enquanto segura o corpo de seu filho perto de Dar El Shifa hospital em Aleppo , Síria. O menino foi morto pelo exército sírio.

(Foto: Manu Brabo)


Uma mulher ferida, ainda em choque, deixa o hospital Dar El Shifa em Aleppo, Síria em 20 de setembro de 2012, após um bombardeio da artilharia das forças do governo sírio na cidade, no norte da Síria.

(Foto: Manu Brabo)


Uma mulher chamada Aida chora enquanto se recupera de ferimentos graves após o exército sírio bombardear sua casa em Idlib, norte da Síria em 10 de março de 2012. O marido de Aida e seus dois filhos foram mortos no ataque.

(Foto: Rodrigo Abd)


Um menino chamado Ahmed lamenta a morte do pai (Abdulaziz Abu Ahmed Khrer, que foi morto por um atirador de elite do exército sírio) durante seu funeral em Ibid, norte da Síria.

(Foto: Rodrigo Abd)
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A favor da Síria, pela mão atenta e amorosa de Banksy


[Graffiti artist Banksy has reworked his Young Girl piece for the With Syria campaign, to mark three years since the crisis began. The campaign is a coalition of 115 humanitarian and human rights groups from 24 countries, including Save the Children, Oxfam and Amnesty International. According to the coalition their aim is to ensure this is the last anniversary of the Syrian crisis. At the Zaatari camp in Jordan 100 young refugees lit candle and released red balloons, inspired by Banksy to carry messages of hope to Syrians. Report by Genelle Aldred.]

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Obtive as primeiras fotografias, as que têm legenda em espanhol, no El País.
Obtive as últimas fotografias, da Síria, na Obvious

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Por indicação do Leitor ECD em comentário aqui abaixo fui ler e, de tal forma, me revejo no que ali está escrito que me permito transcrever o artigo quase na íntegra.

Os campos, novamente


ANTÓNIO GUERREIRO in Público


Os campos, sob a forma de centros e lugares de retenção, voltaram à Europa e disseminaram-se por toda a fronteira do Sul da União Europeia. São espaços geridos pela polícia, subtraídos à ordem jurídica normal, que funcionam como diques para reter o enorme caudal dos “fluxos migratórios”. A situação está fora de controlo e assemelha-se àquela “explosão” que se deu no coração do continente europeu entre as duas guerras mundiais, assim descrita por Hannah Arendt em O Imperialismo, num capítulo em que a filósofa analisa o declínio do Estado-nação e o fim dos direitos do homem: “[As guerras civis] desencadearam a emigração de grupos que, menos felizes do que os seus predecessores das guerras de religião, não foram acolhidos em nenhum sítio. Tendo fugido da sua pátria, viram-se sem pátria; tendo abandonado o seu Estado, tornaram-se apátridas; tendo sido privados dos direitos que a sua humanidade lhes conferia, ficaram desprovidos de direitos”. E num artigo de 1943, We Refugees, escrito para um jornal judeu de língua inglesa, Arendt terminava em tom de exaltação, como se tivesse acabado de identificar um novo sujeito da história: “Os refugiados representam a vanguarda dos seus povos”. Mas o refugiado que Arendt definiu a partir do modelo do apátrida — produto de uma dissociação entre as fronteiras administrativas do Estado e a realidade política dos homens — implicava, como o nome indica, a ideia de refúgio, tanto geográfico como jurídico: os refugiados judeus que, no início da Segunda Guerra Mundial, conseguiram embarcar para a América tinham um destino que os orientava à partida e contavam com a vontade política de uma protecção. Os actuais “migrantes” que se lançam ao mar para alcançarem o território europeu são, pura e simplesmente, “deslocados”, fogem da guerra e da miséria, na esperança de conseguirem encontrar um lugar, uma direcção, um sentido. Verdadeiros refugiados na Europa, no sentido jurídico da Convenção de Genebra de 1951, são uma ínfima parte deste fluxo de forçados migrantes que, mal entram em território europeu, são ainda menos do que párias: são uma massa incontrolada de indesejáveis estrangeiros, assaltantes contra os quais a fortaleza europeia não consegue erguer muros eficazes nem fazer valer as suas armas de dissuasão. À nossa frente, está a passar-se algo que não queremos olhar: o regresso a formas de brutalização e barbárie, a instauração de espaços anómicos onde, novamente, “tudo é possível”. Sem conseguirmos vislumbrar soluções para o problema, desistimos também de uma vigilância capaz de nos lançar este alerta: os campos que regressaram à Europa, em grande número e por todo o lado, muito embora não sejam regidos pelo regime de excepção que presidiu à tanatopolítica — à política da morte — dos regimes totalitários, não nos dão garantias de que nenhum descarrilamento terá lugar e nenhuma inclinação criminosa latente poderá seguir o seu curso. Não podemos hoje ignorar que há uma lógica terrível imanente ao campo como figura: ele acaba por desenvolver uma zona cinzenta onde todas as situações-limite, à margem de todos os direitos, se tornam possíveis.  (...)

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Permitam que vos informe que a seguir há mais três posts, leves, levezinhos
(uma tentativa de aliviar a consciência)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom sábado.

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